terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 Expodireto Cotrijal reforça debate sobre crédito e risco climático

Nei César Manica defendeu a criação de um fundo nacional de seguro agrícola para garantir a produção

Nei César Manica defendeu a criação de um fundo nacional de seguro agrícola para garantir a produção

DANI BARCELLOS/ESPECIAL
Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterO lançamento da Expodireto Cotrijal 2026, realizado na manhã desta segunda-feira (9), no Hotel Deville, em Porto Alegre, antecipou o tom de uma edição marcada menos pela euforia dos negócios e mais pela busca de respostas a um cenário de forte pressão financeira e climática sobre o agronegócio gaúcho. Consolidada como um dos principais palcos de debate do setor no Brasil e na América Latina, a feira, que será realizada de 9 a 13 de março, em Não-Me-Toque, surge como espaço estratégico para discutir crédito, endividamento, seguro rural e inserção internacional da produção, temas que hoje condicionam a capacidade de permanência do produtor no campo.
Durante a coletiva, o presidente da Cotrijal, Nei César Manica, apontou o endividamento rural como um dos principais fatores de preocupação para 2026. Ele destacou que a sucessão de estiagens nos últimos anos comprometeu a renda no campo, reduziu a capacidade de pagamento e dificultou a manutenção do fluxo normal de investimentos. Nesse contexto, defendeu que o sistema financeiro, presente na feira, apresente condições mais adequadas de crédito e juros compatíveis com a realidade da produção, como forma de viabilizar negócios e dar fôlego ao produtor.
Manica observou que, em diversas regiões do Estado, o cenário já inspira cautela, com lavouras sob risco após períodos prolongados sem chuva e produtores altamente alavancados. Segundo ele, a falta de renda compromete não apenas o pagamento das dívidas, mas a própria continuidade da atividade agropecuária, o que reforça a necessidade de prazos mais longos e instrumentos financeiros ajustados ao risco climático.
Nesse ambiente, o presidente da Cotrijal voltou a defender a criação de um fundo nacional de seguro rural como política estruturante para o setor. Na avaliação apresentada, a ausência de um sistema robusto de proteção à renda amplia a vulnerabilidade do produtor e afeta toda a cadeia produtiva. “Sem um sistema robusto de proteção à renda, o produtor segue exposto às oscilações climáticas, o que encarece o crédito, reduz o investimento e fragiliza toda a cadeia produtiva”, afirmou.
A Expodireto Cotrijal, segundo Manica, consolida-se justamente como espaço para amadurecer esse debate, reunindo produtores, entidades, agentes financeiros e poder público. A feira deixa de ser apenas uma vitrine tecnológica para se afirmar como fórum político-econômico do agronegócio, no qual temas estruturais ganham centralidade diante das crises recorrentes enfrentadas pelo setor.
O evento, que tradicionalmente também concentra debates sobre comércio internacional, volta a ocorrer em um ambiente de incertezas na geopolítica global, com reflexos diretos sobre o agro. A diversificação de mercados, especialmente com países da Ásia e da África, foi apontada como uma das frentes de interesse crescente, impulsionada pelo reconhecimento do Brasil como referência em tecnologia e produtividade agrícola.
Nesse contexto, a feira deverá abrigar discussões sensíveis sobre acordos comerciais e seus impactos nas cadeias produtivas. A do leite, em especial, foi citada como uma das mais pressionadas, em razão das importações no âmbito do Mercosul, que têm afetado preços e a viabilidade da produção local. Um protesto do setor está previsto para o evento, que deve servir como palco de mobilização em defesa de ajustes nas regras comerciais, com o objetivo de proteger o produtor e evitar perdas estruturais.
Após esse diagnóstico sobre renda, crédito e proteção da produção, o governador Eduardo Leite abordou a possibilidade de encaminhar uma proposta de novo alongamento do pagamento da dívida do Estado junto à União como forma de viabilizar investimentos em irrigação e em outros setores da economia. Ele destacou avanços na desburocratização do licenciamento ambiental e em programas de subvenção, mas reconheceu que a área irrigada no Rio Grande do Sul ainda é reduzida diante da recorrência de estiagens. “A irrigação é uma estratégia fundamental para reduzir a vulnerabilidade climática do Estado, e precisamos criar condições para ampliar esses investimentos”, afirmou.

Parque da Expodireto deverá ser ampliado já para a edição de 2027

Outro destaque anunciado no lançamento foi o início das obras de reposicionamento da ERS-142, rodovia que passa em frente ao parque da feira. A alteração do traçado permitirá a ampliação da área de expositores a partir da próxima edição. A iniciativa resulta de articulação liderada pelo deputado federal Pedro Westphalen, que destinou R$ 2,5 milhões em emenda parlamentar para a obra e será homenageado durante a Expodireto Cotrijal 2026.
Na sua 26ª edição, a Expodireto Cotrijal já começa a montagem dos estandes no  parque de 130 hectares. Serão mais de 550 expositores já confirmados, incluindo cerca de 200 empreendimentos da agroindústria familiar. Assim como em 2025, a organização decidiu não divulgar o faturamento do evento, diante do cenário de descapitalização e endividamento dos produtores, evitando leituras distorcidas sobre o desempenho da feira.

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