terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Após caso do Banco Master, mercado reforça segurança do CDB e descarta risco sistêmico

Liquidações em série no conglomerado Master reacenderam debate sobre risco em bancos médios

Liquidações em série no conglomerado Master reacenderam debate sobre risco em bancos médios

Rovena Rosa/Agência Brasil/JC
Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Os episódios envolvendo o Banco Master, o Will Bank e, mais recentemente, o Banco Pleno, funcionaram como um divisor de águas para milhares de investidores pessoa física. Relatos de atrasos, bloqueios temporários de recursos e dúvidas sobre a efetividade das garantias colocaram sob escrutínio um produto que, até então, era tratado quase como sinônimo de segurança: o Certificado de Depósito Bancário (CDB).
Desde novembro de 2025, o Banco Central do Brasil vem desmontando o conglomerado liderado por Daniel Vorcaro após identificar insolvência financeira, suspeitas de fraudes contábeis e risco de contágio. Ao todo, oito instituições ligadas ao grupo tiveram liquidação extrajudicial decretada.
O impacto levou ao maior acionamento da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que reservou cerca de R$ 51,8 bilhões para ressarcir investidores do Master, do Will Bank e do Pleno. A pergunta que ficou no mercado é direta: afinal, ainda é seguro investir em CDB de banco médio
Para Eduardo Barreto, diretor de Produtos e Alocação da Faz Capital já houve uma mudança de comportamento dos investidores“Há uma maior preocupação e interesse sobre o emissor. Antes não havia um olhar tão crítico, desde que estivesse dentro da garantia do FGC. Agora vemos mais questionamentos sobre rating, saúde da instituição e outros pontos”, diz.
Segundo ele, o prêmio adicional oferecido por bancos médios - muitas vezes entre 110% e 120% do CDI - ainda pode compensar, desde que respeitados limites e critérios. “Vemos que compensa, se bem medido o limite de garantia do FGC, respeitando o máximo de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Ao mesmo tempo, deve ser bem controlado o tamanho da exposição considerando o patrimônio total”.
Barreto ressalta que, apesar da percepção de risco, não houve aumento estrutural das taxas após o caso Master. Pelo contrário: o movimento do mercado reduziu spreads (diferença entre o preço da compra e o preço da venda de uma transação financeira), influenciado pelo patamar elevado da taxa básica e pela expectativa de cortes.
Na prática, a orientação é técnica: analisar prazo de vencimento, rating, possibilidade de liquidez antecipada, indicadores de solvência e, só depois, a taxa oferecida. “Mesmo dentro do limite do FGC, recomendamos diversificar entre duas ou três instituições”, afirma.
O professor Ricardo Teixeira, coordenador do MBA em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), faz uma distinção importante. Para ele, as fragilidades existem no negócio bancário, mas não necessariamente no modelo de captação - e sim de gestão.
"No setor financeiro, problemas de liquidez e insolvência têm efeitos devastadores. A confiança e a credibilidade são os dois ativos intangíveis mais importantes no setor. A falta de liquidez temporária sinaliza dificuldade no cumprimento de obrigações e pode gerar um efeito cascata”, explica.
Sobre o FGC, ele pondera que, para quem está dentro dos limites, a proteção é suficiente - mas o acesso só ocorre após a decretação da liquidação. “Enquanto a instituição conseguir lutar para sobreviver, o FGC não poderá ser acessado pelos clientes”, comenta.

Em meio à crise, FGC deve pagar mais de R$ 51 bilhões

O caso envolvendo o conglomerado do Banco Master levou ao maior acionamento já registrado do Fundo Garantidor de Créditos. Somando Master, Will Bank e Banco Pleno, o volume estimado de ressarcimento supera R$ 51 bilhões, sendo cerca de R$ 41 bilhões ligados ao Master, R$ 6 bilhões ao Will e R$ 4 bilhões ao Pleno.

Para Stefano Tremea, planejador financeiro CFP pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar), o episódio reforça a importância de compreender como a garantia funciona na prática, e não apenas no papel.
“É muito importante, nesse cenário, tomar decisões com base na razão e não na emoção. Não houve contaminação do sistema financeiro como um todo”, afirma. Segundo ele, o mecanismo mostrou capacidade de resposta: “O fundo garantidor foi eficiente no sentido de ressarcir os investidores, e o Banco Central interveio quando precisou”.
O FGC funciona como um mecanismo de proteção criado pelo próprio sistema financeiro para preservar a confiança em momentos de quebra ou liquidação de instituições. A cobertura é de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira, respeitado o teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos.
Estão cobertos produtos como CDB, RDB, LCI, LCA e depósitos em conta corrente e poupança. Ficam fora da garantia aplicações como fundos de investimento, debêntures, CRIs, CRAs e títulos públicos.
Tremea faz ainda um alerta técnico que ganhou relevância após o caso Master: o investidor deve considerar também os rendimentos até o vencimento do título“Não é ideal aplicar exatamente R$ 250 mil no início, porque os juros também precisam estar protegidos pelo limite do FGC”, diz. A recomendação é distribuir valores entre instituições diferentes e acompanhar indicadores como rating, índice de Basileia e balanços financeiros.
Com patrimônio estimado em aproximadamente R$ 160 bilhões, dos quais cerca de R$ 125 bilhões disponíveis para uso imediato, o fundo tem conseguido honrar os pagamentos. No caso do Master, mais de 90% dos valores previstos já haviam sido ressarcidos semanas após o início do processo.
“O sistema financeiro brasileiro segue oferecendo segurança adequada, sendo um dos mais avançados do mundo”, finaliza Barreto. Para Teixeira, mesmo em episódios de tensão, o mercado já demonstrou capacidade de absorver choques. Tremea complementa que a atuação do Banco Central e do FGC no caso Master mostrou eficiência operacional.

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