domingo, 26 de julho de 2015



FERREIRA GULLAR

As boas e as más intenções


Não há sentido em alguém ganhar milhões de dólares por hora enquanto outros mal ganham para sobreviver

Numa coisa Karl Marx estava certo: o capitalismo é um regime de exploração. Mas daí partiu para uma conclusão errada: só o trabalhador produz riqueza e o capitalista só explora. Não é verdade, e essa conclusão errada foi responsável pelo fracasso dos governos comunistas, que excluíram a iniciativa privada –ou seja, o empreendedor– e puseram em seu lugar meia dúzia de burocratas do partido, incapazes de gerir até mesmo uma quitanda.

É curioso que ninguém se tenha dado conta disso, a começar pelo próprio Marx, homem culto e de rara inteligência. Talvez a razão de tal equívoco tenha sido o caráter selvagem do capitalismo do século 19, que explorava os trabalhadores sem qualquer escrúpulo.

Marx via os capitalistas, portanto, como cruéis exploradores que não mereciam participar da sociedade igualitária do futuro, a qual, segundo ele, seria governada pela ditadura do proletariado. O que, aliás, nunca aconteceu nem podia acontecer, uma vez que, a começar por ele, quase todos os líderes revolucionários de esquerda eram de classe média.

Chego a pensar que tampouco a classe operária sonhada por Marx era revolucionária. O operário não só não tinha conhecimento dos problemas da sociedade como temia perder o emprego, uma vez que não lhe restaria outro meio de sobrevivência.

Ele era pobre, o irmão era pobre, o pai era pobre. Já o cara de classe média, se perdia o emprego, tinha o pai para socorrê-lo ou algum outro parente. Por isso o operário pensava duas vezes antes de se meter em encrenca. Tanto isso é verdade que, em nenhum país desenvolvido, a revolução operária aconteceu. Nos Estados Unidos, que possuíam a maior classe operária do planeta, o partido comunista nunca teve qualquer importância.

A verdade é que, se sem o trabalhador não há produção, sem o empresário também não há. Neste momento, aqui mesmo no Brasil, há milhões de pessoas inventando agora pequenas empresas, médias empresas, grandes empresas, que vão promover o crescimento econômico do país, gerar empregos e riqueza.

Mas não é o empresário que, sozinho, vai pôr sua empresa para funcionar; precisa do trabalhador. O problema é que a riqueza produzida assim é mal dividida: o patrão fica com a parte do leão. Daí a desigualdade que caracteriza a sociedade capitalista e que, se já não é a mesma que no século 21, tampouco conseguiu eliminar a pobreza, mesmo em países desenvolvidos.

Está errado, mas também não estaria certo todo mundo ganhar a mesma coisa, uma vez que as pessoas têm capacidades diferentes. Nem todo mundo é Bill Gates ou Pelé ou Picasso. Tampouco tem sentido alguém ganhar milhões de dólares por hora enquanto outros mal ganham para sobreviver.

A conclusão a tirar de tudo isso, conforme penso, é que, se o regime capitalista tem a virtude de produzir riqueza, é uma riqueza desigualmente dividida. A conclusão inevitável é que devemos batalhar por uma divisão menos injusta possível.

Inteiramente justa, jamais o conseguiremos, porque, como se viu, a própria natureza é injusta, cria pessoas com capacidades desiguais. A justiça é, portanto, uma invenção humana e, por isso mesmo, depende das pessoas e das instituições para acontecer de fato.

Mas não é assim que pensam certos políticos que decidiram pôr, no lugar do marxismo extinto, um populismo dito de esquerda, que se vale da referida desigualdade social para ganhar o apoio dos mais pobres para chegar ao poder e pôr em prática programas assistencialistas, que não resolvem os problemas; pelo contrário, os agravam, como ocorre hoje na Venezuela, na Argentina e no Brasil. Não há exagero, portanto, em apontar o caráter demagógico do populismo que, chegado ao governo, faz o contrário do que prometeu.

É possível até que, em alguns casos, acreditem, na sua visão equivocada, que têm a solução dos problemas, mas, na hora de enfrentá-los, veem que, nesse campo, milagres não acontecem. O resultado é o desastre, de que é exemplo o governo Dilma no Brasil.

Mas esse populismo está sendo desmistificado pela realidade dos fatos, como ocorreu agora mesmo na Grécia, onde o premiê Alexis Tsipras teve que fazer exatamente o contrário do que prometeu para chegar ao poder: submeteu-se às imposições dos credores.


MAURICIO STYCER


No país das novelas


Mesmo com 16 folhetins à disposição, o espectador nunca viu um momento tão pobre na teledramaturgia
A grande novidade na televisão brasileira nesta semana é a estreia, na segunda-feira (27), de três reprises de novelas –duas na Record ("Dona Xepa" e "Prova de Amor") e uma na Globo ("Caminho das Índias").

O espectador fã do gênero passa a contar, assim, com 16 novelas por dia na grade da TV aberta –talvez um recorde brasileiro. A Globo lidera o ranking com sete produções (incluindo "Malhação", no ar há 20 anos).

O SBT vem em segundo lugar, com cinco novelas –uma delas, a mexicana "A Usurpadora", está sendo exibida pela sexta vez. A Record com três e a Band com uma completam o rol.

Quantidade, naturalmente, não é sinônimo de qualidade no país das novelas. Ao contrário, tenho a impressão de que há muito tempo não se vive um momento tão pobre na teledramaturgia brasileira.

Com o fim de "Sete Vidas", em 10 de julho, a paisagem se tornou ainda mais desoladora. Para além dos clichês e truques obrigatórios, a novela de Lícia Manzo conseguia manter o espectador em permanente estado de atenção por conta de seus diálogos densos.

Fundada muito mais em conversas do que em ação, a história teve o mérito de apresentar personagens de carne e osso, confusos, contraditórios e hesitantes em suas relações pessoais e profissionais.

É sintomático que "Sete Vidas" tenha sido substituída por um dramalhão clássico. "Além do Tempo" é uma novela de época de linhagem espírita. Encerrada a primeira fase, que se passa no século 19, os personagens do passado viverão uma nova vida nos dias atuais.

Apesar da produção impecável e do bom elenco (com destaque para Irene Ravache), não vi até agora uma situação surpreendente, um diálogo inesperado ou algum tipo mais complexo na história de Elizabeth Jhin. Muito pelo contrário. Tudo tem gosto de déjà-vu.

Aliás, pensando em todas as novelas a que assisto com alguma regularidade, só consigo me lembrar de duas personagens que fogem ao padrão binário hoje dominante (bom ou mau, herói ou vilão, todos retos e sem dúvidas).
Estou falando de um universo que inclui as quatro produções originais da Globo ("Além do Tempo", "I Love Paraisópolis", "Babilônia" e "Verdades Secretas"), a da Record ("Os Dez Mandamentos") e a infantil do SBT ("Chiquititas").

Giovanna (Agatha Moreira) e Arlete/Angel (Camila Queiroz), duas adolescentes, se destacam em meio a uma história escrita quase sempre com mão pesada por Walcyr Carrasco. Uma rica, a outra de origem humilde, elas oferecem uma visão muito diferente do universo adolescente habitualmente descrito pela TV no Brasil.
Cada uma à sua maneira, ambas são inteligentes, mas perdidas, confusas e inconsequentes em seus atos. Consomem drogas, bebem, fazem sexo por prazer e por dinheiro. Estou simplificando, mas quem vê a novela já deve ter se dado conta de que as duas são personagens complexas, que provocam e fazem o espectador pensar.

Os idiotas da objetividade dirão que isso só é possível porque "Verdades Secretas" é exibida por volta das 23h. A questão é outra. É possível fugir da obviedade e da simplificação barata em qualquer horário, com qualquer tema.

O atual rebaixamento no padrão, acho, se dá por dois motivos. Enquanto parte da audiência fugiu em busca de produtos mais qualificados, as emissoras parecem não confiar na capacidade de compreensão do público que ficou.


ELIO GASPARI

As meninas de Santa Leopoldina


Quando tudo parece dar errado, Fábia, Fabiele e Fabíola mostraram o vigor do andar de baixo de Pindorama

Há algumas semanas, havia um pedágio na entrada da cidade de Santa Leopoldina (800 habitantes), na região serrana do Espírito Santo. Jovens pediam dinheiro aos motoristas para ajudar a pagar a viagem das trigêmeas Fábia, Fabiele e Fabíola Loterio ao Rio. Filhas de pequenos agricultores da zona rural próxima a Vitória, elas iriam a uma cerimônia no Theatro Municipal para receber as medalhas de ouro e prata que conquistaram na 10ª Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas. Fábia e Fabiele empataram no primeiro lugar e Fabíola ficou em segundo entre os concorrentes capixabas.

Matematicamente, coisas desse tipo talvez aconteçam uma vez a cada milênio, mas as meninas de Santa Leopoldina ofenderam várias outras vezes a lei das probabilidades. O pai, Paulo, cursara até o 2º ano do ensino fundamental, a mãe, Lauriza, foi até o 4º. Vivem do que plantam, numa casa sem conexão com a internet. A roça de 18 hectares de hortaliças, legumes e eucaliptos da família fica num município de 12 mil habitantes, cujo PIB per capita está abaixo de R$ 1 mil mensais.

Numa época em que tudo parece dar errado, apareceram as meninas de 15 anos de Santa Leopoldina. Elas são um exemplo do vigor do andar de baixo de Pindorama e da eficácia de políticas públicas na área de educação.
Assim como o juiz Sergio Moro decifra a origem das petrorroubalheiras do andar de cima, pode-se pesquisar a origem de um sucesso do andar de baixo.

As trigêmeas de Santa Leopoldina tiveram o estímulo dos pais. Antes delas, educou-se Flávia, a irmã mais velha. Estudou na rede pública e formou-se em enfermagem com a ajuda de uma bolsa de estudos integral. (Aos 23 anos, ela hoje faz doutorado em Biotecnologia na Universidade Federal do Espírito Santo e trabalha no projeto de um equipamento robótico para pessoas que sofreram AVCs.) Ainda pequenas, as quatro brincavam de estudar. Flávia foi a primeira jovem da região a entrar para uma faculdade.

Há dez anos, o professor César Camacho, diretor do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, o IMPA, levou a ideia da olimpíada de escolas públicas ao então ministro de Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos. Lula comprou-a e hoje ela é a maior do mundo, com 18 milhões de participantes. O programa administra não só o exame, como a concessão de bolsas aos medalhistas. Custa R$ 52 milhões por ano. Nunca foi tisnado por um fiapo de irregularidade, mas raramente recebe o devido reconhecimento.

As trigêmeas começaram a competir quando cursavam o 6º ano do ensino fundamental. Em 2012, Fabíola conseguiu uma medalha de bronze e uma vaga no Programa de Iniciação Científica, com direito a uma ajuda de R$ 1.200 anuais e reuniões periódicas em Vitória. No ano seguinte, Fabiele ganhou a bolsa do PIC e Fábia conseguiu a sua indo assistir às aulas com as irmãs. Viajavam no velho caminhão do pai.

Todas três ingressaram no Instituto Federal do Espírito Santo, onde cursam o ensino profissionalizante em agropecuária e vivem no campus da instituição, em Santa Teresa. Passam a maior parte do tempo na biblioteca e há pouco procuraram professores, interessadas em conhecer o currículo do ano que vem. Para receber suas medalhas, as irmãs entraram pela primeira vez num avião.
As trigêmeas de Santa Leopoldina são um produto da força de vontade de cada uma, do estímulo dos pais, do sistema público de ensino, de políticas bem sucedidas e de uma professora que estimula seus alunos, Andréia Biasutti.

OS LARÁPIOS DE SANTA LEOPOLDINA

Em 2010, Fábia, Fabiele e Fabíola estavam no 5º ano do ensino fundamental. O PIB do munícipio de Santa Leopoldina era de R$ 56,5 milhões de reais, ou US$ 34 milhões. Ou seja, tudo o que seus 12 mil habitantes (inclusive a família Loterio) produziam cabia nas propinas recebidas por Pedro Barusco e ainda sobravam ao petrocomissário US$ 12 milhões.

O andar de cima de Santa Leopoldina seguia os manuais das oligarquias. Em abril daquele ano, o promotor Jefferson Valente Muniz abriu uma investigação para apurar roubalheiras no município e denominou-a Operação Moeda de Troca. Em cinco meses, botou onze pessoas na cadeia. Eram políticos, empresários e servidores que haviam desviado cerca de R$ 28 milhões dos cofres públicos, ervanário equivalente a um ano de arrecadação municipal. 

Na cabeça da quadrilha, estava o poderoso empresário Aldo Martins Prudêncio, irmão de Ronaldo, o prefeito da cidade. Viciavam licitações e inventavam emergências para favorecer fornecedores. Mordiam onde podiam, de aluguel de carros a compras de material escolar, de rodeios a eventos do Carnaval. A apresentação de uma cantora contratada por R$ 5 mil custava à prefeitura R$ 15 mil. A certa altura a prefeitura chegou a ensaiar o aluguel de um carro de luxo, com computador a bordo.

Ronaldo Prudêncio foi afastado pela Câmara Municipal. Mesmo com sete ações por improbidade nas costas, manobra seu retorno ao cargo. O promotor Jefferson comeu o pão que o Tinhoso amassou, sendo obrigado a responder a um processo junto ao Conselho Nacional do Ministério Público. A defesa da quadrilha dizia que utilizara provas obtidas ilegalmente.

Em junho passado, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo manteve as condenações da quadrilha, expandindo-lhe as penas. O doutor Aldo Prudêncio tomou sete anos. Outros nove pegaram de três a cinco anos. Como diria a doutora Dilma, "todos soltos", pois recorrem em liberdade.

Do jeito que estão as coisas, há gente pensando em fugir da crise brasileira para tentar a vida lá fora, talvez em Miami. Pode-se pensar em Santa Leopoldina. Além da Operação Moeda de Troca e das trigêmeas Loterio, o município tem um só carro para cada seis habitantes, clima de montanha e 12 cachoeiras.

sábado, 25 de julho de 2015



26 de julho de 2015 | N° 18238 
PAULO FAGUNDES VISENTINI

Os grandes desertos britânicos I: Canadá


O Império britânico colonizou regiões em volta de todo o planeta e originou duas grandes nações desérticas, o Canadá e a Austrália. O Canadá é a segunda nação mais extensa do mundo, uma vastidão fria de 9,9 milhões de quilômetros quadrados, mas com apenas 35 milhões de habitantes, 90% concentrados na fronteira com os Estados Unidos. O vale do Rio São Lourenço e os Grandes Lagos são o coração do país e sua zona povoada. O centro é coberto de lagos e pinheiros, evoluindo para a tundra ao norte e o gelado arquipélago do Oceano Ártico. No oeste há as férteis pradarias e as impactantes montanhas Rochosas.

A origem do país remonta à longa luta entre ingleses e franceses, que foram os primeiros colonizadores europeus no Canadá. Em 1763, Quebec foi tomada pelos britânicos, mas eles perderam as 13 colônias americanas vinte anos depois. Interessante, um terço dos colonos americanos lutou ao lado da Inglaterra e, depois da independência, emigrou para o quase despovoado Canadá. Durante a luta pela independência, a jovem república americana tentou anexá-lo, e outra vez em 1812, mas fracassou.

Assim, a independência dos EUA também deu origem ao Canadá inglês, cuja fronteira foi fixada com a linha reta do paralelo 49. Mas os canadenses sempre temeram os poderosos vizinhos e atraíram colonos britânicos ao se expandir para o Pacífico. Os russos, rivais dos ingleses, venderam o Alasca aos americanos em 1867, para não perdê-lo, em mais um lance da rivalidade entre irmãos. Os ciclos do ouro e do trigo atraíram ainda mais povoadores, e a ferrovia transcontinental Canadian Pacific foi completada em 1888. Em 1907, o país se tornou um Domínio autônomo na Commonwealth, e sua prosperidade econômica e Estado de bem-estar social atraiu outros colonos europeus.

Mas com o tempo, surgiram rivalidades internas: o nacionalismo separatista do Quebec (mesmo com a adoção do bilinguismo) e a reivindicação autonomista de indígenas e esquimós (que já têm sua reserva no norte, Nunavut). A indústria sempre sofreu a concorrência norte-americana, mas o país também exporta minérios, gás, petróleo, trigo e madeira. Todavia, o Canadá padeceu economicamente com o neoliberalismo ao aderir ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte e, politicamente, com o enfraquecimento do governo federal em detrimento das províncias, o que aumenta o risco de separatismo.

A imigração atual é dominada por asiáticos, latinos e caribenhos, incentivada para compensar a emigração (frio glacial e falta de empregos), especialmente de trabalhadores qualificados. O perfil demográfico está mudando rapidamente e a região Atlântica estagnou, enquanto a Colúmbia Britânica, no Pacífico, é mais dinâmica. O país é um grande destino turístico, com a mescla de cultura inglesa (também francesa e nativa) e de paisagem rústica americana. Mas, cuidado, nada ofende mais a um canadense do que ser confundido com americano!


26 de julho de 2015 | N° 18238 
ANTONIO PRATA

The day after

ET – E acabou por que? 

Último Remanescente da Humanidade – Resumindo bem, a Terra esquentou muito e a gente, tipo, cozinhou.

ET – Ah... Foi meteoro? Vulcão? Gigante Vermelha?

URH – Não, no caso, foi vacilo, mesmo. A gente queimou petróleo, muito petróleo, até o mundo virar uma sauna seca.

ET – E queimaram petróleo pra que?

URM – Pra se locomover, basicamente. A gente criou umas caixas de metal que queimavam petróleo e te levavam de lá pra cá, sem você ter que cansar as pernas.

ET – E vocês iam de lá pra cá, pra que? Pra fugir de predadores?

URH – Não, não. Os predadores viraram bolsa e tapete bem antes. A gente queimava petróleo pra ir e voltar do trabalho, da padaria, do posto, onde a galera ia encher a caixa de metal com mais petróleo e fazer uma social na lojinha, tomando Skol latão.

ET – E por que vocês não iam a pé pro trabalho, pra padaria, pro posto, fazer social na lojinha, tomando Skol latão?

URH – Porque todo mundo se aglomerava numas cidades enormes e acabava ficando meio longe do trabalho, da padaria, do posto.

ET – E por que vocês não se dividiam em cidades menores, onde dava pra fazer tudo a pé?

URH – Porque nas cidades enormes tinha mais possibilidade de trabalhar e de ganhar dinheiro pra poder comprar uma caixa de metal maior e mais cara, que gastasse mais petróleo.

ET – E por que alguém quereria isso?

URH – Porque dava status e status era tudo. No trabalho, na padaria, no posto, neguinho via tua caixona de metal, capaz de ir a 240 KM/H e dizia: “pô, ó o cara!”.

ET – Nossa, olhando esses escombros, agora, nem dá pra imaginar que por aqui passavam caixas de metal a 240 quilômetros por hora.

URH – Não, na verdade, não era assim, não: como eram muitas caixas de metal e todos queriam se locomover ao mesmo tempo, ficava tudo engarrafado. Nos horários de pico a média era de de oito quilômetros por hora.

ET – Ué, até onde eu sei, com as pernas vocês podiam ir mais rápido que isso, não?

URH – Poder, podia. Mas a gente preferia ir devagarinho na caixa de metal, com os vidros fechados, ar condicionado e insulfilm, de boa, ouvindo notícias sobre o trânsito e tirando meleca do nariz.

ET – Tirando meleca do nariz? Dava algum prazer físico, isso?

URH – Dava um prazer medíocre. E uma culpinha, também. Prazer mesmo dava era o sexo, mas no fim ninguém mais tinha tempo pro sexo, porque tava ou trabalhando que nem louco pra comprar uma caixa de metal, ou parado dentro da caixa de metal, por horas, tentando chegar ao trabalho, onde trabalharia que nem louco pra comprar outra caixa de metal.

ET – Então vocês todos morreram porque gostavam de ficar parados em caixas de metal que queimavam petróleo pra levar vocês de lá pra cá a uma velocidade inferior a das próprias pernas?

URH – É. Por causa disso, das bandejinhas de isopor e de umas pessoas que insistiram até o fim em empurrar folha na calçada com o esguicho.

ET – Oi?

URH – Esquece. Podemos falar de outro assunto? E lá de onde cê vem, é bonito? Fresquinho? Tem praia?








26 de julho de 2015 | N° 18238 
MOISÉS MENDES

Só falta um rei



Vivemos tempos de logros diversos. O árbitro do futebol talvez esteja comprado. A Fórmula-1 é uma encenação e pode ser adquirida por investidores chineses. O futebol é gerido por uma máfia e seus membros só correm o risco de prisão na Suíça. O leite é adulterado. A velocidade da sua internet não é a que foi contratada. Em quem, afinal, você confia?

Não há confiança de consenso nem mesmo em torno da Operação Lava-Jato. Desconfiam da Polícia Federal, que desconfia do Ministério Público. Quem confia no juiz Sergio Moro? Petistas não confiam. Tucanos confiam demais.

Quem passou a confiar no Tribunal de Contas da União, como instituição capaz de apontar delitos graves no comportamento do Tesouro? Por que as tais pedaladas eram prática de governo por tanto tempo, mas só agora se fala delas?

Por que o TCU virou protagonista da política? Você acredita que o TCU é um órgão técnico que repentinamente decidiu fazer seu marketing como guardião independente da moralidade? E, no Tribunal Superior Eleitoral, você confia? O Tribunal poderá determinar que as contas da campanha de Dilma Rousseff são irregulares, se acolher recurso do PSDB. E você confia nas contas do PSDB? Acha que o TSE pode ser isento e determinar a cassação de Dilma?

E, na Polícia Federal, no MP e na Justiça, você confia? Você acha que os delegados que insultavam o PT, Lula e Dilma pelas redes sociais – e ao mesmo tempo trabalhavam na Lava- Jato e exaltavam Aécio – podem conduzir o caso até o fim?

Você é dos que desconfiam que os procuradores do caso são tucanos? E que o juiz Moro irá restringir suas ações ao período do governo petista e a personagens ligados ao PT na Lava- Jato? Fora a torcida tucana dos policiais federais, mostrada em detalhes em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo após a eleição, nada há de concreto contra os procuradores e o juiz Moro. Mas há desconfianças. Por quê?

Porque há o medo da parcialidade, o sentimento que se manifestou depois do julgamento do mensalão pelo Supremo, quando a reparação que condenou a gangue petista não se reproduziu para a quadrilha tucana de Minas (com investigados, indiciados e denunciados até agora impunes).

Em 1996, o americano Francis Fukuyama tentou se redimir, depois do anúncio do fim da História – quando previu que os valores da democracia e do liberalismo ocidentais enfim prevaleceriam no mundo –, e publicou Confiança – As Virtudes Sociais e a Criação da Prosperidade (Editora Rocco).

O liberal Fukuyama sustenta, com exemplos, que uma sociedade prospera com um bom alicerce de confiança social construído ao longo do tempo, e não pela efetividade de normas e leis formais. É a coesão entre as pessoas que forma o capital social e suas normas não escritas. Quanto mais uma sociedade confia nela mesma e nas instituições, menos depende da imposição das leis. Americanos, alemães e japoneses seriam os melhores exemplos. É, como se dizia antigamente, livro de pegar e não largar.

Exageram os que consideram Fukuyama o Paulo Coelho da ciência política com lantejoulas de filosofia. É provável que estejamos precisando disso mesmo, enquanto desconfiamos dos que se ocupam das nossas instituições.

Francis Fukuyama pode nos ajudar a entender por que o TCU passou a ser tão poderoso, o TSE pode cassar a presidente e alguns defendem até a volta da monarquia. Era só o que faltava: um rei, bem corado, que nos distraia com as nossas desconfianças.



26 de julho de 2015 | N° 18238 
CARPINEJAR

Quando nevar em Porto Alegre

Todos os amigos e familiares me questionam quando voltarei a sair, a aceitar convites, a me alegrar, a oferecer chance e paciência para outras mulheres.

Todos me perguntam quando desistirei de amá-la, que já passou o tempo de luto, que está na hora de encontrar alguém, que venho exagerando na cena e no drama, que é patético sofrer platonicamente na minha meia-idade.

Eles pedem uma resposta, eu dou: somente não vou mais amá-la quando nevar em Porto Alegre.

Antes, nunca. Não mudo de ideia com tempestade de granizos, furacões, tornados. Porque somos raros como a neve na capital gaúcha.

Deixarei de amá-la só quando Porto Alegre amanhecer coberta de branco. Coberta totalmente. E que não seja a neve granular de 1879, 1910, 1994, 2000 e 2006. E que a geada seja mais longa do que os trinta minutos de 1984, que dure algumas noites e alguns dias, que amplie o nosso entendimento do silêncio e da solidão, que aumente a gramatura da saudade e do suspiro.

Eu desistirei de nosso amor quando enxergar o viaduto da Borges coberto de branco, o Parque Marinha do Brasil coberto de branco, os telhados do Menino Deus cobertos de branco. Só quando as torres e a cúpula da Catedral Metropolitana trocarem a brancura cinzenta das pombas pela palidez do nevoeiro.

Só quando as cerejeiras e os plátanos penderem folhas de cristal e vidro em seus galhos. Só quando a dupla Gre-Nal cancelar os jogos no Beira-Rio e na Arena pelo mau tempo.Só quando suspenderem os passeios de pedalinho no lago da Redenção.

Só quando o Guaíba congelar suas margens. E o crepúsculo pedir emprestado vermelho para as nuvens. Só quando as crianças escreverem palavrões de gelo nos para-brisas dos carros.

Só quando os pais emprestarem suas mantas para os bonecos de neve dos filhos. Só quando não decifrar meio palmo em minha frente no momento de sair de casa.

Só quando uma vassoura não for suficiente para limpar a entrada das garagens. Só quando tiver a obrigação de me segurar nos corrimões das escadas para não escorregar.

Só quando tivermos compaixão do guarda-chuva e das galochas. Eu abandono o nosso amor quando nevar em Porto Alegre. Antes, nunca. Só vou deixar de amá-la quando Porto Alegre estiver coberta de branco.

Quando Porto Alegre virar a minha noiva, e daí a minha dor casará para sempre com a minha cidade.

26 de julho de 2015 | N° 18238 CLÁUDIA LAITANO
MARTHA MEDEIROS 
ESTÁ EM FÉRIAS ATÉ O DIA 2 DE AGOSTO

Por que amamos Audrey

Atriz conseguiu associar sua imagem

a valores que ultrapassaram sua juventude e mesmo sua própria vida


Ela aparece em todas as listas das estrelas mais bonitas de todos os tempos, mas beleza, elegância e charme, isolados, não explicam o mistério de sua permanência no imaginário de fãs do mundo todo há tanto tempo. Mais de 20 anos depois de sua morte, referências a Audrey Hepburn (1929 - 1993) são ainda frequentes na moda, no cinema, na TV, em livros de etiqueta, manuais de maquiagem, publicidade em 2013, uma versão computadorizada assustadoramente convincente da atriz estrelou um comercial de chocolate.

“Algumas pessoas morrem e deixam para seus filhos um restaurante, uma loja de sapatos, um hotel, e a cada vez que o filho passa por aquela porta giratória do hotel ele enxerga seu pai, esse tipo de coisa. Eu aprendi que posso caminhar por qualquer local do mundo que haverá uma foto da minha mãe, e tenho certeza de que também é assim no Brasil”, disse Sean Ferrer, 55, em entrevista concedida há poucas semanas ao ator e roteirista brasileiro Octavio Caruso (“Sim, no meu quarto, por exemplo, tem uma foto dela, que estou vendo nesse momento”, respondeu na hora o entrevistador).

Filho mais velho da atriz e responsável por administrar a ativa carreira póstuma da mãe, Ferrer conta na entrevista que a estrela que estreou no cinema fazendo o papel de um membro da realeza europeia (A Princesa e o Plebeu) envergonhava-se por não ter podido completar os estudos, interrompidos durante a II Guerra. Para compensar as limitações do ensino formal e para se sentir mais segura como atriz, tornou-se uma leitora aplicada. Estudava em profundidade tudo que envolvia o universo dos personagens que interpretava e, mais tarde, como embaixadora da Unicef, dedicou-se com o mesmo empenho a conhecer a realidade de cada país que visitou.

As mulheres mudaram muito desde os tempos em que as personagens de Audrey Hepburn andavam de lambreta pelas ruas de Roma ou tomavam café da manhã em frente à joalheria Tiffany’s. Muitas estrelas da geração dela projetaram uma imagem de feminilidade que se tornou anacrônica ou perdeu o diálogo com as novas gerações: Marilyn Monroe era a diva exuberante, mas dependente e frágil, Grace Kelly era a musa sofisticada, mas inacessível.

Audrey Hepburn conseguiu associar sua imagem a valores que ultrapassaram sua juventude e mesmo sua própria vida. Um sentido de elegância muito próprio que não vinha das roupas ou do sex appeal. Algo que parece se nutrir de delicadeza, simplicidade e de uma conexão genuína com tudo e todos a sua volta. Atributos que as pessoas podem admirar como um ideal – mas que não são essencialmente inatingíveis.









RUTH DE AQUINO
24/07/2015 - 20h44 - Atualizado 24/07/2015 20h53

O destrambelhado Cunha


“Existe alguém mais arrogante do que eu?”, deve perguntar Dilma a seu espelho. “Sim!”, responde o espelho

Às vésperas das manifestações de agosto, às voltas com o “ajuste do ajuste” e o “arrocho do arrocho”, a presidente Dilma Rousseff ganha enfim um trunfo: a exposição de seu maior adversário. Ele se chama Eduardo Cunha, o destrambelhado presidente da Câmara. Em seu quarto, diante da penteadeira, Dilma deve se perguntar: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais arrogante do que eu?”. “Sim”, responde a voz do espelho.

É inaceitável a pressão de Cunha sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) para afastar da condução da Operação Lava Jato o juiz federal Sergio Moro. Cunha não gostou de ter vindo a público a delação que o envolveu em recebimento de propina milionária, em dólares, por contratos de navios-sonda assinados pela Petrobras. Tem direito de não gostar. Mas pedir a cabeça de Moro e exigir que a ação na Justiça Federal do Paraná corra em sigilo e seja conduzida pelo Supremo porque ele, Cunha, tem foro privilegiado... isso é moralmente discutível. No mínimo.

Também é inaceitável que, em seu rompante de diva, acreditando mesmo protagonizar a oposição a Dilma, Cunha tenha “rompido” com o governo federal. Esqueceu que é do PMDB e que faz par caipira com o presidente do Senado, Renan Calheiros, ambos detentores dos implantes capilares mais vistosos do Congresso? Não temeu desgostar Temer – o vice-presidente mais quietinho da história contemporânea? Ignorou seu cargo de presidente da Câmara e partiu para o vale-tudo, em vez de jogar xadrez? Isolou-se no mesmo dia em que o Congresso entrava em “recesso branco” de duas semanas, suspendendo todos os debates e trabalhos? Um desastre.

Tudo inaceitável. Mas previsível, para quem acompanha Cunha desde que presidiu a Telerj (entre 1991 e 1993) no governo de Fernando Collor, filiado ao PRN (Partido da Reconstrução Nacional) e ligado a PC Farias. Normal, não? Filiou-se ao PPB (Partido Progressista Brasileiro) em 1994. Cunha se uniu ao líder evangélico Francisco Silva, com quem trabalhou na Rádio Melodia. Um comunicador. 

Tornou-se aprendiz e afilhado fiel de Anthony Garotinho. Presidiu a Cehab (Companhia Estadual de Habitação) para Garotinho e foi demitido, em 2000, acusado de fraudes em contratos assinados em sua gestão. Foi eleito deputado pelo PPB em 2002 e, depois, pelo PMDB. Safou-se de todas as acusações e sindicâncias contra ele até hoje no exercício do poder – licitações irregulares, desvios, achaques, favorecimentos. Responde a tudo em seu site. Ataca ferozmente quem o denuncia. Uma de suas frases mais conhecidas é: “O povo não está nem aí para o que eu digo, só pega a última frase”.

Quando eu dirigia o jornal carioca O Dia, em agosto de 1996, pude perceber como Cunha agia ao se sentir acuado. O episódio era prosaico. Não havia crime. Ex-presidente da Telerj nesse tempo – e fonte assídua e ardorosa de jornalistas –, Cunha foi parar com a ex-mulher, Cristina Dytz, numa delegacia da Barra da Tijuca, no Rio. O motivo tinha sido uma briga de casal. Vizinhos chamaram a PM porque Cunha estaria, aos gritos, tentando entrar no apartamento do condomínio em que Cristina morava com os filhos, sob o pretexto de apanhar documentos. 

Cunha tinha 38 anos, morava num apart-hotel, estava com a perna engessada e, segundo se apurou, não queria pagar a pensão mensal de R$ 18 mil para ela e os três filhos, depois de 12 anos de união. A PM levou o casal para a delegacia, com seus advogados, e o jornal publicou uma matéria curta. Até aí, nada. Mas Cunha fez de tudo para impedir a publicação. Telefonou primeiro para um editor, depois telefonou para o dono do jornal. A reportagem saiu. Cunha travou com o jornalista um diálogo pesado ao telefone. E o levou à Justiça. Perdeu, porque nada havia ali que configurasse difamação ou injúria. Apenas fatos.

Por seu temperamento e seu histórico de desavenças, Cunha é, portanto, o opositor “ideal” de Dilma porque joga a presidente e Lula nos braços de uma oposição mais sensata. Não é de espantar que Lula, às vésperas de manifestações convocadas para agosto, pró e contra Dilma, se aproxime do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Um Cunha em inferno astral, isolado pelo próprio PMDB, é tudo que Dilma precisa para tirar o holofote de cima da inflação de dois dígitos, do desemprego, do corte de R$ 3,4 bilhões no programa de creches e pré-escola, da meta que não convence, das contas que não fecham.

Há quem peça, no Congresso, a renúncia de Cunha até que seja apurado seu envolvimento na Lava Jato. Enquanto isso, Dilma vai ao Nordeste para vender um Brasil que não existe a eleitores que também não existem mais.


25 de julho de 2015 | N° 18237 
NÍLSON SOUZA

GUTENBERG E OS ANALFABETOS


O incansável Caco Barcellos e sua equipe do Profissão Repórter mostraram nesta semana como vivem alguns dos 13 milhões de analfabetos brasileiros, homens e mulheres que enfrentam com dificuldade e constrangimento o cotidiano de uma sociedade organizada em torno das letras. 

Ninguém deveria se sentir envergonhado por não saber ler, até mesmo porque as pessoas que cresceram sem decifrar os códigos da leitura e da escrita, em sua maioria, esbarraram na falta de oportunidades e de estímulos. Mas a verdade é que o analfabetismo exclui. Na prática, iletrados viram cidadãos de segunda classe, ficam mais tempo desempregados, são menos valorizados no trabalho, têm dificuldade para se comunicar e até mesmo para fazer compras ou se deslocar sozinhos pela cidade.

O mundo é hostil com os analfabetos e eles, invariavelmente, se defendem com retração e pequenos truques. Outro dia, contratei um excelente faz-tudo para pintar o telhado da minha casa. Na hora de pagar o homem, fiz um recibo e pedi para ele assinar. Ele perguntou se a assinatura não podia ser do seu filho, que tinha a letra mais bonita. Imediatamente, me dei conta da situação e desisti do papel.

A tecnologia, infelizmente, não está ajudando a resolver o problema. Embora faça uso de símbolos e ícones que de certa forma nos remetem à era pré-escrita, os equipamentos só funcionam com quem sabe ler e escrever, com quem domina senhas e aplicativos, com quem consegue se comunicar pelas redes sociais – lendo, digitando e arrematando com emoticons. E agora temos também os analfabetos digitais.

O parênteses de Gutenberg pode estar se fechando, como previu o professor britânico Thomas Pettitt, autor da polêmica tese do retorno da humanidade à cultura da transmissão oral do conhecimento. Porém, se estamos “falando pelos dedos”, que é a justificativa central de sua tese, só o fazemos porque sabemos ler e escrever.

Acho que ainda não podemos dispensar essa competência. Mesmo que os livros e os jornais desapareçam no formato impresso, as letras sobreviverão no universo virtual, pois são elas que dão sentido à civilização. A escrita nos tornou mais humanos – ainda que as dificuldades e as humilhações relatadas pelos analfabetos da reportagem desautorizem esta conclusão.


25 de julho de 2015 | N° 18237
ARTIGOS - ESTHER PILLAR GROSSI*

FALÁCIA E BASE CURRICULAR PARA O BRASIL

Sem Campos Conceituais, uma base curricular comum para todo o Brasil vai ser mais uma falácia.

Detalhar claramente, ano a ano, conhecimentos que todos os alunos têm direito de aprender, sem compreender como é que eles podem aprender de verdade, vai ser mais um incentivo à memorização imediata e transitória, sem a compreensão, que é o que interessa e que é estável e permanente.

O que as comunidades científicas mais atualizadas sabem sobre a construção, por exemplo, dos primeiros conhecimentos matemáticos.

No ensino convencional, os conhecimentos previstos são ordenados linearmente. Primeiro os números (contagem, leitura e escrita de numerais), depois adição, depois subtração, mais tarde multiplicação e por último a divisão. De acréscimo, formas geométricas, sobretudo planas (quadrado, triângulo, círculo...).

A primeira operação aritmética pela qual alguém começa a aprender matemática é a divisão, e não a adição.

Muito cedo, e muitas vezes, as pessoas se defrontam com a necessidade de repartir coisas. Uma criança que tenha três balas e receba mais uma não tem nenhum problema matemático real para resolver. Mas se ela tiver que repartir irmãmente três balas com outra criança, aí, sim, ela tem pela frente um desafio de âmbito matemático, que ultrapassa até a esfera dos números inteiros, exigindo os fracionários, pois ela terá que dar uma bala e meia para cada uma.

Além do mais, a divisão não se aprende isolada, sem números, adição, espaço e lógica, isto é, num conjunto de conceitos. É isto que Gérard Vergnaud, o elaborador da teoria dos Campos Conceituais, nos ensinou: não se aprende conceito por conceito e só se aprende a partir de situações significativas do dia a dia ou bem organizadas pela escola.

É animador que essas ideias já estejam na ordem do dia da Academia em nosso país – acabo de ser convidada para expor num colóquio internacional sobre Campos Conceituais, em Minas Gerais.

O processo de aprendizagem tem uma lógica própria: a lógica dos campos conceituais, linda, criativa e engenhosa.

Seguindo-a é que se ensina pra valer.



25 de julho de 2015 | N° 18237 
DAVID COIMBRA

Não confie em ninguém com mais de 30 anos


Aos 30 anos de idade, o homem é definitivamente homem. Verdade que, hoje em dia, as pessoas amadurecem mais tarde, ou não amadurecem nunca, mas aos 30 anos um atleta já é veterano e uma mulher continua sendo balzaquiana, como era no século 19.

A propósito, esse breve romance, A mulher de 30 anos, não é dos melhores de Balzac, mas se consagrou devido ao título e ao tema. Porque os 30 anos são emblemáticos para a mulher – ela começa a se aproximar de um importante limite fisiológico: o limite da maternidade. Balzac, ao exaltar a atormentada mulher dessa faixa etária, deu um grande golpe de marketing, porque, depois da barreira dos 30, a mulher quer saber tudo sobre ela mesma.

Não confie em ninguém com mais de 30 anos, dizia uma antiga música do Marcos Valle, no tempo em que os jovens e seus hormônios rebeldes iam mudar o mundo. Ou seja: abaixo dos 30, a juventude; acima, a decrepitude.

Um brasileiro de 30 anos, imagine, votou pela primeira vez para presidente em 2002. Isto é: mesmo sendo ele já um homem feito ou uma mulher madura, seu tempo de consciência política foi todo preenchido por governos do PT.

Que importância tem, para esse cidadão, o antigo governo do PSDB? Para ele e tantos outros, FHC é pouco mais do que uma sigla vaga, como JK.

Eis o fato: o PT é o presente dos brasileiros, e é o passado também. Algo que se passou quase década e meia atrás, quando não existia Facebook, quando Bin Laden ainda era ameaça, quando o Grêmio era campeão, algo que se passou nesse tempo remoto é algo muito impreciso, muito pouco palpável, algo sem relevância.

Só quem se importa com os governos pretéritos dos tucanos são os petistas. Porque precisam deles. Para os petistas, é fundamental mostrar que todos os governos brasileiros foram ruins, que todos foram corruptos e que todos serão. Que não fará diferença tirar o PT do poder para substituí-lo por outros que são iguais ou até piores, como o vilão do momento, Eduardo Cunha.

E o PSDB não faz nada que demonstre o contrário. O PSDB é tão inexpressivo, que, pela última pesquisa, seu principal líder, Aécio Neves, não alcançaria 50% dos votos. Quer dizer: mesmo com o PT derretido, Aécio precisaria de dois turnos para ganhar a eleição.

A porteira está aberta para quem quiser passar, como canta aquela musiquinha infantil. Quem passará?


25 de julho de 2015 | N° 18237 
CLAUDIA LAITANO

O Piauí é ali


Pouco mais de 300 quilômetros separam os pequenos municípios de Cocal dos Alves e Castelo do Piauí. Quatro horas e meia de viagem, passando por lugarejos com nomes como Piripiri, Piracuruca, Capivara.

Visto daqui, da outra ponta do Brasil, o interior do Piauí é mais remoto do que a superfície de Plutão. As notícias que vêm de lá costumam nos soar como relatos extraordinários de um país distante – que por acaso é o nosso. Mas como para viajar no Google não precisa gasolina, examino o mapa virtual em busca de coordenadas. A distância não parece tão grande, mas os extremos que essas duas cidades representam são difíceis de acomodar em qualquer cartografia.

Castelo do Piauí, vocês lembram, é a cidade onde, em maio, quatro meninas, entre 15 e 17 anos, foram estupradas, torturadas e atiradas do alto de um penhasco por quatro menores e um adulto. Uma das vítimas, Danielly, morreu dias depois. Um dos agressores, Gleison, foi morto nesta semana na instituição onde cumpria medida socioeducativa sob a proteção do Estado.

Cocal dos Alves, mais ao norte, é uma das 50 cidades com o índice mais baixo de desenvolvimento humano do Brasil. Um professor de matemática de uma escola pública da cidade, porém, decidiu desafiar o pessimismo, as estatísticas, o conformismo. Desde 2005, a escola onde Antônio Cardoso do Amaral leciona já ganhou mais de 150 medalhas e menções honrosas na Olimpíada Brasileira de Matemática. Em 2015, foram três medalhas de ouro, oito de prata, cinco de bronze.

Não sabemos onde estudou Gleison, mas podemos inferir quase tudo sobre sua educação lendo o bilhete que escreveu para a mãe horas antes de ser morto. Com uma caligrafia irregular, mas caprichada, Gleison agradece à mãe por tudo e pede desculpas por não ter sido o filho que ela merecia. A ortografia imperfeita, difícil de decifrar, não deixa dúvida: Gleison passou ileso pela escola. Era um analfabeto que escrevia, como milhares (milhões?) em todos os cantos do país.

A distância que separa garotos que aprendem a gostar de matemática dos que não conseguem aprender a ler ou escrever não precisa ser tão grande quanto a que separa um menino que nasce com todas as chances de outro que convive com a precariedade desde o nascimento. É possível criar atalhos, pontes, caminhos alternativos, como aconteceu em Cocal dos Alves. E quase todos esses desvios – ou todos – passam por uma sala de aula.

É bom imaginar que a estrada que leva a histórias trágicas como a de Castelo do Piauí pode ser interrompida, a qualquer momento, não apenas por prefeituras ou governos (embora haja bastante trabalho para eles), mas também por gestos individuais que desafiam, diariamente, o pessimismo, as estatísticas, o conformismo.

Sozinho não se resolve tudo, mas se faz muita coisa.

sexta-feira, 24 de julho de 2015


Jaime Cimenti

O Café do Porto e a Padre Chagas

O Café do Porto da Padre Chagas, um dos filhos da querida Cacaia Bestetti, acabou de completar, em 18 de julho, vinte gloriosos aninhos. É um guri, ainda, perto do Café Tortoni, de Buenos Aires, que nasceu em 1858, e do Café de La Paix, de Paris, que é de 1862, mas deixa a pátina do tempo ir caindo de leve, e o Café do Porto, que começou pequeno, numa garagem, vai continuando sua trajetória como uma instituição da cidade. É um café que mudou a Padre Chagas, o Moinhos de Vento e também Porto Alegre.

A Padre Chagas, segundo os registros imobiliários, tem cento e poucos anos e, antes do Café do Porto, do Jazz Café na Fernando Gomes (Calçada da Fama) e do saudoso Azteca, na Padre Chagas, há vinte anos, era uma rua com casas residenciais, edifícios de apartamentos e poucos prédios comerciais, com salas e algumas lojas. De noite e nos fins de semana, tinha pouca vida, a Padre, uma rua pequena, de aproximados 600 metros de extensão.

O Café do Porto e outros estabelecimentos que vieram depois deram vida e movimento ao bairro e, de quebra, estudos mostram que bares e restaurantes propiciam mais segurança aos moradores das redondezas.

Pois temos mais é que comemorar o aniversário do Café, como gosta de chamá-lo a Cacaia, e desejar campai, longa vida para ele, que já faz parte da nossa família e do nosso cotidiano. Ele é a continuação de nossa casa, de nossa sala, onde podemos encontrar parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos, fazer novos amigos, inclusive novos amigos de infância, e onde podemos, claro, passar um tempo sozinhos, lendo, trabalhando, pensando ou simplesmente tomando espumante, vinho, cerveja ou refri, assistindo ao incomparável desfile das deusas da Padre Chagas, possivelmente a maior e melhor passarela de beleza do planeta.

Nas quartas-feiras, quando os músicos Cláudio Vera Cruz ou o Rosa Franco, afinados, tocam e cantam, a turma do Léo, Talasca, Papaléo, Telmo, Marcão, Zanatta, Adonis, Bresolin, Nonno e outros curtem uma happy por lá, sempre conversando sobre assuntos sérios e comportadíssimos, como convém a pais de família.

O publicitário, músico, cronista e escritor Rubem Penz vai ministrar uma oficina de crônica no Café do Porto, em versão café espresso, mas, imagino, sem prejuízo de outros líquidos que o Café tem para servir. Normalmente, as oficinas do Rubem são regadas a cerveja e outras bebidas, no Apolinário, e a combinação tem funcionado bem.

Pois é, o Café do Porto já está no rumo da maioridade, dos 21, e já se tornou patrimônio social, afetivo e gastronômico da gente. Deus o conserve, ilumine e lhe dê mais uns 100 anos de vida.

Sempre é bom lembrar que, assim como uma casa não é um lar, um prédio não é um café. Café que se preze tem que ter alma, história, pessoas, palavras, emoções e sensações no passado, presente e futuro. Tipo assim o Café do Porto.

A propósito...

Pesquisas recentes mostraram que o consumo moderado de café é saudável para o coração, além ser útil para fortalecer a imunidade, proteger o fígado, ajudar no diabetes, cálculos e prevenção de câncer e também para auxiliar na conservação da memória. Ah, pesquisa recente mostrou que duas ou três xícaras de espresso contêm cafeína suficiente para poder melhorar a situação de pessoas deprimidas, que são muitas atualmente. Mas deguste com moderação, beba devagarinho, curta o aroma, a aparência e o gosto do café, convide os parentes e amigos, consulte seu médico e seja cada vez mais feliz. Cafezinho, preferência nacional.

Jaime Cimienti

Ficções, cotidiano e nostalgias do Flávio Dutra
DIVULGAÇÃO/JC

A coletânea Crônicas da mesa ao lado partiu do blog ViaDutra


A coletânea Crônicas da mesa ao lado (Belvedere, 96 páginas, www.bartlebee.com.br, capa de Cezar Arruê), do consagrado jornalista e blogueiro Flávio Dutra, partiu do blog ViaDutra um descaminho (http://viadutras.blogspot.com.br) em 2009. Curtições, comentários, compartilhamentos e incentivos no Facebook e uma avaliação de mais de 500 textos por Diego Lock Farina originaram o livro, de quatro capítulos. O prefácio é de David Coimbra, que diz: "Gostaria de ter escrito algumas crônicas do livro e talvez faça plágio não autorizado de outras".

Flávio Dutra, porto-alegrense formado em Comunicação Social pela Ufrgs, especializado em Jornalismo Empresarial e Comunicação Digital, trabalhou nos principais jornais e emissoras de rádio e TV do Rio Grande do Sul, presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e Rádio FM Cultura), atuou como secretário de Comunicação do governo do Estado, da prefeitura de Porto Alegre e frequenta redes sociais, especialmente o Facebook.

Crônicas da mesa ao lado apresenta crônicas e frases no final do volume, que revelam a habilidade, a síntese e a objetividade do jornalista experiente, mescladas com o humor, a vivacidade e o olhar dos cronistas de até pouco tempo atrás, aqueles que biografavam o cotidiano sem se preocupar demais com o próprio ego ou com emitir opiniões. Sim, a gente sabe que a crônica se tornou, para o bem e para o mal, um pequeno artigo de opinião ou de egolatria.

Na primeira parte do livro, que dá nome ao volume, o autor conta histórias e adverte que nem tudo é verdade. O gauchão que financiava a modista; coquetel de Viagra com Cialis; fetiches; o homem que amava panturrilhas e o que amava joanetes e a estranha senha a ser usada no motel são alguns dos temas com tom gostoso de conversa de bar.

O segundo capítulo, Crônicas do cotidiano, retrata a vida real, por vezes com base em conversas alheias. Fala de gafes, da estranha exigência de um famoso cantor, do homônimo do Flávio Dutra, da história do Mário Cinco Paus e de gauchismo, entre outros assuntos.

Crônicas da nostalgia é a terceira parte. Dutra fala dos filmes, dos beijos e dos amassos no cine Ritz; da turma de Petrópolis que sequestrou o bonde Petrópolis (Flávio nega que participou); do romance e pedido de casamento do coronel Dastro em meio à fuga e perseguição do bandido Melara; das aventuras de Toniolo com PMs e, ao final, apresenta uma mensagem na qual diz sentir nostalgia do futuro, do que não fará, e desde já, bota a culpa no tempo pelas coisas que não conseguirá realizar.

Ouvido na mesa ao lado, parte final, fecha com graça e leveza, com frases espirituosas, como "Quem fica se achando é porque não se procurou direito" e "tem instituto de pesquisa que deveria cair para a segunda divisão".

É isso. Flávio Dutra falou e disse. E muito bem. Com muita ginga, inteligência e graça. Ótimo para todos.


24 de julho de 2015 | N° 18236 
DAVID COIMBRA

A cantada infalível

Um bom amigo meu, solteiro militante, conhecedor dos escaninhos mais esconsos da noite porto-alegrense, esse meu amigo, contrariando todas as expectativas, está namorando há um ano. Um ano!

Quando os amigos comuns perguntam que centelha faiscou entre o casal para provocar tamanha transformação naquele lobo solitário, ele e a namorada contam como se viram pela primeira vez.

A mágica aconteceu assim: era já uma e meia da madrugada, e meu amigo estava encostado com sua típica manemolência à parede de um famoso bar da cidade, sorvendo sua cerveja às bicadas. Ela o viu e decidiu tomar a iniciativa. Aproximou-se. Perguntou, a sedução em cada vogal:

– Tem fogo? E o meu amigo, erguendo a sobrancelha esquerda e emprestando um tom rouco à voz:

– Só no atrito...

Algumas mulheres teriam o que cronistas d’antanho chamariam de frouxos de riso, ao ouvir essa resposta. Mas a namorada do meu amigo ficou paralisada de surpresa, sem ação. Deu certo. Tanto que eles estão juntos até hoje.

Fico pensando se o sucesso do relacionamento não se deu também porque ele ficou surpreso por ela não ter se evadido ante essa resposta. “Só no atrito”, imagine. De qualquer forma, o ingrediente que fundiu o casal foi, mesmo, a surpresa.

Era do que queria falar. Da surpresa.

O ponta-esquerda era, quando existia, um profissional da surpresa, assim como meu amigo era profissional do que se chama de “noite forte” de Porto Alegre. Achei que nunca mais veria um ponta-esquerda, até o jogo do Inter no México. Lá estava ele. Pequeninho e magrinho, como eram os pontas-esquerdas. Veloz. Driblador. E surpreendente.

Esse Aquino, o nome dele é Aquino, foi ele quem desestabilizou a defesa do Inter. Não lembro de alguém ter conseguido tirar a bola dele durante o jogo. Será que alguém consegue, durante algum jogo? No lance do pênalti, ele não deu um nem dois, mas três dribles de futsal nos zagueiros, todos dribles de palmo e meio, daqueles que se dava em um único parquê. Foi derrubado porque tinha de ser, ou irromperia gol adentro feito um Garrincha.

Aquino. É um jogador antigo. Felizmente, antigo. Parecia Joãozinho, do Cruzeiro, que fazia exatamente assim contra, exatamente, o Inter. Ou Lula, do próprio Inter, ou Ortiz, do Grêmio, ou Nei, do Palmeiras, ou Zé Sérgio, do São Paulo, ou Júlio César “Uri Gheller”, do Flamengo, ou Jésum, da Dupla Gre-Nal.

Pontas que não existem mais, de um futebol que não existe mais.

O ponta-esquerda foi a primeira vítima do futebol moderno, o futebol endinheirado, de cinco no meio-campo, da TV paga, dos estádios com preço de teatro, da garra, da marcação, da porrada, o futebol do jogador que beija seis camisas diferentes em seis anos, o futebol dos grandalhões, do técnico de gravata, do marketing, dos executivos, dos empresários, do padrão Fifa.

O Inter foi derrotado pelo passado. Pela surpresa. Pela novidade de ter enfrentado o velho futebol.


24 de julho de 2015 | N° 18236 
MOISÉS MENDES

Siglas e apelidos

Um deslize na vida e a Polícia Federal pode pôr a mão no seu celular. Um celular contém todos os recibos de uma vida privada hoje. Imagine a PF vasculhando suas ligações, seus torpedos, e-mails, fotos, jogos. Fizeram isso com o celular de Marcelo Odebrecht.

Abriram o smartphone do empreiteiro e dali saltaram siglas e mensagens cifradas. Odebrecht fazia anotações ao lado de letras das iniciais de nomes. Seriam de políticos, ministros, executivos da empresa e cúmplices do esquema da Lava-Jato.

As anotações divulgadas falam de como escapar do cerco da PF com um plano B (qual seria?), como tentar trancar investigações e conquistar os dissidentes da polícia (contrários ou descontentes com as sindicâncias) e como proteger empregados já presos.

Impressiona a precariedade das dissimulações. Tudo é muito óbvio, dos recados às letras com as iniciais dos políticos. É como se uma criança decidisse brincar de guerra de mensagens em código com os colegas.

Aqui na Zero, por um bom tempo, nos anos 90, os computadores da Redação eram comandados por um sistema que se chamava CSI. Pelo CSI, na troca de mensagens internas as pessoas não eram nomes, mas três letras de identificação (ID), que viravam apelidos.

Essas eram as siglas dos meus colegas de sala: Nílson Souza, NIL; Clóvis Malta, CMA; Suzete Braun, SZT; Francisco Paulo Sant’Ana, FPS. Gilberto Leal ficou famoso como GOL; Leonardo Oliveira era o LEU. Alguns apelidos de colegas que já saíram de ZH: Lurdete Ertel, a ERT; Lauro Quadros, LQU; Eduardo Bueno, o Peninha, era o PEN; Ruy Carlos Ostermann, o RCO; o Luiz Adolfo Lino de Souza, o LAD.

O gestor de todo esse sistema na Redação era OLZ, o grande Olyr Zavaschi, que nos deixou há quatro anos. Até hoje alguns se tratam pelas três letras. A Eleone Prestes será sempre a MEP, assim como Renato Dornelles será o RED. Luiz Augusto Kern me enviou um e-mail dia desses e assinou como LAK. Eu já fui o MSM.

As mensagens eram usadas para trabalho e, claro, para troca de impressões pessoais e, às vezes, íntimas. Os apelidos da Zero se cruzaram tanto que algumas trocas resultaram em casamentos ou separações. E quantas barbeiragens aconteceram no envio de mensagens, algumas quase trágicas.

Imaginemos que um dia, ao acaso, alguém descubra as mensagens trocadas via CSI e tente decifrar conteúdos e apelidos. Aquilo era o nosso Facebook, com todas as nossas imperfeições. Mas sem as patologias expostas no Facebook de hoje.