quinta-feira, 18 de dezembro de 2008


CLÓVIS ROSSI

Recados para 2010

COSTA DO SAUÍPE - Pesquisa ontem publicada pelo jornal britânico "The Guardian" contém material de reflexão tanto para o governo Lula como para seus opositores com vistas ao pleito de 2010.

A pesquisa mostra que o Partido Trabalhista, no governo, ganhou sete pontos sobre os conservadores no mês passado, em plena tempestade econômico-financeira.

A interpretação do jornal é a de que David Cameron, o líder conservador, não é visto pelo público como o homem capaz de ressuscitar a economia.

Se se pudesse fazer uma transposição para o Brasil, sou capaz de apostar que o público não veria nenhum líder da oposição como mais capaz de enfrentar a tormenta do que o líder em funções, um certo Luiz Inácio Lula da Silva. Mais ainda, aliás, do que no Reino Unido, posto que ninguém sério pode acusar Lula de responsabilidade pela crise -por ação ou omissão.

Já Brown, por ter sido ministro da Economia e em seguida primeiro-ministro, pode, sim, ser responsabilizado ao menos por parte da crise, já que não soube ou não pôde coibir os excessos que estão na origem dela.

Claro que tudo isso, lá e cá, pode mudar em razão da profundidade da crise. Mas, hoje por hoje, a oposição precisará de muito mais do que torcer pelo agravamento da crise para arranhar Lula.

O recado é também para o governo Lula. A pesquisa britânica é claramente um julgamento pessoal, não partidário. Brown parece mais confiável para tempos de crise do que Cameron. Mas, se Brown não pudesse ser candidato (pode), não parece haver no horizonte nenhum outro trabalhista que mereça o mesmo teor de confiança.

No Brasil, Lula não pode ser candidato. Seu problema é, pois, transferir a confiança -e, por extensão, os votos- para outro nome da situação. Uma tarefa que é tudo menos trivial.

CLÓVIS ROSSI

CLÓVIS ROSSI

Recados para 2010

COSTA DO SAUÍPE - Pesquisa ontem publicada pelo jornal britânico "The Guardian" contém material de reflexão tanto para o governo Lula como para seus opositores com vistas ao pleito de 2010.

A pesquisa mostra que o Partido Trabalhista, no governo, ganhou sete pontos sobre os conservadores no mês passado, em plena tempestade econômico-financeira.

A interpretação do jornal é a de que David Cameron, o líder conservador, não é visto pelo público como o homem capaz de ressuscitar a economia.

Se se pudesse fazer uma transposição para o Brasil, sou capaz de apostar que o público não veria nenhum líder da oposição como mais capaz de enfrentar a tormenta do que o líder em funções, um certo Luiz Inácio Lula da Silva. Mais ainda, aliás, do que no Reino Unido, posto que ninguém sério pode acusar Lula de responsabilidade pela crise -por ação ou omissão.

Já Brown, por ter sido ministro da Economia e em seguida primeiro-ministro, pode, sim, ser responsabilizado ao menos por parte da crise, já que não soube ou não pôde coibir os excessos que estão na origem dela.

Claro que tudo isso, lá e cá, pode mudar em razão da profundidade da crise. Mas, hoje por hoje, a oposição precisará de muito mais do que torcer pelo agravamento da crise para arranhar Lula.

O recado é também para o governo Lula. A pesquisa britânica é claramente um julgamento pessoal, não partidário. Brown parece mais confiável para tempos de crise do que Cameron. Mas, se Brown não pudesse ser candidato (pode), não parece haver no horizonte nenhum outro trabalhista que mereça o mesmo teor de confiança.

No Brasil, Lula não pode ser candidato. Seu problema é, pois, transferir a confiança -e, por extensão, os votos- para outro nome da situação. Uma tarefa que é tudo menos trivial.

CLÓVIS ROSSI

ELIANE CANTANHÊDE

Voltas que o mundo dá

BRASÍLIA - Enquanto Bush leva sapatadas no Iraque e é excluído da Cúpula da América Latina e do Caribe na Bahia, Raúl Castro vira a estrela do megaencontro de 33 países e é recebido com tapete vermelho por Lula hoje em Brasília. São as voltas que o mundo dá.

Jornalista deve ser imparcial, apartidário e todas essas coisas, mas, se o regime é de exceção, o jornalismo também é. Bush mandou tropas e levou sapatos, legando para a história uma imagem contundente da sua saída da Casa Branca, no rastro de duas guerras e de uma crise internacional jamais vista.

Já os presidentes sul-americanos estão cada vez mais parciais, partidários e todas essas coisas contra os EUA, com ou sem Bush, e a favor de Cuba, com Fidel e agora mais ainda com o moderado Raúl, que promete abrir a ilha. Só não se sabe como.

Segundo Raúl, seu desejo é transformar o Brasil no sócio "número um" de Cuba, mas ele fez questão de passar em Caracas antes de chegar à Bahia e a Brasília na sua primeira viagem depois de assumir o cargo.

Se o Brasil e Lula são o número um, Chávez vem antes do um. E a competição passa pelo petróleo.

Chávez faz jorrar petrodólares em Cuba, e a Petrobras anunciou investimentos de US$ 8 milhões para prospecção na ilha. Isso é só o começo, e os negócios bilaterais cresceram cerca de 60%. São decisões objetivas, ao contrário do lero-lero démodé da Venezuela, da Bolívia e cia. contra Washington, e bem mais produtivas do que as sapatadas que, vira e mexe, Evo Morales e Rafael Correa dão, e outros ameaçam dar, no Brasil.

Ao criar o Conselho Sul-Americano de Defesa, o Cone Sul começa a enterrar a JID (Junta Interamericana de Defesa). Com a Cúpula da América Latina e do Caribe e a volta de Cuba, a região começa a enterrar a OEA. A diferença? É que os EUA fazem parte da JID e da OEA, mas estão fora do Conselho e da Calc.

Tomara que seja uma estratégia adulta, não uma birra infantil.

elianec@uol.com.br


NA CAMA SEM MADONNA

A vida de um cronista pode ser muito dura. Nem sempre a realidade coincide com sua capacidade de opinar sobre ela. Madonna está na área. Eu sempre preferi Madonna a Michael Jackson. Entre anjos e demônios, acho os demônios menos enfadonhos, embora os anjos costumem ser enfadonhamente demoníacos. Anjos, em princípio, não têm sexo.

Demônios, geralmente, só pensam no sexo dos anjos. Ou em sexo com anjos. Tudo na vida de Madonna é estratosférico. Ela já ganhou mais de 120 prêmios importantes, vendeu mais de 280 milhões de álbuns e 160 milhões de singles, fez a turnê que mais arrecadou dinheiro na história e manda no mundinho universal da música há mais de um quarto de século.

Madonna é show. Madonna é dez, mil, milhões, bilhões. Madonna é super, hiper, megaespetacular. Entenderam ou, como diz a galera, vou ter que desenhar? Britney Spears quer ser Madonna quando crescer. Está no bom (mau) caminho. Pelo jeito, Michael Jackson também queria ser Madonna quando crescesse. Mas Peter Pan não cresceu. Apenas encolheu.

Nada na vida de Madonna é trivial. Ela já pagou 120 milhões de dólares para se livrar de um marido. Tem um patrimônio avaliado em mais de 1 bilhão de verdinhas. Há muito barbado no planeta que ainda sonha em ir para a cama com essa coroa (50 anos) retada, de faca na bota, mais animal do que Romário, Edmundo e Júnior Baiano juntos, antes da aposentadoria e do rebaixamento do Vasco. Madonna está perto da terceira idade.

A velhinha, contudo, pode gabar-se realmente de continuar na melhor idade, deitando e rolando quando sente vontade. Tirei uma manhã deitado escutando Madonna. Fui de 'Like a Virgin' a 'American Life', de Evita Perón a Che Guevara, das provocações eróticas ao erotismo sem provocação. Não perdi meu tempo. Também não atingi o êxtase. Que saco!

Concluí que eu tenho muito a dizer sobre Paulo Coelho, Charles Baudelaire, José Mendes, especialmente José Mendes, Capitu, Teresinha Morango, Simón Bolívar, Nilmar, D’Alessandro, Michel Houellebecq, Bento Gonçalves e mais alguns personagens menores da história universal. Mas nada tenho a dizer sobre Madonna. Nem 'Hung up' atiçou o meu apetite.

Quase consegui me emocionar ao rastrear as suas opiniões políticas. Numa entrevista de impacto político profundo, há alguns anos, a uma pergunta decisiva, 'quem você gostaria de ver cantando ‘Justify My Love’ num bar vagabundo?', ela deu uma resposta não menos acachapante: 'Bill Clinton. Num dueto com Al Gore.

Com um boá de penas no pescoço'. Uma artista com tal visão de mundo deve ser respeitada. Pensei em cantar 'Justify My Love' num bar vagabundo com um boá de penas no pescoço. Confesso que imaginei Luiz Inácio no lugar de Clinton.

Achei o bar. Não é difícil. Custei para encontrar o boá. Fiz um teste no banheiro. Ouvi um urro do vizinho. Cancelei imediatamente a minha apresentação. Por sorte, os ingressos nunca seriam vendidos.

Pensei, então, em fazer uma enquete: quem você gostaria de ouvir cantar 'Justify My Love' num bar vagabundo? Melhor: qual personalidade política ou celebridade brasileira você gostaria de ouvir cantar 'Justify My Love' num bar vagabundo com um boá de penas no pescoço? Respostas por e-mail.

Não me decepcionem. É minha primeira pesquisa interativa. Não importa se nunca ouviram 'Justify My Love'. Simplifico: quem você gostaria de ouvir cantar qualquer coisa num bar vagabundo com um boá de penas no pescoço? Estou fora.

juremir@correiodopovo.com.br

Uma ótima quinta-feira - Aproveite o dia.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Não tenho saco pra Papai Noel!

Já sei o que eu vou pedir pro Papai Noel: um pedágio. Um pedágio só pra mim!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do Sudeste, ops CHUVESTE!

Piada pronta: descobri uma ONG, a Associação das Mulheres Empresárias do Brasil. AMEBRAS! Peraí que eu vou falar com as amebras e já volto. AMEBRAS CONTRA A CRISE! Rarará!

E essa: "Rodovias paulistas esperam receber 1,3 milhão de veículos no Natal". Já sei o que vou pedir pro Papai Noel: um pedágio. Um pedágio só pra mim! Aliás, foi inaugurado o pedágio do Rodoanel. O ROUBÁGIO DO ROUBOANEL!

E adorei esse lançamento imobiliário: "Casa loft, um projeto criado por três arquitetos, dois engenheiros e um apaixonado". Então é Parada Gay! Três arquitetos, dois engenheiros e um apaixonado é Parada Gay!

E vou pagar minhas compras de Natal com o cheque-capim: só burro aceita. Ou então com o cheque-camisinha: só desenrola no pau. Rarará! E um amigo foi pro shopping, e o Papai Noel era tão magro, mas tão magro, que parecia o Bin Laden!

E eu não vou comprar nada porque não tenho SACO pra PAPAI NOEL! E o Bush? Pra Espanha ele não quer ir de jeito nenhum. Pra se encontrar com o Zapatero?!

E o chargista Frank interceptou o diálogo de pilotos americanos: "Não, você não está ouvindo errado, a ordem do presidente é bombardear todas as sapatarias do Iraque". E, se não parar de chover, eu vou dar uma sapatada em são Pedro!

Aliás, sabe por que o Bush gosta tanto de bomba? Porque a mulher dele é um canhão. E ele nunca entendeu a geopolítica do Iraque. Por que Mossul fica no Norte e não no Sul? Por que Nassiria fica no Iraque e não NA SÍRIA? E eu, como são-paulino, não aceito certo tipo de piada.

Olha o e-mail que recebi: "Prezado José Simão, o Papai Noel neste ano vai chegar atrasado. É que as renas tão de ressaca da comemoração do hexa". É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que aqui em Sampa tem uma loja feminina de tamanhos especiais chamada TOSCA Magazine. Uau! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil! Atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante.

"Quartzo": partze ou apozentzo do apartamentzo do catzo do companheiro. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br


18 de dezembro de 2008
N° 15823 - RICARDO SILVESTRIN


O impreciso

Lendo a poeta americana Emily Dickinson, encontro mais uma autora que possui exatamente aquilo de que mais gosto na arte da poesia. Ela viveu de 1830 a 1886. Publicou poucos textos em vida. Sua obra foi descoberta pela família, 1775 poemas inéditos, após a sua morte. Mas não é esse ar de destino trágico que me agrada. Do que gosto é uma precisa construção do impreciso.

Existem os poetas de conteúdo visível. É possível claramente delimitar do que falam. Tratam de temas importantes, roçam os fatos da história do seu tempo. São, na maioria das vezes, os mais aceitos e elogiados, os considerados grandes.

A experiência de leitura dos seus textos é mais próxima da que temos na fala comum. Alguém diz algo e não prestamos muita atenção às palavras, olhamos através delas, para o que elas indicam, pois estamos atrás do conteúdo.

A prosa realista também dá essa ilusão de estarmos indo frase a frase atrás de um conteúdo. Drummond e Chico Buarque estão nesse time. São entendidos e louvados. Gosto deles também, mas, às vezes, parecem-me balofos de conteúdo. Como se o texto estivesse desequilibrado entre o sugerir, soar e dizer, sem deixar aquele espaço para que possamos até nos perder. Falo aqui de gosto, não de valor.

O valor é dado por parâmetros e não pretendo fazer do meu gosto o critério de medida. Por isso, gosto mais de Manuel Bandeira do que de Drummond. Em Bandeira, o poema se realiza com muito pouco, mas se realiza como poema, não como tratado, minifilosofia, miniensaio sociológico.

Dos simbolistas franceses, prefiro Verlaine, das Festas Galantes. Do haicai japonês, adoro Issa. Da poesia dos anos 80 no Brasil, Alice Ruiz. Caetano Veloso me provoca mais do que Chico Buarque. Paul McCartney do que John Lennon.

Alguns versos dos Poemas Escolhidos da Emily Dickinson, na tradução de Ivo Bender: “Por ocupação, só isto: / Abrir amplamente minhas mãos estreitas / Para agarrar o paraíso.”; “As misérias da conjetura / São uma dor mais amena / Do que um fato de ferro / Endurecido por “Eu sei”.”; “Dá-me, Senhor, uma ensolarada mente / Para suportar Teu desejo tormentoso!”. Palavras precisas para falar do impreciso.


18 de dezembro de 2008
N° 15823 - PAULO SANT’ANA


A extinção do trema

Confesso que perdi completamente a tranqüilidade quando soube que a partir do próximo dia 1º de janeiro, portanto daqui a 13 dias, a palavra tranqüilo perderá o trema.

Nunca mais a língua portuguesa será a mesma para mim sem trema no tranqüilo. Com o trema, eu me sentia tranqüilo. Eu era seguro.

No caso da palavra qüinqüênio, eu era ainda mais realizado. Porque poucas pessoas sabiam que era uma das poucas palavras que tinham dois tremas. Este era um segredo que sempre guardei a quatro chaves, vaidosamente eu escondia essa minha superioridade sobre a maioria das pessoas.

Mas ainda não perdi essa arrogância no que se refere à palavra qüinquagésimo. Pouquíssimas pessoas sabem que qüinquagésimo tem trema no u. Agora, com a reforma ortográfica, qüinquagésimo vai perder o trema na escrita, mas o trema permanecerá na pronúncia e todos portanto continuarão errando, enquanto eu, impávido, forçarei o surgimento dessa palavra nas frases que pronunciarei nas minhas rodas de conversa, só com a finalidade de esnobar.

Mas o que eu gostei mesmo foi de que a palavra colméia vai perder a partir do próximo mês o seu acento agudo.

Só eu sabia, ninguém mais sabia que a palavra colméia não existia. O certo era colmeia, assim mesmo sem acento, com o “e” fechado.

Mas como estupidamente os dicionários costumam incorporar as palavras escritas ou pronunciadas de modo errado, colméia indevidamente foi reconhecida pelo idioma como também certa.

Ninguém pronunciava ou escrevia colmeia sem acento agudo, todos achavam que era errado, tanto fez sucesso o uso, para mim ilegítimo, de colméia.

E eu ia para a televisão e freqüentemente pronunciava colmeia, sem acento agudo, ou a escrevia assim em minha coluna.

Porque sabia que ao ouvir ou ver a palavra colmeia sem acento, as pessoas iriam correr para o dicionário a fim de flagrar um erro meu. E iriam se quebrar. Era uma forma vaidosa de eu afirmar a minha erudição.

Agora faz-se justiça à palavra colmeia. Pelo menos o acento agudo na escrita a palavra colméia vai perder. É possível assim que as pessoas se acostumem a pronunciar colméia como colmeia, com “e” fechado, corrigindo um equívoco histórico de quase cem anos.

Mas assim como ainda existem raras pessoas que escrevem a palavra qüinqüenal corretamente, com dois tremas, que vão a partir de 1° de janeiro pelo menos na pronúncia colocar os dois tremas, quero dizer que meu tesouro de pronúncia mais bem guardado é outro: refere-se à expressão “em que pese”.

Não existe nenhuma pessoa em todo o território brasileiro nem em Portugal, nem nos outros vários países lusófonos, isto é, que falam português, que pronuncie a expressão “em que pese” corretamente.

Todas essas centenas de milhões de pessoas que eu não conheço e as milhares de pessoas que conheço, entre elas locutores e homens públicos em geral, pronunciam “em que pese” com o “e” aberto, acento agudo no “e” de pese.

E só eu sei, entre esses milhões de pessoas, que “em que pese” quando pronunciado no sentido de “apesar de” é com acento grave no “e” da palavra pese, portanto “e” com pronúncia fechada.

Pronuncia-se assim: em que pêse. Este é o meu grande relicário e privilégio. Porque raríssimas gramáticas trazem o emprego correto da pronúncia dessa expressão.

É meu apurado segredo filológico. Nem o professor Paulo Flávio Ledur, o mestre da língua pátria, sabia que “em que pese” se pronuncia em “que pêse”, o que me deixa muito orgulhoso.


18 de dezembro de 2008
N° 15823 - L.F. VERISSIMO“Zeitgeist”

“Prezado M:

Entendo seu entusiasmo com o verso que acaba de me mandar. Realmente, é um raro exemplo de exteriorização poética, a começar pela reiteração inicial:

‘Eu mato, eu mato...’

A brutal assertiva evoca à perfeição a têmpera destes dias, o nosso ‘zeitgeist’. Perderam-se as ilusões com a justiça e as esperanças de regeneração, e com todas as instâncias jurídicas. Vivemos num deserto de valores morais. O poeta não diz ‘eu reprimendo’, ‘eu castigo’, ‘eu mando prender’. Diz e repete ‘eu mato’.

Que retribuição se pode esperar onde a justiça não faz justiça e a cadeia não segura o ladrão? O poeta ameaça fazer sua própria justiça porque não tem outra. Revertemos ao animal primevo com as presas à mostra, num ricto de vingança selvagem. Uma hiena ganindo entre as ruínas de uma civilização falida.

Segue o poema:

‘...quem roubou minha cueca...’

Há aqui algo que evoca Eliot, com seu constante recurso ao aparentemente banal – no caso, a cueca – em contraponto às alusões clássicas e míticas, e que acabou sendo um viés da poesia moderna (Auden, Drummond). Não seria, talvez, demais ler a cueca como metáfora. A cueca representa o que temos de mais íntimo, recôndito, profundo. O que temos de mais nosso. O que o ‘zeitgeist’ nos roubou. Ou seja: a nossa alma. Onde está ‘cueca’ leia-se ‘alma’. Sem a cueca, ficamos nus. Sem a alma, também estamos reduzidos a apenas o nosso corpo.

Mas quem roubou a nossa cueca/alma? Quem nos trouxe, desprotegidos, para este deserto?

Quem merece a raiva do poeta? Que a raiva é merecida fica evidente na última linha do verso:

‘... pra fazer pano de prato!’

A suprema degradação. Nossa alma secando pratos. O fim de uma geração que conseguiu chegar à Lua mas se perdeu no caminho da privada. Quem é o culpado? Também queremos ganir de indignação como o poeta, mas não sabemos em que direção. Para o alto? Para o lado? Para que lado? Quem, afinal, roubou nossa cueca pra fazer pano de prato?

Mas, enfim, poesia é isso mesmo, não é não? Perguntas sem respostas. Se houvesse resposta não seria poesia. Um grande abraço do L.”

“Prezado L:

Gostei muito do que você escreveu sobre o verso que mandei, mas preciso fazer uma confissão: mandei o verso errado. Queria que você comentasse um poema do Baudelaire mas me atrapalhei (sou um pré-eletrônico, você sabe) e acabei mandando a letra de uma marchinha de Carnaval que, sei lá por que, estava armazenada no meu laptop. Mas obrigado assim mesmo. Grande abraço, M.”

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008


CLÓVIS ROSSI

A festa americana

COSTA DO SAUÍPE - Experiente funcionário público, ex-ministro de mais de uma pasta no Chile, pré-candidato às primárias que escolherão o candidato presidencial da "Concertación", a coligação que governa o país desde o fim da ditadura Pinochet em 1989, José Miguel Insulza põe uma pitada de ceticismo (ou realismo?) no entusiasmo dos governantes latino-americanos pelo que alguns chamam de OEA sem os Estados Unidos e o Canadá.

Insulza é justamente o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos. Diz: "Não se pode confundir uma instituição [como a OEA] com uma conferência [como as multicúpulas da Bahia]".

Teme que, por não ser uma instituição, a cúpula latino-americana e caribenha termine por apenas convocar uma nova cúpula, já que não tem poder institucional para ir além de declarações de intenções, por generosas que sejam.

Formalmente, ele até tem razão. Mas, na América Latina, sempre se dá um jeitinho. Tanto que a Unasul, o conglomerado das 12 nações sul-americanas, também não é uma instituição, suas regras nem sequer foram aprovadas pelos Parlamentos, exceto os de Bolívia e Venezuela, mas, ainda assim, ontem foi aprovado o estatuto do Conselho Sul-Americano de Defesa, justamente uma área sensível.

O problema parece ser menos o aspecto formal e mais as divisões entre os países ao sul do rio Bravo.

Para resumir o que não é tão facilmente resumível, há duas grandes divergências embricadas: entre os que aceitaram gostosa ou constrangidamente o capitalismo e entre os que falam e/ou praticam um socialismo, embora ainda incipiente e pouco nítido.

Dessa divergência decorre a outra: a integração deve ser por meio de uma OEA sem Canadá e Estados Unidos ou é inevitável chamar também os dois para a festa americana? Aguardo o seu palpite.

crossi@uol.com.br



Anne Hathaway, 26 anos, estampa a capa da edição de janeiro da revista Vogue.

Com cabelos esvoaçantes, ela não poupou sorrisos na sessão de fotos.

Em entrevista à publicação, a atriz falou sobre a decepção que sofreu ao descobrir que o ex-namorado, o empresário italiano Raffaello Follieri, estava envolvido em escândalos financeiros.

No entanto, os assuntos desagradáveis não foram o foco da entrevista.

Recentemente indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz por seu papel em Rachel Getting Married,

Anne falou também sobre como é alcançar o sucesso profissional.

17 de dezembro de 2008
N° 15822 - MARTHA MEDEIROS


A aula prática de Muntadar

Ainda ontem eu estava lembrando de uma conversa que tive recentemente com a filósofa Viviane Mosé. Eu dizia a ela que sempre fui uma pessoa muito lógica e sensata, e que às vezes cansava manter esse alicerce.

Ela comentou, em tom de brincadeira, que por essas e outras andava pensando em organizar um seminário com o seguinte tema: “Como perder a cabeça”, já que está todo mundo bonzinho demais, esquecendo como faz bem soltar os cachorros de vez em quando.

Pois eis que surge, esta semana, o heróico jornalista iraquiano Muntadar al-Zeidi para fazer uma demonstração prática do que vem a ser “perder a cabeça”. Sem mais paciência para bull shit, ele tirou um de seus sapatos e zás no sonso do George Bush. E depois tirou o outro e zás de novo.

E errou, o infeliz. Certas oportunidades não se repetem duas vezes: pois o jornalista iraquiano teve duas chances e desperdiçou ambas.

Mesmo assim, esse episódio teve um efeito renovador em mim, e renovação é palavra-chave nesta época do ano. Como algumas pessoas sabem, tenho uma resistência a atos de vandalismo e violência, mesmo que moderados.

Sempre fico meio chocada quando vejo estudantes jogando ovos em políticos, ou ecologistas esparramando ketchup em casacos de vison. Nem mesmo atirei o pau no gato quando era estimulada a fazer tal coisa na infância. Sempre tive vocação pra missionária da paz.

Pois eis que, dessa vez, eu bem que torci para que aquele sapato tivesse sido mais bem mirado. Aliás, iria ficar ainda mais divertido se o presidente tivesse se safado do primeiro e, ao reerguer o corpo com seu sorriso de moscão, não escapasse do segundo. Tóóóing. Uma cena de cartoon.

Em tempos de armas nucleares, gases letais e homens-bomba, chega a ser cômico ver o presidente da maior potência do planeta ser escorraçado como um cão sarnento.

É quase como voltar ao tempo da pedra lascada. Mas, manifestações primitivas à parte, me percebi progredindo: pela primeira vez, torci pelo agressor.

Descubro, com certo orgulho, que já não sou tão irritantemente ponderada. Talvez eu nem precise preencher minha ficha de inscrição no hipotético curso idealizado pela Viviane Mosé: creio que já estou aprendendo a perder a cabeça quando a situação requer.

Tenho salvação: ainda há chance de eu não pagar o mico de terminar meus dias com uma ficha imaculada, sem um único gesto de extravasamento.

Agora só preciso de alguns voluntários.

ANTONIO DELFIM NETTO

Cuidado

NÃO DEIXA de ser um pouco assustadora a facilidade com que se fala em "refundar" o capitalismo como resposta à crise que o laxismo dos Bancos Centrais e a imoralidade de agentes do sistema financeiro depositaram sobre a economia real.

"Capitalismo" é o codinome de um sistema de organização econômica apoiado no livre funcionamento dos mercados.

Nele há uma clara separação entre os detentores do capital (os empresários) que correm os riscos da produção e os trabalhadores que eles empregam com o pagamento de salários fixados pelo mercado. É possível (e até necessário) discutir a qualidade dessa organização e sugerir-lhe alternativas.

O difícil é negar a sua eficiência, a sua convivência com a liberdade individual e os dramáticos resultados que desta última emergiram a partir dos meados do século 18.

Depois de uma estagnação milenar, nos últimos 250 anos ela permitiu a multiplicação por seis da população mundial, multiplicou por dez a sua produção per capita e elevou de 30 para 60 anos a expectativa de vida do homem, o que não é pouco. Certamente ela não é perfeita.

Tem, por exemplo, uma tendência a produzir uma detestável desigualdade. Mas o seu problema mais grave -conhecido desde sempre- é a sua ínsita tendência à flutuação (em períodos e amplitudes variáveis) com repercussões sobre o emprego e a segurança econômica dos cidadãos.

Quando se trata das flutuações macroeconômicas e da desigualdade, os economistas se dividem em duas tribos: uma crê que o sistema de economia de mercado, deixado a si mesmo e com tempo suficiente, resolve os dois problemas. Logo, ela dá ênfase à estabilidade monetária, fundamental para o bom funcionamento dos mercados.

A outra crê que a solução exige uma intervenção inteligente, cuidadosa e firme do Estado que corrija a desigualdade de oportunidades e mantenha a demanda global. Logo, ela dá ênfase à estabilidade do emprego no nível mais alto possível.

A tentativa (de falsa inspiração keynesiana) patrocinada pelo Partido Trabalhista inglês depois da Segunda Guerra, de produzir simultaneamente a estabilidade monetária e o pleno emprego, terminou, como todos sabemos, num Estado-corporativo ineficiente, cuja desmontagem foi iniciada por Thatcher.

As implicações políticas (na organização do Estado) e econômicas (na limitação da liberdade de iniciativa produtora das inovações) da "refundação" do capitalismo para eliminar as "crises" são muito mais sérias do que supõe a vã filosofia de alguns trêfegos passageiros do G20. Como diriam os romanos: Cuidado, o cachorro é perigoso!

contatodelfimnetto@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Chulé quase mata o Bush!

Vou lançar a enquete: "Em quem você quer dar uma sapatada hoje?". Na caixa do banco!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do Sudeste, ops, do CHUVESTE!

E atenção! Campanha Nacional da Sapatada! Eu também quero jogar um sapato no Bush! Ops, uma Havaianas. No Brasil, a gente não joga sapato, joga Havaianas!

Mas o que quase matou o Bush foi o chulé. O chulé do iraquiano! Arma de destruição em massa. Arma química!

Não é mais homem-bomba! É o HOMEM-CHULÉ! Belzebush asfixiado pelo chulé do iraquiano! Aliás, vou lançar a enquete: "Em quem você quer dar uma sapatada hoje?".

Na caixa do banco! Um amigo quer dar uma sapatada na caixa do banco: "Ela não quis aceitar o meu documento e não consegui retirar o meu FGTS!".

E aquele que acordou mal-humorado: NO MUNDO! Eu quero dar uma sapatada no mundo. E um outro disse: "Eu jogaria no Bush de novo, pra tentar acertar".

E eu acho que eu quero dar uma sapatada no Lula. Não sei por quê. Eu não sei porque tô dando a sapatada, mas ele sabe por que tá levando. Rarará!

Aliás, no Bush eu jogaria inseticida. Inseticida de barata. E o que mais me impressionou: a rapidez com que o Bush desviou do sapato. É a prática. Deve estar acostumado.

A Laura Bush deve jogar sapato nele toda noite. "Você não pegou o Bin Laden." Vuuum! "Você não botou o lixo pra fora." Zuuupt! E uma amiga minha quer dar uma sapatada no Papai Noel do shopping.

Ela foi transar com o Papai Noel do shopping e ele não encolheu a barriga e nem tirou a bota. E a Barbara Gancia quer bater na cabeça do Bush com um gato morto até o gato gritar!

E sabe como o Lula tá chamando o Barack Obama? Bavaria Oubrahma.

E adorei a charge do Tiago com o Bush de sapato na mão: "É o meu número! Joga o outro pé?!". Bem mongo! E eu vou lançar o chulé do iraquiano. Em spray. Spray de chulé iraquiano.

Pra jogar no elevador do prédio. É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: "É mole, mas trisca pra ver o que acontece!". Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Arembepe (BA) tem uma placa na barbearia: "Não fume! Não peça fiado! E não fale bem do Bush!". Unanimidade mundial. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês.

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Presunção": companheiro chegado num presunto. Presuntão de Natal.

Rarará! O lulês é mais fácil que o ingreis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br


17 de dezembro de 2008
N° 15822 - PAULO SANT’ANA

De fazer rir

Ontem, parece que me programei para ouvir o verdadeiro malabarismo verbal de vários políticos que explicavam no rádio e na televisão um fato inexplicável: eles garantiam aos ouvintes e telespectadores que a empreitada que estavam levando à frente, a criação de mais 7,3 mil cargos de vereador no Brasil, não ia custar nenhum tostão aos cofres públicos.

Não posso entender como se atrevem a tal fancaria: tentar fazer crer que o aumento de 14% na coletividade de vereadores do Brasil não terá qualquer repercussão nos orçamentos das Câmaras Municipais e nos seus respectivos municípios é zombar da inteligência brasileira.

Não custam nada 7,3 mil vereadores!

Mas o que mais abisma é o seguinte: para que e em nome de que se criam esses milhares de cargos, depois que eles foram cortados pela Justiça e se cristalizaram como inexistentes nas últimas eleições?

Ou seja, quem não se elegeu passa agora, num passe de mágica, a se tornar vereador, deixando de ser suplente. Isso só pode acontecer no Brasil, onde uma verdadeira compulsão para sugar as tetas fartas do erário público se apodera das pessoas de tal maneira, que um efeito manada se arremessa para locupletar-se nas cabeceiras dos recursos públicos, tornando-se titulares de privilégios que amassam o grosso dos cidadãos, que se vêem desamparados pelos serviços estatais por força do desequilíbrio social provocado por essa gula.

Não é a primeira vez que se trava uma queda-de-braço entre a Justiça e a classe política.

A Justiça derruba os privilégios, valendo-se da independência dos poderes, os legisladores cometem o acinte ao Poder Judiciário de pulverizarem a sua decisão, criando leis que consagram suas conspiratas corporativistas.

Mesmo que os argumentos de que melhor e mais justa representatividade terá o eleitorado se for assim aumentado o número de vereadores em milhares de cadeiras possam por acaso vir a ser legítimos, defender a aprovação do projeto sob a alegação de que ele não provocará nenhuma repercussão no erário público é um deboche, uma prestidigitação retórica que deveria envergonhar os seus defensores.

Mas não se diga que pertence privativamente ao Poder Legislativo a vocação do desperdício dos recursos públicos. Os outros dois poderes também se mostram incontíveis e insaciáveis em seus gastos.

O que espanta, no entanto, neste caso e em outros tantos exemplos é que a supremacia do Poder Judiciário sobre os outros, já que a um dos três poderes tem de ser dada a prerrogativa de decidir sobre controvérsias da relação entre eles, seja desafiada dessa forma acintosa.

A Justiça já tinha decidido sobre os limites no número de cadeiras da vereança nacional.

Atacar essa decisão é um manifesto rompimento do equilíbrio entre os poderes. É uma violência. E acima de tudo é um corporativismo deslavado.

Uma das mais desoladoras entrevistas esportivas foi dada ontem no Jornal do Almoço pelo vice-presidente de futebol do Grêmio, André Krieger.

Ele disse que não chegará para o Grêmio nenhum jogador que possa levar a torcida ao aeroporto.

E deu a entender que nenhum jogador de destaque poderá ser contratado pelo Grêmio para disputar a Libertadores.

Uma entrevista funérea, que gela as esperanças que a torcida gremista acalentava por ter o clube conseguido um lugar na Libertadores de 2009.

Então, de que adianta participar de uma Libertadores com tal derrota praticamente anunciada?

Nenhum ânimo, nenhuma esperança, nenhum entusiasmo transmitidos assim pelos dirigentes à torcida é um quadro deprimente de inação da diretoria e de calvário do povo tricolor, que nega a história e a tradição do clube.

E o Internacional partindo adoidado para contratações.

Que tragédia às vésperas do Natal e de um ano que se pretendia novo!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008



De havaianas e cúpulas
CLÓVIS ROSSI

COSTA DO SAUÍPE - Suspeito que os jornalistas e as jornalistas que estamos na adorável Bahia para cobrir as multicúpulas da América Latina e do Caribe deveríamos usar havaianas.

Talvez nos deixassem ao menos chegar perto dos governantes reunidos na luxuosa Costa do Sauípe, mesmo depois de um jornalista (sic) iraquiano ter atirado dois sapatos na direção do presidente George Walker Bush.

Por falar nisso, o que me surpreendeu no episódio não foi que o rapaz tivesse atirado um sapato, mas que tivesse tempo de sobra para atirar o segundo sapato, ante a catatonia da segurança.

Essa gente inferniza a vida dos jornalistas com mil requisitos. Pede que nos credenciemos com muita antecedência, o que pressupõe que façam uma checagem suficiente para não liberar o crachá para quem usa sapatos suspeitos.

Mesmo assim, isolam os governantes, como aqui na Bahia. Eles ficam em um hotel, claro que o mais luxuoso, ao qual só podemos chegar se eles assim o decidirem e devidamente escoltados. E ainda passamos por verificação do equipamento que levamos, mesmo que seja uma modesto caderno de anotações (sapatos passam sempre).

Quando o entrevistado é o presidente dos Estados Unidos, seja qual for, somos tratados como militantes potenciais da Al Qaeda. Inverte-se a lógica: quando comecei nesta profissão, os jornalistas procurávamos as autoridades. Agora, as autoridades é que nos procuram, mas só quando querem.

Não é que eu goste de falar com elas. Às vezes, é de fato interessante. Mas o que me leva a procurá-las é o dever que elas têm de prestar contas ao público do que estão fazendo nessas cúpulas, homiziadas em "bunkers" inacessíveis.

Somos apenas a ponte entre elas e o público. Não fogem, pois, de nossos sapatos ou havaianas, mas do público.

crossi@uol.com.br


Prazer pela metade

Leila Ferreira

*Jornalista,apresentadora de TV, escritora. Mineira de Araxá, ex- Globo, atual TV Minas.

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido - uma só. Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa.

Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação. O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano. A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco. Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil'). Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta. Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo. Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar.

E por aí vai. Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação.... Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão.

Às vezes, dá vontade de fazer tudo 'errado' - deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: 'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'.

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia, a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora. Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de coco, um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order', uma caixa de trufas bem macias e o Clive Owen embrulhado pra presente - não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.


CHEGA DE MACHADO

Ufa! Ainda bem que 2008 está acabando. Só assim ficaremos livres de Machado de Assis. Chega. Basta. Ninguém lê Machado de Assis.

Ninguém lê coisa alguma. Salvo Paulo Coelho e mais dois ou três de igual calibre. Exceto estudantes, levados ao cadafalso por seus professores cheios de boas intenções, ninguém lê Machado de Assis. Viva a hipocrisia brasileira. Alguns 'críticos' o fazem.

Anseiam por um clássico nacional. Vibram quando um estrangeiro de ocasião – Woody Allen ou qualquer outro – diz que leu Machado de Assis, por recomendação de um amigo, e adorou. Precisam de uma legitimação pelo avesso. É balela essa história de que Machado de Assis não é conhecido mundialmente por causa da língua portuguesa.

Qualquer europeu de cultura mediana conhece Fernando Pessoa, mas nunca ouviu falar de Machado de Assis. A literatura russa está aí para provar que língua não é obstáculo. Basta encontrar um tradutor. E compradores.

O ano Machado de Assis terminou com a minissérie da Globo. 'Capitu' pode ser definida com uma palavra: insuportável. Chega de Machado de Assis. Desafio alguém a ler 'Helena' e gostar. O romantismo de Machado de Assis era de uma pieguice estratosférica.

Nunca esquecerei o final de Iaiá Garcia: 'No primeiro aniversário da morte de Luiz Garcia, Iaiá foi com o marido ao cemitério a fim de depositar na sepultura do pai uma coroa de saudades. Outra coroa havia sido ali posta, com uma fita em que Iaiá beijou com ardor a singela dedicatória, como beijaria a madrasta se ela lhe aparecesse naquele instante.

Era a sincera piedade da viúva. Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões'. Uau! Fiquei marcado pela pompa oca de expressões bregas como 'coroa de saudades', 'singela dedicatória', 'piedade da viúva' e principalmente 'naufrágio das ilusões'. Ironia? Nada disso. Expressões da época? Breguice mesmo. Intemporal.

Nunca mais fui o mesmo depois dessas leituras de segundo grau. Não me recuperei. Sofri essa influência deletéria. Tornei-me brega para sempre. Já pensei em publicar um romance intitulado 'Naufrágio das Ilusões'. Machado de Assis ficou bom quando percebeu o quanto era ruim.

Virou o jogo. Mesmo assim, por mais que tenha feito, à exceção de 'Dom Casmurro' e alguns contos, o restante não passa no teste da leitura espontânea. Até partes de 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' e 'Quincas Borba' empacam na peneira do gosto atual.

Abandonem esses livros em bancos do Parcão e vejam se a galera largará tudo para acompanhar a história até o fim. Culpa da incultura atual? Certamente. Literatura é entretenimento. Ou pega o leitor ou não pega. O resto é conversa. Sejamos iconoclastas. Quando eu disse a um professor da USP que Umberto Eco não conhecia Machado de Assis, nosso nacionalista reagiu briosamente: 'Maldade com Machado'.

Coitado. Eu gosto de Machado de Assis. É o que temos de melhor. Mas chega. Basta. Se quiserem me linchar, perspectiva que me parece legítima, posso citar fragmentos das crônicas de Machado de Assis. Se for necessário, atacarei com a sua poesia. Não me provoquem.

Antecipo duas estrofes para esfriar os ânimos mais belicosos: 'Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros./ Porque amigos são herdeiros da real sagacidade./ Ter amigos é a melhor cumplicidade!/ Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho./ Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!'.

juremir@correiodopovo.com.br


16 de dezembro de 2008
N° 15821 - CLÁUDIO MORENO



Alguma coisa mudou

É Plutarco quem nos conta, em sua Vida de Nícias: em 415 A.C., Atenas promoveu uma desastrada expedição contra Siracusa, sendo fragorosamente derrotada. A tragédia não podia ser mais completa: seus navios foram totalmente destruídos, seus generais foram executados e milhares de atenienses foram encerrados em pedreiras abandonadas que serviam de prisão, vindo a morrer muitos deles por falta de água e alimento.

Alguns foram marcados com ferro em brasa e vendidos como escravos – mas destes, paradoxalmente, muitos conseguiram retornar para casa.

Quando chegaram de volta a Atenas, estes sobreviventes foram agradecer a Eurípides por ter-lhes salvado a vida com suas peças geniais. O autor de Medéia há muito convivia com prêmios e com aplausos, acostumado que estava a vencer os festivais de dramaturgia, mas quis saber de que maneira sua obra, desta vez, tinha conquistado uma recompensa de tal magnitude.

A explicação era tão simples quanto fantástica: de todos os gregos que habitavam fora da Grécia propriamente dita, os siracusianos eram os mais ardentes aficionados de suas peças.

Aliás, a paixão que eles nutriam pelo teatro dele já tinha ficado demonstrada quando, certa feita, ainda em tempo de paz, um navio de Atenas, perseguido por piratas, tinha ido procurar abrigo no porto de Siracusa. De terra, uma voz perguntou se alguém a bordo podia recitar de cor algum texto de Eurípedes – e a autorização para ancorar só foi concedida diante de uma resposta afirmativa.

Esses fãs incondicionais, sempre que encontravam um ateniense que pudesse reproduzir alguma passagem de sua autoria, pediam que a repetisse tantas vezes quantas fosse necessário para memorizá-la. E tinha sido assim – ensinando a seus captores todos os fragmentos que podiam lembrar – que os prisioneiros tinham conquistado o respeito de seus donos e, mais tarde, a própria liberdade.

É impossível imaginar uma cena dessas ocorrendo no séc. 21: os atenienses da pós-modernidade não teriam uma linha sequer para compartilhar – o que, honestamente, não faria diferença alguma, porque os siracusianos de hoje também não estariam interessados.

A própria beleza deste episódio, em si, é inacessível para grande parte do público atual, que não consegue compreender por que cargas d’água alguém faria tanto barulho por causa de um simples poeta.

Podem me chamar de saudosista, passadista ou ultrapassado, mas confesso que esta história sempre me deixa melancólico, diante da constatação de que algo precioso e irrepetível foi perdido aqui para sempre.


16 de dezembro de 2008
N° 15821 - PAULO SANT’ANA


A crise que não se vê

Dizem que o pior inimigo é aquele que não se consegue ver.

Esse pensamento deve ter sido esculpido para explicar a derrota dos EUA na guerra do Vietnã.

As tropas norte-americanas eram dizimadas diariamente por vietcongues invisíveis na selva.

É que, a vingar esse pensamento, a pior crise econômica que sofreremos em todos os tempos é esta que está por vir.

Dizem que seu epicentro será no primeiro trimestre de 2009, haverá choro e ranger de dentes.

Porque até agora nada sucedeu. Eu não enxergo a crise. Os shoppings estão lotados de gente e prevê-se até 20% de aumento nas vendas com relação ao ano passado.

Todos já receberam seu 13º salário, que este ano foi até pago em dia aos funcionários públicos estaduais, sem necessidade de empréstimo bancário ao governo.

E o maior de todos os milagres acabou acontecendo: começaram a pagar os precatórios estaduais, são limitados, são os de menor valor, mas disso ninguém mais tinha esperança.

Ainda não houve aumento nos preços dos remédios e o dólar já aumentou 50% depois da crise.

Ainda não houve aumento na energia elétrica e o dólar já subiu 50%.

Os agricultores reclamavam mais dos preços dos insumos agrícolas (fertilizantes, fungicidas, herbicidas) quando o dólar estava a R$ 1,50 do que agora, que está a quase R$ 2,50.

A energia elétrica, os medicamentos e os insumos agrícolas estão atados dramaticamente ao dólar.

Eu não vejo a crise. Ela é anunciada, teima no noticiário, mas parece que o Natal e o Ano-Novo vão transcorrer normalmente.

Em alguns segmentos industriais, anunciam-se demissões e férias coletivas, mas isso já acontecia em muitos períodos que antecederam essa apocalíptica crise anunciada.

O grosso das empresas não praticou nenhuma demissão.

Longe de mim acreditar que não haverá nenhuma crise.

O que eu quero dizer é que, se vier essa imensa crise, ela será a maior de todas e nos levará a um Armagedon.

Exatamente: acredito que será maior de todas as crises porque não a estou vendo. Não consigo apalpá-la, este é o pior inimigo: aquele que a gente não consegue ver.

Onde está a crise, se aumentou o PIB brasileiro? Que crise invisível é esta, que o governo federal brasileiro vai gastar mais de R$ 1 bilhão para realizar uma Olimpíada Militar? Olimpíada Militar? Deve ser treinamento de guerra.

Que crise é esta, se estão aprovando, Senado e Câmara, o aumento de 7,3 mil vereadores no Brasil. Ou seja, estão sendo criados 7,3 mil novos cargos de vereadores em todo o país. Evidentemente que, se houvesse crise, a isso não se arriscariam nossos dignos representantes.

Que crise é esta, que só na semana passada o governo Lula criou cerca de 900 funções gratificadas para administrar os museus brasileiros?

Não existe crise. O que há é a bonança. E o desenvolvimento.

Foi feita uma pesquisa ainda agora que indicou que 79% dos brasileiros entrevistados querem a realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Se existisse crise, não seriam a favor, o governo gastará uma fortuna colossal para realizar a Copa do Mundo de 2014.

Copa do Mundo absolutamente desnecessária, que só pode ser realizada em país rico.

Não há crise, o Brasil está rico. Se não estivesse, não pensaria no luxo de gastar dezenas de bilhões de reais numa Copa do Mundo.

Desnecessários e supérfluos bilhões.

Não há crise. Se a gente não enxerga, é porque não há. E se houver, está mal localizada quando se prevê que seu epicentro será no primeiro trimestre de 2009. Não pode ser, esta previsão está errada: no primeiro trimestre, haverá Carnaval. E toda crise sempre veio depois do Carnaval.

Não vai ser este ano que se desmentirá isso.

Mas eu, idiotamente, só acredito na crise porque não consigo enxergá-la.


16 de dezembro de 2008
N° 15821 - MOACYR SCLIAR


A quase reabilitação de Bush

Que termo definiria melhor o governo Bush? Ocorre-me “patético”, e isto, apresso-me a acrescentar, não é ofensa; nada tem a ver com a palavra “pateta”. Patético é algo que desperta piedade, tristeza, o que, naturalmente, não afasta uma postura crítica diante dos erros desse governo, que não foram poucos.

Mas a verdade é que Bush vai terminar o seu mandato com um momento que, se não é glorioso, quase o reabilita, e que ocorreu quando, em entrevista coletiva, um jornalista iraquiano, atirou-lhe os sapatos, forma tradicional de mostrar desprezo e raiva.

Com uma agilidade surpreendente, evidência de um bom preparo físico (e nisto, convenhamos, ele dá um bom exemplo), o presidente esquivou-se. Depois comentou: “O sapato era de tamanho 10 [no sistema americano, 42 no nosso]”. Se tivesse dito: “Agradeço o presente, mas não é meu número”, seguramente teria roubado a cena.

A verdade é que o incidente foi desagradável, para dizer o mínimo. Um presidente que mandou bombardear o Iraque não pode se queixar quando é alvejado com sapatos, diria alguém. Ao que Bush responderia, não sem razão, que quem atira sapatos logo estará atirando pedras, e coquetéis Molotov, e granadas.

Mas preferiu uma resposta bem-humorada, e neste sentido revelou uma faceta pouco conhecida de sua personalidade, algo que faz pensar. Se há lugar no mundo onde há milênios o bom humor é raridade, é o Oriente Médio. O que não deixa de ser compreensível. Estamos falando de uma região em grande parte árida, desértica, onde a sobrevivência era, e é, difícil e onde o conflito tribal era, e é, uma constante; não é de admirar que o fundamentalismo religioso ali tenha encontrado um clima propício.

Mesmo o famoso humor judaico é muito pouco praticado em Israel. Explicável: trata-se do humor do oprimido, do perseguido, o melancólico humor que muitas vezes serviu de defesa, ainda que precária, contra o desespero.

Esta é uma situação que os israelenses definitivamente recusam. Sempre preferiram defender-se, e defender-se eficazmente, com armas modernas, a ir para os campos de extermínio dizendo frases impregnadas do humor judaico. Isto posto, deve-se ponderar que humor não se destina somente a fazer rir ou sorrir. Humor é uma forma de aproximação emocional entre pessoas, algo que faz muita falta no Oriente Médio.

Por uma simbólica coincidência, quase simultaneamente com o incidente dos sapatos, Israel libertou mais de 200 prisioneiros palestinos, vários deles integrantes do Hamas. Um gesto de boa vontade, uma contribuição pequena mas importante ao processo de paz. Muito melhor que atirar sapatos ou mísseis.

Recebo, da Aidê Ferreira Deconte, uma mensagem acerca do texto que escrevi sobre seu irmão Adair Ferreira da Rosa, brutalmente assassinado por um assaltante em Gravataí. Aidê conta que, em memória do tio Adair, como era conhecido entre seus inúmeros amigos, foi organizada uma passeata com centenas de pessoas usando camisetas com a foto dele.

Um protesto contra a violência que vivemos e que se traduz em mortes absurdas. Também recebi mensagens da enfermeira Suzane Silva, de Luiz Roberto Soares Nunes, de Sidney Charles Day, de José Diogo Cyrillo da Silva (assinalando os 75 anos da USP, Universidade de São Paulo).

O Luiz Alberto Ibarra manda um nome que condiciona destino: trata-se de uma lutadora de jiu-jitsu que em 2003 foi disputar um campeonato nos Estados Unidos e nunca mais voltou – aparentemente ficou por lá.

Nome dela: Andrea Sumida. Anda sumida mesmo, a moça. Já o Ronaldo Capparelli fala de um piloto de carro de sobrenome Biela e chama a atenção para o chefe de uma turma de salva-vidas, o capitão Riomar.

E o José Luiz Aragão, fã do xadrez, nota que as iniciais GM (Grande Mestre, título muito valorizado) aparecem nos nomes de dois enxadristas brasileiros, Gilberto Milos e Darcy G.M.Lima. Pelo jeito, José Luiz, são letras que condicionam destino glorioso – exceto, claro, no caso da semi-falida General Motors americana.