sábado, 18 de julho de 2015




19 de julho de 2015 | N° 18231
ARTIGOS - DIANA LICHTENSTEIN CORSO*

A BELA ADORMECIDA TAMPONADA

Nas imagens pornográficas, as mulheres aparecem explicitamente ofertadas ao olhar e ao acesso dos interessados. Estes, ao menos imaginariamente, podem dispor delas para seu prazer. Quanto mais pornográfica e menos erótica for a representação, mais visíveis serão os orifícios “disponíveis”.

A transformação de alguém em uma imagem incumbida de encenar fantasias alheias, sem levar em conta as que ele prório possa ter, é o cerne da pornografia e o avesso do erotismo. As pessoas que consomem esse gênero não são egoístas ou pervertidas. São apenas neuróticos triviais que utilizam representações anônimas daquilo que imaginaram para atingir o gozo sexual.

É necessário que o outro seja passivo? Sem problemas. Dominante? OK. Cai bem que esteja encontrando prazer nas mãos de alguém do sexo oposto que não seja eu? Tudo bem. Preciso ver duas pessoas do mesmo sexo se desejando? OK. Vários participantes, todos desejando uma só mulher? Para tudo há uma solução: a indústria pornográfica arregimenta pessoas capazes de praticar os contorcionismos necessários, a serviço de um Kama Sutra comercial pouco encontrável numa real cena de sexo.

Agora imagine uma dessas mulheres, linda e loira, colocada em posições clássicas da pornografia mas com todos os orifícios de seu corpo tamponados. Olhos, boca, nariz, ouvidos, vagina, ânus, cobertos com uma massa branca que a impede de qualquer relacionamento, ativo ou passivo, com o mundo. Numa urna de vidro, ao lado das fotos, estão os tampões, modelados em seu corpo.

No espaço de exposições do Santander, em Porto Alegre, entre outras instalações instigantes, os artistas Laura Cattani e Munir Klamt propõem essas fotos, da mulher tamponada, nem pornográfica, nem erótica: sinistra.

Eles chamaram o conjunto das obras expostas de “Aporia”, traduzível por “impasse”, “beco sem saída”. Esse é o efeito desse corpo indefeso e inacessível. A anti-bela adormecida dos retratos não está à espera nem de um príncipe que a beije, nem de um voyeur que a contemple. Ela tem seu corpo fechado, mas permanece em poses de disponibilidade, representando um paradoxo de passividade interditada.

No local, travei um diálogo com uma moça que trabalhava ali. Perguntei de quem era a obra. Ela entendia que eu indagava quem era a moça e dizia não saber informar a identidade da modelo. Insisti, e ela também. Após o reiterado mal-entendido, compreendi que ela não aceitava o anonimato da retratada. Afinal, se era seu corpo, por que não seria ela identificada? Ficamos nessa conversa de surdos porque ambas nos angustiamos frente às fotos. Uma mulher cheia de rolhas é um doloroso retrato da passividade feminina. Ele nos mostra que fomos educadas para estar sempre alheias ao mundo e disponíveis para o uso.

Psicanalista*


RUTH DE AQUINO
17/07/2015 - 22h35 - Atualizado 17/07/2015 22h39

Um dia da caça, outro do caçador

A democracia brasileira vive um momento de ouro, porque não poupa ninguém

A cena dos três carros de luxo, uma Ferrari, um Lamborghini e um Porsche, apreendidos da casa do ex-caçador de marajás e ex-presidente impedido Fernando Collor, é um bálsamo para todos que sempre se sentiram meio quixotes neste país, em luta contra moinhos de vento.

É compreensível que empresários bilionários ostentem brinquedos assim e se sintam mais machos enfileirando na garagem suas máquinas potentes e incompatíveis com o trânsito brasileiro. Mas, e quando se trata de políticos? Só muita cara de pau, complexo de inferioridade e problemas de caráter explicam essa obsessão em um congressista ou homem público, num país com tantos desafios básicos e graves.

O valor total dos três carros, estimado em cerca de R$ 5 milhões, é detalhe. Milhões e bilhões são jogados pelo ralo da corrupção todo dia. Ninguém consegue acompanhar o montante das propinas na Operação Lava Jato. Mais reveladora é a dívida de Collor com o IPVA das três máquinas, R$ 343.480,48. Quem caiu por um Fiat Elba sujismundo deveria ter virado colecionador de tudo, menos de carros. Sempre faltou visão a esse político afeito a surtos arrogantes e a golpes baixos.

Collor reagiu como... Collor. Com bravatas e chiliques. O senador se disse “ultrajado” com a apreensão em sua propriedade, a Casa da Dinda. “Estamos no terreno do vale-tudo!” Chamou os investigadores de “facínoras que se dizem democratas”.

Policiais federais, com mandados de busca e apreensão assinados por ministros do Supremo Tribunal Federal, levaram também material da emissora de TV do senador, em Maceió, repetidora da Globo. Era madrugada de terça-feira. A ação, acatada pelo STF a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi batizada de Politeia, que seria uma república grega, caracterizada pelos direitos civis, pela ética e pela virtude.

Com uma biografia pontuada de episódios ainda obscuros, Collor foi redimido por seus pares e é senador pelo Partido Trabalhista Brasileiro – o PTB fundado por Getúlio Vargas em 1945. E pensar que Collor quase foi presidente da CPI da Petrobras, indicado pelos governistas.

Lula elogiou Collor como um dos mais leais de sua base, em 2009. Abraçaram-se num palanque de Alagoas, em Palmeira dos Índios. Lula disse que tanto Collor quando Juscelino Kubitschek tinham sido presidentes que viajavam para “sentir o drama do povo”. O que Lula dirá agora? Nada. Até porque muito ainda deve surgir sobre a relação íntima de Lula com a Odebrecht.

Os que mais se comoveram com o sentimento de ultraje de Collor foram o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Ambos são alvos da Lava Jato, acusados de receber propinas robustas de fornecedores da Petrobras.

O show de Collor foi roubado por seus irmãos camaradas do PMDB, Cunha e Renan. Se pensássemos num filme que resumisse os protagonistas da semana, poderia ser Os três patetas, na versão mais carinhosa, ou Os irmãos metralha, na versão mais dura. Dos três, Collor é o mais inofensivo, o menos perigoso, por não passar de figurante canastrão no grande palco político.

“É tudo vingança do governo. Parece que o Executivo quer jogar sua crise no Congresso”, disse o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Cunha foi acusado pelo lobista de empreiteiras e delator da Lava Jato Júlio Camargo de receber US$ 5 milhões diretamente dele, em 2011. O Brasil assistiu ao depoimento, gravado em vídeo pela Justiça Federal. Cunha afirmou que o procurador-geral Janot “obrigou Camargo a mentir”.

Os delatores acusam Cunha de intimidação. Dizem ter medo dele. Não são os únicos. A figura messiânica, as manobras polêmicas e as posições extremamente conservadoras de Cunha mostram a face pior do PMDB. Até recentemente, Cunha era fã da delação premiada e da Lava Jato. Agora, diz que o Executivo usa a operação “para constranger o Legislativo”.

A tropa de choque do PMDB em torno de Cunha formou-se rapidamente. “Essas coisas” atrapalham o país, “abalando a natural tranquilidade que sempre permeou” o Brasil, disse o vice-presidente Michel Temer. Renan Calheiros afirmou que o país passa por “uma crise institucional”. “Vivemos um momento grave, preocupante”, porque o Brasil pode estar “ferindo de morte a própria democracia”, disse o presidente do Senado.

É curioso. O Brasil, com certeza, tem outra opinião. A democracia vive um momento de ouro porque não poupa ninguém. Não há lugar na Politeia para Collor e uma cambada de homens públicos brasileiros. Nossa República dos rabos presos precisa ser refundada e começo a crer nessa possibilidade. Você compraria um Lamborghini usado de Collor, Cunha ou Renan?


18 de julho de 2015 | N° 18230 
NÍLSON SOUZA

PÉS NA LAMA

Somos mesmo criaturas contraditórias.

Devíamos amar essa chuva que desabriga pessoas, inunda vilas e cidades, umedece as roupas, as paredes e as almas dos vivos. Mas não. Ficamos todos entristecidos pelas famílias expulsas de suas casas, com suas crianças chorosas e seus animais de estimação. Também me comovo com isso. Mas a culpa não é da chuva nem de São Pedro e tampouco dessa pobre gente que mora em áreas suscetíveis de alagamentos, na maioria dos casos por não ter para onde ir. Fácil demais, também, é responsabilizar as autoridades e os próprios cidadãos, pelo mau hábito de lançar lixo em qualquer lugar, o que causa entupimento de esgotos e o assoreamento dos rios.

Então, de quem é a responsabilidade?

Da natureza é que não é. Chove desde o início dos tempos e é essa bênção que mantém a vida sobre o planeta. A chuva deveria ser sempre bem-vinda. O problema somos nós, todos nós, não apenas os moradores de áreas de risco. Não queremos mais sujar os pés. Isso mesmo, os alagamentos nas cidades – asseguram geólogos e urbanistas – devem-se principalmente à impermeabilização de extensas áreas. 

É bom trafegar pelo asfalto, é ótimo caminhar em dia de chuva sem pisar na lama, é confortável não ter que varrer as folhas de árvores dos pátios e das calçadas. Mas o preço é este: quando a água chega, não tem como se infiltrar no solo, não tem raízes que a conduzam ao interior da terra. Então, se acumula, provoca deslizamentos, invade ruas, praças e casas. Não há sistema de drenagem que dê conta.

Nossas cidades impermeáveis são um convite às inundações.

Nem é preciso chover durante quatro anos, onze meses e dois dias, como ocorreu na emblemática Macondo de García Márquez. Basta uma semana de tempo feio, como esta que está terminando, para todos amaldiçoarmos a bendita chuva.

O papa Francisco, esse surpreendente argentino que conjuga humildade e sabedoria, divulgou há poucos dias uma encíclica sobre o meio ambiente e alertou para a iminência de guerras pela água. Se continuarmos a consumi-la irresponsavelmente, em breve estaremos brigando por ela.

Concluo, pois, esta pregação no molhado com aquele provérbio chinês que manda acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão. Pise na lama, mas bendiga a chuva.


18 de julho de 2015 | N° 18230 
DAVID COIMBRA

Como ler esta página até o fim

Li que a capacidade de concentração dos jovens humanos de hoje é menor do que a de um peixe de aquário. Achei sensacional, porque, veja: os cientistas conseguiram medir a capacidade de concentração de um peixe de aquário. Deve ter sido bem difícil.

Pois, afinal, quais são os interesses de um peixe de aquário? O que pode lhe capturar a concentração e mantê-la detida por mais tempo do que um adolescente Homo sapiens leva, por exemplo, para ler um texto de jornal?

Bem, todos os seres vivos temos, basicamente, três interesses, que Freud definiu como “casa, comida e sexo”. Por “casa”, entenda “segurança”, e, por comida e sexo, entenda comida e sexo. Então, um peixe de aquário se interessa por aquela ração que as pessoas jogam na água para eles, por alguma pedrinha onde ele vá se recolher na hora de dormir e, é claro, por peixas.

As pessoas subestimam os peixes, achando que eles não fazem sexo. Pois fazem. E digo mais: foram os peixes que inventaram o sexo, há pouco menos de 400 milhões de anos. Mais especificamente, foi um peixe lá da Escócia que começou a fazer sexo. Por que um peixe escocês? Por que ele decidiu investir nessa mudança radical de hábitos? São perguntas que os cientistas, tão espertos, haverão de responder.

Tais questões são fundamentais. Pense: antes do peixe escocês, os bichos largavam esperma na água, não havia o acasalamento propriamente dito. Menos divertido, sim, mas muitíssimo menos complicado. Se não precisássemos fazer sexo, 95% dos nossos problemas estariam resolvidos. Passaríamos os dias bebendo chope com os amigos, jogaríamos futebolzinho, veríamos as partidas do Brasileirão e, o mais importante, não existiriam comédias românticas, nem música sertaneja, você não teria de saber dançar, não teria de ir à balada, não teria de se casar, não teria sogra, não teria de comprar presentes no Dia dos Namorados, você só precisaria largar seu esperma por aí, a fêmea recolheria, reproduziria a espécie, e pronto. Vamos nos divertir!

Não sei por que aquele peixe escocês resolveu engrouvinhar tudo.

De qualquer forma, o fato é que aderimos a essa história de sexo e, pelo sexo, formamos famílias, aceitamos nos estabelecer, construímos a civilização e, com ela, adquirimos novas necessidades. Não podíamos mais apenas coletar ou caçar para comer, tínhamos de plantar e, assim, inventamos arados e, depois, colheitadeiras. Não podíamos mais depender só das pernas para nos deslocarmos e, assim, inventamos a roda e, depois, carros e, depois, aviões. 

Não podíamos só falar pessoalmente para nos comunicarmos e, assim, inventamos telégrafos e, depois, telefones e, depois, celulares e, depois, celulares com internet, até que, agora, por causa dos celulares com internet e da rapidez com que as informações chegam a eles, os jovens humanos não conseguem ficar concentrados por mais tempo do que um peixinho dourado fica observando o nadar rebolado daquela peixinha dourada serelepe.

Como resolver isso? Como fazer com que um jovem leia uma crônica de 40 linhas até o fim? Não adianta lutar contra o Facebook, o Instagram e o Whats. Melhor acabar de uma vez por todas com o sexo.


18 de julho de 2015 | N° 18230 
PALAVRA DE MÉDICO - J.J. CAMARGO

Os que não conseguem morrer

Que motivações tornam tão diferentes os indivíduos que buscam felicidade pessoal?

Morrer, literalmente, é de um primarismo e de uma pobreza que contrastam com a engenhosidade e a exuberância dos sonhos concebidos naquela fase da vida em que fantasiamos ser o que provavelmente nunca seremos. Superada essa etapa de projetos irrealizáveis e promessas falaciosas, os modelos da vida real começam a se esboçar com diferentes perspectivas. E todos, de uma maneira mais ou menos elaborada, tentam sublimar a rudeza da morte e seguir vivendo, apesar da ameaça.

Excluída a legião tristemente majoritária dos que gastam a vida tendo como único alvo a sobrevivência – e desses não se pode exigir mais do que tristeza e resignação –, emergem dois grupos de pessoas mais equipadas do ponto de vista intelectual e econômico, ou seja, aquelas que têm condições de realmente planejar o que querem ser. Evidentemente, se vão conseguir ou não dependerá de uma série imensa de fatores aleatórios, como inteligência, iniciativa, perspicácia, ambição, oportunismo, coragem e, naturalmente, uma pitada de sorte. Esses ingredientes que dão à vida o delicioso colorido do imponderável.

Mas não é dessas dificuldades e vicissitudes que quero me ocupar. Pretendo, antes, rever as motivações que tornam tão diferentes os indivíduos que, partindo do mesmo ponto de largada e com os mesmos equipamentos, escolhem caminhos tão diversos na busca da realização e da felicidade pessoal.

Há os egocêntricos, que crescem enclausurados na autossuficiência, constroem grandes fortunas, esmagam os concorrentes, odeiam qualquer Segundo Caderno, esbanjam vaidades discutíveis, casam com mulheres bonitas e fúteis, montam sofisticadas academias em casa e, ainda assim, engordam muito, morrem antes da velhice e promovem velórios silenciosos, rodeados de amigos falsos e parentes interesseiros. Alguns poucos, constrangidos pelo estigma do egoísmo, fazem doações espalhafatosas e nem tentam disfarçar a expectativa de reconhecimento. Mas, mesmo na homenagem, não conseguem dissimular a falta que faz a espontaneidade. A avareza é uma tatuagem com tinta colorida, dolorosamente irreversível. Para esse grupo, a morte é a única terapia eficaz, compreensivelmente acelerada pelo esquecimento.

No contraponto, estão as criaturas especiais que nasceram para outro tipo de façanha: a de modificar para melhor a vida dos outros. Alguns desses até ganham dinheiro, não porque o perseguiram, mas como prêmio por sua competência. Para esses tipos, não há espaço para ostentação, nem tolerância com as mediocridades laureadas. 

São modestos e austeros, detestam exibicionismo e estão sempre inconformados por terem feito menos do que conceberam realizável. Não se queixam de fracassos eventuais e até usam deles para se fortalecerem ainda mais e esticar a corda do possível. São estoicos na doença e comovem seus pares pela bravura e pela resiliência. Quando a morte física chega, parece que não. Há tanto para relembrar e tantos projetos energizados pela contagiante gana de viver, que eles serão perpetuados, pelo menos até que morra o último felizardo agraciado pela ternura do convívio.

Li o obituário do Silvio Antonio Zanini com a leveza de quem tinha convivido e testemunhado, pela vida afora, a doce passagem de um desses tipos imortais. E, depois que chorei, senti vontade de melhorar.



18 de julho de 2015 | N° 18230 
CLÁUDIA LAITANO

Pai herói

Quando meu pai morreu, há exatos 15 anos, pensei em registrar cada história que lembrava dele para que nada se perdesse. Seria como uma coleção de retratos, uma cápsula do tempo para legar a netos e bisnetos – os encarregados involuntários da missão de transportar seu nome, genes e memórias para o futuro.

Redigi mentalmente muitos inícios diferentes. Começaria na infância, nas lembranças mais antigas, os cílios dele roçando nos meus no delicioso “beijo de olhinho” que eu repetiria mil vezes, anos depois, com a minha própria filha? Ou tentaria reinterpretá-lo, como adulta? Como conciliar o olhar da infância com a perspectiva da maturidade? E o que eu realmente sabia sobre meu pai? O que um filho, qualquer filho, pode dizer sobre o pai sem falar ao mesmo tempo sobre si mesmo?

O grande acontecimento literário do ano, nos EUA, é um livro que traz à superfície algumas dessas questões. Lançado na última semana, Go Set a Watchman, da escritora Harper Lee, 89 anos, retoma os personagens e o cenário de To Kill a Mockingbird (no Brasil, O Sol é para Todos).

Escrito na mesma época, provavelmente antes, esse novo romance autobiográfico tanto pode ser lido como uma versão inicial do texto publicado quanto como um desdobramento da história narrada no best-seller de 1960 – em To Kill a Mockingbird, a narradora é uma menina, Scout (apelido dado pelo pai), personagem que em Go Set a Watchman é a jovem Jean Louise, que retorna já adulta para a cidade natal, Maycomb, onde revê o mundo da infância, o pai inclusive, de forma totalmente diferente.

O que chocou os leitores americanos foi o desmonte da figura heroica de Atticus Finch. O pai honrado e corajoso do primeiro livro, que aceita defender um negro de uma acusação de estupro, nos anos 30, mesmo enfrentando ameaças e o preconceito da pequena cidade, torna-se um velho acuado e racista.

Qual o verdadeiro Atticus Finch? O do livro que Harper Lee escolheu lançar ou este outro, que chega aos leitores quando já há dúvidas de que a autora desejava publicá-lo? O Atticus que aprendemos a amar (no cinema, com o rosto e a fortaleza moral de um Gregory Peck) fez sucesso exatamente porque todos nós, adultos e crianças, precisamos construir heróis para admirar? É possível amar sem admiração incondicional? Seremos cínicos demais, em 2015, para acreditar em homens 100% íntegros? Todas essas dúvidas devem permanecer, a partir de agora, atreladas para sempre aos dois livros que Harper Lee escreveu.

Não redigi o tal retrato definitivo do meu pai. Talvez escreva um dia – não o relato definitivo, mas o possível. O certo é que a imagem que tenho dele não ficou congelada naquela manhã fria de julho em que nos despedimos com um beijo carinhoso, mas sem solenidade, como se fosse uma terça-feira qualquer de inverno e não a última vez em que nos veríamos. A memória do meu pai permanece e muda o tempo todo comigo – como a imagem do meu próprio rosto no espelho.

sexta-feira, 17 de julho de 2015


Jaime Cimenti

Essa tal felicidade

Nascimento, amor, sexo, pai, mãe, irmãos, Deus, política, dinheiro, morte, outra vida, Facebook e felicidade, talvez os temas eternos mais importantes que tomam conta da cabeça da gente depois que se enche o estômago, arruma um teto, um trabalho e outras coisas materiais. Para o bem e para o mal, aliás, quem precisa correr atrás e anda muito ocupado com trabalho e sobrevivência não tem muita disponibilidade para divagações e outras viagens. Mas é preciso pensar em felicidade, sempre foi.

Tristeza não tem fim / felicidade sim são os versos da linda canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes que a gente prefere não viver na real. Buscar a felicidade segue uma das principais metas. Na Grécia antiga, felicidade era eudaimonia (bom espírito), no Budismo, felicidade é tema central, Cristo colocava a felicidade no amor, Maomé na caridade, Freud achava que a gente consegue ser feliz em parte. Por aí. Hoje, muita gente coloca a felicidade na busca das coisas materiais, do sucesso, na apresentação só de imagens vitoriosas nas fotos das redes sociais, muitas vezes, infelizmente, para provocar inveja nos outros. Felicidade virou, tipo assim, obrigação.

Pensando bem, pensando melhor, ótimo é ser feliz sem motivo e quando o caminho para ela, em si, já é a felicidade. Fazer a alegria dos outros, curtir a amizade feliz que é o amor que não acaba, ver que a vida está valendo a pena, gostar do que se tem, amar, ser amado, ser caridoso, respirar fundo e meditar quando a barra pesa, tudo isso é felicidade. Tudo bem, grana acalma os nervos, dizem os italianos, mas pequenas coisas e gestos às vezes pesam mais.
Na última Veja, nas páginas amarelas, tem entrevista interessante com o guru inglês da felicidade, o professor Paul Dolan, da London School of Economics. 

Depois de anos de pesquisas, ele, em síntese, diz que é bom fazer ginástica, unir prazer com propósito, repetir no cotidiano o que nos dá prazer, arranjar uns pilas, fazer o que realmente nos interessa e não aos outros e se relacionar bem com os colegas de trabalho, a família e os amigos. Paul enfatiza que pessoas mais felizes são mais produtivas, mais saudáveis, ficam menos doentes, ajudam mais os outros e vivem mais. Felizes vivem até seis anos a mais. Bom para as pessoas, as empresas, os governos, os planos de saúde, para todos, enfim. Paul ensina que os mais jovens e os mais velhos são, em média, os mais felizes. Verdade. E crianças e velhos, a gente sabe, adoram a mesma coisa: chocolate.

Se adaptar às situações, aos locais e às pessoas, ter objetivos, se relacionar bem, ter identidade étnica, ajudar os outros, buscar apoio na família e nos amigos, gostar de si mesmo, ter autoconfiança, pertencer a um grupo, gostar do que se tem, sempre é bom lembrar, traz felicidade. Por vezes não é fácil, mas o caminho precisa ser construído. E de modo pessoal, individual, criativo.
Dalai Lama e o Papa Francisco são exemplos de líderes que passam mensagens positivas e conteúdos que ajudam as pessoas a serem mais felizes.

A propósito...

Quando Carlos Drummond de Andrade - para muitos, nosso maior poeta - completou 75 anos de idade, a repórter da Globo perguntou, à queima-roupa: o senhor é feliz? Drummond, que nunca foi muito de perguntas e entrevistas, respondeu: "olha, minha filha, estou vivo." A vida, a primeira, a maior felicidade, a essência. O resto é construção, caminho, lágrimas e sorrisos, acertos e erros, estações, partidas e chegadas. É como disse o outro, um rasgar-se e costurar-se contínuo. E que a gente guarde eternamente os momentos felizes. Já será muito. Aí, quem sabe, a felicidade não vai ter fim, ao contrário dos versos, que devem ficar só na canção.

Jaime Cimenti


Dois irmãos e uma tragédia

Eu te darei o sol (Editora Novo Conceito, 384 páginas, R$ 34,90), da escritora, agente literária, poetisa e acadêmica eterna Jandy Nelson, formada pelas universidades de Brown, Cornell e Vermont, foi um dos livros mais premiados de 2014 e deste ano nos Estados Unidos. Entre as 10 láureas, constam o Prêmio Micheal L. Printz 2015 e a indicação para a lista dos notáveis do The New York Times de 2014. A autora, atualmente, vive em São Francisco, gosta de correr livremente pelo parque, de cuidar de árvores e é também autora do best-seller O céu está em todo lugar.

Eu te darei o sol é, em síntese, a singular, improvável e ardente história de dois irmãos inseparáveis cujas vidas são dilaceradas por uma tragédia. Jude e seu irmão gêmeo, Noah, são inseparáveis, até uma tragédia mudar isso. Depois do acontecimento, eles mal se falam e estão apaixonados por pessoas que não poderiam amar. O amor mostra-se bem complicado, e Noah e Jude são gêmeos absolutamente diferentes que se completam e enfrentam o mundo juntos.

O romance vai muito além de ser apenas uma ótima obra de ficção Young adult, pela força da narrativa, das palavras e pela própria premiação que recebeu. A narrativa de tirar o fôlego inicia com uma luta entre Noah e dois sociopatas que reinam na vizinhança.

Aos 13 anos, o solitário Noah é um gênio da arte que desenha sem parar. Em silêncio, está se apaixonando pelo vizinho carismático. Enquanto isso, a espevitada Jude segue em busca de adrenalina e de batons chamativos. Ela fala por si e pelo irmão. Noah e Jude competem pela afeição dos pais, pela atenção do garoto que acabou de se mudar para o bairro e por uma vaga na melhor escola de arte da Califórnia. Mal-entendidos, ciúmes e uma perda trágica os separam definitivamente. Trilhando caminhos distintos e vivendo no mesmo espaço, ambos lutam contra dilemas que não têm coragem de revelar a ninguém.

Os primeiros anos da história são contados por Noah, os últimos ficam por conta de Jude. O que os gêmeos não percebem é que cada um deles sabe apenas a metade do que aconteceu. Se eles pudessem voltar um para o outro, teriam a chance de refazer o seu mundo.

A narrativa mostra que as pessoas mais próximas de nós são as que mais têm o poder de nos machucar. A história vai revelando os caminhos distintos que os gêmeos trilham, mesmo vivendo no mesmo espaço, e mostra os dolorosos dilemas que as pessoas não têm coragem de revelar a ninguém.

A narrativa abre espaço também para a capacidade da arte de curar, mas ensina a aprofundar o significado da arte, a encontrar nossos próprios reflexos dentro dela.



17 de julho de 2015 | N° 18229 
DAVID COIMBRA

O piano

Tem alguém que toca piano aqui perto de casa. Essa pessoa mora num apartamento térreo, com uma janela que dá para a calçada. As cortinas ficam fechadas e, atrás delas, esse homem (ou mulher, sei lá) se distrai ao piano a cada fim de tarde. Não é um exercício, não é um músico estudando, porque detrás daquelas cortinas não voam pedaços de melodia, o que vem de lá são composições inteiras, sempre melancólicas, sempre levemente adocicadas, sempre ao entardecer.

Quem será essa pessoa que toca piano quando os dias vão embora, aqui perto de casa? Já imaginei que talvez seja um velhinho. Ele nunca abre as cortinas, nunca deixa o sol entrar na sua casa porque ainda ceva o luto do amor perdido na juventude. À noitinha, hora da nostalgia, ele pensa nela e repete chorando as músicas que marcaram seus dias de paixão.

Depois achei que isso era uma idiotice romântica. Poderia ser bem o contrário. Poderia ser um homem maduro, um solteiro profissional, de hábitos sólidos e caros. Todos os dias, depois do trabalho como executivo, ele chega em casa, fuma um cubano, senta-se ao piano e derrama a melodia lânguida no ouvido de uma beldade que está aninhada como um angorá no sofá, aos suspiros. Algo como O pecado mora ao lado, o clássico de Billy Wilder em que ninguém senão Marilyn Monroe ouve Tom Ewell interpretar Rachmaninoff ao piano.

Rachmaninoff. Cada vez que o cito lembro que ele, além de compositor de obras poderosas, tinha mãos enormes, capazes de alcançar notas separadas por 30 centímetros no teclado do piano.

Não sei se alguma vez esse homem misterioso tocou Rachmaninoff para suas conquistas, mas talvez ele nem seja um homem, talvez seja uma mulher. Isso! Conheci, muito tempo atrás, uma mulher belíssima que tinha por hábito tocar piano completamente nua. Por que não haveria uma semelhante no Hemisfério Norte?

Ah, ela é uma ruiva de pernas longas e olhar esverdeado e, antes de se acomodar à banqueta, livra-se de todas as roupas, de tudo o que se interpõe entre ela e sua música e, em seguida, nua em pelo, natural como um bicho, começa a produzir sua melodia, e se deixa envolver pelo som, e todo o seu corpo sente a harmonia, e a mulher e a música tornam-se uma coisa só, até o clímax, a pequena morte do gozo, que vem com a última nota, e ela cai ao chão, exausta, soluçando, feliz...

Ou pode não ser nada disso. Pode ser um adolescente espinhento que é obrigado a tocar para os amigos dos pais que lhe pagam a Faculdade de Música. Quem sabe? Nunca vi ninguém naquele apartamento. Mas, uma tarde, ao passar por ali, ouvi a música e parei. Era tão bonito. Encostei-me à caixa coletora dos correios e fiquei ouvindo. Ouvi por um minuto ou dois. E aí a música cessou. Foi interrompida bruscamente, entre duas notas. Achei estranho. Esperei um pouco. Olhei para a cortina. Pensei tê-la visto se mexer. Pensei que uma fresta havia sido aberta e que um olho, um único olho, me espiava da escuridão. Estremeci. 

Decidi ir em frente. Dei dois passos vacilantes e, então, de lá, da sala escura, brotou um som mais contundente do que ouço todas as tardes. Um conjunto de notas que não consegui distinguir, mas senti que eram robustas. Seria algo agressivo, um Beethoven revoltado com a surdez? Seria um Wagner venerado pelos nazistas? Ou seria, o mais ameaçador de todos, Chopin, com sua Marcha fúnebre? Não esperei para descobrir. Fui embora rápido, sem olhar para trás. Porque a música, quando quer, também pode ferir.


17 de julho de 2015 | N° 18229 
MOISÉS MENDES

Pesquisas: pra quê?

Neste exato momento, alguém está fazendo uma pesquisa de opinião. Se não fossem os pesquisadores, não ficaríamos sabendo que apenas 5% dos brasileiros confiam nos partidos. Que 71% dos moradores da Capital são contra o cercamento da Redenção. Que 80% da população apoia a pena de morte para traficantes.

Pesquisa-se tudo no Brasil e no mundo. Uma pesquisa informou aos ingleses que 52% das londrinas preferem comer chocolate a fazer sexo. Já nos Estados Unidos, a Universidade de Kentucky concluiu que, quanto mais espiritualizada uma americana, mais sexo ela faz.

Alguém deveria fazer uma pesquisa para saber por que o brasileiro leva as pesquisas tão a sério. Eu já fui vaiado aqui na Redação da Zero por ser defensor da seriedade e da utilidade das pesquisas eleitorais.

Mas está cada vez mais difícil defender pesquisas eleitorais. Principalmente agora, quando decidiram fazer, em sequência, pesquisas sobre as eleições de 2018. Teremos eleições daqui a três anos e meio, mas os institutos já fizeram pesquisas para saber em quem o brasileiro votaria. Aécio vence Lula nas duas, se as eleições fossem hoje.

Em disputas presidenciais, os tucanos só têm vencido em pesquisas, e desde que sejam feitas fora de época. O que isso significa? Por que se faz uma pesquisa mais de mil dias antes do evento a que se refere?

As pesquisas são apenas simulações singelas e inocentes de preferências fora de época, ou querem dizer algo mais? São produtos deste nosso tempo estranho? Induzem a pensar que haverá uma eleição agora?

Muitos já lembraram, e vale a pena lembrar de novo, que certos pregadores da ordem dissimulam suas posturas suspeitas até que uma desordem se apresente como a nova ordem, como aconteceu tragicamente tantas vezes.

Golpes acontecem sob quaisquer pretextos (e sem necessariamente mobilizar militares) e sob as mais variadas formas, desde que bem fomentados e com um bom número de adesistas de plantão. Por isso, as pesquisas, as sérias, as inúteis e as dissimuladas, também devem permitir que se questionem suas muitas intenções, ou estariam, acima do bem do mal, imunes a críticas e desconfianças.

Algum instituto poderia mandar seus pesquisadores às ruas (e a lugares fechados) com essa pergunta: você se considera golpista? As alternativas: 1) sim; 2) não; 3) talvez; 4) depende da turma; e 5) prefiro esperar para ver quem adere primeiro.

quinta-feira, 16 de julho de 2015



16 de julho de 2015 | N° 18228
ARTIGOS - VALDECI OLIVEIRA*

EM DEFESA DA SAÚDE PÚBLICA

A cada semana, a saúde pública do Rio Grande do Sul agoniza per igosa mente mais, diante da política de desmobilização e redução das funções públicas do Estado. Adoecer, requisitar exames ou fazer consultas básicas, no momento, é nada bom para quem depende da rede de atenção básica ou da rede hospitalar gaúcha. Em média, o governo Sartori cortou mais de 20% dos recursos destinados a esse – outrora – essencial setor. 

O impacto foi imediato. Algumas cidades suspenderam os partos. Desde janeiro, os municípios deixaram de receber cerca de 70% dos recursos pactuados. Os hospitais filantrópicos perderam o incentivo financeiro que recebiam para atender pelo SUS. Sem alternativa, deram início a demissões e à paralisação de serviços.

Na ponta da rede, onde está o cidadão, acontecem mortes. Pessoas estão perdendo vidas por falta de atendimento. Coincidência ou não, ao mesmo tempo em que o “bisturi” age no orçamento da saúde, ganham terreno, no RS, a dengue, a meningite e outras doenças.

Contraditoriamente, o mesmo governo que é implacável em cortar recursos essenciais, é sensível à manutenção do questionável Tribunal de Justiça Militar. No Brasil, a estrutura só existe aqui e em outros dois Estados. Sua extinção – o serviço poderia ser absorvido pelo Tribunal de Justiça – geraria economia anual de R$ 40 milhões. Mas a base do Palácio Piratini na Assembleia não deixou prosperar o fim do TJM, proposto pelo PSOL com apoio das bancadas do PT e do PC do B, entre outras.

Nesse cenário, municípios e hospitais recorrem à Justiça. O gestor sinaliza, politicamente, que o caos é bem-vindo, já que alimenta discursos contra o serviço público, faz vacina a outros reclames e abre portas para as privatizações. Atenta ao congelamento do diálogo, a Assembleia Legislativa busca, em parceria com outras instituições, a construção de alternativas. A decisão de criar a Frente Gaúcha em Defesa da Saúde Pública consolida e unifica a ação de parlamentares e da sociedade civil junto ao governo. Arruinar a saúde do Rio Grande não é bom para a situação, para a oposição e muito menos para o usuário do SUS.

*Deputado estadual (PT), presidente da Comissão de Saúde e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa


16 de julho de 2015 | N° 18228 
DAVID COIMBRA

Batman x Super-Homem

Batman e Super-Homem vão se enfrentar em um filme do ano que vem. Isso acabaria acontecendo algum dia. Qual menino não se perguntou quem venceria, numa luta entre eles? E qual não respondeu que seria o Super-Homem? Afinal, o Super-Homem voa, e o Batman no máximo salta longe; o Super-Homem tem aquela visão de raio X que corta uma porta de aço ao meio, e o Batman vai precisar de óculos quando chegar aos 50; o Super-Homem detém uma locomotiva com os braços, e o Batman não seguraria o carro do Pato Donald. O Super-Homem tem mais poderes. Óbvio.

Mas existe a criptonita.

Ah! Você não se lembrou da criptonita! E o Batman é um cientista, é bem inteligente, pode derrotar o Super-Homem na astúcia.

Não leve livre, portanto. Clássicos são imprevisíveis.

Durante muito tempo, no Brasil, foi disputado o clássico Chico x Caetano. O Caetano canta melhor; o Chico sempre encantou as mulheres com os olhos verdes e o ar tímido. O Caetano faz uma poesia mais inquieta, mais rebelde, às vezes experimental; o Chico é mais regular. O Chico, como intelectual, toma posição sem muito comprometimento; o Caetano é contestador, atuante e provocador por natureza.

O Caetano ainda está vivo, como os Stones; o Chico nem tanto, como os Beatles. Só que, entre Stones e Beatles, sou Beatles. Beatles são Mozart, Stones são Beethoven. Beatles são Pelé, Stones são Garrincha. Reconheço a grandeza incomparável de Pelé, mas simpatizo mais com a genialidade brejeira de Garrincha, com sua alegria em iludir o adversário, mais do que ganhar o jogo, porque a vida não é ganhar o jogo, a vida é aproveitar o jogo. O brasileiro sempre foi mais Garrincha do que Pelé, sempre preferiu sorver o jogo a vencê-lo, mas a dor das derrotas seguidas foi tornando-o ansioso pela vitória. De uns tempos para cá, o brasileiro quis ser Pelé, e não é, nunca será. Aí a ansiedade tornou-se amargura, e o brasileiro deixou de ser Garrincha, sem virar Pelé; transformou-se em Dunga.

Ah, suaves os tempos em que todos éramos meninos nos empolgando com duelos de ficção. Ou nem tanto de ficção e nem tanto duelos de meninos. Loiras ou morenas? Vinho ou cerveja? Verão ou inverno? Azul ou vermelho? Você faz suas escolhas, mas não significa que não as trairá. Podemos mudar de ideia, embora tenhamos nossas convicções pétreas. É evidente que O Poderoso Chefão é o melhor filme de todos os tempos. É evidente que Paris tem a mais bela arquitetura, e o Rio, a mais bela paisagem. 

É evidente que Marilyn Monroe é o Pelé das atrizes de cinema, mas tenho uma queda por Jacqueline Bisset, uma mulher discreta, elegante, vaporosa e superior, como tem de ser uma grande mulher. Jacqueline Bisset não grita, Jacqueline Bisset não se altera, Jacqueline Bisset mal ri. Jacqueline Bisset não vai, os outros vêm a ela. Ela não é um Pelé, nem um Garrincha, muito menos um Maradona; é um Zinedine Zidane que não dá cabeçada no peito do zagueiro, um Beckenbauer que não conhece a cor da grama por nunca ter olhado para baixo para jogar, um Didi que se orgulha de jamais ter pisado na bola. 

Quem poderia enfrentar Bisset? Talvez Deneuve. Talvez. Mas Deneuve é mais prosa e Bisset é mais poesia, embora eu prefira a prosa à poesia, prefira a história bem narrada à ficção elaborada, prefira um Durant a um Fitzgerald, um Ceram a um Grass, se bem que dos alemães sou mais Remarque, que mistura as duas, realidade e ficção, que foi de onde parti, da ficção: Batman versus Super-Homem. Quem vencerá? Isso não nos inquieta mais, a nós, brasileiros. Não somos mais meninos. Eram bons os nossos tempos de meninos.


16 de julho de 2015 | N° 18228 
L. F. VERISSIMO

Epa

No filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, do Stanley Kubrick, astronautas descobrem na Lua (ou era em Marte?) um misterioso monólito, de origem desconhecida. Depois fica-se sabendo que o monólito fora posto ali como uma espécie de alarme.

Quando exploradores da Terra o descobrissem, seria o sinal de que nossa civilização tinha os meios para invadir o espaço e se tornava uma ameaça para as civilizações extraterrenas que nos estudavam de longe desde que o primeiro primata acertara a primeira cacetada na cabeça de outro, e sabiam do que nós éramos capazes. A descoberta do monólito era um aviso: atenção, a barbárie vem aí, disfarçada de conquista científica.

Às vezes, imagino como seria ser um judeu na Alemanha dos anos 20 e 30 do século passado, pressentindo que alguma coisa que ameaçava sua paz e sua vida estava se formando mas sem saber exatamente o quê. Esse judeu hipotético teria experimentado preconceito e discriminação na sua vida, mas não mais do que era comum na história dos judeus.

Podia sentir-se como um cidadão alemão, seguro dos seus direitos, e nem imaginar que em breve perderia seus direitos e eventualmente sua vida só por ser judeu. Em que ponto, para ele, o inimaginável se tornaria imaginável? E a pregação nacionalista e as primeiras manifestações fascistas deixariam de ser um distúrbio passageiro na paisagem política do que era, afinal, uma sociedade em crise mas com uma forte tradição liberal, e se tornaria uma ameaça real? O ponto de reconhecimento da ameaça não era evidente como o monólito do Kubrick. Muitos não o reconheceram e morreram pela sua desatenção à barbárie que chegava.

A preocupação em reconhecer o ponto pode levar a paralelos exagerados, até beirando o ridículo. Mas não algo difuso e ominoso se aproximando nos céus do Brasil, à espera de que alguém se dê conta e diga “Epa” para detê-lo? Precisamos urgentemente de um “Epa” para acabar com esse clima.

Pessoas trocando insultos nas redes sociais, autoridades e ex-autoridades sendo ofendidas em lugares públicos, uma pregação francamente golpista envolvendo gente de quem você nunca esperaria, uma discussão aberta dentro do sistema jurídico do país sobre limites constitucionais do poder dos juízes... Epa, pessoal.

Se está faltando um monólito para nos avisar quando chegamos ao ponto de reconhecimento irreversível, proponho um: o momento da posse do Eduardo Cunha na presidência da nação, depois do afastamento da Dilma e do Temer.

quarta-feira, 15 de julho de 2015



15 de julho de 2015 | N° 18227 
FÁBIO PRIKLADNICKI

A ARTE DO OBITUÁRIO

Nem todos estão imediatamente prontos para reconhecer a beleza de um obituário, o texto jornalístico que faz o elogio de uma personalidade que deixa a vida para entrar na história. Claro, a morte não é uma coisa legal, menos ainda quando acontece com um familiar ou amigo. Mas o obituário é um reconhecimento a um legado no momento em que as pessoas próximas mais precisam de reconforto. O ofício de obituarista é extremamente exigente: precisa resumir – com “lucidez, precisão e objetividade”, segundo Gay Talese – feitos de uma vida, em um tempo geralmente exíguo.

Não é segredo algum que jornais do mundo inteiro têm um arquivo de obituários preparados com antecedência, mas também é verdade que frequentemente os jornais são pegos de surpresa. Na reportagem Sr. Má Notícia (1966), um perfil do obituarista Alden Whitman (1913 – 1990), do New York Times, Talese conta que o periódico nova-iorquino tinha, na época, 2 mil obituários em seu arquivo. Às vezes, a prática reserva situações inusitadas: um dos dois jornalistas que assinaram o elogio de Oscar Niemeyer no britânico Guardian, em 2012, havia morrido quatro anos antes.

Em Sr. Má Notícia (republicado no livro Fama & Anonimato), Gay Talese revela um antes inimaginado charme no ofício. Whitman, o obituarista perfilado, é o estereótipo de um jornalista dos anos 1960: usa óculos de aro de tartaruga, fuma cachimbo e tem um bigode avermelhado, o que está novamente na moda hoje, por sinal. Talese conta como Joan, a futura esposa de Whitman que era 16 anos mais jovem que ele, ficou fascinada logo no primeiro encontro. Ele sabia de cor, por exemplo, a lista de todos os papas de trás para frente e de frente para trás.

Whitman era, sobretudo, um perfeccionista. Ficou frustrado com o obituário que escreveu do filósofo judeu Martin Buber, sobre quem não sabia praticamente nada – recorreu a um especialista. Sentiu-se uma fraude. No dia seguinte, voltou à redação esperando ser criticado. Em vez disso, ficou sabendo que diversos intelectuais de Nova York haviam telefonado para parabenizar o jornal. Whitman desconfiou de todos os elogios.

15 de julho de 2015 | N° 18227 
DAVID COIMBRA

Quem está certo entre alemães e gregos

A dívida da Grécia virou batalha ideológica. Se os gregos conseguirem dar o calote, a esquerda vence; se os gregos tiverem de pagar, quem vence é a direita. É isso mesmo?

A Alemanha é de direita? Então, quero que o Brasil também seja de direita. Os alemães vivem bem. Trabalham pouco, ganham muito, divertem-se como vereadores participando de seminário na Bahia.

Mas talvez não baste ser de direita para ter riqueza nem baste ser de esquerda para ter igualdade. Talvez seja mais complexo.

Li o livro do Thomas Piketty, economista francês de esquerda. É um livro que faz uma análise profunda para chegar a uma conclusão rasa. A proposta de Piketty para diminuir a desigualdade é a criação de um imposto sobre fortunas no mundo inteiro. Ora, ele vive numa Europa parcamente unificada, que enfrenta, de um lado, a ameaça de desagregação, e, de outro, a da invasão dos refugiados de países miseráveis da África e do Oriente Médio. Criar qualquer coisa que seja universal, neste mundo, é improvável; uma taxa, impossível. O próprio Piketty reconhece que sua ideia é sonhadora em excesso, para não dizer ingênua, mas ainda assim prefere defendê-la a trabalhar com a realidade.

Agora, falando sobre a dívida da Grécia, Piketty defendeu o não pagamento, alegando que a Alemanha teve suas dívidas perdoadas depois das duas guerras mundiais.

Sério? Comparar indenizações e dívidas de guerra com empréstimos contraídos em tempos de normalidade?

Piketty lembrou que a dívida alemã da I Guerra foi perdoada. Verdade. Foi perdoada 15 anos depois do Tratado de Versalhes, que, entre outras cláusulas punitivas, tirou todas as colônias da Alemanha, além de grande parte do seu território, limitou seu exército e obrigou o país a pagar pensões para as viúvas e órfãos das nações vencedoras.

Já na II Guerra, a Alemanha foi bombardeada, invadida e virtualmente destruída. Durante a tomada de Berlim, 2 milhões de alemãs foram estupradas pelos russos. O que sobrou do país foi dividido entre as quatro potências invasoras: União Soviética mandava no Oriente; Estados Unidos, França e Inglaterra, no Ocidente.

Onde está a semelhança com a Grécia?

Será que os “torcedores” da Alemanha vão contra-argumentar que, até hoje, os gregos não indenizaram os troianos pela aniquilação de Troia, há 3,5 mil anos?

O debate ideológico, em geral, tem muitas ideias e pouca inteligência. Porque ser conduzido pela direita ou pela esquerda não é garantia de excelência em país algum. É verdade que a direita tem mais sucesso na condução da economia, mas uma nação não é uma empresa, seu objetivo não é o lucro: é o bem-estar dos cidadãos. 

É por isso que o Estado precisa tomar conta da educação das crianças, da segurança pública e de níveis da saúde e da infraestrutura que sejam inalcançáveis pelo financiamento privado. Ser mais à esquerda ou mais à direita vai depender da realidade de cada país e do momento que atravessa. Os Estados Unidos já foram mais à esquerda do que são hoje, no tempo de Roosevelt. E já foram mais à direita, no tempo de Reagan. Deu certo em ambos os casos. Mas Reagan falharia no tempo de Roosevelt, e Roosevelt falharia no tempo de Reagan.

Decerto que é preciso ter ideias para acertar, mas também é certo que não existe uma só ideia certa.



15 de julho de 2015 | N° 18227 
MOISÉS MENDES

O sonho do Cerrado

Se as coisas tivessem evoluído como o planejado por meu pai, hoje eu poderia ser um latifundiário do Centro-Oeste. Mas os planos dele fracassaram. Lembrei dos seus sonhos quando li agora a reportagem da Joana Colussi e do Tadeu Vilani sobre os gaúchos que avançaram mais ainda para o alto do mapa do Centro e do Nordeste. Pensei nos desbravadores que não servem como exemplos edificantes. Meu pai seria um deles.

Nelson, o sonhador, não saiu em direção ao Eldorado do Centro-Oeste nos movimentos migratórios dos anos 70. Foi bem antes, com os pioneiros do final dos anos 50. Vendeu um pedaço de campo de minha mãe no Saicã e se foi sozinho para Campo Grande. Comprou tanta terra, que mereceu, ali por 1960, uma página inteira no Diário de Notícias.

O título da reportagem, que guardei por muito tempo, era algo como “o gaúcho que oferece a prosperidade no Mato Grosso”. O plano: virar fazendeiro e vender lotes na vizinhança da Brasília que se erguia no Planalto. Fracassou.

A família perdeu as terras do Saicã e nunca viu as terras do Mato Grosso. Meu pai separou-se da minha mãe e tomou outros rumos. Carrinhos de lata importados, que meu pai trazia das viagens, foram na minha infância a memória do que o Mato Grosso significava para mim. Até que, muito tempo depois, um de meus irmãos decidiu investigar o que havia sobrado do sonho do pai, que morrera anos antes. Nada.

Um advogado vasculhou cartórios e outras pistas. Parte das terras que seriam dele estaria sob a Base Aérea de Campo Grande. E o resto? E os sócios? E as escrituras? Eram poeira de redemoinhos em meio a arbustos, zebus e cupinzeiros.

No início dos anos 80, estive duas vezes a trabalho na região de Campo Grande. Mirava aquela tábua de chão e divagava: que descaminhos teriam consumido os sonhos do meu pai? Quem tirou proveito das suas loucuras como desbravador fracassado?

Conversei com gente que havia prosperado, como esses localizados agora pela Joana e pelo Tadeu. Mas também falei com perdedores, como um jornalista de São Borja que, já maduro, largara tudo, 10 anos antes, para plantar soja em Dourados.

Tinha uns 70 anos. Morava na peça dos fundos de uma casa com a mulher. Conversou comigo sentado num sofá rasgado. Não tinha nada. Lembro do que me disse: para uns, dá certo, para outros, não.

Esse homem pelo menos não tinha filhos que cresceriam se perguntando sobre o que, afinal, havia dado errado.


15 de julho de 2015 | N° 18227 
MÁRIO CORSO

Dio, come ti amo

A promoção era irresistível: em troca de dois rótulos de Omo, uma entrada para ver o filme Dio, come ti amo. Para quem não é da época, enchia cinemas como um Titanic. Tempos do blockbuster à parmegiana.

Elvira, a moça que trabalhava lá em casa, não pestanejou, recortou as embalagens e não pensava em outra coisa. O problema é que a barbada só valia nas matinés de dia de semana. Como fazer se uma das suas tarefas era cuidar de mim? Simples, levar-me junto.

E lá nos fomos, Elvira, eu e uma centena de outras jovens mulheres com seus passaportes de caixa de sabão em pó. Marca séria, além de lavar ainda mais branco, levava suas clientes fiéis ao cinema.

Esperto, saquei que se tratava de um filme religioso. Já tinha visto outros na escola. Seria mais uma mensagem sobre a benevolência do nosso criador e como Ele, apesar de não sermos merecedores, nos atura e nos ama. Enfim, fiquei contente com a quebra de rotina e, de inhapa, alimento espiritual.

O filme era italiano, percebi pelo título. Na minha família se falava um pouco de italiano. O que me ajudou na tradução de Dio foi o Porco Dio, uma das palavras de entusiasmo que escutava dos meus adultos, uma espécie de interjeição, servia para sublinhar momentos. Nunca entendi bem o sentido, duas coisas opostas, mas o padre nos dizia que religião é fé e fé é mistério. Portanto, existem coisas da religião que não entendemos. No meu caso particular, o mistério da fé se apresentava no Porco Dio. De qual natureza de Deus estavam a falar? Lembro também um expressivo e enigmático campo semântico que envolvia hóstia e cachorros, mas isso é outra história...

Na matiné, eu era o mais jovem da fila, talvez o único representante masculino e, ao meu ver, também o único que se comportava bem diante de um momento solene. Havia uma excitação no ar, estavam todas algariadas. Esperava mais seriedade, na missa ninguém se comporta assim.

O porteiro fez uma cara feia para mim. Não sei se era porque eu não tinha os cupons mágicos mas, pressionado pela multidão, e pela conversa da Elvira sobre a premência e importância de ela ver o filme, entramos. Depois Elvira me contou que ela e o porteiro eram conhecidos e outras coisas.

Começou o filme. Porco Dio, que religião estranha! Seria a mesma que a minha? Havia muitos olhares e muitos beijos, muitos e demorados beijos. Mas, na essência, era uma religião do amor, não havia dúvida. Havia uma moça que amava muito a Deus e a um rapaz e cantava isso para todos. Para não estragar a surpresa de quem não viu, não conto com quem ela ficou. Enfim, um enredo positivo, comovente, muitas choravam. Por isso não entendi por que minha mãe, quando soube que fui ver essa mensagem de fé e esperança no amor de Deus e dos homens, ficou tão braba com a Elvira. Coisas de mãe são como a fé, cheias de mistérios.

terça-feira, 14 de julho de 2015



14 de julho de 2015 | N° 18226 
CARPINEJAR

Aguente declarações de amor sem gracinhas

O sarcasmo destrói a sinceridade. Já fui vítima e já fui algoz.

O homem, principalmente, tem vergonha de se declarar e vive se escondendo em brincadeiras. Tem vergonha de se emocionar e vive mascarando com piadas os momentos próximos das lágrimas.

É perceber que vai chorar ou umedecer os olhos que ele retira uma ironia do fundo de si para escapar ileso da entrega. Em vez de retribuir uma delicadeza ou entrar no clima romântico, ele vem com uma grosseria para tentar descontrair.

Não faça mais isso, aprendi a não fazer. É tão difícil ser sincero, leva muito tempo para o outro encontrar força para dizer algo importante, não banalize o encontro com a sua desatenção.

É custoso formular o que talvez nunca tenha sido dito para ninguém, não estrague com o deboche.

Sua namorada pode ter atravessado décadas naqueles minutos para entender um sentimento e partilhar uma verdade.

Relembre seus amores platônicos e doloridos da infância: quantas vezes procurou se declarar para uma menina, as frases subiram até a boca e voltaram ao silêncio? Você deseja que sua companhia passe pelo mesmo sofrimento?

Ninguém é covarde sozinho. Somos covardes porque nos deixam sozinhos com as palavras, não somos ajudados a falar o que nos incomoda.

Apoie a coragem de sua namorada. Devemos economizar e preservar as confissões de amor. Devemos valorizar e inspirar as confissões de amor. Temos que diferenciar a hora da ironia da hora de falar sério.

Não desestimule a sinceridade com palhaçadas. Drama pede meia-luz, mãos dadas e olhos nos olhos (o gênero comédia romântica é uma mentira – é só romance, colocaram comédia no nome para forçar o namorado a ir ao cinema).

Não dê motivos para que ela desconfie de seu compromisso – é o que acontece quando reage superficialmente diante de conversas mais profundas.

Fique quieto, parado, ouvindo, sei que você se enxergará emparedado, encurralado, assustado com a queda repentina de testosterona no corpo, pronto para abrir a porta do riso e sair correndo, mas segure a respiração e suporte escutar que você é a pessoa mais importante de alguém, sem baixar a cabeça, sem buscar refúgio no celular, sem nenhuma gracinha.

Serão juras que salvarão o relacionamento quando estiver em crise.


14 de julho de 2015 | N° 18226
ARTIGOS - CRISTIANO TATSCH*

A LDO E A RIQUEZA DO RIO GRANDE

Estamos vivendo um momento delicado, em que a economia brasileira e a gaúcha andam em marcha a ré. Os números mostram a piora na atividade econômica, com reflexos na arrecadação dos governos. O mercado projeta para 2015 uma retração do PIB nacional superior a 1,5%. A economia gaúcha encolheu 1,3% no primeiro trimestre do ano.

A volta de patamares inflacionários acima de 9% também é uma realidade. E não temos sinais de que 2016 será significativamente diferente ou que retomaremos um ciclo virtuoso de crescimento econômico. A falta de investimentos do poder público compromete a saúde financeira do Estado como um todo e por isso o Rio Grande vem perdendo posição relativa perante outros entes da federação.

O setor privado está fazendo ajustes para conviver com esta realidade, com demissões e redução da jornada de trabalhadores. Mas não é assim que se comporta o setor público. E é imperioso que ele também aperte os cintos. As receitas encolheram e continuamos distribuindo uma riqueza que não temos. Nos últimos 44 anos, apenas em sete o Estado arrecadou mais do que gastou, reduzindo catastroficamente sua capacidade de investimento.

A manutenção das despesas e investimentos no mesmo patamar de 2015, proposta na Lei de Diretrizes Orçamentárias, está alinhada com a decisão de diminuir o alto déficit orçamentário que se agrava ano após ano. O que se propõe é um Orçamento realista e factível, sem vender ilusões.

As despesas da administração estadual não podem continuar crescendo acima da receita, pois já convivemos com um cenário em que o governo do Estado não tem capacidade de honrar compromissos como a manutenção em dia do pagamento de servidores, o repasse para serviços essenciais e fornecedores.

Não existe milagre. Só conseguiremos mudar o rumo desta história se todas forças políticas e sociais deste Estado entenderem que é preciso empreender todos os esforços para atravessar esta fase com responsabilidade e transparência, visando superar os obstáculos e construir um futuro melhor para o Rio Grande. A LDO se dispõe a contribuir para que o Estado reencontre suas riquezas.

*Secretário do Planejamento e Desenvolvimento Regional


14 de julho de 2015 | N° 18226 
DAVID COIMBRA

O casamento do frango com o dinossauro

Fiquei sabendo que os americanos estão criando um dinossauro a partir da galinha. É o frangossauro.

Sou contra.

Não quero que os americanos criem o frangossauro.

Não é boa combinação. Uma galinha cruzada com um dinossauro seria algo esdrúxulo, algo como... Pense num encontro muito esdrúxulo. Tipo... Mas antes de dizer qual é o mais esdrúxulo dos encontros, preciso deixar claro que, para mim, os dinossauros são um caso de feliz extinção. Arrisco afirmar que a queda daquele meteoro lá no México não foi a única causa do desaparecimento deles. Mesmo que o meteoro tivesse passado raspando e acertasse, sei lá, um anel de Saturno, os dinossauros teriam sumido. Pelo seguinte motivo: eles eram grandes.

Um dia os cientistas vão comprovar minha teoria de que, quanto menor o organismo, mais chances ele terá de sobrevivência. O que se aplica aos humanos: os pequenos vivem mais.

Por que derrotamos os neandertais, mais altos, mais fortes e mais bonitos do que nós? Por duas razões: por causa de nossas mulheres e porque éramos menores do que eles. Nossas mulheres inventaram a arma mais letal já surgida no planeta: a civilização. E nosso tamanho nos permitia sobreviver com menos comida. Pronto: os neandertais, ainda que tivessem o cérebro maior, foram eliminados feito pássaros dodôs. 

Verdade que, antes disso, eles tiveram casos com algumas das nossas mulheres. Ou alguns de nossos homens tiveram casos com as mulheres deles, pode ser. O que significa que ainda hoje há entre nós descendentes de neandertais. Como identificá-los? Como eles são? Loiros e grandes. O Baidek pode ser um neandertal. Até porque neandertais dão bons zagueiros.

Os dinos, a mesma coisa. Imagine o que um bicho de 15 metros de altura tem de comer no café da manhã. No mínimo, uma árvore. Ou um hipopótamo, se ele não for vegano. Enquanto isso, as baratas, que já rastejam pelo mundo há 350 milhões de anos, se contentam com gosma de cerveja rançosa ou pedacinhos de cebola, elas adoram cebola. E podem ficar um mês sem água ou comida, imagine.

Porém, a despeito desses méritos evolutivos, confesso que preferia que as baratas, bem como as moscas, tivessem sido extintas com os dinossauros. Não fariam falta.

É essa a questão. O que quero dizer é que temos de nos contentar com alguns finais. A natureza decidiu que os dinossauros, os pterodátilos e os craques do futebol brasileiro fossem extintos? Paciência. A natureza sabe o que faz. Paixões acabam; dores também. Quem diria que o Império Romano, a Varig, as máquinas de escrever e o cachorro-quente do Zé do Passaporte deixariam de existir? Quem diria que a Rose di Primo e a Monique Evans envelheceriam? Temos de respeitar os finais.

Nada de misturar dinossauros com galinhas. Seria uma junção tão estranha quanto a de Dilma com Lewandowski naquele encontro secreto em Portugal. Foi neles que pensei, ao imaginar uma união esdrúxula. A chefe do Executivo reunir-se à sorrelfa com o chefe do Judiciário, que provavelmente julgará atos de seu governo, tendo ocorrido esse encontro num país estrangeiro, sem que estivesse em agenda, sem que o país fosse avisado... Cristo! Eis um galinhossauro. Acredite: nada de bom pode sair disso.