quinta-feira, 13 de julho de 2023


13 DE JULHO DE 2023
ZÉ VICTOR CASTIEL

Ao meu primo André Abujamra

Tenho vários primos-irmãos. A todos dedico minha admiração e carinho. Ouvindo, no entanto, em um aplicativo de música, a obra musical de um primo querido, André Abujamra, que, apesar de paulista, passava suas férias em Atlântida e Imbé, e com o qual dividi, de certa forma, a infância e a adolescência, me deu vontade de escrever uma carta a ele.

"Querido primo, você é um nome que ressoa com magia e genialidade na música brasileira. Com uma carreira repleta de conquistas e uma mente brilhante que não conhece limites, você cativa nossos corações e mentes com sua arte única. Sua música transcende fronteiras, navegando por oceanos de gêneros e estilos, sempre inovando e surpreendendo.

Você é um verdadeiro alquimista sonoro. Sua habilidade de fundir elementos musicais díspares, criando harmonias exuberantes, é um presente para nossos ouvidos. Seus arranjos intricados e melodias sedutoras nos levam a viagens transcendentais, em que a imaginação é livre para dançar com suas notas.

Não apenas um músico virtuoso, mas um poeta sonoro também. Suas letras são verdadeiros poemas, carregados de emoção e reflexões profundas sobre a existência humana e o mundo ao nosso redor. Você nos convida a questionar, a sentir e a sonhar, estimulando-nos com suas palavras sinceras e provocativas.

Além de sua carreira solo brilhante, deixa sua marca em projetos colaborativos, compartilhando seu talento com outros artistas igualmente talentosos. Sua colaboração com músicos diversos enriqueceu o cenário musical brasileiro, trazendo uma fusão de culturas e estilos que nos enche de inspiração e admiração.

Mas além de seu brilho musical, há algo especial em você: sua autenticidade. Um espírito livre, um artista que não se conforma com o status quo, sempre desafiando fronteiras e expectativas. Sua coragem em experimentar e ser fiel a si mesmo é inspiradora e nos lembra que a arte é uma expressão verdadeira e pessoal da alma. Te amo, primo."

Recomendo a todos que visitem a obra do André, um cara com um coração enorme. Uma pessoa doce, que, de maneira discreta, mas sempre brilhante, faz trilhas para filmes de Tarantino e é indicado a Grammys. Um esteta que emociona. Um artista brasileiro.

ZÉ VICTOR CASTIEL

13 DE JULHO DE 2023
DECISÃO DA ELETROBRAS

Confirmada intenção de vender usina no RS

A diretoria da Eletrobras confirmou oficialmente ontem o objetivo de vender a usina de Candiota 3, abastecida a carvão e localizada no município de Candiota, na Região da Campanha, como parte da estratégia de zerar emissões de carbono até 2030.

O vice-presidente-executivo de Estratégia e de Desenvolvimento de Negócios, Elio Wolff, revelou que há conversas em estágio "avançado" com potenciais compradores. Embora nenhuma tratativa tenha chegado à fase final até o momento, a expectativa é de que o negócio seja concluído ainda neste ano. O risco de fechamento da usina preocupa a cidade de 10,7 mil habitantes, em razão do impacto econômico.

Quase metade dos trabalhadores formais do município atua na cadeia do carvão e da energia elétrica, cujas receitas respondem por 40% do orçamento local.

O presidente da empresa, Wilson Ferreira Júnior, detalhou os planos de descarbonização em entrevista coletiva online realizada depois de encontro privativo com acionistas.

Alternativas

Ele confirmou que a venda das termelétricas a gás ou a carvão remanescentes faz parte de uma estratégia para converter a Eletrobras em referência global em geração de energia limpa, com foco em hidrogênio verde - fonte energética com menos impacto ambiental por derrubar a emissão de poluentes e utilizar energia renovável em sua produção.

- A decisão é de venda da usina. Não significa que vá ser fechada, pelo contrário. Hoje, usinas podem continuar funcionando oportunisticamente. Locais como o Rio Grande do Sul têm bastante volatilidade em relação ao clima, pode não ter água ou vento em algum momento, então pode ser necessário um complemento termelétrico - disse, quando questionado por ZH sobre o destino específico de Candiota.

Isso significa que, após encontrar um comprador, a unidade de Candiota poderia entregar energia sob demanda em vez de fechar as portas de vez. Ferreira lembrou que as usinas 1 e 2 de Candiota já foram encerradas por razões ambientais e que a estrutura ainda em operação foi modernizada recentemente e tem vida útil para funcionar, pelo menos, até 2040. O presidente da Eletrobras lembrou que a exportação de energia para países próximos seria outra opção estratégica.

Não foram mencionados os nomes das empresas em tratativas de aquisição da usina, que é capaz de gerar 350 megawatts de energia (MW), o suficiente para atender 8% da população gaúcha, ou os valores estimados para a negociação. Candiota 3 tem contrato para venda de energia até dezembro de 2024.

MARCELO GONZATTO

quarta-feira, 12 de julho de 2023


12 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

Anfitriões do acaso

O celular amaldiçoou o interfone e a campainha. Acabou com o charme de ambos. Liquidou a história de surpresas e de encontros intempestivos e agradáveis. O fato de poder ligar ou mandar mensagens a qualquer instante serviu para restringir a convivência.

Aparecer pessoalmente, sem avisar, virou falta de educação, atitude invasiva, comportamento inapropriado. O interfone toca ou a campainha vibra e todos de casa já perguntam: "quem deve estar incomodando a essa hora?". Não importa o turno, o barulho intermitente é um dos menos desejados pela família. O som é tão odiado quanto o de um despertador.

Qualquer visita soa como perturbação da ordem doméstica. O imprevisto surge como sinônimo de encargo. As pessoas se fazem de múmias para não sair do conforto de seus afazeres e cantinhos.

Atender ao interfone ou à campainha é se responsabilizar pelo trabalho de conversar, ou de descer, ou de abrir a porta, interrompendo suas atividades. Ninguém quer assumir esse compromisso. As visitas passaram a ser malquistas, reduzimos a nossa capacidade de acolhimento.

Avarentos com o nosso tempo, a agenda é maior do que o destino. Não nos permitimos distrações generosas, casualidades, saudades. Não aceitamos que ninguém surja no nosso lar de repente.

A residência se transformou numa fortaleza de arame emocional, de cacos de vidro nos muros, um espaço fóbico, uma extensão do escritório, onde não se pode sacrificar o andamento das demandas planejadas e dos objetivos que devem ser cumpridos pela família.

Foi com o uso ostensivo do celular que começamos a temer as visitas, a nos afastar do ato grandioso de receber aqueles de quem gostamos e de colocar gentilmente mais um prato à mesa e mais água no feijão.

Os amigos e parentes tornaram-se penetras de nossa felicidade. Os encontros com os nossos confidentes são monitorados, agendados, como se estivéssemos trabalhando no secretariado de um consultório médico. Nenhuma pessoa quer mais ser anfitriã do acaso. É um contraste da liberdade de ir e vir da minha infância.

Aliás, na minha meninice, sequer existia o hábito de apertar a campainha, escondida em algum lugar perto do portão. As residências eram ovacionadas, como se os seus visitantes fossem a plateia de um teatro. Tínhamos que bater palmas e gritar o nome do morador ("Ó Ó Ó de casa") sem a certeza de que haveria gente para nos recepcionar.

Os latidos dos cachorros nos ajudavam a ser percebidos. Às vezes, batíamos com a cara na porta, nem por isso nos sentíamos ofendidos e maltratados. Não praguejávamos a viagem perdida, não reclamávamos das tentativas. Sempre explicávamos com modéstia: "estava por perto".

Hoje estamos cada vez mais distantes um do outro.

CARPINEJAR

12 DE JULHO DE 2023
GRÊMIO

NOITE PARA VOLTAR A SORRIR Tricolor aposta na copa do brasil para conquistar um título nacional em 2023

A noite de hoje definirá os rumos do Grêmio em 2023. A decisão contra o Bahia, pelas quartas de final da Copa do Brasil, simboliza a encruzilhada do clube em relação aos objetivos na temporada. Agora que a chance de alcançar o Botafogo no Brasileirão parece mais distante e com a questão das dores do joelho de Luis Suárez a ser resolvida nos próximos dias, a partida na Arena, a partir das 19h, é a oportunidade de manter torcida e equipe mobilizadas na busca por um título de expressão no ano após o retorno da Série B.

A Copa do Brasil voltou a ganhar ares de prioridade no Grêmio após a derrota de domingo. Com 10 pontos atrás do time carioca no Brasileirão e sem as mesmas condições de investimento de outros candidatos ao título de pontos corridos, como são os casos de Palmeiras e Flamengo, o histórico do clube em jogos de mata-mata volta a ser uma esperança para o hexa.

O histórico de conquistas do Grêmio passa muito pela Copa do Brasil. São cinco títulos e 15 vezes em que alcançou ao menos a fase semifinal da competição. Só o Cruzeiro tem mais taças, com seis, e o Flamengo se iguala no rendimento das campanhas.

- A Copa do Brasil significa muito no Grêmio. Fomos os primeiros campeões. Isso marca muito. Depois vieram mais quatro títulos. Até financeiramente é uma alternativa muito boa para o clube em um ano difícil - avalia Rafael Bandeira, vice de futebol no primeiro título do Grêmio no torneio, em 1989.

Trunfo

Mas além de contar com a história como aliada, o Grêmio tem outro trunfo para a partida decisiva contra o Bahia: o fator Renato Portaluppi. Desde que passou a treinar o clube, o desempenho gremista é de excelência na competição. Seu pior rendimento com o técnico no clube aconteceu em 2018, quando caiu para o Flamengo nas quartas. Além do título de 2016, Renato levou a equipe à decisão em 2020 e às semifinais em 2013, 2017 e 2019.

- A Copa do Brasil, assim como a Libertadores, tem uma mística diferente para o torcedor gremista. Pelas características do Grêmio, desde sempre, a identificação é muito maior com as copas. Ainda mais em um ano onde não estamos disputando o torneio continental e recém voltamos da Série B. Com o nível de competição muito alto no Brasileirão, a Copa do Brasil é a grande vontade do torcedor - afirma Hans Ancina, torcedor gremista e comunicador da Rádio 92.

Além de toda a questão emotiva, a classificação às semifinais tem impactos reais no planejamento do Grêmio para a temporada. Em um ano de dificuldades financeiras, o pagamento de R$ 9 milhões por alcançar a próxima fase da competição é a garantia da injeção de recursos importantes para a gestão fechar as contas do ano.

Após o empate em 1 a 1 na partida de ida, em Salvador, quem vencer o jogo de hoje avança às semifinais. Em caso de novo empate na Arena, a vaga será decidida nos pênaltis.

MARCO SOUZA


12 DE JULHO DE 2023
PREÇOS

Deflação em junho reforça aposta de corte da taxa Selic

IPCA cai 0,08% no país, a primeira vez neste ano. Variação no mês passado é a menor para o período em seis anos

A deflação de junho reforça a tendência de corte na taxa de juro básico do país no próximo mês. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,08% no mês passado, segundo dado divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse foi o primeiro recuo no indicador no ano e a menor variação para o mês de junho desde 2017.

A retração na média dos preços amplia o ambiente favorável para o Banco Central (BC) iniciar a curva de queda da Selic na próxima reunião, marcada para os dias 1º e 2 de agosto. Agora, a dúvida paira sobre o tamanho da primeira lasca, aguardada por boa parte dos setores econômicos no país.

O economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirma que o IPCA de junho conversa com as expectativas, que apontavam queda de 0,10%. A deflação é explicada pelo recuo nos preços dos alimentos, dos combustíveis e dos veículos novos, impulsionada por benefício pontual do governo federal. Braz destaca a desaceleração dos núcleos de inflação, que mostram uma informação preciosa ao BC na linha de que a inflação está realmente cedendo:

- Com o resultado de hoje (ontem), acho que tem uma relativa segurança para a autoridade monetária rever a Selic. Não só pelo número negativo, mas sim pelo efeito generalizado de descompressão da inflação.

Braz projeta corte iniciando em agosto, mas de maneira mais tímida, em 0,25 ponto percentual. Revisões mais profundas devem ocorrer ao longo do segundo semestre, avalia.

O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, afirma que a deflação de junho se soma a uma série de fatores que convergem para o cenário mais otimista para o início da reversão da curva da Selic no país. Dentro desse rol de influências, ele cita o câmbio mais favorável e a manutenção das metas de inflação, que reduz as incertezas:

- Isso fez com que as expectativas de inflação de longo prazo caíssem. Somado ao IPCA de junho, abre uma janela boa de oportunidade para o Banco Central começar a cortar a Selic em agosto.

Sobre o tamanho do corte, Sung também estima redução de 0,25 ponto percentual em agosto. Ele justifica a projeção no histórico dos últimos posicionamentos da autoridade monetária, que prezou pela paciência e moderação:

- Acho que a diferença entre a minha visão e a de muitos que esperam 0,50 ponto percentual é um pouco do que o Banco Central vem comunicando nas últimas reuniões. De não tomar nenhuma decisão precipitada, muito incisiva e prezar por essa parcimônia no início do ciclo de queda de juro.

O economista André Perfeito também enxerga cenário de inflação sob controle e reforça que a dúvida do momento paira sobre a intensidade do primeiro corte. Ele avalia que existe espaço para corte mais robusto, de 0,50 ponto percentual, na próxima reunião.

O especialista calça essa possibilidade no histórico mais alongado do BC, que cortou o juro de maneira mais forte no início da pandemia e subiu com mais intensidade ante outros países nos últimos anos.

Para os próximos meses, especialistas consultados pela reportagem de GZH estimam inflação com novas altas na variação mensal após a deflação de junho. Isso ocorre porque não serão mais registrados alguns fenômenos, como queda no preço dos combustíveis e no valor dos carros novos.

ANDERSON AIRES

12 DE JULHO DE 2023
BOLA DIVIDIDA

ciclone, luis suárez e incertezas

A previsão de um ciclone extratropical assombra outra vez o Estado. O Grêmio notificou a CBF. A prefeitura de Porto Alegre enviou ofício para o clube, a FGF e a CBF solicitando o adiamento. Projeta o deslocamento de milhares de pessoas e adota cautela. Porém, o dia começa com o jogo marcado. Somente eventuais episódios poderão fazer com que a partida seja revisada. Para o Grêmio, é preciso se concentrar no jogo como se a previsão fosse de tempo limpo, claro e com temperatura amena.

É evidente que a previsão de um ciclone afeta a questão de público. O cenário, depois do que vivemos recentemente, foi assustador. A segurança das pessoas precisa estar em primeiro lugar. O que nos resta é torcer que a previsão não se confirme, e a Arena esteja lotada a partir das 19h, quando o Grêmio começa a definir uma vaga na semifinal da Copa do Brasil.

Centroavante

A previsão de ciclone, aliás, é só uma das incertezas do Grêmio para esta quarta. A outra é Luis Suárez. Nem mesmo Renato sabe se poderá contar com seu centroavante. Trabalha com sua escalação dia a dia. Tudo dependerá das dores no joelho e do humor do uruguaio para elevar a tolerância a elas. Até aqui, ele tem feito sacrifícios e jogado mesmo com o joelho direito o incomodando. Foi assim no domingo, contra o Botafogo. Mas não foi em Salvador, na partida de ida. Suárez deve embarcar para Barcelona horas depois da partida. Consultará Ramón Cougat, seu médico particular e chamado da Espanha como o "Messi dos Médicos".

Sem Suárez, Renato terá de apostar mais uma vez em Vina, cuja noite será de despedida da Arena. Nos próximos dias, ele embarcará para a Arábia Saudita. O Ceará, dono dos direitos, o negociou com o novo eldorado do futebol. Ou seja, será uma quarta-feira com muitas indefinições para o Grêmio. Tantas que precisará fazer um esforço hercúleo para se concentrar no que é a missão da noite: vencer o Bahia e avançar na Copa do Brasil.

BOLA DIVIDIDA

12 DE JULHO DE 2023
TUDO EM PAZ

fim de uma briga de mais de uma década atrás

O show de Marcelo D2 que emocionou Porto Alegre no sábado teve influência também no futebol gaúcho. E uma influência positiva. Um encontro inesperado no camarim do artista carioca, no Araújo Vianna, selou a paz entre dois personagens do esporte que estavam brigados havia uma década: o ex-árbitro Márcio Chagas da Silva e o técnico Lisca.

Márcio e Lisca tiveram discussões ásperas no início da década passada. O técnico comandava o Caxias no jogo contra o Grêmio, em 2011, no qual o árbitro deu oito minutos de acréscimo. Nesse tempo suplementar, o time da Capital chegou ao empate e, posteriormente, venceu nos pênaltis a decisão do primeiro turno do Gauchão.

Dois anos depois, na decisão do Estadual, Márcio marcou uma falta de ataque em um gol do Juventude contra o Inter. Lisca treinava o time da Serra. A partida terminou empatada e, nos pênaltis, o Colorado foi campeão. Desde então, as desavenças públicas impediram que os dois se encontrassem.

Márcio e Lisca nunca mais tinham ficado no mesmo ambiente. Até sábado passado. Márcio estava no show com seu amigo Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que queria entregar uma camisa a Marcelo D2. No camarim para tietar o músico, estava Lisca. Para não ocorrer qualquer tipo de tensão ou mal-estar, o árbitro foi até o técnico e o cumprimentou. Os dois trocaram um abraço, um aperto de mão e deixaram o rancor de lado.

RAFAEL DIVERIO

terça-feira, 11 de julho de 2023

11 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

Saudade de cachorro

Sejamos mais intensos, menos ansiosos. Na ansiedade, você se encontra ausente do lugar, do encontro, da conversa, preocupado unicamente com o futuro. Experimenta uma precipitação infinita, uma vontade insana e impossível de ter controle sobre os acontecimentos próximos.

Na intensidade, você não adoece com o porvir, está inteiro no presente. Não existe mais nada, a não ser o presente. É uma entrega corajosa a cada momento vivido, uma urgência de atenção que não se guarda para depois, que não se adia.

Talvez devamos aprender mais com os cachorros. Com a saudade dos cachorros, que é oposta da nossa. A nossa saudade é medida pelo tempo, pela régua cronológica. De acordo com a distância e a espera, sentimos falta de alguém. Ela não é imediata, porém cumulativa. Você sofre apenas depois de uma semana longe. Se passou um mês sem ver a pessoa, então nem se fala, perde-se nos suspiros. Dois meses, por sua vez, já cobra o retorno.

Somos filhos do adeus, devotos da lonjura. Cachorro apresenta uma natureza absolutamente diferente. Mais intensa. Mais pura. Possui um afeto transparente, exemplar, incondicional. Sua saudade é mais da janela do que da porta, do cheiro mais do que da imagem.

Ele não controla a sua emoção pelo relógio. Você sai de casa por 15 minutos e, na hora de voltar, o cão irá recebê-lo como se tivesse desaparecido por uma década. Com um arfar de respiração de completo abandono.

Vai pular em seu colo, fazer festa, abanar o rabo, correr de um lado para o outro, exibir a sua vitalidade, trazer um brinquedo, lamber o seu rosto.

Tente repetir a cena, fingir nova saída, fechar a porta por uma breve lacuna e logo ressurgir, o acolhimento será igual. A recepção jamais perde sua força. É uma saudade funda e oceânica de alguns instantes. É saudade fora do esquadro do tempo. É uma saudade de você, independentemente de quanto esteve fora.

Regulamos o nosso apego pelo alcance visual. Trata-se de um excesso de confiança nas aparências.

O cachorro já cria os laços pela essência, pelo agora. Tanto que é ele que o leva para passear, não o contrário. Você pode supor que ele está querendo fazer xixi, busca descer desesperadamente para a rua, precisa socializar a sua comunicação com seus colegas de bairro, gastar a sua energia, mas não: ele notou que você anda desanimado, triste, cabisbaixo, e toda a iniciativa é dele de levá-lo para a vida lá fora, para você sair do confinamento, desfrutar uma trégua de respiro e paz, arejar o coração.

O que mais testemunho pela cidade é cachorro puxando a coleira.

CARPINEJAR

11 DE JULHO DE 2023
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Editoras por aqui

De vez em quando a gente é atropelado pela percepção de uma realidade. Não me refiro a realidades paralelas ao nosso mundo, este da classe média confortável, que faz todas as refeições, não tem dívidas impagáveis, é escolarizada e continua amiga da ciência e do esclarecimento. Nós, para quem é quase inconcebível a rotina da privação e da brutalidade, que só nos chega em eventos muito remotos.

(Aliás, em nosso próprio mundo há realidades meio inimagináveis, como jornalistas inimigos da vacina, dirigentes de grandes entidades que creem que estamos vivendo uma ditadura comunista, pessoas com diploma superior que defendem armar toda a população.)

Mas quero falar de coisa bem amena e mesmo positiva. O caso que me caiu das nuvens sobre o colo foi o número de editoras em atuação em Porto Alegre e no Estado. Não se trata aqui de um levantamento rigoroso, muito longe disso. (Vão já minhas desculpas para as que não lembrei.) Registro aqui editoras que têm publicado livros que me passaram pelas mãos nos últimos tempos.

Em Porto Alegre, algumas tradicionais, como L&PM, Movimento, Sulina, Martins Livreiro, AGE. Outras que já não podem ser chamadas de novas, pelo tanto que já produziram, como Libretos, Arquipélago, Tomo Editorial, Zouk, Não Editora/Dublinense, BesouroBox, Casa Verde, ARdoTEmpo.

E muitas outras bem recentes, mas já mostrando serviço relevante: Diadorim, Figura de Linguagem, Bestiário, Ama Livros, Taverna, Metamorfose, Boaventura, Território das Artes, Falange Produções, Santa Sede, Artes e Ecos, Piu, Coragem, Estúdio Mar Edições.

Do Interior, Oikos, de São Leopoldo; Belas Letras, de Caxias; Coralina, de Cacheira do Sul; Tan Ed, de Santana do Livramento; Gato Mourisco, de Três de Maio; Memorabilia, de Santa Maria; Libélula, de Lajeado.

E isso sem contar o Instituto Estadual do Livro e as muitas editoras universitárias, em mais de 10 cidades do Estado.

Isso tudo quer dizer que estamos jogando o jogo, dando a ver obras variadas, no campo da criação literária. E não é pouco fazer isso quando está clara a divisão entre os textos que a gente lê com gosto e proveito nas telas - dicionários, estudos, documentos, etc. - e os que a gente continua preferindo ler em papel, neste formato tão simples e tão eficiente chamado livro, uma pilha de folhas de papel unidas por um dos lados, com uma capa de papel mais resistente, capaz de nos conduzir a estados de alma e a espaços de imaginação variados, capazes de proporcionar ao leitor a maravilha de espiar e experimentar outras vidas.

LUÍS AUGUSTO FISCHER

11 DE JULHO DE 2023
PÓS-PANDEMIA NO RS

Extinção de micronegócios cresce e abertura se estabiliza

Aquecimento do mercado de trabalho e falta de gestão em empresas abertas por necessidade explicam movimentação

Após abertura acelerada durante a pandemia, os novos registros de microempreendedor individual (MEI) estabilizam, enquanto o número de fechamentos salta no Rio Grande do Sul. No primeiro semestre deste ano, a extinção desse tipo de negócio aumentou 44,13% no Estado ante o mesmo período do ano passado. Os dados são da Junta Comercial, Industrial e Serviços (JucisRS).

Aquecimento do mercado de trabalho e falta de gestão em empresas abertas por necessidade estão entre alguns dos fatores que ajudam a explicar esse movimento. O processo pode gerar mais previsibilidade para trabalhadores que migram para o mercado com carteira assinada, mas também abre espaço para alta na informalidade, segundo especialistas.

No acumulado de janeiro a junho, o Estado anotou a extinção de 52.736 MEIs - 16.148 a mais na comparação com o mesmo recorte de tempo em 2022. Giulia Mattos, especialista em MEIs do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Estado (Sebrae-RS), afirma que a alta expressiva no fechamento desse tipo de empresas é reflexo do comportamento do mercado de emprego formal. Com a saída do período mais crítico da pandemia, as contratações retomaram e abriram espaço para migração de empreendedores individuais para o regime tradicional de trabalho.

- É um sinal de que o país se encontra em um período de recuperação dos impactos que a covid causou financeiramente. Esses percentuais, que em um primeiro momento geram preocupação, podem indicar que há um mercado se recuperando para os padrões, de sazonalidade inclusive, após dois anos de movimentos atípicos - avalia Giulia.

Ela explica que, durante a pandemia, parte dos trabalhadores que perderam emprego acharam no MEI uma oportunidade de garantir renda. Agora, parcela desses cidadãos volta para o modelo anterior à retomada. Esse movimento não é exclusivo do Estado, porque também é observado em outras regiões do país, conforme Giulia. Ela cita também o caso de MEIs extintos de maneira automática por falta de movimentação no negócio diante de dificuldades de gestão.

Lisiane Fonseca da Silva, economista que atua na área do mercado de trabalho e professora da Universidade Feevale, aborda essa parte organizacional dos negócios. A professora afirma que alguns empreendedores individuais acabam esbarrando nas dificuldades operacionais, impulsionadas por um cenário econômico restrito por juro alto, inflação e inadimplência:

- Nos anos mais recentes, a gente teve uma situação de crédito com juros muito altos e isso, às vezes, compromete a capacidade de gestão do negócio.

Como exemplo, Lisiane cita casos de empresários que contrataram empréstimos com taxa mais baixa na pandemia, mas enfrentam dificuldades para honrar as parcelas em ambiente de aperto monetário e pouca tração no consumo. Especialistas citam a migração de alguns MEIs para outros modelos maiores de empresa no processo de aumento de extinção desse tipo de negócio, mas afirmam que é difícil mensurar essa influência.

Na outra ponta, o número de abertura de MEIs segue em patamar elevado, mas mostra queda. Com isso, o saldo entre constituição e extinção desse modelo segue positivo, mas em desaceleração.

ANDERSON AIRES

11 DE JULHO DE 2023
É DEMÓÓÓÓIS

PROBLEMA OU SOLUÇÃO

Vejo alguns colegas alarmados com o que disse o técnico Mano Menezes depois da derrota por 2 a 0 para o Fluminense, no Maracanã. O treinador coloca o grupo e o seu trabalho acima das individualidades do elenco. É uma forma respeitável de ver futebol, só que assusta quem quer falar sobre a montagem do time do Inter nos jogos mais recentes. Para mim, o time tem nove dúvidas e dois jogadores escalados. São eles Alan Patrick e Valencia. Eles começam, são inquestionáveis. Cabe ao treinador montar um time em torno deles, com os jogadores disponíveis. Simples assim. Colocar os dois diferenciados nos lugares que mais gostam de atuar e todos os outros completarão a equipe. Neste caso, o time pode evoluir.

Quando estão livres para jogar, os melhores pegam a partida para si e impõem dificuldades aos adversários. Não se ouviu isso de Mano Menezes, mas pode ser aquele negócio de acalmar o grupo, mesmo que todos saibam que Valencia é de outra turma. O equatoriano foi contratado a peso de ouro para ser uma solução importante. Nunca será um problema para a montagem do time.

LIBERTADORES Tudo indica que o Inter ficará numa posição intermediária no Brasileirão. Pode conseguir vaga para a Libertadores, mas nada além disso. É o que tem mostrado até o momento. Toda a esperança de título está na Libertadores. Não é nada fácil, mas um sonho. O primeiro adversário no mata-mata é o River Plate, um time de tradição na competição. Difícil, sim, mas não impossível.

Toda a estratégia colorada deverá estar centrada em voltar vivo de Buenos Aires. Para isso, o treinador colorado não poderá jogar com três atacantes. Precisa povoar o meio-campo com jogadores com boa capacidade de marcação, entregando para Alan Patrick a organização do time e para Valencia a tarefa de fazer gols. Repito: eles são as grandes forças coloradas. Ou eles jogam bem e decidem, ou a sequência neste competição poderá ficar complicada.

DEFESA VAZANDO O Grêmio não consegue passar um jogo sem sofrer gol, mesmo com três zagueiros. Isso traz dificuldades, pois obriga o time a marcar mais gols, o que nem sempre é possível. Mas a teoria de Renato Portaluppi é de que seu time deve atacar, o que não é ruim, desde que o sistema de marcação seja competente. Eu ainda acho o meio-campo gremista um pouco frouxo na marcação.

Villasanti é o grande nome. Carballo até marca bem, mas na frente deles fica Bitello, correndo para todos os lados e com funções ofensivas, e Cristaldo, que não é dado às tarefas de marcação. A volta de Pepê poderá atenuar tudo isso. Ele marca e tem muita qualidade com a bola no pé. Mas ainda não se tem informação de quando este jogador poderá reaparecer no Tricolor.

AUDIÊNCIA O Botafogo marcou um gol por Tiquinho Soares no primeiro tempo. Os jogadores festejavam, eu na cabine narrava o gol, até que veio a imagem gravada. O Diori Vasconcelos viu a imagem e sentenciou: Este gol será anulado. Pronto. Foi uma explosão de alegria na Arena. Como se o Grêmio tivesse marcado um gol. Isso só mostra a grande sintonia da Rádio Gaúcha e a incrível respeitabilidade que carrega consigo o comentarista de arbitragem Diori. Exerce uma função difícil, na qual as pessoas tendem a discordar quando não gostam da opinião, mas reconhecem a autoridade e a credibilidade deste profissional.

O Diori nos orgulha enquanto componente da equipe de esportes da Gaúcha e da RBS.

PEDRO ERNESTO

11 DE JULHO DE 2023
BOLA DIVIDIDA

Rumo ao top 10 das maiores ligas do mundo

A notícia de ontem na Europa é a oferta do Al-Hilal a Lazio pelo meia Milinkovic-Savic: 40 milhões de euros. Os próximos da lista do novo clube de Jorge Jesus são Thomas Partey, volante do Arsenal, e Lukaku, centroavante fora dos planos do Chelsea. Savic, 28 anos, é bom jogador, enfrentou o Brasil nas duas últimas Copas.

Prometia mais, havia perspectiva de que chegasse ao topo europeu. Estar desde 2015 na Lazio é amostra de que não atingiu esse nível. Para o clube romano, é um dos melhores negócios dos últimos tempos. O sérvio tinha contrato até metade de 2024: em seis meses poderia assinar pré-contrato. Em um ano, sair de graça. Para o meia também é o negócio da sua vida. Ele assinará por três anos e embolsará, nesse período, 75 milhões de euros.

Objetivo

O plano dos sauditas de transformar a Roshn Saudi League em uma das 10 maiores ligas do mundo em curtíssimo prazo seguem acelerados. Roshn é o nome da empresa que comprou, há um ano, os naming rights da competição por cinco temporadas. Pagou 127 milhões de dólares.

A Roshn pertence ao governo e tem suas contas mantidas pelo Fundo Público de Investimento, que assumiu o controle de Al-Hilal, Al-Ettihad, Al-Ahly e Al-Nassr e fez deles os mais famintos compradores nesta janela.

Com tantos desembarques na Arábia Saudita, a coluna coloca a bola ao centro e faz um breve balanço das contratações no mercado árabe até aqui. Vale registrar que eles já começaram a chegar.

No Al-Ittihad, Romarinho, ex-Corinthians e personagem da conquista do mais recente título nacional, recepcionou Benzema e Kanté.

AL-ITTIHAD

Pagará em torno de R$ 928 milhões por ano para Benzema e R$ 464 milhões para Kanté. Também fechou com o português Jota, atacante que pertencia ao Valladollid e estava no Celtic. Pagou 13 milhões de euros.

AL-AHLI

O clube acaba de voltar à elite pelas mãos do técnico Pitso Mosimane, campeão africano com o Al-Ahly na temporada passada. Passar pela Segunda Divisão foi tão constrangedor que Mosimane teve de buscar os jogadores para comemorar o acesso no gramado. Muitos estavam a caminho do vestiário. Não era para menos. No mesmo fim de semana, o rival Al-Ittihad comemorava o título da primeira divisão. Para a temporada 2023/24, vieram o goleiro Mendy, comprado ao Chelsea e destaque do título da Champions, e Roberto Firmino, livre depois de deixar o Liverpool.

AL-NASSR

Tirou Luís Castro do Botafogo. No Rio, o português recebia 3 milhões de euros por ano. Em Riad, ganhará 16 milhões de euros por temporada. Castro chega ao clube com Marcelo Brozovic, croata comprado à Inter por 18 milhões de euros, e indicado por Cristiano Ronaldo. No Al-Nassr joga também Anderson Talisca, que chegou a ser chamado por Tite.

AL-HILAL

O clube esteve no noticiário brasileiro com força no primeiro semestre. Eliminou o Flamengo no Mundial. Depois, pelo interesse do Grêmio e do Palmeiras em Michael e do Inter e do Corinthians em Cuellar. O zagueiro Koulibaly desembarcou no clube com salário de 30 milhões de euros anuais. Rúben Neves, volante português de 26 anos, trocou o Wolves ao custo de 55 milhões de euros.

OUTROS NEGÓCIOS

O Ettifaq anunciou Gerrard como técnico. Slaven Bilic, croata com passagens por Besiktas, West Ham e Watford, assumirá o Al-Fateh

LEONARDO OLIVEIRA

segunda-feira, 10 de julho de 2023

10 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

BOM SENSO CONTRA A DENGUE

Não se pede nada além de bom senso diante dos números recordes de casos e mortes por dengue no país. A sensatez, no caso, é o Ministério da Saúde adquirir a vacina japonesa disponível no mercado, após a devida análise e a possível recomendação do produto pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). O imunizante Qdenga, da farmacêutica Takeda, foi aprovado em março pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e já é aplicado pela rede privada para pessoas de quatro a 60 anos.

Ocorre que o custo é alto. O esquema completo de vacinação, de duas doses, pode custar quase R$ 1 mil, valor inviável para a grande maioria dos brasileiros. Como se sabe, a população carente é a que mais sofre com a doença. Para também ser protegida, é necessário que a vacina existente possa ser disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A empresa proprietária da tecnologia informou que vai submeter a sua vacina à Conitec ainda neste mês. O tempo de análise é de ao menos 180 dias, e só depois, em caso de aprovação, seria possível uma incorporação ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Os ruídos e as dúvidas surgiram após o Ministério da Saúde informar que a preferência seria pela vacina nacional, em desenvolvimento pelo Instituto Butantan. O problema é que o produto da instituição paulista, ainda em fase de testes, deve ser analisado pela Anvisa apenas no final do próximo ano. Se todo o cronograma otimista se confirmar, as primeiras doses para distribuição serão disponibilizadas apenas em 2025.

A situação epidemiológica no país - e também no Rio Grande do Sul - mostra que não é prudente esperar, mesmo que no futuro se dê preferência ao fármaco nacional, com produção local e custo menor. O quadro é de emergência. As estatísticas da doença são eloquentes. Em 2022, a enfermidade causou a quantidade recorde de 1.016 mortes no país. Neste ano, até o final de junho, foram 635 óbitos. O Estado registrou 66 casos fatais no ano passado e, agora, até a metade de 2023, são 50. Deve ser ressaltado que o mundo passou a estar sob influência do fenômeno El Niño. Para o Centro-Sul do país, isso significa temperaturas maiores e mais chuvas. É um clima favorável à proliferação do mosquito Aedes aegypti, que se reproduz na água parada.

A incorporação da vacina japonesa, se recomendada pela Conitec, é defendida por especialistas, exatamente pela evolução da doença nos últimos dois anos e pelo fato de o imunizante do Butantan ter previsão de estar disponível apenas daqui a dois anos. Não há certeza sobre o volume que a Takeda poderia viabilizar para o país. Mas seria importante tê-la como opção, mesmo que apenas para grupos mais vulneráveis e temporariamente. Caso contrário, apenas uma minoria com condições financeiras poderá se proteger da dengue, que, apenas em 2023, já alcançou a marca de mais de 1,3 milhão de casos prováveis no país. Como se cansou de repetir ao longo da crise da covid-19, vacina boa é vacina no braço.

10 DE JULHO DE 2023
É DEMÓÓÓÓIS

LIDERANÇA JUSTIFICADA

O Grêmio jogou muito. Massacrou o Botafogo em boa parte do jogo, colocou bola na trave e fez o goleiro operar grandes defesas. Suárez perdeu três gols e não aproveitou as oportunidades. O Botafogo se resignou a defender-se e conseguiu segurar o time gremista. No segundo tempo, o time carioca fez algumas modificações e colocou, entre outros, Matías Segovia, um jovem de pequena estatura que comandou o toque de bola do Botafogo, que envolveu o Grêmio no segundo tempo. O jogo que era todo do Tricolor. Os gremistas passaram a ser dominados, os toques curtos e envolventes dos cariocas foram a imagem do segundo tempo.

Foi um placar justo? Claro que sim. Apesar de o Grêmio ter jogado muito por dois terços da partida, não foi capaz de marcar. O Botafogo, ao contrário: quando produziu, teve ótimo aproveitamento. Faz parte. O líder continua assombrando o Brasil. São 85% de aproveitamento. Uma campanha fabulosa.

Vai até quando? O time carioca começa a ser conhecido como real candidato. Dá para dizer que tem um grande time. A realidade está nos mostrando que o líder se justifica. Abriu 10 pontos em relação ao segundo colocado.

PÊNALTI A camisa de Bitello é visivelmente puxada. A imagem da televisão é muito clara. O jogo estava 0 a 0, e o resultado final poderia ser diferente. Erros fazem parte da arbitragem. O VAR veio para ser uma solução. Mas não consegue. Se um jogador é puxado em sua camisa fora da área, a falta é marcada, e o infrator recebe cartão amarelo. Por que na área ficam com medo de marcar? Claro que foi pênalti em Bitello. O árbitro pode não ter enxergado, mas os auxiliares do VAR viram o lance e concluíram que não tivemos a infração. O Grêmio reclamou bastante. Com razão.

Existem erros e erros, mas como existe nas regras do futebol muita interpretação e subjetividade, cada um pensa uma coisa. Eu gostaria de saber o que as autoridades que não viram pênalti têm a falar sobre isso.

DERROTA O que o Inter mostrou no Maracanã foi decepcionante. Foi dominado todo o tempo pelo Fluminense. Não conseguiu jogar e ser competitivo. Começou com três atacantes e não conseguiu atacar. Defensivamente, também esteve frouxo. A série de 10 jogos de invencibilidade foi quebrada quando enfrentou um time com mais qualidade. Pior do que isso, apenas a atuação. Deixou muita preocupação porque terá de enfrentar o River Plate na Libertadores. Não teve Alan Patrick e precisou colocar em campo Valencia. Jogando pelo lado, nada conseguiu produzir. Não poderia ser diferente. Se o time não jogou nada, os atacantes ficam praticamente anulados pelo adversário.

Falta pouco menos de um mês para o Inter enfrentar o seu maior desafio, e Mano precisa encontrar soluções. No Brasileirão, a campanha é mediana, mas na Libertadores é mata-mata. Não pode voltar de Buenos Aires com resultado irreversível. Tem tempo para melhorar. E precisa melhorar.

SOLUÇÃO Valencia precisa ser encarado como solução. Ele representa um esforço financeiro grandioso da direção. Não será jogando na ponta direita, como aconteceu ontem, correndo atrás de laterais. Ele veio para ser protagonista. Não pode ser encarado como problema. A tarefa de achar o lugar onde ele pode render e qualificar o time do Inter é do treinador Mano Menezes.

Ele vai encontrar a melhor solução e mudar o time a partir do ingresso do equatoriano. Tem quase um mês para resolver esta dificuldade. Valencia é naturalmente melhor do que todos atacantes do Inter. O time colorado precisa ser muito melhor do que foi ontem, no Maracanã.

PEDRO ERNESTO

10 DE JULHO DE 2023
CHAMOU ATENÇÃO

Bombeiro de quatro patas

Há cerca de quatro anos, um cachorro ainda filhote, magro e perdido apareceu no quartel dos bombeiros de Passo Fundo. Ninguém soube de onde ele veio, mas imediatamente um sentimento de amizade surgiu entre as equipes. Juntas se prontificaram a adotá-lo, dando a ele o nome de Sub, uma das patentes concedidas aos militares.

- Nos juntamos para dar água, comida, atendimento veterinário e pet shop. Fizemos uma caixinha e colocamos dinheiro lá. Ele não fica muito tempo limpo, está sempre passeando, embaixo dos carros, e acaba se sujando - comenta o primeiro-sargento Nilton Aguirre.

O cão tem vida livre e não fica preso. Sai para a rua, volta e circula pelos andares do prédio da corporação. É fácil encontrá-lo nas salas, de um lado para o outro, entre as repartições. Calcula-se que ele deva ter entre quatro e cinco anos de idade.

- É um vira-lata da paz, sempre atento, e isso é até engraçado. Às vezes estamos conversando e ele para. Fica observando de longe algo na rua, que se mexe, uma estátua. Mas está sempre brincalhão, gosta de carinho - salienta o soldado José Maurício dos Santos.

Inquietação

Em algumas situações, quando soa o alarme para um chamado ou uma ambulância sai para um atendimento, Sub fica inquieto, e às vezes vai correndo atrás do veículo.

Ele não atua no combate ao fogo, mas cumpre um papel também importante: aliviar a tensão de uma atividade que exige bastante dos profissionais.

- Chegamos cansados, estressados e ele está sempre disponível para correr, interagir, fazer a gente dar boas risadas. Na volta de algum local as pessoas às vezes dizem que tem um cão junto ao caminhão ou que ficou pelo caminho. É o Sub que cansou. Voltamos, colocamos ele para dentro e seguimos viagem - afirma Santos.

Se depender do comando, o cão vai seguir pelo quartel, quem sabe até ganhar uma promoção na carreira pelo trabalho que faz ao proporcionar calmaria em lugar tão corrido.

- Aonde vamos ele vai junto, quer sempre um mimo, um pedaço de carne ou se jogar na grama do campo de futebol. É só entrar na mesma onda que ele, que fica agitado e não sai mais de perto - diz Aguirre.

FÁBIO EBERHARDT

10 DE JULHO DE 2023
CLÁUDIA LAITANO

Foco

John Lennon tinha acabado de sair da casa de Paul McCartney, onde os dois passaram a noite compondo sabe-se lá que clássicos do futuro, quando uma cena insólita chamou sua atenção: um casal jogando cartas, na varanda, no rigoroso inverno de Liverpool. Na noite seguinte, John comentou com o amigo que os vizinhos dele deviam ser doidos para encarar um carteado ao ar livre, tarde da noite, naquele frio de rachar. Paul achou estranho e decidiu dar uma espiada. Sim, a varanda estava iluminada de novo. Sim, lá estavam as duas figuras inclinadas, uma bem perto da outra, mas não eram seus vizinhos, como John havia concluído ao apertar os olhos em busca de um foco impossível, mas José e Maria - em um presépio.

Paul contou a anedota na abertura da mostra (que também virou livro) Paul McCartney Photographs 1963-1964: Eyes of the Storm, inaugurada há duas semanas na National Portrait Gallery, em Londres. Na exposição com imagens de bastidores dos Beatles, John aparece em uma das fotos usando óculos de armação grossa. A fotografia foi tirada por Paul, dentro de um carro, longe dos fãs. Isso porque, até ser apresentado ao estilo de armação hoje conhecido como "oclinhos John Lennon", John detestava ser visto de óculos em público. Não seria em uma rua escura e deserta de Liverpool, onde um casal desafiava o inverno jogando cartas, que ele ficaria à vontade para assumir a miopia.

O ex-beatle foi um dos primeiros ídolos, junto com Buddy Holly, a transformar seus óculos em marca registrada e inspiração para legiões de míopes em busca de um estilo próprio (mesmo que copiado). Como quase tudo que envolve os integrantes da banda, a origem da moda está bem documentada: John começou a usar a armação redonda em setembro de 1966, como parte da composição do personagem que interpretaria na comédia Como Eu Ganhei a Guerra (1967), de Richard Lester. Deu match.

John Lennon pode ser o míope mais famoso do mundo, mas o verso que melhor sintetiza a principal angústia, real ou imaginária, de quem usa óculos na adolescência foi escrito por um brasileiro (Herbert Vianna, claro) há pouco menos de 40 anos: "Por que você não olha pra mim? (ô-ô)". Quem já encarou uma reunião dançante sem enxergar um palmo adiante do nariz, mesmo correndo o risco de acabar confundindo gato com lebre, sabe bem os riscos que os míopes são capazes de correr para serem vistos.

Como o leitor não pode adivinhar pela foto que ilustra esta coluna no jornal, eu também sou míope - e também sempre odiei usar óculos.

CLÁUDIA LAITANO

10 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

Agudo momento da consciência

Meu barbeiro, Keliston, 35 anos, morreu de acidente de moto na semana passada. Para não ferir o rosto da saudade, evitei descobrir detalhes da sua colisão com uma carreta na estrada.

Durante cinco anos, ele apareceu em minha casa com a sua malinha preta pesada de equipamentos, pentes e escovas. Keliston aparava a minha barba e desenhava uma palavra diferente toda semana na parte de trás da minha cabeça.

Sua lâmina não tremia, não errava, não cortava: era resoluta. Em nossos encontros, prevalecia a sua educação, seus modos gentis e cordatos. Ele pedia licença para tudo, dizia "obrigado" para tudo. Pelos cuidados comigo, demonstrava gosto de estar exercendo aquele ofício.

Antes de nos despedirmos, ele fazia questão de buscar a vassoura no armário da área de serviço e recolher os fios soltos. Eu esclarecia que não precisava, ele respondia que unicamente terminava o seu trabalho depois da limpeza. Então, eu pegava a pá e me agachava para ajudar.

Éramos vassoura e pazinha. Éramos tesoura e caneta. Pastor evangélico, pai dedicado de quatro filhos, marido devoto, ele enfrentava 37 quilômetros de estrada para ficar 30 minutos ao meu lado.

De repente, num breve assobio, ele desencarnou. Meus cabelos só vão crescer, a falta dele só vai aumentar. Eu me sinto esquisito com a perda. Como se não pudesse mais ser normal. A imagem dele surge quando menos espero. É como se a sua ausência não fosse possível. É como se eu tivesse enlouquecido.

Jamais nos treinamos para não enxergar mais alguém. Nosso movimento é todo ao contrário: registrar nuanças, apresentar-se cada vez mais atento, observar as oscilações de humor e manias, guardar detalhes e mudanças do comportamento. Somos colecionadores de instantes.

Nesse sentido, a morte é antinatural, na contramão dos olhos e do coração. O estoque de imagens para de ser abastecido sem aviso prévio. Ocorre uma interrupção abrupta de acontecimentos daquele afeto, uma suspensão da nossa compulsão fotográfica exercida ao longo da convivência.

Era de se prever que eu entraria em desacordo com a realidade. Não foi a minha dor, no entanto, o que mais me assustou no processo de velório e de enterro, mas ouvir a mulher dele, Sabrina, cabeleireira que dividia o salão, a casa, a família e os sonhos com meu amigo Keliston.

Ela me mandou um áudio agradecendo minhas palavras de carinho nos dias mais sofridos da sua existência. Quando foi explicar quem era na mensagem, ela gaguejou: - Carpinejar, aqui quem fala é Sabrina, esposa de Keliston? Neste momento, ela se corrige: - Esposa não, desculpa, meu Deus, sou viúva de Keliston?

No meio da sua fala, escuto-a desabar em choro. Talvez tenha sido a primeira vez que ela se deu conta de que era viúva, conscientizando-se de que eles não estariam nunca mais juntos.

Regredi no tempo e imaginei Sabrina, após a celebração do altar, dizendo para si mesma "sou esposa", com o sentimento misto de surpresa e de encantamento, adaptando-se à mudança de não mais morar sozinha, levantando a aliança para degustar seu brilho, até acreditar que escolheu e foi escolhida, que definiu o seu par inseparável com a bênção dos pais.

Quando casamos, demoramos para acostumar com o novo estado civil. Agora ela tem que se esforçar para assumir uma outra nomenclatura, outra condição, numa tristeza absolutamente solitária, num fardo atroz que não será mais repartido a dois.

Eu ainda não lhe respondi. Estou procurando força em você, meu leitor.

CARPINEJAR


10 DE JULHO DE 2023
+ ECONOMIA

Tendência de queda no consumo familiar

A Fecomércio-RS divulgou a Intenção de Consumo das Famílias (ICF-RS) para o mês de junho. O indicador de Intenção de Consumo funciona como um termômetro, capaz de antecipar as vendas do comércio varejista e das atividades de serviços voltadas às famílias. Segundo os dados, a edição do mês passado evidenciou uma queda nas intenções de consumo entre os gaúchos. Na margem, houve recuo de 4,1%. Já na comparação com igual período do ano passado, houve aumento 3,5%. Dessa forma, o índice atingiu os 77,8 pontos, menor resultado desde novembro de 2022 (76,8 pontos).

Assim como na edição anterior, apenas o indicador de Acesso a Crédito apresentou aumento na margem. O indicador que reflete a segurança com o emprego atual intensificou a queda e atingiu os 94,8 pontos (menor resultado desde julho de 2022 - 93,5 pontos). Na comparação com o mesmo período de 2022 houve aumento (5,7%). Apesar de o mercado de trabalho ainda se mostrar resiliente neste primeiro semestre, 24,9% dos entrevistados sentem-se menos seguros no emprego atual. Todavia, no ano anterior, esse patamar era ainda maior, 32,7%. Na avaliação quanto ao patamar da renda atual, a queda na margem foi menos intensa do que no mês anterior (-3,2%), mas na comparação interanual também houve recuo -5,7%.

- A intenção de consumo das famílias gaúchas tem apresentado queda na margem desde abril de 2023. Praticamente todos os componentes do indicador têm o mesmo comportamento. Um consumidor com uma intenção de consumo reduzida é um desafio para as vendas. Sempre é mais difícil vender para alguém com confiança menor, exigindo de lojistas e prestadores de serviço um esforço de venda ainda maior - comentou Luiz Carlos Bohn, presidente da Fecomércio-RS. O ICF-RS se encontra abaixo dos 100 pontos desde abril de 2015.

O indicador de nível de consumo atual teve recuo sensível de 8,5% na margem. Em comparação a junho de 2022, houve aumento de 14,3%. Assim, esse indicador atingiu o nível de 83,2 pontos, o menor desde dezembro de 2022 (81,2 pontos). Nesta pesquisa, 43,2% dos entrevistados seguem afirmando que estão comprando menos atualmente do que no mesmo período do ano anterior.

Qual o papel do desenvolvimento sustentável hoje?

O modelo econômico de hoje é de 200 anos atrás, baseado em premissas que já não se sustentam. Uma delas é a de que os recursos naturais são infinitos, e não são. A economia foi inspirada em perspectiva linear, quando, hoje, devemos construir uma economia circular. Também foi baseada em combustíveis fósseis, e vai ter de migrar para energias renováveis. A agricultura sempre foi expansionista, mas temos que fazer a transição para as agroflorestas, com agricultura familiar mais produtiva. Todo o modelo está ultrapassado. Os poderes econômicos constituídos são da "velha economia". É um processo que envolve escolhas difíceis, mas é inevitável.

E a COP 30 no Brasil?

A luta internacional pela proteção do meio ambiente teve um marco muito significativo no Brasil com a Eco 92, e a COP-30 vai ser outro marco, 33 anos depois. Temos potencial para exportar soluções climáticas, mas, antes, precisamos de ações. Primeiro, acabar com o atual nível de desmatamento, que é uma vergonha. Segundo, chegar na COP com planos de mitigação e adaptação muito bem definidos para mostrar que temos planejamento de transformar a economia brasileira em uma economia de baixo carbono, com produtos feitos a partir de energia limpa.

Quais seriam as soluções?

Uma dessas soluções que o Brasil pode ser exportador é o próprio hidrogênio verde. O mundo inteiro está interessado no nosso potencial. Por isso, temos que aprimorar cada vez mais os níveis de energias renováveis na nossa matriz elétrica e na nossa produção para atrair indústrias e empresas globais para produzi produtos verdes no nosso território, gerando ainda mais empregos aqui, o que também é fundamental.

Já há reflexos climáticos?

Essa é uma prioridade. A gente viu o último relatório do IPCC, que mostra as consequências das mudanças climáticas muito mais rápidas e fortes do que se esperava. Há mais inundações, secas, ciclones e outros eventos extremos. Adaptar cidades e territórios é fundamental. O governo federal está comprometido em renovar o plano nacional de adaptação, que é de 2016, e atualizá-lo levando em conta fatores prioritários como saúde, recursos hídricos, energia, moradia. Vocês no Rio Grande do Sul, por exemplo, têm sofrido muito com ciclones, estiagem, os mapas de cenários climáticos projetam grandes inundações na região a partir de 2030, e quem sofre com esses impactos são as pessoas, principalmente os socialmente mais vulneráveis. 

Muita gente ainda acha que os efeitos da crise do clima somente vão ser sentidos lá na frente, no futuro, mas vocês gaúchos são um exemplo de como esses efeitos já estão sendo sentidos hoje. Ana Toni, após carreira dedicada à proteção do meio ambiente na sociedade civil, assumiu neste ano seu primeiro cargo público a convite de Marina Silva para liderar a recriada Secretaria Nacional de Mudança do Clima. Na entrevista, elenca algumas prioridades.

ANA TONI Chefe da Secretaria Nacional de Mudança do Clima no Ministério do Meio Ambiente

RAFAEL VIGNA INTERINO

sábado, 8 de julho de 2023


MARCELO RECH

Corrida maluca

Seul - Você talvez não tenha se dado conta, mas estamos por viver a maior disrupção de nossa geração. Faz pouco mais de seis meses que este espaço apresentou o ChatGPT como um "robô esperto" que mudará a forma como trabalhamos, fazemos consultas na internet e nos informamos. O que era promessa começa a se materializar em centenas de apps que prometem facilitar nossas vidas e acelerar a produtividade. Em comum, eles buscam um lugar ao sol nesta corrida maluca em que se meteu o planeta - ou pelo menos a parte que já acordou para a revolução da inteligência artificial generativa.

Na Coreia do Sul, onde nasce boa parte das novidades eletrônicas e se produzem muitos dos chips mais avançados, o esforço é para levar o país ao terceiro lugar nesta corrida, atrás de EUA e China. Não será pelas armas que as duas superpotências remanescentes disputarão a primazia de controlar a economia e o comportamento do planeta. Essa nova guerra já começou com boicotes na venda de tecnologias e matérias-primas fundamentais para a IA. Vencerá o confronto aquele que tiver as empresas que dominem as soluções e conquistem a adesão dos usuários.

Não é de pouca coisa que está se falando por aqui. Trata-se, entre tantas outras transformações, da substituição de serviços de busca, como o Google, pela interação direta com a inteligência artificial, como o ChatGPT. Difícil de entender ou imaginar para quem não usa a já famosa sigla em inglês (GAI) para resumir os novos modelos de inteligência artificial? 

Não se preocupe, muito em breve você estará usando sem se dar conta - ou sendo usado, porque o ChatGPT se vale de um manancial de dezenas de milhões de sites (a grosso modo, divididos entre corporativos, acadêmicos e jornalísticos) para fornecer respostas a consultas e prever dúvidas seguintes. Ou seja, neste momento, já está sugando conteúdo alheio - de organizações, cientistas, professores e jornalistas - para criar o maior negócio das próximas décadas. É por isso, e porque a coisa toda ameaça sair de controle, que o mundo discute a regulamentação da GAI.

O Brasil está onde? Ainda bem atrás na corrida, mas nem tudo é motivo de embaraço. Há setores tecnológicos no Brasil, como o de pagamentos eletrônicos, que fariam corar banqueiros e comerciantes coreanos e taiwaneses, que lideram a produção de chips mas desconhecem as alegrias e facilidades de um Pix. Em memoráveis crônicas sobre a Coreia do Sul na Copa de 2002, David Coimbra nos apresentou a um novo mundo de tecnologias e incríveis façanhas coreanas, como banheiros públicos sempre cheirosos. Se estivesse aqui, ele poderia se orgulhar de suas argutas predições de duas décadas atrás, mas fique tranquilo: em seu avanço, a inteligência artificial não produzirá banheiros imaculados e muito menos talentos como o de David.

MARCELO RECH