sábado, 8 de julho de 2023


NÍLSON SOUZA

Esconde-esconde

Ainda estou invocado com o resultado do Censo. Como a maioria dos brasileiros, eu também estava convencido de que já éramos quase 213 milhões de almas residentes e domiciliadas nesta pátria mal- amada, como vinham informando as estimativas oficiais. De repente, vem o IBGE e joga água fria na nossa megalomania: "apenas" 203.062.512 habitantes. E um número exato, para não deixar dúvidas.

Mas que as tenho, as tenho. Onde foram parar os 10 milhões de patrícios que já faziam parte da vida do país, dos números da pandemia, dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios e das filas de desatendidos no sistema de saúde? Dez milhões não é pouca coisa. Cabe um Paraguai inteiro aí. É duas vezes a população do Uruguai. É todo Portugal, incluindo os brasucas que não param de desembarcar por lá.

Já li e ouvi muitas explicações para esse sumiço demográfico de proporções continentais. A mais plausível delas é a de que a estimativa de 213 milhões, feita pelo próprio IBGE no final do ano passado, baseada no Censo de 2010, estava equivocada. Num país que erra seguidamente as pesquisas eleitorais e tem seus estudantes constantemente reprovados nas avaliações de matemática, não é de se estranhar. Temos que reconhecer: não somos mesmo os melhores em números, cálculos e projeções.

E nem é culpa do IBGE. O instituto tem carências reconhecidas, enfrentou toda a sorte de dificuldades para contar a população, teve que adiar sucessivas vezes o encerramento do trabalho. Além disso, a taxa de crescimento populacional desabou por conta da pandemia e de outros fatores imprevistos. São atenuantes reais e compreensíveis. Mesmo assim, penso que o desaparecimento de tantas pessoas talvez tenha outro motivo até agora pouco mencionado: o autoescamoteamento. A verdade é que muita gente se escondeu do Censo.

Outro dia eu mesmo acompanhei o dilema de uma recenseadora na zona norte da Capital. Depois de acionar, por cinco dias seguidos, a campainha de determinada residência visivelmente habitada e de deixar seu telefone na caixa de correspondência sem que ninguém aparecesse ou desse qualquer retorno, a mulher simplesmente exclamou:

- Cansei!

E fez lá não sei que registro na sua planilha eletrônica, antes de dobrar a esquina e desaparecer. Provavelmente, colocou algum traço naquela coluna do "não sabem, não responderam" que sempre aparece nas pesquisas televisivas. A dúvida que fica, portanto, pode ser

resumida na seguinte pergunta: quantos são os brasileiros que se escondem do Brasil?

NÍLSON SOUZA

INFORME ESPECIAL

Trem do Pampa sobre rodas

Um trem "sobre rodas" será visto atravessando rodovias do RS em duas carretas de 28 metros de comprimento cada entre hoje e quinta-feira. O modelo VLT Prosper (foto) - veículo leve sobre trilhos desenvolvido pela Marcopolo - sairá de Bento Gonçalves nesta manhã, passará por Porto Alegre e Pelotas e seguirá rumo a Sant?Ana do Livramento, na Fronteira Oeste, onde dará início, ainda em 2023, a uma nova rota turística: o Trem do Pampa. A iniciativa é da Giordani Turismo, a empresa que há 30 anos é responsável pela operação da tradicional Maria Fumaça, na Serra.

Santa Casa em números

Mais antigo hospital do Rio Grande do Sul, a Santa Casa de Porto Alegre completa 220 anos em 2023, e a coluna segue trazendo números que traduzem a importância do complexo hospitalar. São nove estabelecimentos, que demandam um volume de insumos gigante, em uma logística complexa e desafiadora.

Veja só: todos os meses, as equipes da Santa Casa utilizam nada menos do que 975 mil compressas de gaze em atendimentos, 440 mil seringas, 52 mil litros de soro e 31 mil fraldas. Só na Maternidade, são preparadas 7 mil mamadeiras por mês. Já pensou?

JULIANA BUBLITZ

segunda-feira, 3 de julho de 2023


3 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

Trotes são letais

Vimos, há pouco mais de uma semana, que uma mulher foi acudida da violência doméstica porque ligou para a Brigada Militar pedindo pizza e o soldado percebeu que era um código cifrado de socorro. Ninguém encomendaria uma pizza "com urgência", ainda que estivesse desmaiando de fome. Houve sensibilidade da equipe de emergência para detectar a sutil anormalidade.

No incidente, um homem de 45 anos com antecedentes criminais, que estava descumprindo a medida protetiva, acabou preso em flagrante pela BM em Tramandaí, no Litoral Norte, por agressão a socos, chutes e puxões de cabelo.

Lembro esse episódio para ilustrar a importância de não fazer trotes ao 190, já que muitos dos apelos acontecem em linguagem indireta. Como a vítima, na maioria das vezes, encontra-se acompanhada do agressor, absolutamente coagida, sem saída, com a porta fechada do seu confinamento psicológico, precisa recorrer a subterfúgios, fingindo que telefona a um estabelecimento comercial, a um familiar ou a um amigo.

Não tem como ser objetiva debaixo das garras da agressividade. O medo grita. É um fingimento da autopreservação, uma dissimulação convincente para sair dali de algum jeito.

Por um instante, deve subir no palco da fantasia, disfarçar o timbre nervoso, para recuperar o papel de sua existência. Não pode gaguejar, gemer, chorar, entregar o que sente naquelas breves e decisivas frases de troca de impressões.

Corresponde a uma encenação complexa, que depende de absoluto controle emocional em meio ao mais grave caos familiar. Nomes trocados passam a ser comuns para preservar o sigilo da comunicação. O "alô" jamais será dado para a Brigada Militar, porém para um interlocutor inventado no calor do improviso.

É fundamental entender que a sala de operações não vai desprezar nenhum chamado. Tanto faz se é um relato picaresco ou legítimo, um meme ou uma solicitação de auxílio. Em ambos os casos, haverá sempre o rigor da escuta, o extremo de vida ou morte.

Porque os policiais em serviço são treinados para uma realidade paralela, para decifrar indícios de truculência detrás das aparências, a partir de conversas banais. Toda palavra é dissecada com o apuro do enigma, da charada.

Se você faz uma brincadeira indevida a um serviço indispensável de utilidade pública, ocupa o tempo precioso que serviria para atender a uma tragédia, desperdiça o tempo necessário para garantir uma sobrevivência.

Minutos podem ser fatais. Ligações falsas matam pessoas reais. De acordo com a Brigada Militar, das 274.728 ligações recebidas no primeiro semestre deste ano em Porto Alegre, 15,3 mil foram trotes e outras 15 mil foram enganos. Ou seja, 11% do atendimento representa trabalho perdido.

Prevalece também uma alta taxa de abandono do telefonema. Muitos começam o desabafo e não se veem em condições de segui-lo. Cerca de 100 mil ligações desembocam no mudo ou desligado.

A zombaria desvia o efetivo e coloca a patrulha no lugar errado, enquanto a verdadeira ocorrência fica desassistida. Você não está ocupando apenas uma linha, mas bloqueando a liberdade, o alívio, o amparo, a luz do sol de alguém que sofre em completo isolamento.

CARPINEJAR

03 DE JULHO DE 2023
CAPA

Contra o racismo e o negacionismo

Em "Uma Chance de Continuarmos Assim", Taiasmin Ohnmacht cria uma história futurista para abordar questões do presente

Graças à mãe, uma leitora assídua, Taiasmin Ohnmacht cresceu entre livros. Começou a ler com afinco na adolescência, principalmente poesia, típica na fase dos amores platônicos. Resolveu grandes dores com a escrita, botando no papel o que a afligia, como o excesso de timidez e o fato de ser a única menina negra em um colégio particular na Porto Alegre dos anos 1980.

Passou a escrever contos e histórias curtas após uma oficina com Alcy Cheuiche, retratando dilemas relacionais e de gênero, ora com homens sentindo-se desnorteados no envolvimento com uma mulher, ora com personagens deparando com impasses e situações sem saída. O sentimento de angústia que advém de sua escrita fez o poeta Ronald Augusto defini-la, sem tom depreciativo, como "um pesadelo".

- Gosto do insólito, do fantástico, de falar sobre coisas que as pessoas evitam. Gosto de desconcertar o leitor - concorda a escritora de 51 anos, que também é psicóloga e psicanalista e tem em Franz Kafka uma de suas leituras preferidas.

Há muito desse desconforto em seu primeiro romance, Vozes de Retratos Íntimos (Taverna, 2021), em que imprime traços autobiográficos de sua família. Filha de uma negra e de um branco vindos de São Paulo e a única da família a nascer no Rio Grande do Sul, Taiasmin é testemunha do amor que pode surgir entre pessoas de etnias diferentes, mas também do racismo nem tão implícito que permeia uma relação inter-racial.

- O Vozes tem a ambição de querer tratar da mistura racial com a complexidade que isso tem. Não é a solução para o conflito do racismo, mas também não quer dizer que é impossível que haja amor entre origens raciais diferentes. Quando tem essa hierarquia absurda entre raças e culturas, é difícil contar a história de um jeito que todas as origens tenham importância, mas eu tentei.

Com Vozes, tornou-se uma das poucas escritoras negras a vencer o Prêmio Açorianos de Literatura, conquistado no início do ano na categoria Narrativa Longa, além do Prêmio AGES. O livro também foi finalista do Jabuti em 2022 e do Prêmio São Paulo de Literatura.

Desafio

Ela não perde a vontade de desacomodar em seu novo livro, Uma Chance de Continuarmos Assim, recém lançado pela Diadorim. Inspirada na escritora americana Octavia Butler, uma das poucas mulheres a escrever ficção científica - e, para melhorar, dotada da ousadia de inserir temas raciais e de gênero -, Taiasmin inventa uma história futurista que critica o racismo e o negacionismo.

Duas estudantes negras, Paula e Marcela, criam uma máquina do tempo que lança uma delas para o futuro. Mas esse tempo que é sinônimo de esperança está em risco. Há dois povos em disputa: um que faz manipulações genéticas para atingir um biotipo ideal, e assim tornar seus integrantes menos suscetíveis a doenças, e outro que conseguiu controlar infecções com as vacinas. Enquanto o primeiro é eugênico, asséptico e "branco de doer o olho", o segundo é culturalmente miscigenado e preserva valores ancestrais enquanto também acredita na ciência.

Taiasmin escreveu o livro durante os anos de pandemia, enquanto via políticos e parte da sociedade questionarem as vacinas.

- Fiquei apavorada com o negacionismo científico, me pareceu que estávamos vivendo uma distopia. O Brasil sempre foi referência em imunização. Além do mais, no discurso de parte da população, parecia haver um apelo à pureza branca e heterossexual que me soava próximo do eugenismo - diz.

Acometida por um problema comum que afeta mulheres - o de achar que precisa fazer uma grande obra para ser reconhecida, sem entender que aquilo que fez é valioso -, Taiasmin admite que se cobra bastante. Tanto que a garota tímida que começou com poesias românticas virou a escritora que se atreve na ficção científica.

- Gosto de desafio na escrita. Para mim, escrever é montar um grande quebra-cabeça.

 KARINE DALLA VALLE


03 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

APERFEIÇOAMENTO NO SISTEMA DE METAS

O Conselho Monetário Nacional (CMN) deu um passo sensato e na direção correta ao decidir na quinta-feira alterar o sistema de metas de inflação. Foi a primeira mudança significativa no regramento adotado pelo país desde 1999. Em resumo, significa que o Banco Central (BC) não tem de, necessariamente, entregar ao final de cada ano um nível determinado de variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O objetivo traçado passa a dever ser alcançado em um prazo maior. Por isso, é conhecido como meta contínua. Esse horizonte à frente ainda será definido pelo BC, mas presume-se que, na prática, será de 24 meses. O novo modelo começa a valer em 2025

Com a alteração, o Brasil se alinha a outras economias do primeiro mundo, como Estados Unidos e países europeus, que fizeram transição semelhante em suas políticas de prazo para contenção inflacionária nos últimos anos. Acredita-se que, por exigir menor urgência temporal para que a meta seja atingida, sirva para suavizar mudanças monetárias bruscas, como a elevação do juro básico em velocidade mais acentuada. Choques poderiam ser evitados.

O próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto, também membro do CMN, era favorável à alteração, que considerou um aperfeiçoamento. A correção de horizonte foi ainda bem recebida na sexta-feira pelo mercado financeiro, com a alta da bolsa e a queda dos juros futuros e do dólar. A decisão também abre maior margem para que o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC encontre os fundamentos necessários para dar início ao ciclo de corte da Selic na reunião do início de agosto.

O encontro do CMN foi importante também pelo que não foi modificado. Como se esperava, manteve em 3% o objetivo para a inflação de 2024 e 2025 e anunciou que o patamar também valerá para 2026. A partir da meta contínua, a meta de 3% (sempre no acumulado de 12 meses) será perseguida com um prazo maior de tolerância que não o ano fechado de janeiro a dezembro. Permanece a margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Há no mundo uma discussão sobre se os bancos centrais não teriam de se acostumar a níveis inflacionários mais elevados por um período além do esperado. Foi uma reflexão expressada nos últimos dias inclusive pela vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath. Questiona-se, também, se a meta de 3% seria realista para um país em desenvolvimento como o Brasil, ainda mais em uma época de preços globais em alta.

São discussões válidas, mas que nesse momento trazem riscos locais adicionais. É preciso levar em consideração o ambiente atravessado pelo país. No caso, uma enorme pressão política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de outros membros do governo para o BC cortar o juro, enquanto ao mesmo tempo o Planalto busca espaço para elevar gastos públicos. Temia-se, portanto, que uma elevação da meta conduzisse a uma desancoragem nas expectativas de mercado, por passar a mensagem de que o BC poderia ser mais leniente com a inflação.

Votam no CMN três membros. Campos Neto, por ser presidente do BC, Fernando Haddad, ministro da Fazenda, e Simone Tebet, titular da pasta do Planejamento. Haddad e Tebet, como é notório, se somam ao coro sobre o juro. Mas mostraram responsabilidade na decisão sobre a meta. Ruídos à parte, felizmente prevaleceu a sensatez na hora de bater o martelo. Os preços têm mostrado deflação no atacado e desinflação nos índices mais amplos, mas nunca é ajuizado cutucar o dragão. 


03 DE JULHO DE 2023
CHAMOU ATENÇÃO

Vaga apenas para elétricos

A primeira vaga de estacionamento rotativo pago para carregar veículos elétricos foi anunciada pela Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMTTM) de Caxias do Sul. A vaga fica no trecho da Rua Marquês do Herval entre a Sinimbu e a Avenida Júlio de Castilhos e é destinada exclusivamente para os carros elétricos. O anúncio foi feito na sexta-feira e os testes já começam nesta semana.

O valor para estacionar é o mesmo da Zona Azul: R$ 4,40 por hora. Mas, ao pagar pelo tempo de estacionamento, o motorista já terá direito ao mesmo valor em recarga para o veículo. Quando acionado, o equipamento gera um código que deve ser lido pelo aplicativo Rek Parking, o mesmo usado para pagar as outras vagas.

Depois de ler o código no aplicativo e indicar o tempo de permanência na vaga, o equipamento libera o cabo de energia para ser conectado ao veículo. Após o período pago pelo motorista, o equipamento se desliga automaticamente.

Se tudo correr bem, o posto de abastecimento com combustível sustentável em via pública deve entrar em funcionamento por volta do dia 10 de julho. Neste período de testes, a recarga só vai estar disponível no horário do parquímetro (de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h e nos sábados, das 9h às 12h).

- Se o período de permanência for renovado pelo aplicativo e o veículo ainda estiver conectado ao cabo de energia, ele volta a ser carregado. Até expirar o tempo ou atingir o abastecimento completo do sistema elétrico - explica Rodrigo Tolves, gerente de Cadastro e Estacionamento Rotativo da Secretaria Municipal de Trânsito.

Quem estacionar um carro não elétrico no local pode ser autuado. A instalação de uma segunda vaga para esse tipo de veículo já está sendo analisada pela SMTTM. Ficaria na Rua Alfredo Chaves, próximo ao Parque dos Macaquinhos. Conforme Tolves, a secretaria vai avaliar a necessidade, a procura e a utilização do primeiro ponto.

Conforme dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) e da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Estado registrou aumento de 49% nos veículos elétricos emplacados nos dois primeiros meses de 2023, em comparação ao mesmo período em 2022. Foram 464 novos emplacamentos no período, contra 311 em 2022.

GABRIELA ALVES


03 DE JULHO DE 2023
CLÁUDIA LAITANO

Fogueira

Passei o último São João em uma das cidades que mais levam a sério a data. Em Montreal, não tem casamento na roça nem quentão - que eu saiba - mas tem desfile, carro alegórico, shows de diferentes estilos musicais e bonecos gigantes parecidos com aqueles do Carnaval de Olinda - além de muita gente na rua balançando bandeirinhas do Quebec. Para que todo mundo possa participar desse folguedo de verão, o dia de Saint-Jean-Baptiste é feriado na região.

Cerca de um terço dos canadenses não professa qualquer tipo de religião. Logo, essa animação toda em torno de São João tem menos a ver com a devoção ao santo do que com o orgulho nacional dos quebequenses, que aproveitam a data para celebrar a cultura franco-católica que os distingue das outras províncias canadenses. É tipo assim um 20 de Setembro setentrional. Ao mesmo tempo em que aproxima a comunidade de suas origens e tradições, reafirma a identidade local diante de uma vizinhança que cultua outros heróis e outras façanhas.

Enquanto isso, bem longe dali, um programa de TV debatia o equilíbrio entre tradição e ruptura nas festas de São João brasileiras. Há duas semanas, durante o Saia Justa (GNT), Astrid Fontenelle e Gabriela Prioli discutiram o ecletismo musical das festas juninas - a primeira criticando a invasão do arraial por ritmos como axé e sertanejo, a segunda defendendo o laissez-faire cultural.

É bonito ver como uma tradição que remonta a rituais pagãos, foi ressignificada pelo cristianismo e viaja pelo mundo há centenas de anos adquiriu contornos diferentes conforme o território em que aportou. Por algum motivo, no Nordeste brasileiro e no Quebec a festa assumiu a marca da identidade regional - o que não significa que a tradição está condenada a permanecer do mesmo jeito até o fim dos tempos. A cultura está sempre em movimento. Ou não é cultura.

Não acredito que a música sertaneja, o axé, o funk ou qualquer outra novidade introduzida nas brincadeiras juninas ameace o São João tradicional, mas entendo quem se preocupa com a monocultura musical que tomou conta da indústria fonográfica brasileira nos últimos anos. A ideia de que as festas devem oferecer "o que o povo gosta" pode ser uma ótima estratégia para garantir retorno comercial, mas não funciona como política cultural - que é a arte de zelar pelo reconhecimento, proteção e estímulo de manifestações que nem sempre fazem brilhar os olhos do mercado e dos patrocinadores.

Citando os versos de uma canção do pai, Bela Gil fez a observação mais inteligente do programa: "O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe".

CLÁUDIA LAITANO

03 DE JULHO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Monstrinhos do bem

O projeto Adopt Monster, criado pela publicitária Juliana Marques (foto), 49 anos, já ajudou a castrar mais de mil animais com a venda de monstrinhos produzidos com material reciclado. Foi passeando por Paris que Juliana encontrou um livro "faça você mesmo" que mudou sua vida - e de vários pets. Em 2011, em um momento de tédio, a ativista encontrou novamente o livro que ensinava a confeccionar monstros de meia. Colocou a mão na massa, produzindo logo 10 peças. Um amigo a encorajou produzir mais monstrengos e uma frase acabou por chancelar de vez a ideia: adote um monstrinho e ajude um gatinho.

Pelo Facebook, Juliana vendeu a primeira produção inteira em três horas. A segunda leva também esgotou rápido. Desde então, ela doa todo o valor arrecadado para castrar animais:

- O monstrinho é uma moeda de troca. A missão dele é passar a mensagem adiante - conta.

Em 12 anos de projeto, já vendeu os bichinhos feitos de restos de tecidos, meias e travesseiros em feiras de Porto Alegre e também da França. Por isso, nas redes sociais o projeto é bilíngue, em português e francês. Vendidos a 20 euros, castram até dois gatos. No Brasil, a R$ 40, financiam metade do procedimento. A castração é importante para o controle populacional e evitar zoonoses.

Mais informações de como ajudar, pelo Instagram @adoptmonsterofficial ou pelo Facebook, onde é possível acompanhar a agenda de eventos que o projeto participa.

Colaborou Raíssa de Avila

A simbologia histórica de uma imagem

Impossível deixar passar batido. Seria apenas mais uma recepção oficial, como tantas outras que já ocorreram no Palácio Piratini, não fosse um "pequeno grande" detalhe. Pela primeira vez na história do Rio Grande do Sul, um Estado conhecido pelo conservadorismo e pelo apego às tradições, um governador recebeu, ao lado do namorado, um presidente da República (foto).

Eduardo Leite, que já havia rompido preconceitos ao fazer uma declaração de amor a Thalis Bolzan quando assumiu o cargo, em janeiro deste ano, deu mais um passo na longa caminhada coletiva pela aceitação da diversidade. E na sexta-feira fez isso, mais uma vez, de forma natural, como se nada fosse.

Foi muito. Foi simbólico.

Não entro aqui no mérito da gestão estadual, nem em uma discussão sobre políticas públicas e muito menos nas brigas ideológicas que nos últimos anos vêm dividindo o país. Ao receber o presidente Lula e a primeira-dama Janja com Thalis ao seu lado, Leite dá um recado.

Aliás, dois. Um deles é: amor é amor. Simples assim. O outro recado fala de representatividade. Se um governador pode apresentar seu companheiro em uma recepção presidencial, Carla, Flávio, Gabriella, Clarice, Dudu, Fernando, Carlos, Luan, Diego, Carolina, Cadu, Maicon e Simone - aqui vai uma singela homenagem a alguns amigos - também podem, em qualquer circunstância.

Na semana em que se celebrou o Dia Internacional do Orgulho LGBT+, essa fotografia é, sim, uma imagem para não esquecermos, independentemente da posição política de cada um.

Desfecho pedagógico

Como era esperado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, na sexta-feira, tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível pelos próximos oito anos. O desfecho contra Bolsonaro - que ainda pode recorrer, mas dificilmente conseguirá reverter o resultado - é pedagógico.

Ao condenar o ex-mandatário por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, a maioria dos magistrados enviou um recado claro à sociedade e à classe política: quem propaga mentiras não está livre da lei, mesmo que ocupe o cargo máximo da nação.

Bolsonaro levantou, sem provas, suspeitas sobre o sistema de votação no Brasil, atacou a urna eletrônica - que em 26 anos nunca teve uma fraude comprovada - e atingiu em cheio a Justiça Eleitoral, um dos órgãos mais respeitados do país. Fez isso durante uma reunião com embaixadores no Palácio do Alvorada, em um evento transmitido em rede nacional. E mais: às vésperas do pleito de 2022, com a clara intenção de conturbar o processo e, desde sempre, lançar ao vento teorias da conspiração sobre o resultado futuro.

A ministra Cármen Lúcia foi didática em seu voto:

- A crítica feita ao Poder Judiciário, e a crítica a nós juízes, e a todo servidor público, acontece, e aí posso falar de cátedra, porque nos últimos tempos nós temos sido fustigados por críticas, e faz parte. O que não pode é um servidor público, no espaço público, no equipamento público, com divulgação pela EBC e por redes sociais oficiais, fazer achaques a ministros do Supremo, como se não estivesse atingindo a própria instituição, e não há democracia sem Poder Judiciário independente. A alegação feita, sem que houvesse provas, não tinha razão de ser a não ser, efetivamente, desqualificar a própria Justiça Eleitoral e o próprio Poder Judiciário e, com isso, atacar a democracia.

A reunião de Bolsonaro com representantes diplomáticos, como já havia concluído o relator do caso, ministro Benedito Gonçalves, "teve finalidade eleitoral, mirando influenciar o eleitorado e a opinião pública nacional e internacional". Gonçalves disse que "não é possível fechar os olhos para os efeitos de discursos antidemocráticos". Também não é mais possível normalizar as fake news.

Postais do mundo todo

Que tal receber cartões-postais impressos de várias partes do mundo, de gente que você nem conhece? E também enviar. Mesmo em plena era digital, é o que fazem mais de 800 mil usuários do site Postcrossing. Os aficionados por esse hobby também costumam promover encontros presenciais, chamados "meet ups". O mais recente foi no último dia 24. Aconteceu em seis cidades do Brasil, inclusive Porto Alegre, quando 11 "postcrossers" gaúchos se reuniram para confraternizar e confeccionar um postal com a temática junina.

Tudo começa quando o interessado se cadastra no site. São gerados aleatoriamente endereços, ao redor do mundo, para o novo participante enviar postais pelos serviços de correios. Em seguida, começa a receber também de outras pessoas que compartilham da mesma paixão. O encontro de Porto Alegre foi organizado pela professora Carla Cristina Albuquerque (foto), 50 anos.

- É muito legal receber postais de várias partes do mundo - diz Carla.

JULIANA BUBLITZ

sábado, 1 de julho de 2023



Atualizada em 30/06/2023 - 16h51min
Martha Medeiros

Gente aprende mais com quem visitou o inferno do que com colecionadores de selos

É justamente por Keith Richards ter feito coisas que até o demônio duvida que ele virou uma lenda

INA FASSBENDER / AFP

Um dos meus livros preferidos chama-se "O que Keith Richards Faria em seu Lugar" de Jessica Pallington West

Um dos meus livros preferidos chama-se O que Keith Richards Faria em seu Lugar, de Jessica Pallington West. É sério. Quando quero me desintoxicar do bom mocismo, abro uma página aleatória deste livro e me reconecto com o lado pulsante da vida. O pulso ainda pulsa, têm nos lembrado os Titãs em sua turnê exitosa pelo país, mas os batimentos cardíacos do planeta andam fracos, as ideias parecem ter perdido o efeito “uau”. O mundo encaretou uma barbaridade, e por isso trago Keith à essa sala de reunião em formato de crônica e o instalo na cabeceira.

Keith Richards é não apenas guitarrista dos Rolling Stones, mas um filósofo contemporâneo, mesmo que se relute em chamar de filósofo quem empunhe uma guitarra e tenha passagens pela polícia. É justamente por Keith ter feito coisas que até o demônio duvida que ele virou uma lenda, um sobrevivente e uma referência – a gente aprende mais com quem visitou o inferno do que com colecionadores de selos. 

Hoje ele é um avô amoroso que acorda todos os dias às 7h da manhã e leva o lixo para fora, um deboche do destino em se tratando de alguém que se meteu em encrencas, bebeu, fumou, cheirou, destruiu alguns carros e teve uns dentes quebrados, causando mal nenhum a não ser a ele mesmo (bem diferente dos políticos com cara de anjo, especialistas em produzir miséria graças a uma delirante fixação pelo poder, e que a sociedade chama de excelentíssimos). 

Prezo os bons exemplos e apoio todo ativismo que combata preconceitos, mas é preciso ficar atento para, ao tentar escapar da loucura, não ser cooptado pelas redes. Como aumentar sua autoconfiança, como melhorar o microbioma intestinal, como se vestir para uma entrevista de emprego, como preparar o melhor chá verde, como manter o foco através da meditação... Não se vê mais ninguém minimamente pirado e perdido. 

Pirado & perdido não significa grosseiro & vulgar. Quando me atrevo a saudar os loucos, estou me referindo a gentlemen como os Titãs, Keith Richards e outros cavalheiros do apocalipse, mas cavalheiros, antes de tudo. Incluindo damas como Patti Smith (quem estiver sintonizando comigo vai adorar seu Um Livro dos Dias, composto só de fotos e legendas – uma versão mais poética e inebriante do que chamamos de “instagramável”, pura delicadeza e nonsense). 

Menos cérebro, mais instinto. Pensar demais não tem funcionado. O planeta bem que poderia voltar a ser rock´n´roll (“música do pescoço para baixo”, como diz Keith). Prestar atenção nos que envelheceram sem tanto juízo e cuja “loucura” nem é tão louca, a gente apenas se acostumou a chamar assim para diferenciar daquilo que é chato – e como a lucidez anda chata, nem a minha aguento mais. 

17/06/2023 - 09h00min
Claudia Tajes

Outro dia me vi em um espelho e quase não acreditei que era eu no reflexo

A maturidade, ou algo próximo disso, acabou me fazendo ver que, mesmo com todos os percalços, não havia me faltado privilégios. Esse foi mais um tapa na cara que a vida me deu

Theo Tajes/ Arquivo Pessoal

Eu estava feliz naquele quentinho um tanto apertado, mas suficiente para eu me movimentar para todos os lados. Gostava particularmente de um tum-tum-tum que ouvia o tempo inteiro, mas não um tum-tum-tum de reforma no apartamento do vizinho ou de loja de surfe. Era um som bom, compassado, e parecia que o meu coração batia no mesmo ritmo dele. Então veio uma luz e a minha vida virou de cabeça para baixo – ainda que eu não conhecesse muito bem esse conceito, a vida. 

Em seguida me senti em um (essa associação só fiz bem mais tarde) açougue: pesa, mede, apalpa, olha a gordurinha, que coxa mais grossa, meu Deus! Impossível não chorar, ainda que eu não soubesse que o ato de gritar enquanto as lágrimas escorrem fosse isso, chorar. Só parei quando me levaram para os braços de alguém e, pelo tum-tum-tum, adivinhei no mesmo instante que ali era o lado de fora do quentinho de onde me arrancaram. 

Depois disso, a vida – não que eu já entendesse esse conceito, a vida – foi uma sucessão de primeiras vezes. A primeira mamada, a primeira cólica, a primeira vacina, a primeira febre, a primeira fruta, a primeira papinha, a primeira palavra, o primeiro passo, o primeiro tombo, a primeira arte, a primeira palmada, o primeiro dia na creche. Nada do que aconteceu até ali me preparou para o primeiro dia na creche. Foi quando eu senti que o quentinho e o tum-tum-tum tinham ficado definitivamente para trás. 

Agora eu estava por mim. 

Sem proteção, a vida – e enfim eu começava a entender esse conceito, a vida – passou a me apresentar suas armas. A menina que me encheu de socos porque eu peguei a borracha da Peppa Pig dela. A diarreia na frente dos coleguinhas. Os sete pontos na testa e os dois dentes de leite quebrados na queda do trepa-trepa. As letras que eu tentava juntar, mas que não faziam sentido. As crianças que tinham o que meus pais não podiam me dar. As crianças mais bonitas que eu, ou seja, todas, na minha opinião. No futuro, meu psiquiatra encontraria no Jardim B as origens das minhas frustrações. 

De lá para cá, a vida – agora eu brigava com esse conceito, a vida – nem sempre esteve do meu lado. Por exemplo: 

• Quando eu não decorei as Capitanias Hereditárias e rodei e perdi as férias de verão por castigo. 

• Quando eu gostava de alguém, e o alguém me ignorava. 

• Quando eu mandei um nude e o destinatário vazou para a turma toda. 

• Quando eu tive apendicite e perdi a viagem de formatura. 

• Quando me roubaram o primeiro celular bom que comprei, e faltavam 23 prestações de 24. 

• Quando eu noivei com festa para os parentes e, duas semanas depois, tomei um pé na bunda. 

• Quando a construtora faliu antes de me entregar o apartamento que comprei na planta. 

A maturidade, ou algo próximo disso, acabou me fazendo ver que, mesmo com todos os percalços, não havia me faltado privilégios. Esse foi mais um tapa na cara que a vida me deu. Só que dessa vez, contrariando meus métodos, não me chateei com ela. 

Outro dia me vi em um espelho e quase não acreditei que era eu no reflexo. Se ainda ontem eu não me conformava com a minha acne juvenil! Como passou tão rápido? 

No fim das contas, era fácil entender o conceito: era só viver. 

Sorte que ainda deu tempo.

30/06/2023 - 13h34min
Moara Steinke

Netuno e saturno retrógrados ao mesmo tempo pedem revisão de objetivos

Astrologia alerta para a importância de manter a persistência, a paciência e a cautela

Retrogradação de netuno e saturno está fortemente associada à revisão e reavaliação de assuntos regidos pelos planetas

Bits and Splits / stock.adobe.com

A partir da sexta-feira (30), netuno iniciará seu movimento retrógrado e se juntará a saturno, que já está nessa condição desde o dia 17. Na astrologia, a retrogradação está fortemente associada à revisão e reavaliação de assuntos regidos pelos planetas específicos.

Saturno

Até o dia 4 de novembro, a atenção em relação à rotina de trabalho, planos de carreira e conquistas profissionais deve aumentar. O planeta Saturno, em movimento retrógrado, sugere um período em que é necessário reavaliar e rever desejos e planejamentos de longo prazo. 

O convite astrológico é para uma melhor administração do próprio tempo, observando quais atividades estão emperradas ou apenas sugando sua energia. É tempo de reconhecer os limites pessoais e esse aspecto astrológico pode nos levar ao enfrentamento das limitações e assim, consequentemente, a um maior autoconhecimento.

Paciência

Este é um período em que é possível sentir uma certa desaceleração em relação a novas conquistas profissionais. O céu astral convida a uma reorganização no campo do trabalho. Ou seja, é preciso estabelecer prioridades, cortar excessos e adotar uma postura mais decidida e convicta em relação aos seus ideais. 

A persistência, paciência e cautela serão seus maiores aliados nesse momento, especialmente quando se trata de decisões profissionais. Saturno retrógrado indica que é hora de colocar seu lado mais maduro em ação, reconhecendo seus próprios limites e empoderando suas capacidades.

Ajustes

Não se surpreenda se você identificar com maior clareza pontos de insatisfação em relação ao seu trabalho ou carreira atual. Esse aspecto astrológico desempenha um papel importante ao ajustar pendências e faltas, visando promover um crescimento e amadurecimento ainda maiores em cada experiência. 

Saturno é conhecido como o planeta da maturidade e da sabedoria. Aproveite esse momento para realizar uma verdadeira reflexão sobre seus projetos profissionais, como você tem dedicado seus esforços atualmente e se tem respeitado seus limites emocionais e de tempo.

Determinação

A determinação é uma característica marcante do planeta saturno e é fundamental para alcançar grandes empreendimentos e projetos. Este é o planeta que indica sobre não desistir diante dos primeiros obstáculos, a buscar ajustes, enfrentar medos e, assim, alcançar o sucesso que realmente é desejado e chegar ao topo da montanha pessoal. 

Aproveite essa oportunidade para se conhecer melhor, traçar metas claras e trabalhar na busca pelos seus objetivos profissionais. Lembre-se de que o caminho pode ser desafiador, mas com perseverança e dedicação, você pode alcançar grandes conquistas.

Netuno 

Para a astrologia, o planeta Netuno está relacionado à espiritualidade, sensibilidade e intuição, mas também à dispersão, nebulosidade e dificuldade em identificar objetivos e manter o foco. A retrogradação de Netuno sugere um momento de avaliar sua filosofia de vida, conexões com um propósito maior e quais são os objetivos significativos que estão impulsionando sua energia pessoal. Se você tiver uma conexão emocional com suas atividades, isso pode transformar sua motivação, fornecendo uma base sólida para alcançar seus objetivos.

Reavaliar sonhos

A retrogradação é um período de revisões e reavaliações também dos sonhos e ideais pessoais. Portanto, pode não ser o melhor momento para investir em grandes projetos em que não esteja claro qual é o propósito deles em sua vida. 

Netuno continuará em movimento retrógrado até o dia 6 de dezembro, o que significa que teremos um longo período para avaliar nossas aspirações e descobrir o que realmente nos envolve, permitindo-nos manifestar nosso maior potencial criativo, artístico e emocional.

Resgatar a espiritualidade

Este é o momento de resgatar as crenças que lhe proporcionam mais força, energia e alegria para manifestar seus propósitos e objetivos. Aprofunde-se em sua espiritualidade, ouça sua intuição e explore suas habilidades criativas. 

Use esse período para refletir sobre o que realmente importa para você e como pode manifestar isso em sua vida de uma forma significativa.


01 DE JULHO DE 2023
CARPINEJAR

O amor é uma trégua

Vigora a máxima: você só conhece o cônjuge na hora de se separar. É um mandamento que os advogados sabem de cor, tabuleta na porta da vara de família. De tanta gente que acredita nisso, a vontade é se separar antes de pedir em namoro, para ver de cara como o vivente é e não sofrer com as aparências.

Só que a verdade é mais funda. O casal não começou a discutir durante a dissolução dos laços. Ele voltou a discutir. Retomou uma indisposição original. A ruptura do relacionamento evidencia uma estranheza que nunca deixou de existir, apenas foi mascarada pela intimidade. Os alicerces não mudaram.

Esquecemos que era assim no começo de tudo. O início de relação é historicamente feito de implicância, de duas figuras antagônicas que não se entendem e vivem se testando. Sai até fumaça da troca de farpas entre os dois enamorados, tamanha a erupção do vulcão, que depois fica adormecido.

Não tem como permanecer ao lado do par de pombinhos se bicando. Você namora quem não atura, quem não suporta. Acaba permanecendo com aquele de quem pretendia manter distância.

Como você não pode dizer na largada que gosta de alguém, muito menos aceita gostar de alguém absolutamente irritante, expressa o apego pela oposição. Falar mal é uma licença para ter o nome da pessoa sempre presente em sua boca.

Trata-se do monopólio de atenção fundado na crítica, que depois se converte positivamente em atração.

O roteiro redentor é base de toda comédia romântica, que parte da vaia ao beijo no baile.  O inimigo se torna aliado com o tempo partilhado, as confidências, as experiências em comum. Repare que a maior parte dos romances tem desencontros, gafes e enfrentamentos na sua origem. Não é uma história linear, pacífica, acomodada.

Tanto que é possível ver um casal se formando quando um não para de provocar o outro. A química é deflagrada na rivalidade. Eles não são capazes de fazer um elogio ou recorrer a juras diretas. O discurso se caracteriza pelo tom contraditório, ambíguo e persecutório. Predomina uma culpa por desejar quem não é nem um pouco parecido com você.

Pega-se primeiro no pé para, no futuro, dar a mão. Na escola, você dizia que odiava um colega porque já o amava. Não queria que ninguém da turma percebesse o que estava sentindo. Tentava esconder as suas emoções demonstrando o contrário.

Se os opostos se atraem, eles são opostos desde sempre. Na convivência, continuam sendo opostos, com suas individualidades protegidas. Assim sendo, o que me resta concluir é que o amor é uma trégua. O amor é um longo armistício entre os desentendimentos do princípio do contato e do divórcio.

CARPINEJAR

01 DE JULHO DE 2023
LEANDRO STAUDT

O tesouro do São Pedro

O Hospital Psiquiátrico São Pedro guarda um pequeno tesouro. Mesmo que possa estimular a imaginação, com certeza, o maior valor é histórico. A origem está no lançamento da pedra fundamental do hospício no arraial do Partenon, em Porto Alegre.

O presidente da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Carlos Thompson Flores, comprou as terras junto à Estrada do Mato Grosso, atual Avenida Bento Gonçalves. Em 2 de dezembro de 1879, em prestigiada celebração, deu largada à obra, projetada pelo engenheiro Álvaro Nunes Pereira.

Durante a cerimônia, em um vão junto à pedra fundamental, foi colocada uma caixa de zinco, com outra de madeira dentro. De acordo com ata sobre o lançamento, Thompson Flores depositou moedas nacionais de cobre, níquel, prata e ouro, além de jornais do dia. Ele também deixou uma mensagem saudando a obra do hospício para tratar "os infelizes acometidos de alienação mental".

Onde está o tesouro? Pela descrição da ata, embaixo do primeiro prédio. O texto indica que a caixa de zinco foi soldada em todos os lados para perpetuar a memória da construção. Sobre a pedra fundamental e a caixa, continuaram a "levantar o alicerce do edifício".

Em 29 de junho de 1884, o governo da província inaugurou o primeiro dos seis blocos do Hospício São Pedro. Na véspera, chegaram 41 "alienados", transferidos da Santa Casa de Misericórdia e da cadeia pública. Outros dois blocos foram concluídos dois anos depois. Com necessidade de espaço, surgiram mais três pavilhões até 1903.

No auge da ocupação, entre o final dos anos 1960 e início da década de 1970, o hospital chegou a ter 5 mil internados. Cenário de vários filmes, o conjunto de prédios é tombado pelo Estado e pela prefeitura de Porto Alegre. O restauro começou, mas está suspenso.

Sem dúvida, o maior tesouro do São Pedro é o prédio histórico, que precisa ser recuperado. Será que a caixa de moedas será encontrada um dia?

LEANDRO STAUDT

01 DE JULHO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

O DESDÉM CONTINUA

Insisto em escrever sobre o desdém com o meio ambiente por entender que é tema fundamental. Em todos os setores no mundo, todos falam em sustentabilidade, mas no Brasil carecemos de planos concretos, sem falar da desídia por atos igualmente concretos.

As atividades do governo federal, a grosso modo, limitam-se às falas do presidente Lula da Silva de que já em 2030 "não haverá desmatamento ilegal na Amazônia". Não explica, porém, como atingirá esse objetivo. Sem isso, tudo o que diz o presidente soa como reles demagogia. Não há planos de preservação ambiental nem qualquer referência ao hidrogênio verde, o combustível do futuro.

A política nacional do hidrogênio verde foi lançada em 2021, no governo Bolsonaro, mas desde então houve apenas uma reunião no Ministério de Minas e Energia. Não se implementou nenhum plano concreto para exploração do "combustível do futuro", embora o Brasil seja o país mais aparelhado para isso, por ser limpa 85% de sua matriz energética.

Por isso, o mundo inteiro nos olha com esperança, mas aqui desdenhamos de tudo. Dos 359 projetos para chegar ao hidrogênio verde existentes no mundo, só um é do Brasil, em Suape (PE), e, mesmo assim, genérico. Há promessas de projetos em um porto no Ceará e outro no Estado do Rio de Janeiro, mas nada foi concretizado até aqui, com o que tudo se resume a mera fantasia.

De acordo com as pesquisas da ciência, o hidrogênio verde é essencial para a descarbonização do planeta. Esse combustível tem três vezes mais energia do que a gasolina, além de ser uma fonte limpa. Nosso potencial para geração de energia eólica e solar pode nos levar a produzir hidrogênio verde até para exportação, além de suprir o consumo interno.

Escrevo antes de o Tribunal Superior Eleitoral decidir sobre a inelegibilidade de Jair Bolsonaro pelas mentiras com que (sendo presidente e em reunião com embaixadores estrangeiros) questionou o sistema eleitoral e afirmou que as urnas eletrônicas eram fraudulentas em si.

O ministro-relator foi tão contundente que, a não ser que se interrompa o juízo, a decisão levará à inelegibilidade.

Seja qual for o resultado, porém, será a primeira vez que apareceram as mentiras de algum político, mesmo sendo a mentira o mais comum na política.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

01 DE JULHO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

ACERTO DE CONTAS

Como militar, deputado federal ou presidente da República, Jair Messias Bolsonaro sempre confiou em uma espécie de inimputabilidade, mesmo afrontando leis e regras de conduta das funções que exerceu. Foi bem-sucedido até sexta-feira, quando foi considerado inelegível por cinco votos a dois pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Bolsonaro não poderá participar de nenhum pleito por oito anos após ser condenado por abuso do poder político e uso indevido dos meios de comunicação, irregularidades cometidas na infame reunião de 18 de julho do ano passado, quando convocou embaixadores estrangeiros para despejar afirmações falsas sobre o sistema eleitoral do país e sobre ministros do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Não foram propriamente as leviandades proferidas no vexatório evento que condenaram Bolsonaro, mas o uso considerado ilegal pela Corte das dependências do Palácio da Alvorada e de servidores públicos para objetivos relacionados à eleição que se aproximava. O ato destinado a desacreditar a Justiça Eleitoral foi ainda veiculado ao vivo pela TV Brasil, rede pública custeada pelos impostos pagos por todos os brasileiros e que por essa razão não deveria ser utilizada para fins politiqueiros.

A legislação não deixa dúvida ao considerar irregular, e sujeito a punição, o uso de bens públicos e meios de comunicação oficiais em proveito de intenções relativas a eleições, com propósitos que nada têm a ver com o interesse público ou institucional. Foi um flagrante desvio de função. O evento foi ainda transmitido ao vivo pelas redes sociais do presidente, em uma intenção clara de levar seus seguidores a acreditarem que Bolsonaro estaria revelando a representantes estrangeiros um suposto complô para prejudicá-lo no pleito de outubro. Há óbvia lógica na conclusão de que se tratava de parte de uma estratégia para, no futuro, tentar justificar perante o mundo uma contestação do resultado eleitoral.

Além dos fatos do dia 18 de julho, é impossível esquecer que há um contexto. A tal reunião com os embaixadores não foi uma situação isolada e desconexa de acontecimentos pretéritos e posteriores. No caso, uma campanha incansável para difamar o sistema eleitoral do país, internacionalmente reconhecido como eficiente e transparente, com uma saraivada de declarações fraudulentas e várias vezes didaticamente desmentidas. A série de desconfianças infundadas semeadas e incitações, como se temia, teve um desfecho trágico: a depredação e a invasão violenta dos prédios dos três poderes, no dia 8 de janeiro, uma grave tentativa de se chegar à ruptura institucional. Roteiros e minutas encontrados no celular do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro e na residência do seu ex-ministro da Justiça, com os passos para um golpe e uma busca por dar verniz legal à derrubada do Estado democrático de direito, são novas peças que se encaixaram para explicar toda a turbulência atravessada pelo país nos últimos anos.

Jair Bolsonaro é alvo de uma profusão de processos. Apenas na Justiça Eleitoral, são mais 15. Como qualquer cidadão, o ex-presidente tem direito a uma análise justa de seus casos, observando-se apenas o que dizem as leis e a Constituição, com amplo direito de defesa. O ex-presidente ainda pretende recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) da condenação do TSE. São poucas as chances de um recurso prosperar, mas é sua prerrogativa e deve ser respeitada. Parece, no entanto, que chegou a hora de começar acertar as contas com a Justiça por seus atos.

O pensamento político de direita tem a aderência de significativa parcela da população, adepta do desenvolvimento pelo empreendedorismo, o livre mercado e outras ideias que, ao longo dos séculos, alavancaram o progresso científico e econômico da humanidade. É parte legítima da vida democrática nacional e da saudável disputa de propostas de nação - que, ao fim, se dá nas urnas. Mas seja qual for o espectro ideológico, há um problema quando a figura a pretensamente personificar um projeto age como se estivesse acima da lei e das instituições. Lideranças se renovam e, agora, há a oportunidade de partidos e correntes de viés conservador se reorganizarem em busca de nomes verdadeiramente compromissados com as linhas da Constituição e capazes de representá-los nas próximas eleições.


01 DE JULHO DE 2023
+ ECONOMIA

Recicle, reuse, reduza e ainda doe

Na definição, a meta contínua de inflação que será adotada no Brasil a partir de 2025 - decisão tomada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) na quinta-feira - significa apenas que o Banco Central (BC) não terá prazo de somente um ano para cumprir esse limite. Mas isso não quer dizer que não será cobrado a perseguir o objetivo, agora praticamente permanente: o centro da meta é 3% em 2024, 2025 e 2026 . Mas então, qual é o sentido de não obrigar o BC a cumprir a meta em 12 meses?

Na prática, a meta contínua dá mais prazo para que o BC a alcance. Isso significa que, caso haja novas pressões inflacionárias, em vez de ter de explodir o balão dos preços altos em duas ou três pancadas - correndo o risco de fazer toda a economia despencar junto -, será possível ir desinflando aos poucos, transformando um choque em pouso suave.

A medida não está sendo tomada quando há choques inflacionários no horizonte, ao contrário. A inflação está desacelerando e os mais recentes indicadores de preços que incluem o atacado, como o IGP-M, da Fundação Getulio Vargas, apontam deflação, ou seja, redução generalizada de preços. O IGP-M de junho apontou queda de 1,93% sobre redução anterior de 1,84% em maio. Portanto, a mudança não pode ser considerada casuística, ou seja, adotada com alguma espécie de artificialismo para que o BC tenha mais conforto em começar o tão esperado - e tão adiado - início dos cortes no juro.

Na semana passada, a coluna acompanhou o nono Seminário Anual de Política Monetária da FGV, com a participação de Affonso Celso Pastore, Eduardo Loyo e José Júlio Senna. Pastore foi presidente do BC e os outros dois economistas, diretores da instituição. Os três são críticos do arcabouço fiscal de Haddad.

- Se a mudança for bem feita, não criar sensação de que é uma meta para alcançar a perder de vista, pode ser um ganho de credibilidade para o regime de metas. Não dá para ficar perseguindo, a ferro e fogo, a inflação do ano, o que não se consegue - afirmou Loyo.

- Espero que esse CMN tenha a decisão racional de manter a meta e o intervalo estreito ainda que seja meta contínua, o que o BC já faz. Se adotarem meta mais alta, não será bom para a economia brasileira - disse Pastore.

Portanto, ao tomar a decisão que converge para um objetivo do governo Lula - algum alívio nas pancadas de juro -, Haddad não agradou apenas ao mercado, mas também a economistas muito ortodoxos.

Tadeu Almeida era sócio de uma agência de publicidade até 2015, mas não estava satisfeito com seu trabalho. Questionava quão bem fazia ao mundo:

- Estimulava compra massiva de produtos que não faziam bem para pessoas ou para o planeta.

Quando se focou em projetos digitais, entrou em contato com startups e recuperou o "brilho no olho" ao projetar um negócio com pegada ambiental e impacto social positivos. Nasceu a Repassa, maior brechó online do país, comprada há dois anos pela Renner.

- A escolha do mercado de usados foi óbvia, porque é o produto mais sustentável que existe. Uma nova vida útil não consome recursos naturais - justifica Tadeu.

Para garantir o propósito social, a solução foi criar a possibilidade de doação de parte dos recursos da venda para entidades que desenvolvem esse tipo de projetos. Em 2021, veio a proposta de compra da Renner, que manteve Tadeu à frente do brechó online.

- Sempre tive como norte que o melhor para o negócio vem em primeiro lugar. Com o negócio, a Repassa iria conseguir acelerar seu crescimento, teria acesso a sinergias e tiraria risco da mesa, porque a Renner é sólida e tem caixa. Foi importante saber que era uma empresa com princípios e valores semelhantes, por ser uma referência em moda sustentável - explica, sobre a decisão de vender.

Agora, o cliente pede uma "sacola do bem", que custa R$ 49,99, e envia as peças à Repassa. Pode fazer isso pelo Correio ou, agora, em 87 lojas da Renner no Brasil. A empresa escolhe as peças, passa, fotografa e exibe no site. Sobre as vendidas, cobra 60% do valor. O cliente decide o que fazer com os 40% restantes: pode destinar tudo a projetos sociais ou, se preferir, pode receber em uma carteira digital e dirigir à sua conta bancária.

Para o futuro, a Repassa quer buscar eficiência operacional, automatizar processos - hoje, já faz preenchimento automático de parâmetros a partir das fotos. Tadeu não descarta, mais adiante, uma espécie de showroom físico - no Exterior, já existem redes de brechós arrumadinhos.

MARTA SFREDO

01 DE JULHO DE 2023
VISITA AO ESTADO

"Transformar o Brasil em uma grande nação"

Na cerimônia de inauguração oficial dos blocos B e C do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez discurso de retomada da esperança, da paz, do combate às desigualdades e à pobreza. Contrariando expectativas do público, que cantou "inelegível, inelegível" por diversas vezes antes do ato, Lula ignorou a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, horas antes, afastou o ex-presidente Jair Bolsonaro das eleições pelos próximos oito anos.

- Chega de violência, de miséria, de fome, de desespero. Esse país precisa mudar e eu voltei, junto com vocês, para a gente mudar e transformar esse país em uma grande nação - afirmou Lula, em discurso de 17 minutos.

Seguindo a narrativa de virada de página pós-Bolsonaro, adotou tons motivacionais, com frases de efeito como "a gente pode", e afirmou que, quem "pensa pequeno, colhe pequeno".

- Conseguimos provar que o pobre não é o problema desse país. Pobre passou a ser a solução quando o colocamos no orçamento da União - declarou o presidente.

Ele esteve ao lado da primeira- dama, Rosângela da Silva, de ministros, autoridades estaduais, municipais e servidores do hospital.

Antes do discurso de Lula, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, assinou duas portarias que liberam, somadas, R$ 167,9 milhões para investimentos em saúde no Estado. A previsão é de que os recursos atendam hospitais em Guaíba, Santa Maria, Caxias do Sul e Bagé (radioterapia).

A plateia chegou a cantar "fica, Nísia", uma reação às pressões para que o Palácio do Planalto entregue a gestão do Ministério da Saúde ao centrão, em troca de uma base aliada estável no Congresso. A desarticulação na Câmara dos Deputados é um dos principais nós do terceiro mandato de Lula.

No palco, uma placa referente à inauguração oficial dos blocos B e C do HCPA foi descerrada por Lula e outras autoridades. Os novos prédios foram visitados pela comitiva antes do evento presidencial. O ato foi realizado em uma área externa do HCPA, com montagem de palanque e estrutura de cobertura para o público.

CARLOS ROLLSING

01 DE JULHO DE 2023
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Reafirmação do jornalismo

Desde quinta-feira, ocorre em São Paulo o 18º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Esses encontros anuais organizados pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) são momentos de aprendizado para profissionais e estudantes. São dezenas de palestras e oficinas em que se debate o jornalismo profissional por todos os ângulos.

Temas como o impacto da inteligência artificial na comunicação, as complexidades da política no Brasil e no Exterior, os bastidores de reportagens investigativas marcantes nos últimos meses e discussões sobre projetos inovadores e técnicas de apuração estão presentes na programação, que se encerra neste domingo.

Duas palestras contaram com a participação de jornalistas do Grupo RBS. Neste sábado, a repórter da Redação Integrada Letícia Mendes participa de um debate sobre como o jornalismo investigativo pode ser mais bem desempenhado se for tratado como um processo. Letícia, juntamente com outros dois profissionais, fez o programa internacional de capacitação desenvolvido pela Abraji com apoio da embaixada e de consulados dos EUA no Brasil. Durante o curso, os repórteres foram desafiados a formular uma pauta e, posteriormente, a executá-la seguindo todas as etapas recomendadas, que vão da hipótese à narrativa. 

A reportagem de Letícia, publicada em ZH no início de junho, mostra um levantamento minucioso de todas as mulheres que foram vítimas de feminicídio em 2022. Ao verificar dados da Polícia Civil, chamou atenção da repórter o fato de que cerca de 20% das mulheres assassinadas tinham medida protetiva dos órgãos oficiais. O que havia falhado para que essas mulheres, que deveriam estar protegidas, tivessem sido mortas? Letícia foi atrás dessas respostas e as descobriu.

Já na sexta-feira, participei de uma palestra, junto com outros dois colegas de profissão, sobre como montar uma equipe de repórteres investigativos. O Grupo de Investigação da RBS, o GDI, criado em 2016, foi tema da minha apresentação. O grupo, que em junho deste ano foi renovado, agora sob coordenação do editor-chefe do Diário Gaúcho, Diego Araújo, e com a presença de novos repórteres, virou um exemplo nacional de como valorizar o jornalismo investigativo.

Que venham mais congressos, seminários e debates sobre o jornalismo profissional. É assim que nos aprimoramos e inovamos.

DIONE KUHN