sexta-feira, 24 de julho de 2015



24 de julho de 2015 | N° 18236
EDITORIAIS

O ENSINO E A VIDA REAL


A educação formal pode estar se distanciando cada vez mais da realidade dos jovens brasileiros, como revela pesquisa sobre o currículo escolar, da Fundação Lemann e da ONG Todos pela Educação. Os resultados do estudo têm a força de denúncia: estudantes que concluem o Ensino Médio têm dificuldades que seriam compatíveis com alunos do Ensino Fundamental, e as deficiências não se restringem às questões relacionadas com disciplinas consideradas essenciais, como matemática e português.

A pesquisa expõe outras limitações preocupantes, como a incapacidade média dos jovens de se sentirem prontos para interagir no ambiente do trabalho e se comportar em grupo. É o que os pesquisadores chamam de deficiências das habilidades socioemocionais. 

Isso significa que a escola, além de questionada sobre o cumprimento da tarefa de ensinar o básico, não consegue formar jovens em condições de enfrentar o mundo do trabalho. O que impressiona é que foram entrevistados ex-estudantes de 21 e 22 anos, que tiveram notas acima da média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A amostragem foi complementada por entrevistas sobre a percepção que professores universitários e empresários – que convivem com os jovens – têm de suas performances depois da conclusão do Ensino Médio. 

A novidade do estudo é a conclusão de que os pesquisados não conseguem se expressar plenamente e enfrentam dificuldades de raciocínio lógico, inclusive para resolver problemas do cotidiano incorporados às suas rotinas. A pesquisa evidencia a urgência da reavaliação de estruturas, sistemas e métodos, para que o ensino brasileiro finalmente seja capaz de lidar com habilidades e competências conectadas com a vida real.

quinta-feira, 23 de julho de 2015



Crente na laje


20/07/2015  02h00
luiz felipe pondé

Digamos a verdade: a elite cultural não aprecia muito o povo. Dito de forma direta assim, parece uma insensibilidade perigosa em época de ofendidos por todos os lados.

A vida nunca foi tão fácil na maior parte do planeta Terra e nunca houve tanta gente chata e mimada reclamando de tudo. Não só a longevidade aumentou nos últimos anos, a chatice autoconfiante também.

O que é elite cultural? Basicamente, estudantes e professores universitários, escritores, jornalistas, publicitários, cientistas sociais, filósofos, teólogos, historiadores, cientistas, psicanalistas e psicólogos de diversos matizes, médicos, arquitetos, artistas, fotógrafos-artistas, atores e diretores de teatro, produtores culturais, cineastas, engenheiros (só aqueles casados com psicanalistas), advogados, grandes empresários e humoristas que se levam muito a sério.

Ou seja, gente que, para exercer sua função, deve estudar "mais um pouco" do que a maioria. Está bom como definição? Claro que posso reduzir essa definição, mas não quero ofender ninguém, pelo menos no tocante a esta definição.

E do outro lado desta definição, "o povo", com suas crenças, visões estreitas de mundo e sua laje. Seu banal senso comum sobre a vida. Intelectuais detestam senso comum de quem "crê na família" –só para dar um exemplo clichê, tá?

O povo é aquela entidade abstrata que, quando vota em quem achamos certo, cumpriu plenamente com sua soberania na democracia (e alguns até gozam quando falam frases do tipo "o povo decidiu!").

Mas quando o povo fala alguma coisa com a qual não concordamos, ai, ai, ai!. Então dizemos: "ignorantes, alienados, mal-educados, reacionários, crentes!".

Ou, como num ato de condescendência, sacamos a hipótese que serve para tudo: falta educação!!

Do contrário, eles seriam a favor do aborto, contra a diminuição da maioridade penal, seriam todos ateus (e se fossem religiosos, pelo menos, seriam budistas light, católicos "da libertação", que é gente como "nóis", ou do candomblé, que é religião de oprimido, então tudo bem).

E mais: seriam a favor dos gays e associados, não falariam frases idiotas como "vamos defender a família". Resumindo a ópera: pensariam como nós (assumindo que esse "nós" existe como unanimidade).

E aí vem o pesadelo: o Congresso tem muito crente! Esses reacionários vão tomar a Paulista de mim!

Nossa elite intelectual talvez descubra que tem gozado com a própria voz e com o próprio pensamento há muito tempo. E esqueceu que o mundo não cabe em nossos papos cabeça.

Falando para grupinhos que tomam vinho conosco e que dizem amém a tudo que afirmamos, Esquecemos que a maioria das pessoas está preocupada é se Jesus está ou não do lado delas. Só de pensar numa coisa dessas, alguns coleguinhas querem vomitar. Não, o "povo" não cabe nos três ou quatro autores que temos cultuado.

O povo, se você não enche muito o saco dele, fica fazendo o que a elite quer que ele faça: trabalhar, gastar e concordar com o que ensinamos para eles.

Chega a ser hilária nossa ambivalência nisso: quando o povo faz algo que cabe em nossa concepção "progressista", o povo é soberano e devemos deixá-lo "falar" e decidir diretamente. Quando o povo sai com absurdos como votar num "Congresso crente", aí não vale.

Assumimos que se tiver professor suficiente que pensa como nós, o povo vai acordar e concordar com nossas pautas, que só cabem em nosso bolso.

Na América profunda a educação é bastante boa, e, no entanto, nessa mesma América profunda é que está o "Bible Belt", o cinturão bíblico dos mais religiosos. Logo, a conta não fecha.

Não é educação ruim (concordo, a nossa é ruim mesmo). É apenas o fato de que o povo não pensa como a elite cultural e intelectual (mais seleta ainda!) quer que ele pense. A elite fica nervosinha com isso.

Queremos que o povo tenha a educação que nós queremos, aquela que "esmagará a infâmia" –leia-se, a religião–, como dizia o iluminismo francês, responsável por nossa ignorância com relação ao "povo".

O Brasil é um país religioso. Bem-vindos ao Brasil que não cabe em nossas crenças. 


23 de julho de 2015 | N° 18235 
L. F. VERISSIMO

Por trás de tudo


Uma amiga chegou com a informação de que uma padaria perto da nossa casa pertencia ao reverendo Moon. Demos boas risadas. Por que o sul-coreano Moon, fundador e líder da Igreja da Unificação, com fiéis no mundo todo, dono de latifúndios e de um império midiático, se interessaria em ter uma pequena padaria de bairro? Depois, tivemos que pedir desculpa à amiga. Era verdade! Revelou-se que a padaria (que não existe mais) era uma das muitas propriedades do reverendo Moon no Estado.

Teorias conspiratórias e especulações sobre as secretas engrenagens do mundo, que estariam por trás de tudo, de tão repetidas se transformaram em folclore. Há anos se atribui tudo o que acontece a maquinações da CIA – ou dos maçons, ou dos templários (mas há tempo não se fala na Comissão Trilateral, lembra?) – e tudo parece fruto mais da imaginação do que de qualquer dedução racional. Meu pai tinha um amigo espanhol, anticlerical furioso como só os espanhóis sabem ser, que culpava tudo no papa, até o mau tempo. O papa e correntes invisíveis do Vaticano estariam por trás de tudo.

Mas... Há dias, o Elio Gaspari publicou documentos oficiais mostrando que a participação da CIA e do governo dos Estados Unidos no golpe de 64 foi maior e mais decisiva do que se pensava. Não era paranoia, os americanos não só colaboraram na desestabilização do governo Goulart como estavam prontos a intervir caso o golpe fracassasse. O improvável, neste caso, está provado. O reverendo Moon era mesmo dono da padaria.

A pesquisadora e professora Maria Girardello Gatti, de Santa Catarina, fez um estudo sobre as relações de Estados Unidos e Brasil durante a II Guerra Mundial e a Guerra Fria, concentrando-se no meu pai, Erico Verissimo, que, dentro da política da boa vizinhança entre os dois países, foi convidado pelo Departamento de Estado americano a dar um curso sobre literatura brasileira na Universidade da Califórnia, primeiro no campus de San Francisco, depois em Berkeley. Passamos dois anos na Califórnia. 

A professora Gatti teve acesso a documentos do Dops e do FBI, do período, e descobrimos que o convite ao meu pai desencadeou uma intensa troca de correspondência entre informantes da polícia política brasileira e analistas do FBI, que queriam saber se meu pai era comunista ou não, já que no seu livro O resto é silêncio um personagem se revela um antiamericano radical. A papelada liberada inclui até um memorando sobre o assunto do próprio J. Edgar Hoover, diretor do FBI, para Nelson Rockefeller, na época supervisor do programa de boa vizinhança com a América Latina. Hoover sugere que o convidado seja rigorosamente interrogado ao chegar aos Estados Unidos. E fica a fascinante sugestão de que, para se informar sobre a posição política do autor, Hoover tenha lido todo O resto é silêncio.



23 de julho de 2015 | N° 18235
CIDADANIA MARCAÇÃO CERRADA

Bate-bola entre pai e filho para na Justiça

VIZINHOS PROCESSAM HOMEM por barulho da brincadeira, mas juízes arquivam o caso

A brincadeira entre um pai e o filho de oito anos foi parar na Justiça em Santa Cruz do Sul. Em setembro do ano passado, um casal de aposentados processou o industriário Claudino Sehnem, que gosta de brincar com o filho de jogar futebol no pátio de casa. O problema, segundo os autores da ação, seria o barulho que essa brincadeira faz no muro da casa.

– Eles só querem silêncio, silêncio. Dizem que a gente tem de morar no mato, mas são eles que devem morar lá – conta Sehnem.

Rodrigo Alves, advogado do industriário, alega que o pedido tentava acabar com um momento de interação entre pai e filho:

– Me surpreendi quando fui procurado. Eles pediam para que eles parassem de jogar futebol. Caso isso não ocorresse, queriam que fosse construído um muro para que, quando a bola fosse chutada, não atingisse o muro deles.

Os vizinhos alegavam, ainda, que o muro era usado como goleira. Essa informação foi contestada no processo por Sehnem:

– Eles disseram que a gente estava chutando contra a garagem deles, mas isso não é verdade.

Uma testemunha convocada pelos autores e ouvida em audiência afirmou que a prática teria duração entre 30 minutos e uma hora, não seria diária e ocorreria entre 17h30min e 18h. Essa testemunha disse que “o som do impacto não era forte, mas era enjoativo”.

A ação foi julgada improcedente no Juizado Especial Cível da comarca de Santa Cruz do Sul. Os autores recorreram da sentença, que foi apreciada novamente pela 4ª Turma Recursal Cível, em Porto Alegre, que manteve a decisão.

– Pelo que foi informado na prova testemunhal, o uso da propriedade era normal. Quanto ao horário, também se teve o entendimento de que pode ser tolerado e não traz prejuízo maior – justifica Roberto Behrensdorf Gomes da Silva, relator do processo.

O magistrado diz que é preciso bom senso em casos como esse:

– Quem vive em sociedade e tem vizinho deve ter tolerância quando o uso da propriedade se dá de forma normal. Pode haver alguma perturbação, mas isso é inerente à vida em sociedade.

camila.kosachenco@zerohora.com.br


23 de julho de 2015 | N° 18235
EDUCAÇÃO FREIO NAS VERBAS

CORTES CHEGAM À PESQUISA


UFRGS E OUTRAS UNIVERSIDADES FEDERAIS reclamam repasses para a compra de materiais de laboratórios e para a formação de alunos da pós-graduação. Professores e alunos apontam prejuízo aos estudos científicos

Maior instituição de Ensino Superior do Estado, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) padece com corte de dinheiro para pesquisa e formação de mestres e doutores. Dos R$ 4 milhões esperados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para subsidiar materiais para laboratórios e bibliotecas, participação de pesquisadores em congressos internacionais e atração de professores de fora para bancas de teses, apenas R$ 1,16 milhão deve pingar na conta da instituição em 2015.

No início do mês, as universidades federais foram informadas pelo Ministério da Educação (MEC) de que o orçamento de programas de apoio à pesquisa na pós-graduação (Proap e Proex) será enxugado em 75% neste ano. Mesmo diminuídos, os repasses, sempre feitos em março, até agora não ocorreram.

A situação deixa apreensivos alunos e professores. Na semana passada, a Associação de Pós-Graduandos da UFRGS reuniu representantes de diferentes cursos para ver o impacto do corte em cada área. Como protesto, alguns docentes trocaram seus perfis no Facebook por imagens pretas, sinalizando luto. O barulho só não é maior porque a bolsa dos pesquisadores tem sido paga em dia. Esse subsídio, que corresponde a cerca de 80% do valor que a Capes repassa às instituições, não deve sofrer alteração.

Sem dinheiro, a UFRGS suspendeu a aquisição de materiais laboratoriais e a liberação de verba para pesquisas de campo. Em alguns dos 84 programas, faltam canetas e blocos de anotações e folhas para imprimir trabalhos.

– Se eu precisar paralisar meu projeto, vou atrasar minha formação em pelo menos um ano. Isso traz prejuízo não só para a minha carreira, mas também à pesquisa acadêmica – desabafa Pablo Gustavo Oliveira, doutorando da Faculdade de Medicina.

Gustavo iniciou em setembro do ano passado a coleta de sangue de 104 voluntárias para pesquisa sobre o efeito da menopausa em alguns hormônios. O trabalho foi interrompido: a compra do kit para exames, avaliado em R$ 4,2 mil, depende do dinheiro da Capes.

Situação incômoda também aflige sua colega Vera Susana Vargas. Mestranda em Medicina, ela se preparava para apresentar um trabalho em um congresso internacional no segundo semestre, quando foi avisada para não contar com auxilio para viajar. Ela diz que a medida prejudicará seu currículo e diminuirá o impacto do trabalho na comunidade científica.

Apenas na Medicina, a previsão de repasses caiu de R$ 190 mil para R$ 47,5 mil. Como efeito, a faculdade corre o risco de perder a nota de avaliação junto ao MEC. Essa classificação leva em conta a produção científica e o número de formandos a cada ano, e interfere diretamente na liberação de recursos da Capes nos anos seguintes.

– Tínhamos uma expectativa de orçamento que se reduziu a quase nada. Estamos vendo como buscar outras fontes de recursos em pleno andar do ano letivo – afirma Edison Capp, presidente do Fórum de Coordenadores de Pós-Graduação da UFRGS.

erik.farina@zerohora.com.br


23 de julho de 2015 | N° 18235
FILMES

Em busca de um sentido na vida

Indicado pelo Uruguai para concorrer a uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, Sr. Kaplan (2014) é mais uma prova de que, a despeito da produção numericamente acanhada no ano passado, não mais do que 16 longas uruguaios chegaram às telas do país vizinho , a qualidade do cinema dos hermanos está acima da média. Diretor do elogiado Mal Día para Pescar (2009), o realizador Álvaro Brechner levou para a tela o romance El Salmo de Kaplan, do escritor e jornalista colombiano Marco Schwartz.

A história do filme que entra em cartaz hoje na Capital é ambientada em 1997, em Montevidéu, onde vive Jacobo Kaplan (Héctor Noguera), judeu europeu emigrado por conta da perseguição nazista. Aos 76 anos, o protagonista está cansado da velhice e da rotina medíocre, amargurado por não ter feito nada de notável da vida. 

A oportunidade de espantar o tédio e quem sabe fazer algo verdadeiramente grandioso surge quando a neta lhe fala sobre um alemão idoso que vive sozinho em uma praia, chamado pela turma da adolescente de “nazista”. Seduzido pela história da captura de Adolf Eichmann em 1960 na Argentina – de onde foi levado para ser julgado em Israel pelos crimes cometidos na II Guerra –, ele acredita que o misterioso estrangeiro também é um oficial hitlerista foragido. Com a ajuda do ex-policial Wilson Contreras (Néstor Guzzini), sujeito gorducho e meio paspalho, Jacobo passa a investigar o alemão e a bolar um plano para capturá-lo.

Sr. Kaplan equilibra comédia e drama com inteligência, imprimindo um adequado tom agridoce à narrativa e tirando partido da química entre os atores que encarnam a improvável dupla de caçadores de nazista – com destaque para o ótimo uruguaio Néstor Guzzini, cujo talento já tinha despontado no filme Tanta Água (2013).

roger.lerina@zerohora.com.br

quarta-feira, 22 de julho de 2015



22 de julho de 2015 | N° 18234 
PEDRO GONZAGA

VITÓRIA

Se você for capaz de vencer, vença, mas não esgrima sua vitória contra os outros. Dentro do tempo, os perdedores serão sempre a maioria absoluta.

Se você se considera um vencedor, olhe para a galeria dos bem-sucedidos e veja como sorriem nas fotos os grandes comandantes. Repare em suas feições gordurosas, em seus olhos desprovidos de brandura. E repare também nos grandes magnatas: não confunda afetação com felicidade.

Se você almeja a vitória, leia outra vez o seu Álvaro de Campos. Os campeões em tudo talvez não vençam nos campeonatos jogados às sombras, os campeonatos dos amadores, a várzea em que se disputam com seriedade, por que não, somente as coisas inúteis, sem que ninguém lhes registre os placares: quantas horas passadas na cama nas manhãs de chuva, quantos espressos furtivos nos intervalos do trabalho, quantas conversas em que não se decidiu nada, em que não se lucrou nada, em que não se perdeu nada.

Se você precisa se sentir vitorioso, lembre que as livrarias estão cheias de livros que prometem prodígios. Estantes e mais estantes que garantem êxitos nas vendas e nas relações. Não quero empenar sua conquista, mas atente para o contrassenso numérico: se entregassem o prometido, as seções de autoajuda e de dietas não precisariam de mais do que um volume.

Se você quer ser alguém que vence, aprenda a fazê-lo com elegância. Faça de sua conquista, a conquista daqueles que estão ao seu lado. A vitória solitária é triste, quando não acompanhada de um acre sabor de revanche. Perdoe aos derrotados por terem tratado você como um. Perdedores orgulhosos também são ridículos, mas as câmeras não haverão de registrar suas caras arrogantes. Aprenda a subir ao pódio. 

No auge da vitória pública, guarde que a verdadeira é sempre a vitória íntima. Apenas essa não se apaga, apenas essa é certa, apenas essa é redentora. Ouça aqueles autores antigos que diziam que no dia da grande derrota – aquela que iguala vencedores e perdedores –, importa ter lutado não as lutas certas, mas ao lado das pessoas certas.

E depois perca. Perca tudo. Serenamente.


22 de julho de 2015 | N° 18234 
DAVID COIMBRA

O passarinho desconhecido

Queria saber mais dos bichos, e não sei. De todas as minhas vastas ignorâncias, essa me aborrece em especial. Agora mesmo, veio um passarinho e pousou na mureta da sacada. Passarinhos são importantes para cronistas que, vez em quando, pretendam ser líricos. O que seria do Rubem Braga sem os passarinhos? Então, olho para esse belo espécime que pia, trina e gorjeia a um braço de distância, decerto um tipo que só bate asas pela América do Norte, exótico aos leitores brasileiros, perfeito para um parnasianismo de meio de semana, e penso: vou dar uma poetada. Mas que raio de passarinho é esse? Não faço ideia. Que tristeza.

Sei alguma coisa dos grandes gatos. O rugir do leão pode ser ouvido a 20 quilômetros de distância, na noite da savana. Ele, às vezes, devora os filhotes para que a leoa entre novamente no cio. Quando isso acontece, o jovem macho pode se repoltrear no sexo 50, 60, cem vezes num único dia. Um campeão.

Mas tenho mais admiração pelos tigres. O tigre é como o detetive Philip Marlowe: um predador solitário. Ele gosta de atacar a presa pelas costas, quando ela está desprevenida. É quase impossível fugir do tigre: ele é capaz de escalar as árvores mais altas e nadar até no mar com velocidade cinco vezes maior do que a de Michael Phelps em dia de medalha olímpica. Só não é tão rápido quanto outro grande gato, o jaguar, que seria multado na maioria de nossas estradas, já que atinge 110 km/h.

Os africanos, obviamente, sabem muito sobre os bichos. Vi cenas de indígenas africanos roubando a carne da caça de um bando de leões. Foi impressionante. Tratava-se de uma zebra ou um gnu. Os leões o devoravam, cinco ou seis rosnando sobre o corpo inerte, quando os africanos chegaram com seus arcos e flechas. Os leões levantaram as cabeças e se afastaram, prudentemente. Os homens puxaram de facões, retalharam o pedaço de carne que queriam, jogaram-no nas costas e foram embora. Os leões voltaram para comer os restos.

Num outro filme, vi um africano enrolar a perna direita num pedaço de pano. Em seguida, ele enfiou a perna num grande buraco no chão. Ficou lá por alguns segundos. Aí, agitou-se, sentindo um repelão. Os amigos o puxaram, e a perna veio da terra abocanhada por uma cobra negra e gigantesca, de uns seis metros de comprimento. Os homens empunharam facas e a retalharam com paciência e método. O africano serviu de isca!

E agora, dias atrás, explodiram em toda parte dois filmes sobre tubarões. Num, os cientistas conseguiram colocar uma câmera dentro da cratera de um vulcão e viram que ela estava cheia de tubarões nadando. Quer dizer: cair dentro de uma cratera de vulcão já é ruim, imagine dentro de uma com tubarões.

Noutro filme, um surfista foi atacado não por um, mas por dois tubarões, e safou-se ileso dando chutes nos focinhos deles. Aí está: esse surfista sabe tanto sobre os bichos do mar quanto os africanos sobre os bichos da terra. Conhecimento útil para todos eles, que depararam com feras assassinas e saíram inteiros. Já eu, que quero apenas traçar algumas frases acerca de um inofensivo passarinho, nada sei, além do pouco que aprendi sobre canarinhos e pintassilgos de gaiola, pardais de calçada e vulgares pombas de praça. Como escrever a respeito do desconhecido? A ignorância, de fato, dói.


22 de julho de 2015 | N° 18234 
MOISÉS MENDES

Esses meninos


Jorge Amado concedia uma entrevista à TV, alguns anos antes de morrer, quando a memória falhou. Repetia: aquele menino, aquele menino... E o nome não saía. Até que lembrou: ora, aquele menino, o Niemeyer.

Oscar Niemeyer estava a caminho dos cem anos. Morreria 10 dias antes de fazer 105, sempre menino. Penso agora nessa história, contada pelo amigo Flávio Schubert, para falar desses meninos, o Gil e o Caetano, que estarão no dia 28 de agosto aqui em Porto Alegre, no Araújo Vianna.

Esse menino, o Caetano, engordou de ficar redondo. Nunca o imaginei obeso, porque se alimenta de brotos de alfafa e de grãos. Gil, ao contrário, era gordo e grande quando jovem e foi emagrecendo até ficar magrinho. Gil está cada vez mais Gandhi.

Esses dias, divulgaram uma foto de Caetano de cueca, ao lado da dançarina Carla Perez, num quarto de hotel na Suíça. Foi estranho, apesar de que ele sempre se deixou fotografar nu.

Mas de cueca e carpim? E com aquela barriga? Antes, já corria pelo YouTube um vídeo de Caetano gordinho cantando sem camisa. E Caetano é um senhor que fará 73 anos no dia 7 de agosto.

Percebi reações de desconforto com a foto, claro que não por se tratar de um idoso, mas porque ele teria perdido a noção ao aparecer na internet daquele jeito. É um debate e tanto.

Outro debate é sobre os preços dos ingressos. Só entrará no Araújo Vianna quem se dispuser a pagar pelo menos R$ 190 e ficar em pé numa lateral. O ingresso mais caro custa R$ 750. O intermediário, R$ 490.

Alguma coisa se extraviou no meio do caminho que nos trouxe Caetano e Gil até aqui. Me lembro de Caetano cantando de gravata no Gigantinho, no início dos anos 90. Mas pagava-se numa boa o ingresso para ver o cara que brincava de yuppie.

O que aconteceu que um show de Gil e Caetano se parece agora com esses jogos de futebol das novas arenas, onde só se vê gente branca e onde o povo não entra? Por que fazer apenas um show deles, e por isso mesmo tão caro?

Por onde ficou a alma da Tropicália, que encareceu tanto esse expresso 2222, a ponto de transformar um show de Gil e Caetano num evento para bacanas? O que se passa com esses meninos? E aquela foto seria uma propaganda da mesma cueca do Neymar?

E aqueles outros meninos que morreram cedo, o Torquato Neto e o Sérgio Sampaio, o que diriam disso tudo? Torquato talvez nos dissesse: se liga que aquele trem já passou.

22 de julho de 2015 | N° 18234 
MÁRIO CORSO

Farofa


Tenho amigos apiedados de uma confraria que se esforçam em melhorar meu paladar. Querem me resgatar da simplicidade culinária. Sabem que meu cérebro pode fazer algumas ligações menos óbvias, dizer algo engraçado, coerente, ou mesmo original, mas meu estômago é unidimensional e primitivo. Cevado a prato feito da Borges e a bandejão do RU.

Por instinto, gosto de comida de restaurante de estrada, de boteco. Gosto de galinha com farofa, de carreteiro, de feijoada, de dobradinha com vinho de garrafão, polenta com molho vermelho, costela gorda com salada de batata. Claro, com variações gourmet. Por exemplo, o melhor carreteiro é o feito com as sobras do churrasco, desde que tenha sobrado também linguiça, esse é o segredo.

Com meus amigos, provei quitutes requintadíssimos com nomes improváveis. Adorei, repetiria outra vez, especialmente a companhia, mas nem ao menos lembro exatamente o que era e muito menos como eles o chamavam. Um dos últimos pratos dessa empreitada civilizatória fraterna levou dias de esmerada preparação e me deixou recordações fugazes. Era uma papa fina francesa que eu comeria outra vez, lambendo os beiços, mas, e essa é a questão: com o mesmo entusiasmo com que enfiaria os dentes numa galinha de televisão de cachorro bem tostadinha. Eu sou daqueles que pode ser feliz comendo em pé um x-tudo de trailer sem esboçar qualquer medo da maionese.

Não levo jeito para chique, meu negócio é farofa. E, é claro, farofa pede acompanhamento. A feijoada, por exemplo, não é exatamente um prato. Na minha particular filosofia culinária, ela é a melhor maneira de comer farofa. O feijão tem que ser maravilhoso para sublinhar meu astro principal: a farofa.

Considero a farofa a contribuição culinária do Brasil ao mundo. Ela deveria ser tombada como patrimônio da humanidade. Imagino os estrangeiros como aqueles coitados que não conhecem suas benesses. A única outra profissão que considerei foi de faroffalier, o sommelier das farofas. Mas, ao mesmo tempo, uma preocupação: imagine se o mundo descobrisse essa preciosidade, a que preço ela chegaria? Como seria um mercado negro da farinha de mandioca?

Estou preso a um gosto infantil e interiorano, acorrentado afetivamente ao fogão a lenha das minha avós. Em tantas coisas rompi com o passado, mas na mesa sigo sendo uma criança. Resta assumir o cardápio infantil e jeca, invejando os amigos que ultrapassaram meu horizonte de sanduíche de mortadela com margarina. Devem enxergar mais longe, perceber sutilezas do mundo que me escapam.

Para você que é como eu: não adianta insistir, desista. Estômago que nasceu para farofa nunca chegará a apreciar um bom frufru de pripripri. Nem ao menos distinguir um bom quiqui de bonjour de um bonsoir de creuset.

terça-feira, 21 de julho de 2015



21 de julho de 2015 | N° 18233
ENTREVISTA DAVID GARRETT, Violinista

“Os fãs são uma inspiração”

O violinista alemão David Garrett é um dos casos curiosos de artista formado na tradição da música de concerto que decide trilhar um caminho no universo pop. Hoje, ostenta o status de uma verdadeira estrela. Sua trajetória é inusitada: aos 13 anos, assinou um contrato com o prestigiado selo Deutsche Grammophon, especializado em música clássica, pelo qual gravou obras de Mozart, Beethoven e Paganini. Virtuoso (2007) marcou uma guinada, com clássicos, composições próprias e Metallica. Seguiu-se Encore (2008), outro sucesso, que consolidou seu trabalho crossover, como é chamada a mistura de clássico e outros gêneros. Mas o violinista não deixou de gravar e tocar o repertório de concerto, como mostra Timeless (2014), com obras de Brahms e Bruch. Ele conversou com ZH por telefone, da Alemanha, em um intervalo da Classic Revolution Tour, que traz a Porto Alegre em show hoje, às 21h, no Auditório Araújo Vianna.

Você pode adiantar como será o show em Porto Alegre?

Farei uma mistura de show crossover com concerto clássico. Obviamente, tocarei com minha banda. Então, haverá rock’n’roll, clássico, um pouco de pop, um pouco de electro. Será um programa divertido, com muita coisa nova que arranjei e comecei a tocar recentemente na turnê. Então, haverá muita coisa que não está sequer nos CDs.

Poderia citar alguns títulos?

Costumamos tocar músicas como Baila Me (Gypsy Kings), Born in the U.S.A. (Bruce Springsteen), Fuel (Metallica); Carmina Burana (Carl Orff), Livin’ on a Prayer (Bon Jovi) e We Are the Champions (Queen). Paradise, do Coldplay, também é um número legal. Então, será um programa bastante misturado.

Haverá alguma surpresa para o público brasileiro?

Tento integrar algumas peças da cultura latino-americana, porque acho que cria uma melhor conexão com o público.

Você tem compositores brasileiros favoritos?

Toco um pouco de música brasileira, mas não sou um expert. Uma das minhas atividades preferidas é sair e experimentar um país quando estou lá. A única coisa é que não fui muito ao Brasil (risos). Estive aí uma vez por dois dias para tocar em um concerto clássico (em 2007, tocando o Concerto para Violino nº 1, de Prokofiev, com a Orquestra Petrobras Sinfônica, no Rio). Espero desta vez ter tempo suficiente para realmente experimentar e aprender.

Muitos de seus admiradores são fanáticos, como os fãs das estrelas do rock. Como você se sente?

Eu me sinto muito bem. No final, você está tentando criar uma noite legal. Então, se as pessoas aparecem, você fica muito feliz como artista. Quando você é musico, obviamente, o mais importante é entregar um produto de qualidade. Mas os fãs são uma grande inspiração e motivação para me manter sempre em movimento e criar a próxima grande coisa.

Como você vê a diferença entre o público da música clássica no sentido tradicional e o que vai a shows crossover?

Não vejo que os dois públicos sejam tão diferentes. Se você entregar um produto de qualidade na música clássica, o público pode ficar tão fanático quanto qualquer outro (risos). O que é muito óbvio é que há muitos jovens aparecendo nos meus shows, o que aprecio muito. Isso ocorre, em parte ou principalmente, porque comecei a tocar, também, shows crossover.

Você começou tocando o repertório clássico tradicional. Como decidiu percorrer uma trajetória no crossover?

É um caminho adicional. É preciso entender que ainda toco muitos concertos clássicos. Lancei um disco clássico com obras de Brahms e Bruch. Para mim, é importante estar nos dois mundos simultaneamente. A coisa crossover era para atrair jovens, explicar a música para plateias jovens. Não é uma mudança na minha carreira, mas uma soma.

Está preparando algum novo disco?

Sim, devo lançar algo em outubro. O próximo álbum será de crossover, mas principalmente com músicas originais escritas por mim. Estou muito empolgado para ver se os fãs vão gostar ou não.

FÁBIO PRIKLADNICKI

DAVID GARRETT CLASSIC REVOLUTION TOUR

Hoje, às 21h. Classificação: livre.
Auditório Araújo Vianna (Osvaldo Aranha, 685), em Porto Alegre.
Ingressos: R$ 260 (plateia alta central) e R$ 310 (plateia baixa lateral). Demais setores estão esgotados. Desconto de 25% para sócio e acompanhante do Clube do Assinante e 50% para idosos e estudantes.
À venda na bilheteria do Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80), a partir das 14h, pelo site ingressorapido.com.br, pelo call center 4003-1212 e pela telentrega no telefone (51) 8401-0555).
2CELLOS vem aí em outubro
Fenômeno no YouTube, a dupla croata 2CELLOS também tem ganhado fãs com sua mistura de clássico e outros gêneros. Os violoncelistas Luka Sulic e Stjepan Hauser se apresentam em 1º de outubro, no Auditório Araújo Vianna.


21 de julho de 2015 | N° 18233
POLÍTICA AUMENTO DE IMPOSTOS

Medidas ainda sem apoio de aliados

DIVERGÊNCIAS COLOCAM EM XEQUE a aprovação de propostas em estudo, que devem ser apresentadas à Assembleia Legislativa em agosto. Líder do governo no parlamento admite que a elevação de tributos não é consenso nem no PMDB

O aumento de impostos em gestação nos bastidores do Palácio Piratini está longe de ser unanimidade, mesmo entre os deputados que apoiam a administração de José Ivo Sartori. Embora a base aliada seja maioria na Assembleia, as divergências põem em xeque a aprovação do projeto, que deve ser apresentado em agosto ao parlamento.

Revelada ontem por ZH, a proposta prevê a ampliação de 17% para 18% da alíquota geral de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), entre outras medidas. Líder do governo no Legislativo, Alexandre Postal (PMDB) admitiu que a hipótese “não é consenso nem no PMDB”, partido do governador. No meio empresarial, a possibilidade também é alvo de críticas.

– Não sei se é o momento adequado para levar a discussão adiante. Por onde a gente passa, só se fala em crise e demissões. Quando a ex-governadora Yeda Crusius propôs o aumento, votei contra – pondera Postal.

YEDA E OLÍVIO TENTARAM, MAS NÃO CONSEGUIRAM

Líder da bancada do PP, Frederico Antunes limitou-se a afirmar que a sigla continua contrária ao aumento de impostos, apesar de apoiar a atual gestão:

– Em novembro, nossa bancada já se manifestou sobre isso. Só vamos voltar a falar do tema se a proposta for confirmada oficialmente.

Na oposição, o projeto também é motivo de discordância. Conforme Luiz Fernando Mainardi, líder da bancada do PT, a legenda rejeita a “alteração pura e simples de alíquotas”. Já o deputado Pedro Ruas (PSOL) teme que o aumento seja repassado à população:

– No caso do ICMS, quem é taxado sempre repassa o valor.

Questionado sobre o projeto durante palestra em Bento Gonçalves, ontem, Sartori disse que, por enquanto, nenhuma decisão foi tomada. Outros governadores que tentaram alterar as alíquotas, entre eles Yeda Crusius (PSDB) e Olívio Dutra (PT), não conseguiram.
juliana.bublitz@zerohora.com.br



21 de julho de 2015 | N° 18233
POLÍTICA ESCÂNDALO DA PETROBRAS

Três executivos são condenados

EX-DIRIGENTES DA CAMARGO CORRÊA receberam penas de até 15 anos, mas só um deles ficará no regime fechado

Titular das ações penais da Operação Lava-Jato, o juiz Sergio Moro condenou executivos da construtora Camargo Corrêa por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e atuação em organização criminosa referentes a superfaturamento e pagamento de propina para obtenção de contratos de obras da Petrobras.

A condenação refere-se às obras da Refinaria Getúlio Vargas, no Paraná, e da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. De acordo com a sentença, a Camargo Corrêa pagou R$ 50 milhões de propina à Diretoria de Abastecimento da Petrobras apenas nesses dois contratos. O valor equivale a 1% do valor das obras, segundo a decisão. Esse é o montante definido pelo juiz como ressarcimento a ser feito à estatal pelos condenados, além de outras multas criminais e civis.

O juiz também condenou o ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef. O agente da Polícia Federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o Jayme Careca, foi condenado a 11 anos e 10 meses de prisão por lavagem.

Na sentença, o magistrado absolveu o empresário Márcio Andrade Bonilho, do Grupo Sanko Sider, do crime de corrupção ativa, por falta de provas. Também foi absolvido Adarico Negromonte Filho, irmão do ex-ministro Mário Negromonte, da imputação do crime de organização criminosa e de lavagem de dinheiro.

Esta é a primeira sentença contra executivos, no âmbito da sétima etapa da Lava-­Jato, batizada de Juízo Final, que alcançou o cartel na Petrobras. Cabe recurso da decisão.

A SITUAÇÃO DE CADA UM

DALTON AVANCINI
Ex-presidente da Camargo Corrêa
- Sentença: 15 anos e 10 meses de prisão, mais multa de R$ 1,2 milhão.
-Como ficou após a delação: permaneceu na cadeia quatro meses e 10 dias, período da prisão preventiva. Vai cumprir um ano da pena em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, até 14 de março de 2016. Depois, ficará pelo menos dois anos no semiaberto diferenciado (obrigação de dormir em casa) mais cinco horas semanais de serviços comunitários. Em seguida, progride para o aberto, encerrando a obrigação de dormir em casa. Vai pagar R$ 2,5 milhões como indenização cível, além do R$ 1,2 milhão como multa criminal.
EDUARDO HERMELINO LEITE
Ex-vice-presidente da Camargo Corrêa
-Sentença: 15 anos e 10 meses de prisão e multa de R$ 900 mil .
-Como ficou após a delação: permaneceu na cadeia quatro meses e 10 dias, período da prisão preventiva. Vai cumprir um ano da pena em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, até 14 de março de 2016. Depois, ficará pelo menos dois anos no semiaberto diferenciado (obrigação de dormir em casa) mais cinco horas semanais de serviços comunitários. Em seguida, progride para o aberto, encerrando a obrigação de dormir em casa. Vai pagar R$ 5,5 milhões como indenização cível.
JOÃO AULER
Ex-presidente do conselho da Camargo Corrêa
-Sentença: Condenado a nove anos e seis meses de prisão, mais multa de R$ 288 mil.
-Como será a execução da pena: começará no fechado, podendo evoluir para o semiaberto após o cumprimento de 1/6 da pena.
PAULO ROBERTO COSTA
Ex-diretor de Abastecimento da Petrobras
-Sentença: Seis anos de prisão e multa de R$ 373 mil.
-Como ficou após a delação: a condenação será unificada às demais. Em abril, havia sido condenado em outra ação a sete anos e seis meses. Costa não deverá voltar à prisão, ele já cumpre prisão domiciliar com uso de tornozeleira.
ALBERTO YOUSSEF
Doleiro
-Sentença: Oito anos e quatro meses de prisão e multa de R$ 593 mil.
-Como ficou após a delação: a condenação será unificada às demais. Em abril, havia sido condenado a nove anos e dois meses. Graças ao acordo, passará só três anos na prisão.
JAYME ALVES DE OLIVEIRA FILHO
Policial federal, conhecido como Jayme Careca
-Sentença: 11 anos e 10 meses de prisão e multa de R$ 285 mil.
-Como será a execução da pena: no fechado.


21 de julho de 2015 | N° 18233
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

A TRAGÉDIA GREGA

A Grécia legou ao mundo três coisas fundamentais: a Filosofia, ou seja, uma forma de pensar sem os limites impostos pelos dogmas religiosos; a Democracia, ou seja, uma forma de convivência social em que os opostos se reconhecem e se respeitam; e o Teatro, ou seja, uma forma de vivenciar os horrores desta vida por meio de sua representação, sem culpa ou risco de sofrermos sequelas. Com a prática da Filosofia podemos ampliar a compreensão da realidade, explicar o que é uma causa, uma consequência, a razão, a natureza, a sociedade ou a história.

Com a prática da Democracia podemos viver um regime político baseado no princípio da soberania popular, na liberdade do ato eleitoral, na divisão de poderes e no controle da autoridade. Com a prática do Teatro podemos, entre outras coisas, ver as causas da Filosofia e as consequências da Democracia representadas no corpo e na voz do ator. O que move o Teatro é o conflito, o enfrentamento dos opostos, princípio básico da Democracia; o que resulta do Teatro é o pensamento sobre o mundo, sobre a vida, princípio básico da Filosofia.

Pois essa mesma Grécia que nos proporcionou condições tão fundamentais para a evolução da arte, da ciência e da política, vive agora uma das piores situações de que se tem notícia nos últimos tempos: o risco de sair da zona do euro como consequência do não pagamento de uma dívida. Mais uma tragédia.

A tragédia, no Teatro, deriva de um erro por ignorância, o herói age sem saber que algo essencial está sendo omitido. Como é o caso de Édipo, que matou o pai sem saber que era seu pai, casou com a mãe sem saber que era sua mãe e depois, como rei de Tebas, decidiu pela punição do assassino do antigo Rei, sem saber que ele próprio era o assassino do antigo Rei, seu pai. Coisas que acontecem e que terminam em tragédia.

Agora, a Grécia, ao não pagar o empréstimo de 1,6 bilhão de euros, fez de conta que não sabia que as principais líderes do Eurogrupo eram Angela Merkel, chanceler da poderosa Alemanha, e Christiane Lagarde, diretora-gerente do FMI. Resultado? Tragédia.


sábado, 18 de julho de 2015



19 de julho de 2015 | N° 18231 
CARPINEJAR

Mexendo nas feridas

Demoro a me recuperar dos tombos. Não aguento o período de recuperação.

Sempre mexo nas cascas dos machucados. Nunca a minha pele teve a chance de se regenerar naturalmente. Passo do limite, começo retirando as bordas secas e invado o úmido da purgação.

Jamais me controlo, desde a infância.

Na escola, cutucava o pisado debaixo da classe. Ao apressar o seu fim, retomava o seu início. Não me movia pela curiosidade infantil e biológica de entender o processo, e sim para me livrar do incômodo. Óbvio que a calça do uniforme vivia manchada de sangue. Eu mesmo encontrava um jeito de me ferir e ampliar a data de validade da ferida.

Esfolar o joelho representava meses de recuperação. Transformava a expectativa convencional de uma semana em longo martírio de coceira.

Minhas pernas estão depiladas involuntariamente nas canelas. De tanto mexer nas batidas, criei cicatrizes onde não deveria constar nenhum sinal.

Acentuava a gravidade dos escorregões e encontrões do futebol.

Quem me dera se a minha impaciência estivesse reduzida à epiderme dos costumes.

Infelizmente, carreguei a mesma ânsia para dentro de namoros e de casamentos. Não percebia que as piores ofensas acabavam por aparecer no meio da briga (as que desencadeavam a discussão eram simbólicas, de menor gravidade).

Quando surgia uma insatisfação, não deixava esfriar. Não aceitava que cada um se aquietasse em sua solidão para sarar o ruído com silêncio e pensamento.

Não há como evitar acidentes e quedas na vida a dois, mas não realizava o simples curativo perante um revés: limpar a zona infeccionada das palavras, cobrir o assunto por dois dias e aguardar a melhora.

Já coçava com as unhas compridas. Já cavoucava a chaga. Já pretendia resolver na hora. Já pressionava a minha companhia a tomar uma decisão, a explicar seu posicionamento, a emitir uma sentença.

De algo muito tolo (uma piada no contexto errado, uma frase torta, um descontentamento com um gesto), convertia em tudo ou nada, naquele extremismo de exigir desculpa ou terminar a relação.

Não admitia a existência breve de uma pequena ferida. Não guardava as mãos. Não saía de perto.

Fixava-me no desentendimento a ponto de ampliá-lo em impasse.

O que é físico é também emocional.

Assim como no corpo, um ferimento na pele do orgulho, diante da insistência de insultos e acusações, pode dar origem a uma lesão crônica, que persistirá durante anos.


19 de julho de 2015 | N° 18231 
ANTONIO PRATA

Dormir é para os fracos

Quinze constatações a partir da paternidade: uma crônica de autoajuda para os que pretendem procriar – ou talvez, mais ainda, para os que não pretendem.

1 – Antes de ter filhos, eu era um vagabundo que ficava reclamando, sem razão, de não ter tempo pra nada.

2 – Depois de ter filhos, eu sou um pobre-diabo que fica reclamando, com razão, de não ter tempo pra nada. (Se hoje me dessem três meses com o tempo livre que eu tinha há dois anos, eu conseguiria aprender esperanto, escrever Anna Karenina e treinar pro Ironman).

3 – Se eu tivesse um minuto pra pensar a respeito da paternidade, provavelmente me daria conta de que estou vivendo um dos momentos mais gloriosos da minha breve passagem sobre a Terra: estou acompanhando o desabrochar de pequenos seres humanos feitos com metade dos meus genes e metade dos genes da mulher amada.

4 - Se eu não tenho um minuto pra pensar a respeito da paternidade é porque estou exercendo a paternidade, o que significa, entre outras coisas: tentar evitar que um desses pequenos seres humanos ponha na boca a mão que acabou de meter na fralda suja de cocô; tentar convencer o outro pequeno ser humano de que não dá para vermos o caranguejo, agora, pois o caranguejo mora em Ubatuba, nós moramos em São Paulo – e são duas e trinta e sete da manhã. Tais atividades, convenhamos, deixam pouco espaço para a contemplação.

5 – Felizmente, devido a uma simpática trapaça cognitiva, pregada pela seleção natural, o cocô dos nossos filhos nos parece muitíssimo menos repulsivo do que os cocôs do resto da humanidade. (Infelizmente, não a ponto de nos esquecermos que aquilo na fralda, nas costas, nas pernas ou na mão do pequeno ser humano continua sendo cocô.)

7 - Depois de ter filhos, os minutos destinados ao próprio cocô se transformam num raro e beatífico momento de paz pelo qual os jovens pais anseiam como um monge por sua meditação.

8 - (Não é incomum pais neófitos simularem dores de barriga para poderem se trancar no banheiro várias vezes ao dia e: ler rótulo de creme hidratante, dar “like” na foto do gato da prima, contemplar os azulejos num torpor quase místico).

9 - Ninando um bebê, me descubro capaz de executar funções com partes do meu corpo que, até ter filhos, julgava completamente ineptas. Consigo abrir e fechar uma maçaneta com o cotovelo – sem fazer barulho. Consigo regular o dimer com a bunda. Consigo abrir e fechar o mosquiteiro com o nariz. Coço o queixo na estante de livros, as costas no armário embutido, a testa no prato da samambaia. Se tiver uma única mão livre, posso fazer o solo de bateria do John Bonham, em Moby Dick, de trás pra frente – só não faço porque iria acordar o bebê.

10 – Antes de ter filhos, eu achava o fim da picada pais que trabalhavam com: babá, biscoito recheado, televisão no carro.

11 – Hoje, procuro uma folguista pro fim de semana (pago metade do meu salário e dou meu carro como bonificação), negocio “Só mais uma, já é o terceiro pacote!” e imploro “Não chora! Olha o filme do Senhor Batata! A Menina Moleca! A Galinha Pintadinha!”.

12 – Galinha Pintadinha é a imagem da Besta.

13 – Galinha Pintadinha é uma bênção divina.

14 – Dormir é para os fracos.

15 – Eu sou fraco.


19 de julho de 2015 | N° 18231 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Um Ano

Amanhã acaba minha experiência de um ano vivendo na Europa, numa cidade mundial acossada pela sombra do terrorismo, ocupada por milhões de turistas, vivida cotidianamente por gente comum, em suas padarias e bares de esquina, em suas feiras-livres em todo bairro, em seu transporte público utópico para um brasileiro.

Com suas calçadas em regra impecáveis, mas cheias de cocô de cachorro. Com suas múltiplas máquinas de limpeza urbana, que recolhem lixo evitável, como as toneladas de baganas de cigarro. Com seus espaços públicos bem cuidados, pracinhas de bairro espalhadas por toda parte, nas quais as crianças ficam à vontade e até bebês de seis meses são postos no chão, porque as mães sabem que não há a menor possibilidade de cachorro entrar ali, nem na coleira.

Tive tempo de viver emoções intensas e inesquecíveis, como levar os filhos ao colégio, a pé (o filho de patinete), e cruzar pela mãe cega que, com seu cão-guia, levava a filha de oito anos todos os dias até a porta da escola, atravessando com total segurança toda e qualquer rua – sempre sinalizadas, com pintura no chão, sinal luminoso e, nas mais movimentadas, sonoro também. Os motoristas sempre param, quando se trata de uma criança ou de alguém com qualquer necessidade evidente.

Tempo de ouvir dezenas de línguas, incluindo o português de Portugal, falado por zeladores de prédios e atendentes de comércio, e o português brasileiro, nos pontos turísticos. Tempo de fazer um laço confortável com a feirante de produtos “biô”, ecológicos, com a moça da padaria, com o chinês das frutas. De conhecer o lugar das coisas no súper, de assinar o jornal, de reviver a pequena felicidade familiar do comércio de rua, que Porto Alegre quase nem conhece mais.

Deu tempo também para entrar em várias crises. A mais recorrente, e mais profunda, era uma ambivalência: de vez em quando eu me pegava sentindo a vida aqui como sendo minha, e portanto eu gastava tempos a entender qual era a orientação política de certo ministro, ou o que significava certa sigla dada como óbvia mas impenetrável para um estrangeiro; aí, eu me corrigia pensando que aquele esforço não tinha sentido, porque eu precisava era saber esses detalhes apenas sobre o meu mundo brasileiro, gaúcho, porto-alegrense. Nem no Uruguai e na Argentina, tão próximos a nós, a gente entende isso!

E me vinha à lembrança um fragmento de texto do Caetano Veloso, uma das crônicas que ele escreveu para o Pasquim, estando em Londres, exilado pela ditadura militar. Ele andando por aquela outra cidade mundial – sobre a qual compôs uma linda canção –, em outro momento histórico, sob outras pressões, se dava conta que nada daquilo dependia dele, e que ele não dependia de nada daquilo.

E este era o meu ponto: foi um ano todo vivendo pendurado numa fragilidade, numa provisoriedade consciente, numa condição de trânsito. Os mendigos e subempregados de Paris, os músicos e pedintes do metrô, os imigrantes recentes que se tornam, por necessidade, vendedores de bugigangas em pontos de grande afluxo de gente, a vizinha ranzinza com aspecto de suprematista branca – eu passei por todos eles, sem nem sonhar em criar laço, salvo o ultragenérico de ser, como eles, um ser humano.

Muitos amigos alertam agora que a volta pode ser traumática, porque o ambiente brasileiro está tumultuado e agressivo, coisa que dá pra ver e acompanhar mesmo de longe, por sinal um longe que perdeu a antiga respeitabilidade, depois da internet. Saí daí antes do processo eleitoral do ano passado, que parece ter sido um divisor de ânimos. Alguns perguntam se eu preciso mesmo voltar.

Claro que preciso, por todos os motivos: vivi aqui com bolsa federal e sou professor público em licença para estudar, e só aí estão duas razões incontornáveis. Há a família, os amigos, a paisagem. Mas é mais: de algum modo profundo, é em Porto Alegre, é no Brasil que me sinto como se eu dependesse das coisas, e elas dependessem de mim.


19 de julho de 2015 | N° 18231
MOISÉS MENDES

A hora do senso comum

O pensamento conservador não produz nada de relevante desde a encíclica Deus Caritas Est, do papa Bento XVI, publicada em 2006. Você não se recorda de quase nada da encíclica, que prega a caridade como essência do cristianismo, porque o papa pouco acrescenta a conceitos que a Igreja qualquer igreja explora há séculos.

A encíclica tem 50 páginas de divagações que poderiam ter sido escritas por um estudante de Teologia. É frustrante. Bento XVI apresentou-se, quando assumiu, em 2005, como uma das esperanças do conservadorismo, não só o eclesiástico, até renunciar, em fevereiro de 2013.

Depois dele, nada de maior repercussão prosperou como reflexão entre os que tentam acalmar o mundo diante de inquietações e transgressões diversas. Os conservadores perderam a capacidade de refletir sobre o que os atormenta.

O conservadorismo lida bem com medos, preconceitos e, se possível, o diabo. E se sustenta, politicamente, dos resíduos do que um dia pode ter sido seu pensamento mais complexo. Até virar o que é hoje, a maior torcida do contra do século 21.

Há torcida contra os gregos, porque seriam preguiçosos e perdulários. Torcem, há muito tempo, contra Obama. Batem em Obama porque levou os americanos a aceitarem um sistema de saúde civilizado. Agora, torcem contra o acordo com o Irã que tenta reduzir a ameaça nuclear. Há torcida organizada contra os que se dispõem a acolher os migrantes da África.

O conservadorismo brasileiro, por exemplo, torce contra gays, bolsas, cotas, imigrantes e até contra ciclovias. E chega a torcer contra um ministro liberal. Cresce a torcida contra Joaquim Levy.

Tudo porque a direita ficou desconfortável no mundo. O rebaixamento do debate proposto pelo conservadorismo, em todos os níveis, das redes sociais à academia, precarizou discursos e ações. Sumidades do conservadorismo nacional reproduzem hoje o que se lê de mais reacionário em páginas do Facebook.

O conservadorismo já gastou páginas e páginas de jornais e de livros para responder a outro livro que o incomoda – O Capital no Século XXI, do francês Thomas Piketty, que mostra, com estatísticas, como o capitalismo vive de uma deformação, a reprodução da acumulação e da concentração de renda que até agora eram dadas como virtudes.

Batem em Piketty porque ele não deveria ter jogado luz nos porões do capitalismo. Batem, agora, no papa Francisco, que perdeu prestígio entre os conservadores (saudade de Gustavo Corção) porque passou a atacar o que Piketty ajudou a desvendar.

Esse papa esfola o dinheiro pelo dinheiro, a destruição do ambiente, o individualismo exacerbado. Bento XVI ficaria satisfeito com a caridade. Francisco incomoda porque quer transformações.

O conservadorismo, que por tanto tempo, depois da queda do Muro, dispôs do charme do liberalismo econômico (saudade de Roberto Campos), não tem mais onde inspirar sua retórica. A crise de 2008 abalou a confiança dos mercados e dos seus conservadores. O conservadorismo vive dos medos dos seus seguidores e pode ter, acredite, Donald Trump como mais novo guru.


Ficou tão complicado ser conservador no Brasil, que até o reacionarismo mais moderado alimenta-se das gritarias do senso comum que domina as redes sociais. E o senso comum só atrapalha o pensamento.


19 de julho de 2015 | N° 18231 L. F. VERISSIMO
As aventuras da família Brasil

Virtuosismo passional

Os textos de Julio Cortázar são para ser lidos como jogos de armar. Cortázar seria um pioneiro do pós-modernismo, definido como uma literatura autoconsciente ao extremo, uma literatura com os andaimes à mostra, em que o leitor é convidado a ser cúmplice dos seus artifícios. Italo Calvino descreveu o pós-modernismo como “a tendência de usar, ironicamente, imagens padronizadas da cultura de massa ou da tradição literária numa narrativa que acentua o seu artificialismo”.

Segundo essa definição, o pós-moderno é a continuação do moderno como paródia. Ou, no caso de Cortázar e outros, como jogo. Parafraseando o que Marx disse sobre a História, na literatura o convencional também só se repete como farsa.

Pode-se, com alguma boa vontade, identificar o começo do pós-moderno no pré-moderno, na origem da tradição literária de que fala Calvino: o Dom Quixote de Cervantes já era uma literatura autoconsciente e parodística – no começo do século 17. A segunda parte de Dom Quixote acontece num mundo em que já aconteceu a primeira, e as aventuras malucas de Quixote são conhecidas de todos. Cervantes incorpora sua fantasia e seu personagem fictício à realidade do dia, confiando na indulgência do leitor com o truque. E pode dizer, antes de todos os pós-modernistas que virão: “Primeirão!”.

Outro precursor, este no século 18, foi A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, do irlandês Laurence Sterne. Publicado em nove volumes, é a história, contada na primeira pessoa, de um personagem rocambolesco, Tristram, que recorre a todas as convenções literárias da época, fazendo pouco delas, para narrar sua vida.

E, quando as convenções e as palavras não bastam, recorrendo a grafismos como o desenho no meio do texto de uma linha em espiral para descrever o movimento de uma bengala no ar. O que deve ter sido um desafio para os tipógrafos da época. Sterne também foi um pós-moderno antes do moderno.

O americano John Barth, este um pós-moderno de hoje, escreveu sobre dois pós-modernos contemporâneos que admira, Calvino e Jorge Luis Borges. E tomou emprestado de Borges uma definição de dois valores que, combinados, descrevem a arte da dupla, Álgebra e Fogo. Álgebra (a “árdua álgebra” de Borges) significando a engenhosidade formal na construção de uma obra, o truque que surpreende ou desafia o leitor, ou pleiteia uma cumplicidade intelectual. Fogo significando o que comove, o que toca fundo.

Álgebra sem fogo acaba em malabarismo técnico sem alma, fogo sem álgebra acaba em literatura enjoativa, porque alma demais também enjoa. Para Barth, Calvino e Borges são os dois grandes escritores do nosso tempo porque, na sua ficção, atingiram como ninguém mais a fusão de álgebra e fogo. Barth descreve o que eles fazem – ou fizeram, pois os dois já se foram – como “virtuosismo passional”. Perfeito.