quinta-feira, 9 de julho de 2015




09 de julho de 2015 | N° 18221
ARTIGOS - EDEGAR PRETTO*

#ELESPORELAS

Nós, homens, podemos e devemos ser aliados na luta feminista. Precisamos nos posicionar e conversar uns com os outros para que possamos eliminar todas as formas de desigualdade de direitos entre homens e mulheres. Muito já foi conquistado pelo movimento até hoje, mas está na hora de entendermos que a luta por equidade de gênero também é nossa, dos homens.

Nesse contexto, a ONU lançou em 2014 a campanha #ElesPorElas (#HeForShe em inglês). Em síntese, um movimento de solidariedade pela igualdade de gênero. O objetivo é envolver homens e meninos como defensores e agentes de mudança para alcançar a igualdade de gênero e a eliminação de todas as formas de discriminação e violência contra as mulheres e meninas.

O pontapé da ação #HeForShe na América Latina foi dado no último dia 25 de junho em Foz do Iguaçu, ocasião em que a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul tornou-se signatária do movimento, a partir das ações da Frente Parlamentar dos Homens pelo Fim da Violência contra a Mulher, que coordenamos há cinco anos.

A dupla Gre-Nal já fez seu gol de placa escalando seus craques para vestirem a camiseta da campanha #ElesPorElas.

Com a adesão, a frente também entra para o comitê nacional impulsor Brasil Eles por Elas. Nossa tarefa agora é desdobrar um conjunto de agendas visando ao envolvimento de diferentes setores neste tema. O trabalho que começamos no Rio Grande do Sul já é referência no Brasil e para as Nações Unidas. Isso nos encoraja muito para seguir a grande luta de conversar com os homens sobre igualdade de gênero e o fim da violência contra as mulheres.

Como bem disse a embaixadora da boa vontade da ONU, a atriz Emma Watson, esta é uma campanha sobre liberdade em que “todos nós queremos que os homens comecem essa luta para que suas filhas, irmãs e esposas possam se livrar do preconceito, mas também para que seus filhos sejam livres para serem vulneráveis e humanos e, fazendo isso, sejam uma versão mais completa de si mesmos”. Essa é a nossa luta. E acredito que todos os gaúchos e gaúchas devem, sim, se mover na mesma direção.

Deputado estadual (PT), coordenador da Frente Parlamentar dos Homens pelo Fim da Violência Contra as Mulheres*



09 de julho de 2015 | N° 18221
LUCIANO ALABARSE

A FAVOR DAS SOBERANIAS

Quase sempre o que me leva a um livro é seu autor. Mas não só. Gosto de ficar flanando pelas livrarias, folheando livros desconhecidos, dos quais não tenho referências. Esses dias, um título, Toda Luz que Não Podemos Ver, capturou minha atenção. A capa e a gramatura da edição brasileira me encantaram.

O enredo sobre dois adolescentes, uma cega francesa e um órfão alemão, ambientado na II Guerra Mundial, esfriou meu entusiasmo. Vencida a ideia de que seria meloso, comprei o dito-cujo e me atraquei na leitura. Os capítulos curtos, vim a saber depois, se devem às responsabilidades paternas de Anthony Doerr, que o escreveu cuidando dos dois filhos pequenos. O romance acaba de ganhar o prêmio Pulitzer de ficção e deve ser lido. Literatura de primeira.

De primeira também é o show que Muni está preparando para comemorar, em setembro, dentro do Porto Alegre Em Cena, as três primeiras décadas de sua carreira. Junto com Adriana Calcanhotto, ela é a minha cantora gaúcha preferida. Uma das maiores do Brasil. Se você nunca a ouviu, prepare seu coração. De título quilométrico, retirado de uma canção de Macalé, Meu Amor me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata, dirigido por Luciana Éboli, o show da Muni promete. Para marcar na agenda.

A agenda de Caetano Veloso o levará a cantar em Israel no final deste mês. Movimentos pró-palestinos e músicos mundialmente conhecidos, como Roger Waters, pediram ao baiano que cancelasse o show. Li a carta em que explica suas razões para não o fazer.

Sem confundir povo e governo, segundo ele, de nada adiantaria cancelar um show em revide à “política de direita arrogante” de Netanyahu e que é preciso separar as ações do governo do pensamento e das atitudes dos israelenses. Enquanto isso, comprei o DVD de Inch’Allah, produção franco-canadense que trata dessa situação de confronto, o mais belo filme a que assisti nos últimos tempos. Não sou judeu. Não sou palestino. Sou um brasileiro totalmente a favor de que Israel e Palestina sejam, ambos, Estados soberanos.


09 de julho de 2015 | N° 18221
DAVID COIMBRA

O que fazer depois de morto

É certo que as pessoas ficam mais espertas depois de mortas. Mais poderosas, também. Aquela menina que morreu aos 14 anos de idade em Palmitinho, por exemplo. Parece que ela anda fazendo milagres agora. Há quem diga, inclusive, que se vingou do seu suposto assassino, matando-o de doença.

Quer dizer: viva, a menina nada podia fazer contra seu agressor; morta, acabou com ele.

É que, morto, o ser humano fica privado de corpo, mas enche-se de habilidades. Alguns mortos conseguem prever o futuro e contam o que vai acontecer para médiuns vivos com quem se relacionam. Mas não acredito que seja a decomposição física que os transforme em adivinhões. Suponho que tenham acesso a informação privilegiada. Todos aqueles santos e anjos e demais entidades devem saber das coisas.

O que mais me intriga são os mortos que viram fantasmas. As chamadas almas penadas. O espírito de Ana Bolena é um que continua vagando por aí, mais precisamente em volta da Torre de Londres, onde ela passou seus últimos dias como viva. Repare que faz quase 500 anos que Ana Bolena foi decapitada, e os turistas vez em quando a encontram nas cercanias da Torre, caminhando com sua cabeça debaixo do braço. Isso é curioso, porque, aparentemente, Ana se conformou com a morte. Ao subir no cadafalso, ela estava muito digna. Encarou a multidão como a rainha que foi e deu um discurso elegante, elogiando o ex-marido, o rei Henrique VIII, que havia mandado matá-la. Depois, olhou para o carrasco, alisou o próprio pescoço, que seria cortado, e comentou:

– É fino, não é?

Sensual até o último minuto. Por que, então, a revolta de seu espírito descarnado?

Outro fantasma interessante é o de Abigail Adams, considerada pioneira do feminismo, mulher do segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams, e mãe de Quincy Adams, que também seria presidente da República. Tinha, portanto, intimidade com a Casa Branca. E na Casa Branca ela continua, pelo menos em espírito. Várias pessoas disseram ter visto o espectro de Abigail carregando roupas para lavar numa ala do palácio, atividade que ela exercia enquanto viva. Uma feminista que passa a eternidade lavando roupa, que crueldade...

A Casa Branca é cheia de fantasmas. Uma vez, Churchill estava hospedado lá, saiu do banho completamente pelado e deparou com ninguém senão Abraham Lincoln, que fora assassinado havia mais de cem anos. Churchill ficou apavorado, cobriu o corpo volumoso e branco o mais rápido que pôde e exigiu trocar de suíte.


Essas aparições me levam a concluir que fantasmas residem em locais aos quais se apegaram quando vivos. Eu, se me tornasse fantasma, para onde iria? Não gostaria de assombrar ninguém. Não. Seria decerto um espírito preguiçoso: passaria a sempiternidade sentado numa cadeira, à mesa do bar, junto com meus amigos. Com meus poderes sobrenaturais, faria murchar batatinhas fritas e mofar sanduíches abertos, até que um deles pedisse um chope para mim. Aí, sim, minha alma sedenta descansaria em paz, e eu ficaria só ouvindo os camaradas a dizer besteiras e a contar vantagens, a falar de mulheres difíceis e de gols fáceis, para todo o sempre. Amém.


09 de julho de 2015 | N° 18221
L. F. VERISSIMO

“OXI” NELES

Pode ter sido um voto emocional e apenas simbólico, mas o que simbolizou foi histórico. Votando “não” (“oxi”) num plebiscito que endossou a rebeldia do seu governo diante do capital financeiro da Europa, os gregos foram os primeiros a desafiar, oficialmente, a ditadura da Austeridade, que há quase 7 anos – contados a partir da crise bancária de 2008 – martiriza populações inteiras sem mostrar nenhum resultado, a não ser aumentar o poder dos credores... Tudo em nome de uma “responsabilidade” fiscal amoral, que ignora o custo humano do arrocho.

O economista Paul Krugman, que tem sido o crítico mais constante da Austeridade, compara a sua receita para acabar com a crise com a dos médicos medievais cuja cura para qualquer doença era a sangria. Se a sangria não desse certo, eles só tinham um recurso: mais sangria. Contra todas as evidências de que a Austeridade não está dando certo e só continua porque favorece os donos do dinheiro e, como um brinde aos neoliberais, desmonta, sob o disfarce da “responsabilidade”, as estruturas do bem-estar social da Europa que eram um exemplo para o mundo, dê-lhe sangrias.

O “oxi” não vai reverter esta situação e talvez a piore, dependendo da punição que vem aí para a malcriação grega. Mas o exemplo está dado. A única diferença entre a rebeldia grega e a inconformidade com o arrocho que tem enchido as ruas na Europa, até na Inglaterra, é que o “oxi” veio de uma consulta ao povo organizada pelo governo, enquanto os protestos em outros lugares são organizados, ou desorganizados, extraoficialmente.

Nenhum país devedor se arriscaria a imitar a Grécia, e só se pode especular sobre o resultado de um plebiscito parecido na Espanha, por exemplo. Lá, o movimento chamado “Podemos” não quer outra coisa senão a oportunidade de também oxidar como os gregos.


O Brasil de Joaquim Levy adotou a sangria como tratamento. Sem consultar o paciente, a não ser que se considere a eleição da Dilma para seu segundo mandato como uma espécie de plebiscito. Neste caso, o resultado da consulta não foi respeitado. A maioria disse “oxi”, a Dilma ouviu “sim”. E chamou o Levy.

quarta-feira, 8 de julho de 2015



08 de julho de 2015 | N° 18218 
MARTHA MEDEIROS

Sem palavras

Acabo de ser apresentada ao trabalho de John Koenig, um web designer americano que lançou uma série na internet chamada Dicionário das Dores Obscuras (Dictionary of Obscure Sorrows). A intenção é nomear emoções ainda indefinidas. Qual é o nome para aquele desejo de desaparecer que nos acomete no meio de uma quinta-feira qualquer? Como se chama aquele frisson ao fazermos um ligeiro contato visual com algum desconhecido? 

Que palavra resumiria o desconforto de perceber que estamos apenas repetindo a história já vivida por tantos? E a angústia de que o tempo está passando cada vez mais rápido? A cada semana, Koenig posta belos vídeos de cerca de três minutos apresentando uma palavra inventada para conceituar tudo isso. O texto é inteligente, melancólico e comove. Como diz uma amiga minha: como é que ninguém pensou nisso antes?

O projeto é original (vale a pena dar uma olhada, está no YouTube), mas fiquei pensando: a gente precisa mesmo nomear o inominável? Me vieram à cabeça dezenas de situações que experimento e que nunca foram batizadas. Por exemplo, algo bom me deixar inexplicavelmente triste. Lembrar cenas de um passado remoto que não sei se aconteceram mesmo ou se inventei. 

Abrir meu coração e, ainda assim, parecer que estou mentindo. Ter a súbita consciência de que não faz sentido me preocupar com o que quer que seja. Não conseguir desviar os olhos do fogo. Estar numa festa e sentir como se estivesse vendo tudo aquilo de fora, como se eu não estivesse ali de verdade. Imaginar coisas terríveis acontecendo com quem mais amo, logo com eles.

Ao entrar nesse assunto, é inevitável lembrar a palavra saudade, que não existe no vocabulário de quem fala inglês. Anglo-saxões costumam sentir falta (I miss you), mas não possuem um substantivo que defina essa sensação de ausência dolorida. 

Nós possuímos e a usamos sem parcimônia. Nas redes sociais, declaramos sentir saudade de amigos, inimigos, de tudo e de todos, da última festa, do último beijo, do último churrasco, saudade de ontem e também dos velhos tempos, saudade dos outros, de nós mesmos, saudade de quem se foi para sempre e de quem viajou semana passada, saudade de sabores, de músicas, de turmas, de épocas. É tanta saudade assim? Ou o fato de termos uma palavra à mão é que invoca tamanha nostalgia?

Como escreveu Adélia Prado: a coisa mais fina do mundo é o sentimento. Ele não se presta a banalizações. Portanto, esses inúmeros insights que me ocorrem e que ocorrem também a você, sem que haja nenhuma palavra que os especifique e conceitue, talvez sejam os últimos meios de conceder algum lirismo à nossa existência. A poesia é o verdadeiro dicionário das dores obscuras.


08 de julho de 2015 | N° 18218 
MOISÉS MENDES

O ato falho de Aécio

A melhor piada sobre a Tática Eduardo Cunha – de tentar aprovar no dia seguinte o que foi rejeitado no dia anterior – está no site da revista Piauí. Conta que o Brasil poderia recorrer à tática da repetição, para que, em jogos sucessivos, um dia o Brasil ganhasse da Alemanha por 7 a 1.

Brasil e Alemanha só iriam parar de jogar quando o placar mais vexatório de uma Copa se repetisse ao inverso. O problema é combinar com os alemães.

Outra ideia da Tática Eduardo Cunha que vem circulando pela Aberta dos Morros é sobre o trauma dos tucanos. Ontem, Aécio Neves disse em entrevista ao Potter e ao David Coimbra, no Timeline da Gaúcha, que foi reeleito presidente da República no fim de semana.

Seu Mércio estava ouvindo e caiu do banquinho. Mas entendeu. É o ato falho de quem deseja muito chegar ao poder. E pode chegar. Pelo método Cunha de obter vitórias a qualquer custo, o Brasil faria eleições a cada seis meses, sucessivamente, até que alguém do PSDB vencesse.

Começaria, por antiguidade, pelo Serra, que já perdeu duas e tem mais experiência. Depois, viria Alckmin, com o programa Sua Sede Sua Água. Por último, Aécio.

Seu Mércio é guarda de rua na Aberta. Escuta rádio todo o dia. Ouviu falarem da LECRAV pela primeira vez na semana passada. A LECRAV é a Lei Eduardo Cunha da Repetição Até a Vitória (que já seria uma lei, aprovada pelo Congresso, depois de 16 votações sucessivas).

Pela LECRAV, se ao final de 12 anos nenhum tucano for eleito, deve ser tentado então o impeachment de quem estiver no poder. A Câmara deveria realizar votações consecutivas até a obtenção de dois terços para a cassação do mandato de Lula, Dilma, do Levy Fidelix, da Luciana ou da Marina Silva.

Os tucanos teriam o direito adquirido, depois de muita insistência, de pedir o impeachment de quem estivesse no governo.

Se for Dilma, se repetirá no Brasil o que aconteceu com o poderoso ministro das Finanças da Grécia. Yanis Varoufakis, mandado embora pelos europeus, montou na sua moto e saiu acenando para os jornalistas. Poderemos ver Dilma deixando o Palácio do Planalto de bicicleta.

Um dia depois, Aécio – que assumiria em caso de impeachment – desembarcaria no poder de helicóptero, apesar de alguns defenderem que deva chegar montado num cavalo branco, com o Eduardo Cunha ou o Renan Calheiros na garupa.

Mas não desembarcaria em Brasília, e sim no Aterro do Flamengo. O governo tucano restabeleceria o charme do Palácio do Catete. Seu Mércio acha que a política retrô é muito mais divertida no Rio.


08 de julho de 2015 | N° 18218 
PEDRO GONZAGA

ZILINHA

Enquanto escrevo esta linha, minha avó, aqui ao meu lado, estende um casaquinho que ela acaba de costurar, fazendo sumir dois furos do tamanho de marcas de cigarro em uma das mangas, como se não fossem agora mais que leves relevos no tecido. Nem a visão imperfeita, nem a artrite consumiram sua incrível habilidade para a costura.

Esta é a Zilinha. É provável que vocês não a conheçam, mas, se passam com alguma frequência pela Felipe Camarão, por volta do meio-dia, podem vê-la, caminhando devagar mas resoluta, por vezes sozinha, por vezes na companhia da Dona Rucy, em direção ao bufê a quilo quase na esquina da Osvaldo Aranha. Minha avó gosta dos doces que servem por lá.

Enquanto escrevo esta linha, ela me diz que hoje as pessoas jogam tudo fora. É verdade, vó, eu também jogo, digo, um pouco desconfortável com o conforto que me cerca e de que tanto reclamo nas horas vadias das redes sociais.

Reclamar é da espécie. Mais do que o homo sapiens, somos o homo reclamans. Mas reclamar de barriga cheia é feio. Nunca vi minha avó, a uma semana de seus 89 anos, reclamar de nada.

Sua capacidade de reaproveitar as coisas. Gordos desde muito cedo, meu irmão e eu contávamos, a cada seis meses, com umas faixas de tecido que a vó costurava às laterais das bermudas. Ao olhar para minhas coxas ainda agora fartas, sinto saudades daquela folga.

A Zilinha mitava nas fantasias de Carnaval dos nossos bailes de criança na SACC. Por falar nisso, sendo eu o mais velho, escolhia sempre a melhor para mim, convencendo-a, sem que ela percebesse, a coser para meu irmão um traje ridículo. Para mim o pirata, com sabre e tapa-olho, para meu irmão o palhaço, com direito a peruquinha de cabelos verdes. Para mim o Space Ghost, com seu capuz e o bracelete de utilidades, para ele o macaquinho coadjuvante da série, com uma sunga que tinha um rabo que descia até ao chão. A maldade de direito dos irmãos mais velhos: há quanto tempo...

Enquanto escrevo esta linha, minha avó pergunta se tenho algum botão a pregar.

Está tudo certo, vozinha. Por ora, está tudo certo.


08 de julho de 2015 | N° 18218 
DAVID COIMBRA

Esse menino, essa escola

O imponente prédio da foto é a famosa HMS, a Escola de Medicina de Harvard, onde estudaram nada menos do que 15 Prêmios Nobel. Você já deve ter visto essa paisagem em filmes. Ali, no gramado perfeito, são realizadas as formaturas em cerimônias sempre emocionantes, e no encerramento os alunos atiram os chapéus para o alto, aquela coisa.

Repare, bem pequenininho, no menino que caminha em direção às escadarias.

Esse menino.

Fiquei pensando que esse menino pode, um dia, subir aquelas escadarias como aluno de Harvard. Talvez o pai desse menino tenha sorte de viver o suficiente para vê-lo formar-se médico na HMS. Talvez.

Medicina é uma bonita profissão. Schopenhauer escreveu que a felicidade é a ausência de dor. E é. Ora, a principal função do médico é aliviar a dor. Ou acabar com ela. Quer dizer: levar a felicidade às outras pessoas. O que pode ser mais elevado?

Nos últimos tempos, por contingências pessoais, estive em contato mais amiúde com médicos. Conheci alguns que posso classificar como seres humanos superiores. Vou citar três brasileiros, que das pessoas boas devemos falar e das ruins devemos calar: André Fay, Carlos Barrios e Fábio Franke. São três idealistas, que estão fazendo muito e muito mais ainda farão pelo Brasil.

Quem sabe esse menino, mesmo formado em Harvard, não vá, ele também, fazer muito pelo Brasil. Ou pela humanidade, por que não? Um único médico pode fazer grandes coisas pela humanidade. Sabe qual é o nome da rua que margeia a Escola de Medicina de Harvard? Louis Pasteur. Quantos milhões salvou Pasteur com suas descobertas? Cada vez que você tomar um leite “pasteurizado”, renda um preito a Pasteur. Que herói da raça humana! Não por acaso, seu corpo está sepultado num belo mausoléu no instituto que leva seu nome, em Paris.

Nós brasileiros poderíamos honrar mais o grande Oswaldo Cruz, por exemplo, que, no começo do século 20, vacinou à força a população do Rio, erradicou a varíola e a febre amarela e jogou luz sobre as trevas em que vivia o Brasil.

Ah, esse menino bem pode ser grande assim. Ou nem tanto. Pode ser simplesmente um homem honrado, que melhore a vida das pessoas que convivam com ele. É o que basta. Vejo-o dentro da toga, sorridente. Vejo seu pai sentado numa cadeirinha sobre o jardim da faculdade, com lágrimas nos olhos. Um velho e emotivo pai, que gosta de imaginar o futuro do seu menino.

terça-feira, 7 de julho de 2015



07 de julho de 2015 | N° 18217 
CARPINEJAR

Confiar é amar

Amar e confiar são a mesma coisa.

Demorei a perceber. Por isso confiamos em pouquíssimas pessoas em nossa vida.

E podemos passar uma vida inteira sem confiar em ninguém. É tão difícil confiar quanto amar. Tão raro. A confiança e o amor são conquistados. Exigem tempo, observação, sinceridade, lealdade, soma de atitudes.

Não é porque é sua mãe ou seu pai ou seu irmão que você vai confiar. Família não traz garantias. Confiar não é genético. Confiar é intimidade recompensada. Confiar é recíproco. É quando damos e recebemos simultaneamente. Confiar é contar um segredo e ver, já no finzinho de nossa história, que nunca foi revelado.

É uma previdência privada de nossos mistérios. É quando as ações comprovam as palavras.

Confiar não é para os apressados, mas representa o retorno de uma longa viagem mental. É a velhice dos nossos hábitos, a velhice das nossas frases, a velhice de nossos juramentos. É quando um gesto recebeu a proteção do silêncio.

Quando alguém confia sem conhecer, na verdade, está esperando confiar. É uma aposta para tornar mais fácil a convivência. Demonstramos despojamento no início das relações, mas somos complexos no decorrer da cumplicidade. Entregamos a chave da nossa casa para perguntar todo dia se o outro não a extraviou. E perguntar é desconfiar.

No máximo, confiamos desconfiando. Com o pé atrás e um olho lá na frente. Confiamos com medo de confiar, sofrendo o receio de ser enganados, tremendo por depender de alguém, temendo pela nossa vulnerabilidade. Assim como o amor.

Falamos que amamos antes de amar, para nos convencer de que é amor. Falamos que confiamos antes de confiar, para nos convencer de que é amizade.

Confiar é se desiludir, é se frustrar, é se decepcionar. Assim como o amor. É criar as mais altas expectativas e depois se acomodar com o que é possível. Como o amor.

É aparecer com todas as certezas do mundo de que aquela é a pessoa certa e descobrir, aos poucos, que ela mente e pensa torto como você. Confiar dói. Como o amor. Ainda mais quando a confiança é quebrada e não há como restaurá-la com discussões, colá-la com desculpas, consertá-la com declarações grandiloquentes.

Confiar é ter uma relação única com alguém, inimitável, e não dividi-la com um terceiro. É o contrário da falsidade, que significa ser igual com todos fingindo diferença e exclusividade.

Deixar de confiar é deixar de amar – perde-se junto a admiração, o alumbramento e o respeito incondicional. Deve-se desamar para amar de novo.


07 de julho de 2015 | N° 18217
ECONOMIA EM MEIO À CRISE

Planalto anuncia programa para tentar preservar 50 mil empregos

MEDIDA PROVISÓRIA ENVIADA para o Congresso permite reduzir salário e jornada de trabalhoem até 30%. Metade da perda dos proventos será custeada pelo FAT. Objetivo é evitar demissões

Diante de um cenário de desaceleração da economia brasileira e demissões (mais de 240 mil vagas de trabalho foram cortadas neste ano), a presidente Dilma Rousseff definiu ontem a criação de um programa para preservar o emprego no país. O Programa de Proteção ao Emprego (PPE) prevê a redução em até 30% da jornada de trabalho, com diminuição proporcional de salários dos trabalhadores em períodos de crise, por no máximo um ano.

O programa, cuja vigência terá início hoje, com a publicação de medida provisória, foi resultado de negociação das centrais sindicais, indústria e o Planalto. A proposta do governo é de complementar metade da redução da renda do trabalhador com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), totalizando ao empregado uma perda mínima de 15% do seu salário.

O custo projetado para o novo programa é de R$ 95 milhões para um ano e meio, sendo R$ 26,9 milhões em 2015 e R$ 67,9 milhões em 2016. Estima-se que irá preservar o emprego de 50 mil trabalhadores com salário médio de R$ 2,2 mil. A ideia é que as empresas, principalmente de setores críticos como a indústria, evitem demissões, poupando o governo de pagar mais seguro-desemprego e de perder arrecadação das contribuições sociais e tributos.

O programa terá vigência até o fim de 2016. Para Miguel Rossetto, ministro da Secretaria- Geral da Presidência, os gastos com o programa superam os desembolsos que o governo teria com seguro-desemprego.

– É mais inteligente usarmos recursos públicos para mantermos emprego do que financiarmos o desemprego – argumenta Rossetto.

ADESÃO A PLANO SÓ APÓS ACORDO COM SINDICATO

Uma empresa só poderá lançar mão do programa em caso de crise econômica cíclica ou sistêmica, que deve ser comprovada ao sindicato da categoria e ao governo federal. Esse problema econômico não pode ser motivado por má gestão. A redução só será aceita se houver acordo entre sindicato e companhia.

As empresas que aderirem não poderão dispensar os empregados que tiveram sua jornada reduzida enquanto vigorar o regime diferenciado de trabalho. No fim do programa, o trabalhador não poderá ser demitido por prazo equivalente a um terço do período de adesão. Um comitê interministerial definirá nos próximos 15 dias os indicadores econômicos e financeiros para o enquadramento dos setores e empresas no plano.
  
COMO DEVE FUNCIONAR A PROPOSTA

A meta do Programa de Proteção ao Emprego é estimular a permanência de trabalhadores em empresas sob dificuldades financeiras temporárias

-Permite a redução da jornada de trabalho em até 30%, com uma complementação de 50% da perda salarial pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), limitada a 65% do maior benefício do seguro-desemprego (R$ 1.385,91 x 65% = R$ 900,84).

Exemplo

-Numa redução de 30% da jornada, um trabalhador que ganha hoje R$ 2,5 mil de salário e entra no PPE passará a receber R$ 2.125, dos quais R$ 1.750 pagos pelo empregador e R$ 375 com recursos do FAT.

A ADESÃO

-Os setores que poderão aderir ao PPE serão definidos pelo Comitê do Programa de Proteção ao Emprego, formado por representantes dos ministérios do Planejamento, da Fazenda, do Trabalho, do Desenvolvimento e da Secretaria-Geral da Presidência .
-As empresas e os trabalhadores deverão fixar a decisão em aderir por meio de acordo coletivo específico, no qual a empresa deverá comprovar sua situação de dificuldade econômico-financeira.
POR QUANTO TEMPO
-O período de validade para a utilização do programa é de seis meses, podendo ser prorrogável, com limite máximo de 12 meses.
AS CONTRAPARTIDAS
-As empresas que aderirem ao PPE não poderão dispensar os empregados que tiveram sua jornada de trabalho reduzida temporariamente enquanto vigorar a adesão. No final do período, o vínculo trabalhista será obrigatório por prazo equivalente a um terço do período de adesão.
INSS E FGTS
-A contribuição do empregado e do empregador para o INSS e FGTS incidirá sobre o salário complementado, ou seja, sobre 85% do salário original. O custo de salários e encargos para o empregador será reduzido em 27%, afirma o governo.
A MOTIVAÇÃO
-O trabalhador mantém o emprego, preserva o saldo do FGTS e permanece com todos os benefícios trabalhistas preservados.
A As empresas mantêm os trabalhadores qualificados e reduzem custos com demissão, contratação e treinamento, além de terem o gasto com salários reduzido em 30%.

A E o governo federal mantém parte da arrecadação com as contribuições sociais incidentes sobre os salários.


07 de julho de 2015 | N° 18217 
LUIZ PAULO VASCONCELLOS

DICAS PARA O PALADAR

Existem uns sete ou oito lugares que você não pode deixar de ir antes de morrer. Pode até ir depois, mas aí o paladar não vai ser mais o mesmo. Portanto, é melhor ir antes.

O primeiro deles é um restaurante chamado A Canga, no quilômetro 9 da RS-122, em São Sebastião do Caí. Especializado em culinária húngara, A Canga oferece aos domingos um almoço que é para se comer de joelhos. Começa com uma sopa que eu recomendo não repetir por causa do que ainda está por vir.

Aí vem os pimentões – Tölttott Paprika – recheados de carne e arroz, mergulhados num molho adocicado de tomates chamado Paradicsom Szósz. Finalmente, junto com os pimentões, vêm os franguinhos fritos, sequinhos, deliciosos. Aquele que não pode tomar uma cervejinha, porque está dirigindo, pode tomar uns sucos maravilhosos que merecem o nosso prestígio.

O segundo é um bar-restaurante no extremo sul da praia de Garopaba chamado – ops! onde é que eu pus as anotações? Não sei, perdi. Mas não importa. Eu explico: você vai caminhando pela areia em direção ao sul e na última casa, a que faz fronteira com a ponte e onde começa a rua que vai até a igreja, está o tal bar. Não tem como errar. O proprietário – como é o nome dele? Gelson?

Gilson? não me lembro –, um filho de pescador com alma de empresário, te recebe com cordialidade e simpatia e gentilmente te passa o cardápio. Aí, você surta. Ou quase. Os pastéis sequinhos de queijo e camarão, as iscas de peixe fritinhas e mais dezenas e dezenas de delícias.

O terceiro... Bom, falei em sete ou oito e só escrevi sobre dois. Falta de espaço. Depois eu volto ao tema.



07 de julho de 2015 | N° 18217
DAVID COIMBRA

Não empreste dinheiro

O caso Grécia versus Alemanha mostra como é verdadeira a máxima segundo a qual, se você quer perder um amigo, deve emprestar dinheiro a ele.

A amizade entre gregos e germânicos provavelmente ficará abalada com toda essa discussão, dividindo também os simpatizantes de uns e outros. Talvez a maior parte do mundo esteja “torcendo”, digamos assim, pelos gregos, porque é da natureza humana torcer pelo mais fraco, mas tenho cá minhas dúvidas se essa parte do mundo está certa.

Pelo seguinte: não sei se o pagamento da dívida é o verdadeiro problema dos gregos.

Digo isso por experiência pessoal. Passei a infância e a juventude ouvindo que a dívida externa era o maior problema do Brasil. Havia intensos debates a respeito. Economistas faziam cálculos indicando quanto cada brasileiro devia, dividindo o montante da dívida pelo número de habitantes do país. Dizia-se, então, que o brasileiro já nascia devendo. Nos muros, pichava-se: “Fora FMI”. E as esquerdas pregavam o calote como manifestação de soberania.

Bem. Aos poucos, a dívida foi paga. E o que aconteceu? Nada. As pessoas continuam vivendo mal, no Brasil.

Pegue duas áreas fundamentais: educação e segurança pública. No tempo em que o Brasil estava endividado, eu estudava em ótimas escolas públicas e andava tranquilamente pelas ruas de Porto Alegre de madrugada. Hoje, o Brasil não deve um dólar, mas, se eu quisesse boa escola, teria de procurar uma particular, e não poderia flanar às quatro da manhã sem ver a boca de um trezoitão fazendo ó para mim.

Então, diria para os gregos que não vai adiantar dar calote, não vai adiantar eleger um novo Péricles, nada vai adiantar, a não ser uma gradual e profunda mudança estrutural. E mudanças estruturais profundas, mesmo graduais, doem.


Tudo flui
Um dos maiores gregos de todos os tempos, Heráclito, “O Obscuro”, dizia: “Panta rei”. Ou: “Tudo flui”.

É dele aquela imagem que já dura 25 séculos: “O mesmo homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio”.

Sim, porque o rio está sempre correndo, sempre mudando, nunca é o mesmo rio, e o homem também está sempre mudando, nunca é o mesmo homem.

Isso é tanto verdade que os gregos mudaram, não são mais os do tempo de Heráclito. Assim como os antigos egípcios construtores de pirâmides e os austeros romanos dos tempos da república, os gregos que inventaram a filosofia, o teatro e a democracia não existem mais. Deles, restaram estátuas sem braços e ideias que abraçam.

Por exemplo: Heráclito também dizia que tudo, no mundo, se transforma em seu contrário, no devido tempo. Porque os contrários são dois aspectos do mesmo, como a morte só existe se houver vida, fazendo com que o que vive, ainda que anseie pela imortalidade, pulse pela morte – uma antecipação de Freud.

Segundo Heráclito, é a tensão dos contrários que produz a energia, o movimento e, por fim, o equilíbrio – uma antecipação de Hegel.

Talvez seja esse o destino da tensão que ora afasta gregos e germânicos: a harmonia, no final. Mas só no final.

segunda-feira, 6 de julho de 2015




06 de julho de 2015 | N° 18216
ARTIGO -  NELSON JOBIM*

A MAGISTRATURA

O nosso Poder Judiciário é de tradição continental europeia. Lá, as mudanças vieram com a Revolução Francesa. Até então, o conflito entre a magistratura e o rei foi uma característica final do velho regime.

A burguesia havia se introduzido na magistratura para, pela sentença, negar vigência às normas oriundas da aristocracia. Foi o momento do “Parlement de Paris”, cuja oposição ao Regime foi estimulada pelos revolucionários emergentes.

Vitoriosa a Revolução, mudou o relacionamento desta com os magistrados. Passaram estes a ser vistos como funcionários que tinham o dever de aplicar o direito positivo – a lei – criado pela Assembleia Nacional, única representante dos interesses populares.

Não poderia a magistratura sobrepor-se ao povo, única origem do poder, que se reunia na Assembleia Nacional. Assim, estrutura-se uma magistratura de modelo burocrático e piramidal, cuja função era aplicar a lei ao caso concreto, sem se desviar daquela.

Os conteúdos das sentenças dos juízes nada mais eram do que o resultado de uma operação lógica: a lei, os fatos e a conclusão, como aplicação da primeira sobre a segunda.

Não tinha o juiz nenhuma responsabilidade quanto a sua conclusão, pois, com rigor conceitual, tal conclusão não era propriamente sua, mas de comando legal. Consequências. Burocratizou-se a magistratura: instituiu-se o concurso público, tal qual nos quadros da administração; estruturou-se em carreira, como os funcionários; estabeleceu-se uma hierarquia funcional.

O juiz não é mediador que solucione o conflito. É titular de poder que “dá a sentença”. O concurso privilegia diplomas acadêmicos, em especial os das “Escolas de Magistratura”. Exige-se competência prometida e não demonstrada pela prática.

A efetiva experiência profissional vale menos. Outra é a responsabilidade só disciplinar. Os desvios se situam na atividade de decidir, passível, unicamente, de apuração disciplinar. A realidade, de fato, não é assim.

A sociedade tem que dispor de mecanismo de controle de todas as suas instituições de poder. Todas devem ter o dever social de prestar contas.

Jurista, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal*


06 de julho de 2015 | N° 18216
CÍNTIA MOSCOVICH

ESCRITOR AO SUL

Finalmente uma boa notícia: no sábado, 4 de julho, nasceu um autor. Guilherme Giugliani estreou oficialmente sua carreira literária com o lançamento de Antes e Depois do Tempo (Terceiro Selo, 128 páginas). Dele, ouviremos falar muito, e muito bem.

Tive a felicidade de, por dever do ofício, acompanhar uma parte da formação de Guilherme como autor. Sei que ele é leitor exigente e que se recusa ao fácil e ao banal, uma ousadia que requer o empenho de refazer o texto várias vezes, sempre buscando a melhor expressão. 

Sei também que ele enveredou pelo caminho da tradição, sem invencionices ou malabarismos temático-linguísticos, dedicando-se ao conto clássico, gênero que demanda grande esforço narrativo – Guilherme domina a técnica de contar duas histórias ao mesmo tempo, uma que se entrega ao leitor de imediato e outra que representa a tensão do subentendido e da entrelinha.

Dentro de uma linhagem na qual brilham os contos sempre impressionantes de nosso decano Sergio Faraco, bem como os de Monique Revillion, de Amilcar Bettega e de João Anzanello Carrascoza, uma parte dos narradores de Guilherme é de crianças. São adultos que, olhando para trás, por cima do ombro, recordam as histórias do menino que um dia foram, guardando ainda a surpresa de mundo e aquela espécie de solidariedade e elegância que o tempo rouba. O primeiro conto do livro, A pescaria, é uma pérola de tão bonito.

Paulista por nascimento e gaúcho por adoção, Guilherme parece perseguir o próprio crescimento, investindo também em narradores adolescentes e jovens, todos eles em algum momento crucial da vida, fato que torna o conjunto de 15 contos uma espécie de, digamos, “livro de formação”. São histórias de se ler sempre emocionado, porque nosso autor é especialista em provocar os sentimentos de seus leitores.

Com belo projeto gráfico de Humberto Nunes, edição supercuidada (a Terceiro Selo pertence à brava editora Dublinense), Antes e Depois do Tempo deve ser saudado como o início de uma carreira de um rapaz que já é escritor.


06 de julho de 2015 | N° 18216 
DAVID COIMBRA

Como será o meu deputado

Não quero um deputado que dance.

Não, meu deputado não dançará.

Estou fazendo uma lista dos critérios que levarei em conta para votar na próxima eleição, e este é dos principais: não aceito que meu representante comemore vitórias em votações como se fosse um jogador de futebol comemorando gol.

Por quê?

Porque uma vitória em votação parlamentar não é como um gol. Uma discussão no Congresso não é um jogo. Deputados não são centroavantes que precisem embair goleiros. Ali não é, ou não tem de ser, um contra o outro. Ali, todos têm de estar trabalhando pela mesma causa: pelo bem da sociedade brasileira.

É claro que cada parlamentar precisa defender as demandas do seu eleitor. Para isso ele foi eleito. Mas não apenas para isso. Às vezes, para promover um bem maior, ele terá inclusive de ir contra a vontade do seu eleitor. Esse será o meu deputado. Um que, ao ser fiel a sua consciência, pode ser infiel a minha vontade.

Um deputado como Jean Wyllys, que faz um cartaz chamando os oponentes de fascistas, racistas e homofóbicos, por exemplo, esse deputado não tem oponentes: tem inimigos. Como alguém vai construir algo trabalhando entre inimigos?

Um deputado como Eduardo Cunha, que se vale de ardis para vencer a qualquer custo, como o clube que apela para o Tapetão ou como o atacante que faz gol com a mão, esse deputado não fará o que é melhor para o país: fará o que é melhor para ele.

Não serão esses os meus deputados. Nem aqueles que, entre seu partido e o Brasil, defendam o seu partido.

Meu parlamentar terá de fazer isso mesmo que a palavra indica: parlamentar, não brigar. Terá de entender as razões dos que pensam diferente dele e argumentar a respeito do seu ponto de vista, eventualmente até mudando o seu ponto de vista.

É esse o meu candidato.

Você conhece algum assim?

A vitória matou o PT

O PT morreu de morte inglória, mas, se não fosse por um único infortúnio, poderia estar vivo ainda, e forte. O pior que ocorreu ao PT foi ocorrer-lhe o que mais queria: a vitória na eleição presidencial.

Se Aécio tivesse vencido, teria de tomar mais ou menos as mesmas medidas impopulares que Dilma está tomando, o país passaria mais ou menos pela mesma crise e estaria sofrendo mais ou menos as mesmas dores. Aí o PT, do recôndito da oposição, diria: “Viram? Nós dissemos que eles iriam fazer isso! No nosso tempo, era melhor!” E as pessoas acreditariam, seguindo o mesmo raciocínio dos que dizem que no tempo da ditadura era melhor.

É claro que as denúncias de corrupção estariam estourando, mas o PT acusaria o governo de perseguição e confundiria tudo. Os brasileiros suspirariam de saudade da época de ouro e, em 2018, Lula estaria de volta, assumindo um país mais equilibrado, pronto para crescer novamente.

A vitória foi a desgraça do PT.

Vale a lição, amigo leitor: às vezes, derrota significa recomeço.



06 de julho de 2015 | N° 18216 
MOISÉS MENDES

Arapongas

Descobriram mais grampos da espionagem dos americanos no Brasil. Eles gravavam até o que falavam dentro do avião presidencial. Obama disse que vai mandar parar, mas sabe que não é bem assim.

Nem Obama sabe o que se passa nos subterrâneos da arapongagem de Washington, porque esse é um poder incontrolável em qualquer parte, inclusive e principalmente nos EUA.

Não é o presidente quem diz o que arapongas devem fazer, assim como é errado pensar, como pensa parte do PT, que o ministro Eduardo Cardozo pode ter o controle de todas as ações da Polícia Federal.

Os americanos investigam até a dieta de Dilma Rousseff. Sabem o que a presidente come no café da manhã, no almoço e na janta para que não passe das 800 calorias diárias.

Arapongas sempre souberam tudo sobre todos. Nem os chefes dos arapongas controlam seus arapongas. É o caso da escuta da PF na cela do doleiro Youssef. Agentes federais deduraram o superintendente da PF que mandou grampearem o doleiro. É para grampear e pronto.

Mas é ilegal, dizem. Tudo é legal para um araponga. O que importa é fazer arapongagem. Arapongas investigam o filho de Lula dia e noite (para saber se comprou mais um frigorífico na Austrália) e a bicicleta de Dilma (para saber se é importada – imagine se é cubana!!!).

Arapongar é o verbo do século 21. O Google sabe por onde você anda, o YouTube rastreia o que você vê. Mas alguns brasileiros são menos arapongáveis. O que se sabe do Barusco, por exemplo? Grampeiam Dilma, Lula, o concunhado de Lula, a tia de Youssef, mas não há quem consiga esclarecer o mistério Barusco.

Barusco, o ladrão avulso, é o maior mistério da humanidade desde o tempo em que Uri Geller entortava garfos com massagens na ponta dos dedos. Por que se sabe tudo o que pensam Angela Merkel e Vladimir Putin e nada se sabe de Barusco, o ladrão confesso que começou a roubar na Petrobras em 1997, nos governos tucanos?

Barusco roubou em 1997, 1998, 1999, 2000, 2001 e 2002, sempre como tucano avulso. Você acredita nisso? E continuou roubando depois, nos governos do PT, mas aí como parte de uma quadrilha. Mas para quem Barusco atuou antes, quando era “avulso” do PSDB?

Barusco era o laranja mais bem pago do Brasil. Mas trabalhava para quem? Quem é seu sócio nos US$ 97 milhões que estavam na Suíça? Será que teremos de chamar arapongas americanos e suíços para desvendar o mistério Barusco?


06 de julho de 2015 | N° 18216
L. F. VERISSIMO

Os caras

O mundo dá muitas voltas. Acabei de criar esta frase, podem me citar. Quando os dois se encontraram pela primeira vez não me lembro onde, o Barack Obama apontou para o então presidente Lula e disse “Esse é o cara”. O cara presidia um dos poucos países que davam certo, na época. A crise generalizada no mundo parecia não ter chegado ao Brasil, onde os índices econômicos, maquiados ou não, eram positivos, havia pouco desemprego, e acontecia o milagre de um governo voltado para o social convivendo sem maiores melindres com um patriciado conservador.

Lula estava em alta. Em contraste, o Baraca estava em baixa. A oposição dos republicanos ameaçava paralisar seu governo, seus planos de reforma social não saíam do chão, sua política externa hesitante não agradava nem a pombas, nem a falcões. Seu elogio ao Lula era uma brincadeira simpática, mas com um certo tom de inveja. Ninguém, na época, salvo talvez a Michelle, chamaria Baraca de “o cara”.

Corta para a visita da Dilma aos Estados Unidos, na semana passada. O mundo deu as suas voltas e tudo mudou. Hoje o cara indiscutível é o Baraca. Sua política de recuperação econômica, apesar de ele não contar com maiorias no Congresso, está dando resultados.

O maior legado da sua administração, um plano nacional de saúde que tira os Estados Unidos da incômoda posição de única nação rica da Terra a não ter um programa de cobertura universal, foi aprovado pela Corte Suprema, depois de combatido, chamado de “socialista” e “antiamericano” e demonizado pela direita. A decisão a favor do “Obamacare”, apelido do seu plano de saúde, foi apenas uma das surpreendentes boas notícias que o Baraca recebeu do Supremo Tribunal Americano, reconhecidamente conservador. A liberação do casamento homossexual em todo o país foi outra.

Nos Estados Unidos, estão comparando os juízes supremos a velhos sisudos que, de uma hora para outra, decidiram arrancar as togas e mostrar suas bermudas coloridas.

Não sei se o Baraca perguntou a Dilma como ia “o cara”. Talvez tenha ido mais longe e perguntado que fim levou aquele Brasil que Lula representava. E os dois podem ter conversado sobre os efeitos do tempo até nas melhores intenções. E não seria de estranhar se Dilma se queixasse que o primeiro mandato do Lula tinha sido um sonho, do qual o Brasil acordara justamente no seu governo. E os dois concordassem que realmente, o mundo dá voltas demais.

sábado, 4 de julho de 2015



05 de julho de 2015 | N° 18215 
MARTHA MEDEIROS 

SUTIÃS

 
Um sutiã pode ter um significado oculto. Funcionar como um abraço apertado. Uma amarração.

Minha profissão traz poucas inconveniências e muitos prazeres, o que torna o saldo altamente positivo. Uma das coisas a celebrar é o contato que tenho com pessoas que, mesmo desconhecidas, estabelecem comigo uma intimidade enriquecedora. Foi o caso de uma garota (acho que ainda posso chamar uma socióloga de 45 anos de garota) com quem tive uma adorável conversa dias atrás, no Rio de Janeiro.

Ela me contou sobre seu primeiro casamento e sua primeira separação, do quanto ficou abalada, de como fez para se reerguer, de como foi o processo todo. Fez um relato comovente de tudo o que aconteceu, mas não pude deixar de ajustar o foco num detalhe rápido que ela mencionou, daqueles que a gente costuma deixar passar batido. Em meio ao turbilhão de emoções que ela narrava, me disse: Depois do fim, eu já nem sabia direito quem era, nunca usei sutiã e de repente comecei a usar.

Encontramos metáforas onde menos se espera.

Separação: tem desamparo maior? Uma aposta que parecia estar dando certo de repente começa a fazer água, alguém que para você era a pessoa mais importante do mundo perde o protagonismo, a vida estruturada se dissolve, o amor dá lugar à mágoa, e mesmo quando não há mágoa ainda assim existe um abismo para se atravessar antes de chegar ao outro lado. Você precisa reconstruir sua identidade, não é mais a esposa de, o marido de, o amor da vida de alguém.

As declarações não se sustentaram, as promessas não vingaram, o destino foi mais forte que a idealização: fez cada um seguir carreira solo. Depois de tanta luta, tanta negociação, tantas tentativas de manter o acordo, chega a hora em que é preciso entregar os pontos, não há mais o que fazer a não ser partir e tentar de novo com outro alguém, quando as forças voltarem.

Mas, até que elas voltem, quanto medo. Da solidão, da saudade, do rumo desconhecido. Você agora é um, não dois. Já não tem quem segure sua mão. Está solto. E essa soltura assusta. E se eu cair?

Um sutiã pode ter um significado oculto. Funcionar como um abraço apertado. Uma amarração. Não usá-lo sempre foi uma atitude libertária, até que, um belo dia, você descobre que a liberdade virou um bicho-papão e você voltou a ser uma menininha assustada. O que mais deseja é se sentir presa, segura, acolhida.

O desafio das separações é fazer com que voltemos a nos sentir confortáveis com a soltura dos dias, confortáveis diante da incógnita do futuro. Não sei no que os homens se seguram quando se separam (minto: sei, sim), mas grande parte das mulheres recomeça a vida emocional se segurando nelas mesmas. Só então, aos poucos, iniciam outra revolução, uma nova queima de sutiãs, a fim de formar uma identidade mais firme que a anterior.



05 de julho de 2015 | N° 18215 
CARPINEJAR

Invasores

– Já que ele não vai ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém.

Assim também esquece que ele jamais olhará novamente para sua cara. Tentar destruir a próxima relação de seu ex ou flerte postando mensagens ofensivas e insinuações na web ou até mesmo mandando prints de conversas antigas é atitude de recalcada. Desceu sem volta o seu espírito para o inferno mais remoto. Não há depois como salvar o respeito e a reputação. É gesto de megera, de bruxa, de burra, de psicopata, onde os fins justificam os meios.

Pode estar desesperada, louca, histérica, mas até o jogo da sedução é constituído de regras e etiqueta, não é um vale-tudo emocional, o que não é reciproco deixa de vigorar como realidade, cabe respeitar a decisão de sua companhia, mesmo que um dia tenha recebido juras. Nada de destituir a liberdade do outro, que tem todo o direito de reavaliar o trajeto, não querer o relacionamento e trocar de opinião. Nada de bancar a hacker e entrar em contas alheias em nome de uma dor-de-cotovelo.

Depois de perder o amor, é muito fácil perder o amor próprio e despencar para a grosseria.

Não é não, o não está a léguas de significar um charme, não é para insistir se não existe abertura, não é uma provocação, um desafio e uma oportunidade para provar o seu valor.

Se ele não quer ficar junto, não se rebaixe e, o mais grave, não busque rebaixar todo mundo. Não arraste inocentes para seu túmulo. Se está infeliz, não espalhe a infelicidade. Aceite a derrota e o fracasso com humildade. Não procure sofrer acompanhando a novela do amor recente nas redes sociais. Não fique investigando o perfil da nova namorada. Não faça comparações e conclusões distorcidas, não crie tumulto e fakes. Policial amador é criminoso.

Ele não quis permanecer a seu lado quando apresentou seu melhor, não é com o pior que mudará seu conceito. Compreensão e respeito são capazes de trazer alguém de volta, jamais mentira e invasão de privacidade. Isso serve para homens e mulheres.

Não provoque o desprezo. O desprezo é a paixão azedando, vinho virando vinagre, sem rótulo e safra para ser lembrado. Quando o sentimento acaba por uma das partes, é necessário ser amigo do tempo. O tempo cordial é a única esperança que resta.



05 de julho de 2015 | N° 18215 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Muita gente é quanto?

Primeira página de jornal francês, no dia em que escrevo este texto: apenas neste 2015, mais de 137 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo fugindo de algum horror em sua África natal – fome, guerra, perseguição religiosa e política, desemprego sem remissão. Deles, mais de 1,8 mil morreram antes de chegar ao destino, que era menos a Europa do que a tranquilidade de uma vida decente.

137 mil é muito? É muito, claro. Um fugitivo do horror já é o infinito, se a gente prestar atenção a ele como indivíduo, como alguém que respira como eu, se alimenta, dorme, sonha, transa, ralha com os filhos, torce pela seleção do país. Um desses que morre, então, aumenta o infinito para o impensável. Não sou dado a terrores noturnos, nem sou vítima severa de depressão, mas de vez em quando atravessa correndo o meu pensamento a sensação que deve tomar alguém querendo sobreviver em meio ao caos, e submergindo a ele. O horror, o horror.

Em 2014, houve 40.451 mortos no trânsito brasileiro (dados do SUS), e mais de 170 mil feridos. Reportagem da Folha de S. Paulo observa que em termos relativos à população foi um número animador, porque menor em 10% comparado ao ano anterior. É muito?

Quantas serão as mortes ligadas ao tráfico de drogas? Nem vou atrás dos números, que poderiam me levar a outros, como aqueles ligados a roubos, extorsões, sequestros, tudo em busca de grana imediata para o tráfico. (Números claramente subestimados, porque as classes confortáveis nem contabilizam mais essa perdas, salvo quando envolvem risco para a vida.) São gangues disputando domínio territorial, é a polícia enfrentando bandidos, é também a polícia, em muitas partes do Brasil, matando sem razão, matando “preventivamente”.

Nenhum desses três megaproblemas atuais tem solução fácil. O desespero dos refugiados mundo afora se liga a dimensões inescrutáveis da Grande Política mundial, em relação à qual o Brasil costuma ter posição hesitante, quando não omissa. Mas os dois outros, vamos falar sério, podem ser abordados de modo mais decidido entre nós. O trânsito no Brasil poderia ser muito menos assassino. Educação e punição, claro, mas também políticas gerais para estímulo de transporte coletivo. Quando é que vamos fazer isso a sério, se nem os corredores de ônibus para a Copa passada estão prontos?

Quanto ao mundo das drogas, não há mais argumento suficiente para manter este modelo repressivo. Esta semana, uma importante autoridade brasileira no setor, José Mariano Beltrame, secretário de segurança do Rio, o cara das UPPs, em visita a países europeus declarou, com todas as letras: é uma guerra perdida, irracional, sem sentido. Admirou Portugal, que descriminalizou todas as drogas, todas, e passou o assunto da esfera da polícia para a da saúde (está na revista Época). “Descriminalizando o uso, um dos efeitos é o alívio na polícia e no Poder Judiciário, que podem se dedicar aos homicídios, aos crimes verdadeiros”, disse.

Enquanto isso, nosso Congresso e nossa Assembleia discutem o quê, mesmo?

Enquanto isso, uma boa notícia, um presente: prezado leitor, copie aqui e cole lá o endereço http://ecoqua.ecologia.ufrgs.br/arquivos/Livros/CamposSulinos.pdf. A surpresa vai ser boa e grande: trata-se da versão em pdf de um livro, editado agora mesmo pela Rede Campos Sulinos e Editora da UFRGS, organizado por Valério de Patta Pillar, reconhecido professor da Ecologia da universidade, e Omara Lange, bióloga e fotógrafa, com apoio da FAPERGS (ei, governador, vai detonar também com ela?) e do CNPq (ei, ministro Renato, vai dar pra segurar a onda aí?).

São 18 capítulos, a maior parte dos quais ligados ao mundo dos animais e das plantas desse universo particular que são os campos do sul – há mesmo toda uma discussão sobre essa denominação, em contraste com outras, usadas até oficialmente, cujo uso não descreve com precisão a realidade dos campos sulinos e, como qualquer conceito inadequado, acaba mascarando muita coisa. E há textos de historiadores e geógrafos também, num esforço conjunto que justifica a existência da universidade.

E as fotos, meu caro. As fotos!