terça-feira, 20 de setembro de 2022


20 DE SETEMBRO DE 2022
NÍLSON SOUZA

Ok, Gugle!

Uma alegoria baseada em fatos reais.

Dona Leopoldina, que não é a Imperatriz Consorte do Brasil, mas apenas uma senhora aposentada de idade indefinida que mora na periferia de Porto Alegre, ainda tem telefone fixo em casa. Por dois motivos, me explica:

- Minha irmã mais velha não sabe usar celular, só me liga pelo fixo. Mas a maior utilidade é quando perco o meu celular pela casa. Aí vou no fixo, ligo para mim mesma e localizo o danado.

É verdade que ela anda um tanto esquecida, mas se mantém bem esperta. Só um pouco inconformada com os novos tempos e os novos costumes em que os jovens vivem tão ligados ao mundo digital que deixam em segundo plano seus parentes analógicos, inclusive pais e mães. Caso de dona Leopoldina. Nenhum dos quatro filhos esteve com ela no seu aniversário, me conta com uma ponta de mágoa:

- Mas todos fizeram chamada de vídeo - acrescenta, como se isso servisse de consolo.

Não consola. Tanto que ela também precisou apelar para um recurso tecnológico para não se sentir tão sozinha na data especial. Tinha aprendido com a filha a questionar a assistente virtual do Google sobre banalidades e curiosidades. Mas desta vez não perguntou sobre tempo e temperatura, nem sobre aquela fila quilométrica do funeral da Rainha Elizabeth. Perguntou sobre solidão:

- Ok, Gugle! Você sabe por que ninguém veio aqui em casa tomar um café comigo? - Sinto muito, não entendi. - Você tem família, Gugle? - Os engenheiros são a minha família. Família é tudo de bom.

- Ah, que ótimo! Filhos engenheiros. Eles costumam ir no seu aniversário? Gostam de bolo de laranja? - Você pode tentar reformular o que disse? - Deixa pra lá. Você pode me contar alguma coisa boa pra me animar? 

- Posso contar uma piada. - Não! Acho que hoje não vou achar graça de nada. Só queria saber porque não recebi nenhum abraço no dia do meu aniversário.

- Não sei ao certo! - Nem eu. Está bem, obrigada. Boa noite, Gugle!

- Boa noite! E dona Leopoldina foi dormir, com o coração apertado e sem respostas satisfatórias para suas angústias. Na manhã seguinte, teve que acionar o telefone fixo para localizar seu celular. Estava no cesto do lixo seco. Ela jura que não sabe como ele foi parar lá.

NÍLSON SOUZA

20 DE SETEMBRO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Sarcófago "secreto" é revelado

O Egito revelou ontem o sarcófago de um alto funcionário real da época de Ramsés II encontrado no sítio arqueológico de Saqqara, ao sul do Cairo. Uma equipe de arqueólogos egípcios da Universidade do Cairo encontrou o túmulo de granito vermelho de Ptah-em- uya, "um responsável de alto escalão" sob o faraó Ramsés II, que reinou no Egito no século 13 a.C., informou o Ministério de Antiguidades.

Ele foi "secretário real, supervisor-chefe do gado e tesoureiro- chefe do Ramaseum", o templo mortuário de Ramsés na necrópole tebana de Luxor, disse Mostafa Waziri, chefe do Conselho Supremo de Antiguidades. O nobre também estaria encarregado "de oferendas divinas a todos os deuses do Alto e Baixo Egito", acrescentou Waziri.

Pirâmides

Saqqara é uma enorme necrópole localizada na antiga capital egípcia, Memphis, patrimônio da Unesco, onde há uma dúzia de pirâmides, sepulturas de animais e antigos mosteiros cristãos coptas. O sarcófago, descoberto no ano passado, foi encontrado "coberto de textos" para "proteger o falecido" e "cenas representando os filhos do deus Hórus", segundo o ministério.

Saqqara tornou-se uma colmeia de escavações. Só este ano, o Egito revelou 150 estatuetas de bronze, cinco túmulos antigos e mais de 50 sarcófagos de madeira que datam do Novo Império, que terminou no século 11 a.C.. O Cairo pretende usar essas descobertas para revitalizar sua indústria de turismo, vital à economia egípcia.

A cereja no topo do bolo será o Grande Museu Egípcio, aos pés das pirâmides, cuja inauguração está atrasada há algum tempo e aspira a tornar-se, quando abrir, o "maior museu arqueológico do mundo".

segunda-feira, 19 de setembro de 2022


19 DE SETEMBRO DE 2022
EM CASA

Em memória ao longevo reinado de Elizabeth II

Obras disponíveis no streaming retratam a ex-monarca do Reino Unido

Parte do mundo vai parar hoje para um último adeus à Rainha Elizabeth II, cujo funeral chega ao fim nesta segunda-feira em uma cerimônia com a presença de líderes mundiais a partir das 7h (horário de Brasília), na Abadia de Westminster, em Londres.

Com um reinado que se desenrolou por 70 anos, o mais longevo da história do Reino Unido, Elizabeth viu ainda em vida sua figura ser retratada - com diferentes níveis de fidelidade - em séries, filmes e documentários sobre ela e a sua Família Real.

A produção mais emblemática, sem dúvidas, é o consagrado drama The Crown, da Netflix, atualmente caminhando para sua quinta temporada, que segue os passos da monarca desde sua ascensão ao trono até os dias atuais (a mais recente temporada trouxe à tona os escândalos da década de 1980). Claire Foy e Olivia Colman interpretam a protagonista na série.

Outra obra inspirada na vida da monarca que deixou sua marca foi Rainha (2006), de Stephen Frears, disponível para streaming no StarzPlay. Em papel que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, Helen Mirren dá vida à Elizabeth II nos dias que se seguiram à trágica morte da Princesa Diana, quando a opinião pública se voltou contra a Casa de Windsor em solidariedade à "princesa do povo".

Já um retrato mais lisonjeiro da rainha pode ser visto em A Noite da Realeza (2015), de Julian Jarrold, ambientado no chamado Dia da Vitória - 8 de maio de 1945 -, quando os Aliados anunciaram a vitória sobre a Alemanha, dando fim a Segunda Guerra Mundial na Europa. Na trama, inspirada em um episódio real da vida da monarca, Elizabeth (Sarah Gadon), então com 19 anos, escapa do Palácio de Buckingham ao lado da irmã, Margaret, para testemunhar, a paisana, a celebração que se espalha por toda a noite londrina.

Por fim, o documentário Elizabeth: A Rainha Por Trás da Coroa (2021), de Roddy Williams, disponível no Globoplay, utiliza imagens de arquivo raras para apresentar o lado desconhecido da ex-líder britânica, explorando sua vida como mãe e esposa.


19 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Nenhuma rua para Caio Fernando Abreu?

Um projeto de autoria da vereadora Comandante Nádia (PP), aprovado na Câmara Municipal, autoriza a mudança do nome da Rua 4006, extensão da Rua Odília Feliciano de Souza, na Vila Orfanotrófio, para Olavo de Carvalho, recém-falecido filósofo e astrólogo.

Não vejo nenhuma ligação de Olavo com Porto Alegre. Nenhuma conexão da sua obra com o Rio Grande do Sul. E, se tivesse algum tributo, não seria auspicioso, tendo em vista alguns de seus ácidos títulos, como O Imbecil Coletivo ou O Mínimo que Você Precisa Saber Para Não Ser um Idiota.

Ser mencionado por Olavo de Carvalho corresponde a apanhar, a ser criticado, a ser debochado. Ele não fazia elogios a lugares ou pessoas. Sorte de a capital gaúcha estar fora de seu catálogo de inimizades.

Não se trata, portanto, de um reconhecimento a algum representante ou líder com trabalho de evidente identificação com as nossas raízes, mas de um expediente de motivação eleitoral, para ratificar as ideias do ideólogo de Jair Bolsonaro - presidente este que é a preferência política da Comandante Nádia, candidata ao Senado.

A proposição-paraquedas a um pensador paulista, que morou grande parte de sua vida nos Estados Unidos, sofreu contundente oposição dos moradores. Um abaixo-assinado virtual organizado pela comunidade já reuniu 15 mil assinaturas contrárias.

Eu fico pensando o quanto existem lacunas mais urgentes a ser preenchidas em nossas placas azuis das esquinas, o quanto personalidades ilustres estão sendo esquecidas, o quanto sólidas referências intelectuais do nosso Estado ainda não receberam um olhar carinhoso por parte dos vereadores. O exemplo mais gritante é Caio Fernando Abreu, um dos maiores escritores brasileiros. Nasceu na Região Central, em Santiago, e escolheu morrer em Porto Alegre, depois do diagnóstico de HIV, doença letal naquela década de 1990.

Autor de clássicos como Morangos Mofados e O Ovo Apunhalado, Caio teve sua ficção adaptada para o cinema, para a televisão e para o teatro, foi três vezes premiado com Jabuti, traduzido para vários idiomas, consagrado pela crítica como um dos responsáveis pela modernização e urbanização da linguagem no romance e no conto e se tornou leitura obrigatória de qualquer concurso vestibular no país.

Existe todo um acervo dedicado ao seu trabalho na PUCRS, com objetos pessoais como máquina de escrever, laptop, correspondências, clipping, livros, fotografias, datiloscritos e manuscritos, mas não há em Porto Alegre uma rua com o seu batismo, uma viela, uma praça, um viaduto, uma passarela, uma escola, mesmo após 26 anos de seu falecimento.

Isso que ele sempre falou bem de Porto Alegre, e do Menino Deus em especial, bairro em que morou e escreveu seu último livro, Ovelhas Negras, e onde cultivava roseiras e delicadezas.

Já basta o escárnio da destruição de sua residência em estilo espanhol, na Rua Doutor Oscar Bittencourt, nº 12, expondo a completa falta de iniciativa para o merecido tombamento histórico.

Eu me recuso a acreditar que a omissão é consciente, que o lapso é planejado, que tudo é feito propositalmente como boicote a quem lutou pela diversidade e pelas minorias.

CARPINEJAR

19 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

A FORÇA DO EXEMPLO

O exemplo é como um modelo a ser seguido. Espalhados pelo Estado, existem cidadãos, entidades e instituições que vêm conseguindo ajudar outras pessoas a superar dificuldades e obstáculos e são inspiração por alcançarem seus sonhos. Têm o mérito de irem além da boa ideia. Pretensões beneméritas ou anseios pouco contribuem se permanecerem no campo das intenções, sucumbindo às primeiras adversidades. Mas são dignas de reconhecimento as ações que não se rendem a entraves e à inércia e, colocadas em prática, atingem resultados tão admiráveis que acabam replicadas, multiplicando os benefícios propostos ou servindo de estímulo a outros.

Zero Hora começou a publicar, na superedição (17-18/9), a série "RS que é exemplo". A primeira história apresentada foi a do projeto que nasceu pelas mãos do promotor de Justiça Criminal de Osório, Fernando Andrade Alves, em 2020, no início da pandemia. Alves soube do apelo de uma escola de Maquiné, também do Litoral Norte, que pedia celulares para os alunos mais carentes terem condições de continuar os estudos no período de salas de aula fechadas. 

Junto a colegas, e com adesão do Judiciário, da Polícia Civil e da sociedade, colocou em pé a ideia de utilizar smartphones apreendidos com detentos da Penitenciária Modulada Estadual de Osório. Assim, aparelhos com grandes chances de estar contribuindo com o crime acabaram sendo empregados na nobre tarefa de fazer com que mais estudantes continuassem a receber conteúdos da escola e acessarem as aulas online. A experiência exitosa logo se espalhou.

No ano passado, o projeto foi abraçado pelo Ministério Público e institucionalizado. A rede de solidariedade cresceu e hoje quatro universidades - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Universidade Regional Integrada (URI), Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) e Universidade de Passo Fundo (UPF) - atuam na recuperação dos aparelhos recolhidos no sistema penitenciário de todo o Estado, para que sejam usados de forma construtiva. Aos poucos, a iniciativa batizada de Alquimia II também ultrapassa fronteiras e começa a ser levada a outros Estados.

A série "RS que é exemplo", com reportagens de Aline Custódio e Isabella Sander, narrará outras nove histórias de personagens e iniciativas, em áreas como educação, tecnologia, ambiente e turismo, que mostram ser possível fazer a diferença para a construção de uma sociedade mais próspera, solidária e colaborativa. As reportagens serão publicadas nas superedições de Zero Hora. No próximo fim de semana será contada a trajetória do jovem que saiu de Gravataí para levar a robótica ao mundo.

Ao dar visibilidade a estes feitos notáveis, o Grupo RBS tenta contribuir para o desenvolvimento social e econômico do Estado. Conhecer experiências exitosas pode ser inspirador e fator motivador para que ideias já existentes em algum canto do Estado possam ser reproduzidas e ganhem escala. Tem ainda o potencial de fazer com que sonhos, à espera de um impulso, ganhem o encorajamento que falta para se tornarem realidade. 


19 DE SETEMBRO DE 2022
CLÁUDIA LAITANO

Reconstituição

Houve uma época em que quase todo mundo assistia ao Jornal Nacional - nem que fosse para falar mal depois. O telejornal da Globo era mais ou menos como o almoço de domingo da família. Você até podia reclamar da falta de variedade (ou da qualidade) do cardápio, mas era ali que a conversa acontecia.

Nos últimos tempos, o Jornal Nacional perdeu boa parte da liderança isolada na sala de jantar da família brasileira. Hoje existem outras emissoras, outros jornais e novas plataformas, que mudaram a linguagem e a maneira como as notícias são consumidas. O problema não é variar as fontes de informação, mas trocar o jornalismo profissional, com todas as suas falhas e todos os seus méritos, pela reiterada distorção da realidade. Para os que praticam uma espécie de simulacro de jornalismo, insistir que a Terra é plana ou que as vacinas não funcionam é apenas uma questão de gosto, uma mercadoria a mais num balcão de ofertas em que o valor da farsa e o da apuração séria se equivalem.

Assisto ao Jornal Nacional desde a época em que o Cid Moreira era galã e a Glória Maria estava começando na profissão. (Não perdi o hábito nem quando mudei de país, há pouco mais de um ano.) Em todo esse tempo, nunca assisti a uma série de reportagens tão oportuna, tão urgente e tão bem realizada quanto a que vem sendo exibida neste mês de setembro, sobre a Constituição.

O objetivo dos 23 episódios da série "Brasil em Constituição" era mostrar como a Carta Magna afeta a vida cotidiana de cada um dos brasileiros. Ao examinar de perto as diferentes conquistas da Constituição de 1988, a série acabou se tornando uma comovente - e histórica - celebração da democracia, no momento em que ela está mais ameaçada. É como se os brasileiros precisassem ser lembrados não apenas do que se construiu até aqui, mas de que é possível, com algum esforço, continuar construindo e continuar sonhando com um futuro menos fraturado.

Esse momento de "reconstituição" da autoestima do país precisava do prestígio e da audiência do Jornal Nacional para ganhar alcance e repercussão na sala de jantar da família brasileira. Há muita coisa a ser feita (e refeita) a partir do ano que vem, mas voltar a ter algum otimismo com relação ao futuro do país não é luxo ou fantasia: é questão de saúde mental.

CLÁUDIA LAITANO

19 DE SETEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Só dá elas

O Acampamento Farroupilha da Capital é liderado por um timaço de mulheres: Liliana Cardoso, presidente da comissão municipal dos festejos de 2022, Vera Aguiar, patrona do evento, Waleska Luchsinger, prefeita do parque, e Carla Deboni, à frente da concessionária GAM3 Parks, responsável pela área.

Nem só de churrasco e de chimarrão vive o gaúcho instalado no Acampamento Farroupilha de Porto Alegre. Se você observar bem, vai reparar que até campeonatos de truco são realizados nos galpões erguidos no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho.

Trata-se de um jogo de cartas peculiar (com muito blefe e alguma gritaria), praticado, principalmente, em países da América Latina e em regiões da Itália e da Espanha. Por aqui, é um dos preferidos entre os regionalistas - e, claro, uma tradição no Parque Harmonia.

Piquetes como o Alma Campeira (veja as fotos acima) costumam lotar nessas ocasiões e atrair um público fiel.

- Tem gente que joga há décadas. Eu comecei em 2005 e não parei mais. Até viajo para participar de jogos em outras cidades. Faço questão de voltar ao Acampamento Farroupilha todos os anos - conta o advogado Felipe Falkowski de Souza, do Trio Birisgui, vencedor da competição organizada pelo piquete.

Torneiras com história

Para marcar o 20 de Setembro, o Dionisia - bar de Porto Alegre com 64 torneiras de vinho - decidiu incluir na seleção, de hoje até quarta-feira, quatro rótulos especiais, produzidos em locais ligados à história da Revolução Farroupilha. Entre eles, estão marcas de municípios como Piratini (que foi uma das capitais farroupilhas) e Santana do Livramento (palco de embates sangrentos e quartel-general de David Canabarro). É uma forma criativa de valorizar produtores locais e, de quebra, nossa cultura e história.

INFORME ESPECIAL

sábado, 17 de setembro de 2022


17 DE SETEMBRO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Em defesa da família

Virou promessa de palanque conservador: "em defesa da família!". De todas, eu espero, mesmo que insistam em falar de família no singular, como se só existisse uma. A Jussara, por exemplo, cria dois filhos sozinha. O mais velho dá uma olhada no menorzinho quando ela precisa ficar no trabalho até mais tarde. Ela é empregada doméstica. Que bom que o governo se preocupa com ela.

O Rodrigo se casou com o Lucio e eles adotaram duas crianças. Mas o Lucio morreu de covid antes que as vacinas começassem a ser distribuídas. Hoje o Rodrigo cria os bebês com a ajuda da irmã, mas não é fácil. Ainda bem que o governo está em defesa dele, combatendo o preconceito.

A Tatiana fez 40 anos e não se casou, mas queria muito ser mãe. Fez uma inseminação e veio a Bia, que hoje tem quatro anos e é a melhor filha que se poderia desejar, as duas se divertem, se completam e Tatiana está se saindo uma perfeita mãe solo. Imagino o orgulho que o governo sente dela.

Quando a bela e submissa Nadine estava grávida de seis meses, Guto, que era o provedor da casa, morreu. Nadine deu à luz uma menina linda e doentinha. Os medicamentos foram ficando cada vez mais caros, os parentes sumiram e ela passou a aceitar a ajuda de um senhor, em troca de pequenos favores. O governo estará aqui para o que você precisar, Nadine.

Os gêmeos Carla e Claudio tinham 14 anos quando os pais se separaram. A mãe voltou para o Interior, enquanto o pai foi procurar trabalho no norte do país. Cada um levou um filho. Ainda bem que o WhatsApp ameniza a distância dos irmãos e que os políticos zelam por todos.

O filho da Gisela não teve uma infância fácil. O pai não aceitava que ele fosse mais sensível do que os outros garotos do bairro. Quando soube que ele se identificava como menina e iria trocar de nome, deu uma surra no coitado, mas não adiantou nada. Hoje a Gisela tem uma filha em vez de filho, e o ogro se mandou. Fico tranquila em saber que o governo se sensibiliza e ajuda a conscientizar as famílias sobre as pessoas trans.

Helena e Ricardo têm um filho gay e uma filha especial, ambos adotados. Sonia e Vivi moram juntas e não pretendem ter filhos. Juarez e Monica também não, mas estão pensando em ter mais um cão - já têm dois. Julio mora com os pais até hoje, mesmo tendo 47 anos. Renato, Rosa e Milton se amam e se mudaram para um sítio. Regina e Valter nunca oficializaram a união. Sergio mora em São Paulo e Virginia no Rio, desde que se casaram, há 12 anos. Marina foi trabalhar na Espanha e deixou os dois filhos com Marcos, mas visita-os sempre que pode. Que alívio que o governo está em defesa de todas essas famílias. Agora só falta citá-las no plural.

MARTHA MEDEIROS

17 DE SETEMBRO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Dignidade é para quem tem

O colunista semanal é aquele que, quase como regra, deve encontrar um tema atemporal, que resista à passagem dos dias e dos acontecimentos para não chegar à data de sua publicação com uma coluna demodê. O diabo é que alguns casos ficam na cabeça e, quando a gente vê, já estão na ponta dos dedos, virando texto.

Isso embora tudo de mais interessante e inteligente já tenha sido dito sobre o assunto.

Sim, me refiro à senhora das marmitas. A que pararia de receber comida por votar em um candidato diferente daquele do rotundo empresário que, até então, fazia a - digamos - caridade. História que deve acontecer seguido com as pessoas mais humildes, essa da troca de voto por alguma coisa, trabalho, um canto, remédio, comida. Direitos que deveriam ser de todos, independentemente de qualquer condição.

De tudo o que li e ouvi sobre esse triste caso, o que mais me tocou foi dito por Reinaldo Azevedo, jornalista que não se identifica com a esquerda e, muito menos, com a barbárie. Pausa para dizer que, junto com Pantanal, o programa do Reinaldo, que acompanho no YouTube, é meu segundo vício. Bem, tenho outros, mas esses dois são diários.

Reinaldo citou a filósofa alemã de origem judia Hannah Arendt, cuja foto está na estante lotada de livros que fica às costas dele, no escritório onde o programa é gravado. Estante mesmo, não o tapume fake que serve de cenário para alguns.

É de Arendt o conceito de "banalidade do mal" que, muito superficialmente, designa a multidão que apenas segue a onda, sem fazer grandes julgamentos morais. Mais ou menos o que a sábia filosofia popular brasileira conceituou como "gado".

Essa falta de julgamento moral significa que, na vida real, o mal não é propriedade de supervilões ou de psicopatas do crime, como se vê na ficção. O sujeito que é um bom pai, um marido carinhoso, um filho respeitoso, um tio engraçado, pode ser mau na forma como trata quem não faz parte de suas relações mais próximas. O porteiro do prédio, o garçom, a moça da limpeza, a senhora que precisa de uma marmita.

Talvez o empresário que fez aquela presepada seja um sujeito bonachão, até bom em suas relações mais próximas. Talvez seja um ser humano lamentável apenas com quem não conhece. O que faz dele um ser humano lamentável em todos os aspectos, na minha modesta opinião.

Ah: embora empresário, o sujeito embolsou o auxílio emergencial até novembro do ano passado. E não demorou a gravar um novo vídeo se dizendo arrependido por ter gravado o primeiro vídeo - não por seu ato deplorável.

Sobre a mulher, que mora com três filhos e os cachorros que resgata em uma peça que ergueu com as próprias mãos, que lição de dignidade deu ao bem-alimentado ser que a humilhou. Disse que não pensa em processá-lo, o sujeito já está pagando com a exposição e as consequências de sua atitude.

E pensar que foi ele mesmo quem postou o malfadado vídeo que virou sua vida de cabeça para baixo. Como diz Hannah Arendt, há quem apenas faça, sem grandes preocupações com o que é certo ou errado, com o que é ou não moral.

A falta de empatia e compaixão de uns e outros está aí para comprovar.

CLAUDIA TAJES

17 DE SETEMBRO DE 2022
RELACIONAMENTO

Do desejo à vingança CONVERSAR É FUNDAMENTAL

Terapeutas explicam por que o "sexo de reconciliação" é considerado tão excitante

Então, não custa ressaltar: só porque vocês transaram não significa que o conflito foi resolvido, alertam as psicólogas. - Achar que está tudo bem é uma falsa ilusão de entendimento. O diálogo é imprescindível para o bom funcionamento de um relacionamento. Nesse caso, o sexo veio a serviço de desviar atenção, terminando com a discussão. É só uma transferência temporária, porque vai voltar. Tudo que não resolvemos, volta - diz a psicóloga e terapeuta sexual Laura Meyer.

Por isso, é claro, não é recomendado que se provoque uma briga para conseguir esse tipo de excitação.

- Em casais com relacionamentos disfuncionais, se esse tipo de solução se repete com frequência, pode gerar culpa, insatisfação, mágoas, ressentimentos. Com isso, a relação vai se desgastando até chegar ao ponto de terminar - acrescenta Laura.

Na literatura, em letras de músicas e no cinema não raro é enfatizada a ideia de que amor e raiva andam lado a lado. A psicóloga especialista em terapia sexual Jamile Peixoto Pereira questiona se, na vida real, esta combinação se sustenta, principalmente, após alguns anos de convivência.

- Pode ser que, em determinadas situações, possa apimentar a relação, mas não pode se tornar um hábito. É preciso entender o que aquela necessidade de reconciliar para transar está querendo sinalizar, o que está por trás. Pode ser uma pista de que a relação precisa ampliar o repertório, ajustar a comunicação e aprender a curtir o sexo como um processo, uma construção erótica, uma química que precisa de constantes investimento, dedicação e atenção - conclui.

Famoso por ser intenso e vibrante, o sexo de reconciliação (aquele que põe fim ou ao menos dá uma trégua a um conflito) costuma excitar quem busca emoção na relação a dois. Mas, afinal, por que a intimidade após uma briga traz tantas sensações contraditórias? E, com o passar do tempo, este hábito pode ser prejudicial?

Para a psicóloga e terapeuta sexual Laura Meyer, este tipo de relação traz à tona as lembranças do início do relacionamento.

- Gera muito prazer pelo alívio em restabelecer a relação, reforçando o vínculo do casal, pois é o medo de perder a pessoa que desencadeia esse processo. Muitas vezes, serve para interromper a briga ou porque a sensação de raiva provoca excitação sexual - avalia.

Neste contexto, é comum o sexo acontecer em um "misto de amor e ódio", explica a terapeuta, e aí pode ser mais violento.

- Podemos pensar em vingança, uma atitude sádica da parte de quem está com raiva e masoquista do outro, que aceita. É um exemplo do que pode acontecer. Nem todo sexo de reconciliação tem o mesmo motivo. A origem não é a mesma para todos - ressalta.

Também há situções em que ele marca a volta do casal depois de um período de separação.

- Nesse caso, costuma ser mais intenso, porque eles estavam com saudade um do outro, ficaram muito tempo sem transar. Procuram então compensar, dando o seu melhor - afirma Laura.

O sexo deve ser consequência de uma conexão íntima, um resultado do equilíbrio entre expressão de desejos, construção de erotismo, sensações de prazer e diálogo, que permita comunicar ao outro fantasias, vontades e satisfações, defende a psicóloga especialista em terapia sexual Jamile Peixoto Pereira. Por isso, a prática de transar após uma briga não pode ser um hábito.

- O sexo de reconciliação entra como uma resposta a algum nível de conflito, em que se aposta que uma certa "química" sexual intensa poderia dar conta de solucionar. Como prática em si, pode até excitar alguns casais e, momentaneamente, aumentar a energia sexual. A questão é a manutenção desta prática como um processo de habituação, em que para a excitação seja fundamental um conflito. Assim, sempre se fará necessária a criação de uma discussão, uma briga ou um rompimento para que o tesão possa ascender e o sexo acontecer - alerta a especialista. 

*PRODUÇÃO: LUÍSA TESSUTO

17 DE SETEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Mudei o nome. Poderia parecer ofensivo. O homem nos esperava no aeroporto. Era o motorista designado para um grande evento no Sul do País. Idade? Não erraria muito quem lhe atribuísse algo na casa dos 75 anos. Formal ao extremo, indicativo de uma data de nascimento mais próxima do Estado Novo.

A idade, com frequência, costuma vir acompanhada de um uso generoso de "senhor" e "com licença". Eventualmente, como no caso do nosso motorista, um declínio acentuado da capacidade auditiva. Desafio maior: o uso de recursos modernos de localização de um endereço.

O escritor Umberto Eco, com sentido um pouco diferente, trouxe a metáfora de duas tribos: os "apocalípticos" e os "integrados". A tecnologia deixa pessoas de mais idade confusas. Seriam os "apocalípticos" aqueles que não se adaptam aos aplicativos e que sentem com inquietação um universo no qual ir à padaria implica um programa para localizar endereços (e um cartão de aproximação para o pagamento)?

Nosso motorista era um não integrado. Lembro-me de outro senhor, há alguns anos, que fazia rascunhos do e-mail, à caneta, e depois passava para o computador.

Até hoje há quem não domine a nova etiqueta que obriga a mandar uma mensagem prévia para perguntar se pode ligar. Os mais velhos ligam à queima-roupa, causando sustos nas pessoas mais jovens. Um celular tocar sem algo anterior no WhatsApp é crime de lesa-pátria para os que possuem mais colágeno. Aliás, nas mãos de um adolescente, o aparelho celular faz tudo, menos ligar.

Volto ao seu Antenor (que a cara leitora e o dileto leitor já sabem ser nome fictício). Ele colocou o endereço no aplicativo e aceitou o primeiro trajeto. Acontece que a rua celebra um nome famoso da história e repete-se em diversas cidades. São sutilezas da modernidade.

Com sorte, chegaremos à idade do seu Antenor. Os aparelhos já são um desafio para quase todos nós. Então, com certo ar de "vendetta" histórica, seremos, a cada ano, mais próximos do seu Antenor. A tecnologia é uma máquina de exclusão etária, exige um afeto e dedicação que parecem diminuir à proporção do fim do colágeno. Nós, mais velhos, vamos perdendo o desejo de mudar de aparelhos e de procedimentos.

Seu Antenor é o futuro de todos. Tenho de pensar nisso para ter mais esperança com as pessoas que lutam com o Waze... São apenas a vanguarda do que nos aguarda, com alguma sorte.

LEANDRO KARNAL

17 DE SETEMBRO DE 2022
EUGÊNIO ESBER

O FISCO E A GALINHA

O ministro Paulo Guedes, que exibe um dos mais notáveis desempenhos entre ministros da Economia de um mundo colapsado pela pandemia e por uma guerra no Leste Europeu, afirmou em evento com empresários e executivos do setor automotivo uma diretriz que merece a reflexão de todos. Sustentou ele, na verdade reiterou, a disposição de simplesmente eliminar da vida brasileira o Imposto Sobre Produtos Industrializados, o IPI - tributo que em sua opinião deveria se chamar ICPI, ou "Imposto Contra Produtos Industrializados". 

Para ilustrar o que vê como um absurdo a conspirar contra os esforços de reindustrialização do país, Paulo Guedes fez uma frase curta e autoexplicativa. "A empresa nem começou a produzir ainda e já está devendo." Devendo impostos, quis dizer.

A manifestação do ministro me transportou ao início da década passada. Em um seminário da revista Amanhã para premiar as 500 maiores empresas do Sul, ouviu-se o então presidente do Conselho de Administração da Gerdau, Jorge Gerdau Johannpeter, descrever as peripécias do empreendedor para ir em frente enquanto escuta, em seus calcanhares, o rosnar do fisco babando de volúpia e impaciência. "É um sistema antidesenvolvimento: se você vai construir uma fábrica, já paga impostos desde a aquisição dos equipamentos, o que não faz sentido nos países desenvolvidos, onde o empreendedor é incentivado a usar força máxima dos seus recursos para o investimento que vai fazer", compara Johannpeter.

É claro que a extinção do IPI não terá, por si, o mágico efeito de promover um boom industrial, e terá de vir acompanhada por medidas que o próprio ministro vem defendendo, como a mudança na matriz de transporte em favor de hidrovias e ferrovias, já em curso, e a criação de condições para uma oferta abundante, e sobretudo barata, de energia. Até mesmo no campo tributário, a importância do IPI é relativizada por experts como o advogado Milton Terra Machado, que é enfático em sugerir que há tributos mais relevantes para aliviar o fardo fiscal que pesa sobre os ombros de quem tenta produzir, caso da Cofins, por exemplo. 

Mas é alentador ver que desde 2019 Guedes e seus assessores colocam em prática um esforço contínuo para reduzir ou mesmo zerar o IPI e outros impostos federais em milhares de itens. E, mais auspicioso ainda, é a constatação de que aliviar a carga de tributos sobre empresas e sobre famílias vem resultando em aumento de arrecadação, pelo efeito virtuoso sobre os níveis de consumo e investimento - vale dizer, sobre a própria pulsação da economia em geral.

Enfim, e com todas as ressalvas que a cautela impõe, parece estar se demonstrando a validade dos estudos do norte-americano Arthur Laffer, que indicam a possibilidade de um governo arrecadar mais quando modera o seu apetite fiscal e engorda, em vez de matar, a galinha dos ovos de ouro.

EUGÊNIO ESBER

17 DE SETEMBRO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

A ORIGEM DO MAL

Toda filosofia, dramaturgia e literatura sempre se perguntaram de onde vem o mal. Como começa, se infiltra e insinua no coração de uma pessoa, de uma família, sociedade ou país? Por que existe e consegue corromper? De onde vem seu poder? Por que Lúcifer, o anjo mais poderoso, um dia se transformou no demônio?

Toda criança quer saber por que o mal existe. Crescemos, somos adultos, amadurecemos e continuamos nos perguntando a mesma coisa: por que o mal existe?

Em quase em todas as parábolas da Antiguidade, a batalha do Bem contra o Mal cria mitos, santos e heróis. É a base de todas as religiões e de todas as histórias. E continuamos crianças perplexas diante do mistério. Estarrecidas diante do horror, mesmo quando o acúmulo das notícias torna o horror uma rotina.

Talvez a principal chave para compreender tamanha distorção seja o conceito do Livre Arbítrio, um paradoxo dentro de cada ser humano. O Livre Arbítrio, considerado um presente de Deus, nos coloca diante de um dilema: O Destino e a Escolha. Tudo já está escrito ou podemos mudar?

Cada passo apresenta uma encruzilhada e exige uma escolha, uma decisão. Traz responsabilidade e medo de errar. Em cada acontecimento, existe uma cilada, sabemos que viver é muito perigoso.

Todos nós, sem exceção, temos a liberdade para escolher entre o bem e o mal. O poder de decidir entre certo e errado é nosso, o que nos torna responsáveis pelo mal que escolhemos. Por isso tememos tanto a tal liberdade que desejamos.

Se tudo fosse apenas parte do plano de Deus, sem a nossa colaboração, seria mais fácil.

A responsabilidade seria do Criador. Obedecemos um poder maior e nos tornamos vítimas do que nos acontece. Mas nosso destino não é determinado apenas por uma força além do nosso controle. Tá certo que não controlamos as circunstâncias em que nascemos, nem muitas ao longo das nossas vidas, mas temos a liberdade para escolher como respondemos a essas circunstâncias.

O anjo Lúcifer, por exemplo, que era o mais brilhante, fez sua escolha. Seja como Lúcifer, Belial ou o rei Nabucodonosor da Babilônia, Satanás toma muitas formas. O mal existe e tem infinitos representantes no nosso planeta.

O mal distorce valores e corrompe a humanidade desde o princípio dos tempos. Somos cercados de crime hediondos. Assassinatos, violências, abusos contra mulheres e crianças. Contra povos e raças, contra animais e contra a natureza. Destruiremos um planeta, que poderia ser o paraíso, porque é fácil destruir. É preciso um poder muito maior para criar e construir.

Quando criança, aprendi a diferenciar o bem do mal. Muitos anos mais tarde, achei essa divisão dual simplista demais. Seres humanos são mais complexos do que isso. Pessoas têm suas contradições, ninguém é só uma coisa ou outra, cada um tem suas nuances, traz suas razões dentro dessa sociedade doente e distorcida.

Mesmo assim, existe uma diferença clara entre barbárie e civilização, entre ignorância e humanização, e o bem é um processo evolutivo. Resta a pergunta: para onde caminha a humanidade?

BRUNA LOMBARDI

17 DE SETEMBRO DE 2022
J.J. CAMARGO

SLOW FOOD

Umas das primeiras coisas que se aprende na Itália é o quanto esse povo respeita a cultura que faz da refeição uma oportunidade única de congraçamento.

Na primeira visita, com mais coisas pra ver do que tempo para desperdiçar, é comum que se busque para almoçar ou jantar um lugar agradável, limpo e, muito importante, rápido. Uma atitude típica de quem acha que comer é só o jeito de matar a fome. E isso definitivamente não combina com a secular cultura italiana. Tudo deve ser entendido como um ritual, com sequência estabelecida por décadas de tradição e intervalos de espera entre um prato e outro.

No início dos anos 1980, estreamos na Itália e, impressionados com a abundância dos pratos, servimo-nos de uma massa maravilhosa. Estranhamos que só depois dela viesse a salada com verdes e vinagre, ao fim da qual, completamente fartos, pedimos a conta.

Este pedido, que seria interpretado como normal em outros lugares, desencadeou uma reação de indignação em cadeia, em que as esposas (mogli) que atendiam as mesas avisaram aos maridos (mariti) cozinheiros, em um tom de voz agressivo, que eles podiam interromper os pratos de fundo, porque nós não tínhamos gostado da comida. Por pouco não fomos expulsos daquele simpático restaurante com toalha e guardanapos muito brancos, onde ficou claro que a quebra do ritual é um sinal grosseiro de desapreço pelos proprietários.

O racional dessa sequência é dar tempo para a conversação, o que faz da mesa uma espécie de altar de aproximação e fraternidade. E se tudo for regado a um bom vinho, estabelece-se a condição perfeita para o emprego da palavra, não apenas dita, mas muito mais importante, ouvida. A família ou os amigos reunidos encontram neste ambiente o cenário perfeito para compartilhamento das suas alegrias, deboches, risos e, eventualmente, de tristezas e desencantos. Esses sentimentos que definem a vida como uma condição que alternadamente pede que acolhamos ou sejamos acolhidos.

Por conta dessa festejada tradição, a Itália relutou muito em receber a primeira loja fast-food do McDonald?s. O intento de alocá-la logo na Piazza di Spagna, o coração de Roma, mereceu críticas ainda mais ferozes.

Como todos concordam que atentar contra uma cultura enraizada, seja social, política ou religiosa, é sempre uma desinteligência (Salman Rushdie que o diga), entende-se porque a iniciativa de Carlo Petrini, um jornalista italiano que é Embaixador da Boa Vontade da FAO no seu país, foi tão festejada quando criou o movimento internacional do slow food, com várias ações contra o fast food, e logo encontrou tantos adeptos, que se estendeu a Paris e outros grandes centros europeus.

"A comida era, e ainda é, um aspecto essencial das festividades, do convívio, das tradições piemontesas, como cantar e dançar, e assim, crescendo, fui tomando consciência desse aspecto cultural, social, histórico da comida, que começava a ser ameaçado por uma falsa ideia de modernidade", declarou Petrini.

E convenhamos, a cena frequente em restaurantes históricos, em que o noivo ajoelhado pede a sua amada em casamento, requer um ar de solenidade que definitivamente não combina com o grotesco da mordida num Big Mac e o ketchup escorrendo entre os dedos.

A solenidade que envolve uma refeição pode ser uma cortina de delicadeza, protegendo-nos daquelas grosserias do cotidiano apressado que não conseguimos evitar.

J.J. CAMARGO

17 DE SETEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Os efeitos do Acampamento Farroupilha numa mineira

Minha esposa mineira teve três choques culturais ao morar no Rio Grande do Sul: o frio, que achou muito mais severo do que acreditava, a ponto de dormir com bolsas de água quente; o verão, que ela considerou pior do que o inverno, sem trégua na sombra e úmido o suficiente para desmaiar as lagartixas nas paredes; e a fumaceira aos domingos, com as chaminés formando nuvens de churrasco no céu da Capital.

Tanto que ela definia o domingo já na cama, pelo cheiro afrodisíaco de assado. Não precisava consultar o calendário. Então, imagine o que ela pensou do Acampamento Farroupilha, que completa 40 anos e vai até terça-feira. O tema deste ano é Etnias do Gaúcho: Rio Grande, Terra de Muitas Terras.

Enlouqueceu de estranheza quando atravessamos o pórtico de madeira do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho (Harmonia).

Para ela, era como um elo perdido, um set cinematográfico de O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. Só faltava encontrar o Tarcísio Meira para uma selfie. Beatriz não sabia para onde olhar. Eu a percebi completamente  desbaratinada, assustada com os cavalos passando e as tropas de gaúchos pilchados a caráter.

Todo turista vira uma criança perguntadeira no acampamento. - O que é aquela pira? - Chama Crioula. Representa a nossa coragem. Vem do interior do Estado, pelo litoral, trazida numa procissão de cavaleiros.

- Tocha Olímpica? - Quase isso. Nosso esporte é comer bem. - O povo está andando com faca na cintura? - Sim, amor. Mas não tem perigo nenhum. É para o churrasco. A cada final de semana, são consumidos 60 mil quilos de carne.

- O que são essas casinhas? - Piquetes levantados para a festa, são 230 pelo parque inteiro.

- As pessoas dormem nos piquetes? - Tem gente que abandona a sua casa para passar catorze dias vivendo aqui. É um Woodstock gaudério, com shows regionalistas à noite.

- Tipo noite do pijama para adultos? - Só que é o dia da bombacha. - Tipo festa junina? - Não diria dessa forma, ninguém tem chapéu de palha e roupas esfarrapadas.

- O 20 de Setembro comemora o final da Revolução Farroupilha?

- Não, amor, o início. Nós perdemos a guerra separatista contra o governo imperial, e apenas nos interessa lembrar o começo. É como uma história de amor: ninguém quer se lembrar do final, unicamente do princípio feliz.

- O que são esses cantadores? - Trovadores, pajadores, recitam versos de improviso. Nosso maior nome foi Jayme Caetano Braun, que chegou a traduzir a Bíblia para o nosso dialeto.

- Como assim? - Desse jeito: "A maior das gauchadas/ Que há na Sagrada Escritura,/ Falo como criatura,/ Mas penso que não me engano!/ É aquela, em que o Soberano,/ Na sua pressa divina,/ Resolveu fazer a china/ Da costela do Paisano!".

- São repentistas? - Semelhantes, porém nossas rimas são mais quebradas e nosso ritmo mais discursivo, declamado.

Filamos picanha de um CTG, comendo as lascas com a mão, sem nenhum pratinho, depois esquecemos que estávamos com os dedos sujos e nossos rostos ficaram engordurados de carinhos involuntários. Dançamos chula e eu errei mais os passos do que ela, que já cirandava o vestido como uma prenda veterana.

Talvez tenha sido a experiência mais estranha e fascinante do nosso casamento, até porque jamais precisei explicar o que para mim parecia natural. Enxerguei, pela primeira vez, os nossos festejos com os olhos emprestados de Beatriz. Não quero devolvê-los. São olhos mais bonitos do que os meus. Olhos cheios de novidade

CARPINEJAR

17 DE SETEMBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

VIOLÊNCIA E VIOLENTOS

A cada dia, a violência nos cerca como um intruso noturno entrando à luz do sol em nossas vidas. O crime se torna parte do cotidiano, gradativamente, e deixamos até de perceber a violência. Ou nos acostumamos a ela.

Não me refiro apenas aos vis assassinatos, como os feminicídios (que crescem sem parar), mas ao estilo de vida em si. Quase tudo na sociedade atual nos conduz à violência. A falsa música do "tum-tum-tum" (com batidas em vez de harmonia) é ponto de partida para que aceitemos o ruído violento.

Nas crianças, os jogos eletrônicos (que dizemos games, em inglês) são uma competição em que vence quem "mata" mais. Eliminar o outro significa vencer, abrindo portas a matar de verdade na vida adulta.

Mata-se para roubar o celular ou o carro. Dispara-se numa discussão no trânsito. Aumentam os casos de feminicídio, em que o aparente amor de ontem se transforma em ódio mortal. A essa distorção somam-se as mortes por diferenças políticas, frequentes a partir de 2018. Neste 2022, houve no país 26 assassinatos por diferenças políticas, mais do que a soma em todas as campanhas desde a redemocratização.

Como já lembrei aqui, não há pena de morte no Brasil, mas a polícia se arvora do direito de matar. O recente caso de São Gabriel é um exemplo claro desse absurdo no qual a Brigada Militar, de limpa tradição, parece imitar o horror do Rio e de São Paulo.

Dias atrás, em campanha pela reeleição no interior paulista, o presidente Bolsonaro afirmou "ser necessário" armar a população como ato de "legítima defesa", especialmente na zona rural. Esqueceu-se de que superamos a mania, comum ainda no século 20, em que o revólver fazia parte da indumentária masculina?

De parte dos governantes, há ainda a violência de cortar verbas para a saúde ou a educação. Agora, em trágica decisão, o presidente Bolsonaro cortou cerca de 60% das verbas do Programa Farmácia Popular, mas preservou os bilhões do orçamento secreto que os parlamentares do centrão destinam a inúteis obras demagógicas.

Nada, porém, supera a violência do narcotráfico. De um lado, a droga é destrutiva e afeta corpo e mente. De outro, as diferentes gangues do narcotráfico se matam entre si, numa guerra pelo controle de área.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

17 DE SETEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

UM RESPIRO PELA ARTE

Foram tempos de dor e angústia pela pandemia. São tempos de ânimos exacerbados pela divisão política e a eleição que se avizinha. Em meio a dias tensos, nada melhor do que uma oportunidade para descomprimir, como a agora proporcionada pela 13ª edição da Bienal do Mercosul, aberta à visitação do público na sexta-feira. A mostra, que oferece um respiro pela arte, vai até o dia 20 de novembro, na Capital.

A megaexposição, assim como outros eventos, volta a ser presencial. No caso da bienal, presente a cada dois anos no calendário dos mais importantes acontecimentos do Rio Grande do Sul desde 1997, a última no formato tradicional ocorreu em 2018. Esse retorno não deixa de ser um apelo a mais para que a população, não só de Porto Alegre, mas de outros municípios do Estado, seja incentivada a conhecer, contemplar e, especialmente, interagir com as obras, uma das grandes características deste ano. O acervo, geograficamente disperso na cidade, poderá ser apreciado em 10 locais no Centro Histórico e nas zonas sul e norte da Capital.

É um roteiro cultural que, sem dúvida, merece ser apreciado sem pressa e deve encantar não apenas os amantes da arte mas o público em geral, aberto a novas experiências e conhecimentos. A entrada gratuita em todos os locais é mais um atrativo a convidar à visitação, sem esquecer que a Bienal do Mercosul também terá a sua presença notada em um circuito com intervenções urbanas espalhadas pela cidade em ruas, praças e prédios.

O vasto cardápio para se deleitar reúne obras assinadas por uma centena de artistas, de mais de duas dezenas de países. Nomes consagrados se unem a novos e desconhecidos talentos, abrindo espaço a uma nova geração selecionada a partir de uma chamada que financiou 19 projetos que estarão expostos no Instituto Caldeira.

O fio condutor da 13ª Bienal do Mercosul é o tema "Trauma, Sonho e Fuga". Significa que, apesar de o evento ser uma oportunidade de desafogo, inevitavelmente está embebido pelas sensações do período duro e de abalos atravessado pelo mundo nos dias mais críticos da pandemia. "Uma bienal é sempre um reflexo do seu tempo", pontuou em entrevista a Zero Hora o curador-geral da mostra, Marcello Dantas, que no seu currículo tem feitos como a concepção do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Mas retratar o passado recente e o presente não exclui apontar esperanças e caminhos para dias melhores. A técnica, a inspiração, as diferentes formas de manifestação, os materiais diversos, as novas tecnologias e os sentidos que podem ser explorados são os meios de expressar emoções e a infinita criatividade humana a serviço da construção do futuro. Dois mil e vinte e dois é o ano da retomada plena dos eventos, e agora é a vez de a arte ser a moldura dos reencontros. 

OPINIÃO DA RBS

17 DE SETEMBRO DE 2022
MARCELO RECH

A rainha e eu

Se você sofria de enjoo na infância, vai entender. Você tomava aquele ônibus abafado e, depois de alguns minutos chacoalhando, começava o embrulho no estômago. Você suava frio, ficava pálido e sentia aquela náusea aumentando, aumentando, aumentando, até que toda a felicidade do mundo se resumiria a uma parada e ao ar fresco no rosto.

Quem enjoa, guarda de memória os momentos que delimitam o vexame de pôr o café da manhã para fora e a redenção da pobre alma por uma parada salvadora ou sua danação porque ela chegou tarde demais. Uma delas, em 1968, no Rio de Janeiro, produziu minha inglória estreia nos círculos diplomáticos.

Aos oito anos de idade, morava ao sopé do Morro da Urca e voltava de ônibus com minha mãe de Copacabana - para quem conhece o Rio, uma viagem de menos de 20 minutos, suficientes para me deixar verde por aquele jeito tão carioca de pilotar coletivos. Na altura da Avenida Pasteur, Dona Ilse identificou o fiasco iminente e descemos de supetão diante do portão de entrada do Iate Clube. Uma pequena multidão, algo como umas 50 pessoas, se aglomerava ali, à espera de que a rainha Elizabeth II, hospedada em seu iate Brittania, saísse para algum compromisso.

Entusiasmada pela perspectiva de ver a rainha, minha mãe me colocou junto ao cordão de isolamento, em busca de ar. Não adiantou. Quando aquela pobre criança pôs-se a despejar sua refeição na calçada, abriu-se um vácuo na multidão ao mesmo tempo que um Aero Willys cruzava o portão. "A rainha, a rainha!", me sacudia minha mãe. Tudo o que pude fazer foi levantar o queixo babado, os olhos esbugalhados que vislumbraram o relampejo de uma luva branca acenando e, imagino, se cruzaram por microssegundo com os de Sua Majestade. Disgusting. Nunca mais esqueci a passagem da rainha pelo Brasil. Espero que ela tenha esquecido, pelo menos desse episódio.

Quem enjoa, organiza sua vida pela perspectiva do enjoo. Foi assim comigo, o que não me impediu de enfrentar por quatro vezes o Estreito de Drake, o mais tormentoso do mundo, sacolejando no navio antártico Barão de Teffé entre a Terra do Fogo e a Península Antártica. A gente sobrevive, embora com alguns vexames, como na vez em que, com o fotógrafo Silvio D?Ávila, fui cobrir uma manobra da Marinha ao largo da costa gaúcha. Decolamos ao amanhecer de Rio Grande em um helicóptero de combate e voamos cerca de 130 quilômetros oceano adentro em meio a uma tempestade.

Assim que pousamos numa fragata, impecavelmente limpa para receber os jornalistas, fomos levados a percorrer o navio, que praticamente não tem aberturas. O mar revolto, a perda do horizonte, o estômago vazio. Chega. Não quero estragar ainda mais seu café da manhã. Ainda bem que os homens do mar são compreensivos com os que enjoam.

MARCELO RECH