quarta-feira, 26 de novembro de 2008



26 de novembro de 2008
N° 15801 - DIANA CORSO


Mickey Mouse octogenário

Conheci um senhor velho com olhar de guri.

Visto com zoom, seu rosto apresenta manchas, saliências, uma cara com sinais de uso, mas os olhos, ignorando o peso das pálpebras, fitam com picardia. Na maturidade, as cartilagens continuam crescendo, tornando-nos caricaturas de nós mesmos.

Viramos duendes, bruxas, narigudos e orelhudos. Apesar disso, fui fisgada pela vivacidade daqueles olhos, tão diferentes daqueles, arregalados através de cirurgias plásticas, ou apagados pela vida bovina que lhes desenvolve catarata na alma.

Mas quero falar de outro velho orelhudo, 80 anos completados há uma semana: Mickey Mouse. Na essência ele pouco mudou, foi o mundo em volta que foi mostrando outra cara.

Mickey continuou na ativa, é o membro mais popular da família Disney, mas foi ficando menos sapeca. Com o passar dos anos, seu bom mocismo foi se acirrando, enquanto sua imagem ia desenhando-se mais redondinha.

Seu lugar na trama era o de ser uma referência em torno da qual iam articulando-se personagens mais interessantes, como Pateta, o gauche, Donald, o descontrolado. Particularmente nunca gostei dele, mas devemos-lhe o respeito de um patriarca.

Hoje exigimos mais complexidade das personagens, elas são ambíguas, conflitivas. Até mesmo nos desenhos dirigidos às crianças pequenas os bichinhos vivem sentimentos fortes, medos, ciúme, egoísmo, covardia, inquietações.

O octogenário Mickey, assim como seu precursor o Gato Félix, nasceram num tempo de animais que estavam para mais palhaços.

Eles constituíram a linguagem corporal própria do desenho animado: eram contorcionistas, mistura de Chaplin com o Gordo e o Magro, numa estética de pastelão. Depois de algumas décadas de trabalho como detetive, o ratinho que consagrou Walt Disney, sobrevive mais enquanto ícone.

Histórias e personagens são como retratos de época: Shrek, uma personagem que hoje nos traduz, é um monstro bonachão, com problemas de sociabilidade e dificuldades para amadurecer, sarcástico e cético.

As crianças e seus desenhos animados mudaram muito, novas fantasias para novos tempos.

Como eles, alguns entre nós conseguem continuar evoluindo junto com seus narizes e orelhas. Nesse sentido, a passagem do tempo pode significar crescimento ao longo de toda a vida, espero conseguir essa proeza.

Outros, apenas controlam as transformações físicas, vão cortando as arestas, ficando cada vez mais redondinhos. Estes, como Mickey, ficam datados, sobrevivem como estátuas, sem aquele olhar maroto do velho que me cativou.


26 de novembro de 2008
N° 15801 - DAVID COIMBRA


Quanto vale um bigode

Ofendi uma mulher por causa do bigode, certa feita. O episódio valeu-me alguns ensinamentos acerca da vida, das pessoas, dos leitores e do momento da Dupla Gre-Nal. Mas foi sério. Por Deus. Aconteceu assim:

Um dia o Cássio, da portaria aqui do prédio da Zero, deixou crescer o bigode. Cheguei ao jornal, olhei para o Cássio e comentei:

– Bigode?

Ele me enviou um sorriso sardônico, cheio de significados duplos e até alguns triplos, balançou a cabeça devagar, cofiou o dito cujo e respondeu: – Rá!

Entendi o que ele queria dizer. Era: “Sim, deixei crescer o bigode porque o bigode trata-se de um símbolo atávico de masculinidade e, sendo assim, atrai as fêmeas da espécie, o que fará com que eu tenha maior chance de sucesso amoroso e, desta forma, seja mais feliz, porque, como Freud já ensinou, tudo na vida é casa, comida e sexo”.

Agora: embora tenha compreendido em sua plenitude o rá do Cássio, não concordava com ele. Porque, pelo que tenho observado das mulheres contemporâneas, elas desaprovam o uso do bigode.

Algumas até o desprezam, considerando-o ridículo, ultrapassado e cosquento. Naquele mesmo dia, escrevi a respeito. Disse que o bigode não tinha mais lugar sob as narinas do século 21.

E, no dia seguinte, recebi aquele imeil fulo. Indignado, até. Pensei que fosse brincadeira, que ninguém, sobretudo uma mulher, se enfureceria comigo por eu ter falado mal do bigode. Mas não: ela estava revoltada mesmo. Realmente a ofendi com minhas críticas ao bigode.

Pedi desculpas, garanti que não era minha intenção agredir ninguém ao menoscabar o bigode, que, afinal, não passa de simples adereço peludo do rosto do homem. Não adiantou. Ela jurou que jamais me perdoaria.

Bem. Os meses se passaram, o Cássio tirou o bigode, a vida seguiu seu rumo inexorável. Dias atrás, recebi outro imeil daquela paladina dos bigodes assacados. Relembrou o episódio e reafirmou seu ódio eterno por mim.

Por coincidência, no mesmo dia o Cássio... apareceu de bigode! Mas desta vez contive-me. Lembrei da defesa feroz do bigode empreendida pela leitora e resolvi observar o que mudava na vida do Cássio com mais pêlos no rosto. E não é que mudou?!?

As mulheres assumiram outro comportamento com ele. Tornaram-se mais lânguidas e atenciosas. Eu passava pela portaria e sempre via alguma delas liqüefazendo-se ao pedir o crachá para o Cássio. Então, olhava-o de soslaio e ele me olhava de esguelha e de novo cofiava o bigode e repetia: – Rá!

Outra vez aquele rá. Mas tem o seguinte: tenho certeza de que não é o bigode em si a razão do sucesso do Cássio. É a confiança que ele exala tendo cabelos sobre os lábios. As mulheres sentem que ali está um homem seguro e se aproximam dele por isso.

Se ele é tão seguro, deve haver algum motivo, entende? O princípio da publicidade. Se você repete que é bom, é bom, é bom, provavelmente seja. As pessoas acreditam na publicidade, o que é muito surpreendente.

O contrário também vale. O homem afoito, as mulheres pressentem sua ansiedade e correm dele.

Eis o segredo do bigode: mesmo estando fora de moda, confere personalidade a quem o usa com convicção, casos clássicos de Rivellino e Olívio Dutra.

A personalidade é atraente, a personalidade faz toda a diferença. Pessoas têm que ter personalidade, assim como cidades e times de futebol e jornais e tudo mais.

Os times da Dupla de 2008 não têm personalidade. Abatem-se com qualquer revés. Lembro de times da Dupla que tinham personalidade. Porque tinham jogadores como um Figueroa, que ensinava:

– Vitórias não se merecem; se conquistam. Ou um Oberdan, que em 1977 prometeu:

– Neste time ninguém vai chorar quando formos campeões. Personalidade. Não se tem só com bigode, mas, se o bigode ajudar, por que não?

terça-feira, 25 de novembro de 2008


JANIO DE FREITAS

Na linha do Equador

Reações havidas no Congresso no problema com o Equador preservam a atitude arrogante e prepotente de antes do Brasil

"DE COSTAS para os vizinhos da América do Sul" por todo o século 20, como o Brasil disse de si mesmo, ao mudar afinal de posição não mudou a maneira de não os ver.

As reações havidas no Congresso e a maioria das expostas na imprensa&congêneres, no entrevero Bolívia/Petrobras e agora no problema com o Equador, preservam a mesma atitude arrogante e prepotente de antes, à qual se junta o governo Lula no mais recente atrito, com o Paraguai.

A norma das reações nos dois primeiros casos, na imprensa como no Congresso, foi a cobrança de "resposta enérgica do Brasil". Tal como no caso boliviano, dizem agora comentaristas (profissionais e convidados) e parlamentares, todos bem simbolizados por Antonio Carlos Pannunzio: "Chamar o embaixador no Equador não é nada. O governo tem que reagir com energia".

Que energia? Energia para quê? Um boicote econômico, talvez, à maneira de outro praticado há 40 anos no Caribe? Quem sabe, uma invasãozinha, sucedânea da Baía dos Porcos com pára-quedistas, por falta de fronteira com o Equador?

Afinal de contas, reações com energia partem necessariamente da idéia de força, tamanho, recursos superiores, que, no caso, fazem o Brasil figurar-se para os três vizinhos como os Estados Unidos para as tantas vítimas da sua superioridade impositiva.

O governo equatoriano de Rafael Correa cometeu a impropriedade diplomática de não informar o governo brasileiro, com a antecedência protocolar, sobre o envio a uma corte internacional de sua contestação à dívida com o BNDES, decorrente de obra da brasileira Odebrecht com problemas diversos, inclusive das habituais "correções de preço".

O erro pode ter sido de protocolo, versão oficial de formalidades de elegância pessoal, e não de falta a um dever obrigatório. Mas, acima de tudo, na dificuldade de negociação direta, já que o governo brasileiro começou por insinuar-se a favor da empreiteira, pode haver melhor procedimento do que entregar a discordância a julgamento neutro e autorizado, como a Corte Internacional de Comércio, em Paris?

O problema equatoriano conduz ao mais recente entrevero. O Exército e o governo brasileiro negam a entrada de dois tanques, caminhões e soldados em território do Paraguai, na terça-feira.

Respondem ao protesto, que tomou o fato como provocação por problemas com brasiguaios, com a explicação de que eram manobras para treinar combate ao narcotráfico. Se a entrada fosse de apenas um metro, ou nem mesmo houvesse, o Exército e o Itamaraty cumpriram a obrigação de informar o governo paraguaio de manobras militares em sua fronteira, como é devido? Não.

Não o fez em nenhuma das manobras que se têm repetido na região. Nem é necessário confrontar a presença de tanques e a explicação de narcotráfico para fazer duas constatações: não é só o Equador que omite informação com antecedência e, na omissão mais recente, não se trata de divergência comercial, mas de consideração à soberania de um país vizinho. De que governo é a falta mais grave?

A explicação para os seguidos atritos brasileiros com vizinhos, em tão pouco tempo, dada por professor de história muito televisivo, é a de que novos segmentos sociais chegaram ao poder e não estão habilitados às normas internacionais.

Com formulação menos agressiva, é a mesma conceituação presunçosa e cega. De "potência" para a periferia. Que pena, não nos chamamos mais República dos Estados Unidos do Brasil.

Os "novos segmentos" só chegaram ao poder como representação da reprimida vontade de mudança e, pelo que se vê, mostram-se leais ao seu compromisso (experiência que o eleitor brasileiro desconhece).

Não são eles que têm de compreender o Brasil, nem estão interessados em fazê-lo. Estão ocupados em descobrir o que lhes restou, nos modos de recuperá-lo e dar-lhe o sentido que nunca teve.

Só podem tentar fazê-lo na medida das circunstâncias de cada um. E no pleno e soberano direito de fazê-lo. É o Brasil que deve e precisa compreendê-los -apesar da nossa dificuldade intelectual e ética para isso.

CLÓVIS ROSSI

Memórias que nunca dormem

SÃO PAULO - Até anteontem, só uma coisa me surpreenderia mais do que alguém me dizer que o Citibank poderia quebrar: se alguém me dissesse que o São Paulo poderia, algum dia, cair para a segunda divisão. Não que não seja desejável (a queda do São Paulo), mas a suposição é absurdamente irrealista.

Como era a quebra do Citibank, que, no entanto, só não aconteceu porque o governo deu uma ajudazinha de US$ 20 bilhões (o suficiente para comprar 40 mil mansões de quatro dormitórios e 788 metros quadrados de área total no Morumbi, conforme anúncio de ontem de uma grande corretora).

Fora a garantia descomunal para papéis que podem ser "tóxicos".

Pelo menos na minha memória, o Citi era, na área financeira, o equivalente ao São Paulo de hoje no futebol: forte, campeão sucessivas vezes, modelo. Mas era também mais arrogante do que os são-paulinos, pelo menos os que conheço mais de perto.

Bill Rhodes, um dos principais executivos do banco desde que minha memória alcança (e olha que alcança longe), era o verdadeiro "Mestre do Universo" na negociação da dívida externa dos países latino-americanos nos anos 80, Brasil incluído. Passava sermão em ministro atrás de ministro, ditava regras, era, a rigor, até mais importante do que o secretário do Tesouro da época ou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (se não era mais importante, parecia ser).

O Citi era tão influente que um slogan seu ("The Citi never sleeps" ou o Citi nunca dorme) foi encampado pela cidade de Nova York, que geralmente exporta slogans/modismos em vez de importá-los.

Pois é, o Citi dormiu e foi até a beira do precipício. E o foi justamente depois que muita gente boa dizia que passara o pior da crise no setor financeiro. Se é assim, ninguém mais pode ser dado como seguro. Nem o São Paulo, espero.

crossi@uol.com.br


GUERRILHA LITERÁRIA

Um autor isolado pelos seus adversários, reais ou imaginários, especialmente quando se trata de um crítico da mídia, para sair da clandestinidade precisa entrar na guerrilha literária, caindo em contradições e gerando paradoxos.

Meu colega, o professor e cineasta Carlos Gerbase, escreveu, obviamente sem que eu pedisse, este comentário impressionante sobre meu romance 'Solo'.
'Faz parte dos cânones do pós-modernismo (mesmo que este seja contra cânones) misturar gêneros.

Ou misturar cânones. ‘Solo’ poderia ser um romance intimista: publicitário em crise busca alternativas para uma vida vazia demais. Poderia ser um romance historiográfico: pesquisador cruza a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul com o extermínio dos incas, gerando personagens híbridos e tristemente irônicos.

Poderia até ser um romance místico: ateu de carteirinha faz o caminho de Machu Picchu, lê os evangelhos apócrifos e descobre a sua espiritualidade. ‘Solo’, contudo, resolve ser tudo ao mesmo tempo, e ainda pretende desmontar os gêneros que vão se sucedendo. No registro intimista, o personagem debocha de si mesmo e não permite que sua intimidade seja revelada.

No viés historiográfico, apesar da profusão de detalhes, não há uma tentativa de contar a história (nem dos incas, dos evangelhos apócrifos), e sim fazer a história desabar como uma pedra na cabeça do personagem (e do leitor). Já nas águas do misticismo, o discurso é mutante e paradoxal.

Paulo Coelho e Dan Brown, apresentados como embusteiros da pior espécie pelo personagem principal, vão, pouco a pouco, assumindo a autoria do discurso. Ou será que é Michel Houellebecq, disfarçado de Paulo Coelho, que pergunta onde está Deus? ‘Solo’ não pretende ser obra definitiva, nem escapar ao teste do tempo.

Está lotado de referências voláteis, que começam com o papagaio Louro José – o filósofo do apocalipse midiático – e terminam com Rubinho Barrichello – o perdedor do eterno retorno. ‘Solo’ acredita na efemeridade e na definitiva podridão dos grandes discursos.

Se o marxismo ruiu, a psicanálise virou balcão farmacêutico e a semiótica é uma ferramenta da publicidade, para que se preocupar com a sobrevivência ou a universalidade das citações e das metáforas? ‘

Solo’ é para ser consumido agora, no máximo amanhã, antes que a velocidade pós-moderna o jogue para o asilo dos discursos sem sentido. O interessante é que justamente quando o personagem se sente sem sentido é que a trama começa.

O esforço do herói para localizar-se no espaço (América Latina, e não Europa), no tempo (agora, e não no passado) e no próprio self (realidade, e não alucinação) vai se chocar, página a página, com a desconstrução dessas fronteiras.

Os gêneros literários se dissolvem, ao lado das certezas modernas, e uma certa iluminação espiritual pós-moderna, que certamente teria a bênção de Maffesoli, atravessa o personagem e o faz retornar para casa mais saudável e mais autoconsciente. Temos quase um final feliz. Quase uma redenção.

Mas será que um final assim combina com aquela cordilheira andina de ironias? Talvez não. E daí? Se combinasse, o cânone dos finais lógicos e orgânicos estaria validado. Para desafiar o pós-humanismo, só sendo neo-humanista. ‘Solo’ não é para todo tipo de leitor.

O gosto é meio amargo, meio doce, e às vezes o tabasco é jogado em doses generosas. Recomenda-se tomar muita água e deixar a TV desligada: o Louro José pode pedir direito de resposta.' Que bela leitura! Nem sempre a meu favor.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite o dia - Uma ótima terça-feira a você


25 de novembro de 2008
N° 15800 - LUÍS AUGUSTO FISCHER


Álbum sobre nós

Tanto livro interessante saído neste ano, de um lado, e tão pouco espaço para comentar cada um, de outro. Fica o comentarista nesta sinuca, a que se acrescenta outra, que de vez em quando me volta à cabeça: é o caso de fazer crítica aos livros expondo os defeitos encontrados?

Se já é pouco o espaço e acanhado o tempo, para mim e para o leitor destas linhas, vale a pena pôr em foco um livro com problemas e falar de seus defeitos?

Certo que uma crítica que aponta os erros e as imperfeições tem função pedagógica e, ao longo do tempo, pode ajudar na elevação do nível da conversa; mas também é certo que uma crítica assim exige, além de dedicação e competência, uma certa dose de disposição para o confronto, que, aos 50 anos, tenho cada vez menos.

Por isso tenho colocado à margem essa preliminar, para dedicar a conversa aos livros que valem a pena, como é o caso de um excelente álbum: Imigração alemã no Rio Grande do Sul – Recortes, concebido e executado por três especialistas na matéria, Imgart Grützmann, Martin Dreher e Jorge Augusto Feldens (editora Oikos e Unisinos).

O formato da publicação já é inusitado: capa dura e lombada em espiral, num tamanho (42 centímetros por 30) também raro, que obriga à leitura sobre uma mesa, folhas internas em cuchê, colorido.

Não apenas pelo tamanho, e no meu caso especialmente pelo conteúdo, o belo álbum sugere leitura lenta, talvez compartilhada com os familiares, de forma a aproveitar o que ele tem de melhor: em textos breves, cada qual ocupando apenas uma das páginas, e sempre focados em tópicos específicos e bem concebidos,

com farta e inteligente ilustração nas páginas ímpares, o livro reporta com leveza e profundidade a imigração dos antepassados de tanta gente sulina, como este que aqui escreve, lances históricos, a geografia ocupada, as artes, a arquitetura, os conflitos, as publicações, a educação, as religiões.

Enfim, um verdadeiro álbum, um daqueles livros que merece ser fruído por todo leitor interessado na matéria, por família ou gosto; um livro que, já que lembrei de família, vale ser comprado para presente de Natal.


25 de novembro de 2008
N° 15800 - PAULO SANT’ANA


Deu a lógica

Em quase todo o decorrer deste campeonato nacional, me acusaram de pessimista. Eu próprio me acusava de pessimista.

Nunca confiei na liderança do Grêmio, sempre a coloquei em dúvida, em face dos parcos recursos técnicos do time.

Vê-se agora que eu não era pessimista. Eu sou realista e racionalista. Torço como ninguém torce tanto pelo Grêmio, mas o meu coração nada tem a ver com meu cérebro.

Torço mas não acredito, quero o milagre mas não vibro, porque raciocino que o milagre não vem.

Um time que leva 4 a 2 do Vitória na antepenúltima rodada, na reta final da decisão do título, acho que agora todos consideram: não merece ser campeão, se fosse campeão, como quase aconteceu, seria uma conquista lunática e imerecida.

Por sinal, a liderança que o São Paulo ostentava até sábado passado era ilegítima: tinha sido fruto de um gol legítimo do Botafogo mal anulado pelo juiz, a conselho de um bandeirinha, no jogo contra o São Paulo.

Aquele roubo escancarado estava martelando e fazendo doer no meu espírito. Por causa daquele vergonhoso erro de arbitragem, o Grêmio ficara dois pontos atrás do São Paulo e, se persistisse essa desvantagem até o fim do campeonato, o campeão seria indevido, injusto e indecoroso.

Agora, com a derrota vexatória do Grêmio para o Vitória, o título de campeão do São Paulo passa a ser justo, adequado, meritório – e eu fico em paz com relação ao resultado.

Os otimistas esperançados, os que acreditaram até o fim que o Grêmio iria ser campeão, estão agora entendendo que o Grêmio já está classificado para a Libertadores do ano que vem.

Disse o Sílvio Benfica, ontem, que o Grêmio precisa ganhar uma partida e empatar a outra para garantir lugar no G4.

Mas eu pergunto: com que roupa? Qual a garantia que o Grêmio dá de que tem time suficiente para, contra o Ipatinga e o Atlético Mineiro, fazer quatro pontos? Qual?

Então, a situação gremista para ingressar na Libertadores é muito delicada. É certo que o Flamengo tem três pontos a menos que o Grêmio.

Mas, se o Flamengo ganhar do Goiás na próxima rodada, se iguala em pontos com o Grêmio, se iguala em vitórias, mas tem saldo de gols superior ao do Grêmio. Ou seja, se o Grêmio não ganhar do Ipatinga, venham por mim, hipótese muito provável, pode esfarelar-se completamente a possibilidade gremista de jogar a Libertadores no ano que vem.

E o caso do Cruzeiro: tem dois pontos atrás do Grêmio, mas joga na próxima rodada com o Internacional, no Beira-Rio, ou seja, só um louco, um varrido, um alienado não sabe que o Internacional vai perder para o Cruzeiro. E aí como é que fica o Grêmio para restar no G4?

A respeito dessa derrota certa que o Internacional terá sobre o Cruzeiro no próximo domingo, cabe abordar um assunto que está sendo também desconhecido por todos.

O Internacional jogou com reservas contra o São Paulo, desinteressando-se completamente do resultado do jogo e perdendo com serenidade, em face de que desfavorecia o Grêmio para a conquista do título. Isto todo mundo sabe.

E todo mundo sabe que o Internacional vai também perder para o Cruzeiro no próximo domingo, desfavorecendo o Grêmio na pretensão de disputar a Libertadores no ano que vem.

Perfeito, ninguém discute o direito dos dirigentes colorados de decidir que vão perder para o São Paulo e para o Cruzeiro, com a finalidade de desfavorecer o Grêmio.

Ou seja, por esse deslize ético, os dirigentes colorados ficam impunes.

Já com o treinador Tite não acontece o mesmo. Ao participar da decisão de jogar com reservas e sem aptidão e vontade para ganhar contra o São Paulo e o Cruzeiro, para ralar o Grêmio, Tite fica impedido para sempre de treinar o Grêmio.

Quem participa obedientemente, ciosamente, desse desinteresse em ganhar de adversários decisivos do Grêmio, tanto para o título quanto, agora, para a Libertadores, não pode mais treinar o Grêmio.

Sinto, mas foi um risco calculado que o Tite correu.

Não vai amanhã ou depois o Tite treinar o Grêmio depois de ter integrado um consórcio que detalhadamente não ganhou de dois adversários do Grêmio em momento decisivo, por desinteresse ostensivo e objetivo deliberado de desfavorecer o Grêmio.

Se o Tite vir a treinar o Grêmio, juro que deixo de ser gremista.

Porque o Internacional, sob o comando de Tite, tinha o dever moral de esforçar-se para ganhar do São Paulo e do Cruzeiro.

Eu sei que foi decisão dos dirigentes do Internacional jogar assim sem vontade contra o São Paulo e o Cruzeiro. Não foi decisão do Tite.

Mas o Tite executou o plano. Então, para o Tite não tem nunca mais vaga no Grêmio.

Já tinha gente querendo ocupar minha coluna com direito de resposta caso o Grêmio fosse campeão, contra o meu pessimismo.

Não é pessimismo. Isso é consciência de que torço para um time muito ruim, que segundo a lógica só por um aborto da natureza pode ser campeão. E quase foi campeão o Grêmio, é incrível mas quase foi campeão, o que teria sido uma oferta generosa ao meu coração.

Mas um atentado violento contra o meu cérebro.


25 de novembro de 2008
N° 15800 - MOACYR SCLIAR


Imperialismo brasileiro?

O veterano correspondente da revista Newsweek no Brasil Mac Margolis acaba de publicar um artigo que deve ser motivo para reflexão.

Durante muito tempo, diz Margolis, os latino-americanos viram nos Estados Unidos o alvo preferencial de seu nacionalismo. Mas, com os americanos envolvidos em conflitos noutras regiões (e às voltas com a crise financeira), o alvo mudou. Os imperialistas, diz Margolis, agora falam português; o país imperialista é o Brasil.

A matéria lista os possíveis porta-vozes desta acusação: Hugo Chávez, Evo Morales, Fernando Lugo, e, mais recentemente, o presidente do Equador, que no último fim de semana esteve nas manchetes dos jornais brasileiros por causa da briga com a Odebrecht, que construiu naquele país uma grande usina hidrelétrica, com financiamento de a US$243 milhões emprestados pelo BNDES.

A hidrelétrica teve muitos problemas; o governo equatoriano expulsou do país a Odebrecht, e entrou com uma ação internacional para suspender o pagamento da dívida contraída com o BNDES.

O Brasil acabou chamando seu embaixador em Quito, clássica maneira de demonstrar desagrado. Se acrescentarmos a esta conjuntura a briga paraguaia (Itaipu, demonstrações contra os brasiguaios), teremos um quadro que, aparentemente ao menos, fundamenta as ponderações de Margolis.

Mas de que estamos falando, quando falamos em imperialismo? O termo ganhou força no começo do século 20, graças aos teóricos marxistas, e sobretudo graças a Lenin.

Até então, a luta da esquerda e do nacionalismo era contra o colonialismo, que implicava a presença, numa região, de uma potência dominante, com aparato governamental e exército; mas isto foi superado por uma nova, e mais prática, forma de domínio econômico e político:

o capital financeiro monopolístico entrava num país e passava a controlar a produção. Aí emerge a grande potência imperialista, os Estados Unidos.

Agora: ver o Brasil como sucessor dos americanos em termos de “imperialismo” é bobagem. Para começar, a comparação está cheia de contradições.

Margolis assinala a popularidade de que goza Lula no continente, inclusive entre os presidentes nacionalistas, como Chávez e Evo. Claro, em termos regionais, o Brasil, com uma economia de US$ 1,4 trilhões e uma agenda política global, é uma potência. Mas a Argentina também é uma potência em relação ao Uruguai, por exemplo.

Se diferenças de tamanho começarem a gerar conflitos (num processo no qual o ressentimento e a inveja sem dúvida desempenham um papel, ainda que emocional), estaremos bem arranjados. Só falta vermos desfiles de gente carregando cartazes tipo “Brasileiros, go home”.

Tudo isto serve para mostrar a confusão ideológica em que vive nosso mundo, um mundo no qual os rótulos clássicos, tipo esquerda e direita, foram para o espaço. O protesto fanático, contudo, sempre precisa encontrar um alvo, mesmo que para isso tenha de sacrificar a racionalidade.

Conseqüência: com crise e tudo, a indústria das bandeiras sempre terá demanda, porque sempre haverá alguém querendo queimá-las em praça pública (as bandeiras americanas que o digam). A bandeira brasileira por enquanto escapou a este destino. Esperemos que continue assim.

Fantástica dupla de nomes que condicionam destinos: dois governadores, Ivo Cassol, de Rondônia, e Cássio Cunha de Lima, da Paraíba, sofrem cassação, ambos por compra de votos. Cássio e Cassol, cassados? Só podia, né? Só podia.

Olhando as cenas sombrias da catástrofe em Santa Catarina, na qual pessoas perderam familiares e seus poucos pertences, uma conclusão se impõe: às vezes a gente se queixa de pouco. De muito pouco.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Homens que amam demais
Por Layla Marques

Eles são humilhados, se culpam e sofrem, mas sempre justificam as atitudes de suas amadas. Na maioria das vezes, vêm de famílias destrutivas e acreditam que essas mulheres possam amá-los um dia

Amar não é errado! O amor apazigua, tranqüiliza e proporciona uma entrega solta, sem cobranças entre o casal. Mas e quando esse amor se torna excessivo a ponto de fazer você esquecer de si mesma?

Cuidado, ele pode virar um tormento e até uma doença. Mas dessa vez não vamos falar de você, mulher sensível que às vezes ama demais. E sim deles, dos ditos machões e insensíveis: os homens.

Machão e insensível, certo? Errado! Ele pode até ter aquela pinta de durão, do tipo que se esquiva de qualquer palavra amorosa, mas esse tipo de homem ama sim, e ama muito. Para a especialista em comportamento humano e autora do livro Homens que amam demais, Tatiana Ades, eles tendem a se envolver mais que as mulheres.

De acordo com a pesquisa que fiz, com os homens que amam demais, entre 30 e 35 anos, eles são muito mais dependentes afetivamente, que sexualmente. A partir daí achei importante discutir o tema”, diz ela.

Como a maioria dos homens é vista pela sociedade como compulsiva por sexo e não por amor, e como também só existem grupos de ajuda para mulheres, já estava mais do que na hora de falar sobre o assunto, não é mesmo?

“Senti a necessidade do tema quando vivi isso. Tive um namorado ‘Hades’ – deus grego do mundo dos mortos que, por amor, raptou sua amada Perséfone. Percebi que fui co-dependente dele, compartilhando todas as suas paranóias”, conta Tatiana.

Quem são os Homens que Amam Demais?

Geralmente, eles vêm de um contexto familiar destrutivo. Os pontos principais destacados pela autora é o relacionamento simbiótico com a mãe (ou ela é muito próxima ou muito ausente), os pais normalmente são alcoólatras e, de algum modo, os homens que amam demais sofreram violência doméstica, tanto fisíca quanto verbal.

Segundo ela, eles trasportam essas frustações para a vida e repetem a história. “Quando realizei as entrevistas, desmembrei suas vidas, chegando até sua infância. Percebi que muitos deles repetem os padrões de comportamento de sua família, o que afeta bastante seus relacionamentos hoje”, conta.

Outras caracteríticas:

*Na visão dele, ela é sempre a vítima. Tudo que acontece de errado no relacionamento ele se culpa

*Ele quer tanto a aprovação dela que, mesmo sofrendo muito, abre mão de suas vontades para satisfazer as dela

*Ele começa a viver em função da amada, vasculha tudo e corre um sério risco de estar caindo na cilada do ciúmes excessivo

*Ele tem auto-estima muito baixa, por isso não se dá valor e deixa com que essa situação permaneça

Eles são humilhados, se culpam e sofrem, mas sempre justificam as atitudes de suas amadas. Na maioria das vezes, vêm de famílias destrutivas e acreditam que essas mulheres possam amá-los um dia

*Quem aconselha se torna um inimigo, é como se destruísse algo saudável. Na visão do homem que ama demais, o relacionamento dele é normal porque ele sempre vai viver na expectativa de que a situação melhore

* Ele pode se considerar um homem que ama demais quando o amor for sinônimo de sofrimento

*Porque ele a ama muito, não liga de ser humilhado e sempre justifica as atitudes de sua amada.

Este último, o ser humilhado a todo tempo por ela, Tatiana Ades chama de “cegueira emocional”. É como se esse amor obsessivo estivesse mais do que claro, mas ele insiste em não querer ver.

“É muito triste quando você percebe o amor doentio. O casal não aproveita o melhor desse sentimento e corre grande risco de se separar”, explica Tatiana.

E completa: “Para se ter uma idéia, quando um ‘Hades’ se separa da amada ele tem os mesmos sintomas de uma pessoa que está em abstinência de cocaína: tremores, vômitos e até síndrome do pânico”.

A seguir, as Doze Promessas do CoDA (Co-dependentes Anônimos), grupo que busca ajudar homens e mulheres a desenvolver um relacionamento saudável, que com certeza te ajudarão bastante a se amar primeiro:

1- Reconheço que não estou só e que meus sentimentos de vazio e solidão vão desaparecer

2- Não sou controlado por meus medos. Eu supero meus medos e ajo com coragem, integridade e dignidade

3- Experimento uma nova liberdade

4- Liberto-me da preocupação, da culpa e da lamentação quanto ao meu passado e ao presente. Eu me mantenho o suficientemente atento para não repetir

5- Experimento um novo amor e uma nova aceitação por mim mesmo e pelos demais. Eu me sinto genuinamente merecedor de ser amado

6- Aprendo a me ver igualmente aos demais. Em minhas novas e renovadas relações são baseadas na igualdade de ambas as partes

7- Sou capaz de desenvolver e manter relações saudáveis e amorosas. A necessidade de controlar e manipular os outros desaparecerá na medida em que eu aprenda a confiar nas pessoas dignas de confiança

8- Aprendo que é possível recuperar-me e converter-me numa pessoa mais amorosa, mais íntima e capaz de oferecer apoio apropriado. Eu tenho a escolha de comunicar-me com minha família de uma maneira segura para mim e respeitosa para eles

9- Reconheço que eu sou uma criação única e preciosa

10- Não dependo unicamente dos demais para poder me sentir valioso

11- Tenho a confiança de que meu Poder Superior me guia. E venho a acreditar em minhas próprias capacidades

Dica esperta: Identificou o amor excessivo? Então procure um apoio profissional. O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC da FMUSP), por exemplo, oferece terapia para os dependentes de amor. Vale a pena procurar!

Para tonificar músculos, Yoga ou Pilates com bola?

Modalidades praticadas com over ball são diferentes na prática, mas iguais no objetivo: a busca do equilíbrio entre corpo e mente
Da redação

Tudo começou com o velho e bom alongamento. Sim, a prática desse tipo de aula com bolas tornou-se divertida e muito solicitada nas academias.

Até que, com o tempo e a demanda, surgiram novas modalidades. A última delas, o Yoga com Bola, já faz sucesso e gera curiosidade entre os praticantes.

Com tantas alternativas, fica difícil escolher. Febre, o Pilates com Bola é uma das mais conhecidas. Daí, resolvemos explicar a diferença entre um e outro (ufa...)!

Na verdade, a fisioterapia foi pioneira no trabalho com a bola suíça. “Tanto o pilates quanto o yoga em suas origens não tinham a bola como acessório. Essa proposta é nova e vem conquistando adeptos no mundo inteiro.

O objetivo do yoga com bolas é o desenvolvimento integral do aluno: físico, emocional e mental. No pilates, o foco é mais terapêutico, de desenvolvimento físico mesmo”, explica a personal Bartira Elia, da First Personal Studio.

Na aula de yoga a professora utiliza permanências nas posições e, para não sobrecarregar o corpo, há exercícios de relaxamento entre as séries. No pilates, os movimentos são repetitivos, sem relaxamento entre as aplicações.

Yoga com bola

Quem acha que nesse tipo de Yoga não há meditação, se engana. A aula inicia com exercícios de concentração através da respiração, seguidos de técnicas de equilíbrio aplicadas com o acessório. O término se faz com o relaxamento final, que envolve mentalizações positivas e meditação, favorecendo o alívio do estresse.

É uma opção para corrigir a postura e levar uma vida mais saudável. Yoga com bolas, de acordo com Bartira Elia, “pode ser perfeitamente adaptada para qualquer pessoa, só não é recomendada para quem sofre com osteoporose”.

Para ter idéia dos benefícios da prática segue a dica: "Pise em uma bola de tênis e faça pequenos movimentos circulares, de forma lenta.

Perceba como a tensão dos pés diminui. Agora imagine isso por todo o corpo, principalmente na região dos ombros e lombar - este é o efeito da aula de Yoga com Bolas", afirma a especialista.

Resumo de benefícios:
- correção da postura
- melhora da coordenação motora
- melhora da capacidade de concentração
- auxílio no processo de emagrecimento
- aumento da força abdominal
- alívio do estresse em geral

MOACYR SCLIAR

O professor do desejo

Nas aulas práticas, os alunos treinariam diferentes técnicas, que seriam devidamente registradas em vídeo

Ex-ator e ex-produtor de pornochanchada dá aulas de sexo. O ex-ator e ex-produtor de pornochanchadas Dorival Coutinho montou uma escola em que pretendia formar novos alunos pornôs, mas a maior procura foi de homens que querem melhorar o desempenho na cama.

Cotidiano, 19 de novembro de 2008

QUANDO LEU A NOTÍCIA sobre o curso de sexo, seu coração se acelerou: ali estava a oportunidade que vinha buscando há muito tempo.

Aquilo representava, por várias razões, o sonho de sua vida. Em primeiro lugar, porque era, ele próprio, professor universitário de formação, especializado em organizar cursos e treinamentos.

Claro, curso de sexo era algo inusitado, mas nada impedia que o formato fosse semelhante ao de tantos outros cursos. Um carga horária, por exemplo (nada menos que 60 horas: só a prática leva à perfeição).

Diferentes disciplinas: "Carícias preliminares", "Posições", "Iniciação às perversões". O curso abrangeria aulas teóricas e práticas.

Nas primeiras, os alunos deveriam ler e discutir obras clássicas: o "Kama Sutra", os livros do marquês de Sade e outros. Ah, sim, e assistiriam a numerosos filmes, eróticos e pornôs. Teriam de passar por uma avaliação prévia, semelhante àquela feita no famoso relatório Kinsey, realizado nos Estados Unidos.

Tal avaliação estaria a cargo de profissionais do sexo, devidamente treinadas, e que enquadrariam os candidatos em diferentes categorias: "fracasso grotesco", "sofrível", "muito bom" e "sublime".

Nas aulas práticas, os alunos treinariam diferentes técnicas, que seriam devidamente registradas em vídeo e depois analisadas. Um convênio com uma produtora de filmes pornôs poderia ser uma fonte adicional de renda para a escola, mas isso ficaria para depois.

Encerrado o treinamento, os formandos receberiam certificados que poderiam mostrar às esposas e namoradas e que representariam uma credencial no crescente mercado do sexo explícito.

Havia mais duas razões pelas quais o curso o interessava. Em primeiro lugar era, ele próprio, um atleta do sexo, de cujas qualidades centenas de mulheres (512 para ser mais exato; tinha disso um minucioso registro) podiam dar testemunho.

Ou seja, estava em condições de não apenas doutrinar os alunos mas também de mostrar-lhes ao vivo e a cores como fazer amor com uma mulher.

Por último, mas não menos importante, estava desempregado -a faculdade particular em que trabalhava acabara de demiti-lo, exatamente por ter ele se envolvido com uma aluna- e precisava urgente de grana, sobretudo diante da crise que se avizinhava.
Concluída a elaboração do projeto, depois tratou de divulgá-lo, através da Internet e também de discretos anúncios em jornal.

A demanda excedeu de longe as suas expectativas, e logo teve de recusar inscrições. A namorada (ou seja, a ex-aluna) com quem agora estava vivendo, vibrou com a notícia: estava cansada de passar necessidade. Resolveram celebrar com uma orgia monumental.

E aí veio a surpresa, a chocante surpresa. Na cama, e pela primeira vez em sua vida, ele fracassou. A moça tentou estimulá-lo de todas as maneiras, mas nada. A impotência, implacável impotência, se apossara dele.

Adiou o início do curso, enquanto decide o que fazer. Vai esperar um retorno à antiga forma? Vai se limitar às aulas teóricas? Não sabe. O sexo, como o mercado de ações, é absolutamente imprevisível.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha


24 de novembro de 2008
N° 15799 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


O colecionador de livros

Os escritores são alvo preferencial de perguntas indiscretas.

São as que me faz Y., uma leitora que quer saber como trato minha biblioteca, como a formei e se compro livros ou ganho. Y. pretende organizar sua própria biblioteca e acha que sou uma espécie de autoridade na matéria, por causa de uma crônica que escrevi aqui o outro dia.

Ledo engano, Y. Para começo de conversa, minha biblioteca é herdada. Tive um pai e uma mãe que amavam os livros, e uma das primeiras paisagens que guardo na memória são arranha-céus impressos ocupando todo um escritório da casa da Rua Sete, em Cachoeira. Como muitas dessas obras eram de Direito, acabaram desterradas em sucessivas mudanças.

Mas por essa altura eu já tinha sido contaminado pelo vírus do colecionador. Tudo o que sobrava das mesadas, ou, mais tarde, dos primeiros salários, era gasto, em ataques de invencível prodigalidade, nos balcões das livrarias. Cheguei a morar num apartamento em que peças inteiras, mais os corredores, eram tomados por fatias da literatura universal.

Ao me mudar para este em que vivo, tomei uma resolução heróica. Reservei um único lance para as prateleiras. Foram todas construídas a capricho – sem esquecer vidros protetores – por um emérito carpinteiro desta praça.

Aí sucedeu o drama. O número de meus livros era superior ao espaço disponível nas estantes, problema que resolvi da forma mais simples.

Elegi os volumes de que não queria me separar – uma das decisões mais difíceis de minha vida de leitor – e doei os restantes para escolas e para o Mensageiro da Caridade.

Hoje meus livros passam bem, obrigado, Y. São disciplinadamente divididos pelo país de origem, por gênero, por época e por autor.

Sei onde está cada um nas ordenadas fileiras que vão do chão ao teto. Ganho muitos de presente, mas não perdi o vício de comprar outros tantos. Faço novas doações de tempos em tempos.

Algum dia não haverá lugar para mais. Mas te prometo desde já, Y., que não faltará espaço para a tua primeira coletânea de poemas.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana


24 de novembro de 2008
N° 15799 - PAULO SANT’ANA | MOISÉS MENDES (interino)


O fiasco, as nuvens e o Adagalmir

Há um mês, quando o mundo se desregulou, um dia faceiro, outro deprimido por causa da crise financeira, Sant’Ana e eu olhamos para o céu e nos confortamos. Pelo menos, este ano nós vimos Jesus. Ele já escreveu aqui na coluna sobre aquele dia em que Jesus estava escrito nas nuvens. Sant’Ana viu Jesus.

Fiquei de testemunha, porque Jesus não iria aparecer para mim com o Sant’Ana ao lado. Quando o nome de Jesus foi desenhado em letra corrida no céu, logo consenti: é contigo, Sant’Ana. Ele concordou: sim, é comigo, tu apenas valida meu testemunho. Era o que me cabia.

Lembro que, da sala onde estávamos mirando o poente, chegamos a assoprar em direção às nuvens sobre o Guaíba para que o nome de Jesus se desfizesse logo. Um intrometido tentaria compartilhar a aparição daquele entardecer.

Temíamos uma confraternização coletiva, uma algazarra, que um chato estragasse tudo. Imagina, dizia o Sant’Ana, se o Adagalmir inventa de ver.

Não, Jesus não poderia aparecer para inspirar exclamações de auto-ajuda e muito menos do Adagalmir, o falante. A nuvem se desfez, Adagalmir não apareceu. Fomos egoístas. Jesus era só nosso.

Relembrei desse dia das nuvens quando o Sant’Ana e eu fazíamos um balanço de 2008. Foi um ano de admiráveis coisas improváveis.

Vimos Jesus, o mercado financeiro pediu socorro pro Lula, o Cacciola continuou preso e o Obama se elegeu. Nos indagamos sobre o que mais poderia acontecer num ano tão estranho. Eu disse que o Grêmio poderia ser campeão, e o Sant’Ana foi categórico: de que jeito?

E nos recolhemos à divagação remunerada, ao ócio produtivo de reflexões soltas, sem partitura, uma puxando a outra, jazísticas, oscilantes como a bolsa e o Grêmio. Estávamos alegres de manhã, abatidos à tarde, eufóricos à noite.

Sugeri que, se o Grêmio fosse campeão, nada mais nos faria falta até dezembro. Nem a rapadurinha de leite que o Sant’Ana consome ronronando, com os olhos fechados como um esquilo morde uma noz, enquanto migalhas vão se esfarelando pelo chão. Nem a Coca light faria falta, nem o sonho dele de cercar a Redenção, nem a sesta no meio da tarde, nada.

Quinta-feira, antes de viajar, Sant’Ana disse que eu ocuparia seu espaço nesta segunda e pediu que eu falasse da rodada do campeonato, mesmo que o domingo não fosse tão bom. Ele não imaginaria que seria tão trágico.

Depois do fiasco em Salvador, me rendo ao pessimismo que o Sant’Ana disseminou aqui na coluna, na TV, no rádio, na ZH online. Achava que aquilo era uma artimanha e secretamente imaginava que o Brasileirão seria conquistado na polvadeira, como na Batalha dos Aflitos, há exatos três anos. Seria na última rodada, no último minuto.

E teríamos de novo um livro, um DVD, um filme e muitas lendas. O Grêmio se consagraria como único time verdadeiramente literário do Brasil, que exige livro grosso, desses que param de pé, enquanto os outros continuariam acomodando seus feitos em livrinhos de bolso. Mas o pessimismo do Sant’Ana era sábio, sólido, rochoso. O time do Grêmio era balofo, poroso, gasoso.

O que nos interessa agora são as resoluções de ano-novo. Vamos continuar a conversa da semana passada, quando estabelecemos resoluções na área afetiva, social, política, mas não chegamos a um entendimento.

Um dia desses, estávamos devaneando sobre discordâncias e o que não pode ser deliberado, como as mensagens que nos chegam pelas nuvens, e aí entrou na sala o Adagalmir.

Hoje é um daqueles dias sem nuvens, disse o Sant’Ana, espichando o olhar para o infinito. Adagalmir contemplou o céu por alguns segundos e se foi, silencioso, resignado, sem dizer nada.

E ficamos então com mais uma constatação de 2008. A complexa linguagem das nuvens é uma ciência que o Adagalmir ainda não domina. Se o Adagalmir aparecer hoje com provocações sobre futebol, vamos desconversar e, liricamente, falar de nuvens.

Hoje à noite, no Leopoldina Juvenil, a RBS homenageia os jubilados, seus funcionários há mais de 10 anos. É uma festa de reconhecimentos e afetos. Espera-se que o Sant’Ana discurse. Estarei lá, completo 20 anos de casa. Acho até que vou de fatiota.


24 de novembro de 2008
N° 15799 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


A literatura em perigo (I)

O nome de Tzvetan Todorov não diz muito ao leitor de romances. Trata-se de um professor, de um crítico, de um teórico da literatura, um dos nomes mais citados nos círculos acadêmicos. Nasceu em 1939 na Bulgária e vive na França.

Foi um dos protagonistas do pensamento estruturalista do século 20. Sua obra mais recente – e explosiva – é um livro de 89 páginas, saído pela Flammarion na coleção Café Voltaire, chamado A Literatura em Perigo (La Littérature en Péril), ainda não traduzido para a língua portuguesa. O título é chocante.

Todorov, atualmente pai de jovens escolares, está preocupado – dir-se-ia alarmado – com o ensino da literatura no Ensino Médio. Alarma-se com os professores que preferem ensinar teorias acerca da análise das obras e não a ensinar a compreensão das obras em si mesmas.

Isso deriva de um entendimento abstrato da literatura, que trata somente dos aspectos formais do romance (personagem, tempo, espaço, enredo, narrador etc.), e que não dão o passo seguinte, nada falam do que as obras significam, que mundos evocam – enfim, o que elas nos dizem e em que elas nos ajudam. Conhecer a literatura, assim, acabou por tornar-se mais importante do que compreendê-la.

A Literatura em Perigo possui certo tom de mea culpa; mas Todorov assevera que o objetivo do estruturalismo era a compreensão do sentido último das obras; ocorreu, entretanto, uma lamentável deturpação: o que era método tornou-se objeto, e o método substituiu a compreensão da obra em seus aspectos transcendentes e extra-literários.

O estudo na escola secundária não pode ter por finalidade ilustrar conceitos teóricos ou analisar os aspectos meramente técnicos de um romance, mas dar ao aluno um meio de entender a condição do homem sobre a terra.

Essas pedestres análises escolares, reduzidas a conceitos seguros – em que o professor não precisa, portanto, se arriscar – empobrecem o ensino e em nada colaboram para o crescimento do estudante.

Todorov tem esta frase, que deveria ser afixada em toda sala de aula, e que apenas traduzo: “O objeto da literatura é a condição humana; aquele que a lê e a compreende virá a ser, não um especialista em análise literária, mas um conhecedor do ser humano”.

Mas Todorov não lança anátemas apenas sobre professores: lança acusações aos escritores de hoje. Isso veremos na seqüência, e é ainda mais grave.


24 de novembro de 2008
N° 15799 - LF VERISSIMO


Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não revela a idade, mas insiste que todas as especulações a respeito são exageradas. Diz que é verdade que carregou Getúlio Vargas no colo, mas ele já era presidente na ocasião.

Dorinha decretou que nas reuniões do grupo que lidera, as Socialaites Socialistas, que lutam pela implementação no Brasil do socialismo soviético no seu estágio mais avançado, a volta ao tzarismo, todas usem crachás com seus nomes, pois com o botox ninguém reconhece mais ninguém.

O grupo acompanhou atentamente as eleições presidenciais americanas e torceu por Barack Obama, cuja vitória, todas concordaram, representou o ápice da emocionante luta dos negros americanos contra a discriminação racial.

Tatiana (Tati) Bitati era a mais entusiasmada com a vitória de Obama e declarou que aquilo deveria servir de exemplo para todas e ser imitado pelo grupo, só havendo um problema: ninguém conhecia um negro americano, ainda mais depois que o Ron Carter deixou de vir com tanta freqüência ao Brasil. Foi quando a...

Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta lilás em papel turquesa perfumado, com um aviso para não aspirar demais o perfume, “Mange Moi”, o que poderia levar a cenas de furor sexual e a embaraço público.

“Caríssimo! Beijos centrifugais. Amo minhas colegas das Socialaites Socialistas mas elas costumam duvidar do que eu digo, embora eu nunca minta. Nunca acreditaram no meu caso com Randolph Scott e Marguerite Duras – ao mesmo tempo! A inveja, hélas, é um ácido social que tudo corrói.

Foi assim quando convidei-as para conhecer o Picasso que acabara de comprar. Custaram a acreditar que era mesmo um sobrinho-neto do Picasso que estava pendurado na minha sala, apesar da certidão de nascimento e do Jean-Paul, que era como se chamava o rapaz, jurar que era autêntico.

E foi assim quando, durante a discussão sobre a lição que a eleição do Barack Obama nos trouxera e como aproveitá-la, revelei que conhecia um negro americano a quem poderíamos demonstrar a mesma ausência de discriminação.

Não vem ao caso como conheci o antropólogo Gideon ou qual foi o grau do nosso relacionamento, só posso dizer que ele aprendeu muitos costumes tropicais exóticos comigo e me ensinou a correta pronúncia da palavra ‘Uau!’.

Pelo que eu sei, Gideon ainda está no Brasil, tentando nos compreender. Apesar da incredulidade de Tati e das outras, anunciei que o trarei para a nossa próxima reunião, quando poderemos fingir que ele é o Obama e nós somos americanas.

Agora só tenho uma preocupação. Preciso avisar ao Severino, meu porteiro, que o Gideon é americano. Senão ele pensa que é brasileiro e manda subir pelo elevador de serviço. Da tua democrática Dorinha.”

domingo, 23 de novembro de 2008


NAOMAR DE ALMEIDA FILHO

O fim do mestrado...

Quais os antecedentes dessa invenção da burocracia acadêmica brasileira? A que fins serviu? Servirá no futuro?

...TAL COMO introduzido no Brasil, durante a ditadura militar, parece próximo.
Na atualidade, praticamente todos os países com maior desenvolvimento econômico e social têm mestrado como formação profissional.

Entre nós, o grau universitário chamado mestrado foi instituído em 1965 pelo famoso Parecer Sucupira, que definiu diretrizes para a pós-graduação brasileira. Nesse contexto, o título foi criado como habilitação à docência em nível superior.

Quarenta anos depois, tal definição só existe no Brasil e, em menor escala, em alguns países latino-americanos. Quais são os antecedentes dessa invenção da burocracia acadêmica brasileira? A que fins serviu? Servirá no futuro?

O termo "master", "meister" (daí o tratamento plebeu -"mister"- na língua inglesa), "maître", mestre, em português, tem raízes profissionais. Na Europa medieval, designava o artesão experiente que dominava seu ofício e, autorizado pelas corporações, estava apto a formar aprendizes.

A universidade formava então apenas "doctors", senhores da "doctrina". Só na era moderna começou a titular profissionais. A Reforma Humboldt, instituidora da universidade de pesquisa em 1810, manteve o doutorado como láurea acadêmica maior. Mas acolheu o mestrado como grau acadêmico intermediário, em suplemento à láurea menor, o bacharelado.

A partir do século 20, em toda a América do Norte e nos países da "commonwealth", o título de "master" tanto se refere à formação pré-doutoral quanto implica designação direta da área profissional.

O administrador recebe o título de MBA ["master of business administration"]; o pedagogo, M.Ed. ["master of education"]; o sanitarista, M.P.H. ["master of public health"]; o psicólogo, M.Psychol. ["master in psychology"]; e assim por diante.

Exceções são algumas profissões que seguem o padrão da medicina, em que graduação [M.D. -"medical doctor"] é sempre doutorado. E, em muitas universidades, o curso de direito concede grau de J.D. ["juris doctor"].

Na tradição mediterrânea, raiz da universidade brasileira (através de Coimbra e depois pela influência da Sorbonne e das "écoles polytechniques"), o título mestre nunca foi utilizado. Preferia-se licenciado (modelo francês e espanhol) ou bacharel (modelo lusitano).

Com o Processo de Bolonha, a partir de 1999, unifica-se o mestrado como diploma do segundo ciclo na maioria das universidades européias. Em Portugal, Holanda e Suíça, por exemplo, médico é agora mestre em medicina.

Na França, Alemanha e Itália, cursos em complemento às láureas profissionais são igualmente referidos como mestrado.
Neste contexto de crescente internacionalização da universidade, vale a pena continuarmos sucupiranos?

Faz sentido manter no Brasil uma exótica licenciatura para ensino superior chamada mestrado? Não seria interessante "masterizar" a formação profissional, com soluções criativas para impasses e limites dos modelos internacionais?

Respostas a essas questões podem ser dadas pelo Reuni, pelo menos no âmbito da rede federal de ensino superior. No plano nacional, a Andifes avança na construção do chamado "Reuni da pós", que deve contemplar ampliação maciça de vagas e propostas de reestruturação dos ciclos pós-profissionais. No plano local, várias universidades desenvolvem modelos de pós-graduação compatíveis internacionalmente.

Assim é que vimos implantando na UFBA o modelo conhecido como Universidade Nova, que, além dos bacharelados interdisciplinares, prevê expansão dos mestrados profissionais (devidamente redesenhados) e equivalência entre essa modalidade e cursos de especialização.

No marco legal superado da pós-graduação brasileira, mestres formados no exterior em graduação profissional têm sido oficialmente credenciados por colegiados e câmaras como docentes de nível superior. Haverá certamente reação às mudanças entre os que se beneficiaram do equívoco regulatório.

Mas, para recriar a pós-graduação brasileira, contamos enfim com os órgãos normativos e de coordenação da educação superior.

O Conselho Nacional de Educação poderia rever o Parecer Sucupira, e todo o marco legal derivado, à luz das mudanças em curso em praticamente todos os países do mundo desenvolvido.

E a Capes, formada por representantes das comunidades acadêmicas, poderia elaborar diretrizes específicas para os mestrados profissionais, fomentando propostas capazes de tornar a universidade brasileira mais integrada às redes internacionais de produção e circulação de ciência, arte e cultura.

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 56, doutor em epidemiologia, pesquisador do CNPq, é professor titular do Instituto de Saúde Coletiva e reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

FERREIRA GULLAR

A sociedade culpada

O médico entrou em parafuso, internou-se numa clínica, fechou o consultório e virou jornalista

ESTAVA NA MODA afirmar que loucura não existe, que os remédios psiquiátricos, como o Haldol, eram uma camisa-de-força interna para manietar o doente mental (que não era doente) e que a internação era um ato de violência contra alguém que pensava diferente.

Um conhecido meu, médico psiquiatra de mente amplamente aberta, aderiu a tais idéias e conforme elas passou a atuar. Um de seus pacientes era um rapaz de 18 anos que, certo dia, entrou em delírio.

Os pais foram procurá-lo, dispostos a internar o filho, propósito esse que foi radicalmente repelido pelo médico. Os dois alegaram que já não dormiam havia alguns dias porque o filho não parava de esbravejar e ameaçar agredi-los. Coerente com suas idéias, o médico tomou uma atitude corajosa: decidiu levar o rapaz para sua própria casa.

Disse e fez, mas, não se passou um dia inteiro, sua mulher reagiu: não suportaria aquele rapaz a falar sem parar dentro de casa; o marido teria de escolher entre ela e o paciente.

Disse-lhe isso pelo telefone e avisou que, naquele momento, mudava-se para a casa da mãe. Tomado de surpresa, ele não soube o que dizer mas dispôs-se a conversar com a esposa e convencê-la a voltar para casa.

Naquela mesma noite, foi encontrá-la, mas nada conseguiu. Para encurtar a história: três ou quatro dias depois, o rapaz suicidava-se, jogando-se da janela do apartamento. O médico entrou em parafuso, internou-se numa clínica de recuperação, depois fechou o consultório e virou jornalista.

Nos anos 60 do século passado, quando se drogar era visto como um modo de contestar a sociedade de consumo, muito jovem pirou e foi parar nas clínicas psiquiátricas.

Surgiu então a tese de que o diagnóstico de esquizofrenia era fruto de um preconceito reacionário e burguês. Na verdade, o que a "máfia de branco" tentava fazer era calar os jovens e sufocar a rebelião que ia mudar o mundo. Muitas famílias foram arrastadas a esse sorvedouro.

Dentre tantos, houve o caso de um amigo meu, cujo filho, ao tomar uma dose de LSD, entrou em delírio e não conseguiu mais sair dele: queixava-se de que seu cérebro havia desaparecido.

Em seguida, entrou em crise furiosa e tentou agredir a mãe. O pai interveio e ele, inesperadamente, saiu pela porta da rua e sumiu. Um mês depois, soube que estava detido numa delegacia de polícia, por ter tentado roubar um carro.

Foi até lá e obteve permissão para levá-lo para casa, já que estava evidentemente delirando. Ao chegar, ele se trancou no quarto e tentou fugir pela janela (moravam no quinto andar); como não conseguiu, começou a quebrar os móveis do quarto.

O pai chamou uma ambulância e o internou. Uma semana depois, foi chamado pela equipe médica da clínica para uma conversa: soube então que a causa da doença de seu filho era social e familiar; quem primeiro deveria ser tratado era a família. "Então soltem ele e me internem", retrucou o pai, fulo da vida.

Inconformado com o diagnóstico, pediu um encontro com a médica que tratava do seu filho. Se a causa era familiar, por que os dois outros filhos seus não adoeceram nem se meteram com drogas?

A resposta da médica foi que alguns adolescentes são mais vulneráveis que outros e, por isso, mais facilmente atingidos pelos problemas sociais e familiares.

"Mas, na minha família", disse o pai, "não existe nenhum problema grave, que eu saiba, já que minha mulher e eu nos damos muito bem". "É o que todos os pais dizem", respondeu a médica, "porque não querem admitir sua culpa na doença do filho".

Foi aí que ele lançou de um argumento definitivo. "Doutora Sílvia, qualquer órgão do nosso corpo não pode adoecer? Por exemplo, uma pessoa não pode sofrer do fígado, ou dos rins ou dos pulmões, sem que a sociedade ou família tenham nada a ver com isso? Ou será que pedra no rim é culpa dos parentes?"

"Certamente que não", admitiu a médica. "Então", retomou ele a argumentação, "qualquer órgão do nosso corpo pode sofrer de uma anomalia ou por razões genéticas ou lá pelo que for, não pode?"

Ela admitiu que sim, pode. "Quer dizer que o coração pode adoecer, os rins, o estômago, só o cérebro que não? Se o cérebro adoecer, a causa é ou social ou familiar? Não pode haver, por exemplo, uma disfunção na química cerebral?"

Não sei qual foi a resposta da médica, mas a verdade é que a medicina descobriu que a causa dessa doença chamada esquizofrenia é a maior ou menor absorção, pelos neurônios, de uma substância chamada dopamina.

Essa descoberta permitiu a elaboração de remédios que, se não curam definitivamente a doença, permitem ao esquizofrênico conviver e até mesmo trabalhar.


As malas e os malas de Danuza

Em livro com relatos de viagens pela Europa, colunista critica a celebrização dos chefs e reflete sobre a elegância feminina

Rafael Andrade/Folha Imagem


Danuza Leão no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro

PLÍNIO FRAGA
DA SUCURSAL DO RIO


Ter dinheiro sem ter boa cabeça é o caminho mais curto para a deselegância. O que está muito na moda está fora de moda. Criticar evita o infarto. A alta-costura não existe mais. Uma mulher requintada é discreta, magra e não usa salto alto. No máximo um saltinho.

Ouvir frases como essas -na contramão da obviedade e na esquina da maledicência bem-humorada- eram privilégios dos poucos amigos que Danuza Leão cultua, ainda mais se entrecortadas pela delícia de estar numa bodega em Sevilha, num bistrô em Paris ou numa tratoria em Roma.

O novo livro da colunista da Folha Danuza Leão, "Fazendo as Malas", pode parecer uma simples reunião de dicas de turismo. É possível embarcar nesse roteiro prosaico com bastante deleite, acompanhando-a por quatro cidades européias.

Mas os relatos de Danuza permitem uma viagem mais profunda, numa análise de como o consumo das idéias, valores e produtos pelos anônimos se transforma em história. Ou, ao menos, em boas histórias.

Danuza começa afirmando que suas malas de viagens são proporcionais aos seus critérios. "Devo confessar que meus critérios são sempre exagerados", diz, logo nas primeiras páginas. Mas os critérios dela são argutos e estão longe do politicamente correto. Leves como não podem ser suas malas.

O livro foi escrito a partir de uma viagem a Sevilha que Danuza tinha programado para março deste ano. Após uma conversa com o editor Luiz Schwarcz, que já havia publicado sua autobiografia, "Quase Tudo" (mais de 170 mil exemplares vendidos), ela esticou até Lisboa, Paris e Roma. De posse de um bloquinho, anotou quase tudo o que comeu, bebeu, conversou e viveu.

Ao voltar ao Brasil, debruçou-se para concluir uma obra que mescla programas de viagens e uma penca de observações e confissões saborosas. "Já fui bem consumista, mas melhorei muito, até porque o que vejo não me dá mais a taquicardia que dava quando, por exemplo, eu deparava com um vestido deslumbrante", assume ela.

Combate chavões ao citar que, em qualquer lugar do mundo, pede-se um copo de vinho ou champanha -"un verre de vin", "a glass of wine". "Só no Brasil existe o hábito de pedir uma taça de vinho, ou uma tacinha, pior ainda."

Ao relatar um passeio com uma amiga, justifica a ida ao café mais próximo para "criticar os horrores" das vitrines, exercício que afirma evitar a possibilidade de ataques do coração.

Comemora o fracasso alheio, em nome do bom gosto: "Aquele restaurante de Nova York e Los Angeles, o Nobu, pretensioso até mais não poder, abriu em Paris e fechou, por não ter feito nenhum sucesso.

Deus existe e, às vezes, é justo. A-do-rei". Não perdoa a celebrização dos chefs. "Tenho o péssimo hábito de gostar de ser muito bem recebida onde quer que eu vá, e a vaidade dos novos chefs me deixa petrificada. Por quem se tomam eles? Por Deus?"

Ao se deparar num restaurante italiano com Lee Radziwill, a irmã de Jacqueline Onassis, destila a arte feminina de medir com os olhos. "Claro que olhei muito para ela (disfarçadamente), e refleti sobre o que faz uma mulher ser elegante. Elas se vestem sempre de maneira bastante discreta, e é raro usarem cores fortes."

Matemática Chanel

Danuza diz que mulheres elegantes devem estar atentas a uma lei matemática de madame Chanel: se a mulher é pequena, não deve usar salto alto; simples questão de proporção. Ex-modelo nos anos 50, Danuza desdenha do mundinho fashion. "A moda mudou.

Adeus à alta-costura, adeus aos vestidos que embelezam as mulheres. O que existe hoje deveria ter outro nome, diferente de "moda", pois essa terminou quando Givenchy, Valentino, Saint Laurent saíram do palco.

Agora é outra coisa, em algumas ocasiões até divertida." No livro, a ex-fumante Danuza expõe outros vícios: "Como toda mulher que se preza, sou louca por sapatos e botas". Em Paris, neste ano, viu-se próximo de quebrar suas regras ao "quase desmaiar" quando se deparou com uma linda sandália salto 12. Teve de comprá-la.

"Quando voltei ao Rio, vi que jamais usaria a sandália, até porque, como perdi o hábito, não sei mais me equilibrar em cima de saltos. Mas rapidamente soube o que fazer: ela foi para a estante, onde posso vê-la o tempo todo (e lembrar das minhas loucuras)."
De perto ninguém é normal nem santo, prova Danuza ao narrar incidente em Roma.

"Ia atravessando a rua -o sinal estava verde para mim e eu acreditei- quando veio um carro, passou o sinal vermelho e quase me atropelou. Sabe quem estava ao volante? Um padre. Será que isso não é pecado?"

FAZENDO AS MALAS
Autora: Danuza Leão
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 35

sábado, 22 de novembro de 2008



23 de novembro de 2008
N° 15798 - MARTHA MEDEIROS


De biquíni no shopping

Lá nos idos de 1997, quando alguns dos meus leitores ainda eram crianças, eu escrevi uma crônica chamada Provação, uma palavra que significa sofrimento e infortúnio. E o assunto era era sobre isso mesmo. Sobre a provação (ato de provar) biquínis em lojas. Sofrimento. Infortúnio.

Se eu precisasse fazer uma lista das coisas que menos gosto na vida, ela não seria muito extensa, pois vim ao mundo com uma boa dose de benevolência, mas “experimentar roupa” certamente constaria desse rol.

Por exemplo, já me apaixonei por alguns vestidos expostos nas vitrines, porém não costumo levar o caso de amor adiante: só de imaginar o ritual de aproximação me dá uma preguiça oceânica.

Ter que entrar numa cabine, tirar os sapatos, a calça, a camiseta, o blusão (imagine que é inverno), colocar a peça nova sem poder retirar a etiqueta, a atendente esperando ansiosa do outro lado da cortina, a luz estourada do provador realçando todas as deficiências da sua epiderme, o espelho não sendo muito caridoso com seus quadris (engraçado, ontem eu não estava assim redonda) e seus pensamentos avisando: você não tem bolsa que combine com esse vestido, criatura!

Esqueça, não serviu. Tire tudo, recoloque seus muafos (suas roupas envelheceram 10 anos nos últimos 10 minutos), enfrente a cara de decepção da atendente e volte correndo pra casa. No trajeto você lembrará: que gênia eu sou, sigo sem um único trapo para usar hoje à noite, e a festa é lá em casa, pra que bolsa?

Tudo café pequeno diante da tarefa inglória de provar biquínis. Sei que você não quer falar sobre isso, mas é preciso, estamos em plena época do suplício, o verão está batendo à porta. Aposto 10 contra um que você passará o Réveillon em alguma praia. Vai ter que comprar pelo menos um biquíni novo. Unzinho só. Não dá pra escapar.

Então, ao trabalho: coloque um sorriso no rosto e finja que é a coisa mais normal do mundo ficar nua dentro de um provador minúsculo forrado de espelhos por todos os lados, mostrando você de frente, de costas e de lado em sua infinita brancura glacial. Sim, você ainda não está bronzeada.

Segue leitosa, o que não valoriza nada o biquíni que está provando, mas tudo bem, abstraia, pense que é final de fevereiro e que até sua alma já está torrada. Agora é só torcer para que a parte de cima sirva e a parte de baixo também, o que é praticamente um milagre.

Eu abençôo todas as lojas que vendem as partes do biquíni de forma avulsa, permitindo que a gente misture estampas e troque os tamanhos. P em cima, GG embaixo. Acertei? Claro que não, logo se vê que me falta silicone – inclusive no cérebro.

Quem não nasceu Ana Hickmann aqui faz, aqui paga e aqui se diverte, porque só rindo de certas provações femininas.

Um excelente domingo especialmente para você.


23 de novembro de 2008
N° 15798 - MOACYR SCLIAR


A imbatível Tamar

Não faltam mulheres admiráveis na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, e cada um de nós poderia fazer a sua lista com numerosos nomes. Na minha lista há uma personagem que me parece absolutamente fascinante, o sonho de todo ficcionista, uma mulher chamada Tamar.

A narrativa aparece logo no começo do Livro, em Gênesis, capítulo 38. Ali encontramos o patriarca Judá, que tem três filhos: Er, Onan e o caçula Shelá. Cabia ao patriarca arranjar esposas para seus filhos (naquele tempo a noção de paixão, de namoro, simplesmente não existia) e, para o primogênito Er, ele escolhe Tamar, cuja descrição não aparece no texto, mas que podemos imaginar como mulher jovem e bela.

O casamento se realiza, mas não resulta em filhos, o que, à época do “crescei e multiplicai-vos”, representava uma tragédia. Da qual aparentemente Er é culpado, porque Deus o faz morrer.

De acordo com os costumes tribais, se o marido morria sem deixar descendentes, cabia ao seu irmão ou a um parente próximo engravidar a viúva para que as propriedades não ficassem sem herdeiro. Onan, o segundo irmão, revolta-se contra este desígnio: ele não quer servir de banco de esperma.

De modo que cumpre a tarefa, mas à sua maneira: vai para a cama com Tamar, tem relações com ela, mas no momento decisivo, ejacula no chão (o termo “onanismo” não se refere, portanto, à masturbação, como todo mundo pensa, mas é, na verdade, um coito interrompido). Uma transgressão, portanto, pela qual Onan também é punido por Deus com a morte.

Sobra o caçula, Shelá, que está entrando na adolescência. Tamar o quer para esposo, mas agora é o patriarca quem vacila: esta mulher dá azar, pensa ele, já perdi dois filhos, não quero perder o terceiro. Sai-se com respostas evasivas: Shelá ainda não está maduro para isso, vamos esperar etc.

Tamar fica furiosa. Ela agora exige seus direitos. Quer ter um filho de linhagem patriarcal e conseguirá isto de qualquer maneira. Recorre então a um truque espantoso.

Sabendo que Judá, criador de ovelhas, vai a uma feira desses animais numa localidade próxima, disfarça-se de prostituta, posta-se à beira do caminho e consegue seduzi-lo (ajudada pelo fato de que o velho, recentemente viúvo, decerto carecia de mulher).

Judá, sem nada perceber, tem relações com a mulher, que lhe cobra, por isso, um cabrito. Cabrito ele não tem, só ovelhas; mandará o cabrito depois.

A suposta prostituta exige que ele deixe, como garantia, os emblemas de sua dignidade patriarcal: o cajado, o sinete, o colar. Judá vacila, mas resolve aceitar.

Voltando à casa, manda um amigo atrás da mulher, mas ninguém a encontra, seu paradeiro é um mistério. Meses depois, o escândalo: Tamar está grávida. Furioso com o que parece uma traição à sua família e um desafio à sua autoridade, Judá condena-a à morte na fogueira. Na hora em que vai ser queimada viva, Tamar dirige-se à multidão que ali está:

– Vocês não querem saber quem é o pai da criança que trago no ventre?

Ato contínuo, mostra o cajado patriarcal, o sinete, o colar. Judá dá-se conta do que aconteceu, suspende a execução e declara que cuidará de Tamar, que dá à luz a gêmeos.

Durante anos esta história me fascinou, sobretudo por causa de Onan. Mas aos poucos fui me dando conta da importância simbólica de Tamar, de sua patética e às vezes até insólita luta para exigir o filho a que tem direito.

Nasceu daí o romance Manual da Paixão Solitária, que a Companhia das Letras estará lançando na semana que vem. Aqueles que lerem me darão razão: como personagem, Tamar é imbatível.

Agradeço as mensagens de Neide La Salvia, fazendo boas considerações sobre reforma ortográfica; da farmacêutica Berenice Goulart Dallagnol, defendendo uma postura ética nas farmácias; de Helena Stumpf Morelli que, a propósito da chegada do verão e dos riscos dos raios solares, comenta: “Fico pensando na sabedoria das japonesas e das damas antigas, que nunca saíam ao sol sem suas sombrinhas”.

A Lilian Pinto aplaudiu O Baile e a Vida, e a Jaine S. B. Bonardi, de Uruguaiana, informa que o Clube Comercial da cidade realizará um baile-nostalgia com Norberto Baldauf e sua orquestra.

O dr. Sergio Celia e a professora Rosa Maria Pinheiro de Matos gostaram da crônica do Vida em que falei sobre a dificuldade de comunicação entre médicos e pacientes, e a Rafaela K. Dal Molin envia dois textos, também da internet: num deles um médico diz que pagou R$ 44 a seu cabeleireiro, mas que um paciente recusou-se a pagar-lhe R$ 34 por uma consulta, achando demais.

No outro texto, um médico descreve a “síndrome tigróide”: os “tigres” são pessoas que apresentam “busca incessante e compulsiva por atendimento médico”, “atestadomania” e “hiperqueixia”, isto é, queixam-se demais.

Mas a drª. Mariza Montoya, por outro lado, lembra os bons tempos em que os médicos tinham mais tempo para seus pacientes. A propósito da crônica A Conspiração dos Objetos, Maria Elizabeth Knopf Beth expressa sua aprovação, denunciando as tesouras como particularmente perversas e prontas a sumir.

O dr. Flavio Seibt e a professora Gabriela M. de Brito, de Venâncio Aires, também gostaram da crônica e até mandaram emoldurá-la;

o dr. Flavio escreveu a sua própria versão sobre o tema, na qual diz que, para ele, o objeto que mais some é o leva-tudo, que acha mais apropriado denominar de “perde-tudo”.