sábado, 27 de dezembro de 2008



27 de dezembro de 2008
N° 15831 - CLÁUDIA LAITANO


Próximos capítulos

Leitores de literatura brasileira contemporânea de ficção não enchem um Beira-Rio. Em um país em que se lê pouco, lêem-se menos ainda os autores “que não caem no vestibular”. O escritor não consagrado deve dar-se por muito satisfeito se encontrar uma editora disposta a imprimir um lote de mil livros sem que o autor tenha que bancar o sonho da publicação do próprio bolso. Leitor é um luxo.

Desafiando as evidências, o bom senso e a óbvia míngua de leitores, novos autores continuam chegando todos os dias às estantes das livrarias. Disputam atenção com best-sellers, autores famosos, livros de auto-ajuda, esotéricos e com a não-leitura em estado sólido e compacto – aquela situação em que o sujeito não entra na livraria nem para tomar cafezinho. Vencer a indiferença é outro desafio.

Com sorte, o autor de ficção pouco conhecido ganha uma matéria no jornal, um comentário aqui, outro ali, se for muito bom. Com mais sorte ainda, midiaticamente falando, o escritor destaca-se porque conta detalhes escabrosos da sua vida ou porque tem tatuagens no branco do olho – tornando-se ele próprio uma espécie de personagem, chamando atenção mais para si do que para seus livros.

Pois nesse circuito em geral discreto, quase invisível, um nome sobressaiu em 2008 unicamente por seus méritos literários: o do catarinense radicado em Curitiba Cristóvão Tezza. Pelo romance-memória O Filho Eterno, Tezza recebeu os principais prêmios do país, estabelecendo um consenso pouco comum em um campo tão heterogêneo quanto o da ficção contemporânea.

O romance de Tezza conta a história de um aspirante a escritor que, aos 28 anos, torna-se pai de uma criança com síndrome de Down. O impacto do livro deve-se, em boa parte, à crueza com que o autor exibe seu drama pessoal sem esconder sentimentos como egoísmo, raiva e vergonha (“a vergonha é uma das mais poderosas máquinas de enquadramento social que existem”).

Não há final feliz ou edificante, nenhuma lição de moral que ajude o leitor a enfrentar tropeços do destino como a doença de um filho. Mas não deixa de ser interessante imaginar que o sucesso inesperado do livro pode ser lido como uma espécie de posfácio da história: o narrador, que passa boa parte do tempo lamentando seu destino infeliz, além da falta de leitores, acaba sendo reconhecido exatamente quando conta a história do filho que ele inicialmente rejeitou, imaginando, entre outras coisas, que ele atrapalharia sua carreira literária.

Moral da história? A que o leitor quiser, evidentemente. Eu aqui gosto de imaginar que todas as histórias – dramas, tragédias, romances... – sempre podem ganhar um novo capítulo que muda o rumo dos acontecimentos ou faz com que tudo que ocorreu antes seja entendido de uma forma diferente.

Se os últimos episódios do seu livro não andam lá uma obra-prima, vire a página – e lembre que os próximos capítulos ainda estão para ser escritos.

Feliz 2009.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008



26 de dezembro de 2008 | N° 15830
PAULO SANT’ANA


Dirigir é uma solenidade

A causa principal dos acidentes de trânsito é a irresponsabilidade.

Morrem por ano em acidentes de trânsito 50 mil pessoas no Brasil.

São 35 mil mortes na hora em que se verificam os acidentes, no mínimo morrem mais 15 mil pessoas entre os 400 mil feridos em acidentes de trânsito, que perecem nos hospitais.

Quatrocentos mil feridos em acidentes de trânsito no Brasil em apenas um ano! Quanta dor, quanta mutilação, quanta inutilização perpétua de pessoas!

Quanta despesa!

Estes números são anormais, excessivos, pertencem a uma sociedade visivelmente doente.

Agora mesmo, a semana das Festas se iniciou com pelo menos 10 mortes no trânsito em apenas dois dias e meio, o que quer dizer que se somarão dezenas de mortes até a passagem do ano.

Esse morticínio que se caracteriza por cerca de 130 mortes por dia no trânsito brasileiro se deve a muitas causas.

Essas causas podem ser resumidas em apenas duas: a pressa e a alienação.

A pressa, muitas vezes injustificada, é uma compulsão por chegar à frente dos outros, uma arrogância, uma mania de superar os semelhantes nas ruas e nas estradas, os indivíduos se investem de um espírito de competição e se satisfazem doentiamente a cada ultrapassagem, querendo demonstrar para si próprios que são capazes e invencíveis.

Já a alienação consiste em que os motoristas não possuem a mínima consciência de que estão manejando uma mortífera arma, que a qualquer momento pode se desatar no trânsito uma tragédia, provocada pelo mínimo descuido ou inabilidade.

As pessoas dirigem com a naturalidade de quem está passeando num shopping, caminhando numa calçada, regando o jardim.

Quando, na verdade, dirigir é uma solenidade, é uma atividade que foge inteiramente à rotina, justamente pelo risco que encerra.

Uma carteira de habilitação não é uma licença para matar. Pelo contrário, é uma proibição para matar.

Há um derivativo nessas ações do trânsito que contribui para o número colossal de acidentes no Brasil: há pessoas que assumem o volante em busca de emoções, saem para as ruas como se estivessem participando de um videogame, satisfazendo-se intimamente com as façanhas cometidas nos percursos, deliciando-se ainda mais quanto mais forem arriscadas as manobras que intentam.

Quem dirige não tem consciência de que está trabalhando. Acha, ou que está se divertindo, ou cumprindo uma rotina que não é a principal da sua vida, daí que chama para si a distração e a alienação do ato que está praticando.

Tanto quem dirige está trabalhando, que os motoristas profissionais gastam horas, meses e anos de sua vida dirigindo.

Ou seja, é preciso fixar permanentemente a atenção no volante. Ter bem precisa a noção de que a direção é um meio precioso para atingir-se o fim, a chegada.

É um holocausto o que se verifica atualmente no trânsito brasileiro.

Isso vai ter de parar, os acidentes vão ter de ser somente os inevitáveis.

Repito: dirigir tem de ser uma solenidade. Algo importante, vital, especial, algo que vai decidir nossa vida. E dirigindo bem e com atenção vai decidir bem a nossa vida.

E não sair dirigindo por aí como quem vai para as pitangas, sem saber que em todos os dias, em todas as horas, a nossa vida está em jogo no trânsito.

Solenidade!

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Mamãe Noel Peladona!

E esse maldito peru que não acaba! Cada pedaço que você corta, parece que o peru aumenta

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Essa é pra fechar o ano: "Atleta alemã de salto com vara muda de sexo". Já sei, em vez de PULAR com uma, resolveu TER uma! Pra desempenhar melhor a modalidade. Ela já vem com a vara.

Yvonne Bushcbaum passa a se chamar Balian e comemora sua liberdade! Moral de tudo: trocou o salto pela vara. Atleta de salto com vara troca o salto pela vara. Rarará!

Outra piada pronta: foi divulgada a lista dos parlamentares mais faltosos de 2008! E sabe qual foi um dos mais faltosos? Dr PINOTTI. Esse deu um pinote legal! Rarará!
Um amigo passou o Natal com a sogra e disse que ela é a própria "Favorita": mistura de Flora com Dodi!

E o rescaldo da ceia: e esse MALDITO PERU que não acaba! Cada pedaço que você corta, parece que aumenta. Peru até no café da manhã!
Pior é aquele tupperware lotado de rabanada que ainda tá na geladeira.

Tô com a mesma azia do ano passado! Vou me internar até o Réveillon pra recuperação do fígado. Eu quero um fígado autolimpante. Você vai comendo e ele vai se autolimpando!

E diz que nesse verão vai chover tanto que o Kaxab vai lançar novo bilhete único: o BILHETE ÚMIDO!

E a declaração do Lula: quero agradecer a dois brasileiros que passaram o ano todo ao meu lado: a aeromoça e o piloto. E a dona Marisa? A dona Marisa parece boneco de Olinda. Vai em todo evento, fica só balançando a cabeça e não fala nada!

E mais uma pra seção O Brasil Não Está Em Crise. Anúncio em site de produtos eróticos: "Tenha um Natal erótico com essa sensual fantasia de Mamãe Noel Sapeca: tanguinha de amarrar, top regulável e a tradicional touca. Em tule vermelho de lycra com aplicações em marabu". PRODUTO ESGOTADO!

É mole? É mole, mas sobe! OU como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Nova York, no sul do Maranhão, tem uma lanchonete bem nova-iorquina chamada MACaxeira! Mais direto impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Santificada": companheira que transa todo santo dia. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno E vai indo que eu não vou!
simao@uol.com.br


26 de dezembro de 2008
N° 15830 - DAVID COIMBRA


Manual do Escoteiro

Tinha sete anos de idade quando comprei meu primeiro livro, com meu próprio dinheiro. Não foi fruto de mesada ou doação familiar. Foi produto de trabalho duro – confeccionei e comercializei picolés de K-Suco, catei jornais antigos e garrafas na vizinhança e os vendi para o ferro-velho.

Fiz isso tudo com um objetivo definido, não pelo dinheiro em si. É que queria, precisava comprar o Manual do Escoteiro-Mirim, da Abril Cultural. Quem já leu um gibi da Disney sabe do que se trata: o manual que Huguinho, Zezinho e Luizinho, os sobrinhos do Pato Donald, consultam sempre que enfrentam uma contingência.

Qualquer contingência, desde como encontrar o antídoto para os cogumelos venenosos da Austrália até a melhor forma de evitar a picada da terrível tse-tsé, a mosca do sono. Pois comprei o manual e o li e o reli inteiro, várias vezes.

Nos meses seguintes, a editora lançou outros manuais baseados nos personagens da Disney. Do Mickey, sobre mistérios e detetives; da Maga Patalógica e da Madame Min, sobre mágicas; do Zé Carioca, sobre futebol. Dez ao todo, num intervalo de mais ou menos três anos. Comprei-os, era uma necessidade comprá-los e lê-los e tê-los comigo. Minha estratégia não mudou: picolés de K-Suco, garrafas e jornais.

Sentia o maior orgulho da minha coleção. Minha mãe permitia que ocupasse lugar de honra na sala do pequeno apartamento em que morávamos, na Assis Brasil.

Bem.

Um dia aconteceu o seguinte: entramos no apartamento, eu, minha mãe e meus irmãos, e os meus livros... não estavam lá! Haviam sumido! Alguém os roubara. Desatei no choro mais desesperado que um menino de 10 anos pode chorar.

Minha mãe, no entanto, logo desvendou o crime: alguém invadira o apartamento pela janela da sala, que dava para uma pequena área, que dava para outra área, de outro apartamento. Sem um minuto de hesitação, ela saiu de casa, marchou pelo corredor do edifício e bateu na porta do vizinho, que tinha um casal de filhos. A mãe dos garotos atendeu. Minha mãe:

– Um dos teus filhos entrou na minha casa e roubou os livros do meu filho.

Dez minutos depois, a coleção de manuais estava comigo de novo e comigo ainda está, na pequena biblioteca que montei em casa. Com uma exceção: meu primeiro livro, o Manual do Escoteiro-Mirim, eu o perdi nestes anos todos. Como sumiu, não sei. Sumiu, Só. E é uma dor.

Mas, naquele dia, minha mãe recuperou a coleção completa. Durante algum tempo senti raiva dos ladrões-mirins. Considerava-os uns malditos ambiciosos e desonestos. Depois, quando nos mudamos, pensava neles até com alguma admiração: eram ladrões de livros, afinal.

Não se pode dizer que não fosse um delito nobre. Hoje sei que não foi nem uma coisa nem outra. Os amiguinhos do alheio que me tomaram a coleção não fizeram isso porque amassem os livros: era porque eu, e não eles, os valorizava. Um sentimento de viés que faz alguém desejar algo não porque realmente deseja, mas porque o outro deseja.

O prazer de ter nas mãos algo que as outras pessoas querem. Prazer que, às vezes, se transforma na ânsia de sabotagem. Alguém quer muito fazer algo e a outra pessoa vai lá e impede. Por que ela faz isso? Para sentir que tem o poder de roubar do outro a realização.

Não é esse o sentimento que motiva tanta gente neste nosso Rio Grande amado a fazer oposição sistemática a qualquer projeto, a qualquer governo, a qualquer empreendimento? Dificilmente se vê gente tentando ajudar.

O que se vê é gente tentando solapar. Nestes finais de ano fala-se tanto em boa vontade. Eis um desejo útil para a Humanidade e, em especial, para esse naco meridional do Brasil: boa vontade. Um pouco de boa vontade já basta para 2009 ser, pelo menos, um ano razoável”.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Engoliu o peru e soltou a franga!

Natal é a data mais incoerente que existe: matam o peru e fazem missa pro galo!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País do Peru Pronto!

Sobreviventes do peru! E aí? Botaram o peru pra dentro? Uma amiga minha fez um Natal diferente: em vez de comer o peru, foi comida pelo peru! Isso que é Noite Feliz!

E um amigo meu resolveu assumir, resolveu sair do armário na véspera de Natal, ontem. Comeu o peru e soltou a franga! Duas grandes manchetes de Natal: "Foi Comida Pelo Peru" e "Engoliu o Peru e Soltou a Franga".

E Natal é uma promiscuidade: o peru da sogra, a maionese da tia, o tender da cunhada, o primo alcoólatra, o choro das crianças e o cunhado contando aquelas piadas do Lula que a gente ouviu o ano inteiro.

Quero passar um ano sem ver peru. Inclusive o meu! Por isso que um amigo meu fez um Natal rebelde: vomitou no tapete da sogra e mijou no elevador do prédio! Rarará!

E um outro amigo meu disse que o peru da sogra dele deve ter tomado viagra: nunca viu nada tão duro! É uma fatia de peru e um uiscão por cima pra descer! E um amigo, em vez de peru, optou por uma perua: comeu a mulher e foi dormir!

E aquela passeata de Tupperware: Tupperware de rabanada, Tupperware de peru, Tupperware de maionese. E Natal é a data mais incoerente que existe: matam o peru e fazem missa pro galo!

E, como todo ano, vou dar a definição natalina de encalhada: muitos natais e nenhuma noite feliz! E um leitor que me disse que a mulher dele é tão feia, mas tão feia, que, quando ela descasca cebola, quem chora é a cebola! Rarará!

E todo ano eu provo que o Papai Noel é gay: vive rodeado de viadinhos, usa a botinha da Carla Perez, dá presente pros meninos e, nos Estados Unidos, é chamado de SANTA!

E umas sapatas fizeram um almoço de Natal e botaram a placa: Peru não entra. Foi o "Natal do Peru Não Entra"! Rarará! É mole?

É mole, mas sobe! OU como diz aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece. NADA! Rarará! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

Em São Bernardo, Goiás, tem um inferninho chamado Recreio do Galo! Mais direto impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Cabuloso": companheiro que nasceu em Cabul! O lulês é mais fácil que o ingreis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E, quem não tiver colírio, pode pingar água com gás pra ver se faz bolinha!

simao@uol.com.br

FREI BETTO

Feliz Natal

Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história

FELIZ NATAL aos infelizes cativos do desapreço ao próximo, da irremediável preguiça de amar, do zelo excessivo ao próprio ego. E aos semeadores de alvíssaras, aos glutões de premissas estéticas, aos fervorosos discípulos da ética.

Feliz Natal ao Brasil dos deserdados, às mulheres naufragadas em lágrimas, aos escravos do infortúnio condenados à morte precoce. E aos premiados pela loteria biológica, aos desmaquiadores de ilusões, aos inconsoláveis peregrinos da vicissitude.

Feliz Natal aos órfãos do mercado financeiro, pilotos de vôos sem asas e sem chão, fiéis devotos da onipotência do mercado, agora encerrados no impiedoso desabrigo de suas fortunas arruinadas. E também aos lavradores da insensatez espelhada na linguagem transmutada em arte.

Feliz Natal às lagartas temerosas de abandonar casulos, ao desborboletear de insignificâncias cultivadoras de ódios, aos exilados na irracionalidade do despautério consensual. E aos dessedentados na saciedade do infinito, no silêncio inefável, nas paixões condensadas em prestativa amorosidade.

Feliz Natal a quem escapa dos indomáveis pressupostos da lógica consumista, dessufoca-se em celebrações imantadas de deidade, livre do desconforto da troca compulsória de presentes prenhes de ausências. E aos hospedeiros de prenúncios do leque infinito de possibilidades da vida.

Feliz Natal a quem não planta corvos nas janelas da alma, nem embebe o coração de cicuta, e coleciona no espírito aquarelas do arco-íris. E a quem trafega pelas vias interiores e não teme as curvas abissais da oração.

Feliz Natal aos devotos do silêncio recostados em leitos de hortênsias a bordar, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura. E a quem arranca das cordas da dor melódicas esperanças.

Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de relâmpagos, aspiram o perfume da rosa-dos-ventos e carregam no peito a saudade do futuro. Também a quem mergulha todas as manhãs nas fontes da verdade e, no labirinto da vida, identifica a porta que os sentidos não vêem e a razão não alcança.

Feliz Natal aos dançarinos embalados pelos próprios sonhos, ourives sapienciais das artimanhas do desejo. E a quem ignora o alfabeto da vingança e não pisa na armadilha do desamor.

Feliz Natal a quem acorda todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas a quebrar convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que, no calor da dúvida, dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas para atirá-los no lixo do olvido e se guarda no recanto da sobriedade. E a quem se resguarda em câmaras secretas para reaprender a gostar de si e, diante do espelho, descobre-se belo na face do próximo.

Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história. E aos que suprimem a letra erre do verbo armar.
Feliz Natal aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores, aos escritores sem palavras. E a quem jamais encontrou a pessoa a quem declarar todo o amor que o fecunda em gravidez inefável.

Feliz Natal a quem, no leito de núpcias, promove despudorada liturgia eucarística, transubstancia o corpo em copo, inunda-se do vinho embriagador da perda de si no outro. E a quem corrige o equívoco do poeta e sabe que o amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão, bordam toalhas de cumplicidades, secam lágrimas no consolo da fé, criam hipocampos em aquários de mistério.

Feliz Natal a quem se embebeda de chocolate na esbórnia pascal da lucidez crítica e não receia se pronunciar onde a mentira costura bocas e enjaula consciências. E a quem voa inebriado pelo eco de profundas nostalgias e decifra enigmas sem revelar inconfidências; nu, abraça epifanias sob cachoeiras de magnólias.

Feliz Natal a todos que dão ouvidos à sinfonia cósmica e, nos salões da Via Láctea, bailam com os astros ao ritmo de siderais incertezas. Queira Deus que renasçam com o menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios.

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 64, frade dominicano e escritor, é autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

VALDO CRUZ

Sonhos natalinos

NATAL COMO ESSE, infelizmente, só no próximo governo. A despeito da crise aguda na economia mundial, teremos ainda um bom final de ano. Os seguintes, contudo, serão difíceis.

E taxa de crescimento acima de 5% será missão para o sucessor do presidente Lula. Por sinal, consolidado o cenário político atual, pouco importa quem ganhará: a receita será a mesma para que o país tente voltar a crescer forte.

Dentro do Ministério da Fazenda, por exemplo, é comum ouvir de assessores de Guido Mantega que, mantida a tendência de Dilma Rousseff e José Serra monopolizarem a eleição de 2010, não há com o que se preocupar. Um deles chega a dizer que dá até para tirar férias durante o período eleitoral.

Tal tranqüilidade, com certeza, não se repete no Banco Central, alguns quilômetros distante do gabinete de Mantega. Na equipe de Henrique Meirelles, o comentário deve ser exatamente o oposto: Dilma e Serra vão exercer uma pressão e influência sobre os rumos da política monetária bem superior à do presidente Lula, e há risco de turbulências na campanha.

O fato é que a petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra praticamente rezam pela mesma cartilha. São adeptos de uma forte presença do Estado na economia e críticos contundentes da política monetária conservadora do BC. Dependesse apenas dos dois, o ex-tucano já não estaria mais na direção do Banco Central.

Claro que, uma vez na cadeira de presidente, a visão de Dilma e Serra pode sofrer mutações. Tal como aconteceu com Lula, que se revelou um conservador em termos econômicos, eles podem se aproximar do estilo atual do petista.

Lula também não gosta nem um pouco da receita de Meirelles. O presidente, contudo, assimilou como poucos no mundo petista a importância de uma das regras basilares da economia capitalista: a força das expectativas e da confiança sobre o ritmo de crescimento do país.

Não por outro motivo o petista tem insistido nos últimos discursos na necessidade de consumidores e empresários manterem a confiança no país. Pela mesma razão, Lula sabe que, mesmo desejando, não pode trocar o comando do BC em meio a uma crise. Seria o mesmo que jogar gasolina na fogueira.

O presidente perdeu a oportunidade de fazer a mudança na virada do primeiro para o segundo mandato. Agora terá de aguardar o tempo certo. Que, tudo indica, está próximo.

Quando os juros caírem, no início de 2009, e a política monetária começar a ser suavizada, Meirelles deve deixar o BC para retomar seus projetos políticos. Essa é, pelo menos, a aposta de quem o conhece de perto. Que diz inclusive que ele tem sonhos presidenciais.

Tudo bem, estamos numa época em que sonhar é liberado.

VALDO CRUZ, repórter especial da Folha, escreve hoje excepcionalmente neste espaço.

CARLOS HEITOR CONY

Lições do Natal

RIO DE JANEIRO - A iconografia cristã tem dois momentos fundamentais: a criança recém-nascida na estalagem de Belém, tendo a aquecê-la o hálito de um burro e de uma vaca; e o corpo nu e maltratado de um homem coberto de chagas e opróbrio.

Entre as duas imagens, a história que mudaria a história para a grande parcela da humanidade concentrada no Ocidente.

Giovanni Papini inicia famoso livro sobre a vida de Cristo narrando o seu nascimento: "O presépio não é o pórtico airoso com que os pintores da Renascença, envergonhados com a pobreza de seu Deus, criaram para o consumo dos crentes".

Bem verdade que, antes mesmo da Renascença, a tradição apoiada nos evangelhos coloca fatos maravilhosos em torno da gruta de Belém: os pastores avisados pela milícia celeste, cantando a glória de Deus nas alturas e a paz aos homens de boa vontade.

Houve também a estrela que guiaria os Reis Magos para a oferta do ouro, do incenso e da mirra: "Vimos sua estrela no Oriente e viemos com presentes adorá-lo". Os exegetas deste versículo bíblico tiram duas lições desta simples frase: a ida e os presentes. Não adianta ver um sinal, é preciso ir em busca dele, tentar conhecê-lo e interpretá-lo.

Tampouco esta ida, este movimento de um ponto a outro não deve ser feita de mãos vazias, apenas para receber sem nada dar em troca. Os Magos foram "cum muneribus", com presentes, na velha tradição oriental.

Esquecendo o episódio cristão em si, tudo na humanidade implica uma viagem em busca de um sinal, não exatamente a viagem da alucinação química (drogas) ou da religiosa (preces), mas na capacidade de caminhar na direção da esperança.

Ainda que não se encontre a salvação, o simples fato de "ir" justifica grande parte da miséria humana.

CLÓVIS ROSSI

O muro vai cair. Vai?

SÃO PAULO - Andrea Matarazzo, secretário municipal das subprefeituras, escreve a propósito do texto de ontem que reforçava cobrança do arquiteto Jorge Ricca Jr., mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, a favor da derrubada do muro que separa o campus da Universidade de São Paulo das pistas da marginal do rio Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo.

Matarazzo concorda com Ricca e comigo: "A retirada dos cartazes fez com que se perceba o horrendo e desnecessário muro que nos encaixota na marginal". Dá uma boa notícia: "Vamos lutar para abri-lo".

Só não entendi bem porque ele acrescenta que aquela região tem "prefeitura própria", o que significa que nem sendo o chefe de todas as subprefeituras ele teria poder para mandar derrubar o muro.

Eis aí um bom motivo para cobranças dos interessados em que a cidade seja não apenas mais limpa, mas também menos feia. Matarazzo estimula a cobrança: "O paulistano tem que brigar, reclamar e pressionar. É a única forma de as coisas acontecerem".

O secretário lista uma série de melhorias que não cabem aqui. Melhorar as coisas é obrigação, e o mero cumprimento da obrigação não entra na minha agenda, como já expliquei mais de uma vez.

O que vale registrar, sim, é a concordância de Matarazzo quanto ao muito que resta a fazer. Diz ele: "Tirando o muro, certamente aparecerão mais coisas a serem melhoradas. Tem muito o que fazer ainda em todos os sentidos e por todos os lados para os quais se olhar".

Sugiro que olhe, por exemplo, para o seguinte comentário do leitor Wilson Ramos: "Na periferia, as placas [de publicidade] escondiam muito bem a falta de acabamento da maior parte dos imóveis. Ninguém tem grana para gastar em arquitetura sem função. Agora, sem as placas, quem financia o embelezamento das fachadas?"

crossi@uol.com.br

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008



Ueba! Dia de Encarar o Peru da Sogra!

O Lula vai comprar um submarino do Sarkozy. Se o Brasil afundar, já temos submarino

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Sabe por que choveu tanto nos shows da Madonna?

Porque São Pedro ficou bravo que ela andou pegando o menino Jesus. Só a Madonna pra ficar com um modelo chamado Jesus.

E é Jesus de filme americano: magro e de olho verde. E a situação se inverteu: em vez de Jesus estar no colo da Madonna, ela é que sentou no colo dele!

E essa: "Vôos da Gol continuam com atrasos em todo o país". Por isso que a Gol se chama Gol. Porque, quando você consegue embarcar, você grita: GOOOL! Embarquei! Rarará!

É hoje! Dia Nacional de Encarar o Peru da Sogra! Natal é uma festa em família. Só que a família é sempre a família da sua mulher!

É a mãe da sua mulher, a irmã da sua mulher, o cunhado bêbado que fica contando piada do Lula e a tia da sua mulher que há anos faz a mesma maionese.

E nunca acertou o ponto. Um amigo vai passar a ceia com a sogra dele até meia-noite. Depois da meia-noite, vai pra casa da sogra do irmão.

Muita sogra pra pouco peru! E o Lula vai comprar um submarino do Sarkozy. Perfeito! Se o Brasil afundar, já temos submarino. Prevenção contra a crise! Rarará!

E o Kassab, o Kaxágua, diz que está preparado para as enchentes! Claro, ele fica lá no Terraço Itália. O prédio é alto e a comida é boa. E eu vou pedir rodízio de alagamentos! E os impostos mudam por causa das enchentes. O Kassab vai lançar um novo imposto: IPB, Imposto Para Bote.

E IPVA quer dizer Imposto Para Vias Alagadas. E IPTU quer dizer Imposto Para Tetos Úmidos! E sabe o que o Kassab vai fazer para evitar as enchentes? NADA!

Em São Paulo não tem mais pista, tem raia! Pega a raia da direita e depois entra na raia da esquerda! E eu adoro ver enchente com o Datena. Ele é o Galvão Bueno das enchentes!

É mole? É mole, mas sobe! OU como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. Em Rancharia (SP), tem um baile de terceira idade chamado UTI! Última Tentativa do Idoso! Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Dar com os burros n'água": Companheira transando com um companheiro na enchente. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! NO PERU!

simao@uol.com.br


O muro do conformismo

SÃO PAULO - Permito-me voltar ao artigo do arquiteto Jorge Ricca Jr., mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, que, na quinta-feira, defendeu a derrubada do muro que separa o campus da Universidade de São Paulo das pistas da marginal do rio Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo.

Ricca tem toda a razão ao qualificar de "espanto" o tal muro, mas o meu ponto é outro. Esse "espanto" é o motivo pelo qual sou o único paulistano que conheço que não tem orgasmos com a tal lei da cidade limpa, tida como um dos fatores que ajudaram a reeleger o prefeito Gilberto Kassab.

Não é que a cidade não tenha ficado mais limpa. Claro que ficou. Mas não ficou mais bonita, o que seria muitíssimo mais importante.

E o muro contra o qual se levanta Ricca é a melhor prova: a retirada de cartazes não embelezou a área. Ao contrário, expôs o "espanto". Saíram os cartazes e entrou uma área verde, um edifício histórico, uma praça bacana?

Não. Só concreto, 2,3 km de comprimento por 3 metros de altura, nas contas de Ricca, que esqueceu de mencionar os ferros pontiagudos em cima, como se atrás houvesse um campo de concentração e não um campus universitário.

Os profetas do conformismo, maioria absoluta no Brasil, dirão que o objetivo da lei não é o de embelezar São Paulo, uma cidade "carente de espaços públicos dignos, embora rica de espaços privados exclusivos", como diz Ricca.

Nem sei se ainda é possível embelezar São Paulo. Mas, se além de aplaudir a cidade limpa, o paulistano brigasse por mais beleza, as coisas talvez começassem a andar. O que não dá é aceitar que a cada chuva mais forte, haja inundações, como se fossem tão inevitáveis como o carnaval ou a Semana Santa.

De todo modo, feliz Natal aos que se conformam e mais feliz ainda aos que querem sempre mais.

crossi@uol.com.br


24/12/2008 e 25/12/2008
N° 15829 - MARTHA MEDEIROS


Escute o Natal

Cada pessoa se prepara de um jeito para o Natal. Eu costumo cumprir os rituais inevitáveis que a época exige, como montar a árvore, comprar presentes e providenciar um jantar especial para receber a família.

Mas, como neste período minha emoção fica sempre à flor da pele, me condiciono a algo mais íntimo: seleciono uma trilha sonora adequada ao meu estado de espírito.

Quando se pensa em música de Natal, muitos recorrem a Assis Valente: “Amanheceu/ o sino gemeu/ e a gente ficou/ feliz a rezar...”. Feliz? “Já faz tempo que eu pedi/ mas o meu Papai Noel não vem/ com certeza já morreu...” Eu era criança e achava desolador que o Papai Noel só estivesse vivo para alguns. Desde então, passei a fazer meu próprio playlist natalino.

Gosto de intensidade sonora, fui criada a guitarra. Ainda que aprecie gêneros mais tranqüilos e sofisticados, não adianta: o rock e o blues sempre falaram mais alto aqui em casa.

Mas assim que entra a contagem regressiva para o Natal, entro em jejum de qualquer batida mais compassada, tiro de cena todos os Stones e seus discípulos, e abaixo o volume. Juro, sumo até com os Beatles, e sou capaz de cometer assassinatos em série quando escuto “So this is Christmas/ and what have you done....” do John Lennon. Massacrante. Quem ainda agüenta?

Retirada a sonzeira, abro espaço para gêneros que casam perfeitamente com o astral do momento. Jazz tradicional ou jazz moderno: por exemplo, não consigo parar de ouvir Amy Winehouse cantando Love is a Losing Game. Minha Assis Valente deste Natal 2008.

E clássicos. Chopin, Schubert, Mozart.

Coral também é uma pedida. Perdi a conta dos Natais em que ouvi um coral do Harlem chamado Mount Moriah e que enchia a casa com o ritmo gospel.

E música lounge, que me transporta para a beira de uma praia paradisíaca.

E música popular brasileira cantada quase em silêncio, com ternura, sem agressividade, letras amorosas, leves, confortantes.

Eu falei em silêncio?

O barulho das folhas ao vento e os passarinhos que acordam sempre mais cedo que nós, isso ainda dá para se ouvir na cidade (quando o pessoal não está buzinando – por que se buzina tanto nos dias que antecedem o Natal?).

Mas pra quem tem a sorte de estar em algum lugar menos concreto, benditas sejam as ondas do mar quebrando na areia, o barulho de alguma cachoeira escondida no meio do mato, o espocar imaginário de cada estrela que vai surgindo no céu – trilha sonora do Natal.

Hoje, o que eu desejo para todos, além de receberem um abraço que não seja protocolar como tantos que se recebem durante o ano, é que a gente escute o Natal. Que o som dessa noite apazigüe a alma, que sinos toquem dentro de nós, que ninguém levante a voz, que tudo seja suave e que o silêncio transmita todos os votos vindos de longe, daqueles que não puderam estar juntos.

Ivete Sangalo? Melhor deixar pro Réveillon.

Para todos aqueles que vem até aqui todos os dias, um Feliz Natal e que o Papai Noel seja generoso com cada um - Entrelacos


24/12/2008 e 25/12/2008
N° 15829 - PAULO SANT’ANA


Queda na imagem da Petrobras

O ano termina com uma péssima imagem da Petrobras junto ao povo brasileiro.

Desde que foi fundada a Petrobras, em meados do século passado, o sentimento que o povo brasileiro lhe dedicou foi o de orgulho.

E o auge deste regozijo cívico dos brasileiros com a sua estatal de petróleo se verificou quando o presidente Lula anunciou, poucos anos atrás, que finalmente o Brasil se tornara auto-suficiente em petróleo.

O índice de produção tão sonhado pelo Brasil tinha sido atingido. E, evidentemente, os brasileiros ambicionavam se beneficiar da independência energética do país, pagando menos pelos combustíveis e vendo catapultado o seu desenvolvimento por não ter mais que gastar divisas com a importação de petróleo.

Mas o que se viu foi de desanimar os brasileiros e de fazê-los encarar a Petrobras com desconfiança e até desprezo pela sua sorte.

Quem é que vai se entusiasmar entre o povo com o início da exploração pela Petrobras da camada de pré-sal se, autoritariamente, a Petrobras e o governo não diminuem um centavo no preço dos combustíveis, sabendo-se que nos últimos cinco meses o preço internacional do barril de petróleo baixou em assombrosos 73%?

É de doer na alma que os brasileiros não sejam beneficiados nem pela auto-suficiência, nem pela queda espantosa do preço do petróleo.

Olhamos com inveja a Venezuela e a Argentina repassarem para seus povos preços concretamente acessíveis, enquanto a Petrobras fixa para os combustíveis que vende no Brasil índices perversos que se situam entre os mais altos do mundo.

Basta dizer que os EUA repassaram integralmente para seus consumidores a queda de 73% no preço do petróleo.

E, no Brasil, nada. Continuamos a pagar pelo nosso diesel e pela nossa gasolina valores extorsivos, que tanto exploram até o escorchamento o consumidor nacional quanto colaboram decisivamente para o marasmo da nossa economia, que proporcionaria um salto de desenvolvimento extraordinário ao país se o governo aproveitasse esse momento de crise prenunciada para reduzir os preços dos combustíveis.

A política, no entanto, é de tornar rica a Petrobras, mesmo que seja à custa da pobreza do povo brasileiro.

Dane-se o pré-sal se sua exploração somente servir para o enriquecimento da Petrobras e do seu funcionalismo extraordinariamente bem pago e bem servido em sua previdência privada, enquanto o povo brasileiro e a nação não se beneficiam dos lucros extraordinários da estatal que era tão querida por todos nós, mas que, por essa política de não-compartilhamento de seus lucros com o povo e com a economia nacional, cada vez mais se distancia sentimentalmente da população.

É muito triste manter o preço dos combustíveis nos postos de gasolina quando o preço de mercado, exatamente o centro do argumento da Petrobras quando elevou até as nuvens os preços dos combustíveis, cai inexoravelmente a um nível assustador.

A sensação que temos com a Petrobras é de que estamos sendo explorados por ela. Alguém vai ter que tomar providências para mudar radicalmente a imagem triste que a Petrobras está adquirindo junto ao povo que a ergueu.

E, finalmente, desejo à multidão de fiéis leitores desta coluna um Natal feliz junto a seus familiares.

Muito obrigado por todos os dias debruçarem seus olhos sobre esta coluna. O único sentimento de que me invisto é o de gratidão. Feliz Natal!


24/12/2008 e 25/12/2008
N° 15829 - DIANA CORSO


O que você ganhou de Natal?

Menina judia, não costumava ter meu próprio Natal. Mas ajudava a arrumar a árvore na casa da vizinha. Minha recompensa vinha: sob a árvore de dona Chichi amanhecia um Papai Noel de plástico recheado de balas.

Posteriormente, casei com um católico (ateu) e tive duas filhas, o que foi uma boa desculpa para comprar uma árvore plus-extra-large. Durante os anos da infância delas, entreguei-me prazerosamente à sua decoração. Meu marido diz que casei com ele só para poder montar minha árvore de Natal. Calúnia!

Minha relação estrangeira com essa festa católica talvez diminua a validade do que vou dizer: é falso que se trate de uma festa meramente consumista, capitalista e vazia. Momentos de encontro familiar, de dar e receber presentes nunca são vazios.

Um presente muito caro pode ser uma demonstração de poder econômico por parte do presenteador, ou mesmo de sacrifício, pois alguém se endividou para fazer o outro feliz. Um presente baratinho pode ser uma brincadeira criativa, um achado perfeito, ou um ato de desprezo.

Se dermos a alguém um presente que não lhe agrada, podemos estar atestando quão pouco nos importa quem é e do que gosta, ou mesmo com seu descontentamento essa pessoa pode estar demonstrando que não há o que possamos fazer para agradá-la.

Há os que fazem questão de desfazer-se de todos os presentes, trocando-os na loja, ou somente os recebidos de determinada pessoa. Em contrapartida, uma escolha feliz é ocasião de uma revelação de afeto. Nos amigos secretos paira a questão de se o nome no papel é sorte ou azar, e os presentes dirão a verdade. A maior parte desses diálogos através de objetos se dá de forma silenciosa, muitas vezes inconsciente, o certo é que não há ponto neutro.

Escolher algo para alguém é um exercício de tentar decifrá-lo. Porém, somos auto-centrados, achamos que os outros são o que queremos que eles sejam. Freqüentemente, o Natal acaba revelando o quanto desconhecemos os seres mais próximos.

Mesmo que se compre algo convencional, um brinquedo de moda, uma roupa de marca, estaremos falando coisas como: “Tenho medo de errar”, ou mesmo, “quero te ver como o feliz possuidor disso que todos cobiçam”, “quero que meu filho tenha acesso ao que eu não tive”, “sou um amante abastado”.

Duas décadas de clínica escutando pessoas preparando-se para esta festa e fazendo o balanço do que ocorreu nela, me ensinaram alguma coisa sobre o Natal. Na noite de hoje, muitas coisas estão sendo comunicadas através de presentes. E você, o que disse e escutou através desses objetos?


24/12/2008 e 25/12/2008 | N° 15829
N° 15829 - LETICIA WIERZCHOWSKI


Falando em Pólo Norte…

Em dia de Natal, uma crônica sobre aquela terra mítica, cheia de renas e duendes, onde dizem que o bom Papai Noel vive, e de onde, também, ele sai todo santo ano na época do Natal com o trenó carregado de presentes para as crianças do mundo. Esta é uma história do Ártico, sim, mas de um Ártico diferente.

Esta é a história do Ártico que vem se derretendo de maneira impressionante por causa do aquecimento global, onde o inverno chega com três meses de atraso, impedindo a formação da camada de gelo na qual, por exemplo, os ursos vivem e se locomovem – o Papai Noel, no caso, deve andar de galochas por lá, tomando extremo cuidado para não pisar numa placa de gelo fino e ser engolido, com todo o seu barrigão, pelas águas glaciais.

Então é o seguinte: passado o Natal, depois que seu filho já tiver aproveitado os presentes do Bom Velhinho, vá até uma locadora de DVDs próxima da sua casa e alugue Aventuras no Novo Ártico.

Você e sua família não haverão de encontrar nenhuma rena do nariz vermelho, nem qualquer duende, mas acompanharão a duríssima vida de duas crianças do Ártico – Nanu, uma filhote de urso polar, e Seela, uma filhote de morsa. Do nascimento até a vida adulta, vocês seguirão as aventuras e desventuras desses dois animaizinhos num mundo mágico e hostil, um mundo que vem se acabando.

Uma luta diária pela sobrevivência num lugar inóspito, onde as regras anteriores de vida já não valem mais – as mães de Nanu e de Seela também desconhecem esse novo Ártico mais quente e menos congelado, e a cada ano as dificuldades aumentam para todos. Você vai chorar, ah, vai. E vai se emocionar.

E vai pensar duas vezes antes de deixar a água jorrar da sua torneira, e vai apagar as lâmpadas desnecessárias, e talvez até cogite em fazer aquele trajeto a pé, ao invés de tirar o carro da garagem.

Aventuras no Novo Ártico é um incrível e belíssimo documentário sobre um mundo que desconhecemos e suas impressionantes criaturas, o resultado de muitos anos de trabalho do casal Adam Ravetch e Sarah Robertson, que chegaram a esperar semanas sob um frio de 28°C negativos para simplesmente saírem do abrigo e filmarem a chuva ou o vento – a média do casal foi de dois dias de filmagens por mês.

Uma incrível empreitada, uma grandiosa lição de coragem, um aviso incontestável de que todos nós devemos fazer um pouco, diariamente, para que o nosso planeta não mergulhe no caos irreversível. Não deixe de ver esse filme.


24/12/2008 e 25/12/2008
N° 15829 - L.F. VERISSIMO


Papai Noel

Aluta de classes – lembra dela? – voltou. Dizem que quem compra em lojas de grife na Quinta Avenida de Nova York está pedindo para botarem as compras em sacolas de supermercado, para evitar olhares raivosos na rua.

A revolta com os “fat cats”, gatos gordos, cuja desonestidade e incompetência estão pondo abaixo a economia americana, foi atiçada quando os executivos das três maiores montadoras de carro do país chegaram a Washington para pedir dinheiro ao governo, cada um no seu jato particular.

A desculpa era que teriam ido de carro se seus carros fossem de confiança. Revelou-se que muitas das financeiras subsidiadas para não falirem estão usando parte da ajuda para dar as regalias e os milionários abonos de sempre aos seus executivos.

O socorro ao capital financeiro mundial lembra aqueles programas adotados em países que em vez de combater o comércio de drogas dão dinheiro para o usuário manter seu vício sem precisar recorrer ao crime.

As financeiras estão sendo pagas com dinheiro público para manter seus maus hábitos. Acho que foi o Paul Krugman quem escreveu, esses dias, que a única diferença entre o esquema do megavigarista Bernard Madoff e o que, em essência, faz todo o setor foi que o Madoff se autodenunciou. Senão, ele também acabaria recebendo dinheiro para sustentar seu vício.

Resposta

Espero que não tenha acontecido com você o que aconteceu comigo. Papai Noel respondeu ao e-mail que mandei com meus pedidos de Natal, mas num tom irritado que em nada lembrava o jovial velhinho.

Sarcástico, perguntou se eu tinha alguma idéia do que significaria, em termos de negociações, propostas e contrapropostas, inclusive com o marido – para não falar na logística da adequação dos seus contratos profissionais e, ainda por cima, a dificuldade para embrulhá-la adequadamente e colocá-la embaixo da árvore – ele me dar a Catherine Zeta-Jones de presente.

Argumentou que meu pedido estava completamente fora da realidade e que eu aparentemente não lia os jornais, senão saberia do seu total engajamento numa missão que exige toda a sua energia e todo o seu tempo: nada mais, nada menos do que a salvar o sistema capitalista mundial.

Contou que tinha sido recrutado para distribuir sacos e sacos de dinheiro a grandes empresas ameaçadas de falência e não tinha condições para atender pedidos sequer de bonecas de pano, o que diria de presentes mais caros como o meu, neste Natal.

Estava convencido de que sua ajuda seria importante, talvez decisiva, mas temia que ela o debilitasse, financeiramente de maneira irreversível. “No próximo Natal estarei falido – e quem será o meu Papai Noel?”, perguntou, antes de me xingar de novo.

Consolo

(Da série “Poesia numa hora dessas?!”)

Console-se, é evidente:
um dia ainda vamos rir de tudo isto
histericamente

terça-feira, 23 de dezembro de 2008


Jaime Cimenti

História de Natal

O sol abrasador esturricava a tarde no pampa. Vento, nenhum. Até os quero-queros estavam parados debaixo das folhas imóveis da grande figueira do capão. No rancho de pau-a-pique da coxilha, Juliano, nove anos, o mais moço dos seis irmãos, sozinho, olhava para o pequeno pinheiro enfeitado apenas pelas barbas-de-pau.

Em volta estava o minúsculo presépio desbotado: São José, Virgem Maria, Jesus, a vaca, o cavalo, a galinha, duas ovelhinhas e um pedaço de espelho rodeado de terra, imitando um laguinho vazio. Os três reis magos estavam próximos, um atrás do outro, em posição de chegada.

Tudo no canto da salinha. Na noite anterior, Juliano ouviu o pai e a mãe combinarem que dariam apenas frango assado, batatas e sagu naquela noite de véspera de Natal e que no dia vinte e cinco poderiam caminhar até o povoado para assistir à missa, caminhar em volta da pracinha e, quem sabe, tomar picolés de gelo.

Amigos, parentes, dinheiro para presentes ou algum passeio permaneceriam distantes, tal como nos anos anteriores. Depois de pensar por um bom tempo, Juliano pegou o cofre em forma de porquinho que estava debaixo da cama e, com um gesto calmo, mas firme, quebrou-o.

Recolheu as moedinhas e as três notas e caminhou até o bolicho do seu Marcílio. Eram quatro da tarde, ainda daria tempo. Pediu para falar com o bolicheiro, longe da mulher dele, do filho e dos homens que bebiam na mesinha da frente. Mostrou para o comerciante as economias e disse que pretendia dar presentes de Natal para os irmãos e os pais.

O homem contou o dinheiro, disse que, pelo valor, poderia dar pirulitos, balas, algumas rapaduras, uma cuia, um pacote de mate e um vidro de mel. Na verdade, o dinheiro não dava para tanto, mas a atitude do piá tinha comovido "seu" Marcílio e ele resolvera fazer uma caridade natalina, sem dizer nada a Juliano.

De noite, depois do frango, das batatas e do sagu, Juliano entregou os presentes. Ganhou alguns abraços, beijos e agradecimentos, alguns meio rápidos. Recebeu alguns olhares estranhos e desconfiados, mas não se preocupou.

Depois de rezar, adormeceu pensando, meio triste, mas sem amargura, que tinha feito sua pequena parte, que teria muitos natais, presentes e pessoas pela frente, que o bom Deus não lhe iria lhe faltar.

Ótima terça-feira - Aproveite o dia.


23 de dezembro de 2008 | N° 15828
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Palavra, som, canção

No princípio dos tempos, quer dizer, um século atrás, a canção era apenas uma forma de participar da conversa pública dizendo com melodia as coisas que era possível ou cabível dizer: cantar o amor, cantar o desamor (tão importante quanto), falar mal dos outros, tirar sarro de alguém, insinuar o que não cabia dizer com todas as letras.

Tudo isso cabia na canção, nesse começo, que de certa forma pode ser ainda mais remoto, digamos que lá pelo mundo medieval: cantigas de amor, cantigas de amigo, cantigas de malidizer.

Mas é certo que cem anos atrás essa brincadeira tomou forma mais nítida, e começou a atrair outros compositores, mais afinados com uma novidade de arromba: a gravação. Aliada com o teatro de variedades e canção já estava; agora, ela ganhava o estatuto de produto de mercado.

Produto cultural, com toda a ambigüidade que a junção deste substantivo com este adjetivo implica: é coisa que se vende, e portanto o sucesso está na proporção direta da facilidade massificadora, e é coisa que raia pelo sublime, e portanto pode sobreviver ao tempo, como qualquer arte.

O tempo passa e essa mistura de palavra e som desenvolve uma trajetória de excelência em nosso país (e não só nele). A canção deixa a vida para entrar na história, incluindo a história universitária. E aí aparecem novos cancionistas, agora autoconscientes. Quando começou este passo? Nos anos 60, com os festivais, na invenção da MPB.

Dessa tradição provém Palavreio, CD de Leandro Maia, lançado faz pouco. Compositor deste nosso tempo, ele sabe que está lidando com uma forma com história intensa, densa; sabe e promove em seu disco uma repassada por vários gêneros e estilos, sempre aliando invenção musical com invenção poética.

Por isso, o CD tem um encarte que é um pequeno livro, que não se limita a trazer as letras cantadas; também por isso o CD, que se deixa ouvir como se fosse mero pano de fundo musical, proporciona outra escuta, atenta, focada, como se exige de um livro ou de um concerto; por isso, enfim, é um CD precioso, que dá e comenta música e poesia, a canção.


23 de dezembro de 2008
N° 15828 - PAULO SANT’ANA


Os sobreviventes

Estava eu esperando, como sempre faço há muitos anos, a hora da minha entrada no Jornal do Almoço, quando anunciaram um músico e cantor nativista: João Chagas Leite.

Fiquei vendo e ouvindo ele dedilhar o violão e cantar a sua música. Mais atentamente notei uma anormalidade na sua mão direita: ele simplesmente não tinha mão.

Perguntei o que lhe tinha acontecido e ele me disse que nascera assim, só as unhas da mão direita e um toquinho do dedão.

Mas como é que podia tocar violão aquele homem sem mão? Como é que ele conseguira segurar o braço do violão com a sua mão direita e dedilhar as seis cordas com aquele toquinho de dedão esquerdo?

Ele me disse também que já gravou 13 CDs. Mas que força extraordinária levou este homem descontado fisicamente a dar a volta por cima e se tornar um artista reconhecido no meio nativista?

Parece que estou vendo, ele foi levando a vida em frente, nunca deve ter se queixado do destino, a vida lhe deu um limão e ele fez uma limonada.

São uns heróis estes sobreviventes. Lembro-me de um pensamento magistral de um grande autor: “Não importa o que fizeram de nós, importa o que nós fizemos do que fizeram de nós”.

Aquele cantor e violonista de sucesso é bem um exemplo de que muitas vezes a vida nos tira algo, mas não nos tira a essência. E o que importa é essa essência, com ela recobraremos tudo que possa nos ter sido tirado.

Dali a pouco, enquanto não chegava a hora de eu falar no programa, a Rosane Marchetti entrevistou um jovem bombeiro que tinha sido resgatado com vida de um salvamento de que participara no Vale do Itajaí, durante as chuvas que provocaram aquela tragédia.

Ele há poucos dias conheceu a morte de perto, soterrado enquanto salvava pessoas dos deslizamentos.

Viveu instantes em que imaginou talvez que não fossem resgatá-lo. Mas resistiu e acabou salvo. Estava agora sendo entrevistado e me surpreendeu o que disse: “Agora não faço mais planos, não penso no futuro, agora só quero viver”.

Interessante. Aquele bombeiro retirado do fundo da lama, antes de cair no fundo daquele abismo e ver sua vida ameaçada, não tinha consciência do significado de sua vida.

Ele só foi perceber que vivia, ele foi só dar valor à sua vida quando quase a perdeu. E agora só quer colher o momento que passa, tudo é lucro para ele.

Além disso, passa pela sua cabeça o quanto é frágil a existência humana, quanto é possível a qualquer instante que por qualquer circunstância sobrevenha a nossa morte.

Por isso então é preciso viver. Celebrar o que resta da vida. É preciso viver com pressa de viver.

Existem os viventes e existem os sobreviventes. Os sobreviventes, como o cantor sem mão e o bombeiro resgatado, têm outra idéia da vida.

Os sobreviventes são os que passaram pelo grande susto, superaram-no com esforço destemido ou com sorte – e são superiores aos outros porque têm idéia nítida do que é a morte.

Por conhecerem a morte ou o grande desfavor, valorizam mais a vida que as pessoas que só tiveram até agora olhos para a vida e muitas vezes não sabem o que fazer dela.

Quem esteve à beira da morte ou já foi impactado pela desgraça, estes imprimem a seus dias um significado de maior conteúdo.

Os sobreviventes são diferenciados, têm consciência de que nada de pior pode vir a lhes ocorrer, eles já foram testados. E estão aprovados para vencer na vida e para enxergar nelas delícias das quais não nos apercebemos.

Uma das experiências mais raras e mais ricas da vida é renascer. Muito pouca gente percebe que não há outra forma de justificar-se na vida senão pela grande façanha pessoal do renascimento.

Uma coisa é aquilo para o que nascemos. Outra bem diferente – e só isso interessa – é o rumo diferente que designamos para nosso destino.


23 de dezembro de 2008
N° 15828 - MOACYR SCLIAR


Presentes de Natal: a oculta mensagem

O jornal O Povo, de Fortaleza, pede-me que indique minha história preferida de Natal. Escolha difícil. O tema sempre se constituiu em desafio para os ficcionistas e daí surgiram obras-primas, a começar pelo clássico Missa do Galo, de Machado de Assis, conto no qual o tradicional espírito natalino dá lugar, e por pungente contraste, a uma melancólica (mas profunda) meditação sobre a condição humana.

Mais compatível com a imagem do Natal, e igualmente comovente, é O Presente dos Reis Magos, do contemporâneo de Machado, o norte-americano O. Henry, pseudônimo de William S. Porter (1862 - 1910), famoso pelas histórias espirituosas e surpreendentes.

O.Henry apresenta-nos a um jovem casal, Jim e Della, muito apaixonados e muito pobres. Como presente de Natal, Della decide comprar para Jim uma cara corrente para o relógio de bolso que o jovem marido herdou do pai.

Sem dinheiro, não tem outro jeito senão o de vender a bela cabeleira (que Jim adora) a um fabricante de perucas. E adivinhem que presente Jim compra para a esposa? Uma coleção de pentes, claro, paga com o dinheiro da venda do relógio. Corrente e pentes agora são inúteis; o duplo equívoco faz-nos meditar sobre o ato de presentear, de cuja importância dá testemunho a movimentação das lojas – com crise e tudo às pessoas vão às compras. E aí dê-lhe embrulhos caprichados.

E decepções. Inevitáveis, não é? De repente, a pessoa já leu aquele livro, não gosta daquele vinho (ou é abstêmio, como este que vos fala), detesta a cor da blusa que a gente escolheu. E ah, sim, tem a questão dos números. Muitas vezes escolhidos ao acaso. A gente olha a vendedora e diz: “Acho que minha mulher é mais ou menos do teu tamanho”. E não é. Ou então era, mas as pessoas engordam ou emagrecem, certo?

O resultado é que, nos dias seguintes ao Natal, as lojas estão cheias de novo, mas desta vez de gente trocando livros, vinhos, blusas, vestidos. Os vendedores precisam ter muita paciência.

No caso de Jim e Della, a troca não resolve o problema; mas o final do conto não é triste. O casalzinho descobre que pode compensar a frustração com o amor que sentem um pelo outro.

Com isto nos transmitem uma lição absolutamente óbvia, mas que, sendo véspera de Natal, não custa repetir: em termos de presentes, vale a intenção. Vale o afeto e o carinho que a gente põe naquele objeto. E aí não importa o tamanho, a cor ou o tipo de presente. A boa literatura, como a de Machado e de O.Henry, ensina-nos a viver. É verdadeiro presente de Natal.

Recebi um verdadeiro dilúvio de e-mails (em inglês, inclusive) sobre o texto que aqui escrevi na última terça, abordando o incidente da sapatada em Bush. Foram tantas as mensagens que não tenho espaço para comentá-las, motivo pelo qual peço desculpas aos remetentes, alguns dos quais pessoas conhecidas de nossa intelectualidade.

A maioria apoiou o jornalista iraquiano e neste sentido preciso esclarecer minha posição: não defendi o Bush, que hoje é considerado quase que unanimemente um péssimo mandatário, quando mais não seja por causa de seus erros – em política, diz um velho aforismo, erro é pior que crime – erros pelos quais merecia ser julgado em um tribunal internacional.

Isto posto, a verdade é que o comportamento dele no episódio foi surpreendente, sobretudo pelo comentário bem-humorado; bom humor, que, aliás, freqüentemente falta a governantes belicosos.

A agressão de Muntazer Al-Zeidi foi um compreensível desabafo e pode estar de acordo com a cultura da região, mas, como disse o sábio Lauro Quadros no Polêmica, não é exatamente isso o que se espera de um jornalista, coisa que o autor do sapataço aparentemente reconheceu ao pedir perdão.

Mas isto já é passado; 2009 trará para os Estados Unidos um novo presidente que, esperamos, tornará desnecessário o esporte do arremesso de calçados e talvez resulte em mais paz (ou em menos guerra) para o Oriente Médio.