domingo, 18 de janeiro de 2009


VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO
DA REPORTAGEM LOCAL


Estrangeiros fazem aula de "jeitinho" para se adaptar ao país

Treinamento ensina "expatriados" a lidar com a informalidade do brasileiro; pesquisa mostra que Brasil é o quarto pior país do mundo para adaptação

Quando se mudou para o Brasil a trabalho há três anos, a moscovita Marina Nasedkina, 32, não imaginava que a maior dificuldade que encontraria no país seria os brasileiros. Casada com um àquela época, não sabia, como russa que é, que teria de mudar o jeito de ser para se adaptar à vida de estrangeira.

"Na minha terra temos um estilo muito direto. No Brasil as pessoas têm ouvido de cristal." Marina explica: "É falar a verdade na cara. Ofendi e magoei os brasileiros sem saber. As pessoas diziam que eu era mal-educada, tive de mudar".

Para que outros estrangeiros entendam a malandragem e o "jeitinho brasileiro", uma consultora, formada e com mestrado em relações internacionais, dá aulas e treinamento para que esses "expatriados", como ela diz, aprendam a viver em São Paulo e consigam se adaptar ao Brasil e aos brasileiros.

Uma pesquisa da GMAC Global Relocation Services com executivos "expatriados" em 110 países revela que o Brasil é o quarto pior país do mundo para adaptação, atrás apenas de China, Índia e Rússia.

"O primeiro problema é entendimento da informalidade. Isso é muito difícil para o estrangeiro entender", afirma Mariana Barros, 28.

Com 600 "alunos" treinados nos últimos anos -cada um ao custo que varia de R$ 1.000 a R$ 10 mil-, a "professora" Mariana faz um intensivo de dois ou três dias de aulas de história, geografia e cultura brasileira.

Depois, a turma vai às ruas para aprender a andar de ônibus e de metrô, por exemplo. Saem da Sé, passam pelo mercadão, sobem o Terraço Itália, vão à avenida Paulista, à rua Oscar Freire e acabam na Daslu e no shopping Cidade Jardim.

Para o equatoriano Gustavo Diaz, 29, que fez aulas com Mariana, o trânsito e a violência foram os dois maiores problemas. "Tenho o dobro de cuidado que nas outras cidades."

Para a americana Tracy Harrison Peixoto, 39, autora de um guia de São Paulo para estrangeiros, a falta de comprometimento dos brasileiros nas maneiras é uma das primeiras lições a ser aprendida.

"O "jeitinho" é uma coisa que só funciona aqui", diz Tracy, casada com um brasileiro.

ELIANE CANTANHÊDE

Lula lá, Lula cá

BRASÍLIA - No Brasil, Lula anuncia que retirou o aval à emenda que acaba com a reeleição, deixando a impressão de que desistiu definitivamente do terceiro mandato e a avaliação óbvia de que o alvo é o PSDB, onde a emenda acomoda os interesses de Serra e de Aécio.
Lá na Venezuela, o papo é outro.

Ao fazer campanha aberta a favor dos mandatos múltiplos para Chávez, a um mês do plebiscito sobre a questão, Lula defendeu a tese de "três, quatro reeleições", como nos parlamentaristas Espanha, Alemanha e Reino Unido.

Apesar de insistir que não vai cair na tentação, Lula usou uma argumentação enviesada. Vejamos.

Alegou que é a favor da reeleição infinita de Chávez e não da própria, pela idade: "O Chávez é novo ainda, aguenta um novo mandato. Agora eu já tô velho, vou me retirar". Como comparação: Lula tem 62 anos, Dilma, 61, e Serra, 66. Quem é "velho" para mais um mandato?

Outra argumentação: "Na hora que você tiver instituições consolidadas e tiver a liberdade política que o povo quiser, isso [reeleições sucessivas] vai acontecer". Como comparação: será que as instituições brasileiras estão menos consolidadas do que as da Venezuela? E o povo brasileiro tem menos liberdade política para decidir?

Lula, pois, continua brincando de gato e rato com a re-reeleição. Diz que não quer, mas deixa o PT tocar adiante no Congresso. Tira a emenda que possibilitaria a mudança, mas faz uma defesa pública em solo estrangeiro. Argumenta contra, recorrendo a argumentos a favor.

É assim que ele vai brincando, brincando... e sentindo a reação. Se realmente cumprir a palavra, vai de Dilma e esfrega na cara de adversários e de colunistas: "Viu, não disse?".

Se colar, ele saca suas declarações pró-Chávez para alegar "coerência". E lembra: ele tem idade, as instituições estão consolidadas, e o povo tem liberdade.
É brincadeira com coisa séria.

elianec@uol.com.br

sábado, 17 de janeiro de 2009



18 de janeiro de 2009
N° 15852 - MARTHA MEDEIROS


As contradições do amor

Eu estava quieta, só ouvindo. Éramos eu e mais duas amigas numa mesa de restaurante e uma delas se queixando, pela trigésima vez, do seu namoro caótico, dizendo que não sabia por que ainda estava com aquele sequelado, et cetera, et cetera.

Estava planejando terminar com o cara de novo, e a gente sabia o quanto essa mulher sofria longe dele.

Eu estava me divertindo diante desse relato mil vezes já escutado: adoro histórias de amor meio dramáticas. Foi então que a terceira componente da mesa, que é psicanalista, disse a frase definitiva: Eu, se fosse você, não terminava. Às vezes ficamos mais presas a um amor quando ele termina do que quando nos mantemos na relação.

Tacada de mestre.

A partir daí, começamos a debater essa inquestionável verdade: em determinadas relações, ficamos muito mais sufocadas pela ausência do homem que amamos do que pela presença dele.

Creio que vale para ambos os sexos, aliás. Um namoro ou casamento pode ser questionado dia e noite: será que tem futuro? Será que vou segurar a barra de conviver com alguém tão diferente de mim?

Será que passaremos a vida assim, às turras? Óbvio que não há respostas para essas perguntas, elas são feitas pelo simples hábito de querer adivinhar o dia de amanhã, mas a verdade é que mesmo sem certificado de garantia, a relação prossegue, pois, além de dúvidas, existe amor e desejo.

E isso ameniza tudo. Os dois estão unidos nesse céu e inferno. Até que um dia, durante uma discussão, um dos dois se altera e termina tudo. Alforria? Nem sempre. Aí é que pode começar a escravidão.

Nossa amiga queixosa, a da relação iô-iô, perdia o rumo cada vez que terminava com o namorado. Aí mesmo é que não pensava em outra coisa. Só nele. Não conseguia se desvencilhar, mesmo quando tentava.

Todas as suas atitudes ficavam atreladas a esse homem: queria vingar-se dele, ou fugir dele, ou atazaná-lo – cada dia uma decisão, mas todas relacionadas a ele. Só quando reatavam (e sempre reatavam) é que ela descansava um pouco desse stress emocional e se reconciliava com ela mesma.

Eu nunca havia analisado o assunto por esse ângulo. Sempre achei que a sensação de asfixia era derivada de uma união claustrofóbica e a sensação de liberdade só era conquistada com o retorno à solteirice. Mas o amor, de fato, possui artimanhas complexas.

Minha amiga finalmente terminou sua relação tumultuada e hoje está vivendo um casamento mais maduro e sereno. Aquele nosso papo foi há alguns anos, mas nunca mais esqueci dessa inversão de sentimentos que explica tanta angústia e tanta neura. Por que temos urgência de abandonar um amor pelo fato de ele não ser fácil?

Quem garante que sem esse amor a vida não será infinitamente mais difícil? Às vezes é melhor uma rendição do que fugir de um amor que não foi vivido até o fim.

Foi isso que nossa amiga psicanalista quis dizer durante o jantar: não antecipe o término do que ainda não acabou, espere a relação chegar até a rapa, e aí sim.


18 de janeiro de 2009
N° 15852 - PAULO SANT’ANA


Balanço da vida

Eis-me aqui, chegado o fim da noite, a examinar minha vida em todos os detalhes. O que fiz de bem, o que fiz de mal, o quanto tinha de ter feito mais de bem, o quanto tinha de ter evitado de causar o mal.

A verdadeira arte da vida é viver. E não há vida sem sofrer. Não importa que soframos, enquanto estivermos sofrendo temos a garantia de que estamos vivendo.

Tem sido dura a caminhada, mas ela não teria sentido se não fosse penosa, áspera, ingrata, quase intransponível.

Eis-me aqui, passado mais um dia, traçando o balanço da minha vida. É quase um milagre, ainda estou vivo, isto é o que importa.

Estou purificado pela vida, é possível que não tenha atingido meu ideal, nem sei se o tive.

O que interessa é que resisti. E que ainda resta lugar para a esperança.

O que importa é que muitas vezes comovi os outros e ainda tenho forças para continuar me comovendo.

As lágrimas formam os melhores momentos da minha vida. Senti-me humano quando as derramei por dor. Senti-me aproximado de Deus quando as verti por alegria.

Sem as lágrimas, minha vida não teria sentido. Sem as lágrimas de sofrimento, desespero e desamparo que a vida me submeteu, sem as lágrimas de emoção que consegui provocar nos outros, minha vida não teria sentido.

Nem graça teria a vida se não houvesse a ingratidão. Quando topamos com a ingratidão, isso nos deve servir de incentivo a que façamos outra obra de bem.

Não teria graça a vida se não trombássemos com a inveja. A inveja é a mais clara demonstração de que fomos bem-sucedidos.

Infelizes os homens que não conviveram com a inveja, eles podem considerar que suas vidas foram inúteis.

Nem atração nenhuma teria a vida se tivéssemos, como tolamente pretendemos, longos períodos de felicidade. A vida se tornaria mais ainda tediosa do que já o é, se fôssemos ditosos.

Neste fim de noite de intensas reflexões, quase atinjo a verdade da vida: o que me move, o que me sustenta é essa incerteza de como será o dia de amanhã. Isso é que me anima, é possível que amanhã ou depois de amanhã um amigo, um parente, todas as pessoas com quem convivo reconheçam finalmente que lhes quis bem e não fiz outra coisa senão querer-lhes bem, embora não tivesse sido compreendido.

Se eu tivesse que pedir uma última coisa à vida, solicitaria que ela me concedesse antes de morrer que os meus circunstantes reconhecessem que fui um tipo inesquecível.

Mas tem de ser antes de morrer. Para que eu possa morrer em paz. Eu preciso que as pessoas próximas de mim se assegurem de que eu faço falta a elas antes de morrer. Depois de morrer, pouco se me dá que eu faça ou não falta às pessoas próximas de mim.

Mesmo sem esse propósito, construí minha vida na esperança de que eu fizesse falta às pessoas.

Só se os outros sentissem a minha falta, a necessidade de mim, a imprescindibilidade de mim, minha vida teria adquirido sentido.

Eu necessito vitalmente de que as pessoas sintam saudade de mim antes de eu morrer. Eu tenho de ter a certeza de que as pessoas tenham lembrança boa de mim enquanto estou vivo.

Minha vida terá sido um lastimoso fracasso se ninguém sentir falta, saudade ou lembrança de mim. Mas enquanto eu estiver vivo. Depois que eu estiver morto, mesmo os meus sofrimentos e dedicações mais ridículos se tornarão respeitáveis.

Eu almejo respeitabilidade em vida. Só assim considerarei que minha vida valeu a pena.


18 de janeiro de 2009
N° 15852 - MOACYR SCLIAR


O farol de Capão da Canoa

No começo do século passado, viajar para a praia era uma aventura demorada e não isenta de riscos. As pessoas iam de carreta, em parte por causa da enorme bagagem (a viagem era uma verdadeira mudança), mas sobretudo porque não havia outro meio de transporte.

Na minha infância já se podia contar com linhas regulares de ônibus, mas a viagem ainda durava cinco horas, boa parte dela feita pela orla marítima, onde a probabilidade de atolar não era pequena. Mas a nós isso pouco importava. Capão da Canoa, para onde íamos uma vez por ano e por curta temporada, era um território de sonho, e à medida que dali nos aproximávamos crescia nossa excitação. O grande momento ocorria quando, do ônibus, avistávamos o farol.

Faróis são construções antigas. Numa época em que a navegação não podia contar com recursos eletrônicos, os faróis representavam, para os navios, segurança, proteção: na costa muitas vezes distante, ou oculta pelo nevoeiro, alguém estava pensando nos navegantes, alguém estava velando por eles. Na desolada costa gaúcha, na qual os navios não podiam contar com acolhedoras baías, os faróis eram ainda mais importantes, e havia vários deles entre Rio Grande e Torres.

Para nós, contudo, o farol tinha outro significado: mostrava que estávamos chegando, que a nossa viagem enfim terminava. Tendo chegado a Capão, habitualmente íamos até o farol, que naquela época ficava longe (ou pelo menos assim nos parecia) do Centro, ali onde estavam os hotéis, o Bassani, o Rio-grandense, o Atlântico, o Bela Vista.

Era uma boa caminhada. E ali estava o farol, alto, imponente. Não tinha faroleiro, o que sem dúvida faria crescer o fascínio do lugar, porque na ficção os faroleiros frequentemente são personagens enigmáticos, misteriosos, meio malucos até. Mas só o farol já bastava para mobilizar nossa imaginação.

Surgiu a Freeway, e o caminho para Capão já não passava pelo farol. Ao longo dos anos, minhas idas ao lugar foram se tornando mais raras. E mais perturbadoras. Cada vez que eu ia lá o farol estava menor, ou pelo menos assim me parecia. Já não era uma construção imponente; já não era um símbolo. Era o modesto suporte para uma lâmpada, verdade que potente.

Na virada do ano, e depois de muito tempo, voltei a Capão da Canoa e hospedei-me perto da Praça do Farol. Sim, o farol agora está numa praça, não mais em esplêndida solidão. E já não guia os navios. Tem lâmpadas no topo, mas estas servem apenas para iluminar a própria praça. Ou seja, o farol virou um poste comum, não sei se procurado pelos cachorros ou não.

A vida é assim mesmo: as coisas que, num momento nos parecem gigantescas, gloriosas, imponentes, no momento seguinte recolhem-se à sua insuspeitada insignificância – que tem paralelo em nossa própria insignificância.

Mas, para o menino do Bom Fim que eu era, o farol continua sendo mágico, como mágico era o mar, como mágicas eram as dunas, como mágicas eram as noites de Capão da Canoa, quando o gerador era desligado, a escuridão reinava – e só a luz do farol continuava brilhando solitária.


18 de janeiro de 2009
N° 15852 - DAVID COIMBRA


A chantagem

Poucos sabem qual é o valor de um botão de duas camadas, goleador. Gus sabia. Tinha o seu. Ademir da Guia. Azul-marinho em cima, branquinho embaixo. Pouco maior do que uma moeda de um real. As bordas do Ademir não eram retas, como as de outros botões vulgares.

Eram meio arredondadas, o que dava ao Ademir botão as características do Ademir que respirava: um e outro eram classudos. Craques. Com Ademir, Gus ganhava todos os torneios do bairro. Os torneios eram disputados por botão: cada guri casava um, o vencedor ficava com todos. Assim Gus aumentava seu plantel.

Mas, um dia, Ademir da Guia sumiu. Gus estava no salão de festas, disputando um campeonato. Jogaram durante horas, ele e os amigos. No fim da tarde, quando foi reunir a delegação, ué? Cadê o Ademir?

Não o encontrava em lugar algum. Os amigos ajudavam a procurar, olhavam sob as mesas, atrás da porta. Nada. Muitos guris haviam passado por ali durante a tarde. Será que alguém roubara o Ademir? Ou o botão rolou pelo chão e caiu em algum ralo, algum desvão?

Gus foi para casa sentindo o peito apertado. Passou a noite pensando no seu goleador. A mãe perguntava o que havia, ele dizia que nada. Como uma mulher haveria de compreender o valor de um botão goleador?

Tomou a decisão de, no dia seguinte, vasculhar o salão outra vez. Antes de dormir, com o ardor dos seus 11 anos, implorou a Deus, Jesus e Nossa Senhora, todos juntos, que o fizessem achar o Ademir.

Na manhã seguinte, acordou cedo. Antes de tomar café, correu para o salão. Voltou frustrado: o salão só abria às 10h. A espera foi difícil. Às cinco para as 10, Gus abriu a porta de casa e teve uma surpresa. O Índio estava ali, parado no corredor.

– Índio!

Incomum o Índio bater a sua porta. Não se tratavam exatamente de amigos. Índio era uns dois anos mais velho e alguns quilos de músculos mais forte. Granjeava a fama de ser brigão. Já fora expulso de duas escolas. O que fazia ali?

– Ia procurar pelo Ademir da Guia? – perguntou. – É. Como você sabe? – Tenho uma boa notícia. – Encontrou o Ademir da Guia?

– Encontrei. – Ah! Que bom! Está aí com você? Onde achou? – Por aí. Mas não está comigo. – Não?

– Não. E acho que mereço uma recompensa por achar o seu goleador, não acha?

Gus arregalou os olhos. Num segundo, compreendeu: Índio roubara o seu botão e agora pedia resgate. Um sequestro! Ponderou sobre a situação: o Índio era bem mais forte do que ele. Resolver a questão no confronto físico não seria boa ideia. Cogitou de apelar para a mãe, mas logo descartou a hipótese. Seria uma vergonha. Não havia jeito. Olhou para o Índio.

– O que você quer? – Cinco botões. – Quê???

– Você deve ter uns 50, não vai fazer falta. Pode escolher os cinco, não me importo.

Ao ver o Índio se afastar, depois da conversa, Gus sentiu-se mal. Sentiu-se... um poltrão. Havia aprendido essa palavra fazia pouco tempo e agora era perfeita para ele. Combinaram de fazer a troca em meia hora. Encontrar-se-iam na rua.

Em casa, Gus catou seus cinco piores botões. Enquanto os colocava no bolso, dava-lhe vontade de chorar. Saiu do quarto. Ao passar pela cozinha, avistou a mãe. Parou. Ela sorriu.

– Mãe... – hesitou. – Se alguém mais forte que a senhora quer obrigar a senhora a fazer uma coisa, o que a senhora faz? A mãe pensou um instante.

– Às vezes a força obriga a gente a fazer coisas que não quer – respondeu, por fim. – Mas às vezes é melhor sofrer as consequências.

Gus ouviu e saiu. A mãe ficou observando-o, pensativa. Na rua, Índio já estava à sua espera. – Trouxe a minha recompensa?

Gus tirou os cinco botões do bolso e os entregou ao sequestrador. Sorrindo, Índio entregou-lhe o puxador de duas camadas. Ademir da Guia. Seu goleador.

– Fez um bom negócio – comentou Índio, jocoso, e virou-se para ir embora.

Gus ficou olhando para o Ademir da Guia, lindo, lindo, azul-marinho e branco, na palma da sua mão. Índio já se ia, vitorioso, examinando seus cinco botões. Gus sentiu os olhos marejarem, sentiu a garganta se fechar, sentiu a cabeça rodando, então soube o que fazer.

– Índio! – gritou.

Índio se voltou. Gus mostrou-lhe Ademir da Guia entre os dedos. Índio olhou, curioso. Gus ergueu o braço bem alto. Bem alto. E, em seguida, atirou o puxador na laje de pedra com toda força.

O botão se partiu em dois. Índio abriu a boca, incrédulo. Gus respirava pesadamente. Fitava-o com fúria. Deu-lhe as costas. Voltou para casa. Deixou-o ali. Naquele dia, aprendeu que algumas coisas valem mais do que um botão de duas camadas, goleador.

André Petry colunadopetry@abril.com.br

O mal do umbigo

"Pior que o silêncio é o trânsito livre do preconceito contra o estudo no exterior, uma doença que mistura antiamericanismo com o vírus do provincianismo"

Quando o professor Jorge Guimarães, presidente da Capes, a entidade que mais distribui bolsas no exterior, disse que não se devia mais investir no estudo de economia lá fora, o mundo acadêmico deveria ter desabado. A frase exata, dita em entrevista ao jornal O Globo: "Vamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo?

Esse modelo se mostrou totalmente anticientífico, para dizer o mínimo". Como se sabe, os acadêmicos não reagiram à enormidade do professor. Ficou subentendida a aceitação da ideia de que estudo não é aprendizado, mas doutrinação, sendo inútil estudar solução com quem cria problemas.

Pior que o silêncio é o trânsito livre do preconceito contra o estudo no exterior, uma doença que mistura antiamericanismo com o vírus do provincianismo. Tem cura, mas é contagiosa e pode matar a inteligência.

O Institute of International Education, dos Estados Unidos, informou que nunca houve tantos estrangeiros nas universidades americanas. São 620 000. O país que mais despacha estudantes para lá é a Índia, pelo sétimo ano consecutivo. São 94 000 indianos. Pode-se dizer que o domínio do inglês favorece a presença dos indianos nos EUA, mas o segundo país é a China, com 81 000.

Para fechar a lista dos campeões na era dos Brics, seria natural que, depois de Índia e China, viessem Brasil e Rússia. A Rússia não aparece. Talvez julgue lhe bastar sua Academia de Ciências, um dos maiores centros mundiais de produção científica. E o Brasil também não.

O terceiro país é a Coreia do Sul, com 70 000 estudantes. Depois, vêm Japão, Canadá, Taiwan, México, Turquia, Arábia Saudita e, completando os dez-mais, Tailândia. No segundo bloco, Nepal, Alemanha, Vietnã, Inglaterra, Hong Kong, Indonésia e – enfim! – Brasil, com 7 500 estudantes, apenas um pouco mais do que a Colômbia.

O número raquítico explica, em parte, o papelão brasileiro nas ciências. A produção brasileira, medida pelo número de artigos publicados nas
10 000 revistas científicas mais renomadas do mundo, vem crescendo, mas não é compatível com o PIB. Disputamos o 15º lugar com Suécia, Suíça, Taiwan e Turquia.

Pior que isso é o número de patentes registradas, um indicador do nível de inventividade. Também tem aumentado, mas é desanimador. Conforme dados da ONU, o Brasil registrou 585 patentes em 2006.

Para ficar nos Brics, a China cresce em ritmo fabuloso. A Rússia registrou quase 20 000. A Índia, 2 300. E o Brasil, 585. Rivalizamos com a Romênia, o ex-charco de Ceausescu.

Para chegar ao que julga ser seu destino manifesto de potência, o Brasil precisa aprender a olhar para além do próprio umbigo, sem preconceito. Em sua entrevista, o professor Guimarães só reforçou o preconceito. E deixou uma dúvida.

Ele anunciou mais investimentos para bolsas de estudo nas áreas de oceanografia e bioenergia. Mas os países ricos não são os que mais poluem os oceanos e os maiores culpados pelo aquecimento global? Vamos formar doutores nesse modelo falido...?

Claudio de Moura Castro

Educação em áreas conflagradas

"É preciso cuidar da educação e, ao mesmo tempo, de uma boa coleção de problemas no entorno da escola"

Atômica Studio

A ciência tomou corpo quando se descobriu ser mais fácil entender o mundo classificando o que se quer estudar. Aristóteles deu a partida. Muito depois, Lineu pôs ordem na biologia, separando os bichos e as plantas ("Esse de seis perninhas vai com o outro, também com seis").

Assim agrupados, fica mais fácil estudá-los e encontrar-lhes outros traços comuns. Para E. Junger, a razão encontra a sua suprema metáfora na classificação das espécies da flora. Classificamos até em um campo desconjuntado como a educação. Para entender os avanços e atoleiros do nosso ensino, proponho repensar as classificações costumeiras.

Consideremos as escolas como pertencendo a três categorias. Há as escolas dos grotões, há as escolas das cidades médias e pequenas e, finalmente, há as escolas conflagradas das periferias urbanas e favelas. (Abandonamos aqui as grandes capitais, pois não percebemos generalizações relevantes.)

Os grotões vivem no círculo vicioso da pobreza. A seu favor, são mundos fechados e estáveis, onde cada um é cada um. Mas, na maioria deles, as vantagens da educação não são percebidas. Como consequência, o ensino é ruim e poucos se importam com isso. A depender da sua própria dinâmica, nada vai mudar. Porém, com um bom empurrão de fora, transformações são possíveis.

As cidades pequenas e médias vivem em um equilíbrio instável, do ponto de vista da educação. As que são dinâmicas, e estão onde o prefeito acredita em escola, têm tudo de que precisam para progredir. Com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), sabe-se onde elas estão. Aos poucos, as mais inquietas vão aprendendo os caminhos.

Em um bom número delas há avanços consideráveis. Algumas tomaram as rédeas nos dentes e dispararam. Passaram na frente das capitais, mais ricas e com mais tradição. E isso aconteceu em todos os níveis. Em São Paulo, até os pesquisadores já publicam mais no interior do que na capital.

Finalmente, temos as favelas e periferias das grandes capitais. Esse é o enguiço mais sério. Não lhes faltam recursos nem atenção. Contudo, estão travadas e perdendo espaço para as cidades menores. Por exemplo, dos 645 municípios do estado, a cidade de São Paulo está no 565º lugar no Ideb. O nó da questão é que são regiões conflagradas.

A comunidade local teve seu tecido social dilacerado pelo crescimento atabalhoado ou foi invadida por vagas de imigrantes que não conseguiram se integrar na enorme confusão das periferias. Algumas são como praças de guerra, por seus problemas de insegurança, criminalidade, desemprego, pobreza e desintegração familiar. Nesses casos, faz sentido lembrar a hierarquia do psicólogo Abraham Harold Maslow.

Para ele, as pessoas só se fixam em certos objetivos pessoais depois que outros mais importantes já foram resolvidos. Insegurança física, desemprego e condições precárias de vida vêm antes de educação. Sem que essas questões sejam minimamente atendidas, pouquíssimos darão atenção ao ensino.

Portanto, a não ser que se "pacifiquem" essas periferias, estão fadadas ao insucesso as tentativas heroicas dos secretários de Educação de nelas agir. São outras as prioridades, tais como sobreviver às guerras de gangues do narcotráfico. Isso tudo nos leva à necessidade de políticas educativas diferentes para elas.

É preciso cuidar da educação e, ao mesmo tempo, de uma boa coleção de problemas no entorno da escola. A tarefa ultrapassa o alcance das secretarias de Educação. Porém, requer uma ação minimamente coordenada com elas. Polícia, assistência social, saúde e políticas de emprego têm de entrar em cena e agir de forma articulada.

Há boas experiências no Brasil e devemos aprender com elas. Mas citemos um caso com grande visibilidade: Medellín, na Colômbia. A cidade chamava atenção pela virulência das guerras do narcotráfico (vi soldados empunhando fuzil nas varandas da escola). Mas foi pacificada por um bom prefeito.

Em conclusão, alguns pensam que os grotões podem esperar. Mas, se for para consertar, é possível. Entre as cidades pequenas e médias, as mais dinâmicas começam a se mover. Nas outras, é cutucar os prefeitos lentos e recalcitrantes com respeito à educação.

Nas praças de guerra das periferias, só educação não resolve. Ou entramos com programas mais abrangentes, ou nada vai acontecer – além de se repetirem as explosões costumeiras.

Claudio de Moura Castro é economista
claudio&moura&castro@cmcastro.com.br

Danilo Casaletti

Ainda dá tempo de ficar em forma para o Carnaval?

A pouco mais de um mês para o feriado, academias ficam lotadas e lançam novas atividades para quem quer melhorar o próprio corpo

Sucesso garantido: estabeleça metas para o seu treinamentoTerminadas as férias de fim de ano, muita gente corre para as academias para eliminar os quilos a mais ganhos durante as festas. A meta agora é ficar com um corpo bacana para aproveitar o Carnaval.

Os homens querem perder a barriguinha e conquistar um abdome perfeito. As mulheres, além disso, ainda querem pernas e glúteos bem torneados. Mas, faltando pouco mais de um mês para o feriado, ainda dá tempo de conquistar o corpo desejado?

Depende. Se sua meta é perder cinco quilos, por exemplo, esqueça. Pode não ser impossível, mas é muito difícil perder essa quantidade de peso de uma maneira saudável e sem perder massa muscular.

Mas, para Cristian Bezerra, responsável técnico da academia Bio Ritmo, de São Paulo, eliminar de um a dois quilos até o Carnaval é uma meta totalmente possível de ser alcançada. “Não estabeleça metas muito ambiciosas para não se frustrar depois”, aconselha Bezerra.

Segundo o especialista, a busca por um corpo bacana em um curto espaço de tempo exige alguns cuidados. Primeiro, é preciso saber o que se deseja. “Alguns alunos nos procuram querendo perder peso, outros querem ganhar massa e têm aqueles que querem ficar com um abdome sarado”, diz.

Depois, é preciso manter a regularidade do treino para se obter o resultado desejado. No geral, o treino mais indicado é aquele que combina a musculação com alguma atividade aeróbica.

Para aqueles que vão enfrentar a maratona de desfilar em escola de sambas ou em blocos de carnaval, é importante uma preparação que inclua o fortalecimento de pernas, glúteos, panturrilhas e da capacidade cardiovascular. Neste caso, uma boa opção são as aulas de sppining, que simulam um percurso de bicicleta com subidas e descidas.

Para quem não está matriculado em uma academia, uma boa dica é a caminhada. Segundo Bezerra, o ‘novo atleta’ não deve forçar o corpo e, de início, sair correndo para alcançar a forma física desejada. “Comece com caminhadas de meia hora, depois aumente para 45 minutos e, por fim, para uma hora. Três vezes por semana é o é o suficiente”, garante.

Confira algumas dicas:
- Faça uma avaliação e converse com um professor de educação física para expor suas metas;
- Cuidado com os grandes objetivos em espaços curtos de tempo. Eles podem facilitar as lesões e aumentar a chance de você voltar a engordar;
- É melhor manter a regularidade do que exagerar na quantidade. Não adianta correr duas horas se isso for feito apenas uma vez por semana;
- Aumente aos poucos a intensidade dos exercícios;
- Beba muita água durante o treinamento. É muito importante manter o corpo hidratado. O mesmo deve ser feito durante a maratona de Carnaval;
- Se optar pela atividade ao ar livre, não se esqueça da garrafinha com água e do protetor solar;
- Tenha uma alimentação saudável. A academia sozinha não faz milagres.


17 de janeiro de 2009
N° 15851 - NILSON SOUZA


Alexsandro

O menino deveria ter sete ou oito anos, estava ranhento naquele dia e faltava-lhe pelo menos um dente da frente. Ainda me lembro bem daquele sorriso capenga e do comentário que me fez, cheio de orgulho, enquanto me mostrava uma carta de baralho.

– Olha só a letra do meu nome! – falou, exibindo-me um ás de copas.

Levava no peito um crachá, caprichosamente desenhado com letra de professora e caneta hidrocor, que não deixava dúvidas sobre seu nome: “Alexsandro”.

O crachá, as cartas e até a merenda escolar faziam parte do processo de alfabetização daquela turma da escola pública que eu visitava na condição de repórter de uma revista especializada em educação.

As cartas, num primeiro momento, pareceram-me uma extravagância, pois pensei que poderiam estimular as crianças ao jogo. Mas a professora me explicou, pacientemente, que usava o baralho porque era um elemento da vida real daqueles meninos e meninas de periferia. A maioria deles nunca tinha visto um livro em casa, mas as cartas eram objetos bem conhecidos.

O estalo de Alexsandro não deixava dúvidas. Ele ficou muito feliz em constatar que a primeira letra do nome escrito em seu crachá era aquele ás. Provavelmente, nunca mais iria esquecer aquilo. Estava iniciando – e bem – seu processo de alfabetização.

Mas o importante, para mim, foi ter conhecido aquela professora que se esforçava para ensinar crianças praticamente condenadas a não aprender. Aqueles alexsandros, que recebiam nomes estrambóticos de seus pais iletrados simplesmente porque eles achavam bonito o som das palavras – ninguém simboliza tão bem esta aberração quanto o folclórico jogador Odivan –, dificilmente se interessariam pela leitura e pela escrita se não encontrassem mestras compreensivas e atiladas como aquela.

Para justificar sua orientação construtivista, de partir do universo dos alunos para conquistá-los, ela citou Paulo Freire: “A leitura do mundo precede a leitura das palavras”.

Na ocasião, e lá se vão mais de 15 anos, fiquei muito impressionado com o conhecimento daquela alfabetizadora, que procurava ir além das cartilhas e buscar um caminho realmente suave para resgatar crianças excluídas do mundo das letras.

Desde então, sucessivas experiências pedagógicas têm sido feitas no ensino do Estado e nossas crianças parecem estar regredindo. Por isso, está em curso uma nova revolução na educação pública do Rio Grande do Sul.

Espero que os bons professores sejam reconhecidos e valorizados.

Mas espero, acima de tudo, que as autoridades e os trabalhadores em educação, que é a forma como gostam de ser chamados, não se esqueçam dos alexsandros.


17 de janeiro de 2009
N° 15851 - ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Os morros de Porto Alegre

Porto Alegre me encanta vigiada pelas sentinelas de seus morros. Três claramente merecem consideração especial.

O primeiro deles é Itapuã, o qual, segundo a lenda, esconde um tesouro de piratas que muita gente procura até hoje. Em episódio de novela, eu mesmo quase cheguei a ele certa feita... Outro é o morro da Maria Degolada, que uma freira, uma mulher extraordinária – a saudosa Irmã Neli – conseguiu transformar em morro da Maria Conceição, transformando uma mulher de costumes livres na santa mãe de Jesus.

Agora, o morro que mais diz respeito a Porto Alegre é o morro da Glória, que não poderia ter nome mais adequado: foi dali que desceram entre 19 e 20 de setembro de 1835 as forças acaudilhadas por Onofre Pires e Gomes Jardim para a tomada de Porto Alegre no alvorecer do glorioso Decênio Heróico.

Sobre o Arroio Dilúvio, mais precisamente na ponte da Azenha, uma patrulha avançada dos revolucionários farroupilhas comandados pelo Capitão Vieira da Rocha – o famoso Cabo Rocha – se encontraram com forças do governo imperial comandadas pelo Visconde de Camamu e aí se feriu o primeiro encontro sangrento da Revolução Farroupilha, que assim começava, com mortos e feridos.

Os morros de Porto Alegre são uma bela moldura da capital gaúcha apertada contra o estuário do Guaíba, protegendo-a como sentinelas vigilantes.

Gosto demais desses morros. Quantas vezes eu e meus companheiros de cavalgadas percorremos a cavalo estes pontos altos da geografia porto-alegrense, cujas faldas cada vez mais são escaladas pelo casario urbano que avança para cima, parece que rasgando o céu, em busca do sol.


17 de janeiro de 2009
N° 15851 - PAULO SANT’ANA


Xavante vai ser maior

Imagino a delegação do Brasil de Pelotas retornando para casa dentro de um ônibus que fura a noite, 29 pessoas dormindo, aquela estrada tediosa, o motorista é o único eventualmente acordado.

E lá se ia o ônibus, todos passaram o dia viajando, depois jogando uma partida de futebol, havia fadiga e vontade de chegar em casa.

E lá se ia o ônibus. Escrevi outro dia aqui neste mesmo espaço que existe até um aviso idiota em alguns ônibus: “Não converse com o motorista”.

Como, não converse com o motorista? Se ninguém conversar na escuridão da noite com o motorista, acaba o motorista dormindo.

Uma ou duas pessoas de uma excursão, pelo contrário, têm de ser escaladas para conversar com o motorista. Têm de manter alerta o motorista. Têm de distrair o motorista.

Não há nada pior, não há quadro mais propício a uma tragédia do que todos dormindo dentro de um carro ou de um ônibus e só o motorista acordado, dirigindo.

O sono que domina o ambiente contagia o motorista.

Como é que o motorista declarou que não conseguiu vencer a curva?

Só não vence a curva quem a desconhece, quem a estava desconsiderando.

Um jogador do Brasil de Pelotas que estava no ônibus, conta-me o Lauro Quadros, declarou que o motorista já tivera, momentos antes do acidente, estremecimentos na direção, incertezas, perdia o controle incidentalmente sobre o percurso.

E aquele homem sozinho, sem dormir desde manhã cedinho, varando a noite na direção, com todos dormindo na sua retaguarda.

Silêncio absurdo no ônibus. Toda a responsabilidade da viagem recaída sobre um homem só, em vigília, o motorista.

Todas as tintas da tragédia estavam prontas para serem pintadas, não só nesta viagem, mas em todas as viagens de motoristas maldormidos e sozinhos, transportando delegações ou passageiros de linha.

O motorista que leva não pode ser o mesmo que traz. E, enquanto o time jogava a sua partida de futebol, o motorista tinha de estar dormindo, repousando, preparando-se para estar desperto, alerta, inteiro para a volta.

Se o motorista permaneceu acordado enquanto o time do Xavante jogava a sua partida na localidade de Vale do Sol, tudo estava errado.

Porque a viagem de Pelotas para Vale do Sol, o almoço, o jogo de futebol, a janta, tudo isso demandava um longo tempo. Esse motorista tinha que obrigatoriamente descansar.

Se não descansou, como se intui, isso tem a ver com a tragédia.

Tanto a viagem de ida e volta quanto esse tempo todo que a delegação passou longe de Pelotas só podiam causar cansaço.

E tanto causou, que todos dormiam dentro do ônibus quando aconteceu o acidente.

Só o motorista tinha a obrigação de ficar acordado. Ele não é de ferro.

E existem curvas na estrada. São inúmeros os perigos de uma estrada.

E o trânsito, este faminto devorador de vidas, saiu no dia 1° de janeiro para matar o mundo inteiro e o mundo inteiro não lhe mata a fome.

A imensa dor que percorreu o Rio Grande com a tragédia sofrida pelo ônibus do Brasil de Pelotas tem agora de servir para que o Brasil de Pelotas reúna forças para reerguer-se e tornar-se ainda mais digno e prestigiado do que até agora tem sido.

Um imenso respeito pela adoração que a torcida tem por seu clube resta como uma grande admiração de todos.

O Xavante é eterno e vai sair ainda maior deste acidente deste trágico e desolador acidente.


17 de janeiro de 2009
N° 15851 - CLÁUDIA LAITANO


Carta à mãe

No planeta de Amy Winehouse e Britney Spears, não foram os porres diários nem a voracidade sexual que chocaram o público da minissérie Maysa – Quando Fala o Coração, dirigida por Jayme Monjardim, filho da biografada.

Exagerar no uísque, fumar no avião, namorar o marido da amiga dentro da casa dela, nada disso impressionou tanto os espectadores quanto a cena em que a cantora abandona o filho doente em um internato – recusando-se a dar um beijo de despedida para não correr o risco de pegar uma gripe e estragar a voz. Quando cheguei ontem na redação, a piada já estava pronta:

– Sabia que mudou o nome da minissérie? Agora é Maysa – Quando Falta um Coração.

Acerto de contas artísticos com pais relapsos, violentos ou autoritários são relativamente comuns no cinema e na literatura – muitas vezes de forma explicitamente não-ficcional. O clássico absoluto do gênero é Carta ao Pai, de Kafka.

“Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”, diz o escritor a certa altura. A carta foi escrita em 1919 e nunca foi enviada ao destinatário, que morreu sem saber que ganharia (má) fama, mundial e eterna, graças ao ressentimento do filho.

O inusitado no caso da minissérie Maysa é o fato de esse acerto de contas envolver dois artistas conhecidos, o diretor/filho e a cantora/mãe. Era para ser a história da cantora, mas acabou sendo também a história dos primeiros anos de vida do diretor – ou a história como ele quis contá-la.

Por trás do roteiro esquemático (principalmente nos primeiros capítulos) e da direção convencional, corria uma vibrante história paralela à da vida de Maysa: os acontecimentos como o diretor, Jayme Monjardim, decidiu rearranjá-los para que fizessem sentido não apenas para o público, mas, supõe-se, também para ele mesmo.

Nessa narrativa, o mundo da família Monjardim/Matarazzo podia estar desabando sob hectolitros de uísque, mas o amor de André e Maysa, pais de Jayme, era reforçado a cada novo capítulo.

Independentemente da verdade “documental” dos fatos, se é que ela existe em uma forma absoluta, essa é a história que todos gostamos de acreditar: a de que somos filhos de uma grande história de amor, mesmo falhada, em vez de frutos do acaso ou de um casamento morno e sem desejo.

É preciso, portanto, fazer uma leitura em dois planos dos sofrimentos do menino Jayme no internato: ali está um filho denunciando a mãe negligente, é verdade, mas também está um adulto que superou aquele sofrimento ao ponto de poder contar a história dela não de forma ressentida, mas como tributo ao seu talento.

Um telespectador dos anos 50, descongelado esta semana unicamente para assistir à minissérie, talvez não ficasse tão chocado com aquelas cenas. Diferentes épocas têm diferentes sensibilidades. O fato é que a reação à cena do internato revela que há um consenso nos dias de hoje de que todos os sofrimentos infantis devem ser evitados a qualquer custo.

Não que os internatos ou as mães negligentes sejam um modelo de educação, longe disso. Mas aprender a lidar com as frustrações (e ser interno em um colégio na Espanha está longe de ser uma forma inaceitável de tortura) continua sendo uma etapa indispensável do amadurecimento. Jayme Monjardim parece ter escutado bem a mãe: “Se meu mundo caiu/ Eu que aprenda a levantar”.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009


Autor(es): José Luis Oreiro - Valor Econômico - 16/01/2009

A "ortodoxia" e a economia da tautologia

O recrudescimento da crise financeira internacional a partir de setembro de 2008 produziu um acirramento do debate a respeito do modelo macroeconômico brasileiro.

De um lado, os economistas keynesianos defendem que o Brasil siga o exemplo dado por quase todos os países do mundo e adote políticas monetária e fiscal mais expansionistas com o objetivo de minimizar o efeito da crise internacional sobre o crescimento da economia brasileira.

Uma observação se faz necessária quanto ao "campo keynesiano": não há uniformidade de opinião entre esses economistas a respeito do mix adequado de expansão monetária e expansão fiscal.

Alguns defendem uma vigorosa expansão fiscal com base no argumento de que, na atual configuração política do governo Lula, mudanças na condução da política monetária não são possíveis porque implicariam em mudança na diretoria do Banco Central, o que estaria descartado a priori pelo presidente da República.

Outros defendem uma expansão fiscal mais moderada, focada apenas na manutenção e eventual ampliação dos gastos de investimento do governo, e uma mudança imediata na política monetária, com forte redução das taxas de juros.

O lado "ortodoxo" recentemente redescobriu a "especificidade" da economia brasileira, numa surpreendente aceitação de uma das premissas fundamentais do pensamento cepalino, argumentando que o que funciona acima da linha do Equador não vale para o Brasil.

Para os ortodoxos, uma expansão fiscal irá resultar apenas num aumento do déficit em conta corrente, agravando assim o desequilíbrio externo da economia brasileira. Como resultado do aumento desse desequilíbrio haverá um aumento do risco-país, aumentando assim a taxa de juros "externa" para os tomadores de empréstimos do Brasil no exterior.

Num contexto de ampla mobilidade de capitais, o aumento da taxa de juros "externa" deverá produzir uma redução do fluxo de capitais para o país, produzindo assim uma maior desvalorização da taxa de câmbio e obrigando o Banco Central a aumentar a taxa de juros para manter a inflação dentro das metas definidas pelo Conselho Monetário Nacional. O aumento da taxa de juros irá levar a uma redução do investimento e, dessa forma, a uma redução do crescimento da economia brasileira.

A posição "ortodoxa" fundamenta-se na aplicação daquilo que podemos denominar da "economia da tautologia", ou seja, a tentativa de se deduzir relações de causa e efeito de simples identidades contábeis, as quais são verdadeiras por definição, mas não permitem a inferência de relações de causalidade a não ser que se adicione às mesmas certos pressupostos teóricos.

Os economistas "ortodoxos" raramente explicitam a natureza de suas hipóteses teóricas, querendo passar ao leitor leigo em economia a idéia errônea de que os princípios de política econômica por eles advogados teriam a natureza de "verdades auto-evidentes", cuja contestação só é feita por economistas de segunda categoria.

O argumento de que o desequilíbrio externo é decorrência do "desequilíbrio fiscal" baseia-se numa identidade contábil segundo a qual a diferença entre a absorção doméstica, ou seja, a demanda de bens e serviços por parte dos residentes no país, e o PIB é necessariamente igual ao déficit em conta corrente.

A partir dessa identidade contábil, os "ortodoxos" afirmam que um aumento da diferença entre a absorção doméstica e o PIB real, causada, por exemplo, por uma expansão fiscal, irá resultar num aumento do déficit em conta corrente.

Nesse raciocínio estão implícitas algumas hipóteses teóricas não explicitadas pelos "ortodoxos". Em primeiro lugar, parte-se de idéia de que o déficit em conta corrente é a variável de resultado do sistema, ao invés de ser a variável "causadora" do mesmo.

Em outras palavras, o argumento "ortodoxo" pressupõe que o déficit em conta corrente se ajuste à diferença entre a absorção doméstica e o PIB real, e não o contrário.

Em segundo lugar, o argumento "ortodoxo" pressupõe que a economia esteja operando com um nível de produto igual ao potencial, e que a elasticidade de longo prazo do produto potencial às variações da demanda agregada seja próxima de zero.

Dadas essas hipóteses, um aumento dos gastos do governo irá resultar necessariamente num aumento do diferencial entre a absorção doméstica e o PIB, requerendo assim um aumento do déficit em conta-corrente para o reequilíbrio do sistema. Esse aumento do déficit em conta corrente será obtido por intermédio de uma apreciação da taxa real de câmbio.

O que acontece com o raciocínio exposto acima se as premissas teóricas sobre as quais se baseia o argumento "ortodoxo" não forem válidas?

Primeiramente devemos observar que a identidade contábil mencionada anteriormente admite uma outra interpretação. A partir da mesma podemos dizer que um aumento exógeno do déficit em conta corrente irá resultar num aumento do diferencial entre a absorção doméstica e o PIB. Nesse caso, a variável de ajuste será o PIB, ou seja, o PIB deverá se reduzir para acomodar um maior déficit em conta corrente!

Observe, caro leitor, que uma expansão fiscal, nesse contexto, é necessária para impedir a queda do PIB resultante do aumento do déficit em conta corrente, uma vez que o reequilíbrio do sistema pode ser obtido tanto por uma queda do PIB quanto por intermédio de um aumento da absorção doméstica, induzida por uma expansão fiscal.

Para que essa segunda interpretação da identidade contábil prevaleça sobre a primeira é necessário que o PIB real seja uma variável endógena, tanto no curto como no longo prazo. Aqui nos deparamos com a "ultima linha de defesa" da posição "ortodoxa".

Para os "ortodoxos" a economia não só opera, no longo prazo, com plena utilização de recursos, como ainda, e mais importante, o "produto potencial" ou a "taxa natural de crescimento" são inelásticos com respeito a demanda agregada.

A hipótese de plena utilização de recursos é facilmente contestável, ainda mais em economias, como a brasileira, que possuem "excesso estrutural" de força de trabalho.

Além disso, o grau de utilização da capacidade produtiva na indústria numa economia como a brasileira flutua historicamente em torno de um patamar entre 83% a 85%. Apenas durante o "milagre econômico brasileiro" é que se pôde constatar a plena utilização da capacidade da indústria, quando ela bateu o patamar de 95%.

Quanto a inelasticidade do produto potencial com respeito à demanda agregada, num trabalho publicado no Encontro da Anpec de 2007, o autor desse artigo mostrou que existem fortes evidências empíricas a respeito da endogeneidade da taxa natural de crescimento da economia brasileira.

Nossas estimativas mostram que essa pode flutuar entre 5% a 8% ao ano, dependendo do crescimento da demanda agregada.

José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da UnB, pesquisador nível I do CNPq e membro da Associação Keynesiana Brasileira. E-mail: jlcoreiro@terra.com.br. Web: http://www.joseluisoreiro.ecn.br

Um ótimo fim de semana

Autor(es): Antônio A. R. Ioris - Valor Econômico - 16/01/2009

Meio ambiente: o primo pobre da crise econômica?

Mesmo um país tão escolado em crises e atropelos econômicos como o Brasil não convive facilmente com a perspectiva de esfriamento da atividade produtiva que se avizinha. Tudo leva a crer que os próximos anos serão marcados por taxas menores de produção, menor oferta de empregos, estagnação comercial e acirramento de conflitos.

Mas as crises econômicas, uma vez devidamente respeitado o sofrimento alheio, podem suscitar oportunidades para se buscar alternativas que tornem a economia menos vulnerável no futuro.

Com um pouco de sangue frio, podemos observar em retrospecto que a atual crise econômica, que começou por castigar bancos e mercados nos países mais industrializados desde meados deste ano, tem uma explicação simples, mas requererá soluções complexas.

Nada poderia ser mais previsível do que o colapso dos processos de acumulação que se consolidaram desde o final da década passada, em grande medida baseados na especulação imobiliária, no oportunismo financeiro e em artificialidades cambiais. Há muito que se previa o furo da bolha e, pelo menos entre os mais lúcidos comentaristas, a questão era apenas saber quando e onde o castelo de cartas iria começar a ruir.

Para quem se lembra daquele jogo "banco imobiliário", a analogia é perfeita: o mercado de imóveis movia-se sempre em círculos, ao sabor dos dados, comprando imóveis de plástico e apostando contra a fraqueza dos demais.

Todos tentavam obter ganhos máximos no menor intervalo de tempo possível (no Reino Unido, o mercado de imóveis foi uma grande festa com uma subida média de preços de 241% entre 1994 e 2008). Ao mesmo tempo, muitas pessoas foram levadas a colocar todo o dinheiro que podiam em mercados da carochinha, como Islândia, Jersey e Ilha de Man.

Enquanto o desvario do lucro fácil tomou conta das transações imobiliárias e do mercado financeiro (ao ponto de a Escócia ter chegado a uma dependência elevadíssima da atividade bancária para a formação do seu PIB), deslocou-se a produção de bens e mercadorias para os rumos do nascente, China e Índia em particular.

A farra se baseava não somente na apropriação do suor asiático, mas na manutenção de preço baixos de matérias primas e recursos naturais (inclusive petróleo).

O equilíbrio do sistema era tão tênue e frágil, que deu no que deu. E tudo isso parece ser apenas o começo de um longo e penoso processo de reacomodação. Como bem descrito pelos economistas do Século XIX, há uma tendência inescapável no capitalismo de alternar fases de bonança com períodos de desvalorização do capital, necessária para que se restabeleçam as bases de acumulação (temporariamente?) perdidas.

Se o diagnóstico da crise depende apenas de um pouco de bom senso e de conhecimentos rudimentares de história e economia política, a questão crucial é localizar rapidamente a porta de saída.

Contudo, como se diz no vernáculo dos botequins, aqui é que mora o perigo. Existe o grave risco de se considerar a crise econômica apenas como uma questão de erro de dosagem, ou seja, um superaquecimento circunstancial do mercado imobiliário e dos ganhos na bolsa de ações.

Mas é preciso que se perceba a dimensão histórica, e quiçá pedagógica da crise, uma vez que as chuvas e trovoadas que se aproximam refletem distorções e desarranjos muito mais profundos. Herdamos do Século XX, em que pese avanços impressionantes na comunicação e transmissão de idéias, uma globalização dos mercados que tem servido para democratizar bugigangas e inutilidades várias.

Como descrito décadas atrás por J. K. Galbraith (no seu livro "The Affluent Society"), o atual sistema de produção induz a uma demanda por mercadorias que é essencialmente perdulária e irresponsável.

Ao ponto de a grande função do emprego hoje ser a manutenção do crescimento econômico por meio do fluxo de consumo, mesmo que sejam artigos de necessidade e valor duvidosos. Ou seja, não mais a produção, mas o consumo, tornou-se a principal força motriz da economia globalizada.

Daí a necessidade de salvaguarda do crédito e de redução dos juros, para que se consuma, compulsivamente, cegamente, patologicamente. Comprar e jogar fora, o mais rápido e ostensivamente possível.

O condicionamento é tal que, ao se restringirem as compras, muitos passam imediatamente a um estado depressivo (não é à toa que as igrejas britânicas, ao acolher os filhos guachos do consumismo, começaram a registrar uma assistência crescente nas últimas semanas).


Uma rosa amarela

Autor(es): José Sarney
Jornal do Brasil - 16/01/2009


Sempre o mês de janeiro foi um tempo light. Período de férias, recuperador de forças, esperança e alegria, pernas para o ar que ninguém é de ferro, sol e maresia, mulheres com seu corpo exposto às carícias do sol, liberto das roupas e dos arrependimentos. A mídia, sem notícias, recorre apenas aos desastres nas rodovias ou crimes inusitados. Até os anúncios fogem.

Mas este ano parece diferente. Como numa incelência que ouvi cantar no Maranhão no meu tempo de infância, "a bandeira desse ano trouxe um sinale de guerra" / "Um é verde, outro encarnado, outro uma rosa amarela". Os raios rubros começaram com Gaza, sem necessitar mais nada para tingir o céu de sangue.

Ontem, na televisão, vi Shimon Peres, um dos estadistas mais brilhantes que conheci, com uma visão profunda dos destinos do mundo, com os olhos baços, anunciar mil mortos palestinos. Avaliei o que passa pela alma desse homem de cultura e a obrigação do cargo. É um janeiro sem sol.

Na aventura do gênero humano que é a vida, a marca fundamental e dominante foi a violência. Darwin ­ que este ano completa 200 anos de nascimento ­ desenvolveu a teoria de que a espécie humana evoluiu por meio da sobrevivência dos mais fortes. Assim, somos todos que chegamos até aqui beneficiários dessa brutal disputa na matança dos mais fracos.

Mas não desapareceu de nossa alma o amor pelos desvalidos, nossos sentimentos com os mais perseguidos, nossa busca constante pela igualdade. Se um intruso asteróide não houvesse colidido com o planeta, teríamos sido comidos pelos dinossauros e a Terra seria só de gigantes.

Mas o bicho-homem, quis Deus que conhecesse tudo isso e tivesse o poder de criar a força, dominá-la ou ser escravo dela.

É desligando a televisão que posso fugir de pensar na tragédia das crianças ensangüentadas e mortas, ceifadas no despertar da inocência. Talvez seja a "rosa amarela" da incelência. E o mundo, embrutecido, se comove mais com o cemitério das bonecas de Gaza, com os olhos pintados sempre abertos, sem pupilas, eternamente cegas num simbolismo da gratuidade da violência.

Leio a entrevista de João Lins de Albuquerque com uma atriz que foi um dos encantos da minha geração após-guerra, Esther Williams, no seu vigor de nadadora, sereia dos musicais aquáticos do fim dos anos 50.

Ela diz que seus filmes faziam sucesso porque as pessoas, cansadas das cenas tristes da guerra, estavam ávidas de ver "filmes alegres que destacassem o lado bom da vida".

É o que estamos precisando, ballets aquáticos em vez do fogo de Gaza. Será que isto virá com a política inteligente de Hillary? É, senhora Clinton, entre o poder duro e o poder fraco, melhor o poder inteligente. Mas o poder é burro.


AEROYEDA OU AEROCRUSIUS

Reis e imperadores não viviam sem as suas carruagens particulares. Era um emblema da glória e do poder. Não é por acaso que em toda cerimônia de posse o presidente chega ao palácio de carroça.

No fundo, a democracia republicana requer algum ritual monárquico. Carroça de rei e de presidente é carruagem. Só o cavalo não sabe disso. Cavalo é que nem presidente: nunca sabe de nada. Vai em frente.

Certo é que presidentes e governadores precisam de aviões novos. Eu os compreendo profundamente. Ainda mais em tempos de crise financeira mundial e de pessimismo. Nada mais oportuno do que trocar de avião quando a plebe está trocando de emprego. Quer dizer, está trocando a condição de empregado pela de desempregado.

É estimulante. Imagino que a primeira medida de Barack Obama, depois de chegar de carroça à Casa Branca, será comprar um avião novo, o aeroobama. Ou aero-obama? Com a reforma ortográfica, convenhamos, ficou mais difícil batizar os aviões dos nossos atribulados donos do poder.

Aeroyeda ou aerocrusius? Eis a questão central. Tenho certeza de que o magistério estadual não vai compreender a importância desse ato renovador da governadora. Trata-se de um gesto diplomático relevante.

É a primeira vez que a governadora aceita uma sugestão do presidente da República. Ninguém mais poderá alegar falta de diálogo entre os dois ou ausência de boa vontade da governadora com as opiniões e sugestões de Luiz Inácio. Um avião novo, com o preço variando ligeiramente entre 8 milhões e 26 milhões de dólares, só trará benefícios ao Rio Grande do Sul.

A governadora poderá chegar com muito mais rapidez às inaugurações que fazem parte da sua rotina. Sem contar que no caso de ter de ir a Brasília defender a prorrogação antecipada dos pedágios, em caráter de urgência urgentíssima pelo bem de todos, a governadora estará livre dos atrasos da Gol e dos sanduíches da TAM.

Não fica bem para um governante se misturar com a plebe em voos de linha. Além de ter de comer barrinha de cereais, a autoridade fica exposta ao contato com os eleitores. Já imaginaram ter de explicar a algum professor inconveniente (existem passagens promocionais) a diferença entre piso e salário inicial?

Ou ter de justificar que o Estado quebraria com o salário inicial de R$ 950,00 para o magistério, mas não terá suas contas abaladas por um mísero avião de 26 milhões de dólares? Estou com a governadora: ter avião novo é preciso.

Eu sou totalmente a favor de avião novo. Acho que cada governador deveria ter também uma limusine. Não, duas: uma branca e outra preta. Preto sempre combina. É isso: cada governador precisa de uma limusine pretinho básico e de um jatinho básico.

Tudo pela dignidade do cargo. Quero enfatizar um aspecto: a hora é simbolicamente oportuna. Que sensibilidade! Chego a ficar arrepiado. Que sintonia com a população! Digo mais: a governadora deve encomendar uma pesquisa interativa para definir o nome da seu novo jato? O povo quer participar. Estou entusiasmado.

Eu ficaria com 'aeroyeda'. É mais ágil. 'Aerocrusius' parece piada de mau gosto. O criador do nome escolhido ganharia uma viagem a Brasília, com a governadora, a bordo da nova aeronave.

Se tem uma coisa inaceitável em presidente da República ou em governador, de quem esperamos modernidade e competência, é avião velho. Agora vai. Com avião novo o governo decola.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite o dia - Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana.


16 de janeiro de 2009
N° 15850 - JOSÉ PEDRO GOULART


Verdades e mentiras

A imagem do mágico cujo truque não funciona direito é bem conhecida. Sempre tem uma criança que descobre e aponta para algo errado durante o número, e todos vaiam, ou riem, o que é pior. A mentira foi descoberta. O bom é que não fosse.

Em F for Fake, o Orson Welles especula sobre a verdade e a mentira. O filme mistura ficção e documentário, só que muitas vezes ficamos sem saber o que é um ou outro; a maior parte do tempo, inclusive, ele conta a história de um falsificador de arte, cuja obra é tão boa que praticamente é impossível saber qual a cópia e qual o original.

Welles, ele mesmo um falsificador – um mestre na mentira e na ilusão – já havia causado histeria na população americana ao transmitir pelo rádio o anúncio de que os Estados Unidos estavam sendo invadidos por marcianos; na verdade ele encenava A Guerra dos Mundos, uma novela de ficção científica.

Aqui em ZH há um questionário destinado a famosos. Uma das perguntas é a seguinte: “Em que situação vale a pena mentir?”. As respostas – acompanho sempre – variam entre “nunca” ou “só se for para proteger alguém”.

Ninguém diz “sempre”, que seria a resposta menos mentirosa. Eu, você, sabemos – o Orson Welles, velho zombeteiro, sabia ainda mais – que a verdade é uma ilusão. E o carvão da ilusão é a mentira.

Mentimos, fingimos, enganamos. E queremos que nos mintam, queremos ter fé. É na ilusão de que o outro irá nos redimir que reside a paixão, por exemplo. A paixão acaba quando termina a idealização. A verdade é chata. A imagem do mágico cujo truque dá errado é a de um cara triste, um cara que não sabe mentir direito.

E também mentimos porque precisamos, para evitar uma auto-consciência que nos massacraria, ou porque sequer sabemos onde é que fica a tomada que nos conectaria à verdade absoluta. Em última análise, mentimos porque cada um de nós é um projeto fictício de si mesmo.

A nos redimir, o dedo infantil que aponta o truque errado do mágico ou que revela que o rei está nu: a famosa verdade verdadeira das crianças. Minha filha, por exemplo, tem cinco anos e me disse o seguinte: “Papai, quando eu crescer tem três coisas que eu não quero que aconteçam comigo: casar, morrer e ter um nariz igual ao teu”.


Jaime Cimenti

Maridos e amantes

Balzac disse que era mais fácil ser amante do que marido. Talvez por isso ele só tenha se casado com a condessa polonesa Éveline Hanska lá pelos cinquenta anos, quando já estava gravemente enfermo. Amante fica mais no bem-bom, horas boas, coisa e tal. Marido é vinte e quatro horas. Não está fácil ser marido nesses dias que parecem ter trinta horas.

Se o cara vive mais em função dos filhos, paizão e tal, a mulher reclama que quer mais atenção, que a vida conjugal está indo pro espaço etc. Se o maridão não liga para as crias e se liga só na patroa é porque é pai ausente e desalmado.

Se o esposo capricha nos cuidados com o corpo, a alma e as roupas, a mulher começa a indagar o que está acontecendo e se o malandro está riscando fora da caixa.

Se o cara anda desleixado com o visual, aí é chamado de relaxado, descuidado e tal. Se o marido se preocupa muito com trabalho, grana e futuro é porque é dinheirista, materialista, miserável e maníaco. Se gasta todo o dinheiro e mais um pouco é porque é irresponsável e não se preocupa com a mulher e os filhos.

Se o cara fica em casa toda noite, é presença ignorada. Se vai à rua, é ausência notada. Se não dá conversa para os amigos e parentes, é porque é antipático, frio. Se agrada demais, é enxerido. Se o cara chora, se mostra fraco e sensível, não pode. Se dá soco na mesa, fala alto e encrespa, é um grosso.

Se não dá palpite nenhum dentro de casa, é porque é desligado. Se opina muito, é metido e convidado a ficar quieto.

Se vai muito no médico e toma tudo quanto é remédio, é hipocondríaco, exagerado. Se não se cuida, é porque não gosta o suficiente de si, da mulher e dos filhos. Se o sujeito fala coisas simples, superficiais, é tido como simplório.

Se fala sério demais, é chato, papo horroroso etc. Claro, claro, há que procurar o ponto de equilíbrio, afinal, a felicidade até existe, falou o Roberto Carlos. Mas aí o maridão vai ser chamado de mauricinho, certinho, equilibradinho, quadradinho, sem graça.

Não é mole, não é? Lá pelo quarto milênio, as coisas talvez se acomodem entre o sol e a lua. Mas como disse o Vinícius, a vida é a arte do encontro e é preciso seguir se encontrando do jeito mais gostoso.

De mais a mais, a vida, o mundo e as pessoas devem ser mais amados, sentidos e vividos do que propriamente entendidos. É verão, chega de filosofança. Como disse, também o Vinícius, a vida tem sempre razão. Viva! Vá à vida! Com ou sem equilíbrio.

Fui! (Jaime Cimenti)


16 de janeiro de 2009
N° 15850 - PAULO SANT’ANA


Luxo, pompa, ostentação

Esses dias, escrevi uma coluna inteira criticando a verdadeira campanha que se fez aqui no Estado para enfraquecer a imagem da governadora Yeda Crusius, acusando-a de falta de exação ou de enriquecimento ilícito na compra da casa em que reside.

A campanha acabou trombando com a absolvição da governadora pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas.

A governadora deu de ombros para a minha coluna, como dá de ombros agora para a opinião pública ao lançar-se à aventura louca da compra de avião a jato que pode custar até US$ 26 milhões.

Até a vinda desse avião maldito, deverá decorrer um mínimo de 12 meses, gastos na licitação e outros preparativos para recebê-lo.

A governadora então usufruiria do equipamento durante apenas um ano, ou menos, de mandato que lhe restaria.

Por que então ela encasquetou que tem de comprar o avião? Porque a governadora se muniu de salto alto após ter promovido o ajuste fiscal e o equilíbrio das contas, subiu-lhe para a cabeça a glória do feito, a ponto de afrontar os governados com a concessão dessa autobenesse injustificável.

E porque a governadora dá, ao decidir que vai comprar o avião, a primeira demonstração de que quer reeleger-se: o avião lhe serviria então não por apenas um ano, mas por cinco.

Ainda ontem, uma dirigente do Cpers, no Painel RBS, dizia que não é verdadeira a falta de dinheiro nos cofres do Estado, tanto que a governadora “está comprando um avião”.

Mas será que a governadora não percebeu que a compra desse avião será um estigma político inafastável que ela carregará pelo restante do seu mandato?

Será que a governadora não percebe que a imagem decorrente da compra desse avião é de pompa, luxo e ostentação?

Se a governadora viaja na maioria das vezes para Brasília, algumas poucas vezes para São Paulo, o que custaria, para manter uma imagem de austeridade de seu governo, que fretasse, a cada vez que houvesse necessidade de viajar, um jato de aluguel?

Essas poucas viagens que a governadora faz depõem tecnicamente para a compra desse avião, que se tornará supérfluo e antieconômico tanto em sua aquisição quanto em sua caríssima manutenção: não se pode comprar um avião para ele ficar parado, avião foi feito para voar. E se a governadora quer que seu avião passe todos os dias voando, certamente o usará em viagens desnecessárias de seu staff, se quiser justificar a grandeza das despesas.

E, se quisesse ainda mais manter uma imagem de austeridade de seu governo, a governadora viajaria para Brasília de avião de carreira: que belo exemplo daria aos seus governados!

Se pretende reeleger-se, como agora demonstra ao designar a compra de um avião que lhe serviria por cinco anos, a governadora deveria saber que esse avião, ele sozinho, com os efeitos maléficos que se desprenderão de sua aura de esbanjamento, acabará por impedir-lhe de ser reeleita, o estrépito da compra desse avião em pleno espocar da crise econômico-financeira mundial, que atingirá fatidicamente os cofres públicos estaduais, vai funcionar como uma canga pesada e insustentável para a governadora, retirando-lhe prestígio no propósito de permanecer no Piratini por mais quatro anos.

Se a governadora não percebe que a cada dia que passar no seu governo, doravante, terá de lidar com o estorvo desse avião nos embates retóricos com o funcionalismo, sedento e necessitado de salários, então ela está muito enganada.

Se a governadora não percebe que ao propor a compra deste avião soltou as rédeas dos apetites salariais do funcionalismo e de todos os setores dos três poderes, então está desmentida a sensibilidade política que parecia ser a sua maior virtude.

Se a governadora comprar esse avião, eu não tenho mais condições de defendê-la em nada. Mas eu não influo em nada. Ela dá de ombros para esta coluna.

Só que o punhal afiado da opinião pública vai cair de paraquedas sobre a garganta da governadora, se ela comprar este avião.


16 de janeiro de 2009
N° 15850 - DAVID COIMBRA


Mariza e Rejane

Saí perplexo do Painel RBS, do qual participei ontem como entrevistador.

Perplexo, essa é a palavra.

A ideia era debater a Educação no Estado. Lá estavam, dois metros a minha frente, dentro de seus circunspetos casaquetos, a presidente do Cpers, Rejane de Oliveira, e a secretária de Educação, Mariza Abreu.

E em nenhum momento, nenhum minuto, nenhum átimo de segundo, elas tiveram um único ponto de contato. Nenhuma convergência, nenhuma concordância. Zero. A impressão é de que ali não se encontravam uma representante de entidade de classe e uma representante do governo; a impressão é de que ali se encontravam duas inimigas.

A presidente do Cpers, sobretudo ela, parece programada inexoravelmente para a oposição. Alguém dirá que sou contra o Cpers, ou contra os professores, ou a favor do governo, bibibi. Pouco se me dá. Não vou atrelar meu julgamento ao maniqueísmo tacanho que grassa pelo Rio Grande amado.

O fato é que, depois da experiência de ontem, passo a duvidar da possibilidade de que alguma proposta do governo, qualquer proposta, vá receber apoio ou sequer compreensão do Cpers.

O que me deixa desconfiado.

Segundo Rejane de Oliveira, o governo pretende liquidar com a Educação no Rio Grande do Sul e extinguir as supostas conquistas dos professores. Mas será possível isso? Será que um governo pode ser assim tão maligno? Tão mal-intencionado? Será que as pessoas que estão no governo pretendem o Mal e tão-somente o Mal? Tenho a tendência de suspeitar de tudo o que é apresentado como absoluto.

Existe uma tese de que é assim mesmo que funciona a engrenagem democrática: a oposição, por princípio, tem de se opor. Pelo menos é desta forma que se comporta a máquina democrática gaúcha. A oposição quase sempre é feroz e sistemática. A oposição é sempre do contra.

Em alguns lugares é diferente. Estive na Suíça, por exemplo, e lá é exatamente o contrário: lá eles tentam fazer com que todos os governos funcionem, a despeito de quem esteja no poder. Para isso os suíços promovem um rodízio.

Os partidos se revezam no comando do país, um período para cada um. Assim fica garantido que a obra de um não será desmanchada pela administração do outro. Afinal, um e outro sabem que, ali adiante, voltarão ao poder.

Não creio que seja uma fórmula aplicável ao Rio Grande do Sul, o Rio Grande do Sul, não há dúvida, não é a Suíça. Mas o exemplo mostra que existe alternativa à oposição incondicional. A colaboração, talvez. Ou, no mínimo, a tolerância.

No caso do Rio Grande do Sul, isso é impossível. Por essa razão, o Painel de ontem foi muito positivo. Mais do que apresentar as propostas do governo e do sindicato, expôs a intimidade da convivência entre as partes.

É como se elas fossem um casal e nós, entrevistadores, telespectadores, ouvintes, como se nós entrássemos na sala deste casal e privássemos com eles.

Como se acompanhássemos as discussões que têm todos os dias, no café da manhã, no almoço, no jantar. E, depois disso, ficamos, nós, lamentando. Porque o divórcio parece inevitável.