sábado, 8 de julho de 2023



OPINIÃO DA RBS

AMADURECIMENTO

Os benefícios da reforma tributária aprovada por ampla maioria na noite de quinta-feira na Câmara dos Deputados foram exaustivamente apresentados à medida que a votação se aproximava e o tema era mais debatido pela sociedade. Ganha o Brasil pela simplificação do emaranhado de impostos, pelo fim das incidências em cascata, pela redução de custos para as empresas, pela segurança jurídica, pela maior competitividade e pelo potencial de o PIB crescer mais nos próximos anos. Foram décadas de tentativas frustradas até a chancela dos deputados federais. Agora, o texto será analisado pelo Senado, onde pode ser aprimorado.

Mas há outro aspecto que merece ser louvado, por indicar um amadurecimento do país. Diferentes correntes políticas foram capazes de deixar suas diferenças de lado, negociar e buscar consensos, até se chegar à aprovação histórica. Os méritos são divididos entre atores dos mais diversos campos. O texto teve bases técnicas, assentadas por nomes como o do secretário extraordinário da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, um dos maiores conhecedores do tema. 

Teve o apoio político do titular da pasta, Fernando Haddad, o engajamento pessoal do presidente da Câmara, Arthur Lira, a disposição incansável para dialogar do relator, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e uma adesão decisiva do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, dando fim aos antecedentes de resistência do Executivo paulista à reformulação do sistema de impostos. Tem grande simbolismo a imagem de Haddad e Tarcísio, adversários eleitorais há poucos meses, lado a lado defendendo a reforma.

O texto aprovado na Câmara não é o dos sonhos. Foi o possível diante da complexidade das negociações e múltiplas preocupações regionais e setoriais que precisou acomodar. Mas deve ser celebrado, porque ao cabo prevaleceu o interesse do país. Segmentos da economia, governadores como o gaúcho Eduardo Leite e o mineiro Romeu Zema, prefeitos e especialistas levaram as suas inquietações e sugestões. Ao fim, chegou-se a um desfecho que alinha o Brasil às práticas das nações mais desenvolvidas.

É o resultado da boa política e da democracia, regime em que homens e mulheres de diferentes visões aceitam conversar em busca do melhor para a coletividade. Houve, especialmente nas últimas semanas, significativo esforço para demonstrar que a pauta da reforma tributária não era de governo, mas de Estado. Não se subestima que a liberação de emendas colaborou. O fisiologismo, infelizmente, é método corriqueiro no país. Mas o desenlace mostra sobretudo que é possível debater e costurar convergências em temas nacionais, a despeito da disputa eleitoral saudável. A pacificação que o Brasil clama depende, especialmente, desse desprendimento de saber que, em momentos decisivos, é preciso transigir e ter postura de estadista.

Os votos contrários à reforma vieram especialmente dos deputados ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Em certa medida, é um comportamento equivalente a erros históricos do PT, como ter votado contra a Constituição de 1988 e ter sido oposição ao Plano Real. O caminho para um país próspero ainda é longo. Passa pela disposição ao diálogo em torno de matérias estruturantes e que beneficiem a ampla maioria da sociedade. Haverá esperanças mais palpáveis se o consenso formado para votar a reforma tributária for o sinal de que o Brasil avança rumo ao amadurecimento político.


FLÁVIO TAVARES

OS NEM-NEM

O título talvez dê impressão que escrevo sobre os recém-nascidos, aqueles nenês pelos quais nos apaixonamos, sejam de onde forem ou a que setor social pertençam. Escrevo, porém, sobre os 11,5 milhões de jovens de 15 a 29 anos de idade (os nem-nem) que, no Brasil, nem estudam nem trabalham.

O número corresponde a quase três vezes a população do Uruguai. Entre nós, a maioria são mulheres, alcançando um total de 29,2%, enquanto os homens chegam a 16,95% do total.

Os nem-nem são consequência de situações e fatores diversos, mas - em qualquer caso - predomina o descuido. A pauperização cultural da classe média é o fator principal. Hoje, no Brasil, apenas sete em cada 10 jovens até os 19 anos concluem a educação básica. Estamos abaixo de países latino-americanos como Argentina, Costa Rica, Colômbia e Chile.

A vulgaridade das redes sociais agrava tudo. Mas há outra situação também grave. As deficiências no atual sistema educacional, em especial no ensino profissionalizante, entre nós visto com desprezo.

Alguns especialistas chegam a chamar a educação no Brasil de "fidalga", por ainda ensinar análise sintática e empanturrar os alunos obrigando-os a ler literatura portuguesa de séculos atrás como "trabalho de aula".

Um relatório de 2022 da Education at a Glance da Organização de Desenvolvimento Econômico (OCDE) da ONU apresenta o Brasil como o segundo país a ter o maior número percentual de nem-nem em todo o mundo. Só a África do Sul nos supera.

Hoje, em todo o Brasil, existem 47 milhões no Ensino Fundamental e somente 8,6 milhões no Ensino Médio, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas.

Em 2022, um estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro e do Sesi revelou que mais de 500 mil jovens com mais de 16 anos abandonam as aulas a cada ano naquele Estado.

Esta calamidade nos leva a ter saudade de Leonel Brizola e de seu empenho pela educação.

Com o título Malvina, a escritora Laura Peixoto descreve a vida de Júlia Malvina Hailliot Tavares, minha avó e professora, que, em sua escola, aboliu a palmatória com que os alunos eram castigados até os anos 1930. Foi precursora do movimento feminista e libertário no RS.

O livro será lançado às 18h, no dia 11 de julho, na Livraria Paralelo 30, à Rua Vieira de Castro, 48, em Porto Alegre.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

DRAUZIO VARELLA

GORDURA NO FÍGADO

Durante décadas, o acúmulo de gordura no fígado foi considerado apenas uma das complicações do alcoolismo.

Os que negavam o uso abusivo de álcool eram tidos como mentirosos, preconceito só abalado quando os americanos descreveram casos semelhantes em crianças obesas.

Em 1980, o patologista Jurgen Ludwig, da Mayo Clinic, criou a sigla "nash", abreviatura de non-alcoholic steatohepatitis. Nash é o preço que nossos fígados pagam pelo excesso de calorias ingeridas na vida sedentária que levamos.

A esteatose hepática não alcoólica se tornou uma epidemia entre os norte-americanos, campeões mundiais de obesidade, e invadiu América Latina, Europa, Oriente Médio e Ásia.

Chegou até as populações rurais da Índia. Apesar de incertas, as estatísticas estimam que de 20% a 30% dos americanos adultos armazenem gordura em excesso no fígado.

Embora tais depósitos sejam geralmente benignos, um em cada três de seus portadores desenvolverá esteatohepatite, condição que os levará à cirrose, à insuficiência hepática e ao câncer de fígado.Nash já é a segunda causa de transplantes hepáticos. Graças aos tratamentos de alta eficácia para a hepatite C existentes hoje, em breve chegará ao primeiro lugar.

Os ácidos graxos ingeridos na dieta caem na corrente sanguínea e chegam ao fígado de onde são encaminhados para outros órgãos, função comparável à dos guardas de trânsito. Só uma pequena parte dessa gordura ficará armazenada nas células hepáticas (hepatócitos).

Dos 14 quilos de gordura existentes no corpo de um homem de 70 quilos, apenas 125 gramas estão alojados no fígado.

Em algumas pessoas, entretanto, a quantidade excessiva de calorias ingeridas provoca aumento tão expressivo dos triglicérides que o órgão fica sobrecarregado e não consegue se livrar deles. Como consequência, há acúmulo de gordura no interior dos hepatócitos.

Além desse mecanismo, ocorrem dois outros.Primeiro: as células do tecido gorduroso ( adipócitos) liberam continuamente seu conteúdo aumentando a sobrecarga. Segundo: paradoxalmente, o próprio fígado aumenta a síntese de gorduras; nas esteato- hepatites, o órgão produz três vezes mais gordura do que o normal.

Entre as diversas modificações metabólicas resultantes, a mais relevante é a de resistência à insulina, o hormônio produzido pelo pâncreas, que bloqueia a liberação de ácidos graxos dos adipócitos, entre outras funções. Essas alterações dão origem a um processo inflamatório crônico, no decorrer do qual os hepatócitos incham - chegam a dobrar de tamanho.

Nos espaços existentes entre eles, surge um tecido cicatricial rico em colágeno, que ao progredir destrói gradativamente os hepatócitos e enrijece o órgão (fibrose), levando- o ao estágio de cirrose e suas complicações: câncer hepático, falência e morte.

Texto publicado originalmente em 30/1/2021

DRAUZIO VARELLA

BRUNA LOMBARDI

SÍNDROME DE FOMO

Adotei uma gatinha superdoce que se chama Luz. Muito pequena, só queria colo, comia e dormia na paz de quem se sente segura. Agora na puberdade, ela não para quieta um segundo e sempre quer saber o que está rolando com meus outros gatos. Até na hora da comida quer ver o que todos estão comendo, agitada e ansiosa como qualquer adolescente. Tanto que o apelido dela é Where Is the Action?.

Essa vontade de experienciar a vida em todas as oportunidades, essa sensação de querer saber o que tá rolando a todo instante, ir a todos os eventos, sentir que está perdendo alguma coisa, é comum. Mas hoje com as redes sociais e a rapidez dos acontecimentos ganha proporções gigantes.

Será que você sofre da Síndrome de Fomo?

Talvez você não saiba exatamente o que é isso, mesmo tendo os sintomas. Fomo é a sigla que vem do inglês "fear of missing out", que seria "medo de ficar de fora", por fora do lance, não saber, não fazer parte, não estar incluído, não estar participando dos acontecimentos.

Está associada ao sentimento de ansiedade, impacta de forma significativa na rotina e no trabalho.Essa síndrome já se manifesta em muita gente, é mais comum do que se imagina e é a raiz de uma forte ansiedade.

A intensidade nos espreme a cada minuto, especialmente dentro do mundo corporativo, onde a síndrome do FOMO se alastra e todos se sentem deixados pra trás, numa esteira de velocidade inconcebível. A ideia de ficar à margem, de não se sentir updated com o que acontece abala nossa segurança.

A cada segundo, mudanças fantásticas surgem no mundo e precisamos nos atualizar. Nenhum de nós pode se atualizar em tudo o tempo todo, na extraordinária rapidez contemporânea, na dinâmica impossível de se acompanhar das redes sociais, do excesso de notícias, dos eventos do mundo

A ideia da competição gera ainda mais medo, seu colega pode ser mais informado, preparado, produtivo enquanto você é consumido por essa síndrome paralisante. E esse impacto ganha proporções assustadoras, é tóxico, nocivo e terrível pra nossa saúde mental e emocional. Esse desgaste constante mina a nossa estrutura.

Os sinais precisam ser detectados antes dessa condição nos dominar. Existem ciladas claras que precisam ser identificadas. Não podemos estar súper hiper mega giga conectados nas redes e não ter nenhuma conexão verdadeira com alguém e com nós mesmos. Não podemos interagir muito mais com o celular do que com a natureza ou criamos um desajuste.

Precisamos diferenciar o fake do real em qualquer circunstância. Precisamos dizer não para convites e ofertas que não nos interessam. Temos que ter critério e fazer uma triagem no que queremos consumir. Não podemos deixar o excesso nos abarrotar, entrar num looping e nos deixar arrastar pela correnteza.

Não devemos julgar ou nos comparar aos outros. Temos que ter foco no que é significativo pra nós. O melhor não é o os outros fazem, mas aquilo que queremos fazer.

Quando a gente aprender a olhar pra dentro de nós, vamos perder o medo de ficar por fora.

BRUNA LOMBARDI

J.J. CAMARGO

A DEPURAÇÃO DAS NOSSAS VIRTUDES

Se considerarmos que tendemos à sinceridade quando estamos ameaçados por uma coisa tão assustadora quanto à possibilidade de morrer, vamos admitir que a saúde plena nos dá a chance de escolher o que gostaríamos de ser naquele dia, enquanto a doença é uma implacável delatora do que somos o tempo todo.

Fragilizados emocionalmente, tornando-nos mais transparentes e portanto vulneráveis, o que permite que o médico experiente, tendo sido muitas vezes o interlocutor central desse momento dramático, tenha ao seu dispor a oportunidade ímpar de se transformar em um especialista em gente, desde que esteja disposto a ouvir e disponível para compartilhar sentimentos. Nesse universo intangível, com alguma sensibilidade, existe até a chance de aprendermos a classificar as pessoas e, a partir daí, considerando que elas reagirão obrigatoriamente de acordo com o caráter de cada um, cheguemos a um nível de sofisticação de prever a reação em cada circunstância.

Admito que não levei muita fé quando, pela primeira vez, ouvi meu avô dizer que quando nos decepcionamos com alguém é por culpa nossa, por tê-lo classificado mal e, a partir de premissas equivocadas, alimentado falsas expectativas.

Exageros à parte, a vida em sociedade oferece múltiplas chances para testarmos a acuidade dos nossos julgamentos. Como, por exemplo, quando entrevistamos alguém, candidato a algum cargo ou função, e há com frequência a consciência de que a tal conquista depende de nossa aprovação.

Não conheço melhor situação para identificar a maturidade de algum candidato do que ter que falar de si mesmo. Claro que não se espera que alguém, candidato a uma vaga, tenha uma crise de sinceridade extrema e anuncie uma relação de defeitos que o deprime. Mas no extremo oposto parece incontrolável a tendência de autoexaltação das melhores virtudes. É evidente que esse candidato está convencido de que convencerá, mas um pouco de senso crítico aconselha a moderar a autopromoção, porque de alguma maneira ela incomoda o entrevistador.

Lembro sempre do veterano empresário que entrevistava um candidato a executivo e, depois de ouvi-lo em abnegado silêncio durante 15 minutos, lhe perguntou: "Ao que o senhor atribui a injustiça de, nesses 45 anos, ninguém ainda ter-lhe reconhecido essa sua tão notável de coleção de qualidades?".

Os famosos, quando maduros, admitem que nada é mais fácil do que o exercício da humildade no sucesso. Mas há claramente a noção equivocada de que devemos impressionar o entrevistador, dando a ele a noção aguda da maravilha que somos.

As atitudes que ilustram os modelos mais corriqueiros podem ser sintetizadas em: os impressionantes, os impressionáveis e os que supõem que podem impressionar.

Nos extremos da curva, estão os impressionantes, que sabem que nada vale mais que a autenticidade, e os impressionáveis, que assumem na atitude deslumbrada uma posição de inferioridade. Correndo por fora, os incautos que ainda não perceberam o quanto falar bem de si é contraproducente na medida em que transfere ao entrevistador a pecha de influenciável. Ou seja, um tolo.

E lembre-se que um pré-requisito para quem tenha que tomar decisões é não ser influenciável por aparências. Então contenha o seu exibicionismo, porque quando ele é parte da primeira impressão, até as virtudes reais ficam ofuscadas.

J.J. CAMARGO

CHAMOU ATENÇÃO

Domingo é dia de Mercado?

A prefeitura de Porto Alegre lançou uma nova ação para tentar ampliar a abertura do Mercado Público aos domingos. O pleito é antigo e costumeiramente cobrado pelo prefeito Sebastião Melo, sem surtir efeito nos donos de bancas.

Na quinta-feira, uma instrução normativa foi publicada pela Secretaria Municipal de Administração e Patrimônio (Smap). Nela, são atualizadas uma série de regras, além de reformas e melhorias. O terceiro capítulo trata do horário de funcionamento. Chama a atenção o item E: das 10h às 16h, aos domingos, em caráter facultativo. Essa é mais uma tentativa de convencer os donos de bancas a aderirem à abertura do Mercado Público neste dia. Movimentos anteriores, em 2019 e 2021, não vingaram.

- Queremos atrair a população para o Centro Histórico nos finais de semana, fomentando o comércio, gastronomia, desenvolvimento de uma área que fica abandonada nestes dias - avalia o secretário André Barbosa.

Para convencer os mercadeiros, Barbosa informa que a Guarda Municipal terá uma base no Largo Glênio Peres. Além disso, o secretário informa que o contrato com a empresa de vigilância que presta serviço no Mercado será ajustado, com maior circulação aos domingos.

Atualmente, menos de cinco restaurantes e bares e funcionam no domingo. O Mercado Público tem 104 bancas ativas.

Reunião

A ideia da prefeitura é ampliar a quantidade de lojas abertas. Uma reunião com a Associação do Comércio do Mercado Público Central (Ascomepc) deverá tratar dessa organização.

A grande dúvida dos mercadeiros é se haverá público aos domingos. Na tentativa anterior, em 2021, o alto custo da operação neste dia acabou inviabilizando a operação, segundo eles.

- Já existiu essa tentativa. Porém, infelizmente o movimento do domingo não compensava o custo da operação - destaca a presidente da associação, Adriana Kauer.

Outro problema é o acesso ao centro de compras. Durante a semana, as vagas da Área Azul da região são muito concorridas. Aos sábados, uma parte do Largo Glênio Peres é liberada para estacionamento. Com raras aparições da EPTC e da Guarda Municipal, os flanelinhas tomam conta quando a fiscalização deixa o local.


CARTA DA EDITORA

Histórias para contar

Aprendemos no jornalismo que é importante ancorar uma reportagem em dados e fatos, pois somente dessa forma é possível sustentar aquilo que se quer comprovar. Porém, o jornalismo também nos ensina que, por trás da frieza dos números, existem pessoas impactadas pelas estatísticas, para o bem ou para o mal. Dar voz e rosto a uma reportagem nos aproxima do público que nos lê, ouve ou assiste. Três conteúdos publicados nesta edição são a prova disso.

Reportagem chamada na capa, do repórter Rafael Vigna, mostra que quase 20 anos depois da criação do Bolsa Família, quase 60% dos "filhos gaúchos" do programa chegaram ao mercado formal de trabalho. Estudo do Instituto de Mobilidade Social (IMDS) indica que, no país, 44% de jovens e adultos remanescentes das famílias beneficiárias alcançaram a mobilidade social - quando os filhos conseguem superar a formação escolar e econômica dos pais. No RS, o percentual é ainda maior, de 58,1%. Mas quem são essas pessoas que fazem parte das estatísticas? É o que o repórter mostra nas páginas 10 e 11.

Já na página 19, a repórter Letícia Mendes apresenta uma história de superação e fé protagonizada por mãe e filho. Dez anos atrás, José Augusto Amorim, o Guto, então com 28 anos, foi caminhar e pegar sol na Redenção, em Porto Alegre, algo rotineiro na sua vida, quando foi atacado com uma faca por outro homem, deixando o advogado com sequelas graves. A repórter conta a batalha, com idas e vindas, de Irene Alves para salvar o filho.

Já no caderno DOC, o repórter Vinicius Coimbra relata a trajetória de quatro novos padres, os únicos ordenados pela Igreja Católica em 2023 no Rio Grande do Sul. Em meio a números do Vaticano que indicam uma queda mundial na quantidade de sacerdotes, Vinicius conta o que motivou os novos padres a buscarem essa formação religiosa.

Todos os conteúdos também podem ser acessados pelo assinante através do aplicativo e do site de GZH.

DIONE KUHN

CARPINEJAR

Te ato, te amo, Zé!

Com seus cabelos brancos espetados, o olhar estatelado, vestindo costumeiramente batas leves, Zé Celso Martinez Côrrea era um profeta do teatro brasileiro. O que ele produzia no seu Grupo Oficina correspondia à seta de uma bússola: a nova direção a ser tomada pelos artistas dali por diante. Antecipava tendências.

Morreu, então, o nosso futuro. O dramaturgo, diretor e ator partiu nesta quinta-feira, na capital paulista, aos 86 anos, vítima de sequelas de um incêndio em seu apartamento.

Zé Celso ultrapassava os estereótipos limitantes e caricaturais de excêntrico, de exótico, de libertário. Deve ser lembrado unicamente como gênio. Mostrava-se escandaloso e desprovido de amarras como todo gênio. Jamais conheci um gênio discreto.

Emanava dele um desbunde de erudição, de conhecimento de palco e de encenação. Adaptou Esperando Godot, de Samuel Beckett, para os nossos confinamentos ideológicos, jogou ao vento as velas enfunadas de Oswald de Andrade, transformou o teatro da crueldade do francês Antonin Artaud num circuito da provocação emocional, sensorial, da transcendência.

Ele acabou com as fronteiras entre ribalta e plateia. Incitava o público a atuar, a exorcizar os seus preconceitos, a se engajar no protesto. Não havia nenhuma passividade de recepção. Você pagava ingresso para contracenar, para ter a sua intensidade de volta, para recuperar o gosto de se sentir vivo. Ninguém tinha ideia ou segurança do que viria a ocorrer nas suas improvisações motivadas pelo afeto. No fim de cada peça, existia a dança tribal, a celebração hedonista do convívio, reatando as pontas do espectador com a pulsão primitiva da alegria da infância.

Chegou a batizar esse movimento de interação de "te-ato".

Em 1974, Zé Celso partiu para o exílio em Portugal, após ficar detido por 20 dias e ser torturado pelo regime militar.Ficou conhecido como bastião da resistência à censura por dirigir o histórico espetáculo Roda Viva, de Chico Buarque. Sua última apresentação foi justamente em Porto Alegre (1968).

Debochava da política e do comportamento subserviente de Terceiro Mundo, jamais se esquecendo de pincelar a sátira com lirismo e personagens estranhos.

Não suportava o otimismo dos filmes da Atlântida, as comédias exageradas de costume e o tom das óperas bufas do nacionalismo sem nenhuma verdade social.Serviu a sobremesa da antropofagia, aprofundando as pesquisas sobre a brasilidade da Semana de Arte Moderna.

Se a antropofagia consistia em digerir a cultura estrangeira para assim não imitá-la (o que explica a natureza metafórica da palavra "antropofágico"), acrescentando no caldo a cultura afro e a dos povos originários, Zé Celso rompeu de vez com o padrão europeizado e americanizado de espetáculo.

O que ele fazia estava próximo de um transe, invocando Dionísio, o deus grego do vinho e das festas. Combatia o moralismo e o conservadorismo com a naturalização da nudez em cena.

Caracterizado pela iconoclastia, paradoxalmente tornou-se o realizador cultural que mais nos presenteou com um legado. Desde 1982, o seu Teatro Oficina é tombado como patrimônio histórico. A construção, projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi, que também assina o projeto do Museu de Arte de São Paulo (Masp), assumiu um destaque de ponto de referência para estudantes de artes cênicas no país, quase uma universidade gratuita da vida real. Em 2015, o jornal britânico The Guardian considerou o prédio como o melhor projeto arquitetônico do mundo.

O futuro encarnado em Zé Celso nos deixa um colossal passado.

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OPINIÃO DA RBS

CONTRAVENÇÃO PELO MEGAFONE

O Grupo de Investigação (GDI) da RBS trouxe a público o caso de uma loteria clandestina de origem colombiana vendida à luz do dia nas ruas de cidades da Região Metropolitana. E que, ao que parece, também começa a se espalhar pelo Estado. Os envolvidos nessa contravenção agem com desenvoltura e naturalidade, como se tivessem a certeza de que não serão importunados. Oferecem bilhetes com megafones e, ao fim do dia, fazem sorteios nas calçadas, transmitidos por redes sociais.

O quadro descrito pela reportagem é de uma absoluta crença de que não sofrerão qualquer consequência. Beira o deboche com a lei. Nada é feito às escondidas. Mas não é possível cogitar que acabe se tornando uma situação normalizada. O caso merece uma fiscalização ostensiva mais presente, para inibir a prática nas ruas, e uma investigação profunda para saber quem sãos os responsáveis pela disseminação no Rio Grande do Sul da chamada Bono a Estrela, criada na Colômbia, onde também é irregular.

Trata-se de um jogo de azar e de uma contravenção. Não pode ser considerado algo de menor poder ofensivo. Habitualmente, pessoas relacionadas a ilegalidades do gênero, com o tempo, acabam se envolvendo em outros tipos de ilícitos e crimes. Melhor ser for um mal cortado pela raiz, evitando que se espalhe e ganhe novas conexões no submundo. Há, por exemplo, suspeitas de que alguns grupos estão praticando agiotagem. Além de colombianos, apurou-se que brasileiros também estão tomando parte dos grupos que se organizam para implantar a jogatina.

Por ser ilegal, é uma modalidade que não recolhe impostos, como outras loterias que funcionam sob legislação. Sem qualquer auditagem ou controle oficial, também não há nenhuma garantia de lisura dos sorteios. Para completar, portanto, incautos podem estar sendo enganados em um golpe importado.

A reportagem do GDI mostra ainda que, em Estados do Norte, do Nordeste e em Minas Gerais, organizações que exploram a loteria estão sendo alvo de operações e de investigações pela Polícia Civil. Na Bahia, duas pessoas foram presas e indiciadas por exploração de jogos de azar e lavagem de dinheiro. Existe a suspeita de que colombianos estão se deslocando para o Brasil para se dedicar especialmente à ampliação da área de atuação da atividade. Se essa informação se confirmar, pode ser um esquema maior. Até por isso é um caso que exige mais atenção.

Na quarta-feira à tarde, após a publicação da denúncia pelo GDI, a reportagem flagrou que a venda de bilhetes continuava sem qualquer preocupação no bairro Guajuviras, em Canoas. Há uma contravenção sendo praticada de forma escrachada e que ganha as ruas de mais cidades. É preciso impor a lei.


VENDA DE ESTATAL

Relatora barra outra vez a privatização da Corsan

Ana Cristina Moraes acatou pedido do MP de Contas e impediu assinatura

A decisão do presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Alexandre Postal, de autorizar a continuidade da privatização da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) gerou avalanche de reações ontem.

À noite, a conselheira substituta Ana Cristina Moraes, relatora do caso no TCE, voltou a suspender a assinatura do contrato pelo Estado e pela Aegea, contrariando a decisão de Postal. Ela atendeu a pedido do Ministério Público de Contas (MPC).

O procurador-geral do MPC, Geraldo Costa da Camino, protocolou o agravo. No texto, ele aponta que "o eventual adiamento da assinatura do contrato por alguns dias, acaso improvido o agravo, não importará qualquer prejuízo", mas que o prosseguimento sem as devidas garantias requer "a adoção de medidas protetivas ao interesse público, com a expedição de nova cautelar."

Ana Cristina Moraes entendeu que o processo deve ficar suspenso até o julgamento em plenário da Corte, que está previsto para ocorrer no dia 18.

Em uma decisão amparada no regimento interno do TCE, mas sem precedentes recentes, Postal havia atendido a um pedido da Procuradoria-Geral do Estado e revogado a medida cautelar de Ana Cristina Moraes que impedia a assinatura do contrato e era o último obstáculo para a desestatização. O ato ainda precisa ser referendado pelo plenário da Corte, mas, na prática, o contrato já poderia ser assinado.

Judiciário

A bancada do PT na Assembleia Legislativa e o Sindiágua, que representa os servidores da empresa, também anunciaram medidas judiciais para tentar barrar a assinatura do contrato de compra e venda da estatal.

Na coletiva em que anunciaram o ajuizamento da ação, os deputado do PT alegaram que, no entendimento da bancada, qualquer assinatura de contrato antes da decisão sobre o caso no pleno do TCE é ilegal e imoral.

- Estamos fazendo isso no sentido de proteger o patrimônio do Estado - afirmou o deputado Miguel Rossetto.

Os parlamentares do PT também apresentaram pedido de reconsideração diretamente ao presidente da Corte. - Isso (a decisão de Postal) é um deboche à instituição Tribunal de Contas e ao povo gaúcho - completou Rossetto.

O Sindiágua também ajuizou mandado de segurança junto ao TJ-RS e, ontem à noite, o desembargador Marcelo Bandeira Pereira determinou que o governo se manifeste em 72 horas.

Segundo o presidente do sindicato, Arilson Wünsch, o entendimento é de que a decisão de quarta-feira não poderia ter sido tomada de forma monocrática. - Somente uma instância superior poderia fazer isso. E também o prazo para tentar cassar via presidente está expirado - afirma.

A entidade também avalia que não é possível assinar o contrato sem autorização do pleno do TCE. Para o sindicalista, a decisão de Postal teve motivação política.

- É o MDB, partido do vice- governador, cobrando do Postal a indicação dele ao cargo, e garantindo sua estabilidade - acusa.

Casa Civil

O consórcio Aegea arrematou a Corsan por R$ 4,15 bilhões em leilão realizado em dezembro.

Mais cedo, à Rádio Gaúcha, o chefe da Casa Civil, Artur Lemos, havia dito que a decisão em vigor do TCE permitia a assinatura do contrato, que deveria ocorrer nos próximos dias.

ANDERSON AIRES JEAN PEIXOTO

DANIEL SCOLA

Um tributo ao rock

A música tem uma dívida histórica com figuras como Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis. Eles aprimoraram o som que viria a se chamar rock and roll e influenciaria muita gente. O rock nasceu ainda na década de 1950 e teve uma aceitação imediata. Era um tipo de música com o qual o público não estava acostumado. Mais potente nos acordes, som de voz mais rasgado e sonoridades misturadas. Pela primeira vez, blues, funk, pop, folk e outros estavam juntos. O rock and roll cresceu como música e até se tornou um movimento, um tipo de cultura, um modo de comportamento. Era, também, uma forma de muitos jovens justificarem uma tendência de transgressão.

O rock é um gênero musical tão bom que muitos artistas embarcaram no trem. Na década de 1960, o Led Zeppelin moldou o rock ao seu estilo, Bob Dylan trouxe o folk e concebeu a música lendária Like a Rolling Stone, o Black Sabbath criou um subgrupo do rock, o heavy. Na mesma época, bandas americanas, como The Sonics e MC Five, nos apresentavam a um novo gênero, o punk. Mais tarde, Ramones e Sex Pistols, sem querer, tornaram o punk ainda mais popular. O Pink Floyd, no lado oposto, fazia o progressivo, caracterizado por músicas longas.

Na década seguinte, nos anos 1970, surgiram grupos musicais influenciados pelo Iron Maiden com músicas mais rápidas. Nos anos 1980, os britânicos do The Clash faziam uma mistura sonora que ia do punk ao reggae. Embora improvável, dava muito certo.

No crepúsculo dos anos 1980, outra revolução na música. No extremo norte dos Estados Unidos, em Seattle e arredores, nasceu o grunge, tendo Nirvana como o nome mais popular. Do outro lado do mundo, os britânicos não deixavam barato, com bandas como o Queen, de Freddie Mercury. Tudo era fruto do rock and roll. De 1990 para cá, o rock foi se renovando com outros artistas, mantendo a presença do gênero musical. 

Que o diga a banda Rolling Stones, na ativa desde 1962. Com frequência, ouve-se que o rock precisa ser salvo. O rock não precisa ser salvo, é perene. Existe até uma data, 13 de julho, para celebrar o Dia Mundial do Rock, comemorado apenas no Brasil e que lembra o Live Aid, de 1985, quando bandas se reuniram na Inglaterra e nos Estados Unidos para chamar atenção para a fome na África. A data é importante, embora, para mim, todo dia é dia de ouvir rock.

DANIEL SCOLA

CARPINEJAR

Sempre existe

Sempre existe na relação o que guarda todo recibo, toda nota e aquele que joga fora os papéis que vai encontrando pela frente.Sempre existe na relação o que deixa as portas abertas do guarda-roupa e dos armários e aquele que vai fechando as portas cada vez que entra num ambiente.

Sempre existe na relação o que reclama do cheiro ruim na geladeira e aquele que se mexe e busca localizar o que está vencido.

Sempre existe na relação o que larga as roupas no chão e aquele que recolhe as roupas pela casa.

Sempre existe na relação o que arruma a cama tirando os lençóis e esticando o tecido, e aquele que tapeia e apenas levanta a coberta até os travesseiros.

Sempre existe na relação o que guarda os chinelos na sapateira de noite e aquele que abandona os chinelos no meio do caminho. Parece que o obstáculo é posicionado de propósito para o outro cair.

Sempre existe na relação o que se apronta antes do tempo e aquele que se atrasa para sair.

Sempre existe na relação o friorento e o calorento, o que não quer ar-condicionado e aquele que coloca a refrigeração no máximo.Sempre existe na relação o que lembra onde colocou as suas coisas e aquele que entra em desespero para achar os seus pertences no momento de trabalhar.

Sempre existe na relação o que tem controle sobre seus atos mais recentes e aquele que fica em dúvida se fechou a porta ou desligou a cafeteira. Sempre existe na relação o que nunca mente a sua localização e aquele que diz que está chegando quando ainda se encontra longe.

Sempre existe na relação o que entrou em regime e aquele que encomenda fritas e hambúrguer para provocar o parceiro. Sempre existe na relação o que acende as luzes da casa e aquele que apaga uma por uma delas.

Sempre existe na relação o que acumula louça suja e aquele que lava assim que usa um prato ou copo.

Sempre existe na relação o que planeja a viagem inteira de férias, reserva hotéis, compra passagens, traça o roteiro dos passeios, e aquele que apenas viaja e ainda reclama de preparar a mala. Sempre existe na relação o que gosta de dirigir e aquele que dirige por obrigação.Sempre existe na relação o que dorme cedo e aquele que decide assistir a um filme ou série à meia-noite.

Sempre existe na relação o que descansa exclusivamente na cama e aquele que cochila no sofá.

Sempre existe na relação o que economiza, quita o seu cartão de crédito em dia, e aquele que é perdulário e reclama que recebe pouco.Sempre existe na relação o que dança bem e aquele que se sacode na pista (dança do mesmo jeito não importando a música).

Sempre existe na relação o rueiro e o caseiro, o que enche o final de semana de programas e aquele que pretende não fazer nada. Os opostos se atraem, até se divertem, mas só os dispostos ficam juntos.

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OPINIÃO DA RBS

OPORTUNIDADE HISTÓRICA

O presidente da Câmara, Arthur Lira, pretende que o plenário da Casa vote a reforma tributária hoje, em primeiro turno. Está nas mãos dos deputados federais a responsabilidade de levar adiante a oportunidade histórica de enfim começar a racionalizar o caótico sistema brasileiro de impostos sobre o consumo, após décadas de tentativas frustradas. O texto a ser apreciado nesta quinta-feira, por certo, não será o ideal. É fruto do consenso possível após intensas negociações, aceleradas nos últimos dias, diante de resistências regionais e de setores econômicos. Mesmo assim, é um imenso passo destinado a elevar o potencial de crescimento da economia.

Apesar da necessidade natural de concessões, o espírito da reforma está preservado, com a criação de um sistema baseado em um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual. Os tributos federais IPI, PIS, Cofins se transformam na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). O estadual ICMS e o municipal ISS viram o Imposto sobre Bens e serviços (IBS). Deve-se lembrar que é uma sistematização alinhada às práticas da ampla maioria dos países avançados e recomendada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Além de eliminar a profusão de alíquotas, exceções e legislações hoje existente, tem o grande mérito de dar fim à cumulatividade, que encarece e muitas vezes torna impossível determinar a verdadeira carga tributária sobre um item. Outra mudança basilar é a alteração do lugar da cobrança do imposto, que passa da origem para o local da compra do produto ou da contratação do serviço. É uma modificação essencial para acabar com a nefasta guerra fiscal. E justa, por a arrecadação permanecer onde o consumidor e contribuinte vive.

Discussões são saudáveis e tentativas de evitar possíveis perdas em um primeiro momento são legítimas. Governadores se preocupam com a gestão dos valores arrecadados, prefeitos das cidades maiores temem perder recursos e o setor de serviços queixa-se com a possibilidade de acabar mais onerado. Ao final, no entanto, o que deve prevalecer é o interesse do país. Diversos estudos já foram feitos mostrando que a esmagadora maioria dos municípios vai ganhar com a reforma tributária e apenas uma pequena parcela das empresas de serviços pode perder vantagens existentes. O essencial é que a literatura sobre o tema aponta que todos, em um prazo maior, ganham com a simplificação do sistema, a melhora do ambiente de negócios e a maior competitividade. Isso inclui quem hoje tem seus receios e, de forma compreensível, tenta resguardar suas conveniências.

Trata-se de um assunto complexo. Mas não há dúvida de que o atual modelo - confuso, regressivo, oneroso, que gera ineficiências econômicas e uma avalanche de contenciosos administrativos e jurídicos - tem de dar lugar a uma ordenação mais eficiente e justa. A reforma está madura. Foi amplamente discutida nos últimos anos no Congresso. Não dever ser politizada, mas tratada como uma pauta de país. Há compromisso para não permitir elevação de carga tributária. Haverá períodos de transição. Aguarda-se, assim, que as últimas negociações cheguem a um bom termo, as dúvidas finais sejam sanadas e forme-se o consenso para se alcançar, hoje, ao menos os 308 votos necessários para a aprovação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC).


SANEAMENTO

TCE libera a privatização da Corsan

Em decisão proferida ontem, o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), conselheiro Alexandre Postal, liberou a conclusão da venda da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). Postal acolheu pedido do governo do Estado e revogou a medida cautelar que impedia a assinatura do contrato de compra e venda da estatal, último passo necessário para a privatização.

A decisão ainda terá de ser confirmada pelo plenário, mas o governo do Estado já está liberado para assinar o contrato com o consórcio Aegea, que arrematou a Corsan por R$ 4,15 bilhões em leilão realizado no final do ano passado. A expectativa do consórcio é de que o ato de assinatura ocorra até amanhã. No TCE, a previsão é de que o processo seja pautado em plenário, para a avaliação dos sete conselheiros, na sessão do dia 19 de julho.

Postal ressaltou que sua decisão foi amparada em manifestação da área técnica do TCE. O conselheiro lembrou que, em todos os processos de venda de empresas públicas, o tribunal analisa o edital para evitar ou minimizar "possíveis erros que possam acontecer na origem do processo".

Respaldo

- Nossas equipes do tribunal estão avalizando todo o procedimento realizado no processo de venda, o que me deixa muito confortável de tomar essa decisão. Além disso, outros poderes e órgãos já analisaram essa matéria e aprovaram o procedimento de transferência do serviço para a iniciativa privada - declarou o presidente do TCE.

Autor do pedido para derrubar a liminar, o procurador-geral do Estado, Eduardo Cunha da Costa, comemorou o resultado:

- A decisão afasta o último obstáculo que impedia a assinatura do contrato de privatização da Corsan e é resultado do trabalho intenso de nossa equipe com as demais secretarias.

Postal considerou que o atraso na conclusão da venda poderia provocar a perda ou o adiamento de investimentos no saneamento básico do RS. O conselheiro menciona cláusula do edital de privatização que estabelece validade de 180 dias para a proposta apresentada pelos compradores.

O presidente do TCE ainda citou manifestação da equipe de auditoria do tribunal que opinou "pela ausência de elementos que possam obstaculizar o deslinde do processo de desestatização" e recomendou a revogação da cautelar "haja vista que o atraso nas obras de esgotamento sanitário causado pela incerteza quanto ao futuro da companhia gerarão riscos de não atingimento das metas estabelecidas no novo Marco Legal do Saneamento Básico".

O pedido de revogação direto ao presidente da Corte está previsto no regimento interno do TCE, mas não há precedentes recentes de sua utilização. O processo no qual a cautelar foi concedida, em dezembro, está sob relatoria da conselheira-substituta Ana Moraes. Nos últimos meses, o governo também havia conseguido reverter decisões contra a venda na Justiça do Trabalho e no Tribunal de Justiça.

Em nota, a Aegea disse que considera a decisão "de fundamental importância" e ressaltou que "está pronta para assumir a operação nos 317 municípios atendidos pela Corsan e investir na qualificação da infraestrutura" de saneamento.

O governador Eduardo Leite também celebrou a liberação: - É hora de virar essa página, assinar esse contrato. O Estado não vai se ausentar, ele continua com o papel de fiscalização, de regulação.

PAULO EGÍDIO

TULIO MILMAN

Tempo ao tempo

Ele estava no portão, luvas de trabalho postas, olhar atento. Tentei lembrar da última vez que o visitara. Antes da pandemia, com certeza. Havíamos nos encontrado algumas vezes em Porto Alegre. Uma delas, poucos dias depois que a Maya nasceu. Quem me visitou, então, foi ele. Trouxe de presente um livro, o primeiro da minha filha, hoje com um ano e nove meses. Dialogando com Picasso ainda é parte das nossas brincadeiras. No começo, eu apontava as fotos e dizia: "Pedra, olho, boca, touro". Hoje, quem diz é ela. Diz também "Tio Bess".

João Bez Batti é o maior escultor brasileiro vivo. Nos conhecemos há mais de 25 anos. Na verdade, eu o conheci quando estive no pequeno ateliê da vinícola Dom Giovanni. Comprei uma pequena cabeça de basalto. Tempos depois, subi a serra novamente para fazer uma reportagem para o TeleDomingo, da RBSTV. Bez, já instalado em um local mais amplo, me levou às margens do Taquari, rio no qual sua mãe lavava roupas enquanto ele, na imensidão do tempo, ia se apaixonando pelos seixos e pelo movimento ruidoso das águas. Vi o Bez conversar com a natureza.

Terça-feira, fui a Bento Gonçalves a trabalho. Decidi, dessa vez, arrumar tempo para visitar o Bez e a Shirley, sua companheira de uma vida.

Na chegada, lembrei da Guadalupe, uma pastora-alemã que saía em disparada para poder trazer de volta pedras - e não galhos ou ossos - jogadas pelo Bez. O novo ateliê fica em um terreno grande, onde convivem esculturas, seixos, galinhas, cães e gatos. Caminhamos. Vi os esboços da próxima exposição, cujo tema ainda não posso revelar. Depois, sentamos à mesa da cozinha, ao lado do fogão a lenha. Tomamos chá e comemos bolo. A Shirley está renovando sua carteira de motorista. O Bez, 83 anos, parece um guri. Remoçou depois da cirurgia. "Ter o doutor Lucchese como amigo é um presente de Deus", me disse. Contei sobre o meu trabalho, sobre a Jaque e sobre coisas do cotidiano. Uma conversa como eram as conversas de antigamente, sem pressa, embalada pelo crepitar da lenha.

Com o tempo, o Bez se transformou em um querido amigo, por quem tenho carinho, admiração e gratidão. E como é bom poder escrever tudo isso e vê-lo forte, disposto e cheio de planos para o futuro. O tempo nos esculpe, a arte sabe.

TULIO MILMAN

 
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Pai de primeira viagem

É muito engraçado quando um amigo vira pai.Ele fica monotemático. Só fala do filho.

Você diz "oi" e ele mostra a foto do seu nenê. Você diz "tudo bem" e ele apresenta outra foto do seu nenê. Vai tirando bebês como coelhos da cartola. Qualquer saudação é pretexto para expor a pastinha de imagens de seu celular.

"Olha meu filho comendo sopa."

"Olha meu filhinho comendo papinha de cenoura."

"Olha meu filho comendo papinha de maçã."

Quem observa de fora da relação não vê nenhuma diferença, a não ser a cor da comida.

Mas para o pai de primeira viagem, tudo é inédito e maravilhoso. Tudo é raro. Tudo é um milagre.

Não tem como se desvencilhar da palestra e do PowerPoint. É muito pior do que mãe apresentando o álbum familiar para o genro ou a nora no sofá.

O pai de primeira viagem entra num transe enquanto passa o dedo para o lado na tela. Parece que ele mesmo nunca tinha visto aquelas cenas. Fica mais surpreso do que seu interlocutor.

"Meu filho no parto."

"Meu filho no primeiro dia."

"Meu filho no segundo dia."

"Meu filho no terceiro dia."

Reze para que o filho não tenha dois anos, senão será uma maratona. Consumirá duas horas de pé analisando roupinhas, brincadeiras, risadas, caretas.

Você somente queria parabenizar o amigo pela paternidade, e recebe um dossiê. Ele nem se dá conta do quanto se tornou antissocial. Não pergunta nada de você, do que está fazendo, por onde anda: unicamente discorre sobre seu rebento.

Não tem olhos para mais nada. Já nem usa dinheiro - sua moeda é leite em pó, fraldas, pomadinha de assadura, lenço umedecido. Seu orçamento é feito por essa particular criptomoeda em farmácias e supermercados.

Sem que você pergunte qualquer coisa, ele ministra uma aula de como segura o filhinho para combater as cólicas e remediar o choro da insônia.

Antes o amigo comentava sobre o seu time de futebol, sua performance no emprego, seus negócios, suas viagens. Hoje exclusivamente narra o que o seu filho fez ou deixou de fazer. Repete histórias. Busca exibir semelhanças físicas com o pequeno. Ainda que seja o jeito de bocejar.

Se sua criança não é nem um pouco a sua cópia na aparência, recorre ao argumento de que ela tem a sua personalidade.Todo bebê modifica o DNA do homem. Escancara a sua alma. Faz com que seja terrivelmente romântico, derramado, sentimental, piegas.

O sujeito se torna automaticamente um babão. Guardanapo não é suficiente, precisa de um babador.

O segundo filho até melhora os sintomas, controla a incontinência verbal, suaviza a catarse, mas o pai jamais encontrará cura para tanto amor dentro de si.

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OPINIÃO DA RBS

ENGAJAMENTO PARA ASSEGURAR RECURSOS

Em um ato suprapartidário sobre a duplicação da BR-290 entre Eldorado do Sul e Pantano Grande, na segunda-feira, na Assembleia Legislativa, o superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Estado, Hiratan Pinheiro da Silva, mostrou-se otimista quanto às perspectivas de conclusão da obra. Disse ser possível finalizá-la em três anos. Para isso, no entanto, seria preciso assegurar os recursos necessários no orçamento federal. A observação pode parecer trivial, mas é onde mora o perigo. Ainda é necessária, ao longo dos próximos anos, uma grande e constante mobilização política para garantir não apenas a reserva de verbas, mas a efetivação dos repasses. Não é novidade, afinal, que cumprimento de prazos para obras não é o forte da administração pública no Brasil.

Mas é fato que, com a previsão de um investimento de R$ 178,3 milhões em 2023, os trabalhos nos lotes mais próximos a Pantano Grande foram retomados e estão em um bom ritmo. Já os que se localizam no outro extremo do percurso ainda dependem de uma avaliação jurídica para deslanchar. Seguem parados.

Aguarda-se que, nos próximos exercícios, a rodovia prossiga como uma prioridade em termos de infraestrutura para o Rio Grande do Sul. O governo federal deve anunciar ainda em julho o PAC 3, e, dentro dos cerca de R$ 7 bilhões projetados para o Estado, é possível esperar que a duplicação da BR-290 seja um dos projetos preferenciais. É uma obra que se arrasta desde 2015, com pouquíssimos avanços desde então. Quando isso ocorre, parte do que é investido acaba sendo desperdiçado porque, com o tempo, trabalhos preparatórios têm de ser refeitos. Sairá mais em conta se for concluída conforme o novo planejamento, sem novas paralisações.

A Assembleia criou neste ano a Frente Parlamentar pela Duplicação da BR-290 para tentar acelerar a obra. A bancada gaúcha em Brasília terá de se somar a esse esforço para garantir recursos e evitar contingenciamentos. Mas a sociedade também tem um papel importante. E pode mostrar engajamento nessa causa no sábado, quando a ministra do Planejamento, Simone Tebet, vem a Porto Alegre para uma plenária sobre o Plano Plurianual (PPA) do governo federal. Trata-se do mais importante instrumento de organização orçamentária de médio prazo do Executivo, com a definição de diretrizes e objetivos para os quatro anos seguintes. O PPA, que depois é votado pelo Congresso e ganha força de lei, é válido por quatro anos. O evento, que vem ocorrendo também em outras cidades do país, tem a intenção de ouvir as comunidades para que listem as prioridades regionais. É o momento, portanto, de mostrar mobilização.

O governo anterior tinha planos de fazer a duplicação por meio de um processo de concessão. A gestão Lula optou por tocar a obra com recursos federais. É preciso, então, acompanhar e cobrar para que sejam afastados riscos de novas frustrações no ritmo dos trabalhos diante das incertezas que costumam existir em torno dos orçamentos públicos. Principal rodovia a ligar o Brasil e a Argentina, a BR-290, especialmente no trecho em questão, está saturada. Ampliar a sua capacidade é uma necessidade econômica e de segurança no trânsito.

OPINIÃO DA RBS

INFORME ESPECIAL

Os planos de eletromobilidade em Porto Alegre Uma história de três séculos

Como diz o escritor Eduardo Bueno, o Peninha, "se Porto Alegre é demais, Viamão, que lhe deu origem, é mais que demais". A trajetória da cidade vizinha à Capital mistura-se à própria história do Rio Grande. E, agora, é tema de um novo e instigante livro.

A partir do século 18, os chamados Campos de Viamão foram o destino dos primeiros colonos da província. Entre as relíquias desse passado distante, está o casarão Krahe (foto), erguido nos anos de 1730 e ainda hoje preservado.

Além de guardar joias como esta, o município é, também, um refúgio ambiental. Lá, estão os parques de Itapuã e Saint-Hilaire, o Banhado Grande e o Banhado dos Pacheco. Viamão merece, pois, um olhar mais atento.A paixão pela pelas peculiaridades históricas e naturais e o desejo de resguardá-las levaram o jornalista José Barrionuevo a conceber a obra Viamão 300 Anos (ao lado), em parceria com o editor Elmar Bones e o historiador Vitor Ortiz.

- Vim para Viamão em busca de paz. Acabei arrebatado pelo esplendor desse santuário ainda desconhecido de muita gente - conta Barrio, que plantou 5 mil árvores nativas nos últimos 16 anos na região e vive na zona rural do município desde a pandemia.

Com 200 páginas ricamente ilustradas, o livro será lançado nesta sexta-feira, das 18h às 20h, na Capela Grande, a igreja matriz de Viamão, tombada como patrimônio cultural brasileiro.

Nesta semana, Porto Alegre recebeu um ônibus diferente dos modelos tradicionais usados no transporte público da cidade. Como a coluna noticiou em primeira mão, o veículo coletivo 100% elétrico carregou passageiros pelas ruas e paradas da Capital. Se tudo der certo, não será a última vez.

Conversei com o secretário de Mobilidade Urbana, Adão de Castro Júnior, para saber mais sobre o projeto-piloto em gestação, que pode ser o primeiro passo de uma longa caminhada. Desafios não faltam ao sistema de mobilidade, mas não dá para pensar o futuro dos deslocamentos urbanos sem levar em conta - também - o aspecto ambiental.

Ainda em julho, a prefeitura vai lançar um chamamento público para fabricantes de ônibus com tecnologias sustentáveis. A ideia é abrir as portas para que as empresas façam testes, não só de protótipos elétricos, mas também híbridos e movidos a hidrogênio. Segundo ele, quatro empresas já sinalizaram interesse, entre elas as brasileiras Marcopolo (responsável pelo modelo usado esta semana) e Eletra e as chinesas BYD e Higer, fornecedora dos primeiros 15 elétricos de Cascavel (PR).

O secretário explica que os testes terão 90 dias e serão amplos. Chegou a haver uma experiência parecida em 2016, mas com apenas um veículo. A intenção, agora, é avaliar a adaptabilidade de diferentes formatos a Porto Alegre. Sem custos aos cofres públicos, o "test drive" será na "vida real", rodando em linhas convencionais, com seus próprios motoristas.

- A renovação da frota com tecnologias sustentáveis é uma meta de longo prazo. Com esses testes, vamos começar a avaliar o que funcionaria melhor aqui - destaca Castro.

A avaliação incluirá conforto, performance, possíveis adaptações e funcionamento das recargas. O edital está pronto, em fase de revisão.

JULIANA BUBLITZ

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É apenas psicológico

Menosprezamos o emocional pela nossa mania de apenas confiar nas doenças de fácil identificação, que rendem um atestado médico imediato.Assim uma gripe é mais valorizada do que um esgotamento.Quando alguém diz que aquilo que sentimos "é apenas psicológico", não está levando a sério o nosso quadro. Insinua um exagero da nossa parte, um drama, uma invenção.

O interlocutor - talvez um familiar, talvez um amigo - balança o rosto, como se a nossa avaliação interna se mostrasse equivocada, como se fosse bobagem ou mera impressão, como se estivéssemos propositalmente distorcendo a realidade.

"É apenas psicológico" é sinônimo de que você não tem nada de errado, de que vivencia um desconforto passageiro e ilusório, de que precisa controlar o seu medo, de que não há nenhum fundamento para as suas inquietações e preocupações.

Não ocorre a sábia investigação do mal-estar. Ou, pelo menos, um interesse legítimo pela origem do problema.Qualquer um que escuta essa sentença popular se vê na condição de farsante e impostor, forçando uma folga, buscando uma maneira de ficar em casa e não trabalhar.

As pessoas são desacreditadas, por isso agravam o seu estado.

Exatamente por esse ceticismo no mundo psíquico de cada um, experimentamos, como nunca antes, esgotamentos mentais. Hoje são constantes crises de ansiedade e de pânico, ou síndrome de Burnout, porque dissuadimos os mais próximos de seus sintomas, e eles acabam não procurando ajuda terapêutica antes do recrudescimento das suas fragilidades.

Desprezamos os sinais por duvidarmos do poder da mente e do quanto dependemos da saúde emocional para executarmos a nossa profissão e reagirmos às necessidades e anseios da própria família.

Existe um desajuste, um trauma, uma crise de identidade pedindo espaço. Se a alma não é socorrida a tempo, o corpo trata de falar no lugar dela e sucumbe. O que era psicológico logo se torna perigosamente físico. Pois só caindo de cama que o indivíduo terá novamente credibilidade.

Pode ser uma pressão no emprego, pode ser uma insatisfação no relacionamento, pode ser uma frustração dos seus rumos, pode ser uma sobrecarga de responsabilidades e expectativas. Há uma infinidade de motivos. Os contextos sociais nem sempre favorecem o alcance de um equilíbrio pessoal.

A infelicidade traz o isolamento. Quando você não tem lugar para comunicar as suas aflições, jamais cessa de tê-las, apenas cansa de expô-las. Elas seguirão aumentando silenciosamente e consumindo o seu raro tempo livre para fantasiar o pior.

A coragem da confissão que sobrava inicialmente vai perdendo ânimo. Após ser desestimulado por alguém, não se abrirá novamente. Ninguém quer ser visto como um fiasquento.As doenças invisíveis são visíveis primeiramente na linguagem. Jamais esqueça que sentimentos são fatos.

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HOMENS E MULHERES

Lula sanciona a igualdade salarial, mas prevê desafio

Presidente garantiu que empresas serão fiscalizadas quanto à nova regra, que estabelece multas para quem descumprir

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu ontem que o governo "terá problemas" para fazer cumprir a lei da igualdade salarial entre mulheres e homens, mas avisou que os empresários que não respeitarem terão que "enfrentar a legislação". De acordo com ele, que sancionou ontem a norma, em seu governo não existirá "lei que pega e lei que não pega".

A lei torna obrigatório que homens e mulheres tenham a mesma remuneração quando exercerem trabalho equivalente ou a mesma função. Empresas que descumprirem a regra estarão sujeitas a multas (veja abaixo).

Em discurso durante o ato, o presidente garantiu que haverá punição porque há estruturas no governo que garantirão a fiscalização, a exemplo dos ministérios do Trabalho e das Mulheres, além do Ministério Público.

- É importante que vocês saibam que, para essa lei ser cumprida, vamos ter de jogar muito duro - reforçou.

Histórico

No Brasil, as mulheres ganham, em média, 78% dos rendimentos dos homens, apontam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No caso de mulheres pretas ou pardas, o percentual cai para menos da metade (46%) dos salários dos homens brancos.

- Nós, mulheres, aguardamos por esse dia há pelo menos 80 anos. A obrigatoriedade do salário igual para trabalho igual entre mulheres e homens existe desde 1943 no Brasil, com a implementação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Desde então, houve pouquíssimo avanço nesse sentido - afirmou a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves.

Lula também sancionou outras duas leis. Uma inclui assédio moral e sexual e discriminação na lista de infrações ético-disciplinares da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Outra dá prioridade a gestantes e puérperas na renovação do Bolsa Atleta, com garantia do pagamento até o retorno às atividades.