terça-feira, 14 de julho de 2015



14 de julho de 2015 | N° 18226 
LUIS AUGUSTO FISCHER

O QUE FAZER COM O CAIS

Tenho contado algumas experiências vividas aqui na Europa, ao longo de todo um ano que está terminando daqui a bem poucos dias. Nada melhor, para fechar esse ciclo, do que falar sobre o Cais do Porto de Porto Alegre, com base em uma recentíssima experiência.

Em Porto Alegre – cidade que tem em seu nome a marca de ter sido um porto, o que destaca definitivamente a importância dele para a cidade –, há todo um porto desativado, que apenas aqui e ali volta a ser usufruído pela comunidade. O melhor exemplo é, e vai voltar a ser, a Feira do Livro, que por duas semanas devolve aquele pedaço de cidade aos cidadãos. A alegria que toma conta de nós todos ao botar os pés e os olhos ali é qualquer coisa.

Contra esse uso, há uma tendência a repassar a área para construir mais um shopping e mais um hotel. Argumenta-se que daria lucro bastante e faria o gosto de meia-dúzia que ali se hospedasse. Mas uma cidade não é para dar lucro bastante e para fazer o gosto de meia-dúzia.

Em Nantes, interior da França, há uma maravilha ocupando um porto que perdeu a atividade: www. lesmachines-nantes.fr/fr/les-machines-de-l-ile/le-grand-elephant. (Devo a dica ao Alfredo Aquino!)

Fico imaginando a cena: o prefeito de Nantes faz uma reunião e diz que o porto está abandonado, que não tem mais serventia. Alguém teria alguma ideia? Aí um cara diz: eu tenho – vamos fazer um elefante para passear por ali.

Sim, um elefante mecânico, estrela maior de um complexo de maluquices que atrai turista de toda parte. Tem coleção de plantas tropicais, tem exposição de protótipos de outros animais mecânicos, tudo isso em volta de um antigo estaleiro. Ah, sim, e tem muito lazer, brinquedos, roda-gigante com bichos do mar, uma coisa inesquecível.

Por que Porto Alegre tem que se contentar com mais uma privatização de espaço público, com mais uma obra saída da cachola de um tecnocrata? Eu, por mim e pelas crianças de qualquer idade, quero um elefante parecido ao de Nantes!

segunda-feira, 13 de julho de 2015



13 de julho de 2015 | N° 18225 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

VALE DO SILICONE

Uma das séries que menos me impressionaram ao surgir acabou virando chiclete daqueles que grudam e não desgrudam. Silicon Valley me pareceu adolescente demais, brincadeira demais, leve e solta demais para retratar o que acontece no centro produtor de tudo que você toca quando pega o smartphone, o tal Vale do Silício.

Pois, ao final da segunda temporada, este que vos atormenta com essas pessimamente traçadas deve admitir o mais difícil para um ser vivo: erremo. Silicon Valley era boa justamente por isso, por achar o grau certo de sarro para retratar uma realidade tão bilionária quanto tola, tão infantil quanto criativa, tão maluca quanto concentrada em produzir riqueza em uma escala nunca antes vista.

O Vale do Silício deve ser um vale, imagino, mas não necessariamente cheio de silício. Ele transborda mesmo é de tecnologia, a mão que move o mundo no século 21. E tecnologia é algo jovem e movido por jovens, gente que sai de uma universidade de ponta dotada de uma enorme capacidade de programação, mas jovem demais para pensar nas consequências do que faz. O resultado é riqueza e transformação sobre uma base tão movediça quanto a Califórnia e suas falhas tectônicas. Silicon Valley dá conta, e muito bem, desse mundo.

O que acontece é que jovens talentosos do mundo inteiro se mandam para a região ao redor de San Francisco, movidos pelo desejo de criar alguma coisa, ganhar bilhões, e então esperar algum tempo para serem adultos o suficiente para terem uma barba e ficarem parecidos com o Steve Jobs. Esse é o plano, o único plano.

Mesmo assim, desse jeito um tanto descabeçado, funciona, e se alguém duvida, a moça que trabalha de vez em quando colocando ordem na Mansão Carneiro da Cunha acaba de enviar um Whats­App informando que, sorry, mas não vem amanhã. O WhatsApp foi vendido por US$ 19 bilhões, e era uma empresa com 50 funcionários, se não me engano, fazendo todos os jovens do Vale quererem ser o próximo WhatsApp, e por aí vamos.

Silicon Valley é da HBO, aquela que quase nunca erra. Não errou, e a terceira temporada vem por aí, com nossos desmiolados siliconados seguindo em frente na sua luta para melhorar o mundo, um bit por vez.

E por aí vamos.


13 de julho de 2015 | N° 18225 
DAVID COIMBRA

Houve uma vez um verão

É verão no Hemisfério Norte. O leitor brasileiro perguntará: “E o que é que tem?”. Pois tem. As mudanças de estação, no norte do mundo, são, mais que marcantes, quase violentas. Você não vive numa cidade, vive em quatro, uma por trimestre.

Não por acaso, os americanos medem o tempo pelas estações. Eles começam frases assim: “No outono de 2011...”. Ora, brasileiros não se lembram de outonos passados. No máximo, verões.

Tenho um vizinho, no andar térreo, que vive para os verões. Ele é um senhor de seus 70 anos ou mais. É magro, alto e muito encurvado, como um ponto de interrogação. Mora sozinho num apartamento com uma grande varanda que dá para rua. A gente passa pela calçada e enxerga o interior da sala. As paredes estão cobertas com pôsteres de bandas de rock.

Quando nos mudamos para cá, ele parecia meio casmurro. Nos cumprimentava com um rosnado. Depois, tornou-se a simpatia em inglês. Passou a lançar ao ar good mornings vivazes, e sempre comenta sobre a qualidade do tempo. Agora, nos dias quentes, suspira de prazer:

– Beautiful, beautiful, beautiful day...

Sei por que tanto entusiasmo. Mal a primavera se esvai por uma curva do Charles River, ele leva para a varanda a sua churrasqueira portátil. Faz churrasco todas as tardes. Todas, sem falta. E sempre convida umas velhinhas para partilharem da refeição. As velhinhas mudam. Vão se revezando. Às vezes é uma só, noutras são duas ou três. Ele assa seu churrasco e conta histórias e todos riem à grande.

Esse velhinho roqueiro deve ter boas histórias para contar. Na certa, casos de velhos verões. Imagino que ele e as amigas fiquem na varanda recordando loucuras pretéritas, ou, quem sabe, momentos suaves em que um mero toque ou um olhar bastavam para emocionar.

São de turmas diferentes, as velhinhas que visitam meu vizinho. Certamente as lembranças da varanda são diferentes também.

É assim que a vida faz. Os momentos com um grupo de amigos simplesmente passam. De repente, por algum movimento dos dias, você começa a ver menos um amigo que via sempre. Depois, deixa de vê-lo por semanas, meses e até anos. De vez em quando, você pensa: saudade daquele meu amigo...

Já tive vários grupos de amigos que se desfizeram. Em meados dos anos 90, montamos uma turma que saía todas as noites, de segunda a segunda. Íamos sempre ao mesmo bar, o Lilliput. Recordo em especial o verão de 1998. Foi um verão em que casais improváveis se formaram e casamentos eternos se desfizeram, um verão em que houve dores e amores e que, em uma única noite, bebemos 600 chopes, exatos e redondos. Lembro sempre de uma madrugada, já nos últimos dias de março, quando ergui meu copo e declarei:

– Nunca se esqueçam do verão de 98! Esse verão que se vai. Porque nós e os verões jamais seremos os mesmos!

A despeito da gravidade do meu discurso, ninguém deu muita bola. Mas, de fato, nada restou como era. Os verões mudaram, nós mudamos, aquela turma não existe mais. Hoje, vendo meu vizinho feliz com suas antigas companheiras, penso que isso deve ser maravilhoso: rever pessoas que foram tão importantes em certo tempo da vida. Pois, na verdade, elas continuam sendo. Os anos se sucedem, as turmas se desmontam, mas os amigos ficam, os afetos não se encerram. Porque o verdadeiro amigo é assim: cada vez que você o reencontra é como se vocês estivessem vivendo, ainda, o mesmo verão.


13 de julho de 2015 | N° 18225 
MOISÉS MENDES

O meio negro Teló

Não faz muito tempo, professores pintavam o rosto dos alunos para que brancos representassem negros em teatros da escola. Sim, aqui mesmo, no Brasil. Os brasileiros eram imitadores ingênuos da “técnica” do blackface dos americanos e suas caricaturas do início do século 20 do que seriam os rostos e os jeitos dos negros. Reproduzia-se a visão grotesca de racistas e, mais tarde, de nazistas e assemelhados, sempre sob o pretexto de que era humor.

Na semana passada, o cantor Michel Teló enfrentou a ira da internet porque pintou metade do rosto de preto. Desejava, simbolicamente, ficar 50% negro. Coitado do Teló. Alguns torceram para que ele fosse comido vivo pelos jacarés das fazendas dos amigos cantores sertanejos do Pantanal. Os justiceiros disseram que isso era blackface.

Que bobagem. Poucos sabem o que é blackface. Teló só quis ser bom rapaz. Eu, enquanto mameluco, não me sinto ofendido. Por mim, ele poderia até pintar a outra metade do rosto de azul, deixando só o pescoço branco. Um Teló TricolorFace. Mas aí não sei se os colorados iriam gostar. Que tempos.

Teremos nesta semana o depoimento do empreiteiro Ricardo Pessoa ao Tribunal Superior Eleitoral. Esperam que o delator da UTC confirme que o dinheiro das doações ao PT era de propina, mesmo que registrado legalmente. Já as doações aos outros partidos seriam de dinheiro limpo e desinfetado.

O dinheiro pasteurizado era doado apenas como manifestação de simpatia a algum político amigo, sem o menor interesse. Pura benemerência. Já dinheiro enlameado corrompia políticos que um dia poderiam retribuir o mimo com algum favor, superfaturamentos e aditivos.

Ficará para a História. Saberemos finalmente como, na hora do agrado, as empreiteiras separam o dinheiro imaculado do dinheiro corrompido. Deve ser mais fácil do que fazer o carro sem motorista do Google andar sozinho. Pessoa terá que nos dizer qual é a técnica usada, ou a delação ficará pela metade.

Os cínicos dos subterrâneos das empreiteiras não podem subestimar a inteligência média dos brasileiros. E muito menos – espera-se – os aparatos da Justiça.

As pesquisas informam: se a Copa de 2018 fosse hoje, o Brasil venceria a Alemanha por 9 a 1. Aécio faria quatro gols. A margem de erro é de 10 gols para mais ou para menos.


13 de julho de 2015 | N° 18225 
L. F. VERISSIMO

Hipócritas

O economista francês Thomas Piketty deu uma entrevista à revista alemã Die Zeit em que disse, entre outras coisas, que antes de exigir o pagamento a qualquer custo da dívida grega, os alemães deveriam lembrar seu passado de devedores. Segundo Piketty, a Alemanha nunca pagou suas dívidas.

Cobrou, com a mesma intransigência de agora, a dívida de outros, como a reparação paga pela França com muito sacrifício depois da guerra franco-prussiana de 1870, mas não pagou sua própria reparação depois da I Guerra Mundial. Esta dívida foi perdoada em 1934, o que desmente a tese de que foram as exigências dos vencedores da guerra que levaram a Alemanha, ressentida, a seguir Hitler.

Em 34, a Alemanha não foi humilhada, como diz a tese. Foi perdoada. Em 1953, depois da II Guerra Mundial, numa conferência realizada em Londres, decidiu-se perdoar 60% da dívida alemã, uma generosidade muito maior do que a que os gregos estão pedindo agora.

Foi esse presente que possibilitou à Alemanha derrotada na guerra iniciar o “milagre” que a transformou na potência econômica que é hoje, na posição de mandar na economia de toda a Europa e pregar a austeridade e a “responsabilidade” que ela mesmo exemplifica. Uma superioridade moral conquistada de calote em calote.

Na entrevista, Piketty faz um histórico de dívidas nacionais através dos tempos, mostrando como há várias maneiras de cobrá-las ou equacioná-las além da ortodoxia assassina receitada por Angela Merkel, mais preocupada com a saúde dos bancos credores do que com a saúde de populações inteiras privadas de assistência social pela tal austeridade. O que a Alemanha desmemoriada não admite é que façam como ela fez, e não como ela manda.

O primeiro-ministro da Grécia não tem idade suficiente para conhecer um bolero chamado Hipócrita, do tempo em que havia boleros. Se soubesse, poderia serenar a sra. Merkel com ele, na próxima vez em que se encontrassem. O bolero começa assim:

“Hipócrita... Sencillamente hipócrita...”

E termina assim:

“Escúchame y compréndeme,

no puedo ya vivir.

Como hiedra del mal

te me enredaste

y como no me quieres

me voy a morir”.

domingo, 12 de julho de 2015

Aprenda técnicas para economizar dinheiro na hora de fazer compras

da Livraria da Folha 


Em muitos casos, não adianta economizar se o produto que você está prestes a adquirir não tem um valor justo. Antes de se preocupar com gastos e com a fatura do cartão de crédito, é necessário pensar nos valores das coisas. Como se define um preço? Será que existe um preço justo para cada item? Estes são alguns dos tópicos abordados por Carolina Ruhman Sandler e Samy Dana em "Finanças Femininas".

Divulgação
Livro mostra que gastar de maneira consciente é investir no futuro
Livro mostra que gastar de maneira consciente é investir no futuro
Os autores explicam que, na teoria econômica, o preço de um produto é resultado da lei da oferta e da demanda. Na vida real, no entanto, a economia não tem uma concorrência perfeita ou produtos idênticos - as chamadas commodities. Neste caso, entra em jogo a teoria da ancoragem.

"A teoria afirma que o ser humano tem diversas habilidades, mas definir quanto deveria custar um produto não é uma delas, pois não tem a capacidade de discernir se um preço é justo ou não", explicam.

Os autores utilizam como exemplo uma marca famosa de lingerie conhecida por promover desfiles com top models. Na ocasião, é comum ver a modelo principal do evento usar uma peça que custa milhões de dólares. De acordo com a teoria da ancoragem, essa peça só existe para fazer com que as peças vendidas nas lojas pareçam baratas e acessíveis.

Vendedores têm o costume de primeiro mostrar ao cliente as peças que custam mais caro, para depois oferecer produtos mais em conta. Isso não necessariamente significa que eles querem que o cliente gaste mais; a intenção pode ser ancorar o preço mais alto e deixar o cliente mais propenso a comprar o produto "mais barato".

Para escapar das armadilhas, é válido utilizar ferramentas online de comparação de preços. Sabendo o custo médio de um produto, é mais fácil chegar à loja e pedir a melhor oferta para o vendedor. No caso de serviços, é bom atentar para sites de avaliações, que trazem relatos dos consumidores sobre os serviços prestados pela empresa.

Outra atitude importante é saber negociar. "Na maioria das vezes, o vendedor não vai desistir de vender para você. Por isso, não tenha medo e diga o seu preço. Sua oferta pode até estar abaixo do valor de mercado, para você ter espaço de subir o preço na negociação".
Abaixo, veja três dicas para barganhar:

  • Não se empolgue com o primeiro desconto que o vendedor oferecer. Você não tem por que aceitar a proposta e cortar a negociação no meio;
  • Não é porque o vendedor ofereceu um desconto que você tem de comprar;
  • É claro que não é em todo ambiente que dá para barganhar, mas você sempre pode questionar a forma de pagamento para encontrar aquela que seja melhor para você.
*
FINANÇAS FEMININAS
AUTOR Carolina Ruhman Sandler e Samy Dana
EDITORA Benvirá
QUANTO R$ 17,90 (preço promocional*)

sábado, 11 de julho de 2015




12 de julho de 2015 | N° 18224 
MARTHA MEDEIROS

Inquietude pré-embarque

A cada vez que estou fechando a porta de casa para ir ao aeroporto, dou uma espiada mais demorada para a sala e penso: será que voltarei?

Julho, mês de férias. Momento de se preparar para a melhor coisa do mundo: viajar.

Na verdade, as três melhores coisas do mundo são comer, dormir e transar (coloquei em ordem alfabética, não em ordem de preferência), mas é viajando que desfrutamos para valer desses três grandes prazeres da vida. Não há rotina, não há horários, ninguém está nos apressando. O que pode ser mais excitante?

Pois estava, dias desses, conversando com quatro mulheres que vivem em trânsito pelo mundo. Ainda que sejam contumazes viajantes, elas admitiram que, a cada vez que compram uma passagem, sentem um temor incômodo que não sabem de onde vem. Estranho, tendo elas tantas milhagens acumuladas, mas não me surpreendeu. Também fico meio aflita antes de embarcar para um destino longe demais do meu quintal. Por um motivo tosco, infantil: fico achando que vou morrer.

Uma amiga que mora no Rio tem esta mesma sensação. Já somos seis (as quatro mulheres da primeira conversa, minha amiga carioca e eu). Você também? Então está na hora de a gente formar um grupo de apoio e tentar entender o que acontece.

Não é um medo racional, um medo de que o avião caia, por exemplo. As chances de ele cair são mínimas. Neste exato instante há várias centenas de aviões cruzando os céus do planeta e nenhum deles estará na matéria de abertura do Fantástico neste domingo (uma madeira, pelo amor de Deus! – toc, toc, toc).

Trata-se de um desassossego, mais do que um medo. Viajar é abrir um parêntese na vida, escapar de um esquema já organizado, se predispor ao desconhecido – e se despedir de quem fica. A cada vez que estou fechando a porta de casa para ir ao aeroporto, dou uma espiada mais demorada para a sala e penso: será que voltarei? Nem preciso dizer o que sinto ao dar um beijo nos familiares e trocar mensagens com os amigos: por um fiapo de segundo me passa pela cabeça que é a última vez que estou falando com eles. Qual a razão dessa neura descabida, se algo tão maravilhoso está para acontecer?

Deve ser justamente isso. Dá a impressão de que não merecemos este algo tão maravilhoso, de que teremos que pagar por este extremo deleite, não em cash, mas em sofrimento.

Culpa, em outras palavras.

Já soube de gente que, ao chegar ao aeroporto, mudou de planos: deu meia-volta e retornou para casa. Ufa, me sinto menos louca diante desses casos perdidos. Eu embarco com inquietação e tudo, e assim que o avião aterrissa do outro lado, estou uma tonelada mais leve e completamente esquecida do que até então me perturbava. A inquietação se autoextravia.

Aliás, embarco hoje e volto para a coluna daqui a duas semanas. Sem despedidas, por favor.



12 de julho de 2015 | N° 18224 
CARPINEJAR

Casal brigando esquece que tem filho

Quando estou numa discussão de relacionamento ainda me pego guri, ainda me pego distraído. A mulher me pergunta algo simples e objetivo berrando e me perco no ponto de interrogação, somente presto atenção no agudo de seu timbre.

Ela questiona sim ou não, e rastejo indeciso num estado meditativo.

Com uma caneta nas mãos, faço de conta que não é comigo. Já me flagro tirando o canudo, reparando o estado da tinta, me desligo completamente das palavras. Diante da voz levantada, as palavras não são mais comigo, sou inteiro do silêncio.

É um estado de fuga que guardei da infância, no momento em que meus pais brigavam aos gritos. O palco permanece montado em minha memória: arrumados na sala, eu e os irmãos brincávamos de forte-apache enquanto esperávamos para almoçar.

Tudo ia bem, os cabelos estavam penteados e a mesa posta. De repente, a porta da frente batia, os lustres balançavam e a paz ia embora. Alguém saía de casa correndo, talvez o pai, talvez a mãe, e um seguia o outro.

A discrição não frequentava o nosso endereço, envolvia perseguição de carros, latidos desesperados no quintal, abraços histéricos e empurrões confusos.

Descobria que não teria almoço, nem sessão da tarde, muito menos tranquilidade.

A briga dava dois trabalhos: o de explicar aos vizinhos durante toda a semana o que aconteceu e o de acalmar o coração que nunca sabia ao certo o que estava acontecendo.

Eu me abstraía de propósito, recusando determinar se correspondia ao fim do casamento ou uma reiterada tentativa do papai e da mamãe de se entenderem e de serem felizes.

Os filhos desapareciam naquele instante para os pais, eles realmente esqueciam que eram pais. Casal quando briga esquece que tem filhos.

Alheios ao que escutávamos e à nossa posição vulnerável no front de batalha, retornavam para a sala, jogavam objetos nas paredes, soltavam palavrões que jamais poderíamos repetir e se xingavam mutuamente, com energia e disposição demoníacas.

Eu mexia cada vez mais no cocar de meu índio do forte-apache e em sua machadinha marrom. Fingia que não existia, diminuindo de tamanho, até me transformar num boneco e alguém me guardar na caixinha para brincar no dia seguinte.

Fixo na caneta e vejo que não me defendo do medo de gritos, apesar de adulto, apesar da paternidade.

Em vez de escrever qualquer coisa de útil, em vez de pedir socorro, vou desmontando a caneta no meio de uma nova e inesperada gritaria doméstica. 


12 de julho de 2015 | N° 18224
ANTONIO PRATA

Meia abdominal


Deito no banco de pedra, dobro as pernas, apoio os pés sobre o assento, entrelaço as mãos atrás da cabeça, vou erguendo o tronco, devagar, até que, no meio da abdominal, dou com o céu, lá no alto. É um desses céus de inverno, no campo: limpo, azul, uma ou outra nuvem indo, sem muita pressa, sabe-se lá pra onde, como as vacas no pasto, aqui embaixo.

É bonito, mas nem de longe é o céu mais espetacular que eu já vi. Lembro do sol se pondo no mar de Itaúnas, na adolescência. (A bola de fogo incendiando o Atlântico, e eu me remoendo, na areia: Beijo? Não beijo? Beijo? Não beijei, pra variar – terminei a noite bêbado, enquanto ela se atracava com o cara do violão.) Lembro de um azul quase escuro de tão claro, sem uma única caspinha branca, emoldurando as laranjeiras, depois o castelo e por fim um pico nevado, nos jardins da Alhambra, em Granada. (“Dê-lhe esmola, mulher/

Que não há nesta vida nada/ Como a pena de ser cego em Granada”, escreveu um poeta, em outro século, naquele mesmo jardim). Certas tardes paulistanas, até, com seu horizonte pós-apocalíptico (se fosse uma cor de esmalte, seria Abóbora Gotham City), são mais impactantes do que o céu que encontro, no meio da abdominal, mas é o céu, ainda assim, em toda a sua imponência: o mesmo céu que os gauleses temiam cair sobre suas cabeças e para o qual bilhões de homens e mulheres erguem as mãos, todos os dias.

Eu, que nasci num mundo sem Deus e, contudo, repleto de pecados – grelhados, assados, refogados, gratinados, flambados, condensados, fermentados, destilados – não ergo as mãos, mas o tronco, em busca da redenção corpórea, nessa manhã fria de julho. Ergo e logo desergo (se é que existe tal verbo): as costas tocam a pedra, a cabeça já lá nas nuvens.

Quando eu era pequeno, em férias como esta, na fazenda, gostava de deitar na grama, à noite, e olhar o céu estrelado até ter a impressão de que não era ele quem estava em cima e eu, embaixo, mas o contrário: com um frio na barriga, me sentia desabando no vazio. Deitado no banco, agora, olho o céu por um tempo e me volta a impressão.

A vertigem é até maior, hoje, pois sei que não se trata de uma impressão: estamos mesmo desabando no vazio. (“Assim será nossa vida:/ Uma tarde sempre a esquecer/ Uma estrela a se apagar na treva/ Um caminho entre dois túmulos”). Ah, mas não irei sem luta, poeta! Farei o que puder para estender o caminho, por isso o ridículo shortinho de dry-fit, esses hediondos tênis multicolores, essa quixotesca abdominal, no meio das férias.

Como eu disse, não é o céu mais bonito que já vi, mas deitado no banco, é só céu o que eu enxergo: nenhuma copa de árvore, nenhum cume de morro, nenhum fio de telefone, céu, céu, céu, de modo que não consigo pensar em mais nada. Quase posso me ver, lá do alto, minúsculo. “Gabriel, que que é aquilo, levantando e abaixando, ali pros lados de Piracaia? É um muçulmano?”. “Não, Senhor. Tá de barriga pra cima. Tem mais pinta é de abdominal”. “Ah, coitado”. “Coitado”.



12 de julho de 2015 | N° 18224
MOISÉS MENDES

O jornalismo incomoda


O documentarista Eduardo Coutinho via seus filmes prontos e frustrava-se por não poder repetir algumas cenas. Lastimava-se especialmente pelas perguntas feitas na hora errada. O diretor perfeccionista dos grandes documentários brasileiros percebia que muitas vezes interrompera depoimentos para inserir indagações que apenas tiravam o ritmo de quem estava falando.

O perguntador do jornalismo diário não é o mesmo de documentários. Há jornalismo no cinema de conversas sem pressa de Coutinho, mas não como numa entrevista conduzida na urgência do dia, ou da hora, em que o que mais se tenta é acertar o momento de perguntar.

Mesmo assim, o drama de Coutinho é também o de todo repórter, com a diferença de que ele podia deixar alguém falar por 15 minutos sem parar. Um repórter, não. Um repórter tem que fazer o que minha colega Rosane de Oliveira faz com maestria.

Um repórter não é um inquisidor. Repórter só deve ser percebido como protagonista de uma entrevista se fizer as perguntas que o ouvinte, o telespectador e o leitor gostariam de ter feito. Repórter não pode, nunca, brilhar mais do que o entrevistado.

Pois Rosane fez perguntas certas, no contrapé de uma tomada de ar do senador José Serra, no programa Gaúcha Atualidade da última quinta-feira. Mas Serra dedicou-se, no final da entrevista a Daniel Scola e a Rosane, a dizer que ouvia perguntas erradas e contaminadas.

– O que você está dizendo é um papo de um par de petistas – disse Serra a Rosane.

A jornalista havia perguntado, a partir de manifestações dos ouvintes (que cada vez mais contribuem para que se faça rádio, jornal e TV, em todas as plataformas), sobre o mensalão tucano e os escândalos dos trens superfaturados do metrô de São Paulo. Serra disse que não há mensalão nem corrupção no metrô. Assim:

– Rosane, não vem com essa.

Foi além e desqualificou as perguntas. Não bastava tentar desmontar – o velho truque dos políticos – as questões incômodas. Rosane seria, no entendimento de Serra, emissária de interrogações do PT (e gente do PT também vive dizendo que jornalistas são emissários do PSDB).

Eu ainda tento ser emissário do jornalismo e vou responder o que o senador deixou sem resposta, apesar da insistência de Rosane. O mensalão tucano existiu e tem um réu famoso, o ex-governador de Minas Eduardo Azeredo.

Azeredo renunciou ao mandato de deputado federal, em 19 de fevereiro do ano passado, para escapar do julgamento no Supremo e empurrar o caso para a Justiça comum de Minas. Conseguiu o conforto que procurava. O processo ficou hibernando em uma gaveta (por falta de juiz!) por meses e está sob ameaça de prescrição.

O escândalo do metrô paulista também existiu. Serra disse que “um ou outro foi pego”. Foram pegos 33, todos indiciados, entre executivos de multinacionais e dirigentes tucanos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Oito processos correm em ritmo de trem-lesma em São Paulo.

As denúncias informam que grandes grupos (Siemens, Alstom, Bombardier, Mitsui e outros) formaram um cartel e superfaturaram contratos, de 1998 a 2008, em governos do PSDB, entre os quais um de Serra. Tudo confessado por delatores pagadores de propinas. Os governos tucanos, como no caso dos governos petistas na Petrobras, não sabiam de nada.

Eduardo Coutinho morreu no ano passado. Se estivesse vivo, diria que Rosane agiu como deveria. Talvez dissesse também que o maior incômodo para certos respondedores não é a pergunta, mas quem se atreve a fazê-la na hora certa.


12 de julho de 2015 | N° 18224 
L. F. VERISSIMO

Como bobos

Catarina, chamada a Grande, da Rússia, levou o enciclopedista francês Denis Diderot a São Petersburgo para ser uma espécie de filósofo em residência no Palácio Hermitage. Cristina, rainha da Suécia, já tinha convidado René Descartes, para dar uma sacudida intelectual no seu reino, além de preencher os vazios da alma da moça, que – fofoca histórica – gostava de se vestir de homem e não gostava de tomar banho. Frederico, o Grande (outro), da Prússia, também quis ter um francês e mandou buscar Voltaire para ser seu interlocutor literário e legitimar sua pretensão a rei filósofo, um legítimo produto do iluminismo.

Descartes, com sua ideia doida de que o Homem inventara Deus com a razão que Deus lhe dera, foi hostilizado pelos pensadores suecos como já tinha sido combatido pela Igreja na França. Escreveu de Estocolmo para um amigo: “Me parece que aqui as ideias congelam, exatamente como a áua”. Foi o frio da Suéia que o matou, embora se desconfie de que os ciumentos méicos da corte tenham ajudado um resfriado a se tornar mortal. 

No seu livro To the Hermitage (de onde vem a fofoca acima), o inglês Malcolm Bradbury escreve que, em Estocolmo, não existe qualquer traço de Descartes. Não se sabe onde ele foi enterrado. Segundo Bradbury, “o criador da metafíica da presenç humana, o fundador do grande ‘penso, logo sou’, o profeta da alma moderna, o homem que nos deu a dúida, a ansiedade, a mente acima da matéia e nos ensinou a questionar, énotado em Estocolmo apenas pela sua ausêcia silenciosa”.

A visita de Voltaire ao palácio de verão de Sans Souci, perto de Berlim, se estendeu para três anos e foi feliz enquanto durou – ou até Voltaire ser preso a mando do rei quando tentava voltar para casa, acusado de quebra de contrato e corrupção e de ter roubado alguns dos seus poemas eróticos, provavelmente a acusação que mais doeu. Denis Diderot ficou dois anos em São Petersburgo. Seu relacionamento com a czarina e sua corte foi no mínimo pacífica, e a separação foi amigável.

O curioso é que os três franceses (entre outros, como Rousseau, Condorcet, D’Alembert, que també levaram conselhos a poderosos de outras terras) foram adotados por monarquias absolutas justamente por serem notóios hereges, cuja críica àortodoxia religiosa implicava, por tabela, uma críica a todo poder absolutista, e cujas ideias mais tarde dariam origem à revoluçõs republicanas. Talvez os monarcas intuísem que mostras de inquietaçã intelectual e credenciais progressistas os salvariam da onda racionalista que se aproximava, ou talvez apenas quisessem intelectuais iconoclastas aos seus pé, como animais domados. Ou como bobos, para diverti-los com suas maluquices inóuas.

Outra curiosidade é: por que os franceses aceitavam os convites? Na época não se recusava um bom patrono, ainda mais um patrono como verbas reais, mas mesmo assim... Já era, então, a questão de hoje, a velha questão dos intelectuais e o poder: como se comportar, como se engajar sem se comprometer, até onde ir ou não ir na sua cumplicidade com os reis.

De qualquer maneira, é pouco provável que, em alguma das suas conversas com a czarina Catarina, Diderot tenha dito sua famosa frase, com a qual Descartes e Voltaire certamente concordariam: – A humanidade só será livre, Alteza, no dia em que o último déspota for enforcado com as tripas do último padre.

11 de julho de 2015 | N° 18223Ale
ARTIGOS - VALDETE SOUTO SEVERO*

MENTIRA PROGRAMADA

A MP 680 institui um “Programa de Proteçã ao Emprego”, mas em realidade reproduz uma táica antiga do capital, traduzida por Marx no seguinte trecho de seus Manuscritos: “Se a riqueza da sociedade estiver em declíio, entã o trabalhador sofre ao máimo, pois: ainda que a classe trabalhadora nã possa ganhar tanto quanto a classe dos proprietáios na situaçã própera da sociedade, nenhuma sofre tã cruelmente com o seu declíio como a classe dos trabalhadores”. Em recente reportagem, empregados foram entrevistados para dizer o quanto sentiam-se felizes por estarem em “lay off”, pois pelo menos nã haviam sido “desligados”.

A perversã do capital atinge requintes de crueldade. Imputa-se ao explorado a responsabilidade por sua prória exploraçã, exigindolhe sacrifíios que permitam prosseguir em sua condiçã de sujeiçã. Ao mesmo tempo, exalta-se a sua capacidade de adaptaçã, e o trabalhador, vivendo a sídrome de Estocolmo, agradece comovido ao Estado e ao empregador, que lhe garantem, como agentes simbióicos de reproduçã dessa lóica, a possibilidade de continuar sendo usurpado em seus direitos báicos.

A MP 680 autoriza redução de jornada com redução de salário e repassa ao Estado a conta dos empresários. Os trabalhadores cuja jornada e o salário forem reduzidos em razão da crise (que, diga-se de passagem, é estrutural e, portanto, insuscetível de ser eliminada) receberão uma complementação de renda versada pelo Estado. A realidade, portanto, é que a MP 680 não protege o emprego, tampouco o empregado. Protege o empregador. Daí a verdade que se expressa, no item II do seu artigo 1º: “Favorecer a recuperação econômico-financeira das empresas”.

Esse é seu verdadeiro objetivo, como se já não existissem saídas mais do que suficientes e abusivas para favorecer a recuperação das empresas. Basta ver a lei de recuperação judicial e o que se tem feito dela, autorizando-se a prorrogação do prazo (improrrogável) de 180 dias para a execução do plano, permitindo, assim, que demandas cobrando salários não pagos sejam arrastadas por meses ou anos, sem qualquer solução. A MP 680 é mais uma concessão de um governo que se diz dos trabalhadores, mas já há algum tempo capitulou ao capital.

*Juíza do Trabalho




11 de julho de 2015 | N° 18223 
NÍLSON SOUZA

NÓS E OS GREGOS

Não sei bem no que deu aquele movimento pelo retorno ao Hino Rio-Grandense de um trecho suprimido durante o regime militar. Lembro que, para variar, o debate em torno da reinserção da parte excluída virou um Gre-Nal ideológico. Os defensores da volta diziam que o verso fora cortado porque falava em “assombro dos tiranos”, ferindo a suscetibilidade dos generais de plantão. Os partidários do corte alegavam que o povo não cantava a estrofe retirada, além de inexistir qualquer relação entre os gaúchos e os gregos e romanos, citados no verso. Era assim:

Entre nós reviva Atenas para assombro dos tiranos

Sejamos gregos na glória e na virtude, romanos

Tenho ouvido o nosso hino nos estádios de futebol e em algumas cerimônias públicas. Ninguém canta esse verso. Acho até que ninguém mais quer ser grego neste momento em que, paradoxalmente, os endividados helênicos mais se parecem conosco – nas dificuldades econômicas, nos entreveros políticos e na mania de grenalizar qualquer debate. A propósito, o último jogo entre o Panathinaikos e o Olympiacos, que é realmente o Gre-Nal deles, terminou em tanta pancadaria, que o governo se viu obrigado a suspender todos os campeonatos de futebol do país.

Bem, mas voltemos ao nosso nada modesto hino. Por que o autor da letra, o célebre Chiquinho da Vovó, recorreu à comparação com gregos e romanos? Ora, porque Atenas sempre foi o símbolo da democracia. Os gregos antigos, além de amantes da liberdade, eram reconhecidos como atletas, artistas, filósofos e poetas. Já os romanos eram guerreiros imbatíveis. Como o hino surgiu durante a Revolução Farroupilha, o letrista julgou apropriado enaltecer a bravura dos farrapos, comparando-os com os pais da mitologia: gregos na glória, romanos na virtude. E sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra.

A atual crise grega tem sido também uma oportunidade para a revisão dos mitos e lendas da Antiguidade, pois as comparações se tornam irresistíveis para cientistas políticos e jornalistas que analisam o episódio. Tem até uma brincadeira de internet que mistura deuses e heróis mitológicos com os problemas reais, A Crise Grega para Iniciantes. Vale conferir, é bem engraçada.


Mas melhor seria que alguém fechasse logo esta caixa de Pandora. Lá e aqui.



11 de julho de 2015 | N° 18223 
DAVID COIMBRA

Da escola para casa

O menino Denner levou uma facada no coração quando ia da escola para casa, em Porto Alegre.

Da escola para casa.

Em vez de pensar que ele ia da escola para casa, penso: será que ele ganhou esse nome em homenagem ao Denner que jogou no Grêmio nos anos 1990? Bem provável.

Denner foi um dos grandes craques do futebol brasileiro em todos os tempos. Jogava macio. É dele uma frase linda, linda, para quem gosta do jogo:

“Às vezes, um drible é mais bonito do que um gol”.

Sabe que também acho? O drible é a maior expressão de superioridade no futebol. Porque é um jogador enganando o outro, deixando o outro para trás, ludibriando o outro.

Denner só não foi um Ronaldinho porque morreu cedo. Não de facada no coração, de acidente de carro.

O Denner que levou a facada no coração não vai morrer disso. Ele já está se recuperando, vai se restabelecer logo. Mas provavelmente lhe restarão uma cicatriz no peito e outra na alma. Imagine, ele estava saindo da escola e indo para casa. Não estava dentro de um carro em alta velocidade, como o Denner jogador de futebol. Não estava numa festa. Não estava brigando com ninguém. Não estava nem passeando por aí. Estava apenas indo da escola para casa.

Da escola para casa.

Mas, em vez de continuar pensando nisso, prefiro lembrar que houve outro Dener famoso no Brasil. Um costureiro dos anos 1960 e 1970. Ele se consagrou quando fez vestidos para a Maria Thereza Goulart, mulher do então presidente Jango, que, diziam, era a primeira-dama mais linda do mundo, mais linda até do que Jackie Kennedy.

Aquele Dener tinha só um ene no nome. Seu grande rival no terreno da moda foi Clodovil. No terreno do amor, Roberto Carlos. Uma das ex-mulheres de Dener teve um caso com Roberto. Havia suspeitas de que um dos filhos de Dener era, na verdade, de Roberto. Conta-se que Dener, no leito de morte, perguntou para a mulher se o filho era dele. Se não era, espero que ela tenha mentido.

Dener não morreu de morte violenta, como o jogador de futebol. Nem levou facada no coração, como o menino de Porto Alegre. Dener morreu devido ao alcoolismo.

Eu, quando fiquei sabendo que o menino Denner levou uma facada no coração indo da escola para casa, tive vontade de beber como bebia o Dener de um único ene. Obviamente, porque queria esquecer. Quero ainda. Cada vez que falo nisso, que ele ia da escola para casa, tento pensar em outra coisa, em velhas histórias de personagens dos anos 1970, em craques do passado, num Brasil que não existe mais, qualquer outro pensamento, menos o de que, na minha cidade, um menino, indo da escola para casa, pode levar uma facada no coração porque outra pessoa quer seu celular.

Você entende o que isso significa? Você entende por que não consigo me concentrar no assunto? Você entende que, na minha cidade, um menino não pode ir em paz da escola para casa? Da escola para casa. Pense, que eu não penso mais: da escola para casa.


11 de julho de 2015 | N° 18223 
CLAUDIA LAITANO

Proibidões

Duas belas canções tornam-se terríveis quando levadas ao pé da letra: Se Todos Fossem Iguais a Você, de Tom e Vinícius, e Every Breath You Take, do The Police. Por licença poética, permitimos que Tom e Vinícius imaginem um mundo composto por infinitas versões clonadas da mesma musa e que Sting sonhe em rastrear cada suspiro da mulher amada, mas o que à primeira vista pode parecer romântico torna-se o próprio retrato do inferno se você parar para pensar.

Nos últimos dias, duas notícias nos lembram que na arte, como no amor, qualquer tentativa de controle ou padronização, mesmo bem-intencionada, pode ser fatal. No Rio, um juiz rejeitou denúncia apresentada pelo Ministério Público contra um rapaz preso por PMs, na comunidade Chapéu Mangueira, por estar escutando uma seleção de funks “proibidões” com os amigos na rua. 

As músicas, que falam de brigas de traficantes e mortes de policiais, foram consideradas “apologia ao crime organizado”. Julgando o caso, o juiz Marcos Augusto Peixoto comparou os proibidões de agora às músicas de Chico Buarque censuradas durante a época da ditadura. “Sem dúvida alguma, os proibidões são uma forma de arte. Trata-se de expressão cultural, que deve ser respeitada e debatida, gostemos ou não”, disse o juiz em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Enquanto isso, em Brasília, a deputada federal Moema Gramacho (PT-BA) apresentava na Câmara dos Deputados um projeto de lei “antibaixaria”, proibindo empresas estatais de patrocinarem artistas que desvalorizam mulheres, incentivam a violência, a homofobia, o racismo ou o uso de drogas. (Em tempo: letras que rimam amor e dor estão liberadas, o que deve poupar de exames mais detalhados cerca de 98% das músicas que lideram as paradas no país atualmente.)

Tanto a polícia do Rio quanto a deputada da Bahia têm motivos de sobra para se incomodar com músicas que, de alguma forma, celebram a violência, o sexismo, o preconceito. A liberdade nunca vem sem riscos, mas o controle é pior. A única circunstância em que a arte oferece pouco ou nenhum risco é quando é controlada por um escritório central de regulação do bom gosto e do respeito aos bons costumes – modelo já fartamente testado em ditaduras de todos os tipos.

Proibir o proibidão atenta contra a liberdade de expressão e é uma porta aberta para a censura – assim como a famigerada autorização prévia das biografias. Criar uma lei que regule patrocínios, por sua vez, é um contrassenso, uma vez que nenhum financiamento, público ou privado, é autorizado sem antes passar por alguma espécie de filtro, tanto por parte dos órgãos públicos quanto por parte das empresas que decidem associar sua marca a um determinado produto cultural.


Não, ninguém quer viver em um mundo em que todas as pessoas são iguais e cada respiração é controlada de perto – nem em um país em que todas as obras de arte, boas ou ruins, são submetidas aos gostos e humores de um burocrata.

sexta-feira, 10 de julho de 2015



Por uma vida mais simples

Pode parecer estranho falar de vida mais simples no mundo de hoje, cheio de complicações de todo tipo, linguagens tantas vezes confusas, acordes dissonantes, parafernálias eletrônicas e digitais, sons, imagens e palavras em excesso e complicação até na hora de cozinhar e comer.

Por uma vida mais simples - Histórias, personagens e trajetória da simplicidade voluntária no Brasil (Cultrix, 232 páginas, www.livrovidasimples.com.br), de André Cauduro D'Angelo, professor da Pucrs e da ESPM-Sul, administrador de empresas e mestre em marketing pela Ufrgs, acaba de ser lançado. Em boa hora. Com apresentação da jornalista e escritora Danuza Leão, a obra foi inspirada, principalmente, na leitura do famoso livro norte-americano The Simple Life, do pastor francês Charles Wagner, publicado em Nova Iorque em 1901.

The simple life foi elogiado pelo presidente norte-americano Theodore Roosevelt em discurso e o autor foi recebido por ele na Casa Branca. Trinta e cinco anos depois do lançamento do livro de Wagner, Richard Barlett Gregg, discípulo de Mahatma Gandhi, escreveu o ensaio O valor da simplicidade voluntária, repetindo as lições de Wagner, ao que tudo indica sem ter lido seu livro. Em 1976, Duane Elgin e Arnold Mitchell, pesquisadores de Stanford, publicaram um relatório sobre tendências de comportamento que batizaram de "simplicidade voluntária".

Partindo de tais elementos e de dezenas de livros, e, principalmente, com base em depoimentos de brasileiros como Danuza Leão, Ricarto Setti, Luiz Jacques Saldanha, Paulo Roberto Silva e outros, André Cauduro D'Angelo fala da origem da palavra simplicidade, do bosque de Walden (e do livro de Thoreau) na Região Metropolitana de Boston e de como pessoas mudaram de vida, de modo radical, para viver de modo mais simples.

Milhares de pessoas questionaram a vida que levavam e procuraram a felicidade, deixando, por exemplo, a agitada rotina urbana para abrir uma pousada no litoral. Muitos questionaram o ter em detrimento do ser, a vida estéril em reuniões intermináveis, em escritórios inóspitos, e as cargas de trabalho cavalares, e deram pequenas ou grandes guinadas em suas vidas.
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Num dos depoimentos, o arquiteto Carlos Alberto Capra, 58 anos, de Porto Alegre, diz: "nossa sociedade é baseada no 'ter para ser'. A roupa da moda, a etiqueta, a marca. Quando a gente descobre que não ter nada disso traz felicidade... é o grande momento". Com a mulher, Capra mudou de vida, construiu uma casa de 25 m2, no Interior, deixou um emprego público na Capital e passou a trabalhar como autônomo e a dedicar boa parte do tempo a projetos voluntários.

Com as lições do livro, as indicações bibliográficas do final e, especialmente, com os depoimentos dos "simplificadores", os leitores poderão ter diante de si uma perspectiva diferente, sem dúvida, sobre como viver a vida.

A propósito...

Danuza Leão mudou de casa 36 vezes, entre Brasil e exterior. Morava num apartamento com duas salas, três quartos, dois banheiros, quarto de empregada e tudo mais. Resolveu morar num apartamento com sala e quarto integrados. Teve que desapegar de montes de coisas, livros, cristais, roupas, obrigou-se a simplificar. A gaúcha Sônia Griebeler mudou de uma ampla casa em um condomínio para uma barraca enquanto aguardava a construção de uma nova casa e o momento de se aposentar de um emprego de bancária e mudar radicalmente de vida. Essas e outras histórias estão no livro, mostrando que simplificar é possível e, muitas vezes, necessário.



Uma antologia da poesia erótica
DIVULGAÇÃO/JC

Antologia da poesia

Antologia da poesia erótica brasileira (Ateliê Editorial, 502 páginas, www.atelie.com.br), com organização de Eliane Robert Moraes, professora de Literatura Brasileira da USP e autora de vários livros, tem ilustrações de Arthur Luiz Piza, premiado gravador, pintor e escultor. Impressiona, já de início, pelos cuidados editoriais e pela extensão.

Eliane Robert Moraes é pesquisadora do CNPq, publicou, entre outros livros, Sade-A felicidade libertina (Imago, 1994) e O corpo impossível - A decomposição da figura humana, de Lautréamont a Bataille (Iluminuras, Fapesp, 2002) e, hoje, desenvolve pesquisas sobre as figuras do excesso na prosa de ficção brasileira.

Antologia da poesia erótica apresenta poemas que vão de Gregório de Matos a Alexei Bueno e Cláudia Roquette Pinto, passando por Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Cruz e Sousa, João Cabral de Melo Neto, Dalton Trevisan, José Paulo Paes, Mario Quintana, Arnaldo Antunes, Paulo Leminski, Cacaso, Roberto Piva, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Hilda Hilst, Ana Cristina Cesar, Décio Pignatari, Vinicius de Moraes e dezenas de outros. Como se vê, é uma antologia de amplo espectro e apresenta aos leitores um panorama vasto, tanto em termos de tempo quanto em matéria de vozes diferentes.

Não foram incluídos poetas de gerações mais recentes, por razões não enunciadas, mas possivelmente compreensíveis, e a ausência do grande Manuel Bandeira é explicada na introdução. Há muitos poemas de poetas anônimos e belas e adequadas ilustrações de Arthur Luiz Piza, artista de 87 anos, experiente no tema do erotismo e com vasta carreira no Brasil e no exterior.

Na obra, estão a sensualidade sombria de Augusto dos Anjos, o deboche nonsense de Qorpo Santo, a erótica confessional de Pedro Nava, os cantos libidinosos de Dalton Trevisan, o erotismo mítico de Murilo Mendes, a pornografia concretista de Décio Pignatari, a poética cósmica e lasciva de Roberto Piva, soneto e poema sensuais de Mário de Andrade e, claro, poemas de Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes. O Barão de Itararé, hilário, comparece com uma quadrinha muito engraçada e erótica.

Essa antologia surge quase um século depois das considerações de Mário de Andrade sobre a existência de uma lírica erótica brasileira e percorre mais de quatro séculos, mostrando uma pluralidade de vozes que se afirma como conjunto que nada deixa a dever àquelas "pornografias organizadas" de que falou o criador do lascivo Macunaíma.


O grande conjunto de poemas revela e comprova que os poetas brasileiros, há um tempo, com seu talento, combinaram o rigor do fazer poético com o vigor da ousadia que o tema sugere. Poesia e liberdade dão as mãos nos poemas e o pacto vital se estabelece entre elas e os leitores.


10 de julho de 2015 | N° 18222 
DAVID COIMBRA

Tudo acabou

Quando você acha que tudo acabou, é porque você está acabando. Por isso, fico apreensivo ao pensar que a música brasileira, por exemplo, acabou. Entenda: não estou preocupado com a música, estou preocupado comigo. Porque tenho, de fato, a incômoda impressão de que a música brasileira acabou.

Setenta por cento dos brasileiros gostam do estilo sertanejo. Não são palpite, esses 70%: foi uma pesquisa que saiu outro dia. Bem. Gosto de duas músicas sertanejas: Nuvem de lágrimas, que canto todinha, inclusive com os solfejos, e aquela das luzes da cidade acesa, embora a cidade estar acesa, e não as luzes, me irrite um pouco. Todas as outras milhares, quiçá milhões de músicas sertanejas, me deixam levemente mareado.

O segundo tipo de música mais amado por esse povo inzoneiro é o pagode. E eu? Do Zeca Pagodinho, gosto. Quando preparo uma caipirinha, por alguma razão, dá-me ganas de cantar: “Se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo, pago tudo que consumo com o suor do meu emprego”. Mas Zeca Pagodinho não é pagodinho: é sambão. O samba, deixaram o samba morrer, deixaram o samba acabar.

O futebol brasileiro também acabou. Foi assassinado a mando dos piratas europeus pela Lei Pelé e pelo campeonato de pontos corridos, no começo do século. Não por acaso, a última Seleção Brasileira digna de ser chamada de Seleção Brasileira foi a de 2002. Jogadores como Pato e Anderson, símbolos dessa falência, são arrancados do Brasil aos 17 anos de idade, ou antes disso, quando ainda estão em formação. 

Na Europa, seu jeito de jogar é mutilado. Eles perdem a brasilidade. Não são mais jogadores brasileiros, nem se tornam jogadores europeus. Donde, a falta de talentos no Brasil. Por que nosso único craque é Neymar? Agradeçam ao Santos, que o segurou até que amadurecesse. Hoje, o maior atacante do Brasileirão é um peruano, que na quarta-feira desmontou sozinho o Inter, no Beira-Rio. Um peruano, imagine.

Finalmente, da política brasileira só restaram trevas. No caso horripilante do governo federal, até a corrupção seria aceitável, desde que não houvesse ridicularias como a presidente comparar delação premiada, voluntária e constitucional com delação feita sob tortura, ou o destrambelhado discurso de saudação à mandioca. Quem escreve os discursos da Dilma? Por favor! Um presidente da República, quando vira objeto de mofa, torna também o país objeto de mofa.

É tão trágica a política brasileira, que, dia desses, me peguei decidindo: “Nunca mais voto no PT, nem no PSDB, no PP também não dá, nesses exageros à esquerda, como PSOL e PSTU, é impossível, o PC do B é coisa da Coreia do Norte, o PTB é uma piada, o...”.

Então, parei. Percebi que, realmente, a política brasileira acabou.

Fico aqui, cevando minhas nostalgias. Ah, aqueles tempos de Zico e Ulysses, de Caetano e Romário, de Brizola e Tom, de Simonsen e Garrincha na direita e Prestes e Rivellino na esquerda, ah, aqueles tempos em que o Brasil ria de si mesmo, para onde foram? Para onde foram todos? Eu mesmo, o que será de mim? Será que acabei e não sei? Será?


10 de julho de 2015 | N° 18222


MARCOS PIANGERS

Quero que você finja

Quero que sorria se alguém disser que está crescida. Se alguém elogiar seu vestido, diga “muito obrigado”. Diga que o elogio é muito importante pra você. Mesmo que você considere o elogio bobo, que suponha que a pessoa não tem capacidade para avaliar se o vestido é mesmo bonito. Quero que você finja. Quero que sorria e diga “muito obrigado”. Quero que faça parecer sincero.

Quando você souber mais do que o professor, quero que não demonstre isso de forma grosseira. Quero que guarde suas espertezas para si. Ajude os colegas com dificuldades, tente explicar de uma forma paciente. Não tenha prazer em constranger outras pessoas. Já fiz isso e não me orgulho. Não é uma boa sensação, no longo prazo.

Sei que, por alguns anos, você vai achar o mundo um lugar estúpido. As conversas de elevador são estúpidas, as perguntas nas provas são estúpidas, as ideias dos chefes são estúpidas. Você realmente sabe mais do que todo mundo. Você tem soluções melhores, tomaria decisões melhores, conversaria sobre coisas mais importantes. Mas quero que você finja. Quero que você seja convincente em considerar outras pessoas valiosas. Quero que ouça suas conversas vazias com atenção. Quero que faça perguntas, que as faça sentirem-se importantes.

Quero que você finja ser doce, quando não tiver vontade. Que finja que tem prazer em segurar a porta para os outros, em ajudar nas compras, em ouvir histórias de pessoas idosas. Quando não sentir vontade, diga “fale-me mais sobre isso”. Converse com as pessoas sem olhar para o celular. Quero que você finja que se importa. Que finja que se preocupa. Que seja cortês, mesmo quando ninguém devolver cortesias.

Quero que você finja. Que se torne perita em simular doçuras. Que seja ótima em praticar bondades, em estabelecer empatias. Você já terá sido muito melhor que eu. E quando menos notar, será aquilo que fingia ser. Será doce, bondosa e atenciosa. Receberá carinho de todos. E encontrará pessoas mais jovens que você, mais cínicas e presunçosas. E espero que elas digam: “Muito obrigado, senhora. Seu elogio é muito importante pra mim”. E espero que você acredite.