sábado, 15 de julho de 2023



15/07/2023 - 16h12min
Fabrício Carpinejar

Cadeados abertos 

Você pode até se apaixonar no encontro inicial, mas amar não. Não acredito em amor à primeira vista. Ele é parcelado em incontáveis vezes. Você não ama alguém só de olhar. Você passa a amar fechando os olhos, na revisitação da saudade.

Amor exige intimidade, espaço interior. É um encantamento que surge da lealdade, da antiguidade do laço. É um magnetismo por tempo de convivência. Você pode até se apaixonar no encontro inicial, mas amar não. Amar é mérito. Amor é reconhecimento, amor é admiração, amor é conjunto da obra, amor é o lucro na soma de defeitos e virtudes do outro.

Por outro ângulo, confio que pode existir amizade à primeira vista. Foi assim com meus melhores amigos: Zé, Dudu, Mário, Vinicius, Diogo, Bruno, Nilson…

É uma atração do caráter, dos princípios, do modo de vida. Você vê de cara que a pessoa presta. Ela melhora as suas ideias, a sua percepção do mundo, valoriza a sua presença desde o aperto fundador de mãos.

Você não demora quase nada para reconhecer uma alma igual a sua, que sofreu a mesma estatura de experiências. Você tem consciência de que ela agrega valor ao seu cotidiano. Mal se conheceram e já conversam com uma cumplicidade inexplicável. Há uma confiança estabelecida logo no início do contato. 

Estão rindo pelas afinidades, estão se emocionando pelas dores parecidas, estão refletindo sobre projetos em comum. Você não demora quase nada para reconhecer uma alma igual a sua, que sofreu a mesma estatura de experiências. Basta virar a chave na ignição das palavras, e o motor das semelhanças liga imediatamente.

Tem certeza de que se verão sempre, tanto que o nome é salvo na hora na agenda do celular. A empatia chega antes da aparência.

Não sabe ainda quem é exatamente o outro em pormenores, mas já sente que aquela companhia é fundamental para enfrentar as provações do trabalho e da família. Ganhou um novo aliado, fortaleceu o seu exército contra a infelicidade. Vem uma certeza profética da longevidade da lealdade.

Você está amando um amigo à primeira vista. Como se voltasse à infância. Como se aquele desconhecido perguntasse a partir do alambrado de um campinho de futebol se cabe mais um na partida e você o colocasse em seu time, para jogar ao seu lado.

São desígnios do tempo, mensageiros postos em nosso caminho para tornar a nossa existência mais suportável. O amigo amado à primeira vista realiza a proeza da adesão, faz você se sentir realmente à vontade.

A impressão é que o conhece há muito tempo, que os defeitos dele não apresentam nenhuma gravidade de comportamento, que não vão prejudicar a estima mútua. Não nos esforçamos para dizer o que pensamos, não há sacrifício para sermos simpáticos, não precisamos fingir coisa alguma, dispensamos a bajulação adotada habitualmente para garantir aprovação.

Suas piadas fazem sentido, suas ironias são partilhadas, seus silêncios são respeitados. É um irmão perdido, devolvido pelo destino. As confissões tradicionalmente ásperas de repente acontecem com extrema fluência.

E lá estaremos falando de algo que nunca comentamos com ninguém. Os segredos não têm mais cadeados.



15/07/2023 - 05h00min
Juliana Bublitz

O que falta ao mundo é elegância

Não se trata de dinheiro nem de luxo, mas de saber se colocar no lugar do outro e agir com delicadeza

Se elegante é, também, saber estender a mão

O que falta ao mundo é elegância. Não estou falando de roupas caras - “de marca”, como se diz lá no Interior - e, muito menos, dos luxos, exageros e extravagâncias bizarras que povoam as redes sociais como se fossem ideais de vida. Nada mais deselegante. Não, não se trata de dinheiro nem de ostentação.

Elegância - a verdadeira - não se compra. Em entrevista a Tatá Werneck, o ator Tony Ramos definiu o conceito em três palavras: respeitar o próximo.

— As pessoas confundem elegância com a melhor roupa a ser vestida. Não, elegância é na alma — ensinou o veterano dos palcos, conhecido, justamente, pela delicadeza que dispensa a colegas e fãs.

Muito antes dessa entrevista e da explosão de agressividade e fúria na era das relações mediadas pelas telas, a jornalista Celia Ribeiro já apontava para o mesmo caminho. Impossível, aliás, escrever sobre esse tema sem lembrar dela. 

Recordo de Celia caminhando pela redação de ZH, com a bolsa no ombro, atendendo quem quer fosse, sempre gentil e pronta a ajudar. Era a fineza em pessoa.

Celia decidiu se aposentar em 2016, aos 86 anos, após seis décadas de jornalismo e milhares de páginas escritas. Seu livro Etiqueta na Prática foi um fenômeno de vendas. Ivan Pinheiro Machado, da editora L&PM, costuma dizer que ela “tirou a frescura" das velhas e mofadas regras de boas maneiras, transformando algo que servia apenas para diferenciar classes sociais em uma coisa completamente diferente. O foco era o bom convívio.

Celia dizia que o mais importante, sempre, deveria ser se colocar no lugar do outro. No fim das contas, essa é a essência. E o mais interessante de tudo: mesmo quando falava dos tais “bons modos”, ela nunca usou uma linguagem arrogante ou impositiva. Jamais.

— Elegância é também ser educado, socialmente agradável, mesmo sendo tímido, como é o caso do Luis Fernando Verissimo. Já a maior deselegância possível é a ostentação. Não existe nada mais deselegante do que ser deslumbrado — disse a jornalista, em uma conversa descontraída e franca com Claudia Laitano e Alice Urbim, publicada no caderno Donna à época de sua aposentadoria.

E é isso mesmo: ser elegante é ter a humildade de se olhar no espelho e incluir o outro no reflexo, o que, no fundo, só melhora a imagem de quem opta por esse modo de vida. É saber estender a mão e ter a capacidade de alteridade, reconhecendo que existem diferenças, sim, mas que a convivência é possível com respeito e empatia.

Curioso como algo tão óbvio possa estar tão fora de moda. A falta de diálogo, as críticas acintosas (geralmente tecidas no anonimato da internet), os arroubos de egolatria, a torcida do “quanto pior, melhor”, a polarização radical, tudo isso vai minando as relações e tornando cada vez mais difícil a vida em sociedade.  

Chegamos ao que parece ser mais uma encruzilhada entre civilidade e barbárie, em tempos de “desinteligência real”, como diz Celso Loureiro Chaves. Não sei você, mas eu quero estar do lado de Celia, o lado da elegância.


15 DE JULHO DE 2023
POESIA

O LIVRO

Quanto mais velho um poeta fica, mais se convence de que seu ofício resulta numa modesta produção de linguagem. O poeta, segundo penso, intervém na língua materna mediante três formas de intensificação verbal: a) dando ao Dicionário novas estruturas significativas; b) conferindo ao falar comum novos ritmos; c) atribuindo às frases, por meio de comparações e metáforas, significados inéditos.

Vejamos como o Houaiss define rosa. O primeira significado é: "flor de roseira". O dicionário, porém, não se detém no vocábulo em si, no seu grafismo ou na sonoridade da palavra. Interessa-se somente por seu valor informativo. Chega a registrar que existem 150 variedades de rosas. Como sexto significado, anota: "mulher formosa". O nono significado: "estado de satisfação do corpo ou do espírito, bem-aventurança, ventura". O décimo: "rosa dos ventos".

Do exposto vê-se que, no próprio Dicionário, já existem intromissões poéticas. Para chegar ao poema, todavia, a poesia exige que a palavra contenha também emoções pessoais do poeta, acompanhadas, eventualmente, de sentimentos e emoções coletivas. Drummond de Andrade relatou que uma empregada sua o surpreendeu com a seguinte expressão:

- Doutor Drummond, o televisor ia cair, mas eu peguei ele na flor do ar...

Como se vê, a moça alterou uma expressão já dicionarizada, pois na fala comum costuma-se dizer: "à flor dos lábios; na flor dos anos; ou flor de farinha". O Houaiss registra: "Fulano é uma flor de rapaz".

Sinto-me na obrigação de fornecer aos leitores pistas para que possam ler e interpretar com mais generosidade meus poemas da nova antologia, que retoma poemas selecionados de duas outras antologias, de 1986 e de 2001, com acréscimos de meu livro Adega Imaginária (2013). Os 115 poemas que aparecem com a menção "inéditos" são, de fato, inéditos. Devem seu lirismo às impressões de alguém que se sente submetido às pressões de uma sociedade consumista, tecnológica e informática.

O problema é que são raros os astrofísicos, biólogos moleculares e físicos quânticos com vocação poética. Carl Sagan foi uma exceção. Morreu prematuramente aos 62 anos, em 1996. Para provar que foi poeta, cito-lhe o seguinte trecho: "(...) cada um de nós, do ponto de vista cósmico, é precioso. Se um ser humano discordar de vocês, deixem-no viver. Nas 100 milhões de galáxias, não encontrarão outro" (Cosmos. Lisboa: Gradiva, 1984, p. 91).

Considero-me um modesto imitador de dois poetas: Dante e Camões. Ambos enfrentaram idêntico problema: poetizar enigmas que estou enfrentando, os quais: o surgimento de um Cosmos, inaugurado por dois inovadores, Charles Darwin e James Clerk Maxwell, o maior físico teórico do século 19, precursor de Albert Einstein. A despeito de sua ciência, Maxwell foi profundamente cristão. Em meus poemas, tive de formular-me uma questão: "Será permitido a um poeta de hoje compor poemas inspirado nas descobertas que os cientistas têm feito, ou estão fazendo?". Dante, em sua Divina Comédia, aproveitou a ciência de seu tempo; Camões, na sua epopeia, fez o mesmo. Ocorreu-me, pois, abordar uma temática, até certo ponto insólita: a da Cosmologia Contemporânea.

Naturalmente, tento poetizar, ao mesmo tempo, aspectos que independem das ciências, ou seja, as revoluções que ocorrem no interior de nossos corações, que suspiram por mais ar e, sobretudo, por mais felicidade.

Não tenho a fantasia, muito menos a presunção, de comparar-me a Dante ou a Camões! Rogo a meus leitores que apenas leiam meus poemas "como poesia". Passados 700 anos da morte de Dante, o que resta de mais genial em seu poema é justamente a sua Poesia.

Deixo os cientistas à vontade para aplicarem seus olhos aos telescópios e aos microscópios. Venero as ciências. No que me diz respeito, imito Wal Whitman, que, depois de ouvir uma sábia conferência de um astrônomo, saiu de sua casa e foi contemplar o céu estrelado. Como o fazia, de resto, o filósofo Kant, que o contemplou muitas vezes em Könisberg.

Meus Melhores Poemas De Armindo Trevisan.

Ed. Invencionática/Bestiário, 280 páginas, R$ 72 em bestiario.com.br


15 DE JULHO DE 2023
LEANDRO KARNAL

A discussão é verdadeira. Altero apenas alguns dados para ocultar os participantes reais. Uma pessoa segura uma bolsa cara. Melhor seria dizer: caríssima. A amiga exclama e indaga: - Nossa, sua bolsa vale uns R$ 120 mil! Quanto você paga à sua faxineira?

- Pago o valor de mercado. O salário não é proporcional à renda do contratante. Se assim fosse, a funcionária que limpa a mansão da família Safra deveria receber US$ 70 mil por mês? O salário é fruto de um diálogo com o mercado, com minhas necessidades, com a realidade da funcionária e tem uma certa "lógica?".

- Mas... Você não se sente mal por isso? Há crianças passando fome...

- Sim, e essas crianças ficariam felizes também com o seu celular. Você deixaria de produzir bastante se não tivesse o aparelho. Ele é seu instrumento de trabalho. Graças a ele, você consegue contratar quatro pessoas para a sua casa e 12 para o escritório. Você gera muitos empregos, e as pessoas recebem pelo seu trabalho. Claro: você pode doar todos os móveis, computadores e bolsas. Pode enviá-los para uma área pobre de Bangladesh. Você condenaria aqui várias pessoas à fome, mas salvaria outras na Ásia.

- Sei lá! Mas você e eu estamos crescendo nos nossos negócios. Não seria bom ir aumentando os salários?

- Talvez, se todos concordassem em diminuir quando houvesse queda de receita. Há dois anos, durante a pandemia, perdi 30% da minha renda. Eu poderia chegar à empregada e dizer: "Vamos baixar seu salário?". Ela acharia ruim. Dividir lucros e assumir crises não seria um caminho irracional? Eu a mantive, pagando o mesmo valor, ainda que ela tenha deixado de vir por alguns meses. Faz parte de uma responsabilidade recíproca.

- Você me parece muito objetiva e capitalista. Acho apenas que poderia existir mais justiça social.

- O sistema está dado. Você deve pagar seus impostos previstos, honrar com os compromissos trabalhistas, respeitar as pessoas e oferecer o que é viável. Você é livre para fazer trabalhos voluntários ou doações para entidades assistenciais. Mas... a regra de ouro é nunca abraçar de tal forma o afogado que ele lhe arraste para o fundo. Isso expandiria a pobreza, não a riqueza.

- Porém, doar cestas nunca resolverá a fome.

- Doar minha bolsa também não. Se minha bolsa ou o valor a incomodam, por que você não faz uma artesanal em casa? Você é boa em costura. Isso estimula o criativo e até a sustentabilidade, mas... pode diminuir vagas de empregos. E, sim, pode vender tudo o que possui e dar aos mais necessitados. Você é livre!

- Já refleti. Lá no nosso escritório de advocacia, alguns pareceres custam uma fortuna. O trabalho é feito por muita gente; apenas eu e meu marido recebemos o grosso dos pagamentos, porque somos os proprietários. Sei que essa é a lógica da sociedade. Por vezes, parece que a gente está tirando das pessoas.

- O cliente procura vocês pela fama, rede de relações, capacidade gerada pelos conhecimentos, certeza de qualidade e o peso do seu sobrenome, com notório saber, ou seria por causa do estagiário?

- Ah, com certeza pela gente! - E os advogados que estão lá, assalariados, podem sair e abrir seus próprios escritórios, como vocês, não é?

- Sim, podem. Alguns se tornaram sócios minoritários. Outros fundaram uma empresa. Um foi para o Exterior e prospera. Alguns que ficaram são excelentes e causam aumento de produtividade. Estes nós fomos promovendo, aumentando a participação nos lucros do escritório.

- E outros foram ficando e apresentavam pouca iniciativa. Você nunca ofereceu sociedade a eles, não é?

- Verdade! Mas... sua ideia de meritocracia parece fazer um jogo de cada um por si e "que vença o melhor". Nada mais podemos fazer a não ser aceitar a miséria como um dado pétreo?

- Você pode me acusar de tudo, menos de idealista. Meu mundo é o real, e nossa chance de atingir um paraíso é limitada. Minha ação tem poder cerceado, e o custo de todo "admirável mundo novo" é muito alto. Prefiro reformar e melhorar o que temos, fazer o certo em vez de, em uma tacada, imaginar que o sistema pode ser derrubado hoje e amanhecer melhor, daqui a uma semana. Não acredito nisso. Minha experiência de vida me indica, até hoje, que as rupturas possuem valor muito alto, quase sempre excessivo.

- Sim, você já defendeu sua posição de conservadora não reacionária. Lembro-me da festa lá em casa: você não idealiza o passado, tampouco acredita que todos eram mais felizes. Logo, não é reacionária. Não crê que o paraíso esteja logo à frente e que possa ser atingido rapidamente. Logo, tem pouca identidade com o pensamento tradicional de esquerda. Você acredita que o presente seja uma negociação entre o que recebemos e o que legaremos. Apenas acho que tudo isso é muito teórico, coisa de europeu.

- Sim, a fonte é europeia, mas a esquerda também nasceu na Europa durante a Revolução Francesa. O anarquismo é europeu, o marxismo é europeu, o nacionalismo é europeu etc.

- Assim como essa sua bolsa, né, amiga? Posso pedir emprestada? E você, querida leitora e estimado leitor: qual é a sua esperança sobre bolsas e capitalismo?

LEANDRO KARNAL

15 DE JULHO DE 2023
CRISTINA BONORINO

INÉDITO

Em geral, buscamos o inédito. A novidade traz uma excitação, uma promessa de aventura, de novas experiências. Na maioria das vezes, é a força motriz para o trabalho que nós, cientistas, fazemos diariamente. Mas, de vez em quando, uma conjunção de fatores inéditos pode - e deve - causar preocupação. E sugerir cautela. Como na última semana, em que o planeta atingiu a maior temperatura média já registrada: 17.23ºC. E havíamos tido o junho mais quente já visto.

Nesta época do ano é verão no Hemisfério Norte e inverno no Sul. Normalmente é o período em que as temperaturas mais altas são atingidas no planeta - embora a gente jure que seja durante o verão em Porto Alegre. Mas mesmo nós sentimos o impacto dessas temperaturas aqui. Maio, junho e julho foram extremamente brandos, com dias quentes mesmo. E as ameaças de ciclones e chuvas foram realmente o problema neste nosso inverno.

Você deve ter ouvido falar que as temperaturas dos oceanos também têm alcançado picos inéditos. E o El Niño, um fenômeno recorrente que aquece o planeta em ciclos, retornou. Nunca antes tivemos o El Niño simultaneamente às temperaturas mais altas do planeta e os oceanos já tão quentes. Em abril, a temperatura média dos oceanos alcançou 21.1ºC - a mais alta já registrada. A elevação das temperaturas dos oceanos é maior no Hemisfério Norte - até porque ela é resultado de fatores muito conectados com a atividade industrial humana. Os oceanos absorvem esse calor gerado na Terra - sabemos como são brandas as temperaturas de áreas costeiras. Quanto mais quente, menos eles conseguem absorver o calor. E, com esse aquecimento, está o El Niño deste ano, esquentando mais os oceanos, empurrando correntes de ar equatoriais para o Oeste. Ele é equilibrado pelo La Niña, que traz águas mais frias e profundas para o Leste. E ano passado saímos de três anos de La Niña.

Em junho, o El Niño pode ter sido desencadeado por ventos anômalos que se originam no Pacífico Norte, como acreditam alguns cientistas, como a oceanógrafa Regina Rodrigues, da UFSC. E essa "manta" de água quente que cobre hoje os oceanos gera um calor que é preso pelo efeito estufa dos gases liberados pelas atividades industriais e urbanas. A conjunção inédita de fenômenos pode trazer temperaturas ainda mais altas - uma vez que o El Niño recém iniciou. Isso, claro, impacta todo o planeta. Mas em algumas áreas será mais crítico.

Há anos o cientista Carlos Nobre, hoje na USP, adverte sobre os impactos climáticos de diferentes percentuais de destruição da Floresta Amazônica. Segundo ele, se 20% da Amazonia for perdida, a temperatura global pode subir até mais 2.4ºC. Hoje, já foram perdidos 17% da floresta. Degelos massivos - e inéditos - na Groenlândia e na Antártica fizeram o nível dos oceanos subir gradualmente, afetando toda a vida marinha e as áreas costeiras. O que mais precisa acontecer para que leis e políticas públicas sejam modificadas em cada cidade do planeta?

CRISTINA BONORINO

15 DE JULHO DE 2023
FRANCISCO MARSHALL

QUERIDO DIÁRIO,

As intimidades do poder e da consciência formam um drama patético. Muitos acreditam na força e na verdade do que faço. Outros não, nem remotamente, e criticam. E eu? Devo examinar meus atos? Examinar e ponderar antes de decidir? Eleger princípios e finalidades? Estudar, avaliar e justificar democraticamente, ou passar a patrola e seguir adiante, colhendo os aplausos que já conheço? Ora! Que tonto quem acha que aquele que se serve da democracia deve defendê-la. Babaquice. Cheguei ao palácio, sou feliz, me bajulam e me acho bonito, o resto que se rale. Mas por que te digo isso, querido Diário? Não é melhor caminhar sem ouvir, sem olhar pra trás ou pra frente, apenas colher a glória, e vida que segue?

A água. Seria um bem precioso? Tó hydor, como disse Tales de Mileto (625-548 a.C.), o princípio essencial, ou tão somente um bem que podemos comercializar? Ainda melhor, um bem que amigos estrangeiros podem comercializar melhor do que nós, botocudos? A água, para matar a sede de milhões, ou para saciar a sede de lucros de alguns poucos, que logo terão ainda mais sede? A sede voraz por dinheiro, que sede linda, que move a humanidade, enquanto quem não tem mérito ou patrimônio, que morra de sede (kkk! Desculpe, Diário, acho que não sou tão ruim. Acho. Achas?). Ora! 

Qual a diferença entre um bem essencial e aqueles espelhos mágicos que os europeus teriam oferecido aos tupis deslumbrados? Naquele espelho eu me vejo lindo, mas o espelho das águas eu recuso: demasiado puro! A água, um bem ótimo para pôr no brique, especialmente porque não me pertence, pertence à terra e ao povo (kkk, já era: pertencia!), e eu não sou nem da terra, nem do povo, por que não vender esse bem, ?tão valioso?, para a elite de outro país?

A questão energética. Os recursos vitais. O valor estratégico. A crescente escassez global do bem natural, humano e social mais importante, a água. Gente! Esperam que eu leia relatórios, que compreenda a questão energética e que estude por que os que privatizaram as águas, em todo o mundo, ora correm para reverter esse erro? O que puder ser vendido, que se venda, seja pra quem for, desde que pague. E quero que paguem pelo que compraram. Muito obrigado.

O que temo mesmo, querido Diário, é o que sabes há muito: que descubram que sou completamente inepto e incapaz de administrar o que quer que seja. É muito difícil. É mais fácil usar minha voz de crooner para enganar a tolas e tolos do que para dizer ao povo o que bem sabes, Diário: que sou um incompetente e prefiro me livrar do desafio, entregar aos outros para resolverem o que não consigo. E pouco importa que eu entregue uma antiga e próspera empresa do povo, cor sana e sacro serviço, com estrutura técnica, monopólio, público consumidor cativo (meus concidadãos!), potencial imenso; pouco importa, eu sou e todos somos mesmo uns estúpidos, nada sabemos, os outros é que sabem."

Ah, o poder da ideologia liberal, que assassina a lucidez, manieta e cativa lacaios e perverte os destinos da humanidade. Eis o vero inimigo da democracia, que ora espouca champagnes sobre o leite derramado.

FRANCISCO MARSHALL

15 DE JULHO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

COMENDO PLÁSTICO

Estamos nos alimentando de micropartículas de plástico contidas em peixes, mexilhões e ostras. Esta aterradora invasão de microplástico nos mares (e nos cursos d´água em geral) foi considerada como hipótese há dezenas de anos, mas agora foi confirmada em pesquisas científicas.

Os pontos essenciais da pesquisa, realizada pela Universidade Federal de São Paulo, foram publicados, dias atrás, na conceituada revista científica norte-americana Science of the Total Environment, o que lhe dá um caráter definitivo.

A incidência de microplástico no litoral paulista é uma das maiores do mundo. Em algumas áreas, foi encontrada uma média que variou entre 12 e 16 partículas de plástico por cada grama de tecido do animal marinho. Em alguns mexilhões, foram encontrados mais de 300 microplásticos por grama, número brutal que dá ideia da poluição aterradora dos cursos d´água.

A pesquisa fixou-se agora no estuário de Santos, no litoral paulista, mas vai estender-se a outros Estados, inclusive o Rio Grande do Sul. Fico pensando no que deverá ser encontrado na bacia de Rio Grande e no Guaíba, onde (além de plástico) costumam jogar móveis e estofados velhos e outras quinquilharias já inservíveis. Assim, pergunto-me da possibilidade de serem encontrados entre nós também microrresíduos de tecido de pano em peixes?

Além do plástico (deteriorado pela água e, assim, transformado em microrresíduos), soma-se, aqui no Rio Guaíba, a aterradora contaminação por resíduos industriais e domésticos, inclusive fezes.

Mais do que tudo, em nosso Estado, basta já a contaminação do Rio dos Sinos (e dezenas de arroios), onde os curtumes lançam imensa quantidade de resíduos químicos da curtição do couro?

Pela primeira vez, a Assembleia Legislativa demonstra interesse concreto pela preservação do meio ambiente e mostra que sustentabilidade não é algo a esmo, como folha ao vento. O Legislativo decidirá sobre um projeto do então deputado Edegar Pretto (hoje presidente da Conab) que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos nas lavouras do Rio Grande do Sul.

É uma mostra da transformação de meras palavras sobre sustentabilidade e meio ambiente em ações concretas para assegurar nosso futuro.

FLÁVIO TAVARES

15 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

FALTOU COMPOSTURA

Foram lastimáveis a postura e a incontinência verbal do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso ao discursar na abertura do 59º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), na quarta-feira, em Brasília. Reagindo a vaias em um evento com alta carga ideológica, Barroso enumerou batalhas travadas para assegurar a liberdade de expressão, como os apupos direcionados a ele. "Nós derrotamos a censura, nós derrotamos a tortura, nós derrotamos o bolsonarismo para permitir a democracia e a manifestação livre de todas as pessoas", disse o ministro.

Não bastasse a questionável conveniência da presença de um ministro do STF no palanque de um encontro do gênero, Barroso fez uma manifestação de cunho político. Assim, desgarrou bastante do comportamento adequado para um membro da Corte. O Supremo julgou nos últimos anos várias causas relacionadas ao "bolsonarismo" e ao próprio governo Jair Bolsonaro. Em breve, enfrentará novos processos contra o ex-presidente. A sociedade espera de seus juízes que decidam de maneira imparcial, conforme as leis e a Constituição. Ao proferir as infelizes palavras, Barroso alimentou as teses de que o STF faz ativismo político e Bolsonaro seria um perseguido.

Barroso assume em outubro a presidência do STF. Até fevereiro do ano passado, também comandou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no qual exerceu um papel importante na defesa das urnas eletrônicas contra a campanha de desinformação movida por Bolsonaro e seus apoiadores. Não se ignora que, nos últimos anos, o STF e o TSE formaram uma trincheira na defesa da democracia e do reconhecimento da lisura das eleições. Os atritos não foram banais, incluindo ataques pessoais rasteiros aos ministros. 

O 8 de janeiro foi o resultado também dessas insistentes incitações. É natural que, na intimidade, antipatias sejam nutridas. Mas um ministro do Supremo, ainda mais às vésperas de assumir a alta Corte do país, deveria demonstrar o equilíbrio e a moderação esperados para alguém que ocupa postos de tamanha relevância. Com o episódio, o próprio STF, tragado pelo redemoinho da polarização, é atingido pela margem criada para alimentar desconfianças.

Foi hábil e preciso o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ao fazer reparos ao comportamento de Barroso. "A presença do ministro em um evento de natureza política, com uma fala de natureza política, é algo que reputo infeliz, inadequado e inoportuno", disse. Pacheco avaliou ainda que seria necessário um esclarecimento ou retratação. Caso contrário, a manifestação poderia ser lembrada como causa de impedimento ou suspeição em julgamentos. Barroso, em seguida, publicou nota tentando se explicar e apaziguar a situação, dizendo que referia-se ao extremismo violento de uma minoria. Tarde demais.

Devotos de Bolsonaro pediram o impeachment do ministro pela declaração. Trata-se de um exagero. O episódio, no entanto, deveria servir de alerta definitivo para Barroso e pares que também costumam se exceder e falar sobre temas sobre os quais deveriam se abster. O mesmo ministro, em novembro do ano passado, em Nova York, soltou um "Perdeu, mané!" para um bolsonarista que tentava abordá-lo. A pacificação que o país aguarda também necessita de comedimento verbal dos membros mais loquazes do Supremo. Melhor seria se o próprio STF estabelecesse novos limites e normas de conduta para seus integrantes.


15 DE JULHO DE 2023
MARCELO RECH

Honra ao mérito

Vamos supor que você, felizardo, faturou uma bolada de R$ 10 milhões na Mega-Sena. Precavido, você não quer torrar tudo e incinerar a sua sorte. Mas se a bufunfa ficar guardada debaixo do colchão, ela vai se desvalorizar em algo como 0,5% ao mês, que é uma inflação corriqueira média no Brasil. Ou seja, por deixar seu rico dinheirinho parado, você queimaria R$ 50 mil a cada 30 dias.

Então, você sabe que é preciso botar o dinheiro para trabalhar. No Brasil de juros nas alturas, se você investir em uma aplicação sonolenta, um CDB meia-boca, espere ganhar em torno de 1% ao mês - R$ 100 mil limpinhos, sem incomodações e sem levantar um dedo. Mas você precisa se resguardar da inflação. Então, saca a metade dos R$ 100 mil e reinveste o restante no mesmo CDB. Sobram R$ 50 mil. Com o equivalente a US$ 10 mil no bolso todo mês, você e família viveriam despreocupados em qualquer lugar aprazível do planeta.

Mas não, você quer empreender. Você monta um negócio no Brasil, uma rede de 10 restaurantes, por exemplo. Você gasta uma pequena fortuna para equipar as unidades: mobiliário, cozinhas modernas, uma decoração bacana. Para fazer a máquina andar, você dá emprego a, digamos, cem pessoas - 10 por restaurante, sem contar os indiretos, como as equipes de segurança, limpeza e manutenção periódica de equipamentos e instalações.

Você paga 10 aluguéis, impostos insanos de toda ordem, uma salada de siglas em taxas sobre os cem salários, vale-alimentação, vale-transporte e, como você se preocupa com os funcionários, assistência de saúde. Você também desembolsa um ervanário pesado a fornecedores de alimentos, horas extras, cursos de treinamentos e segurança, contadores, advogados, publicidade, influenciadores e sabe-se lá mais o quê. Cada quê anterior é um problema em potencial.

Você também trabalha ou fica angustiado sete dias por semana, 12 meses por ano, porque negócio fechado é dinheiro que não entra. Os fiscais fiscalizam o tempo todo - e assim deve ser, já que você lida com pessoas e alimentos. Clientes reclamam de qualquer coisa e detonam todo o seu esforço nas redes sociais.

Você corre o risco de assaltos e tem de lidar com furtos, arrombamentos, danos, desvios, atrasos e desperdícios. Ex-funcionários entram na Justiça. Outros ex-colegas depõem a favor deles, que logo depois vão depor para os ex-colegas também. Você gasta uma dinheirama em ações trabalhistas, com o pagamento de juros, com golpes de aproveitadores e com fornecedores que recebem, não entregam e desaparecem.

Você poderia estar na praia de papo pro ar, mas insiste em empreender e gerar empregos no Brasil. Tem alguma medalha pra isso?

MARCELO RECH

15 DE JULHO DE 2023
CHAMOU ATENÇÃO

Tenda da Kiss é desfeita

Depois de mais de 10 anos, a tenda de vigília mantida pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) está sendo retirada da Praça Saldanha Marinho, no centro do município.

O local se tornou ponto simbólico de encontro de familiares de vítimas do incêndio da boate Kiss desde a sua montagem, em abril de 2013, pouco depois da tragédia que deixou 242 mortos e mais de 600 feridos em 27 de janeiro daquele ano.

Conforme Flávio Silva, ex-presidente e atual conselheiro da AVTSM, a decisão pela desmontagem foi por conta de o local ter sido ocupado permanentemente por pessoas em situação de rua. Uma equipe da Secretaria de Assistência Social da prefeitura acompanhou a ação de sexta-feira, na tentativa de encaminhar os moradores de rua para uma das duas casas de passagem do município.

- Não é fácil. A luta é tão longa que muitas famílias foram ficando pelo caminho, mas a gente não pode fraquejar. Foi algo cumulativo. O pessoal começou a acampar aqui. Eles sempre dormiam aqui, colocavam os colchões e depois tiravam. Nunca nos importamos que servisse como abrigo durante a noite, mas o pessoal realmente acampou definitivamente. Começamos a ser criticados e tomamos essa decisão. É duro, mas tivemos de tomar essa decisão - explica Silva.

Uso

A partir de agora, a cada dia 27 será montada uma tenda provisória para a tradicional vigília feita quando se completa mais um mês da tragédia.

O espaço da Praça Saldanha Marinho se tornou um ponto simbólico e de união entre sobreviventes e familiares de vítimas da tragédia. Foi dali, distante pouco mais de 400 metros da boate Kiss, que ocorreram momentos históricos para a associação, como reuniões, gravações de documentários e protestos.

No local também foi transmitido ao vivo o julgamento dos quatro réus acusados pelo incêndio, em dezembro de 2021.

NAION CURCINO

15 DE JULHO DE 2023
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Profissionais curiosos

A curiosidade é inerente à função de repórter, é o que move os profissionais. No início deste ano, a repórter Jhully Costa e o fotógrafo André Ávila trabalharam juntos, por um período, na cobertura de verão no Litoral Norte. Nos bate-papos diários, entre uma pauta e outra, veio um tema que era de interesse comum: paleontologia, em especial o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria na Região Central, conhecida como um reduto da vida pré-histórica.

Jhully e André compartilhavam do mesmo interesse em saber como se faz uma escavação para encontrar um osso de animal. E como saber se é de um dinossauro. Foi dessa forma que surgiu a reportagem que ilustra a capa desta edição.

Como relata a repórter, os fósseis descobertos na região central do Estado são reconhecidos internacionalmente por terem pertencido aos dinossauros mais antigos do mundo. Esses materiais podem ser encontrados em apenas outras duas localidades: na Argentina e no continente africano. Além disso, segundo o chefe do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, Rodrigo Müller, os materiais achados em território gaúcho são bem preservados, o que representa um diferencial na comparação com outros países.

- O ponto principal foi poder acompanhar um trabalho que tanto vemos nos filmes e parece muito distante da realidade. E também entender como é possível, apenas com alguns fragmentos ósseos, descobrir detalhes sobre a vida na Terra há mais de 230 milhões de anos. Sempre imaginei que eles precisavam encontrar o esqueleto completo dos dinossauros e de outros animais, mas não, basta um dente ou uma mandíbula para se obter respostas importantes - conta Jhully.

André destaca o seu interesse antigo no assunto:

- Sempre me chamou atenção o trabalho de campo em sítios arqueológicos, a pesquisa paleontológica e a sua importância para compreender a evolução. A dedicação e a paixão dos pesquisadores são nítidas. Cada pequena descoberta é um sorriso. Um escavador me chamou rindo: "Ô, fotógrafo, vem aqui!". Ele colocou um fragmento na palma da minha mão, era um dente de uma espécie que repousava há milhões de anos naquele solo.

Assuntos sobre ciência, pesquisa, paleontologia e arqueologia costumam despertar interesse dos nossos leitores. E, como destaca a editora Micheli Aguiar, quando se trata de uma descoberta local, a audiência é ainda maior.

- O regionalismo contribui para o interesse do público de ZH e GZH. O tema também performa muito bem nos buscadores de internet, com os conteúdos repercutindo para além do RS e dos leitores fiéis dos nossos veículos - diz Micheli.

A reportagem está no caderno DOC e também pode ser acessada pelo site e pelo aplicativo de GZH.

DIONE KUHN

15 DE JULHO DE 2023
SOB INVESTIGAÇÃO

Advogado é suspeito de lesar clientes

Profissional omitiria informações sobre quantias ganhas na Justiça com intenção de supostamente se apropriar de dinheiro

Um advogado de Porto Alegre e uma empresa que compra créditos trabalhistas (ganhos em processos dos clientes deste profissional) são investigados por supostamente ludibriar pessoas que ingressam com ações na Justiça do Trabalho. O caso passou a ser observado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, que informou sete casos suspeitos à Polícia Civil. Há outros processos sob análise.

Na sexta-feira, a Polícia Federal (PF) cumpriu nove mandados de busca e apreensão e instalou tornozeleira eletrônica no advogado Alessandro Batista Rau, que também está impedido de atuar (leia mais ao lado). Nos últimos dois meses, o Grupo de Investigação (GDI) analisou processos trabalhistas, cíveis e certidões públicas que envolviam o nome de Batista Rau.

Uma das condutas sob suspeita envolve crédito de R$ 400 mil. O valor total da indenização do autor contra sua antiga empregadora reivindicava R$ 1,8 milhão, mas os R$ 400 mil já foram liberados pela Justiça em relação a fatos que o juiz entendeu estarem comprovados. O dinheiro foi depositado pela empresa em juízo, mas o advogado do autor da ação não o avisou sobre o crédito disponível para saque.

Convencimento

Em passo seguinte, uma empresa chamada Pertto Perícias Contábeis Ltda, que, segundo as investigações, pertenceria ao pai do advogado, teria oferecido R$ 75 mil para comprar esses créditos e mais o restante que possa a ser definido pela Justiça como direito do autor da ação. O valor é inferior ao que já estava à disposição.

Para convencer os clientes a fazerem a negociação, o advogado alegaria que o fim do processo poderia demorar anos e que ainda havia o risco de os direitos alegados pela parte não serem reconhecidos pela Justiça. Desta forma, seriam firmados acordos chamados de cessão de créditos trabalhistas para a empresa Pertto.

- Liguei mais de uma vez, fiquei o ano todo ligando, falaram que levaria mais três ou quatro anos para sair o dinheiro. Depois me ligaram oferecendo esse valor, eu tava numa situação bem apertada, eu aceitei - disse o trabalhador, que pediu para não ser identificado.

Em outro caso, um cliente com reclamatória de R$ 350 mil negociou os créditos por R$ 15 mil, sem saber que valor muito maior havia sido liberado.

A venda de créditos trabalhistas é permitida, mas há regras a serem seguidas (leia mais no quadro). Uma delas é a recomendação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que prevê o pagamento de pelo menos 40% do total a ser recebido, percentual citado em uma das decisões.

Além dos valores inferiores, o suposto esquema fere o Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Segundo a OAB, um escritório de advocacia não pode ter também a função de perícia judicial. No caso, Batista Rau seria sócio da Pertto, que compraria os créditos trabalhistas, mas depois teria passado tudo para o nome do pai dele, Carlos Roberto Rau.

O GDI apurou que pelo menos sete inquéritos que investigam estelionato, apropriação indébita e patrocínio infiel contra os clientes estão sob análise do delegado Vinícius Nahan, da 2ª Delegacia de Polícia Civil de Porto Alegre.

O advogado Diogo Teixeira, representante de uma das vítimas, fez levantamento e descobriu que há, atualmente, 198 processos trabalhistas em que Batista Rau e a Pertto atuam em parceria, mas nem todos estão sob suspeita: são 171 na Justiça Trabalhista em Porto Alegre e outros 27 no Interior.

CID MARTINS LUCAS ABATI TIAGO BOFF

sexta-feira, 14 de julho de 2023


14 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

Cariocas de espírito

Uma das semifinais da Copa de "Milhões" Brasil já está definida: Grêmio enfrenta o Flamengo.

Há um duelo à parte nos bastidores entre o mais carioca dos paulistas, o atacante Gabigol, e o mais carioca dos gaúchos, o técnico Renato Portaluppi.

Gabriel Barbosa mostrou-se o mais decisivo jogador rubro-negro dos últimos tempos. Não existe rival. Parece predestinado a marcar gols em finais e mata-matas. Ele jamais amarela. Sua identificação com a torcida vai muito além da sua tradicional comemoração com a exibição do muque. É um homem-canhão, um showman, um provocador nato, um embaixador da paixão, um Che Guevara na estampa das bandeiras e camisetas flamenguistas, o sexto maior artilheiro da história do clube numa carreira insanamente meteórica.

Num único jogo, na eliminação do Athletico Paranaense, fez dois gols, um deles anulado por impedimento com acompanhamento coreográfico do VAR no telão do estádio. Apanhou e reagiu, armou confusão, gerou expulsão de Gerson com a sua treta, levou cartão, comeu bolacha recheada arremessada por torcedor adversário, recebeu banho de cerveja da arquibancada. Mais aventura do que isso, só Tom Cruise em cartaz com Missão: Impossível.

Em quatro anos atuando pelo Flamengo, ganhou inacreditáveis 11 faixas, sendo duas Libertadores, dois Brasileiros, uma Copa do Brasil. Nem é questão de colocar um ídolo contra o outro, mas, para ter noção do valor, aplainou uma prateleira de canecos nacionais e internacionais mais pesada do que o incensado e indiscutível Galinho de Quintino, Zico, em seus 16 anos de Gávea (foram 13 títulos, sete como campeão carioca).

Já Renato é estátua na esplanada da Arena, sinônimo de tricolor. Jamais no país despontou um atleta com o mesmo sucesso e quilometragem numa única equipe como jogador e treinador. São 720 partidas em campo e na casamata. Sua marca só pode ser superada agora por ele mesmo.

Com as chuteiras, brilhou entre 1980 e 1986. Depois vestiu novamente a camisa 7, em 1991.

Com a planilha e o comando do vestiário, esta é a sua quarta passagem. Esteve de 2010 a 2011, em 2013, de 2016 a 2021, e desde setembro do ano passado, quando retornou e seguiu após a troca da diretoria.

São 14 títulos, entre os quais duas Libertadores e um Mundial. Por 388 vezes, trouxe a vitória para a casa gremista.

E Renato é essencialmente folclórico, mal combina com o sobretudo e os casacões gaúchos. Tem um temperamento praiano, uma atitude de futevôlei, uma malandragem do Rio, uma bossa nova na ironia. Trata-se de um gavião amado no ninho de quero-quero. Não tem mais como demiti-lo. Encontra-se acima da presidência. Será sempre um "até logo" ou "até a próxima taça".

Gabigol e Renato vão mobilizar os bastidores do aguardado enfrentamento na segunda semana de agosto. Uma lenda urbana e um mito atemporal. Dois cariocas de espírito.

Haverá por parte do Renato a cena clássica de morder a sua medalhinha santa à beira do gramado. Vive com o escapulário debaixo da língua, como se fosse um comprimido de Isordil, nos momentos de maior tensão e nervosismo. O metal sagrado já deve conter o molde de sua arcada. Veremos se vai dentar mais um passaporte para a final. Sua história não cessa. Para a raiva de colorados como eu.

CARPINEJAR

14 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

EVOLUÇÃO PREVENTIVA

O Estado foi fustigado por um segundo evento climático extremo em menos de um mês. O ciclone extratropical que atingiu o Rio Grande do Sul nesta semana teve características diferentes em relação ao fenômeno que, em junho, devastou especialmente municípios do Litoral Norte e do Vale do Sinos e deixou 16 mortos, mas foi possível notar uma melhor preparação para prevenir riscos à população. Mesmo assim, a queda de uma árvore sobre uma residência, em virtude do vento forte, vitimou um morador de Rio Grande, na Zona Sul, onde as rajadas chegaram a 140 km/h.

O temporal do mês passado foi um duro alerta para a necessidade de ser mais previdente diante de avisos meteorológicos sobre tempo severo. Desta vez, de forma prudente, foram tomadas várias medidas voltadas a evitar maiores transtornos e situações mais graves. Algumas prefeituras cancelaram aulas. O governo gaúcho fez o mesmo, determinando que as escolas da rede estadual ficassem fechadas ontem. Em áreas que costumam ficar alagadas quando há precipitações volumosas, famílias foram retiradas com antecedência, antes de a água invadir as suas casas, com tempo, inclusive, de salvar pertences. Locais foram previamente preparados para receber desabrigados. A prudência também levou a prefeitura da Capital a gestionar, ainda na terça-feira, o adiamento da partida entre Grêmio e Bahia, na quarta à noite.

As previsões geradas pelos institutos de meteorologia foram acompanhadas pari passu pelo poder público e pelas defesas civis, que a toda hora atualizavam a situação para as comunidades, orientavam sobre como proceder e informavam canais de contato em caso de emergência. Equipes responsáveis por prestar auxílio mostraram-se prontas para atender aos chamados. A própria população pareceu estar mais ciente da importância de não subestimar os alertas.

O Centro Nacional de Previsão Ambiental dos Estados Unidos observou que a semana passada foi a mais quente já registrada no planeta. É o resultado do aquecimento global, causado pelas mudanças climáticas, junto ao retorno do fenômeno El Niño. São repetidas as advertências de cientistas de que a humanidade deve esperar pela ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos - que levam a desastres naturais como alagamentos, enxurradas, quedas de barreira, deslizamentos e vendavais. Outro grupo de estudiosos voltou a afirmar, no início da semana, que a Terra ingressou no chamado Antropoceno, era geológica caracterizada pela influência da ação humana sobre o planeta.

No Rio Grande do Sul, períodos de El Niño levam a chuvas mais volumosas e duradouras, principalmente no inverno e na primavera. É imperioso, portanto, que sociedade e poder público compreendam e ajam no sentido de melhor se precaver para evitar a perda de vidas, minimizar prejuízos materiais e mesmo transtornos urbanos típicos de temporais e fenômenos do gênero. Em outra frente, mas também ligada ao tema, a Assembleia gaúcha aprovou, na terça-feira, projeto de lei que agiliza o repasse de apoio financeiro a famílias afetadas por situações de calamidade ou emergência ocasionadas pelo clima. É uma iniciativa que faz parte deste amadurecimento.

Mesmo que a preparação desta vez tenha sido mais satisfatória em relação ao ciclone extratropical de junho, ainda há o que evoluir em termos de pronta resposta, especialmente em serviços de utilidade pública e remoção definitiva de famílias moradoras de áreas de risco. Desdenhar da fúria da natureza potencializada pela ação do homem será cada vez mais uma péssima aposta.


14 DE JULHO DE 2023
PASSAGEM DE CICLONE

Morte,destruição e alerta de inundações

Áreas dos vales e Alto Uruguai estão entre as mais vulneráveis a possíveis alagamentos no Estado

A passagem de um novo ciclone extratropical sobre o Rio Grande do Sul - o terceiro em menos de um mês - resultou em uma morte e 23 feridos, atingiu com maior força 51 municípios de diversas regiões e mantém o Estado sob suspense.

A amplitude geográfica do fenômeno, com chuva forte e rajadas de vento superiores a 100 km/h, surpreendeu as autoridades e motivou a Defesa Civil a emitir alerta de risco de inundação para todas as áreas do Estado, o que pode se confirmar ao longo das próximas horas ou dias, a depender do ritmo de elevação dos rios em pontos como o Alto Uruguai e os vales do Caí, do Taquari, do Sinos e do Paranhana.

A mais recente onda de tempestades a penalizar os gaúchos chegou a deixar 790 mil consumidores sem energia elétrica no final da manhã de ontem, destelhou pelo menos 5 mil casas e bloqueou total ou parcialmente 10 rodovias, além de derrubar árvores sobre vias urbanas e motivar o cancelamento das aulas na rede estadual.

A Corsan relatou problemas de abastecimento de água (causados pela falta de energia) em 32 municípios das regiões Sul, Metropolitana, Serra e Litoral, onde a expectativa era de que a situação se normalizasse até a noite.

No final da tarde, a contabilidade oficial indicava 17,3 mil pessoas afetadas diretamente pela violência do clima, entre as quais 234 estavam desabrigadas (dependendo de abrigo público) e outras 331 se refugiaram com amigos ou parentes.

- Em que pese não ter sido tão agressivo como foi o primeiro, lá em junho (que deixou 16 mortos), é um ciclone também grave e, inclusive, atingiu mais regiões que os dois anteriores. Estamos, hoje, com todo o Estado com alto risco hidrológico e alerta alto da Defesa Civil - afirmou o governador em exercício Gabriel Souza em entrevista coletiva à tarde.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou que o fenômeno teve características incomuns, como a grande abrangência e o fato de ter se formado mais para dentro do continente do que na direção do mar. A Região Sul, onde o vento teria soprado com rajadas de até 140 km/h em Rio Grande, segundo medições extraoficiais feitas pela praticagem da Barra, foi uma das mais atingidas ainda no período entre a madrugada e a manhã de ontem. No mesmo município, Danilo Francisco Porciúncula da Silva, 67 anos, morreu quando uma árvore caiu sobre a casa em que se encontrava, no bairro Maria dos Anjos.

Com o passar das horas, o ciclone rumou para leste e passou a castigar com mais força o Litoral Norte. Antes de ir para o oceano, danificou a estrutura da Festa Nacional do Peixe, em Tramandaí, onde também destelhou 10 casas. Acumulados de até 110 milímetros de chuva continuaram a encher os rios e deixaram em alerta a Defesa Civil.

Em muitas outras cidades, como Porto Alegre, os temporais provocaram obstruções temporárias das vias em razão da queda de árvores, deixaram sinaleiras desligadas e causaram transtornos. O acúmulo de água ou a falta de energia elétrica provocaram restrições nos atendimentos em postos de saúde da Capital, sendo que algumas unidades puderam atender apenas a casos agudos.

Aulas

As aulas da rede estadual foram suspensas em todo o Estado, mas, conforme o Piratini, devem ser retomadas "sob normalidade" a partir de hoje - salvo onde o ciclone tiver provocado danos estruturais que impeçam as atividades.

- A partir de amanhã (sexta), as aulas podem retomar com tranquilidade, normalidade (...). No caso das escolas que tiveram eventualmente avarias, em geral destelhamento pelo vento ou pelo granizo, estamos fazendo diagnóstico e vamos trabalhar para que tenham condições de receber seus alunos. Se ainda estiverem sem condições pelas avarias do tempo, a orientação é de que as aulas ocorram de maneira online - declarou Souza.

O governador em exercício e o coordenador da Defesa Civil Estadual, coronel Luciano Boeira, enfatizaram a importância de a população se manter atenta a eventuais novos alertas de inundação e orientações oficiais. Boeira revelou que as autoridades já trabalham com a hipótese de a situação se agravar.

- Inevitavelmente teremos, sim, inundações em algumas regiões do Estado - afirmou o coordenador da Defesa Civil aos jornalistas.

A recomendação é de que moradores de pontos mais vulneráveis já tomem providências.

- É muito importante que os gaúchos que moram em área de risco possam sair dessas áreas, ir para casas de amigos, conhecidos, ou abrigos identificados pelas prefeituras. A previsão para o inverno deste ano é, infelizmente, de muita chuva ainda em agosto e setembro, o que pode ocasionar outros eventos dramáticos. A mensagem é de que acreditem nos avisos da Defesa Civil - complementou o governador em exercício.


14 DE JULHO DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Shopping sob nova gestão

Colocado à venda há um ano, o Rua da Praia Shopping contratou empresa para gestão operacional e já está com oito novas lojas, conta a diretora Livia Trois, que é da Master Hotéis - rede do Grupo Isdra com 10 hotéis. Ela assumiu recentemente também a administração dos shoppings da empresa. Mas ainda há muitos espaços a ocupar no tradicional empreendimento do Centro Histórico de Porto Alegre, que tem 12 mil metros quadrados e capacidade para 123 lojas em quatro andares. A Lojas Americanas é a âncora, e o McDonald?s foi o primeiro da marca no Rio Grande do Sul.

- Estamos trabalhando com uma empresa especializada no comércio do centro da cidade, a Ponto Pronto, que atuou na Galeria Chaves. Estamos tentando revitalizar a região, que vem se desenvolvendo e sofreu bastante com a pandemia, ficando abandonada por quase dois anos - detalhou Livia ao podcast Nossa Economia, de GZH.

O foco está em lojistas locais e serviços para atender às necessidades do dia a dia dos consumidores. No final de semana, há fluxo maior de turistas do Interior e de fora do Estado, que ficam em Porto Alegre para conhecer o Cais Embarcadero e atrações do Centro.

- São pequenos empreendedores querendo retomar suas atividades. Alguns fecharam pontos de rua na pandemia e agora estão querendo retomar o número de lojas. Ainda estamos em negociação com pontos maiores para o Rua da Praia Shopping - acrescentou a executiva.

Um possível novo parceiro é a rede de supermercados de Santa Catarina Bistek, que poderia assumir o espaço deixado pelo antigo Nacional. Aliás, a Bistek terá um supermercado no Astir Center Mall, o outro shopping do grupo, no qual foi aberta há dois meses uma loja Casco.

- O Bistek tem previsão de inaugurar até o final do ano, está em obras. Eles estão revitalizando todo um andar do shopping. Estamos montando um planejamento estratégico para construir ali um conjunto de lojas voltado um pouco mais para o luxo - diz Livia.

Já na atuação hoteleira, a novidade é um bistrô novo instalado na unidade de Gramado da rede Master Hotéis. Com foco em oferecer vinhos gaúchos, o estabelecimento fechou uma parceria com a Grand Cru, distribuidora especializada na bebida produzida na América Latina.

GIANE GUERRA

14 DE JULHO DE 2023
WIMBLEDON

A um passo da glória

Wimbledon conhecerá amanhã uma campeã inédita. Ontem, a tcheca Marketa Vondrousova e a tenista tunisiana Ons Jabeur avançaram à decisão do Grand Slam britânico e buscarão o título do torneio disputado na grama.

Vondrousova foi a primeira a garantir a vaga na final. Número 42 do mundo, a tenista de 24 anos derrotou a ucraniana Elina Svitolina por duplo 6/3 e se tornou a primeira não cabeça de chave a chegar à decisão desde Billie Jean King, em 1963.

Finalista de Roland Garros em 2019, quando perdeu para a australiana Ashleigh Barty, Vondrousova disputará sua segunda final de Major. Ex-número 1 do ranking mundial júnior, a tcheca venceu dois Grand Slam na categoria, ambos em duplas em 2015. Após passar por duas cirurgias no punho esquerdo desde 2019, Vondrousova ficou quase um ano sem atuar somando os dois períodos de recuperação.

Na segunda semifinal na Quadra Central, a bielorussa Aryna Sabalenka quase fez história ao ficar a dois games de derrotar Ons Jabeur e se classificar para a final, resultado que a tornaria a nova número 1 do ranking. A tunisiana de 28 anos venceu de virada, parciais de 6/7(5), 6/4 e 6/3, em 2h19 min, e decidirá o torneio pela segunda vez consecutiva. Em 2022, perdeu o título para a cazaque Elena Rybakina.

Masculino

A decisão em Wimbledon será a terceira da carreira da tunisiana em um Grand Slam. Também no ano passado, ela foi derrotada na final do Aberto dos Estados Unidos pela polonesa Iga Swiatek,

Hoje serão definidos os finalistas da chave masculina. Às 9h30min, o italiano Jannik Sinner, número 8 do mundo, desafia o sérvio Novak Djokovic, atual vice-líder do ranking da ATP e heptacampeão de Wimbledon. Na sequência, o número 1 do mundo, o espanhol Carlos Alcaraz, encara o russo Daniil Medvedev (3º).

quinta-feira, 13 de julho de 2023

13 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

O carro emprestado

Podemos constatar que uma mulher está disposta a morar junto e somar os trapos quando ela leva o secador de cabelo para a casa do namorado.

Nem chegar com um jogo de malas produziria tamanha convicção. Nem as prateleiras preenchidas com as roupas dela no seu armário garantiriam tamanha certeza.  O secador é o último item para consumar uma mudança espiritual. Mais do que um frete físico, é o princípio do casamento.

Pois ela não aguenta mais sair de cabelos molhados para o trabalho quando dorme em sua casa. Desistiu de improvisar. Desistiu de passar aperto. Desistiu de fingir despojamento. Desistiu de ficar gripada.

Da mesma forma, é possível antever que o namoro irá engatar, que a relação caminha para a estabilidade, que a mulher está verdadeiramente a fim de você quando ela empresta o seu carro. A chave do carro é a aliança do namoro. É uma demonstração de que ela confia em você. Encerrou-se o seu estágio probatório, a perspectiva é pela efetivação.

Ela não costuma transferir o domínio para qualquer um. Até porque o carro é uma extensão da sua personalidade, da sua bolsa, da sua bagunça existencial. Não colocaria alguém dentro de um ambiente de total intimidade se não houvesse reciprocidade. Com um pé atrás, com o freio de mão puxado, jamais realizaria a concessão, evitaria que fuçasse o porta-luvas e descobrisse parte dos seus segredos.

O gesto talvez comece despretensiosamente numa festa, em que ela pede para você voltar na direção por cansaço ou por não desfrutar de sobriedade. Sem perceber, você não é mais carona daquela parceria. Eis o primeiro experimento da união. Tornam-se uma equipe, um bebe e o outro dirige.

Depois, ao comprovar a correspondência nas expectativas da responsabilidade, ela parte para o segundo estágio: ceder o volante longe da própria presença, desejando que você tenha mais conforto para comparecer a algum compromisso.

- Vai no meu carro! Lembro que, após um mês saindo comigo, Beatriz fez questão de que eu usasse seu automóvel. - Não vou precisar - ela insistiu. Naquele momento eu vi que tínhamos futuro. Representou um gesto de grande respeito, uma amostra da nossa cumplicidade. Logo raciocinei: dividir o carro já é dividir a vida.

Pena que o Punto dela morreu numa ladeira. A embreagem emperrou. Foi aquele escarcéu de parar o trânsito, suar frio com as buzinadas atrás de mim, localizar o triângulo no porta-malas cheio de cadeiras de praia e guarda-sóis, chamar o seguro e o reboque.

Ela até hoje supõe que eu estraguei a sua embreagem com os meus pés pesados. Não acredita que se tratou de uma casualidade infeliz. Nosso romance vingou, mas nunca mais andei no carro dela. Sequer sou chamado para estacionar.

CARPINEJAR

13 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

A ALTERNATIVA DO ENSINO TÉCNICO

Os resultados do Censo Demográfico de 2022, divulgados há menos de duas semanas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostraram uma velocidade de envelhecimento da população maior do que a esperada. A constatação voltou a suscitar o debate sobre a priorização de políticas para impulsionar a produtividade da economia, em especial do trabalho. É consenso que a chave para esse salto é a educação, com a formação de mão de obra mais qualificada e preparada para a vida profissional.

Um estudo divulgado na terça-feira pelo Itaú Educação e Trabalho demonstra que o Ensino Médio Técnico é uma alternativa a ser mais bem explorada no Brasil para alcançar esse objetivo. É uma opção, como se sabe, mais direcionada à preparação dos jovens para as demandas do mercado. As conclusões do relatório são de que a modalidade eleva a empregabilidade e a renda dos egressos e é capaz de ampliar o potencial de crescimento da economia e de diminuir a desigualdade. Seria aconselhável que os formuladores de políticas públicas se debruçassem sobre o estudo completo, se convencessem da capacidade de o Ensino Técnico alavancar a economia e buscassem formas de viabilizar a ampliação da rede.

Deve-se notar, por exemplo, que o Brasil está hoje atrasado nessa caminhada. Apenas 8% dos alunos formados no Ensino Médio saem dos bancos de cursos técnicos. Nos países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a média pula para 37%. Na vizinha Colômbia, chega a 24%. No Chile, o percentual é de 29%. Há, portanto, espaço para avançar.

As conclusões do levantamento do Itaú Educação e Trabalho indicam que os profissionais que passaram pelo técnico no Brasil ganham, em média, 32% a mais em comparação aos formados no Ensino Médio tradicional. A taxa de desemprego é menor: 7,2%, ante 10,2% dos demais. Os economistas responsáveis pelo documento fizeram ainda exercícios para projetar os ganhos futuros. 

Se o número de vagas no Ensino Técnico fosse dobrado, em uma década o PIB poderia crescer 1,34% a mais. Se fosse triplicado, o potencial seria de 2,35%. Como observou em entrevista ao jornal Valor Econômico o economista Sergio Firpo, um dos coordenadores do trabalho, é um empurrão semelhante ao previsto para a reforma tributária. Conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a reformulação dos impostos no Brasil pode fazer a atividade subir 2,39% além do que cresceria se mantido o sistema atual.

Outra descoberta é a de que, entre os formados no Ensino Técnico, é maior a propensão a cursar uma faculdade. Ou seja, cria-se um círculo virtuoso de capacitação, que se traduz em maior produtividade e renda, com os benefícios se espalhando para todo o tecido econômico. No Rio Grande do Sul, onde a transição demográfica ocorre de maneira ainda mais rápida, é um caminho a ser examinado com maior atenção. O Sistema S é um exemplo a ser seguido, mas é necessário ampliar e qualificar a oferta de cursos. 

O Plano Decenal da Educação Profissional e Tecnológica, elaborado e apresentado no ano passado, projeta elevar o número de cadeiras e chegar a 2033 com 115 mil alunos no Ensino Técnico apenas na rede estadual, mais do que quadruplicando o número de matrículas. Um dos desafios é formar professores para assegurar esta futura oferta. Outro é modernizar currículos, conforme a demanda do mercado e as novas habilidades exigidas, sem se esquecer de que, em cada região, os cursos disponíveis devem estar alinhados às características e vocações econômicas locais.