sábado, 27 de junho de 2015



27 de junho de 2015 | N° 18207
CLÁUDIA LAITANO

A bolha

De onde surgiu o Cristiano Araújo? Do mesmo lugar de onde brotam dezenas, centenas de outros músicos dos quais você nunca ouviu falar também – a menos, é claro, que tenha dado uma espiada na lista das cem músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em 2014. Ali, entre Jads e Jadsons, Thaemes e Thiagos, você pode descobrir que a música que fez mais sucesso no país no ano passado é de Marcos & Belutti e chama-se Domingo de Manhã.

Fica batizado, doravante, de “efeito Cristiano Araújo” esse súbito mal-estar causado pela comoção pública motivada pela morte de um artista do qual nunca ouvimos falar. O curioso fenômeno pode ser explicado pela conjunção de dois fatores: a mudança do mercado musical brasileiro, cada vez mais descentralizado e menos dependente de gravadoras e da televisão aberta, que cria a percepção de que os artistas são conhecidos nacionalmente, e as redes sociais, capazes de repercutir assuntos considerados de nicho (mesmo quando o “nicho” comporta milhões de pessoas).

Somos um país gigantesco formado por bolhas sociais e culturais isoladas e autossuficientes, ao mesmo tempo em que somos uma pequena aldeia virtual onde todos os falatórios ganham escala e repercussão, levando as diferentes bolhas a espantarem-se com a existência umas das outras de vez em quando. (Se João Gilberto morresse amanhã, não tenho dúvida de que as redes sociais seriam tomadas imediatamente por uma versão cult do “efeito Cristiano Araújo”.)

No Brasil de 2015, porém, não são apenas as bolhas culturais que andam se estranhando. Há bolhas sociais, religiosas, geográficas, políticas e até morais – todas, aparentemente, em guerras simultâneas e não excludentes. Talvez porque antes não houvesse tantos canais para expressar opiniões e visões de mundo diversas, talvez porque o confronto satisfaça algum tipo de necessidade íntima da nossa época – brigo, logo existo. O fato é que a percepção de que se está vencendo ou não os diferentes duelos em que nos envolvemos muitas vezes depende da bolha a partir da qual observamos o mundo.

Bolha 1: numa decisão histórica, a Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou ontem o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país. Os 13 Estados do país que ainda proibiam não podem mais barrar os casamentos entre homossexuais. Bolha 2: na quarta-feira, no Brasil, a Câmara dos Deputados promoveu uma bizarra audiência para ouvir “ex-gays” – onde um deputado disse que a homossexualidade era “modismo” e outro propôs uma bolsa-auxílio para quem mudasse de lado.

Parece muito claro para que lado a História está marchando, mas não deixa de ser constrangedor perceber que a bolha do atraso cresceu e apareceu no Congresso sem que a outra bolha se desse conta ou conseguisse reagir a tempo. Como cantava uma cantora que fazia sucesso muito antes de Cristiano Araújo nascer: “O Brasil não conhece o Brasil”.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Jaime Cimenti

O Clube dos Editores e o Negócio do Livro

Sexta-feira passada, convidado pelo Clube dos Editores do Rio Grande do Sul, tive a ótima oportunidade de participar do VII Seminário O Negócio do Livro, no Instituto Goethe, durante todo o dia. Nível altíssimo de expositores e de temas abordados e excelente recepção de Jerônimo Braga e Clô Barcellos proporcionaram a todos os presentes uma série de lições interessantes e informações úteis que não serão esquecidas.

De início, o editor gaúcho Celso Kiperman contou sobre a trajetória da histórica Artmed, fundada por seu pai Henrique em 1973, e da história do Grupo A, do qual é presidente. Relatou como a editora passou a ser uma empresa de educação, associando-se a gigantes como a McGraw-Hill e trabalhando com tecnologia de informação e bibliotecas digitais, entre outros recursos. Kiperman ressaltou, no segmento, a compra recente do acervo editorial de educação da Editora Saraiva pela Editora Abril.

Elisa Ventura, da Livraria Blooks, do Rio de Janeiro e São Paulo, e Germano Weirich, da Livraria Arco da Velha, de Caxias do Sul, falaram sobre livrarias independentes e de como é possível movimentar pequenas livrarias com criatividade, energia e pessoalidade, mas de olho em bons resultados. Mostraram como cativar e encantar leitores, de modos os mais diversos, como, por exemplo, com bloco de carnaval.

Eduardo Cunha, da BookPartners, ressaltou o papel da informação e da tecnologia para a distribuição de livros, atividade que tem dificuldades no Brasil. Cunha cadastra cerca de 150 títulos novos por dia, conta com dezenas de funcionários e usa recursos modernos de informática para localização e manuseio dos livros de seu grande depósito.
Rejane Dias, editora do Grupo Autêntica, falou de sua longa experiência como editora, de erros e acertos, e de atividades com literatura infantojuvenil, policial, para adultos e outras. Relatou como lutou para deixar de lado preconceitos com obras mais ligadas ao entretenimento. Antes, preocupava-se mais com "literatura séria e classuda"; agora, tem uma visão mais pragmática.

Bruno Zolotar, gerente de marketing do Grupo Record, que comanda uma equipe de seis pessoas, relatou experiências do grupo e mostrou como o uso da informática e das redes sociais ganharam importância na divulgação de livros. Para ele, hoje autores e editoras devem estar em sintonia com o que rola na web e fazer uso preciso das ferramentas digitais.

Enfim, restaram do seminário, em síntese, lições sobre a importância da educação na área editorial, o toque pessoal nas livrarias independentes, o cuidado com tecnologia na área de distribuição, as idas e vindas de uma editora de vários selos e os modernos caminhos do marketing para editoras. O livro impresso parece resistir, a literatura de ficção, idem. As livrarias pequenas ainda têm espaço, mesmo que seja só para um café e, realmente, as redes sociais e a web são hoje caminhos notáveis e inevitáveis para escritores e livros, especialmente para os mais jovens.

a propósito...

A respeito desses livros para colorir, que surgiram na Europa e nos Estados Unidos, e onde homens também compram e pintam, ao contrário daqui, onde as compradoras são mulheres, pairam mistérios. Não se sabe por que surgiram, qual a explicação para o sucesso e muito menos por que as vendas estão declinando. Pois é, a vida dos livros é imprevisível como a vida das pessoas. Imprevisível como um jogo de futebol. É isso. Vai saber. Acho que nem Freud, se chamado no centro espírita, explica esse lance dos livros para colorir. Pensando bem, será que precisa de explicação? Vão colorir e pronto. Sem stress e indagações. Chega de perguntas.

Jaime Cimenti


Os 11 mandamentos segundo Pondé

Os Dez Mandamentos (+ um) - Aforismos teológicos de um homem sem fé (Três Estrelas, 128 páginas, R$ 29,90), do filósofo e professor Luiz Felipe Pondé, da PUC-SP e da FAAP, traz comentários livres e instigantes sobre cada um dos dez mandamentos que Deus delegou a Moisés. Há quem diga que Deus pretendia entregar mais, que Moisés negociou e conseguiu que fossem só dez. Brincadeira bíblica, claro. Pondé acrescentou mais um mandamento à lista, contra o pessimismo fácil que anda por aí, como verão os leitores.

Pondé é autor de A era do ressentimento (LeYa, 2014) e O catolicismo hoje (Benvirá , 2011), entre outros, e coautor de Por que virei à direita (Três Estrelas, 2012). Os dez mandamentos são, para judeus e cristãos, o núcleo da mais elevada espiritualidade e devem reger as relações entre as pessoas entre si e com o sagrado. Eles podem ser considerados como o contrato primordial de Deus com os homens.

Pondé analisa, um a um, os dez mandamentos e reflete sobre sua importância para o povo bíblico e seu significado para a humanidade, ontem e hoje.

Tomando como guia os ensinamentos dos sábios hebreus e dos maiores pensadores modernos, como Nietzsche e Kierkegaard, Pondé lança luz sobre questões essenciais, como o amor, a amizade, a família, a política, a morte e, sobretudo, Deus e o valor da vida espiritual. Ao mesmo tempo que se declara "um homem sem fé", Pondé afasta-se das religiões institucionais, mas não encara os ensinamentos bíblicos como opressivos ou ultrapassados. Ele não faz mera apreciação crítica dos dez mandamentos, procura analisar a existência humana e a modernidade à luz do mistério e do milagre. Com força e clareza o filósofo se debruça sobre a sabedoria antiga e lança novos olhares sobre temas diversos.

Para Luiz Felipe Pondé, "Deus é o conceito mais complexo já criado pela filosofia e enfrentá-lo é um desafio para qualquer intelecto apaixonado pelos limites do pensamento".

Segundo ele, a espiritualidade é uma "questão urgente", pois ela caminha para o desaparecimento, à medida em que a religião vai sendo transformada apenas em um meio de obter felicidade e sucesso. Em nosso mundo imerso na banalidade e no vazio, Pondé pensa que é urgente recuperar a esperança na vida e, para isso, formulou, audaciosamente, um décimo primeiro mandamento: Terás esperança no mundo. Ou seja, ao mesmo tempo que tece uma impiedosa crítica ao nosso tempo, o filósofo nos exorta a recuperar o eterno, mesmo quando já não temos mais fé.


Como se vê, os leitores estão diante de uma obra que dialoga com o saberes antigo e moderno e que procura abrir novos caminhos e visões para viver o mistério, o milagre e o futuro.



26 de junho de 2015 | N° 18206
EDITORIAL

NA CONTRAMÃO DA REALIDADE

O risco de decisões favoráveis aos aposentados mas nitidamente populistas, como a aprovada agora pela Câmara, é o de que acabem afetando ainda mais as contas públicas.
Ao estender a regra de reajuste do salário mínimo para todos os aposentados da Previdência Social, a Câmara dos Deputados apenas comprovou que boa parte dos parlamentares está na contramão da realidade brasileira.

A medida pode parecer simpática aos beneficiados, mas é demagógica e desastrada, pois coloca em risco a sobrevivência do sistema previdenciário, já que o reajuste seria insuportável para os cofres do Tesouro. É preocupante que os reajustes dos vencimentos dos aposentados continuem perdendo para os do salário mínimo. Essa distorção, porém, só poderá ser corrigida quando as contas públicas estiverem numa situação menos desfavorável do que a atual, o que se constitui hoje numa das principais razões para incertezas quanto ao futuro da economia.

Num cenário de dificuldades como o atual, esse tipo de decisão por parte da Câmara só ocorre porque os parlamentares estão mais preocupados em auferir dividendos políticos imediatos, deixando de lado qualquer preocupação com o futuro do país a médio e longo prazo. A decisão, se fosse avalizada pelo Senado e mantida pelo Planalto, implicaria um custo de até R$ 9 bilhões para o Tesouro.

O impacto só não é maior porque, pela regra atual, que passaria a valer para todos os aposentados, incluindo os de ganhos mais elevados, o reajuste tem por base a inflação do ano anterior mais o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acumulado nos dois últimos anos. Como a economia ficou estagnada em 2014 e deve regredir neste ano, o ônus maior seria sentido só mais à frente.

A questão é que a economia brasileira voltará a se expandir um dia, e os brasileiros, já aposentados ou interessados em se aposentar, torcem para que essa retomada possa ocorrer logo. O risco de decisões favoráveis aos aposentados mas nitidamente populistas, como a aprovada agora pela Câmara, é o de que acabem afetando ainda mais as contas públicas. Desde o Plano Real, o salário mínimo teve uma variação acumulada de 150% acima da inflação. Se os ganhos dos aposentados passarem a seguir a mesma lógica, os efeitos podem ser explosivos.

Ninguém, com um mínimo de consciência, põe em dúvida a necessidade de preservar os ganhos de quem conquistou o direito de se aposentar. Ainda assim, qualquer tentativa de solução precisa levar em conta a realidade das contas públicas, o que não ocorreu na decisão tomada pela Câmara.


26 de junho de 2015 | N° 18206 
DAVID COIMBRA

Gaúchos e gaúchas de todas as querências!

Nico Fagundes tinha aquela cara de brabo. Andava sempre pilchado por aí, dando a impressão de que, por qualquer olhar de través, puxaria do rebenque e daria uma tunda no vivente temerário que o desafiara.

Mas que nada.

Nico era um doce de pessoa, sempre bem-humorado e brincalhão, que nem guri em sanga. Entrava na Redação da Zero Hora fazendo alarde, troçando com todo mundo, arrancando risadas pelo caminho.

Essa alegria ruidosa é típica do gaúcho, e Nico era o gaúcho típico. Mais até: ele foi um dos construtores da imagem do gaúcho típico espalhada pelo Brasil. Nico, mais um punhado de tradicionalistas e cantores nativistas, mais o escritor Erico Verissimo e seu Capitão Rodrigo, esses foram os personagens que inventaram o gaúcho.

“Até domingo que vem, gaúchos e gaúchas de todas as querências!”

Essa despedida, que Nico repetiu semanalmente durante mais de 30 anos, no encerramento de cada Galpão Crioulo, é um símbolo do gauchismo. É uma saudação calorosa, amistosa, franca, como tem de ser o gaúcho. Nós, gaúchos de querências distantes, nos sentimos reconfortados só de ouvir um conterrâneo nos saudar dessa forma. Nos sentimos mais... gaúchos, e gaúcho, no caso, não é um gentílico, é um adjetivo. É ser bravo, reto, leal, amigável e feliz. Como era o Nico.

Nico, com seu irmão Bagre, é autor do segundo hino do Rio Grande, o Canto Alegretense. Só de ouvir o sobrinho do Nico, o Neto Fagundes, a entoá-lo a garganta plena e peito inflado, só de ouvi-lo, confesso, me arrepio. Ouve o canto gauchesco e brasileiro desta terra que eu amei desde guri! Ouvir o Canto Alegretense faz a gente se sentir... gaúcho. Faz a gente se sentir um pouco Nico Fagundes.

É bem bom se sentir um pouco Nico Fagundes, gaúchos e gaúchas de todas as querências!

Nico e Cristiano

Nico morreu no mesmo dia da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. A imprensa brasileira deu vasto espaço à cobertura do velório de Cristiano, mas, no leste do país, não eram muitos os que o conheciam. Eu mesmo jamais tinha ouvido falar dele ou de suas músicas.

Nico é conhecido e amado em todo o sul do Brasil, mas decerto que em Goiás, terra de Cristiano, poucos sabem quem ele é, e isso que Nico foi mais do que um cantor; foi compositor, escritor, folclorista, historiador e apresentador de TV.

Isso bem mostra que, se nós gaúchos não conhecemos muito do Brasil, o Brasil também não conhece muito do que somos nós.


O Brasil não é um só, o Brasil são tantos. É um continente com culturas diferentes, economias diferentes e hábitos diferentes, mas a mesma lei que vale para o interior da selva do Acre vale para as coxilhas do Alegrete, ainda que poucos, bem poucos, nas lonjuras do Acre, saibam onde fica o Alegrete.


26 de junho de 2015 | N° 18206
MOISÉS MENDES

Nico e Nelson

Nunca tinha ouvido falar de Cristiano Araújo, o cantor que morreu em acidente nesta semana e comoveu o país. Cristiano era famoso e alguns nem sabiam. Dizem que Fátima Bernardes comentou a morte em seu programa, mas o chamou de Cristiano Ronaldo. E um bom pedaço do Brasil havia parado por causa do trauma com a morte do cantor.

Quando fez sucesso de crítica e de público com a peça Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues escreveu sobre o espanto de ter ficado famoso sem que muita gente soubesse. Mas isso aconteceu em 1943.

A peça, diziam, revolucionou o teatro no Brasil. Nelson escreveu que caminhava flutuando pelo centro do Rio, certo de que havia chegado à fama. Mas os que caminhavam em volta o ignoravam como famoso. Nelson era famoso no restrito círculo dos que iam ao teatro e liam notas culturais nos jornais.

A fama de Cristiano reproduziu entre nós, 70 anos depois, o assombro de Nelson, mas de outra forma. Como era possível que eu, você e a Fátima Bernardes não conhecêssemos Cristiano? O cantor era aclamado em seu nicho, e que nicho, da música sertaneja. E nós, os que circulamos por outros mundos, não sabíamos de nada.

Só que Cristiano era um artista de massa, dos grandes públicos, e Nelson era, então como autor de teatro, uma figura de redutos. Cristiano tinha fama mesmo, Nelson tinha reputação.

E agora, trazendo essa questão um pouco mais para perto, vamos falar de Antônio Augusto da Silva Fagundes. Nico era, claro, muito famoso. E também tinha muita reputação.

Mas Nico foi candidato a vereador de Porto Alegre em 2012. Fez 1.164 votos e não se elegeu. A democracia oferece explicações variadas para o reinado de um Eduardo Cunha e até a relevância de um Zé Agripino para as liberdades.

Mas como explica que Nico, com fama e reputação, com as raízes do nativismo, com seu esforço e talento para interpretar o Rio Grande, não tenha sido eleito vereador?

Que mistério da política negou ao autor (com o irmão Bagre Fagundes) do Canto Alegretense a chance de ser vereador? Por que o próprio nativismo esnobou Nico? Ou nativista não vota em nativista?


Sei que há uma carreta de explicações, mas fica difícil de entender. Nem sei se Nico morreu com esse desgosto ou se não dava bola pra isso. Mas até os camoatins do Inhanduí devem ter achado estranho.

quinta-feira, 25 de junho de 2015


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25 de junho de 2015 | N° 18205
ECONOMIA VISÃO REALISTA

INFLAÇÃO E PIB ELEVAM TURBULÊNCIA

PROJEÇÕES DO BANCO CENTRAL mostram piora de indicadores econômicos até o fim do ano. Alta de preços deve ser de 9%, o dobro da meta estipulada.E a estimativa para o crescimento do país mira ainda mais o terreno negativo

É bom apertar o cinto. A turbulência econômica que o país enfrenta deve ficar ainda mais forte nos próximos meses. O alerta foi dado justamente por quem pilota o avião. Em relatório trimestral divulgado ontem, o Banco Central (BC), responsável pelo controle da inflação, revisou as próprias estimativas e admite que a alta nos preços em 2015 deve chegar a 9%.

A projeção, bem superior ao teto da meta estipulada pelo governo, de 6,5% – sendo que o centro é 4,5% ao ano –, mostra que a travessia pela “tempestade quase perfeita” formada no horizonte pode durar mais do que o esperado. Pela primeira vez, o BC tem uma expectativa mais pessimista sobre o comportamento dos preços do que analistas do mercado financeiro – comumente criticados pelo governo pelo excesso de ceticismo em relação às medidas adotadas pela equipe econômica do Planalto. O último boletim Focus, divulgado na segunda-feira passada, indica projeção de avanço de 8,9% até dezembro.

O cenário projetado para este ano é de estagflação, quando há aumento dos preços ao mesmo tempo em que a atividade econômica se retrai, o pesadelo de qualquer ministro da Fazenda. A estimativa do BC reforça a retração, para 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) – se confirmado, a maior contração em 25 anos.

Entre os fatores que levam à projeção negativa, as denúncias de corrupção da Operação Lava- Jato, a demora para a publicação do balanço da Petrobras, a crise hídrica no Sudeste, as incertezas no cenário político e o risco de um racionamento de energia, agora descartado, afetaram os investimentos.

Enquanto o Planalto encara 2015 como um “ano de transição” e já fala em sinais de retomada da economia no segundo semestre, o BC afirma esperar melhora apenas em 2016, discurso adotado por boa parte do empresariado. A promessa da instituição é trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% no próximo ano. O principal instrumento do BC para conter as pressões inflacionárias é a taxa básica de juro da economia, que avançou de 11% ao ano, em outubro do ano passado, para 13,75% ao ano em junho, maior patamar em quase nove anos. A expectativa do mercado financeiro é de que a taxa termine 2015 em 14,25% ao ano.

APERTO NO SALÁRIO PARA CONTER PREÇOS

Diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu Pereira da Silva, ao comentar o novo Relatório Trimestral de Inflação, sinalizou que o órgão não tem limite para subir o juro e que a “moderação salarial” é elemento-chave para a estabilidade de preços.

Questionado sobre falhas na política de controle da inflação no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, Awazu afirmou que o Copom atua sempre de maneira técnica e que a instituição começou a elevar o juro em abril de 2013. Posteriormente, o BC fez uma parada temporária nesse processo durante o período eleitoral de 2014.

A retração econômica, que já vem afetando empregos na indústria e na construção civil há alguns meses, chega agora com mais força ao comércio. De acordo com o último levantamento do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, a indústria de vestuário fechou 7,3 mil postos de trabalho no Brasil no acumulado de janeiro a maio. O comércio como um todo demitiu 159,3 mil pessoas nos primeiros cinco meses do ano. No Rio Grande do Sul, o cenário é semelhante (leia texto na página ao lado).


cadu.caldas@zerohora.com.br



25 de junho de 2015 | N° 18205
DAVID COIMBRA

O Brasil que não existe mais

É bonito ser Botafogo. Acho que vou virar Botafogo. Se me tornar mesmo Botafogo, criticarei com veemência o processo que o clube está movendo contra o Porta dos Fundos. O Botafogo está pedindo R$ 10 milhões ao Porta dos Fundos por causa de um vídeo que brinca com os patrocínios da camisa do time.

Isso não é Botafogo. O Botafogo é um time do Brasil antigo, o Brasil pelo qual os estrangeiros suspiram sem saber que não existe mais, o Brasil dos brasileiros que não se levavam a sério. Só no Brasil antigo um Garrincha seria possível, por exemplo.

Garrincha, o jogador-símbolo do Botafogo, era o que no Brasil antigo se chamava de “aleijado”. Hoje essa palavra motiva processo, mas no Brasil antigo viveu até um grande artista plástico que era chamado, imagine, “Aleijadinho”. Fico pensando como chamariam o Aleijadinho hoje. “Deficientefisicozinho?” Não pode ser... De qualquer forma, Garrincha não era deficiente físico. Era... aleijado. Na velha concepção, é claro, algo difícil de explicar em 2015.

Garrincha bebia antes dos jogos, fugia da concentração e não voltava para ajudar na marcação. Em tudo, um ser do passado, que vivia uma vida extinta, algo como Luís XIV, o Rei Sol, como Sócrates, Buda, professores de datilografia e vendedores de fita cassete.

Depois de Garrincha, o Botafogo montou um time que era conhecido como “Time do Bagaço”. Era sensacional: Paulo César Caju, que foi campeão do mundo pelo Grêmio, um cracaço que falava francês, usava cabelo black power e vestia pantalonas com a boca de sino do tamanho de um cone; Zequinha, que também jogou no Grêmio, autor de três gols num Gre-Nal de 1975, ponta clássico que jogava só de um jeito, driblando para a linha de fundo e cruzando, só; mais Jairzinho, o Furacão; e Gérson, o Canhotinha de Ouro, que fumava três carteiras de cigarro por dia. Bonito de ver aquele time jogar. Time impossível num tempo de campeonato de (argh) pontos corridos.

Naquele Brasil, daquele Botafogo, ninguém se preocupava em processar ninguém. Como as pessoas não se levavam tão a sério, elas viviam suas vidas, pronto. Está certo que às vezes dava algum problema. Até no Botafogo: uma vez, o técnico-jornalista-comunista João Saldanha sacou de um revólver e saiu atrás do goleiro Manga, a quem acusava de ter se vendido para outro time em extinção, o Bangu. Manga, para se salvar, pulou um muro de três metros de altura, demonstrando toda a agilidade que resplandeceria no Inter, oito anos depois.

João Saldanha era um tipo do Brasil antigo, inviável no atual. João Saldanha dizia verdades com coragem e mentiras com graça, parecido com Vinicius de Moraes, outro que não sobreviveria agora. Bem como Tom, Elis, Lupicínio, Iberê, João Gilberto, Dorival Caymmi. A música e o futebol brasileiros não sobreviveriam no Brasil de hoje, nem o verdadeiro Rio de Janeiro, que esse de agora é falso.


O Botafogo só não é campeão de nada porque é um Botafogo de um Brasil que não existe mais. Se quiser ser campeão, terá de mudar. Terá de deixar de ser Botafogo. Mas aí eu não serei Botafogo também. Só serei Botafogo antigo, do Brasil antigo. Acho que sou um antigo, afinal. Nós, antigos, não somos campeões no século 21.


25 de junho de 2015 | N° 18205
LUCIANO ALABARSE

TIRO NO PÉ

Desde que nasci. Desde muito antes. O Brasil vive em crise desde sempre. Nossa atual crise econômica é real, sim. Descalabros variados a explicam. Mas o que vivenciamos hoje é mais profundo. Há uma crise de liderança que contamina o país com um pessimismo apocalíptico. Recuso o catastrofismo das carpideiras de plantão, o ranger de dentes daqueles que só dizem não. Chega de inércia, chororô, paralisia. É preciso agregar valor, inventar, estimular outra onda.

O Brasil reacionário não me representa. Nem a baderna dos grupos extremistas. Nosso país não é intolerante nem vai ficar. Há que surpreender os dias brasileiros com a inteligência da alegria. Gays e evangélicos, políticos, operários: festa, trabalho e pão. O leite bom para os caretas. O pessoal da música está fazendo sua parte, com louvor. Alguns discos recentes mostram isso: Ná e Zé, que celebra 30 anos da parceria de Ná Ozzetti e Zé Miguel Wisnik; os CDs da Gal, do Kleiton & Kledir e da Maria Gadú, surpreendentes; Gadú canta Trovoa, excepcional canção de Maurício Pereira que, sozinha, ilumina nosso apagão.

Enquanto isso, jornais dão conta dos cortes no orçamento do Ministério da Cultura: contingenciamento de 21%. Sobraram míseros 320 milhões para atender a programação, editais de fomento e circulação e Pontos de Cultura. O que já não atendia as demandas do setor, agora mesmo é que não atenderá.

Um tiro no pé. Como pode um governo, sem investir em cultura, querer reconhecimento, agenda positiva, fluxos turísticos? Ou alguém pensa que belezas naturais sejam, sozinhas, capazes de desempenhar esse papel? Cultura faz girar a roda da economia. Sempre. É só tomar o Carnaval carioca ou o Natal Luz de Gramado como exemplos. É preciso somar eventos de porte aos nossos destinos paradisíacos. Sem recortes culturais consolidados não haverá luz no fim do túnel.


Chamemos o síndico, o Batman, os malucos, os artistas, os chatos de galocha, os homens de bem. Pé na tábua. O Brasil precisa. O Brasil merece.


25 de junho de 2015 | N° 18205
L. F. VERÍSSIMO

Ódio

Não vi a entrevista do Jô com a Dilma, mas, conhecendo o Jô, sei que ele não foi diferente do que é no seu programa: um homem civilizado, sintonizado com seu tempo, que tem suas convicções – muitas vezes críticas ao governo – mas respeita a diversidade de opiniões e o direito dos outros de expressá-las.

Que Jô fez uma matéria jornalística importante e correta não é surpresa. Como não é surpresa, com todo esse vitríolo no ar, a reação furiosa que causou pelo simples fato de ter sido feita.

A deterioração do debate político no Brasil é consequência direta de um antipetismo justificável, dados aos desmandos do próprio PT no governo, e de um ódio ao PT que ultrapassa a razão. O antipetismo decorre em partes iguais da frustração sincera com as promessas irrealizadas do PT e do oportunismo político de quem ataca o adversário enfraquecido.

Já o ódio ao PT existiria mesmo que o PT tivesse sido um grande sucesso e o Brasil fosse hoje, depois de 12 anos de pseudossocialismo no poder, uma Suécia tropical. O antipetismo é consequência, o ódio ao PT é inato. O antipetismo começou com o PT, o ódio ao PT nasceu antes do PT. Está no DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua sigla.

É inútil tentar debater com o ódio exemplificado pela reação à entrevista do Jô e argumentar que, em alguns aspectos, o PT justificou-se no poder. Distribuiu renda, tirou gente da miséria e diminuiu um pouco a desigualdade social – feito que, pelo menos pra mim, entra como crédito na contabilidade moral de qualquer governo. O argumento seria inútil porque são justamente essas conquistas que revoltam a conservadorismo raivoso, para o qual “justiça social” virou uma senha do inimigo.

Tudo isto é lamentável mas irrelevante, já que o próprio Lula parece ter desesperado do PT. Se é verdade que o PT morreu, uma tarefa para investigadores do futuro será descobrir se foi suicídio ou assassinato.

Ele se embrenhou nas suas próprias contradições e nunca mais foi visto ou pensou que poderia ser a primeira alternativa bem-sucedida ao domínio dos donos do poder e acordou um dia com um tiro na testa?


De qualquer maneira, será uma história triste.

quarta-feira, 24 de junho de 2015



24 de junho de 2015 | N° 18204 
MARTHA MEDEIROS

Um novo Brasil sobre os escombros

Ao dar um giro pelo planeta, descobre-se, por exemplo, que a maior atração turística de Mostar é uma ponte que foi reconstruída depois da guerra da Bósnia. Que Munique é deslumbrante mesmo tendo sido quase toda devastada por bombardeios durante a II Guerra Mundial. E que praticamente tudo o que o tsunami no norte do Japão arrasou, há apenas quatro anos, já está em pé de novo.

O ser humano é regenerador. Confiante nisso é que me sinto feliz com a situação atual do Brasil, este país sem terremotos, tsunamis, guerras ou desastres ambientais de grande magnitude, mas com uma canalhada de dar medo: se tudo se reconstrói e fica melhor, nós conseguiremos também.

Não temos templos com marcas de tiros de canhões nem ruínas de cidades dizimadas por antigas civilizações, mas aguardo um Museu da Corrupção em cada capital (o museu virtual existe, acesse muco.com.br), com fotos, documentos, gravações, tudo que comprove nossa devastação moral e que cumpra o dever de manter vivo o passado para que ele não seja repetido.

Foram muitos e muitos anos de um Brasil destruído pela ganância, muitos e muitos anos de um país que não se desenvolveu como deveria por causa dos ratos que corroeram as leis e impediram qualquer espécie de grandeza, muitos e muitos anos em que os traíras da nação foram mais danosos que os inimigos externos – aliás, nossos inimigos externos nunca foram páreo para os internos, os que aqui nasceram sem nenhum traço de honestidade. Nossa guerra foi dilacerante porque éramos nós contra nós mesmos.

E agora aí está. Empresários e políticos atrás das grades, a respeitabilidade reduzida a níveis subterrâneos e a consciência inquestionável de que este é um país que sempre foi surrupiado, lesado – quase nada poderia mesmo ter vingado diante de tanta falcatrua. Somos gatunos natos. Uns melhorzinhos que outros, mas os piorzinhos fazendo um estrago avassalador.

Rouba-se pouco e muito, rouba-se na esfera pública e privada, rouba-se do condomínio e da Receita Federal, rouba-se no troco e rouba-se no orçamento, rouba-se no leite, no queijo, na gasolina, no esporte, rouba-se de dia e de noite, com armas e com liminares, rouba-se com os pés descalços e de gravata, rouba-se de fiéis e de ateus, rouba-se por trás, de frente e de viés. Um dia isso iria eclodir. Quem precisa de Hiroshima, de bomba de napalm? Temos nosso próprio cogumelo de fumaça encobrindo a música, a natureza e a alegria que tão bem nos representavam até pouco tempo.

A boa notícia? Se tivermos sorte, essa devastação nos transformará finalmente em um país maduro, forte e ético. Basta que no futuro ninguém mais tolere que esta desgraça chamada corrupção volte a ser epidêmica.


24 de junho de 2015 | N° 18204
EDUCAÇÃO

Assembleia aprova plano estadual sob clima tenso

Com as galerias do plenário da Assembleia lotadas e sob um clima tenso, os deputados aprovaram ontem à noite o texto do Plano Estadual de Educação sem menções ao ensino sobre identidade de gênero. Embora a proposta estivesse no texto original até o início da tarde, emendas protocoladas pela base governista, e aprovadas, removeram o termo.

– Deputados da oposição querem algo que, no plano nacional, o governo foi contra. Estamos adequando o nosso plano ao federal – disse o líder do governo, Alexandre Postal (PMDB).

A discussão a respeito da inclusão ou não do tema nas metas da educação se estendeu até o início da noite e foi marcada por manifestações fortes tanto na tribuna quanto na plateia. Defensor da manutenção do texto original, Pedro Ruas (PSOL) explicou que o debate em sala de aula auxiliaria a reduzir o preconceito e a discriminação de gênero:

– Não abrimos mão dessa discussão. A identidade de gênero é uma expressão consagrada mundo afora e um direito reconhecido. Infelizmente, o governo não aceita.

Além da supressão da expressão, os deputados aprovaram as metas originais do texto, como universalização do acesso à educação, ampliação da alfabetização de crianças, jovens e adultos e melhoria das notas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

MUNICÍPIOS CORREM CONTRA O TEMPO


Centenas de municípios no país ainda precisam aprovar seus planos de educação, cujo prazo se encerra hoje. Embora o Rio Grande do Sul seja, em número, o Estado com mais planos sancionados, isso ocorreu em menos da metade das prefeituras (46%), conforme o relatório mais atualizado do Ministério da Educação, elaborado com base em dados fornecidos pelas administrações municipais. Porto Alegre, por exemplo, deixou para o último dia. A votação do plano da Capital está prevista para a ordem do dia de hoje. Pontos polêmicos como a meta 23, que trata das políticas curriculares para garantir o direito à diversidade e identidade de gênero, não devem passar batidos pela avaliação dos vereadores.


24 de junho de 2015 | N° 18204
PEDRO GONZAGA

GASOLINA

Em tempos ainda mais turbulentos, haverá um governante que, incapaz de resolver o que os especialistas em palavrório chamam “questões de mobilidade urbana” – e descrente também na utopia do mundo sem motor –, promulgará uma lei que isentará de impostos aqueles que trafegarem com um amigo no carro. Parlamentares farsescamente haverão de bradar ser impossível comprovar a amizade através de um para-brisa.

E o governante dirá um tão esperado “dane-se”. (Havia um cinema em Porto Alegre que cobrava meia-entrada dos casais. Logo havia dezenas de pares de fachada, ao que se instituiu ser preciso trocar um beijo na frente do bilheteiro para comprovar o laço. A exigência de nada adiantou. A moral da história é que mesmo um beijo falso é mais legítimo que boa parte de nossos gestos cotidianos.) Conversas verdadeiras podem acontecer mesmo entre amigos de ocasião.

Com mais pessoas no mesmo automóvel, podemos antecipar o que a alegarão as montadoras, as redes sociais aos tensos anunciantes com o minguar de acessos nos horários de pico, as indústrias farmacêuticas ao perder os negros ouros de seus antidepressivos. Mas a grita será engolida pelos ganhos prontamente visíveis. A começar pela melhora no humor da população.

Virá então um aditivo à lei: No transporte coletivo, amigos juntos pagarão um só bilhete. E depois nos aviões. E quanto aos familiares? Também valeriam como amigos? Às questões espinhosas, o futuro responderá.

Quando me vejo preso em um engarrafamento, quase sempre de carona – sou uma espécie de embaixador da vindoura lei –, lembro-me sempre, como muitos leitores de Cortázar, do conto Autoestrada ao Sul, no qual, sem nenhuma explicação e durante meses, o trânsito para, e as pessoas são obrigadas a voltar a se relacionar como seres humanos, ao tempo em que já são os nomes dos carros que ocupam. Penso muito nisso, durante a tranqueira do fim da tarde na Independência (chegará o dia em que o tráfego será um carro parado em frente a cada garagem).

Nesse momento, que possamos ter a parceria de um amigo ao volante, um Pimenta, um Mozart, um Fábio, aos quais dedico esta crônica a ser inteirada com aquele vintão para a gasolina.


24 de junho de 2015 | N° 18204
MOISÉS MENDES

Empreiteiros

Marcelo Odebrecht, o empreiteiro preso, é o líder da terceira geração da família no comando da corporação de 70 anos. Pelo tom de alguns comentários sobre sua prisão, a sensação é de que Marcelo desencaminhou os negócios dos Odebrecht, até então alinhados com o que há de mais ético na pirâmide do capitalismo brasileiro.

O avô e o pai prosperaram desde Getúlio. Faziam tudo certo. Mas aí Marcelo assumiu a chefia da empresa. Dizem que era visto com Lula. Viajavam juntos, mesmo depois de Lula ter deixado o governo. Marcelo também foi visto com Dilma. Em maio, participou de um jantar em homenagem a Fernando Henrique Cardoso. Sentou-se ao lado de FH.

Marcelo, dizem, era visto em festas com príncipes árabes, quando alguns esperavam, quem sabe, que tomasse chimarrão na Aberta dos Morros com seu Mércio. Foi dele a ideia de tocar a construção do Porto de Mariel, em Cuba, e aproximar-se de Fidel. Imagine como ficou a reputação do moço.

Era amigo dos tucanos, depois ficou amigo dos petistas e ultimamente prestava serviços ao comunismo. Tudo isso circula pela internet em notícias (ditas sérias), em e-mails nem tanto e em blogs, faces e twitters.

Descobrimos então que os Odebrecht vinham bem, até a segunda geração, mas aí Marcelo degradou o grupo. Coincidiu com o que aconteceu com todas as outras empreiteiras mancomunadas para dividir obras, superfaturar e assalariar os que geriam seus interesses nos governos.

Os empreiteiros se comportavam com integridade, desde a monarquia. Passaram por Juscelino, Jango, ditadura, Sarney, Collor, Itamar e FH, e nada ameaçava sua retidão, nem o Pedro Barusco.

Mas aí, dizem, o petismo estragou tudo. O que os petistas fizeram com a alma das empreiteiras? Que contágio se propagou? Como o petismo e o lulismo destruíram a moral até então irretocável dos homens da Odebrecht, da OAS, da Andrade Gutierrez, da Queiroz Galvão, da UTC e das suas irmãs?

Nunca antes o cinismo brasileiro fez tantas perguntas. Essas são algumas. Como o modelar capitalismo brasileiro das empreiteiras, de submissão à livre concorrência, à lisura e à ética, foi corrompido de forma tão devastadora?


Que praga bíblica provocou mudança tão profunda no comportamento dos nossos grandes empreiteiros? Perguntas, perguntas, perguntas. E quem precisa de respostas?


23 de junho de 2015 | N° 18203
CARPINEJAR

Batizado do tênis

Mantenho até hoje pânico de sair na rua com tênis novo.

As duas décadas de experiência desde a escola não aliviaram a ansiedade.

Minha vontade é comprar tênis usado, para não sofrer com o receio infantil que se esconde intacto nos meus olhos de meia-idade. Sofria com o batizado dos colegas. Bastava aparecer com um tênis branquinho que a turma fazia fila para batizar.

Nunca estudei em seminário, mas a turma virava um bando de padres sedentos para aspergir lama no recém-nascido. Havia um delator espertinho, que gritava ao tocar o sinal:

– Fabrício está de tênis novo! Eu procurava argumentar em vão: – Só lavei, só lavei.

Experimentava no recreio um corredor humano que não permitia fuga. Sem apelação, escapatória, adiamento, liminar. Fechavam a porta.

Em minutos, o tênis ficava barrento, sujo, com manchas pretas de piche. Mais humilhante do que um dia de chuva. Recebia o mapa de Porto Alegre nos cadarços – herança das longas caminhadas das crianças, que vinham de longe para a escola, atravessando vários bairros a pé.

Meus dedos terminavam esmagados e achatados. São absolutamente tortos devido a esse trauma silencioso.

O primeiro que se aproximava para inaugurar era gentil, já os demais compensavam o atraso com força e truculência. Aproveitavam o contexto para me chutar e descontar diferenças de brigas históricas do futebol. Os pisões se transmudavam em coices.

Adoecia de remorso ao voltar para casa. A mãe protestava injustamente, ralhava que joguei bola logo na estreia do presente, que não cuidava de minhas coisas e não compraria mais nada.

Tratava-se de uma ameaça séria numa época de recatado consumismo e de poucas opções (ou se adquiria Conga ou Kichute ou Rainha).

Eu não tinha outro tênis, era um só até arrebentar, até aparecerem as unhas, até a sola se esfacelar como pão molhado.

Pai e mãe analisavam o estado dos nossos calçados diante da reivindicação de que precisávamos de um segundo par. No jantar, enfrentávamos uma vistoria tensa, algo como reunião para melhoria de salários entre CUT e sindicato patronal.

Os pais conversavam, cochichavam e vinham com o terrível parecer: – Dá para usar mais uma semana. A semana durava um mês e meio.


Os tempos de quem sofre e de quem cuida são sempre diferentes.



23 de junho de 2015 | N° 18203
POLÍTICA O PT NO DIVÃ

LULA: A GENTE SÓ PENSA EM CARGO

O PT ESTÁ VELHO e precisa construir nova utopia, avalia ex-presidente ao defender a renovação em razão da crise vivida pelo partido

Menos de 10 dias depois de o PT realizar seu congresso nacional em que frustrou os que queriam mudanças radicais, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem duras críticas ao partido que ajudou a fundar há 35 anos e levou ao poder nacional. Lula disse que o PT está velho, viciado em poder, apegado a cargos, perdeu sua capacidade de gerar sonhos e utopias, não mobiliza mais as multidões, a não ser em troca de dinheiro, e se afastou perigosamente da juventude. Ele aventou a necessidade de uma “revolução” no partido.

– Não sei se o defeito é nosso, se é do governo. O PT perdeu um pouco a utopia. (...) Hoje, a gente só pensa em cargo, a gente só pensa em emprego, a gente só pensa em ser eleito.

E acrescentou que a crise vivida pela sigla coloca a legenda em uma encruzilhada:

– Temos de definir se queremos salvar nossa pele e nossos cargos ou se queremos salvar nosso projeto.

Na quinta-feira passada, Lula fez desabafo semelhante, mas direcionado a divergências com a presidente Dilma Rousseff. Em encontro com religiosos, o ex-presidente disse que a aprovação de Dilma e a dele está no “volume morto”, em referência à crise hídrica em São Paulo. A do PT, acrescentou, está abaixo desse nível. Para Lula, o momento é o mais dramático vivido pelo partido.

Durante o seminário Novos Desafios da Democracia, ontem, Lula repetiu que o partido precisa se reaproximar da juventude e não pode deixar que prospere o discurso que afasta as pessoas da política.

– Como a gente pode falar em renovação se não tem um jovem aqui? – questionou olhando para a plateia, selecionada pelo próprio Instituto Lula.

DIFICULDADE DE SER DEMOCRATA ENQUANTO SE ESTÁ NO GOVERNO

O ex-presidente lembrou que, no passado, a capacidade de mobilização do PT era muito maior. Ele comentou que a sigla “colocava duas, 3 mil pessoas na rua, cada uma vestindo a camiseta do partido, cada um carregando bandeira do partido”. Atualmente, ninguém vai se os candidatos não liberarem as pessoas de seus gabinetes, comparou.

A programação original não previa um discurso de Lula – o petista pediu a vez quando o tema foi imprensa. Ao ouvir o debate sobre Venezuela, Lula mandou um bilhete para a assessora Clara Ant, que presidia a mesa, avisando a intenção de falar.

– Nem tem muita oposição aqui (no Brasil). A oposição é pela imprensa – disse ele, defendendo a regulamentação da mídia e afirmando que “nove famílias controlam” o setor no país.

Entre as reclamações, Lula afirmou que é mais difícil manter a postura democrática depois que se chega ao governo. Mas disse que é importante aprender a se manter no poder, mantendo as regras democráticas:

– Enquanto você é oposição é muito fácil ser democrata, pode sonhar, pensar, acreditar. Mas, quando chega ao governo, precisa fazer, tomar posições.

No debate que recebeu o ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe González, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Lula afirmou que pretende chamar para palestras representantes dos partidos que estão surgindo na Europa, como o Podemos.

– O PT era, em 1980, o que é hoje o Podemos (partido espanhol). A gente nasceu de um sonho, de que a classe trabalhadora pudesse ter vez e ter voz, e construímos essa utopia. Há necessidade de repensarmos a esquerda, o socialismo e o que fazer quando chegamos ao governo – disse o ex-presidente, ao refletir sobre como recuperar essa ideologia.

Sem citar sua sucessora, Lula também exaltou iniciativas de sua administração.




23 de junho de 2015 | N° 18203
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

OS PEQUENOS DETALHES

É surpreendente como pequenas coisas podem mudar o mundo. Pequenos detalhes, pequenos gestos, pequenas coincidências que podem alterar a sequência que vinha sendo seguida e se impondo como modelo cultural, reproduzindo-se sem uma visão crítica de seu próprio tempo e espaço. Assim aconteceu com o teatro brasileiro da década de 1940 do século passado.

Em plena II Guerra Mundial, os jovens universitários da elite carioca que estudavam na Europa tiveram que retornar ao Brasil e morrer de tédio convivendo com uma cultura provinciana e fora de moda. Daí, em 1938, alguns deles criaram um grupo de teatro amador denominado Os Comediantes.

Quando em 1942 Louis Jouvet, também fugindo da guerra, veio com sua Companhia para o Brasil, esses jovens atores procuraram o grande diretor e o convidaram para dirigir um espetáculo do grupo, sugerindo textos da literatura francesa contemporânea. Jouvet não pôde aceitar o convite – afinal, a companhia estava na América do Sul com um repertório de quatro espetáculos e não havia condições para ele permanecer no Rio para dirigi-los. Porém, o sábio diretor acrescentou – mas, se eu fosse dirigi-los, seria com um texto de autor brasileiro.

Bom, no início os jovens não entenderam muito bem a razão dessa afirmativa, debateram, discutiram, polemizaram, mas aos poucos a ficha foi caindo. Aí, saíram em busca de alguém que escrevesse teatro local, o que praticamente não existia, salvo alguns poucos autores de melodramas. Foi quando o pequeno acidente aconteceu e mudou o mundo.

O jovem pianista, ator, tradutor e produtor de teatro Brutus Pedreira apresentou ao Grupo o também jovem e até então desconhecido jornalista Nelson Rodrigues. Eles leram uma peça e se encantaram. Então havia alguém que sabia escrever teatro, bom teatro, teatro moderno, atual, revolucionário. Convidaram o diretor polonês Ziembinski, também fugido da Guerra, para dirigi-los e, no dia 31 de dezembro de 1943, estreava no Teatro Municipal a peça Vestido de Noiva, marco do moderno teatro brasileiro. Coisas que acontecem...


23 de junho de 2015 | N° 18203
DAVID COIMBRA

Os vampiros

Todo mundo quer ajudar os pobres do Brasil. É comovente. O ex-presidente Lula, que secundou o ditador Getúlio Vargas no coruscante posto de “Pai dos Pobres”, foi tão convincente em sua pregação social, que duas das maiores empreiteiras do país, a Odebrecht e a Camargo Corrêa, aceitaram doar R$ 7,5 milhões para que ele fizesse palestras a fim de ensinar o planeta a combater a fome. Quanto desprendimento desses grandes homens! Lula, Odebrecht e Camargo Corrêa unidos contra as elites brancas e a favor dos descamisados. Quem poderá vencê-los?

Outro paladino dos pobres é o pastor Malafaia, que anda às turras com o jornalista Boechat. Vi um vídeo em que ele (o pastor, não o jornalista) explica aos pobres como realizar o sonho mais sonhado dos brasileiros: o tal da casa própria. É assim: se você paga aluguel, tem de dar o valor de um mês para o Malafaia; se você fez financiamento, tem de dar uma prestação; se você mora de favor num quarto do apartamento de um amigo, tem de dar 30% do seu salário; se você está desempregado, nem salário recebe, tem de dar 30% do que ganha para sobreviver, como, sei lá, a féria da esmola.

Se você fizer isso, Malafaia garante que o próprio Deus lhe conseguirá uma casa quitada.

Lula, Odebrecht, Camargo Corrêa e Malafaia. O interesse deles pela pobreza mostra que, por menos coisas que você tiver, sempre haverá alguém disposto a deixá-lo sem coisa alguma.

Não é por outro motivo que as histórias de Drácula fazem tanto sucesso. Estava lendo sobre a possível descoberta do túmulo de Vlad, o Empalador, em Nápoles. Vlad, como se sabe, é o personagem da vida real que inspirou Bram Stocker a criar o vampiro da ficção. O mundo se excita com tudo que cerca o homem e a lenda. É lógico: as pessoas reconhecem a história da civilização na história do velho conde. Ele é um vampiro, e vampiros sugam o sangue dos vivos para sobreviver. Eles extraem das pessoas tudo o que elas têm, até deixá-las secas.

Quando as nações foram constituídas, 10 mil anos atrás, do que elas se alimentaram para crescer? Da escravidão e da pilhagem das guerras, como vampiros dos derrotados. Esse sistema funcionou de forma mais ou menos amadora, até o surgimento da mais extraordinária e funcional máquina militar e administrativa da História, o Império Romano, formador do Ocidente. Os romanos sofisticaram a instituição da escravidão, a ponto de um nobre contar, às vezes, com 3 mil cativos. Três mil pescoços para um único par de presas.

Com a vitória do cristianismo, porém, a escravidão perdeu sua base filosófica. Como um povo cristão aceitaria escravizar outros povos, se todos os homens são irmãos, filhos do mesmo Pai? Foi então que os vampiros descobriram um homem que, para eles, era menos humano: o negro. E o sumo da vida do negro foi extraído até a última gota, sobretudo pelos dois grandes países da América, Brasil e Estados Unidos, igualados em sua sede de sangue africano.

E hoje, quem são as vítimas dos vampiros?

Os substitutos dos escravos da Antiguidade, dos servos da Idade Média e dos negros da era mercantilista, no século 21, são os chineses que trabalham quase de graça sob o tacão do Partido Comunista, para gáudio das empresas de todo o Globo. Além dos miseráveis de vastos nacos do mundo, que acreditam que serão salvos por Pais dos Pobres ou por pastores que falam em nome de Deus.


Se você está em busca de ajuda, preste atenção: quando um partido, um líder ou um sacerdote se apresentar como Salvador, fuja correndo: ele é um vampiro.

segunda-feira, 22 de junho de 2015



22 de junho de 2015 | N° 18202
ARTIGO - *CLÁUDIO BRITO

ERRO FATAL

Nossos congressistas erraram na Comissão Especial que examina a proposta de redução da maioridade penal. Espera-se que não se mantenham em erro e, no plenário, a Câmara encaminhe o acolhimento à ideia de alteração do Estatuto da Criança e do Adolescente e não se mexa na Constituição. Seja pela menor complexidade do processo legislativo, seja mesmo pelo conteúdo.

Não será reduzindo de 18 para 16 anos a idade exigida para imputar-se um crime a alguém que iremos resolver o drama da criminalidade. Nem mesmo sob a forma aprovada até aqui, que se define a partir da natureza do crime praticado. Mais graves os delitos cometidos, torna-se adulto o adolescente.

E, mesmo para hipótese tão esdrúxula, é necessário seguir o roteiro das emendas constitucionais, com votação em dois turnos em cada casa parlamentar e ainda contando com quórum qualificado. Para mexer no Estatuto da Criança e do Adolescente, muito melhor, pois caem aquelas exigências e tudo se resolve com mais agilidade. E a ideia seria a de se ampliar o tempo das internações dos adolescentes infratores que cometerem delitos mais graves, tudo ainda sob a incidência do ECA e suas medidas.

Agora, que se amplie a mobilização de quem pensa adequadamente sobre o tema. Não podemos dar guarida ao erro cometido. É preciso derrotar o absurdo. No plenário da Câmara, nem avançando até o Senado. E que o mundo acadêmico, os operadores do Direito, as entidades representativas da sociedade e as instituições ligadas ao tema se organizem, para que a aberração não se confirme.

Não há que se permitir engano tão grande. Seria irrecuperável para a sociedade. E ainda anunciam uma impossibilidade processual. Se o autor de um crime hediondo aos 16 anos estaria enquadrado como imputável, em que momento haveria a definição? Na denúncia do promotor ou na sentença do juiz? Imagine o Ministério Público denunciar o adolescente, atribuindo-lhe o crime bárbaro e, depois, entendendo o julgador que outra seria a classificação da infração cometida, tudo voltasse ao começo.

O erro fatal precisa de correção imediata, ou de nada servirá qualquer arrependimento depois. Vamos alterar o ECA, não a Constituição.


*Jornalista claudio.brito@rdgaucha.com.br