sábado, 29 de novembro de 2008



ERROS CLÁSSICOS

Tenho espírito maligno. Adoro os erros dos outros. Especialmente os erros dos filósofos clássicos. Adoro lembrar detalhes sórdidos citados por um historiador secundário chamado Will Durant.

A humanidade, mesmo nos seus melhores momentos, foi terrível. Em Atenas, até hoje elogiada por sua democracia, de 400 mil habitantes, 250 mil eram escravos. Mulheres e estrangeiros também não contavam.

Aristóteles, o primeiro grande observador científico, achava que o homem possui oito costelas de cada lado. Já a mulher teria menos dentes que o homem. Talvez o homossexualismo dominante entre os gregos explique essas falhas de pesquisa de campo do gênio.

Spinoza, um dos filósofos mais em voga atualmente, via no medo e na esperança as explicações para as ações humanas. Era um determinista.

Apesar disso, considerava importante castigar os hereges, 'sem ódio', sendo importante, depois, perdoá-los por serem ignorantes. Meu filósofo predileto, o mal-humorado Schopenhauer, via as mulheres como seres de cabelos compridos e idéias curtas. O amor, segundo ele, é o resultado da ação dos instintos em busca do parceiro ideal para a reprodução.

Cada um procuraria no outro aquilo que não tem para legar ao rebento. As mulheres, tendo beleza, buscariam nos homens, mesmo feios, coragem, energia, determinação e atitude.

Schopenhauer não podia imaginar uma sociedade na qual o sexo, protegido por anticoncepcionais, não estivesse voltado para a reprodução.

Nos estudos sobre a metafísica do amor, o filósofo definiu que os homens preferem mulheres entre 18 e 28 anos, faixa ideal para ter filhos, com bom esqueleto, fundamental para carregar um filhote, mesmo com um rosto feio. Já as mulheres teriam predileção por homens de 35 anos, com uma boa situação financeira.

Pés pequenos e dentes fortes também contariam muito, pois os dentes, bem entendido, permitem uma boa alimentação.

Pobre filósofo, não podia prever a era das top models. Mulheres muito altas estavam para ele entre as menos admiradas pelos homens. Errou feio. Salvo se, como dizem as más línguas, a valorização das taquaras seja típica dos heterodoxos que mandam na moda.

Boa parte do que Schopenhauer escreveu não se aproveita. Basta pensar nesta pérola: 'Foi necessário que a inteligência do homem se achasse obscurecida pelo amor para que chamasse belo a esse sexo de pequena estatura, ombros estreitos, ancas largas e pernas curtas'.

Em contrapartida, afirmou que a vida de cada um oscila entre a dor e o tédio. O grande mal que tortura cada homem é o desejo. Só aquilo que não se tem alcança valor incontestável.

'Sentimos a dor, mas não a ausência da dor. Sentimos a inquietação, mas não a ausência da inquietação, o temor, mas não a segurança. Sentimos o desejo e o anelo como sentimos a fome e a sede.' Schopenhauer vai ao extremo: 'Se um Deus fez este mundo, eu não gostaria de ser esse Deus: a miséria do mundo me esfacelaria o coração'.

Garante que, se o criador fosse um demônio, não faltaria um acusador para dizer-lhe: 'Como ousaste interromper o repouso sagrado do nada para fazer surgir uma tal massa de desgraça e de angústias?'. Toda essa amargura é o resultado da falta de amor materno.

A mãe de Arthur só queria fazer festa. Schop não viu sereia alguma num doce balanço a caminho do mar. A simples vista de Gisele Bündchen teria mudado metade da sua filosofia. Mas acertou, como sabem os publicitários, no essencial: o ponto frágil da humanidade é o desejo.

juremir@correiodopovo.com.br

Um ótimo sábado e um excelente fm de semana - Gostei do texto endosso as palavras do Juremir


29 de novembro de 2008
N° 15804 - A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR


A história de um estigma

Porto Alegre sediou, nesta semana, um importante evento médico, o Congresso de Hansenologia. Congresso de quê? – estranharão vocês. Hansenologia é a parte da medicina que estuda a hanseníase, o termo científico para lepra.

Por disposição legal, no Brasil esta última palavra não pode ser usada em documentos oficiais. Isto reflete a existência de um dos mais antigos estigmas da história da humanidade.

O Antigo Testamento menciona uma doença conhecida como tzaraat, palavra em geral traduzida como lepra, ainda que outras doenças de pele pudessem estar incluídas neste rótulo.

O diagnóstico estava a cargo do sacerdote; médicos à época não eram figuras muito freqüentes e nem muito confiáveis. Além disso, o diagnóstico da lepra não era exatamente um procedimento médico; nenhum tratamento, mesmo tentativo, era instituído. O objetivo era rotular o paciente como “puro” ou “impuro”.

E, se se tratava de “impureza”, via-se nas lesões a evidência do castigo divino do qual a pele era um alvo habitual. Por que a pele? Em primeiro lugar, porque a pele é visível. Uma doença dos rins, por exemplo, dificilmente serviria como estigma. As lesões da hanseníase, às vezes deformantes, saltam aos olhos.

Além disso, trata-se de doença contagiosa (muito pouco contagiosa, mas contagiosa, de qualquer maneira) de modo que contrai-la levantava a suspeita de contato corporal – de sacanagem, em outras palavras.

Que o tabu funcionou, mostra-o o fato de que o cristianismo também o endossou.O modelo de diagnóstico era semelhante ao do Antigo Testamento, mas ficava a cargo de uma comissão, composta de um bispo, vários clérigos e também um leproso, considerado especialista na matéria.

Rotulado o examinando como leproso, procedia-se ao processo de exclusão: ele era envolto em uma mortalha, e rezava-se uma missa de réquiem; os presentes jogavam terra sobre o excluído que era conduzido a um dos muitos leprosários (quase 20 mil na Europa), administrados e cuidados por ordens religiosas.

O leprosário de Itapoã, aqui no RS, surgiu relativamente tarde, em 1940, e hoje está praticamente desativado.

Com o final da Idade Média, e por razões que não são bem claras, o problema da lepra diminuiu consideravelmente. No final do século 19 foi identificado, pelo cientista norueguês Gerhard Armaur Hansen (daí o nome hanseníase) o bacilo causador da doença; a partir daí desenvolveu-se um tratamento que, na imensa maioria dos casos, resulta em cura.

Mas o estigma persistiu por algum tempo e gerou a medida politicamente correta de evitar a palavra lepra. O que causou alguns problemas. Os pacientes não sabiam o que é hanseníase, e o médico tinha de traduzir: “É a antiga lepra”. Ou seja: de alguma forma a palavra era dita.

Estigmas vêm e vão, e disto temos vários exemplos. Num passado ainda recente, a palavra “colono” era depreciativa; hoje é motivo de orgulho. A eleição de Barack Obama pode ajudar a acabar com o tom pejorativo com o qual os racistas pronunciavam a palavra negro.

É uma lição que a história nos ensina: de alguma maneira, a humanidade avança. Avança graças à ciência, avança graças ao bom senso. Aos poucos, trocamos o estigma pela lógica. O que é um benefício para muita gente.


29 de novembro de 2008
N° 15804 - PAULO SANT’ANA | LUIZ ZINI PIRES (interino)


A república dos sem-carro

Eu sou um sem-carro assumido. Quando todo mundo assinou um papel e comprou (ou trocou) o seu em 70 vezes, eu passei o meu adiante. Vendi, não sem uma série de bobas lamentações iniciais. Gostava do carro.

Era fiel companheiro de longas viagens. Ele avançava pela BR-101 com mais vontade quando os Rolling Stones, do Black and Blues para baixo, assumiam a trilha sonora interna. Gostava do mar, ficou só uma vez enterrado na areia fofa, mais por culpa do condutor do que por defeito mecânico, falta de força ou carência de vontade.

Perto dele fui assaltado, um longo 38 na cabeça. A dupla de bandidos queria apenas a máquina, que voltou semanas depois depenada, sem as rodas originais, riscado e mudo.

Depois, em seqüência, alguém bateu na lateral, outro amassou a porta do motorista e fugiu, um terceiro escangalhou o espelho e escapou também. Na época, não sabia qual era o mais azarado. Como não podia me vender, passei a máquina adiante.

Dois anos e alguns meses adiante, na crista de uma primavera de 33°C, procuro uma longa lista de arrependimentos, vasculho e não acho nada significativo. Ok, talvez encontre um: a saudade das curtas e revigorantes viagens de alguns finais de semana. Ponto.

Mas, por outro lado, vejo a garagem vazia e com espaço, não pago prestação, IPVA, multa, oficina, gasolina e óleo, nem sou achacado por flanelinhas vitaminados e de toucas ninja.

Não gasto com estacionamento, não me estresso com filas para chegar a “este” estacionamento, posso continuar visitando os bons bares da Capital em busca do chope perfeito, os testes de bafômetro não me preocupam e assisto ao movimento (cada vez menor) de barreiras policiais como um bálsamo nas nossas ruas de faroeste.

Ao abandonar o carro de vez, sem me dar conta na hora, passei a integrar a gigantesca confraria dos brasileiros que batem pernas nas cidades grandes, andam de lotação, adotam o ônibus, preferem o táxi. Fui rebaixado como cidadão, mesmo sem considerar o automóvel um inimigo, muito pelo contrário.

Passei a ver a cidade com novos óculos, conhecer melhor algumas ruas, observar históricas “calçadas” sem calçamento, praças sujas sem dono, esquinas sem policiamento.

Fui reapresentado à intimidade entupida das artérias da Capital depois de anos, entre idas e vindas, longe do escudo protetor de um automóvel fabricado no terceiro milênio.

A vida fora do automóvel no centro urbano é um inferno. Agora ele mesmo luta por um espaço que não tem mais, que sumiu, que engarrafou.

Quem caminha em busca do trabalho, do lazer ou da simples e barata satisfação do exercício em volta de um pobre parque, têm no motorista um inimigo definido, um vilão, um perigo a ser evitado. Não quero generalizar, mas eles são tantos, que eu penso que uma grande maioria atua do lado errado da força.

O motorista não respeita nada, carro maior, sinal vermelho, faixa de segurança, a sua avó atravessando a fileira de paralelepípedos, bicicleta, cãozinho de madame.

Sua pressa, ímpeto, desprezo pelo pedestre, supera qualquer gesto civilizado. Um pé na faixa de segurança é um convite seguro ao atropelamento. Não importa a cor do carro, a marca, o preço, a cilindrada.

Coloco ao lado dos insensíveis motoristas do dia-a-dia os motoqueiros. Não confunda com motociclistas. Os motoboys são avessos ao bom senso, são camicases e sua média de vida não alcança 30 anos. Não pode, todo dia morre um, sempre apressado. Nunca vi ninguém buscar a morte com tanta avidez todos os dias.

Quando vejo um duas-rodas subindo na calçada, derrapando sobre um passante, voando na contramão, lembro que ele é apenas o empregado dos serviços rápidos de alguém. Mas nunca vi, eu não, a retaguarda dos motoboys fazendo algo positivo em nome da classe.

Quando eu observo a indústria automobilística quebrada, falida no seu modelo de negócio, pedindo dinheiro de joelhos aos governos, dos EUA para baixo, noto que os que gastam a sola do sapato nos aglomerados urbanos também merecem o olhar complacente dos inconfiáveis políticos. Não que eles desejem outro caudaloso rio de dinheiro, como as montadoras.

Exigem apenas motoristas mais educados, com cursos obrigatórios aos faltosos, lei severa aos reincidentes, novas sinaleiras, mais faixas de segurança e, quem sabe, se não for pedir demais, um punhado de azuizinhos, um pouquinho mais simpáticos, dispostos a estender a mão aos abandonados pedestres da maior cidade dos gaúchos.


29 de novembro de 2008
N° 15804 - CLÁUDIA LAITANO


Os centenários

Foi um sonho esquisito – como são todos quando a gente fala sobre eles. Alguém me mandava uma carta informando que havia sido decidido que eu viveria até os 230 anos.

Não me ocorria, no sonho, questionar a decisão ou investigar em que instância essas coisas são decididas quando a pessoa não tem qualquer conviccção religiosa. O certo é que a notícia (condenação?) parecia ao meu “eu sonhante” profundamente perturbadora.

Sim, eu nunca mais precisaria me preocupar com todas as catástrofes e doenças terríveis que poderiam me apanhar sem aviso em plena terça-feira à tarde – atrapalhando definitivamente meus planos de conhecer o Egito e embalar meus netos. Mas a possibilidade de viver muito além do combinado implica também alguns inconvenientes, e era com eles que eu estava preocupada no sonho.

Muito além das questões práticas, o que me angustiava era a necessidade de redimensionar todos os planos de futuro – inventar interesses, projetos, ambições para preencher todo esse tempo até o comecinho do século 23. Foi com certo alívio, e inédito apreço pela mortalidade, que eu acordei desse pesadelo para a minha vidinha mais ou menos curta de sempre.

Lembrei desse sonho lendo semana passada uma reportagem no jornal Folha de S. Paulo sobre um lugar chamado Vilcabamba – um povoado de cerca de 4 mil habitantes no sul do Equador, a cerca de 650 quilômetros de Quito, onde há 10 vezes mais moradores com mais de cem anos do que a média mundial.

Nesses tempos de obsessão pela vida saudável e longa, Vilcabamba virou uma espécie de Meca para malucos e estudiosos de todos os tipos. Os moradores de Vilcabamba ainda não chegam aos 230 anos, mas já batem nos 120 sem esforço.

Muitos dos que passam dos cem anos lêem sem óculos, conservam os dentes e o cabelo originais de fábrica e, segundo a reportagem, trabalham e mantêm vida sexual ativa até o dia em que, subitamente, sentem-se mal e morrem, sem sofrer com doenças prolongadas.

O curioso é que eles fumam, bebem, comem muito sal, tomam café e convivem com condições sanitárias típicas de país do terceiro mundo. Várias teorias já foram levantadas para explicar o fenômeno, mas nenhuma foi comprovada.

Enquanto o mistério permanece, resta aos velhinhos de Vilcabamba aprender a conviver com os turistas da longevidade – milionários, crentes, cientistas, curiosos em geral. “Vêm por esses 40 anos como antes se ia por ouro ao Velho Oeste”, compara Ricardo Coler, médico e escritor argentino que estuda Vilcabamba.

Ontem foi o aniversário de cem anos do antropólogo Claude Lévi-Strauss (leia uma reportagem sobre ele no caderno Cultura deste sábado).

O arquiteto Oscar Niemeyer comemora 101 no mês que vem. Ambos são dignos de admiração não apenas por desafiarem as estatísticas de expectativa de vida, mas por terem se mantido ativos e apaixonados pelo que fazem durante tanto tempo.

Como o meu sonho maluco parecia me sugerir, mais complicado do que descobrir o segredo da longevidade é inventar um enredo que mantenha o interesse até o último capítulo. Niemeyer e Lévi-Strauss conseguiram.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008



Às favas a presunção de inocência

Nestes dias, outro caso tão polêmico quanto o do promotor foi julgado. Não vi ninguém clamar por justiça

NA QUARTA-FEIRA , os 25 desembargadores que compõem o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo absolveram, por unanimidade, o promotor Thales Ferri Schoedl, que matou a tiros Diego Modanez, 20, e feriu Felipe de Souza (hoje com 24 anos), em dezembro de 2004, no litoral norte.

Assim que o veredicto foi anunciado, começaram os protestos e a onda de "vitimismo". Eis uma amostragem das mensagens deixadas ontem no meu site/blog: "Gente especial julgando gente especial acaba em veredictos especiais";

"Licença para matar, o cara é o nosso James Bond"; "Uma das piores imoralidades no Brasil é o privilégio. Ele cometeu um crime comum e não foi a júri popular" e "Só pobre vai preso neste país".

O sentimento de indignação é proporcional às injustiças com as quais somos obrigados a conviver. Mas será que, nesse julgamento, a Justiça protegeu um dos "seus"?

Lembro o caso do também promotor Igor (hoje foragido), acusado de matar a mulher grávida. Ele negava a autoria do crime e foi condenado. Houve corporativismo? Não.

No que diz respeito a Schoedl, o promotor não negou a autoria do crime. Disse ter agido em legítima defesa. A balística confirmou sua versão. Testemunhas disseram que a provocação teria partido das vítimas e que Thales chegou a ser agredido.

E o processo não foi a júri popular porque Thales vem a ser promotor e, assim sendo, tem direito a foro especial. Discutir o porquê de alguns cargos terem esse privilégio e outros não, são outros quinhentos.

Estou defendendo o promotor? Não estou. Acho deplorável resolver disputas a bala e creio que quem vai armado a um luau está procurando encrenca. Mas de que adianta esbravejar, se a lei permite que promotores, por serem vítimas de ameaças, tenham direito a porte de armas?

Também considero pueril a discussão de o réu ser "rico" e as vítimas, "pobres". Todos os envolvidos na história pertencem à mesma classe média que você e eu, meu nobre leitor. Pode ter certeza de que não estariam participando de um luau na Riviera de São Lourenço, no litoral norte, se não pertencessem.

Talvez seja esse o motivo de tanta gritaria: é um caso da classe média se compadecendo com a classe média. Por que digo isso? Ora, nestes dias, outro caso polêmico foi julgado, mas não vi ninguém clamar por justiça.

Refiro-me à condenação dos office-boys Renato Correia Brito, 24, William de Brito Silva, 28, e Wagner da Silva, 25, acusados de estuprar e matar a ex-namorada de Renato, Vanessa Batista de Freitas, 22.

Os rapazes são aqueles, o leitor deve lembrar, que cumpriram mais de dois anos de pena preventiva e acabaram libertados depois de o chamado "maníaco de Guarulhos" ter assumido a autoria do crime.

O veredicto foi apertado: quatro votos a três. A votação em si já pediria cautela ao juiz, mas há outras questões a considerar:

a) os três apresentaram álibis, b) as provas técnicas estavam contaminadas, c) persiste a suspeita de que eles tenham confessado sob tortura e d) a prisão preventiva já tinha, em certo momento, sido considerada ilegal.

Mesmo assim, o juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano achou por bem mandar às favas a presunção de inocência. Os três aguardarão recurso atrás das grades. É como dizem: decisão da Justiça não se discute. Mas lamentar, quem diz que não pode?

barbara@uol.com.br


"Deserto Feliz" acerta com olhar poético sobre a opressão

Longa de Paulo Caldas usa lirismo para abordar vida angústia de jovem nordestina

Na imagem-chave de "Deserto Feliz", usada na abertura e que mais tarde organiza a narrativa, uma adolescente (a estreante Nash Laila) está sentada à beira de uma cama, com expressão angustiada. Parece ser um quarto de hotel. Ao fundo, um homem mais velho, deitado.

A personagem será apresentada em três tempos, com a cadência de um registro cotidiano documental pelo diretor Paulo Caldas, em seu primeiro longa solo - ele assinou a ficção "Baile Perfumado" (1996) com Lírio Ferreira e o documentário "O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas" (2000) com Marcelo Luna.

Primeiro, encontramos a moça em casa, na cidade do título, sertão de Pernambuco.

Descrever o meio como opressivo seria eufemismo. Vítima de violência física e moral, ela se prepara silenciosamente, mas com determinação, para pular fora desse barco.

O que lhe acontece, nos dois tempos seguintes, lembra a trajetória de inúmeras jovens nordestinas e permite que se vislumbre, no varejo de uma única história de vida, o drama social que, no atacado, aponta para a reduzida perspectiva de futuro oferecida aos jovens pelo país.

Não é, contudo, um filme-denúncia convencional. Escrito por Caldas, Marcelo Gomes, Xico Sá e Manoela Dias, o longa se afirma pela poesia, com destaque para a beleza amarga (como na canção-tema "Rosa Amarela") de seu terceiro tempo, fusão entre sonho e medo, entre desejo de escapar à própria circunstância e incapacidade de fazê-lo. (SÉRGIO RIZZO)

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DESERTO FELIZ
Produção: Brasil/Alemanha, 2007
Direção: Paulo Caldas
Com: Nash Laila, Zezé Mota
Onde: estréia hoje no Unibanco Arteplex e no iG Cine
Classificação: não indicado a menores de 16 anos
Avaliação: bom


Obrigado aos que têm paciência e esperança

O mundo, as pessoas, os países, os partidos, os governos e a vida não andam fáceis. Isso é notícia velha, todo mundo sabe.

Mas não quero falar em violência, fanatismos, guerras, desigualdades, poluição, corrupção e outras coisas do gênero, que andam por aí querendo nos tirar ainda mais do sério. Hoje é sexta-feira, tem sol lá fora e a vida segue, ou, ao menos, parece seguir.

Hoje em dia o que parece às vezes é mais importante do que aquilo que é, vá lá. A vida segue atualmente em ritmo mais rápido do que no passado, com mais complexidade e problemas, mas segue, vai para algum lugar, se move, sei lá.

No meio desse caos meio organizado, quero respirar calmo feito um iogue indiano e, ao menos por alguns instantes possíveis, erguer um brinde a todos os que, apesar de tudo, tentam manter a calma, a esperança e a fé num futuro melhor.

Sim, sei, assim falando até parece que estou discursando no Fórum Social Mundial ou que estou brincando de utópico e otimista profissional da sexta-feira. Não é bem isso.

Nesta sexta, descobri que a moça que vende jornais na esquina tem dois filhos, sai de casa às vinte para as cinco da madrugada, deixa as crianças na sogra, toma mais duas conduções e, lá pelas sete, está no seu posto, vendendo os eternos jornais com as velhas e novas notícias. Fica de pé, ao sabor do sol, da chuva e dos ventos, cumprindo sua missão.

Feito a Maria Maria da canção do Milton Nascimento, ela acredita, tem esperança brasileira, agüenta, ainda sorri e vai em frente. Quem sou eu, e muitos outros, para reclamar que acorda às seis e meia da manhã para cumprir obrigações?

Sim, sei, igual à moça do jornal existem milhões que, pacientemente, cumprem uma rotina diária dura, ganham pouco, têm muitos problemas e, apesar disso, estão aí, botando fé e esperança no amanhã. Quero dedicar estas linhas para todos os que estão envolvidos com um mundo de mais paz, harmonia e igualdade.

Especialmente estas linhas são para os pequenos-grandes anônimos homens, mulheres, jovens e crianças que nos dão lições diárias de vida e humanidade.

Lições simples, cristalinas, cotidianas e, de repente, muito melhores que algumas receitas e lições pseudo-sofisticadas que alguns doutores andam garganteando por aí.

Saúde, paz e vida melhor para todos, especialmente para a turma do querido Eduardo Galeano. Acho que certamente ele vai concordar comigo e com a homenagem a quem mais merece.

Ótima sexta-feira e um excelente fim de semana

28/11/2008 - Jaime Cimenti

Sobre as origens do tempo, a essência do universo e o sentido da vida

O alentado romance A fórmula de Deus, do grande jornalista e escritor moçambicano José Rodrigues dos Santos, foi definido pelo Diário de Notícias de Portugal como "Um big bang literário". Quem ler a narrativa de 558 páginas vai ver que o jornal não exagerou.

O romance marca a volta do historiador-detetive Tomás Noronha, do romance O Códex 632, obra de sucesso de José Rodrigues dos Santos, que é também autor de A filha do capitão, A ilha das trevas e O sétimo selo. Os livros do autor foram publicados em vários países da Europa e A fórmula de Deus foi best seller em Portugal.

Dos Santos é um dos jornalistas mais importantes da atualidade, já recebeu muitos prêmios e, no momento, é âncora da RTP, a televisão pública de Portugal. Em síntese, o romance parte de uma questão essencial: será que Einstein teria descoberto a prova científica da existência de Deus?

Tudo começa com Tomás Noronha sendo abordado por uma sedutora iraniana, Ariana Pakravan, que traz a cópia de um documento inédito, um velho manuscrito com título e poema enigmáticos: Die Gottesformel, Terra it fin, De terrors tight, Sabbath fore, Christ nite.

O poema é um código-chave para decifrar um estudo não publicado de Albert Einstein, que, teoricamente, teria sido encomendado ao cientista pelo então primeiro-ministro israelense David Ben Gurion.

A iraniana faz uma proposta, que Tomás aceita, e passa a trabalhar para quebrar o código.

O historiador-detetive é lançado numa estranha aventura que o coloca na rota da crise nuclear com o Irã e da mais importante descoberta efetuada por Albert Einstein, um achado que nos leva a penetrar no maior mistério da História: a prova científica da existência de Deus.

A narrativa toma por fundamentos as mais avançadas descobertas da ciência nos campos da Física, da Cosmologia e da Matemática e nos transporta numa empolgante e primordial viagem até as origens do tempo, à essência do universo e ao sentido da vida. O inteligente thriller mescla bem ciência, História, CIA, governo iraniano e até um monge tibetano.

Os leitores estão, pois, convidados a tentar saber se Einstein teria descoberto a prova científica da existência de Deus, através da leitura de um romance pleno de idéias, mistérios, ação e suspense.

José Rodrigues dos Santos, doutor em Ciência da Comunicação e professor da Universidade Nova de Lisboa, ganhador de três prêmios da CNN, não por acaso marca presença no cenário literário internacional. 558 páginas, Editora Record, telefone 21-2585-2000.


28 de novembro de 2008
N° 15803 - PAULO SANT’ANA | CLÁUDIO BRITO (interino)

Humildade e constrangimento

A governadora Yeda mostrou humildade, mas não deixou de ser constrangedor vê-la dando explicações ao ministro dos Transportes. Confirmou-se o que o deputado Henrique Fontana dissera há uma semana ou mais.

O governo estadual antecipara-se ao incluir a anuência do ministério ao Duplica RS em seus documentos. O ministro foi o último a saber.

Dizendo-se chateado, anunciou a remessa de tudo a seus assessores técnicos, que lhe encaminharão pareceres. Então chegará à conclusão do que fará com o pedido gaúcho de prorrogação das concessões de rodovias.

É certo e indiscutível que nada avançará sem o sinal de permissão de Brasília. Também já se sabe que os prefeitos das cidades diretamente interessadas não querem o projeto como está concebido, apontando várias alterações que estariam sob exame agora.

Então, cabe a pergunta: para que tanta pressa?

Não tem sentido exigir-se da Assembléia Legislativa a votação do projetão dos pedágios em regime de urgência. Falta muito ainda para ele estar pronto e acabado.

E se pensarmos em tantas dúvidas em torno da constitucionalidade e legalidade da proposta de se espichar contratos por três períodos de governo sem licitação e sem previsão que tivesse sido afirmada na criação dos pedágios, será fácil adivinhar onde tudo vai terminar. Na Justiça, é claro.

Mais um lance de judicialização da vida em nosso país. Ou alguém duvida que isso tudo acabe nos tribunais?

Melhor que sejam revistos todos os pontos controversos agora. Mais prejuízos teremos se deixarem para depois. Ponderado será permitir que a sociedade compreenda e discuta a matéria. Necessário conceder aos deputados estaduais todas as chances de estudo e decisão.

É preciso ter humildade e recuar, evitando-se constrangimento irreparável.

Mais urgentes são outros problemas do Rio Grande. Perguntem aos professores e aos policiais. Eles dirão sobre seus vencimentos e prerrogativas.

Se há constrangimento em voltar de uma greve com as mãos vazias, importante ser humilde nessa hora.

O que não deve apagar a chama da justa reivindicação dessas e de outras categorias do serviço público.

E todos esses dramas são mais urgentes que os pedágios.

Já sabemos que haverá poucos agentes de segurança para as operações de verão, ainda que se esteja por nomear militares e civis por esses dias.

Há alguma contradição entre a vitória de um orçamento sem déficit e o sucateamento de tantas estruturas.

Dos presídios é desnecessário falar, todos sabem as pocilgas onde se amontoam aqueles que erraram e agora pagam, muitos deles, bem mais do que deviam, tema recorrente nos escritos do titular deste espaço.

O Sant’Ana reitera com razão: nossas cadeias impõem vingança em vez de justiça. Quem sabe um regime de urgência para isso também.

E não esqueçamos o constrangimento de se ter um posto policial do interior sendo despejado por atraso no pagamento de aluguéis.

O Estado ficou um ano inteiro sem pagar.

Com humildade, pediu socorro. Sem constranger-se, a sociedade acudiu. Foi o Consepro que pôs a conta em dia, mantendo abrigados os brigadianos

Organizo essas linhas com humildade e sem constrangimento.

Penso estar contribuindo modestamente com nossa governadora. Vejo-a soberana em ocasiões em que outros se recolheriam, o que é elogiável. Muitas vezes, sem humildade e constrangendo aos demais, como fez ao exigir silêncio das professoras com o dedo indicador sobre a boca.

Isso é soberba e não soberania. Então, nessas horas, criticável em algumas de suas atitudes. Como acontece com todos os mortais, é certo. Pode-se exigir mais dela? Sim. É o ônus que buscou com muita competência ao ser eleita.

O Duplica RS tem que entrar em decantação, precisa ficar livre de tudo que for duvidoso. A relação com os servidores tem que ser mais justa.

Ninguém precisa constranger-se em admitir, mesmo que seja aconselhável um pouco mais de humildade para se rever posições que se tornam nossos emblemas. Mais humildade, governadora, sem constrangimento.


28 de novembro de 2008
N° 15803 - DAVID COIMBRA


Pobres coitados

O brasileiro é um coitadinho. Eis a característica que unifica um povo tão diverso. Porque o brasileiro pode ser qualquer um: pode ser alto ou baixo ou de altura mediana, pode ser loiro ou negro ou mulato ou moreno, pode ser turco, japonês, alemão, africano.

O brasileiro pode ter qualquer aparência, e não é por outro motivo que o passaporte brasileiro é o mais cobiçado pelos escroques internacionais. Mas todo brasileiro se sente um coitado.

Todo brasileiro se acha injustiçado. Os chefes dos brasileiros são incompetentes e os perseguem. Os policiais os oprimem. Os governos são ainda piores: extorquem empresários e trabalhadores, e se esquecem do povo.

Ah, o povo. O brasileiro sempre fala no povo como uma gigantesca e impalpável entidade subalterna a outra entidade não tão gigantesca, mas igualmente impalpável: a malévola “Eles”.

“Eles” se aproveitam da ingenuidade do povo, “Eles” são corruptos, “Eles” é que estragam um país tão rico e belo, “Eles” não sabem aproveitar as qualidades dessa gente inzoneira, feliz e criativa.

Quem são Eles? Os governantes, os chefes, as autoridades. A responsabilidade é toda deles.

O brasileiro ganha mal? A culpa é do patrão que o explora. Mora mal? Por causa do Estado, que não financia a Habitação. As filas, a violência urbana, a sujeira das cidades, a carestia – Eles são culpados. A razão do problema nunca está no brasileiro, está fora dele.

Agora mesmo, milhares de brasileiros foram vitimados pelas enchentes em Santa Catarina, e parece que neste caso não dá para atribuir a culpa a ninguém, senão à Natureza inclemente.

Aí, como reagiram alguns brasileiros à tragédia que martiriza seus semelhantes? Comerciantes aumentaram os preços dos alimentos e da água potável – li que um litro de água chega a ser vendido a R$ 14.

Flagelados não abandonam suas casas com medo de que sejam arrombadas. Depósitos de mercadorias estão sendo atacados. Vi fotos de gente levando produtos de saque pela rua dentro dos próprios carrinhos dos supermercados.

Não eram alimentos. Eram TVs de tela plana, eletrodomésticos e bebidas alcoólicas. Uma farra. Para arrematar a festa, os caminhões que tombam nas estradas são saqueados pelas comunidades lindeiras às rodovias e pelos outros motoristas.

É o brasileiro que faz tudo isso. Não são os chefes, nem os patrões, nem os governantes que estão espoliando flagelados, roubando motoristas acidentados ou invadindo casas, supermercados e depósitos. Não são “Eles”. É o brasileiro. O povo. Por sua conta e iniciativa, sem que ninguém ordene ou o obrigue.

O que são essas pessoas que saqueiam caminhões tombados ou casas abandonadas? Não são oportunistas. São ladrões vulgares.

O que são os homens que aumentam o preço da água potável que saciará a sede dos flagelados? Exploradores cruéis.

Não são coitadinhos. São mesquinhos, gananciosos e desprezíveis. São grosseiros, velhacos e baixos. São a ralé. A escória da raça humana. São grande parte do povo brasileiro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008



A PROFESSORA E A FAXINEIRA

Era uma vez um estado que se considerava culto, politizado e desenvolvido. Acima da média das demais unidades da Federação. Um dia, uma professora e uma faxineira encontraram-se numa parada de ônibus. A professora estava triste. Ganhava pouco.

Lamentava, com o cartão eletrônico, não poder mais vender as fichas de ônibus para arredondar o fim do mês. O governo não queria pagar o piso nacional fixado em lei para o magistério.

Ela havia seguido os colegas numa greve desesperada de final de ano. Por causa disso, estava prestes a perder 15 dias do seu parco salário. O governo fazia a chantagem de sempre e jogava a sociedade contra os professores, alegando prejuízo às crianças. A faxineira perguntou:

– Quem é mais importante para a sociedade, eu, que deixo uma casa como um brinco, passo, lavo e, muitas vezes, cozinho, ou quem ensina nossos filhos a ler e a escrever?

A professora hesitou. Não queria ofender a faxineira. Mas estava convencida de que o seu papel era mais importante. Afinal, estudara para exercer a sua profissão, da qual toda a estrutura social depende.

– Eu também passo, lavo, cozinho e deixo a minha casa como um brinco – disse a professora em tom conciliador. – Faço isso depois de ter ensinado um dia inteiro.

– Não seja por isso – emendou a faxineira. – Eu também tenho uma dupla jornada de trabalho. Passo, lavo e cozinho para a minha família depois de ter passado, lavado e cozinhado para a família dos outros.

– Não duvido disso – admitiu a professora. – Mas as coisas têm valores diferentes. Cada atividade tem a sua função social. Mas existem diferenças e hierarquias.

– Eu ganho R$ 80,00 por faxina, chego a fazer duas num dia, não dependo do Estado e não levo trabalho para casa – disparou a faxineira, que era meio neoliberal e completamente cética.

– Quanto você ganha por dia? A professora ficou vermelha. Gaguejou. Fez as contas. Finalmente, muito constrangida, confessou:
– Bem, com a complementação, ganho uns R$ 30,00 por dia.

– E você teve de estudar pra ganhar 30 pilas por dia? Não tem lógica esse negócio. Como pode ganhar menos quem se preparou mais? Por que não faz faxina? Tem vergonha?

Chocada, a professora teve um sobressalto de dignidade. Empertigou-se. Por fim, defendeu-se chorosa: – Eu amo o meu trabalho. Nasci para isso. É uma missão. – Enquanto pensar assim, vai ganhar menos.

– As duas coisas são verdadeiras. O magistério é profissão e missão. Mesmo que o salário seja baixo, continua sendo uma atividade especial, que exige amor.

A faxineira sorriu. Havia algum cinismo no seu sorriso. Não se pode confiar em faxineiras neoliberais.

– Vai ver que sou faxineira por isso. Não entendo essa história. Todo mundo diz que a educação é tudo, mas os professores ganham menos do que nós.

Nunca ouvi alguém falar que ser faxineira é um sacerdócio, uma missão ou atividade essencial. Ninguém nos dá valor em discursos. – É uma questão complexa. Somos muitos professores...

– Policiais e professores deviam demitir-se em massa – radicalizou a faxineira, que era também meio anarquista e de faca na bota. – Se não tiver professor e policial, os salários vão aumentar. A sociedade vai acordar.

Foi a vez de a professora rir com certo cinismo. Não disse coisa alguma por elegância. Limitou-se a pensar: – Como são ingênuas as faxineiras e cruéis os governantes.

juremir@correiodopovo.com.br


27 de novembro de 2008
N° 15802 - LETICIA WIERZCHOWSKI


Quem está matando nossos filhos?

Publicada no dia 12 de novembro na coluna do Sant’Ana, a carta de Themis Krumenauer (mãe do melhor amigo do jovem assassinado no Cristal) não saiu da minha cabeça. Também sou mãe, impossível não chorar durante a leitura. E me pergunto: o que estamos fazendo aqui?

Será que não devemos ir embora para um lugar onde as pessoas possam andar pelas ruas com tranqüilidade, estacionar seus carros; enfim, viver decentemente? Ou, corrigindo a pergunta e me colocando como parte desta equação: o que estamos fazendo com isto aqui? Com este país que um dia foi uma promessa?

Nossos jovens vem morrendo ao som do mar e à luz do céu profundo, enquanto pagamos uma das mais altas alíquotas de impostos do mundo. O nosso povo não tem escolas, nem médicos, nem corpo policial decente. Quando nos uniremos num gesto drástico?

Quando deixaremos de pagar esses impostos, cuja arrecadação altíssima não vem somar à sociedade, mas escoa dos cofres públicos para paraísos fiscais, enquanto nossos filhos não podem andar na rua, enquanto outras mães têm os filhos perdidos para o tráfico?

Em sua carta, a sra. Krumenauer cogita se a mãe do assassino conhece bem o filho, e se sabe do que ele é capaz. Ouso responder: talvez ele nunca tenha tido uma mãe.

Se teve, a palavra mãe não guarda o mesmo significado que tem para nós – provavelmente foi mais uma adolescente grávida pelas ruas, uma criança que gerou outra, ambos esquecidos pelo Estado.

O que vivemos hoje não começou há 18 anos, nem há de terminar no ano que vem. Será necessário muita comida em muita mesa por aí, escolas, policiais e professores bem treinados para que tragédias como essa parem de ceifar a vida dos nossos filhos.

Quando começaremos, sociedade e governo (que recolhe nossos impostos para isso), a sanar essa situação? Meu marido cresceu no Cristal. Por anos trilhou essa rua na qual um jovem foi morto por causa de um skate, e dela só guarda boas lembranças.

Daqui a dez anos, como viverão nossos filhos? Morre-se todos os dias nas nossas esquinas por causa de um par de tênis, de um carro, por causa das drogas.

A nossa juventude vem morrendo dos dois lados da trincheira por baixo da qual escorrem nossos impostos, enquanto o presidente, os governadores, prefeitos e chefes disso e daquilo andam por aí,

em cerimônias e entrevistas, apertando-se as mãos mutuamente, galhardos, eufóricos e sorridentes, e numa ruazinha das centenas de milhares de ruas brasileiras, mais um jovem acaba de perder a vida nessa guerra cotidiana.


27 de novembro de 2008
N° 15802 - PAULO SANT’ANA


A casa é um bem da vida

Há um número que considero horripilante nesta calamidade que se abateu sobre Santa Catarina: ontem havia 79 mil desabrigados e, destes, 27 mil tinham perdido inteiramente suas casas.

Não sei se pode haver coisa pior que uma pessoa perder a sua casa. Perder a casa é um desmoronamento da existência. Perder a casa é o deslizamento da vida.

Milhares de pessoas estão desabrigadas mas não perderam suas casas. Estão apenas esperando que as águas baixem para voltar a suas casas.

Mas outras 27 mil pessoas perderam suas casas, das quais não sobraram nenhum tijolo, os alicerces, as paredes, o teto, os móveis. Tudo desabou do barranco e virou lama.

Eu fiquei calculando a dor, o desconsolo, o desespero de uma pessoa que perde a sua casa.

Sem exagero, perder a sua casa é como perder a vida. Pior que perder a vida: é perdê-la, mas sobreviver para enfrentar a tragédia da reconstrução.

Quando me casei, aluguei uma casa humilde em São Jerônimo, mas não tinha os móveis. Eu só possuía um colchão e um urinol.

É muito penosa a sorte das pessoas que estão começando a sua vida. Então vim até Porto Alegre e comprei, na antiga e ex-Imcosul, um armário, dois sofás e uma cama.

Estes meus raros móveis, os únicos que podia comprar com meu salário de inspetor de Polícia (os policiais sempre, eternamente, ganharam mal), foram descendo numa barca pelo Rio Jacuí para me serem entregues no porto de São Jerônimo.

Era tudo que eu tinha, minha vida se resumia a móveis comprados em prestações. Se eu perdesse esses meus móveis, perdia tudo que eu tinha.

Esses 27 mil catarinenses perderam todos os seus móveis, mas perderam mais que isto, perderam suas casas, suas roupas, seus quintais, suas galinhas, seus cachorros, eles perderam literalmente tudo. Ao perderem suas fotografias e outras lembranças, perderam também sua memória.

Fixe bem uma coisa: uma pessoa que assiste a sua casa deslizar de um barranco (e havia não só casas humildes, algumas eram casas muito boas e caras), olha para o lugar em que morava e vê que aquela casa que se esfarelou no deslizamento perdeu também o seu terreno.

Quem perde a casa no deslizamento perde também o terreno, não tem mais onde edificar outra casa sequer. É uma tragédia pessoal de proporções incalculáveis.

Por isso é que fiquei tomado de compaixão por 27 mil pessoas que perderam suas casas, perderam suas referências, sua origem, suas vidas.

Porque uma calamidade dessa ordem determina que a pessoa que tenha perdido sua família entre os mortos permaneça agora com sua casa, mas sem saber o que fará com ela, sem a família.

E determina também outra tragédia: é que a pessoa tenha permanecido, após a inundação, com sua família, mas sem saber o que fará com ela, pois perdeu a sua casa. É muito mais fácil viver do que reconstruir uma vida.

O sonho da casa própria, quando realizado, é a construção da vida. O pesadelo da perda da casa é a destruição da vida.

Estou trabalhando na minha dissertação de mestrado com déficit habitacional então não há como não endossar as palavras do S’antana. Mas há que se arranjar forças não sei onde, para recomeçar tudo outra vez, pois a vida é isso: um eterno recomeçar de tudo.


27 de novembro de 2008
N° 15802 - LF VERISSIMO


Bota o retrato do velho

No seu discurso no encerramento da Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas realizada em Bretton Woods para combinar como seriam as relações comerciais depois da II Guerra Mundial, que chegava ao fim, lorde John Maynard Keynes, um dos inspiradores e principais participantes à frente do time inglês, do encontro disse que se a cooperação que as nações tinham demonstrado durante a conferência continuasse,

“o pesadelo em que a maioria de nós passou tempo demais das suas vidas terá acabado”, e “a irmandade dos homens terá se transformado em mais do que apenas uma frase”. A competição monetária e os conflitos e barreiras que tinham levado a duas guerras mundiais deixariam de existir.

O otimismo declarado por lorde Keynes só se explica pelo seu cavalheirismo ou gosto pela retórica. Ele tinha sido derrotado na reunião.

Em Bretton Woods as boas intenções esconderam a questão real do encontro: a que Roosevelt já tinha proposto a Churchill quando condicionou a entrada dos Estados Unidos na guerra ao fim dos mercados cativos coloniais e do império econômico britânico, e a necessidade de garantir mercados livres para a produção americana que se multiplicaria com a mobilização para a guerra.

Enquanto Keynes acreditava que o Banco Mundial – insistência sua – realmente favoreceria a irmandade entre os homens, o secretário do Tesouro americano Henry Morgenthau, mais interessado no Fundo Monetário Internacional, empenhava-se na mudança do centro financeiro do mundo de Londres para Washington e Wall Street.

O que venceu em Bretton Woods não foi o espírito público de Keynes mas o espírito prático dos americanos. Morgenthau estava lá para sacramentar a transferência do poder econômico da Inglaterra para os Estados Unidos, a única nação que sairia da guerra em condições de impor sua vontade. E impôs.

O discurso de Keynes prevendo que a cooperação entre as nações traria uma era de inédita prosperidade universal foi muito aplaudido, mas o resultado prático de Bretton Woods foi que os americanos ganharam acesso aos mercados antes dominados pelo desdentado império britânico e a prosperidade universal que veio se concentrou principalmente nos Estados Unidos.

Keynes morreu pouco depois de Bretton Woods. Hoje ninguém se lembra que ele foi um dos fundadores do que está aí, embora pensasse em outra coisa.

A derrota da sua visão do que poderia ter sido, pela imposição americana, tem uma ponta de ingratidão: afinal, foi ele o teórico do dirigismo econômico de Roosevelt que salvou o capitalismo americano de si mesmo na crise dos anos 30.

Não deveria haver retratos dele na sala de nenhum dos monetaristas do Banco Mundial ou do FMI ou de outros economistas da mesma linha. Talvez estejam sendo colocados agora.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008



O MUNDO É UM MOINHO
Cartola

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
E em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me amor

Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida

De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estarás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus próprios pés...


O mundo é um moinho

"O mundo é um moinho" talvez seja uma das canções mais bonitas já feitas no Brasil. É de autoria de Cartola, que, morando na favela, fez poesia da melhor qualidade e compôs músicas em que melancolia e força lírica formam um par indissociável.

Na primeira estrofe da letra, a forma "ainda é cedo" tem o sabor de uma réplica, não é mesmo? É como se pressupusesse que algo foi dito antes. Afinal, trata-se quase de uma frase padronizada, usada em quase cem por cento das vezes em que uma visita diz que vai embora.

Nós, educadamente, replicamos: Ainda é cedo. Diríamos então que já de início a letra pressupõe um interlocutor, indicado ao longo do texto com vocativos: "Ainda é cedo, amor"; "preste atenção, querida"; "Ouça-me bem, amor".

A julgar pelo "querida", pelo "resolvida", trata-se de uma mulher. Não ouviremos em nenhum momento a voz dessa mulher, pois, se isso acontecesse, teríamos um diálogo, e a forma da canção lírica poderia resvalar para uma forma dramatizada, quase teatral.

A repetição enfática dos vocativos acaba por indicar o empenho com que se busca prender a atenção da interlocutora, prestes a cair no mundo.

Esse empenho é de tal ordem que chega a ter cara de conselho, ou mais do que isso, de sentença, a começar pelo título. O mundo é um moinho é uma espécie de frase sentenciosa, dita por alguém que certamente deve ter perdido um pouco de si mesmo nas pás desse moinho.

A experiência acumulada legitima o conselho, daí este ter sabor de profecia, digamos assim, o que é marcado pelo futuro do presente: "não serás mais o que és", "o mundo (...) vai triturar seus sonhos", "vai reduzir as ilusões a pó", "tu herdarás só o cinismo". Parece mãe rogando praga, não é?

Além do futuro, o presente do indicativo de valor atemporal, comum em provérbios, também é usado: "Em cada esquina cai um pouco a tua vida".

Não é que isso já esteja acontecendo, já que a moça está ainda para partir. No entanto é uma fórmula lapidar, que sintetiza uma verdade. Ninguém passa ileso pelas esquinas da vida.

Mas você acha que a letra é no fundo, no fundo, uma praga de mãe (ou de pai, ou de amante?). Pois é, tudo depende do contexto. Formas tão carinhosas como "amor", "querida" de certa maneira embalam, acarinham o interlocutor, do qual, no entanto, não se escondem as verdades desse mundo.

Os verbos e expressões ligados à corrosão que a realidade opera sobre os sonhos são bastante violentos: triturar, reduzir a pó, estar à beira do abismo. Mas, como dissemos, a verdade é revelada carinhosamente , se assim podemos dizer. Não só pela ternura dos vocativos, mas pela ternura da melodia mesmo.

A música é doce e melancólica e como que mostra a inutilidade do conselho. Ninguém escapa ao moinho, por mais que queiramos proteger aqueles que amamos.

O saldo da aventura pelo mundo é triste: cinismo, desilusão, perda de identidade: "Não serás mais o que és". O mundo nos aparta de nós mesmos.

Como consolo e promessa de um mundo melhor, resta-nos a arte. Que a música de Cartola nos proteja.

RUY CASTRO

Lévi-Strauss a dois

RIO DE JANEIRO - Claude Lévi-Strauss, o antropólogo francês, está fazendo 100 anos. Em 1935, ele era um jovem marxista com uma visão mecânica da vida, como tantos. Mas veio para o Brasil, embrenhou-se no mato com os nossos bororos e nambiquaras, comeu do cru e do cozido, e isso abalou suas certezas.

Em 1955, a experiência rendeu-lhe um livro, "Tristes Trópicos". Nos anos 50, Lévi-Strauss já acusava o homem de ser o vilão da ecologia, quando os dicionários ainda não tinham chegado a um acordo nem sobre o significado da palavra.

Contrariando o espírito da época, também nunca aceitou a idéia de que, com a alfabetização em massa, o progresso da humanidade seria fatal -quem éramos nós para sair alfabetizando populações que viviam tão bem sem o alfabeto?

Por defender a necessidade de preservar as identidades étnicas e culturais, combateu a idéia da globalização ainda no berço.

Para ele, a globalização conduziria à uniformização, à anulação das diferenças -e o fim das diferenças levaria à indiferença, que é uma das piores pragas que poderiam nos afligir. Pois é o que está acontecendo, e bem que ele avisou.

Minha geração tem vários motivos para ser grata a Lévi-Strauss. Em 1968, um pretexto infalível para um rapaz e uma moça se encontrarem era ler e discutir o último livro do autor da moda.

Eram grandes noites, que, de fato, começavam pela leitura de um capítulo do livro, geralmente o primeiro. Mas nunca se chegava ao segundo.

Naquele ano, o campeão disparado de tais leituras era "Eros e Civilização", de Herbert Marcuse. Mas, então, "Tristes Trópicos" saiu no Brasil, e Lévi-Strauss tomou-lhe o lugar.

Eu tinha 20 anos, morava no Solar da Fossa, em Botafogo, e era incrível como não se passava uma noite sem uma discussão a dois sobre Lévi-Strauss.

FERNANDO RODRIGUES

A crise, Lula e a realidade

BRASÍLIA - Enquanto Lula manda seus ministros dizerem que o Brasil vai crescer 4% em 2009, no mundo real fica cada vez mais claro como está distante o fim da atual crise.

O salvamento do Citibank é a demonstração acabada sobre a gravidade do momento. Pela concordância tácita, também indica a intenção de Barack Obama de utilizar a mesmíssima política do atual ocupante da Casa Branca: despejar toneladas de dinheiro público na economia.

George W. Bush titubeou em setembro. Sua equipe econômica piscou na hora de salvar o Lehman Brothers da falência. O banco evaporou. Depois, a crise foi ladeira abaixo.

Engenheiros de obras feitas no Brasil -e nos Estados Unidos- criticaram a decisão da equipe de Bush. O Lehman era muito grande para quebrar, disseram.

Alguns desses críticos eram os mesmos que antes reclamavam dos socorros estatais a bancos privados -como ocorrera no início do ano com o Bear Stearns. Depois da vacilada, a política econômica ficou clara como nunca.

Haverá dinheiro estatal de sobra para salvar tantos quantos forem os bancos ou empresas em dificuldades por causa de barbeiragens com derivativos e outros ativos tóxicos.

A lógica toda será usar a confiança ainda existente na maior reserva de valor do planeta: o dólar. Mais adiante, quando a inflação brotar por causa da emissão de moeda sem lastro, assistiremos à pior parte da crise, com uma brutal alta dos juros.

No Planalto, mesmo vendo a degradação do cenário, Lula parece comandar um bloco do auto-engano. Repete um mantra sobre a solidez do país.

Fará uma propaganda na TV a respeito. Ou o petista enxerga o que ninguém vê ou prepara o país para uma das maiores decepções recentes ao longo do ano de 2009. A ver.

frodriguesbsb@uol.com.br


26 de novembro de 2008
N° 15801 - MARTHA MEDEIROS


Saga Lusa

O que Chico Buarque, Vitor Ramil, Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Thedy Correa, Duca Leindecker, Fernanda Takai, Gabriel o Pensador, Kledir Ramil e Nei Lisboa têm em comum? Acertou, são escritores. Todos eles lançaram livros, já que são familiarizados com a palavra desde que iniciaram aquela outra atividade, a música.

Há quem torça o nariz: agora qualquer um escreve! Sorte deles, porque não é qualquer escritor que pode fazer o caminho inverso: subir num palco e cantar direitinho.

Pois abram alas para mais uma forasteira no mundo das letras: Adriana Calcanhotto acaba de lançar Saga Lusa, uma viagem lisérgica que narra os dias em que saiu da casinha durante uma turnê em Portugal, tudo por causa de uma overdose de remédios que quase lhe custou a vida – mas que espertamente, ela “curou” com literatura da boa.

Quando eu digo por aí que escrever é terapêutico, sei que estou chafurdando num clichê mais que reprisado, mas o que é um clichê senão uma verdade mil vezes repetida? Escrever cura. Só que nem todo ser humano que se aventura nesse tipo de tratamento consegue um resultado acima da média.

Muitas vezes, o jorro de palavras deve ser mantido no anonimato, o que se quer apenas é que a catarse ajude a recuperar a saúde mental perdida. Mas quando vale a pena compartilhar, ave! Que a arte seja espalhada.

O livro de Adriana é uma viagem no melhor dos sentidos – ao menos para nós, leitores, porque para ela foi violento. Dias inteiros sem dormir, dificuldade de comunicação, o pânico de não conseguir “voltar”, pesadelos, delírios, shows cancelados e Lisboa vista por trás da janela de um hospital, sem poder ser desfrutada – perder a consciência nem sempre é um barato, pode ser um tremendo desconforto.

Mas Adriana tinha duas armas poderosas contra suas alucinações: bom humor e um laptop. E se pôs a escrever tudo o que estava lhe ocorrendo, de uma forma tão divertida, que a gente até pensa: essa guria está inventando. Não estava, mas se estivesse, maior ainda o seu mérito.

Adriana é elegante em suas composições e demonstra, com Saga Lusa, ser elegante também em suas decomposições.

Desestruturada, maluca, revoltada, não importa: consegue rir de si mesma e isso é a prova maior da grandeza de uma pessoa, qualquer pessoa. É nessas reações de humor e inteligência diante do desconhecido que se pode dizer: o mundo tem jeito.

Muita água, muita calma nessa hora, e tudo se resolve. Olha, Adriana, não chego a desejar outros surtos reais, mas os irreais podem ser provocados sem danos à sua integridade. Cante e escreva: esgote-se em seu incrível talento.

Nico Nicolaiewsky ainda não escreveu nenhum livro, mas enquanto não entra pra turma, aproveite que ele está de volta ao Theatro São Pedro com o show Onde Está o Amor?, no próximo sábado e domingo. Uma viagem, também.

Aproveite a quarta-feira - Um excelente dia para você.


26 de novembro de 2008
N° 15801 - PAULO SANT’ANA


Todo burro é feliz

Não há ser mais infeliz do que o lúcido. A lucidez é uma cruz.

Não há seres mais felizes que os medíocres, os inocentes, os burros.

Quando passarem por uma estrada, olhem para os bois pastando: não há seres mais tranqüilos, mais serenos, mais felizes do que eles.

Por que os bois são felizes na paisagem bucólica? Simplesmente porque desconhecem o seu futuro.

Não sabem os bois que vão morrer dali a meses a marretadas num matadouro. Isso os torna felizes e realizados.

Já os que sabem que vão morrer a marretadas, os que têm consciência de que estão disputando um campeonato de 38 jogos sem terem centroavante, os que têm consciência de que os aposentados não vão ser reajustados pela inflação em seus proventos, enquanto o salário mínimo é reajustado todos os anos em índices acima da inflação,

os que têm consciência de que algumas categorias do funcionalismo público são reajustadas todos os anos em índices acima da inflação, enquanto outras não são reajustadas anos sobre anos, estes sabem que multidões vão morrer a marretadas ali adiante.

Estes são os lúcidos, estes são profundamente infelizes, estes vão viver sempre atacados pelo infortúnio.

Não há pior maldição do que ser lúcido. E não há maior felicidade e maior realização do que ser burro.

Eu ontem me irritei e chamei um homem de burro. A sua resposta me desconcertou. Ele me disse que quer continuar sendo burro, que é muito confortável a sua condição de medíocre.

Eu sei por que a resposta do burro me desconcertou: porque ele revelou ser um burro lúcido. Quer continuar a ser burro, se ele deixar de ser burro vai deixar de ser feliz.

Primeira vez que eu topei com um burro lúcido.

Já eu, que me considero imodestamente um lúcido, gostaria de deixar de ser lúcido. Eu gostaria de me tornar burro. Afinal, no fim da vida, eu teria o direito de ser feliz.

Durante 37 anos, no Rio Grande do Sul, havia só uma pessoa preocupada com o caos carcerário. Sozinho, pregou no deserto a sua estranha e incompreensível tese de que quanto piores e mais precárias forem as condições físicas dos presídios, piores serão as condições de segurança pública fora dos presídios.

Ouviam esse disparatado e o consideravam um louco. Dedicaram-lhe 37 anos de indiferença.

Pois vejo agora que, ontem, 50 heróicos gaúchos foram até a Praça da Matriz e realizaram uma manifestação, lançando o Movimento Pela Consciência Prisional.

Já aderiram incrivelmente ao movimento juízes, promotores, policiais, cidadãos de todos os níveis, que querem chamar a atenção dos governantes para o fato de que enquanto os presídios permanecerem como um lúgubre amontoamento de seres animalescos, cercados de medo,

violência, doenças irremovíveis e as mais desoladoras condições de higiene e dignidade pessoal, mais sérias e mais graves e aterrorizadoras serão as condições de segurança dos cidadão nas ruas, onde campeia o roubo por todas as formas de assalto e os assassinatos se empilham durante todas as semanas.

Havia um só gaúcho que pregava esta verdade acaciana, mas irritantemente incompreensível durante 37 anos.

Agora, há centenas de gaúchos que compreenderam esta verdade. E se lançaram ontem no Movimento Pela Consciência Prisional para dar um basta às pocilgas.

Eles vão se atirar à tarefa sublime de convencer os três poderes a tornar dignos presídios e acabar com a idéia estúpida, burra, suicida, de que a sociedade tem de fazer sofrer os presos quanto mais o possa a fim de vingar-se deles.