segunda-feira, 12 de janeiro de 2009


SALEM H. NASSER

Cortinas de fumaça

Com a tese da legítima defesa, tenta-se negar o que é óbvio a qualquer aluno de direito: Israel viola diversas normas internacionais

É POSSÍVEL ver, aqui e ali, os corpos que se acumulam e fazer as contas: mais de 750 mortos, um terço deles crianças, e mais de 3.000 feridos, metade deles mulheres e crianças. Somos, no entanto, os que estamos fora de Gaza, bombardeados com discursos que pretendem essencialmente nos fazer esquecer que os cadáveres existem e se multiplicam.

Uma após a outra, são desfraldadas as cortinas que, se não fizerem desaparecer os mortos, nos farão vê-los com outras cores e, eventualmente, justificar o massacre.

A afirmação de que os ataques israelenses são uma resposta aos foguetes palestinos e constituem o único remédio possível é tão falsa que não deveria resistir a um instante de reflexão.

No entanto, o mantra é repetido com tamanha calma e com tamanha insistência que se transforma tanto em discurso oficial da imprensa, dos diplomatas e dos estadistas quanto em ponto de partida para qualquer leitura dos fatos.

O simples fato de que esse discurso encontra um lugar e as pessoas se permitem sustentá-lo com ares de grande seriedade é suficiente para embaçar a visão de quem porventura pensasse questionar a legalidade das ações israelenses e as de seus líderes.

Com a tese da legítima defesa, tenta-se negar o que se faz evidente a qualquer estudante de direito internacional: que Israel viola inúmeras normas internacionais e que os líderes israelenses e seus comandantes militares estão cometendo diariamente crimes de guerra e crimes contra a humanidade e que, num mundo em que o direito fosse menos refém da política, seriam todos julgados pelo Tribunal Penal Internacional.

O direito internacional avançou muito durante o último século, ao longo do qual manteve em seu cerne a preocupação com a paz e com a segurança internacionais. Suas normas incorporaram valores tais como a proteção dos inocentes e o combate à impunidade.

Instituições foram criadas para preservar a paz e para julgar os criminosos. Mas esse mesmo direito traz em si os traços de sua própria fraqueza e, nestes dias, se faz pequeno, se faz ausente, junto com suas instituições.

Acompanhar a crônica dos eventos e contar os mortos e as tragédias tampouco basta para enxergar claramente. É preciso levantar o olhar e lembrar o contexto em que se inscrevem os ataques do momento.

Israel há muito trabalha para tornar impossível um Estado palestino viável e para forçar os palestinos a renunciarem a seus direitos históricos e legítimos. Ao longo do tempo, com o apoio incondicional dos EUA, com a aceitação complacente da Europa, adquiriu o apoio dos líderes do Fatah e de vários governos árabes.

Resta agora impor aos palestinos uma liderança e um caminho diferentes daqueles que eles elegeram, derrubar o Hamas e extinguir a resistência ao esvaziamento dos direitos palestinos.

O que está em jogo agora é mais do que a capacidade dos palestinos de lançar foguetes contra Israel. O que se está desenrolando é um capítulo decisivo do jogo geopolítico no Oriente Médio.

Israel precisa dar uma demonstração cabal de sua força e de sua capacidade militar e pretende eliminar um dos últimos obstáculos à capitulação palestina. Se, ao final dessa campanha, os palestinos ainda tiverem a capacidade de resistir, Israel terá sofrido uma derrota relativa.

Para enxergar, é preciso também decifrar e não se deixar hipnotizar pelo circo da diplomacia oficial. Para entender, é preciso aceitar que discursos vazios nas cúpulas ensaiadas e abortadas, nas discussões do Conselho de Segurança e nas entrevistas são apenas isto: discursos vazios.

As posições dos Estados e das instituições se fazem conhecer pelos atos e omissões e pelas suas consequências. Para além da encenação, deve-se perceber que, na prática, a comunidade internacional está dando a Israel tempo para levar a cabo a missão.

Assim como o direito se apequena porque a política o remete a um canto escondido, falta à diplomacia uma coluna vertebral moral.

A verdade, inconfessada, é que a comunidade internacional há muito desistiu de encontrar uma solução justa para a questão palestina e busca agora apenas um fim para essa questão. E, ao que parece, se esse fim vier pela via dos massacres e dos crimes, então que assim seja.

É preciso não se deixar anestesiar nem aceitar os véus como uma bem-vinda cegueira. É preciso não se render à opressiva sensação de impotência diante dos números que contam as massas ensanguentadas e inertes. É preciso enxergar os cadáveres e, para além deles, os seres humanos.

SALEM H. NASSER, 41, é doutor em direito pela USP, coordenador do Centro de Direito Global da Direito GV e professor de direito internacional da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas.


12 de janeiro de 2009 | N° 15846
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Uma espécie de refúgio

Uma leitora me pergunta, com esse jeito de provocar de que só as mulheres são capazes, por que num mundo sitiado de insegurança, dilacerado por guerras, destroçado pelo terror eu perco tempo com pequenos flagrantes do cotidiano, mínimas ruas e jardins, mais a onipresente cidade de Cachoeira.

Acho que por uma espécie de refúgio, L. É bom de vez em quando exilar-se da realidade nesse território que atende por paz interior. É bom abrigar-se da parte torta do universo em outro universo, o que atende por serenidade. É bom recolher-se das pequenas e grandes catástrofes do dia-a-dia buscando esconderijo na tranquilidade de espírito.

Assim como não desconheço as tragédias deste inquieto planeta sem juízo, tenho imenso apreço pelos incidentes e lugares de que também se compõe a existência.

Considera as mínimas ruas e jardins, L. Aqui perto de casa sobrevive um parque em ruínas, legado de passadas eras de fama, alegria e fortuna. Para o comum dos mortais, aquele espaço devastado nada mais é do que um trecho esquecido do Centro. Já eu, que sou incomum por amar a vida, vejo ali toda uma longa saga de encontros, agonias e êxtases.

Também não consigo mostrar-me alheio à poesia das travessas da minha vizinhança. Não longe daqui, L., começa a Cidade Baixa e há nesses domínios trechos em que velhas casas se apoiam umas nas outras, assim como quem tem frio e sonha.

Não consigo me distanciar da poderosa dimensão humana de meias-águas e sobrados que esqueceram de dobrar-se à trajetória das idades e vivem de respirar suas memórias.

E há Cachoeira. Cachoeira é a primeira imagem de minha circunstância, é o prólogo e o índice de minha caminhada sobre a Terra, é a rosa-dos-ventos de minha jornada rumo a todos os horizontes, à paz e ao esquecimento.

Entendes agora, L., por que o mundo pode caber inteiro em flagrantes do cotidiano, em mínimas ruas e jardins e na terra em que nasci? É porque, um pouco à maneira de Pessoa, nada é trivial quando a alma é importante.

Aproveite o dia - Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana.


12 de janeiro de 2009
N° 15846 - PAULO SANT’ANA


Açúcar no sangue

Por uma questão de utilidade pública, tenho de me referir à investigação médica e policial da causa do mal súbito que teve o motorista do ônibus que se incendiou na Avenida Júlio de Castilhos, esquina com a Rua Coronel Vicente, quando morreram duas pessoas e se feriram 14.

A imprensa divulgou que a hipótese mais provável do mal súbito do motorista, que desmaiou no volante, ocasionando o acidente, foi hiperglicemia, isto é, açúcar alto no sangue.

Como sou diabético, tenho algum conhecimento, ainda que superficial, mas amplo, sobre o diabetes.

Estranhei desde logo que açúcar alto no sangue pudesse ocasionar colapso (desmaio), ou seja, choque hiperglicêmico.

Não pode, pensei eu. O que eu sei é que o colapso se dá por choque hipoglicêmico, isto é, açúcar baixo no sangue.

Quando a taxa glicêmica de um organismo atinge de 65 para baixo no sangue, pode dar-se o choque hipoglicêmico (desmaio, perda de consciência).

Como pode então ter a imprensa noticiado que o mal súbito no motorista do ônibus acidentado se originou em açúcar alto no sangue, por choque hiperglicêmico, o que nunca tinha ouvido falar?

Não acreditei, mas por via das dúvidas fui consultar o Dr. Jorge Gross, um dos nossos mais destacados endocrinologistas e médicos clínicos, uma vida profissional inteira também dedicada ao estudo e tratamento do diabetes.

Jorge Gross me confirmou que não há choque hiperglicêmico. Em outras palavras, ninguém tem colapso (desmaio) por açúcar alto no sangue.

O açúcar alto no sangue (taxa superior a 110) é causador de outros males graves: falência dos rins, retinopatia, que pode levar até a cegueira, neurites e até entupimento das artérias.

Por isso é que o diabetes (açúcar alto no sangue) é uma doença séria e grave.

Mas do modo que a imprensa noticiou, deu a ideia de que é perigoso dirigir com taxa alta de açúcar no sangue, o que não é verdade.

O temerário, o perigoso, é dirigir veículo com taxa baixa de açúcar no sangue, isto é hipoglicemia, isto pode ocasionar o mal súbito, o colapso, o desmaio, a perda de consciência no volante.

Definitivamente, tenho a opinião médica a me autorizar a escrever esta coluna, o motorista do ônibus não teve um choque hiperglicêmico (açúcar alto no sangue) como foi noticiado.

O motorista estava com 361 de taxa glicêmica quando chegou ao Pronto Socorro sem sentidos. Taxa alta, pode-se dizer até que muito alta.

A hipótese é remota, mas pode ter ocorrido: o motorista teve um choque hipoglicêmico (açúcar baixo), mas uma defesa do organismo levantou a sua taxa de, digamos assim, 50 para 361) no caminho do hospital. Essa defesa do organismo é o que a ciência chama de hiperglicemia por rebote.

Mas nunca há choque hiperglicêmico, nunca. Ou seja, ninguém perde os sentidos por açúcar alto no sangue.

Perde por açúcar baixo no sangue.

Eu escrevo isso com receio de que se propague a ideia de que motoristas com diabetes não possam mais dirigir. Isso é um despropósito.

Motorista com diabetes pode dirigir, deve apenas controlar a sua taxa glicêmica.

Mas choque por hiperglicemia (açúcar alto) não foi a causa do mal súbito, simplesmente por não haver choque por hiperglicemia, informação que foi dada à imprensa por algum médico que não entende de diabetes.


12 de janeiro de 2009
N° 15846 - KLEDIR RAMIL


Acabou o dinheiro

Pensei em fazer uma retrospectiva de 2008 mas cheguei à conclusão que o mais importante pode ser resumido em uma simples frase: acabou o dinheiro.

A quebradeira dos bancos americanos marcou o fim do capitalismo, quer dizer, desse tipo de capitalismo que vem sendo praticado. Chegou a hora do lucro desenfreado, desmedido e sem pudores, prestar contas. Mas pra quem?

Pra Deus? Pro governo dos EUA é que não é. Bush já torrou US$ 700 bilhões para socorrer a farra e Obama também vai meter a mão no bolso. Do contribuinte. Por uma ironia do destino, é o “Estado mínimo” precisando ajudar a iniciativa privada.

Os altos executivos dessa ciranda financeira, os gerentes do cassino, chamavam a si mesmos de Mestres do Universo, e remuneravam seus serviços – que eu me recuso a chamar de trabalho – com bônus e participações astronômicas.

Estão bilionários e seguirão assim. Sem prestar contas. Já o contribuinte americano vai ter que pagar a fatura dos abusos e riscos jogados na roleta bancária. De qualquer maneira, torço para que a economia recupere a saúde. Do contrário, seria o caos.

Minhas preocupações são de caráter coletivo, já que não tenho interesses pessoais depositados em bancos. Serei atingido apenas por tabela, como a grande maioria. Minha riqueza se resume a uma obra artística realizada e, mais do que tudo, à minha capacidade de continuar produzindo.

Esse é o meu investimento. Um artista é como a galinha dos ovos de ouro. É o tipo de coisa que não quebra, a não ser que alguém pegue um martelo e bata na cabeça do coitado.

Antigamente era pecado ganhar dinheiro com dinheiro. Eu sou meio old fashion, continuo acreditando que se deveria ganhar dinheiro com o trabalho. Vai ver que é por isso que não dá certo.

Meu filho chegou em casa entusiasmado com a “bolha”. Nada mais é do que um novo nome para aquelas correntes e pirâmides que fizeram sucesso há alguns anos. O cara entra com 50 e ganha 1 milhão (ou US$ 60 bilhões, no caso do Madoff).

É uma ilusão que só funciona pro esperto cujo nome aparece em primeiro na lista. Tentei convencer meu filho de que é uma roubada, que toda bolha sempre estoura, mas essa gurizada não me escuta mais.

Acho que eles têm razão. Quem sou eu pra ensinar economia de mercado no século 21? Um cara que cresceu ouvindo a mãe dizer: “Não mexe com dinheiro que isso é coisa suja!”.


12 de janeiro de 2009 | N° 15846
DAVID COIMBRA


Nata, schmier e linguiça

Quando trabalhava em Novo Hamburgo sempre arrumava uma pauta no Centro, lá pelo meio da tarde. Sabe para quê? Para ir a uma das banquinhas na Praça do Imigrante e pedir o seguinte:

uma caneca de café com leite e uma fatia de pão caseiro untada com copiosa camada de nata e outra igualmente copiosa de schmier, estando ambas as camadas encimadas com meia dúzia de rodelas de linguiça, na época muito melhor, porque com trema. Que deleite aquele café no Centrão de Novo Hamburgo!

Prato bem de alemão esse, mistura de doce com salgado. Lembro do meu avô, o velho alemão Walter, comendo arroz. Minha avó servia-lhe um pratão de arroz branco e, ao lado, acomodava uma compota que ela mesma havia preparado, de pêssego ou figo em calda. Meu avô mergulhava a colher na calda e depois derramava-a sobre o monturo de arroz, e comia com gosto. Arroz com calda de pêssego. Quase tão bom quanto pão com schmier, nata e linguiça.

Se Novo Hamburgo não tiver prato típico, bem que poderia eleger este. Podia até fazer um festival do pão com schmier, nata e linguiça. Falo do pão de NH por causa do Gre-Nal que será disputado em Erechim em 8 de fevereiro. É que o Interior tem delícias que poucos conhecem e poderiam ser propagandeadas pelo futebol.

O pão de NH, só o descobri porque trabalhei lá. Isso Novo Hamburgo, aqui ao lado. Em Passo Fundo, a 290 quilômetros, provei um filé que foi o melhor da minha vida. Trabalhava na Sulina, ia promover uns livros na UPF. Na hora do almoço, entrei num restaurante próximo à Avenida Brasil. Era um restaurante despretensioso. Entrei, sentei e o garçom estacou ao meu lado. Disse-lhe assim:

– Meu amigo garçom, olha só o que eu quero: quero um filé de quatro dedos de altura, com a superfície levemente crocante e o interior suculento. Quero também batatas fritas corpulentas, do tamanho de um polegar de lenhador, e uma cerveja geladíssima para tirar a poeira da garganta, exatamente como Kit Carson e Tex Willer tomam quando entram num saloon no Arkansas. É possível?

O garçom bateu os tornozelos em assentimento e zuniu para a cozinha. Voltou com aquele filé e aquelas batatas e aquela cerveja. O filé, eu o cortava com a colher, como se fosse purê. A cerveja refrescava-me o estômago e o espírito. As batatas eram macias como coração de mãe, recém colhidas da terra. Já voltei a Passo Fundo dezenas de vezes. Nunca mais encontrei aquele filé, nem consigo identificar qual era o restaurante.

Certas comidas só se experimenta no Interior. Em Livramento existia um doce que era uma homenagem à fronteira com Rivera, o Riveli: Rive de Rivera, Li de Livramento. Será que existe ainda? Empanzinei-me com esse doce, certa feita. Verdade que uma vez não comi o Caldo Lourenciano lá em São Lourenço, mas escrevi sobre.

Disse que o caldo havia me dado medo. Para quê? Os lourencianos, centenas deles, escreveram e ligaram me xingando.

Tentava argumentar, falava que era só um caldo, não um lourenciano vivo e falante. Não adiantava. Os lourencianos, não há dúvida, amam seu caldo, como decerto os santanenses devem amar o Riveli e os hamburguenses o pão com schmier, nata e linguiça.

É por isso que iniciativas como o Gre-Nal de Erechim deveriam ser mais frequentes. Sou pela interiorização do Gauchão. De um Gauchão disputado em uma única região do Interior. Para promovê-la, para ressaltá-la, para mostrar as delícias que o Interior tem.


12 de janeiro de 2009 | N° 15846
L.F. VERISSIMO


Wagners

Uma vez escrevi uma crônica estranhando a quantidade de jogadores chamados Donizetti no futebol brasileiro.

Na verdade eram só quatro ou cinco, mas por que quatro ou cinco jogadores brasileiros teriam o nome de um compositor italiano de óperas, e ao mesmo tempo? Se fosse o sobrenome, ainda haveria uma explicação, remota mas razoável.

A família Donizetti teria trazido da Itália para o Brasil, nos genes, uma incomum vocação para o futebol. Produziria jogadores de futebol como os Silva. Mas nenhum dos Donizettis tinha cara de italiano. E, em todos os casos, Donizetti era o primeiro nome, não o último. Qual seria a explicação?

Quando saiu a crônica, fui soterrado com explicações. O Donizetti homenageado não era o Gaetano, que escreveu Lucia de Lammermoor, burro, era um padre milagreiro com uma legião de seguidores no interior de São Paulo, e do qual eu nunca tinha ouvido falar. Os Donizettis eram Donizettis por devoção, não à ópera mas ao padre. Só eu é que não sabia.

Para evitar um vexame parecido, estou pesquisando todas as possíveis razões para tantos jogadores brasileiros, hoje, se chamarem Wagner. Não há, que eu tenha averiguado, nenhum padre Wagner fazendo milagres por aí.

Existe aquela velha predileção brasileira, bem representada no mundo do futebol (nos Wellingtons e nos Washingtons), pela letra “W”, que tinha até uma conotação de desobediência civil, já que o “W” não era permitido pelas leis do português.

“Wagner” seria apenas uma reafirmação dessa rebeldia ortográfica. Ou então voltamos à ópera. O Wagner evocado seria o compositor alemão mesmo, o das valquírias tetudas e cavaleiros teutônicos, que o Hitler gostava tanto. A quantidade de Wagners em campo poderia ser prenúncio de algum tipo de recrudescimento – do que, nem é bom pensar.

E o mistério mais intrigante de todos: que fim levaram os Donizettis?

Li que nos Estados Unidos tem gente se mobilizando para o bota-fora do Bush. No seu último dia de governo, ele seria corrido da Casa Branca, simbolicamente, a sapatadas.

O grupo, liderado por uma organização de veteranos da guerra do Iraque contra a guerra, se reuniria num ponto de Washington e marcharia sobre a sede do governo brandindo sapatos velhos, botas, havaianas, etc. que jogariam contra a cerca da Casa Branca, gritando, presumivelmente, “chô, chô” ou o equivalente em inglês.

domingo, 11 de janeiro de 2009


FERREIRA GULLAR

A ganância do bem

O capitalismo tem da natureza a vitalidade, a amoralidade e o esbanjamento

HOJE EM dia, quando os apressados falam do fim do capitalismo, eu, na minha condição de "especialista em ideias gerais" (Otto Lara Resende), lembro que isso dificilmente acontecerá pelo simples fato de que o capitalismo, ao contrário do socialismo, não foi inventado por ninguém.

Não praticaria a blasfêmia de afirmar que foi criado por Deus, conquanto há quem garanta que o foi pelo Diabo. Como sou pouco afeito a questões teológicas, prefiro acreditar que ele nasceu espontaneamente do processo econômico, ao longo do tempo.

Costumo dizer que o capitalismo é quase como um fenômeno natural e, de fato, parece-me ter da natureza a vitalidade, a amoralidade e o esbanjamento perdulário, dizendo melhor: cria sem cessar e, com a mesma naturalidade, destrói o que criou.

Por exemplo, a natureza faz nascer milhões de seres e, de repente, inunda tudo e mata quase todos. Mas, ao fazê-lo, gera outras vidas. E parece dizer: "Que se danem", como faz e diz o capitalismo, mantidas as devidas proporções.

Já o socialismo foi inventado pelos homens, para corrigir o capitalismo, para introduzir nele a justiça. Os inventores do socialismo, em face da ferocidade do capitalismo nascente, em meados do século 19, sonharam com uma sociedade em que todos teriam os mesmos direitos e as mesmas oportunidades.

Entendiam que a chamada democracia burguesa era, na verdade, uma ditadura da burguesia e que deveria ser substituída pela ditadura do proletariado.

Seria esta uma ditadura justa porque exercida, não pelos que usufruem do trabalho alheio e, sim, pelos que trabalham e produzem a riqueza da sociedade. O resultado final dessa revolução seria a criação da sociedade sem classes. É verdade que ninguém nunca soube o que seria essa sociedade e nem Karl Marx, o seu inventor, chegou a defini-la.

Como se sabe, na segunda década do século 20, a revolução socialista deixou de ser mero sonho para se tornar realidade, assustando os capitalistas e levando-os a atender muitas das reivindicações dos trabalhadores.

Quatro décadas depois, boa parte da Europa e da Ásia vivia sob regime socialista. No entanto, antes que o século terminasse, o socialismo real desmoronou, para o espanto, sobretudo, das pessoas que nele viam o futuro da humanidade.

Ao contrário do que muitos temiam, não foram os exércitos capitalistas que o derrotaram, não foram foguetes norte-americanos com bombas nucleares que deram fim ao poder do Kremlin. Não, na verdade, ele foi liquidado por uma espécie de colapso interno fulminante, que não foi militar, mas econômico. O socialismo perdeu a disputa econômica com o capitalismo.

Em visita à Ucrânia, em 1972, ouvi um dirigente do partido comunista ucraniano dizer que tudo o que aquela república soviética produzia se devia à ação do partido, o verdadeiro motor de sua economia. Pois essa afirmação talvez explique o fracasso do socialismo: como poderia meia dúzia de burocratas fazer funcionar a economia de um país?

E explica também por que o capitalismo não morre e por que não foi preciso inventá-lo: vive da ambição de cada um, da iniciativa de cada pessoa que quer melhorar de vida, produzir, vender, comprar, revender, lucrar, enriquecer, sem que ninguém a obrigue a isso, muito pelo contrário.

Em lugar de um comitê dirigente que determine o que deve ser feito, no capitalismo milhões fazem o que conseguem fazer, atendendo às necessidades do possível comprador, no afã de ganhar dinheiro. Isso explica a vitalidade do regime e, ao mesmo tempo, muitas vezes, o vale-tudo para alcançar o lucro máximo.

O planejamento socialista, se evitava o desperdício, inibia a produção, o que resultava em outro tipo de desperdício, sendo o maior de todos, o dos talentos empreendedores que não encontravam campo para se realizar.

Uma visão equivocada do capitalismo ignorava o papel fundamental do empresário, cujo investimento em ideias e dinheiro gera empregos e riqueza.

Se o socialismo nasceu do que há de melhor no ser humano -o senso de justiça e a fraternidade-, o capitalismo, se não surgiu do que há de pior em nós, é, não obstante, a cada momento, movido por ele, ou seja, pela ganância sem limites e sem escrúpulos. No entanto, essa ganância é que o faz gerador de riqueza.

Admitindo-se como verdade que o capitalismo não morrerá -mesmo porque as crises, em vez de matá-lo, o renovam-, a solução é encontrar um meio de torná-lo bom, incutindo-lhe a "ganância do bem". Isso, bem entendido, se o Diabo deixar.

DANUZA LEÃO

Como seríamos felizes

Eu tenho meus amigos, livros, cinemas, televisão, trabalho, passeios. Jujuba só tinha a mim; seu mundo era a minha casa; minha casa e eu

ALGUNS meses já se passaram, mas ainda lembro, todos os dias, da minha Jujuba, que me faz muita falta. E choro. Como posso esquecer daquela coisinha linda, branquinha, de olhos amarelos, que eu adorava e que só tinha a mim na vida para lhe dar carinhos e alegrias?

Eu tenho meus amigos, livros, cinemas, televisão, trabalho, passeios. Jujuba só tinha a mim; não passeava na rua, seu mundo era a minha casa; minha casa e eu.

Quando eu chegava, ela me esperava miando, toda feliz com os carinhos que eu lhe dava. E quando eu estava doente ou triste, ela não saía um minuto do meu lado. Estou entrando de férias e minha próxima coluna será em 15 de fevereiro.

Não tenho nada de muito significativo a deixar para vocês como despedida, por isso vou repassar o texto que recebi de um leitor, no auge da minha dor, de autor desconhecido, que vai tocar os corações mais sensíveis, sobretudo o dos que tiveram um bichinho e o adoravam.

Alguns vão talvez chorar; não só pela saudade, mas pela beleza das palavras e do quanto desejaríamos que tudo acontecesse exatamente assim, para cruzarmos juntos a Ponte do Arco-Íris. Aí vai:

A ponte do arco-íris (autor desconhecido)

"Neste lado do paraíso existe um lugar chamado ponte do arco-íris. Quando um animal morre, aqueles que foram especialmente queridos por alguém, vai para a ponte do arco-íris. Lá existem campos e colinas para todos os nossos amigos especiais, pois assim eles podem correr e brincar juntos. Lá existe abundância de comida, água e raios de sol, e nossos amigos estão sempre aquecidos e confortáveis.

Todos os animais que já ficaram doentes e velhinhos estão renovados e com saúde e vigor; aqueles que foram machucados e mutilados estão perfeitos e fortes novamente, exatamente como nós nos lembramos deles nos nossos sonhos, dos dias que já se foram.

Os animais estão felizes e alegres, exceto por uma coisinha: cada um deles sente saudades de alguém que foi deixado para trás. Todos eles correm e brincam juntos, mas chega um dia em que um deles para de repente e olha fixo na distância.

Seus olhos brilhantes estão atentos; seu corpo fica impaciente e começa a tremer levemente. De repente, ele se separa do grupo, voando por sobre a grama verde, mais e mais rápido.

Você foi visto, e quando você e seu amigo especial finalmente se encontrarem, ficarão unidos num reencontro de alegria, para nunca mais se separarem. Os beijos de felicidade vão chover na sua face; suas mãos vão novamente acariciar a tão amada cabecinha, e você vai olhar mais uma vez dentro daqueles olhos cheios de confiança, que há muito tempo haviam partido da sua vida, mas que nunca haviam se ausentado do seu coração.

Então vocês, juntos, cruzarão a ponte do arco-íris." Esse é o texto, e eu penso em como seríamos felizes se tivéssemos a certeza de que isso aconteceria, não só com os bichos mas também com as pessoas que tanto amamos e se foram. Quem sabe?

danuza.leao@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! O Brasil tá muito louco!

Janeiro é o mês da árvore símbolo do Brasil, o ipê: IPÊva, IPÊtu, IPÊi e IPÊRTENSÃO!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Ano-Novo! Tudo novo! Linguiça não tem mais trema. E voo não tem acento. Principalmente os da TAM e da Gol. Ai não tem mais acento e nem voo!

E janeiro é o mês internacional da dieta! Mês de fazer força pra fechar a calça. Nunca comi tanto bicho como em dezembro: peru, galinha, porco, cordeiro. Parece que engoli um zoológico.

Um médico disse que, depois dos 40, a única coisa que você pode comer com gordura é a tua mulher. Por isso todo mundo tá de dieta!

E diz que o Lula financiou a reforma ortográfica em 25 anos: "Cum esse tempo fica mais FÁFIL DE AFIMILAR". E o hífen? Hífen é como hímen: só serve pra atrapalhar!

E janeiro é o mês da árvore símbolo do Brasil, o ipê: IPÊva, IPÊtu, IPÊi e IPÊRTENSÃO! De tanta conta pra pagar. E IPVA é Imposto para Vários Amigos.

Tem que fazer vaquinha pra pagar. IPVaquinha. E um amigo me disse que o IPVA é impagável e o carro é IMPLACÁVEL! E sabe por que tributo se chama tributo?

Porque os carnês chegam de três em três. E é tanto tributo que tô triputo da vida! E o Lula diz que não lê jornais porque dá azia. Mas ele come jornal?

Como não consegue ler, COME! E continuo contra essa reforma ortográfica. É o trauma do trema: eu quero botar os pingos nos us! Rarará! Grande Piada Pronta do Ano! A Madonna encontrou um pinto iluminado!

Sabe como é o nome oficial do namorado brasileiro dela? Jesus PINTO da Luz. Sabia que tinha pinto no meio! O cara foi tirar passaporte e apareceu o Pinto! Ela deve ter dito: "Jesus! Que Pinto!". E Pinto da Luz é um pinto iluminado.

O cara deve ter uma lanterna! O namorado da Madonna tem um pinto iluminado! E já tão dizendo que o novo CD da Madonna vai ser Cock Light! Com a Madonna tudo é light: Coca light, Jesus light e Pinto light! E no blog Papelpop uma das meninas comentou: "Eis que da luz surgiu um pinto"!

O Brasil não tá em crise! Olha o outdoor em Fortaleza: "Comece o ano com o pé direito... na bunda da crise". É que o Lula mandou gastar.

Por isso que o site Comentando lançou um novo filme: "MANDAGASTAR 2". Com Lulalelé, Dilmão e Guido Manteiga. Aliás, o Brasil tá em crise: o rei Momo agora só pesa 90 quilos. Tiraram dez quilos do rei Momo.

É o corte de verba do Kaxab! Esse país é muito louco: o rei Momo é saradão e o maior atacante de futebol é gordão. O rei Momo é saradão e o Fenômeno é gordão.

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete do óbvio lulante: "Hímen": objeto que o companheiro gruda na porta da geladeira. Himens de geladeira. Rarará.

O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã!

simao@uol.com.br


11 de janeiro de 2009
N° 15845 - MARTHA MEDEIROS


Competência pra vida

Tem aquelas pessoas de quem a gente é fã, mesmo não compactuando com o comportamento delas quando os holofotes se apagam.

É o caso da Amy Winehouse, por exemplo, que acabou se envolvendo com drogas de uma maneira descontrolada e que por causa disso coleciona episódios deprimentes de internações, vexames públicos e risco de vida. Se eu lesse um livro que reunisse entrevistas dessa inglesa pancada das ideias, provavelmente não me identificaria muito com ela.

Ainda assim, sua privacidade não é da minha conta, portanto nada me impede de considerá-la um dos melhores acontecimentos musicais dos últimos anos: é uma cantora de personalidade única e com um repertório classudo eu certamente estaria na fila do gargarejo se Amy fizesse um show por aqui, mesmo correndo o risco de ela cair desmaiada sobre minha cabeça e eu ter que carregá-la de volta pro camarim.

E tem aquele outro tipo de artista que nos ganha por completo: a gente admira não só sua obra, mas sua visão de mundo também, o que estabelece um caso de amor eterno, que é o que rola entre mim e Woody Allen – por enquanto, um caso de amor unilateral porque ele ainda não sabe da minha existência, mas deixe saber.

Além de muitos DVDs, tenho alguns livros sobre ele, e adicionei à minha coleção o Conversas com Woody Allen, que reúne uma série de entrevistas que ele concedeu ao longo dos últimos 40 anos ao jornalista Eric Lax, e de onde se podem extrair declarações do tipo: “Eu gostaria de fazer um grande filme, desde que isso não atrapalhe a minha reserva para o jantar”.

A despeito de sua modéstia – ele já fez dúzias de grandes filmes – o que me seduz nessa declaração é que ele revela ser do tipo que não coloca o trabalho à frente da vida pessoal, não sacrifica seus prazeres mundanos, não vira noites nem adoece por causa de um ofício que, por mais importante que seja, não vale um encontro com o namorado ou um almoço no dia do aniversário do filho. Eu desconfio muito de quem não valoriza o seu ócio predileto e acaba virando gângster de si mesmo.

Até podem ganhar prêmios com sua dedicação inumana, mas perdem todo o sabor da vida. São profissionais competentes, por um lado, mas incompetentes por não reconhecerem a importância de alcançar uma certa vadiagem responsável, que é como eu chamo o “trabalhar sem se matar”.

Quando fui publicitária, em priscas eras, meus colegas ficavam fulos ao me ver dando tchau às sete da noite e voltando pra casa sem um pingo de remorso, enquanto eles ficavam até altas horas fazendo não sei bem o quê – provavelmente o que fazem até hoje.

Tirando algumas ocasiões excepcionais, em que realmente o trabalho exige hora extra, o resto é tempo desperdiçado em reuniões inúteis e enrolação de quem não tem nada melhor pra fazer nas suas horas livres.

Nesse mesmo livro, Woody Allen aconselha todo mundo a trabalhar, claro, mas recomenda que se divirtam com o processo, que não deem bola para o que os outros dizem e que, por mais gratificante que seja ganhar dinheiro, não se deixem levar por ilusões de grandeza. Menos vaidade, mais prazer.

Não estivesse ele comprometido e ligeiramente fora do meu alcance, eu o convidaria para jantar.


11 de janeiro de 2009
N° 15845 - PAULO SANT’ANA


Dois últimos prazeres

Como não tenho cultura gastronômica, nunca pude apreciar os pratos estrangeiros. Por isso, tenho devotamento somente pelas cozinhas brasileira e italiana.

Não me seduz a cozinha chinesa, nem a francesa, nem a tailandesa, o único prato estrangeiro que me apetece quase todos os dias é o espaguete, seja ao sugo, seja à carbonara, seja com camarão.

Só que estas frequentes infidelidades minhas à cozinha brasileira, ingressando periodicamente no mundo do macarrão, talvez por culpa, me fazem ter uma estranha preferência: gosto de comer massa com feijão, nunca tolerei massa com arroz, mas massa com feijão saboreio quase todos os dias.

O que eu gosto mesmo é de pirão. Dou a vida por um pirão. E se for com peixe ensopado, que os restaurantes teimam em não possuir nos seus cardápios, fazendo-me morrer de saudade dos bagres ensopados que comia durante a minha adolescência, como eu dizia, se me servirem em algum lugar peixe ensopado com pirão, sou capaz de virar escravo de quem me ofertar este prato.

E não há melhor pirão que aquele que acompanha o camarão à baiana. Se o pirão já não vier misturado com o molho de tomate do camarão, eu o misturo no prato, eis-me diante da maior de todas as delícias.

O que eu gosto mesmo é de churrasco e de feijoada. Esses dias eu estava matutando: será que eu gosto de churrasco e de feijoada por serem comidas saborosas ou por serem duas comidas que não se pode comer sozinho e a companhia de outras pessoas à mesa é que me atrai?

Nunca como churrasco sozinho. E raramente como churrasco com somente outra pessoa em minha companhia. O mesmo com a feijoada.

Churrasco e feijoada são pratos grupais, é imprescindível que sejam comidos com bastante pessoas à mesa, deixam de ser uma delícia se forem comidos com a gente sozinho ou com apenas outra pessoa de companheira.

Churrasco e feijoada são pratos gregários, coletivos, se prestam para uma certa cerimônia, um ritual, que exige muitas pessoas em volta.

Não há sabor nenhum no churrasco ou na feijoada se não houver um alarido na volta da mesa. Tem que ser uma festa.

Churrasco e feijoada, para mim, são refeições que duram várias horas, tem de ter muita conversa e se possível cantorias em torno deles.

Churrasco e feijoada, nunca vi serem comidos por uma só pessoa.

O que eu gosto mesmo é de guisadinho com batata, molhadinho. Ponho o arroz no prato, derramo sobre ele o guisadinho com batata, e me perdoem, amasso os nacos de batata, é assim que gosto de comer este prato.

O que eu gosto mesmo é de polenta, seja fina, seja grossa. E gosto mais ainda de polenta mole.

E como de joelhos um aipim quando ele é macio. Aipim com feijão, aipim com couve, aipim com carne assada. Acima de tudo aipim com feijão.

Tem outra coisa que eu gosto, certamente todas as coisas que gosto foram herdadas da minha infância: quibebe.

Quibebe com arroz e feijão é claro. Que coisa gostosa!

E não passam daí as minhas preferências culinárias. Ah, ia me esquecendo de uma das maiores gostosuras: tudo que for feito à milanesa. Desde o filé bovino, passando pela galinha à milanesa. Vocês já comeram galinha à milanesa? Quando bem feita é dos deuses.

E há uma outra coisa que gosto que me enrosco de comer à milanesa: couve-flor. Meninos, não lhes conto: couve-flor à milanesa é um desses pratos inesquecíveis.

E se hoje me deu de falar em comida é porque a vida foi me tirando aos poucos todos os prazeres, desde o maior deles, que era mergulhar em água de mar quente. Por causa de uma doença crônica que tenho nos ouvidos, não posso mais.

Se eu for mergulhar ou até mesmo banhar os meus cabelos no chuveiro, é certo, me garantem os otorrinos, ficarei surdo.

Então foram me tirando todos os prazeres e dos 17 que eu tinha, só me restaram os últimos dois: a mesa e o cigarro.

E como não é certo que eu elogie o cigarro publicamente, então fiz esta coluna inteira cantando as comidas que me apetecem.

O cigarro, de um jeito ou outro, vão me fazer largar. Peço só a Deus que nunca me afaste das comidas.


11 de janeiro de 2009
N° 15845 - MOACYR SCLIAR


Dialogando com os ladrões de carro

Uma vez, em Chicago, passei por um velho e dilapidado carro. Um pequeno cartaz, grudado no vidro pelo lado de dentro, chamou-me atenção. Dizia mais ou menos o seguinte: “Senhor ladrão, é inútil arrombar este veículo. Tudo o que podia ser roubado já foi roubado”.

Esse diálogo com a transgressão, sobretudo numa cidade lendária pela violência das gangues, é, convenhamos, original. É claro que avisos semelhantes são encontrados em veículos e em locais aqui no Brasil, advertindo, por exemplo, que o cofre é boca-de-lobo (não sei que cofre é este, mas deve ser muito mais complicado para os ladrões do que o cofre boca-de-cordeiro). Mas o curioso no carro de Chicago era o tom informal, quase amistoso, ou pelo menos resignado.

Esse diálogo, contudo, só é possível com um tipo de ladrão, o artista do roubo – o hábil batedor de carteiras, por exemplo. É inútil, e até perigoso, dizer alguma coisa engraçada para o cara que está armado e que vai atirar por qualquer coisa. Um risco real, já que o assaltante violento é uma categoria que está em rápido crescimento. Mas felizmente ainda existem ladrões do modelo antigo.

Uma noite dessas, meu carro, um Gol, foi visitado por ladrões. Trabalho de profissional competente. O alarme estava ligado, então o que fizeram eles? Através de uma grade de refrigeração que existe sobre o motor, introduziram um arame ou algo parecido e, com precisão cirúrgica, pescaram o cabo da bateria, cortaram-no e pronto, lá se foi o alarme.

Entraram no veículo sem danificá-lo e roubaram duas coisas que, segundo me disse o rapaz do socorro do Banco do Brasil, são as habituais: o rádio e o estepe. Mais nada. Havia ali um guarda-chuva, verdade que barato, mas eles o deixaram, talvez porque o tempo estava bom ou talvez porque sejam adeptos do “quem sai na chuva é para se molhar”. Ah, sim, e aquelas moedas que a gente usa para dar para os pedintes nas sinaleiras também ficaram. Os ladrões claramente eram adeptos da distribuição de renda.

Um incidente desse tipo pode ser evitado no futuro, e tomei medidas para isso: cobri a bateria e os cabos com um plástico rígido, à prova de qualquer intrometido arame. E a partir daí passei a ter um imaginário diálogo com os ladrões.

No qual eles se mostram indignados: “Isso é um desaforo, cara. Cobrir a bateria com um plástico, onde é que já se viu? Se nem a fábrica fez isso, por que é que tu tinhas de fazer? Só para atrapalhar nosso trabalho”?

É, amigos. Confesso, constrangido, que fiz isso para atrapalhar vocês. Claro, eu poderia alegar que preciso ouvir rádio, ficar em dia com o que acontece no mundo, sobretudo nessa época de crise; mas não posso negar que a decepção de vocês me alegraria.

Por que, não sei. Deve ser uma espécie de perversão. Da qual o dono do carro de Chicago estava livre.


11 de janeiro de 2009
N° 15845 - DAVID COIMBRA


O bom conselho

Havia um zagueiro na Dupla Gre-Nal que era o seguinte: ele tinha uma mulher loira. Não faz muito isso. Zagueirão. Viril e tudo mais. E tinha aquela mulher loira dele. Ninguém sabia da mulher dele, até que um dia ela apareceu no estádio. Uma loira voluptuosa de calça branca. Sabe como são essas loiras voluptuosas de calça branca.

Bem.

Ela chegou ao estádio e todo mundo ficou olhando. Os jogadores, no treino, comentavam sobre a loira. Olha lá, olha lá. O zagueiro não percebia.

Aí chegou a época da pré-temporada. Lá se foi o time Serra acima, o zagueirão junto. De repente, no treino da tarde, quem surge? Acertou: a loira. Em volta de seus quadris macios havia uma minissaia minúscula, e ela ondulava sobre saltos de 15 centímetros que lhe empinavam as panturrilhas, que por sua vez lhe empinavam as coxas, que então lhe empinavam as nádegas, que finalmente lhe empinavam a alma. Lá estava uma loira de alma empinada.

O coletivo foi abalado pela aparição da loira. O goleiro titular levou um frango e o atacante reserva que chutou nem viu. No fim do dia, o técnico foi procurar o zagueirão. Esse técnico, é preciso dizer, era um tipo que ouriçava as mulheres com seu charme de cinquentão experiente porém vigoroso. Pois o técnico, do alto de sua sabedoria de femeeiro, foi alertar o zagueirão:

– Meu filho – disse, paternal, passando o braço por cima dos ombros largos do jogador – a tua mulher é uma bela mulher.

– Obrigado, professor.

– De nada. Mas, olha, isso faz dela uma mulher cobiçada. – Ahn? – Desejada. Os outros homens gostariam de ter uma mulher assim.

– Quem? Quem??? – Ah... Muitos... Então, para te preservar e preservar ela, vou te dar um conselho.

– O que, professor? O quê???

– Olha: eu conheço uma pequena pousada perto daqui. Que tal hospedá-la lá, longe dos olhares dos outros jogadores? Assim, à noite, ela fica a salvo, não fica zanzando aqui pelo nosso hotel, e de dia ela pode vir te ver treinar e, nas folgas, tu podes visitá-la. Que tal?

– Oh, boa ideia, professor. Muito obrigado. Vou fazer isso. Muito obrigado mesmo!

– Pode deixar que a instalo na pousada, sem problemas.

O zagueiro se despediu do técnico quase que lhe beijando a mão em agradecimento. De fato, naquela noite mesmo, o prestativo técnico levou a loira para a pequena pousada. Voltou para a concentração e bateu no apartamento do zagueiro:

– Tudo certo. Pode ficar tranquilo. – Obrigado, professor. Muito obrigado. Muito, muito obrigado!

Despediram-se. Vinte minutos depois, o técnico estava outra vez na pousada. Bateu à porta do quarto da loira. Ela atendeu:

– Professor! Vestia uma camisola diáfana como o espírito das criancinhas. – Queria te dar alguns conselhos, minha cara.

– Claro, professor!

Ela escancarou a porta. Ele entrou. Só saiu no meio da manhã seguinte. Mas, tudo bem, naquela manhã, o treino era por conta do preparador físico.

As pré-temporadas na Serra bem que podem ser assim, aprazíveis para quem sabe aproveitar a vida.

Os conselheiros do Pretinho

O Pretinho Básico, da Atlântida, tem três conselheiros: o L. Potter e o Fetter, do Inter, e o Cagê, do Grêmio. Nesta sexta, o Potter e o Fetter comentavam sobre a (remota) possibilidade de o Guiñazu sair do Inter. Ergueram-se em indignação.

– Não troco o Guiñazu nem pelo Cristiano Ronaldo! – bradou o Potter, e o Fetter aplaudiu: – Isso mesmo!

Está resumido aí, no posicionamento de dois conselheiros inteligentes e ilustrados, o grande erro ideológico do futebol gaúcho: em defesa de um suposto e impalpável espírito guerreiro, o gaúcho esquece que o futebol não pode prescindir do talento.

Mais: o futebol não pode prescindir do gol. Nenhuma posição, nenhum treinador, nenhum dirigente é mais importante, no futebol, do que um centroavante fazedor de gol.

sábado, 10 de janeiro de 2009


Cláudio Gradilone e Juliana Garzon

O que fazer para não ser o pato em 2009

Saiba como proteger o seu dinheiro e não ser abatido pelo tiroteio da crise financeira



No segundo semestre de 2008, uma pedra gigantesca desabou sobre as águas plácidas da economia mundial. As ondas que partiram do mercado financeiro, epicentro do desastre, devem se espraiar em círculos cada vez mais amplos em 2009. As previsões de crescimento para o Brasil, no ano que vem, falam em 2,4%.

Isso é menos da metade do que se verificou em 2008. Nesse cenário, o indivíduo que descuidar de suas finanças poderá ser abatido como o proverbial patinho na lagoa. Quem agir poderá não apenas preservar o seu dinheiro, mas também multiplicá-lo. Nas próximas páginas, o leitor encontra um guia para atravessar 2009 em segurança do ponto de vista financeiro.

A primeira reportagem enfoca os dez tipos de investimento mais comuns, analisa o impacto que a crise pode ter sobre eles e indica como escapar das armadilhas. "O tolo e seu dinheiro" aborda o "inimigo interno" de todo investidor – as inclinações naturais da espécie humana, exploradas por duas ciências jovens, a economia comportamental e a neuroeconomia, que nos levam a tomar decisões desastradas ao lidar com dinheiro.

A guerra em torno das finanças domésticas, que leva a quatro em cada dez divórcios segundo uma nova pesquisa, e a necessidade de cuidar da "alfabetização financeira", seja com leituras, seja nos cerca de 500 cursos voltados a essa finalidade no Brasil, completam o quadro.

Haja ou não crise, alguns fundamentos básicos da arte de investir não mudam. Um deles é a necessidade de diversificar as aplicações para reduzir os riscos. Nossas avós diziam para não colocar todos os ovos na mesma cesta – ditado que foi confirmado por vários prêmios Nobel de Economia. Investir, além disso, sempre será parecido com fazer uma viagem. Nada vai dar certo se o investidor não tiver um objetivo claro.

Assim como o viajante, ele pode escolher entre uma jornada rápida e arriscada e outra em que se contempla a paisagem, mas que demora mais tempo. Há, finalmente, recomendações como a de Warren Buffett, um dos três homens mais ricos do mundo: não invista em nada que você ache incompreensível. Investir é como escolher uma roupa. Além de olhar se combina, o investidor tem de se sentir confortável com o que está usando.

Nos últimos dez anos, uma mudança cultural considerável já se deu no Brasil. Há mais informação circulando, e mais gente alerta para a necessidade de planejar sua vida financeira – pois isso, no fim das contas, se traduz em capacidade para realizar as próprias aspirações.

É o que se vê com clareza na bolsa de valores. Atualmente, mais de meio milhão de brasileiros já se habilitaram a comprar e vender ações diretamente na Bovespa. As primeiras ondas da crise iniciada em 2008 machucaram esse grupo de pessoas: no segundo semestre, o índice Bovespa despencou quase 50%. Diante de tamanho prejuízo, seria de esperar que os pequenos investidores bateriam em retirada. Não foi o que ocorreu. Encerrado o ano, a bolsa contava com 80 000 novos investidores.

É sinal de que surgiu uma nova mentalidade, e de que o poupador brasileiro, especialmente o mais jovem, sabe que um pouco de ousadia e diversificação das aplicações é necessário para alcançar uma rentabilidade maior. Junte-se a ele.

10 decisões financeiras

Ilustrações Stefan

1 - POUPANÇA

É a porta de entrada para o mundo dos investimentos. Aplicação segura, isenta do imposto de renda e de taxas de administração. Mas o rendimento é pequeno.
O cenário atual: em 2008, a poupança bateu a inflação por muito pouco: rendeu 8%, contra 6% do IPCA. O ganho real, portanto, é ínfimo.

Não seja o pato: com aplicações a partir de 1 000 reais já é possível encontrar fundos de investimento tão seguros quanto a poupança – e mais rentáveis. Diz Marcelo Xandó, diretor da Verax Serviços Financeiros: "A caderneta deve ser usada para acumular um volume inicial de recursos, que depois devem ser distribuídos em outras aplicações".

2 - FUNDOS DI E DE RENDA FIXA

Aplicações lastreadas por títulos públicos e privados, são um porto seguro em tempos de crise. O rendimento fica próximo ao da taxa básica de juros definida pelo Banco Central, descontados impostos e taxa de administração.

Cenário atual: no fim de 2008, o BC deu sinais de que vai reduzir a taxa de juros, atualmente em 13,75% ao ano, na próxima reunião de seu Comitê de Política Monetária, em 21 de janeiro. É uma medida para estimular a economia.

Se a tendência de redução se mantiver ao longo de 2009, a rentabilidade dos fundos DI e de Renda Fixa poderá ser menor que os 12% alcançados em 2008 – mas ainda bastante elevada em termos comparativos: basta lembrar que países como Estados Unidos e Inglaterra derrubaram seus juros para perto do zero.

Não seja o pato: preste atenção às taxas de administração cobradas pelos bancos: elas podem devorar boa parte do rendimento da sua aplicação. Fuja de fundos DI ou de renda fixa que tenham taxas de administração acima de 2% ao ano.

3 - CDBs

São os certificados de depósito bancário, um título emitido pelas instituições financeiras para levantar capital.

Cenário atual: com o enxugamento do crédito externo causado pela crise global, os bancos passaram a pagar juros mais elevados na tentativa de atrair investidores para os seus papéis. Essa tendência deverá continuar em 2009, tornando os CDBs uma das aplicações mais atraentes do momento.

Não seja o pato: o maior risco de aplicar em CDBs é a quebra da instituição que os emitiu. O setor bancário brasileiro tem solidez para enfrentar a crise – mas não custa se precaver. Privilegie os CDBs de grandes bancos, públicos ou privados. Se aplicar volumes superiores a 60 000 reais, que são garantidos, pense na possibilidade de distribuir a aplicação em mais de uma instituição financeira. rfaa de administraç

4 - AÇÕES

Cada ação é uma parcela de participação numa empresa. O preço dos papéis reflete a expectativa de lucros futuros daquele negócio

Cenário atual: Depois de cinco anos seguidos de alta e euforia, a Bovespa teve um 2008 trágico: perdeu quase metade de seu valor. No curto prazo, a alta volatilidade torna a aplicação arriscada.

Mas a Bovespa dá sinais de recuperação e acumula alta de 11% neste ano. "As ações apresentam boas oportunidades de investimentos, especialmente no segundo semestre, com a perspectiva de retomada na economia mundial", diz Julio Martins, diretor da Prosper Gestão de Recursos. Lembre-se de que, apesar da perda do ano passado, a Bovespa acumula alta de 280% desde o início de 2003

Não seja o pato: A chave é diversificar. Mesmo os investidores mais experientes não aplicam todos os seus recursos em ações, e nunca nos papéis de uma única empresa.

Evite comprar papéis de empresas novatas na bolsa (elas até podem se provar lucrativas no futuro, mas tendem a ser apostas arriscadas). Nunca haja por impulso. Não se deixe levar pelo comportamento de manada, que conduz ao mais grave dos erros: comprar ações na euforia da alta para vendê-las (com prejuízo) no pânico da baixa

5 - FUNDOS DE AÇÕES

Como diz o nome, eles têm a maior parte de seus recursos aplicada em ações. São ideais para quem quer colocar ao menos parte do seu dinheiro na bolsa, sem a necessidade de negociar diretamente os papéis

Cenário atual: Esses fundos acompanham a oscilação vertiginosa das ações, o que os torna arriscadíssimos para quem precisa do dinheiro no curto prazo. Mas há boas chances de eles voltarem a ser um dos investimentos mais rentáveis em 2009

Não seja o pato: Antes de escolher um fundo, veja em quais papéis ele aplica os recursos. Privilegie aqueles que tenham papéis de empresas sólidas em sua carteira. Mantenha o sangue-frio em caso de desvalorização. Quando a maré virar, o capital poderá ser recuperado. Não se esqueça de que perdas e ganhos só ocorrem de fato quando o investidor decide sacar os recursos

6 - FUNDOS MULTIMERCADOS

Suas carteiras contêm vários tipos de papéis. Os conservadores concentram suas apostas em títulos públicos e ações. Mas existem os mais agressivos e até os ultra-arriscados — que não se detêm sequer diante dos famigerados "derivativos tóxicos"

Cenário atual: Com valorização média de 5%, tiveram em 2008 resultado menos desastroso que o dos fundos de ações. Mas perderam da inflação

Não seja o pato: Mais uma vez, preste atenção em que tipo de papéis o fundo aplica os recursos. Se quiser evitar surpresas desagradáveis, opte por aqueles que invistam apenas em títulos públicos e em ações de grandes empresas. Mais vale ser um conservador com dinheiro do que um especulador falido

7 - DÓLAR

A divisa dos Estados Unidos é a moeda mais negociada e mais aceita no mundo, sendo um refúgio para os investidores em momentos de turbulência
Cenário atual: Depois de cinco anos seguidos de queda, o dólar voltou a se valorizar em 2008.

Muitos investidores estrangeiros tiraram divisas do Brasil para cobrir obrigações lá fora. Se o dinheiro desses investidores voltar, a cotação da moeda deverá recuar novamente. É a aposta dos especialistas. Diz Silvio Campos Neto, economista do banco Schabin: "O movimento global de valorização do dólar deverá se reverter".

Não seja o pato: Tratar o dólar como um investimento é algo altamente arriscado. A cotação oscila muito, e rapidamente. Nenhum economista consegue prever com exatidão a cotação futura. Não especule. Isso é coisa para profissionais. Caso tenha alguma viagem programada, compre dólares aos poucos, aproveitando os movimentos de baixa

8 - PREVIDÊNCIA PRIVADA

São fundos nos quais se deposita todo mês uma parcela do salário, para garantir a renda depois da aposentadoria

Cenário atual: Há fundos compostos exclusivamente por títulos públicos e outros mais agressivos, que aplicam até 30% de seus recursos em ações. Os primeiros tiveram alta de 11% em 2008. Os segundos, queda de 10%

Não seja o pato: Tenha em mente o seu horizonte de aplicação. Quem tem mais de 50 anos e está prestes a se aposentar deve optar por fundos conservadores, não sujeitos à volatilidade das ações. Os poupadores mais jovens podem ousar e contratar carteiras carregadas de ações. "Aplicações mais arriscadas ficam bem mais interessantes quando ainda falta muito tempo para o investidor se aposentar", afirma o consultor Caio Torralvo.

9 - IMÓVEIS

A compra da casa própria é de longe a decisão financeira mais importante na vida da maioria das famílias. Costuma representar a fatia mais encorpada do seu patrimônio
Cenário atual: Com a crise, caiu o ritmo de vendas de casas e apartamentos novos.

Há uma boa quantidade de apartamentos e casas à venda. O comprador ganhou poder de barganha para obter um desconto. Além disso, há bancos que não subiram os juros do financiamento imobiliário.

Não seja o pato: Pesquise, reflita e pechinche. Analise sua condição financeira a fundo e não assuma uma dívida que comprometa mais de 30% de seu salário. Lembre-se de que se trata de um financiamento longo, em geral superior a dez anos

10 - CARROS

O carro novo é um objeto de desejo, e o principal bem de consumo durável de uma família

Cenário atual: Os estoques das montadoras estão elevados, e o governo diminuiu os impostos. O resultado é que os carros novos ficaram mais baratos – especialmente para quem não se importar em adquirir um modelo com ano de fabricação de 2008.

Mas os financiamentos ficaram mais caros e mais difíceis. Além disso, os preços dos usados, que normalmente servem de entrada na aquisição de um veículo novo, caíram bastante, o que deixou a troca mais complicada

Não seja o pato: É preciso pesquisar, e muito, em diversas concessionárias – tanto para obter o menor preço possível pelo novo a ser comprado como para conseguir a melhor cotação para o seu usado.

Quem for financiar precisa comparar minuciosamente as taxas de juros cobradas. Elas variam bastante entre os bancos. Nem sempre a financeira da concessionária oferece as melhores condições

Lya Luft

As mortes poderiam ser evitadas

"Estamos tão pressionados pela vida, a política, as circunstâncias, as dificuldades, os medos e sustos, que por qualquer coisa explodimos. Penso que somos uma geração doente da alma"

Ilustração Atômica Studio

Abrimos o ano novo com a habitual lista de tragédias que poderiam ser evitadas. Talvez a gente não perceba o valor da própria vida. Talvez a gente só consiga viver porque não tem consciência disso. Parece que só diante da morte nos damos conta de que, apesar dos altos e baixos, viver é maravilhoso, viver bem é possível. Na corrida do cotidiano, não paramos para pensar: "O que estou fazendo da minha vida? Como estou tratando as pessoas que amo?

De que jeito estou cuidando delas, de mim, deste mundo em que vivemos?". Isso me ocorre especialmente lendo as primeiras notícias dos primeiros horrores: mortes nas estradas e cidades, fome e miséria para milhões de pessoas inocentes pelo mundo e, de novo, a guerra.

Ou sempre as guerras, pois o homem gosta de brincar de bandido e mocinho, trocando as armas de brinquedo por tremendas armas de verdade. Nelas incluo carro, ônibus, barcos e outros.

Pelas estradas e ruas – para começar com o doméstico e cotidiano – não é preciso esperar muito para presenciar as maiores aberrações, desde pedestres praticamente se jogando diante de carros e caminhões até motoristas que parecem alucinados. Não sei se é possível, mas valeria a pena, quem sabe, tentar contar o número de mortes burras e evitáveis no trânsito, que ocorrem por imprudência, loucura, arrogância, despreparo, futilidade.

Mortes fúteis, que mesmo sendo fúteis são tragédias. E não falo só dos assassinatos praticados pelos motoristas alcoolizados, falo também dos infantiloides e idiotas, que mesmo assim têm nas mãos as poderosas armas que são o carro, o ônibus, o caminhão.

Dirijo frequentemente em estradas, e diariamente em ruas. Boa parte dos motoristas não poderia ter carteira, não deveria dirigir. Não antes de conhecer as regras e aprender a respeitá-las, não antes de amadurecer, ter consciência e ser uma pessoa confiável. Com um veículo seguro.

O que se vê nas ruas e estradas é um espetáculo incompreensível de imprudência e loucura. Ultrapassagens incríveis, muitas vezes feitas por um pai de família com o carro cheio de crianças. Impaciência doentia, uma raiva generalizada dando a impressão de que se quer matar, atropelar, fazer sofrer o primeiro que aparecer pela frente. O verniz de civilidade que nos cobre é cada vez mais tênue.

Talvez seja mais um sinal dos tempos: estamos tão pressionados pela vida, a política, as circunstâncias, as dificuldades, os medos e sustos, que por qualquer coisa explodimos.

Penso que somos uma geração doente da alma. Ultrapreocupados, supermedicados, incapazes de relaxar e curtir a vida, de parar para pensar ("Parar pra pensar? Nem pensar! Se paro para pensar, eu desmorono!", a gente ouve com frequência).

Estamos hipnotizados por questões de saúde, sentamos à mesa só pensando em triglicérides e calorias, deitamos pensando no Viagra, acordamos apressados porque é preciso correr, caminhar, ir à academia – tudo coisas ótimas, desde que não sejam obsessão. Porém, na conduta diária, em nossas particulares vidinhas, supertensionados, nos portamos como adolescentes insensatos.

E agora, mais uma vez, a guerra. Sempre há guerrinhas neste vasto mundo estranho. Não quero nem sei discutir razões e justificativas nem desta nem de outra guerra qualquer. Mas é nas guerras – como nos campos de refugiados na África e também por aqui, onde se morre de fome, sujeira e falta de condições mínimas – que nos damos conta do pouco valor da vida para uma humanidade que se bota fora a todo momento.

No cotidiano em casa, na rua, na estrada, no campo de batalha, no corpo dos inocentes atônitos em casas arrasadas ou veículos destroçados, hospitais sem estrutura ou apenas com condições sub-humanas, a gente se porta como se a sobrevivência fosse garantida, e tivéssemos dos deuses o aval para cometer todas as imprudências assassinas e mortais futilidades que se possam inventar. Bom Ano Novo, para os que conseguirmos sobreviver.

Lya Luft é escritora


A fórmula do amor eterno

Os avanços da genética e das técnicas para mapear o cérebro ajudam a explicar por que certas paixões duram e outras não Marcela Buscato e Martha Mendonça. Com Danilo Casaletti

O segredo da paixão eterna é a ativação de um circuito na área tegmentar ventral, uma região do mesencéfalo, no meio da cabeça. Certo, não soa nem um pouco romântico, mas essa descoberta de cientistas de duas universidades americanas, noticiada na semana passada, pode ajudar a entender por que alguns relacionamentos duram tanto e outros tão pouco. A área tegmentar ventral é acionada quando algo nos dá prazer.

Os pesquisadores das universidades Rutgers e Stony Brook, nos Estados Unidos, detectaram em imagens computadorizadas um pequeno ponto de luz, indicador desse circuito cerebral em atividade, nas pessoas que têm relacionamentos estáveis há pelo menos duas décadas. Pode ser a prova de que não é uma ilusão a paixão que permanece tão intensa quanto no primeiro dia.

“O contexto do início ajudou muito. Jovens, belos, isolados no Xingu, nadando seminus em rios límpidos. Éramos pura sensação, todos os sentidos aguçados no meio do nada, longe da cidade e do barulho. A química foi perfeita, o desejo irrefreável, aquela coisa que sai faísca. Mas o melhor é dizer que até hoje somos assim. Respeitamos a individualidade do outro, mas sentimos muita saudade quando um trabalho nos separa.

Trocamos e-mails, pegamos avião para passar um tempo mínimo com o outro. O Ri é muito generoso, o tipo de homem doador. Cada reação dele diante de coisas grandes ou pequenas é coerente, é bonita. E temos muito tesão, sem o qual nada pode seguir adiante”

Bruna Lombardi, 56 anos, e Carlos Alberto Riccelli, 61 anos, estão juntos desde 1978. Conheceram-se gravando Aritana, novela sobre uma índia do Xingu - “É difícil falar do que mais gosto em uma mulher tão linda como a que eu tenho.

Dá para dizer ‘tudo’? Na primeira vez que bati o olho, pensei, impressionado, o que qualquer homem pensaria em relação a ela. Adoro os olhos, a boca, as pernas, os pés, o jeito como ela se mexe. A lista é enorme! Mas o melhor é que não é só isso. Atrás daquilo tudo havia uma mulher inteligentíssima, brilhante, apaixonada pela vida.

O começo é importante, mas para que dê certo as pessoas precisam querer continuar acertando. Não existe um segredo. As pessoas são diferentes e a interação delas também. O Universo conspira, mas precisamos fazer a nossa parte”

Casais de longa data que se dizem tão apaixonados quanto no primeiro encontro – como alguns dos que contam a ÉPOCA, nestas páginas, como encaram o amor – não estariam, portanto, se iludindo, como apregoam os céticos e os de coração calejado – ou cérebro desligado.

Os pesquisadores compararam o cérebro de 17 homens e mulheres que relatavam sentir uma paixão intensa pelos companheiros de décadas com os de namorados há menos de um ano juntos. Um equipamento de ressonância magnética mostrou que, ao verem fotos do parceiro, os cérebros dos apaixonados veteranos reagiram da mesma maneira que os dos namorados recentes: a tal “área tegmentar ventral” foi ativada.

“Nós ainda não temos certeza quanto aos fatores que fazem a paixão durar tanto tempo em alguns casais”, diz o psicólogo Arthur Aron, um dos coordenadores do estudo.

Mas há suspeitas de que esses motivos sejam mais uma questão de “quem” em vez de “o quê”. “É preciso escolher a pessoa certa para que a paixão seja duradoura”, diz a antropóloga Helen Fisher, outra coautora do estudo e uma das mais respeitadas especialistas nas transformações cerebrais causadas pela paixão.

Os avanços da ciência nos últimos anos podem ajudar na busca pelo parceiro ideal? Ao que tudo indica, sim. As técnicas de mapeamento do cérebro já conseguem mostrar o que acontece com ele quando estamos apaixonados.

E a genética está ajudando a explicar por que nos sentimos atraídos por determinadas pessoas e por que outras que teriam tudo para nos atrair se tornarão, no máximo, bons amigos.

Já são vendidos testes genéticos com a promessa de unir casais que teriam literalmente nascido um para o outro. Pode ser um pouco precipitado, considerando o estágio atual das pesquisas.

Mas até que ponto a ciência pode determinar por quem nos apaixonamos? Os sintomas clássicos do surgimento da paixão – o frio no estômago e as mãos suando – poderiam ser trocados por um impessoal exame de laboratório?


10 de janeiro de 2009
N° 15844 - NILSON SOUZA


A dor do conhecimento

Atentação imposta à primeira mulher era mesmo irresistível: comer o fruto proibido e adquirir instantaneamente todo o conhecimento do mundo. Que vestibulando não fecharia esse contrato, mesmo que a proposta fosse feita por uma serpente?

Estudar dói, e dói mais ainda nestes tempos de múltiplos atrativos para crianças, adolescentes e jovens.

Parece crueldade obrigar alguém a ler um livro quando tudo o que pode conter nele está ao alcance de um clique. Para as atuais gerações – me convenci disso na semana passada, observando a movimentação num dos locais da prova da UFRGS –, o vestibular é uma verdadeira tortura.

Não era assim na minha época. Fiz dois concursos nesta mesma universidade e nunca cheguei a roer uma unha para conseguir vaga nas faculdades que escolhi. Também havia competição naquela época, mas bastava a gente se concentrar um pouco no estudo.

E quem diz que esse pessoal de hoje consegue se concentrar em alguma coisa? Não é culpa deles. A tecnologia é que se atravessou no caminho da garotada.

Primeiro foi a televisão, que capturou o tempo e a atenção de gerações inteiras. Tal era o seu poder hipnótico, que os bem-intencionados pensaram em transformá-la numa máquina de transmitir cultura e conhecimento de forma massiva. Isso nunca se confirmou.

Os telecursos até tiveram o seu momento, mas a maioria das pessoas queria mesmo era ver novela, futebol e besteirol na telinha.

Deu no que deu. A Favorita está aí para não me deixar mentir. Mas as novelas e os biguebroders são apenas sobreviventes da era televisiva. A divindade do momento é o computador, em suas múltiplas plataformas.

Os brinquedinhos eletrônicos diminuíram e se multiplicaram. Hoje, um celular armazena todas as informações do mundo, ou dá acesso aos locais onde elas se encontram comprimidas em microchips.

Quem precisa de conhecimento enciclopédico diante de tanta facilidade? Quem ainda recorre a enciclopédia? As referências são outras, aqueles livrões pesados perderam a importância cultural de que desfrutaram por muitas décadas.

Mas os vestibulares ainda cobram dos candidatos à universidade a memória e o raciocínio que os homens transferiram para as máquinas. Por isso, não é de espantar que os meninos e as meninas da era digital fiquem tão nervosos com a perspectiva de encarar uma prova de múltipla escolha.

Quem não aceitaria aquela maçã?


10 de janeiro de 2009
N° 15844 - PESQUEIRO | LUÍS AUGUSTO FISCHER


A foto do Oliveira

Oliveira Ferreira da Silveira morreu estes dias (leia mais na página seis). Nascido em Rosário do Sul em 1941, ele ganhou este peculiar prenome (uma vez perguntei a ele, não resisti à curiosidade) como uma homenagem de sua família ao médico que o ajudou a nascer, o dr. Oliveira. “Coisa de gente simples”, ele ainda acrescentou, em sentida, compreensiva, delicada referência aos seus.

Foi um destacado militante do movimento negro; foi professor de Português e Literatura; foi uma doce figura, um sujeito sempre de sorriso aberto na cara grande. Publicou poesia desde a juventude e fez questão de insistir no tema identitário negro, numa constância que dá gosto de ver – lê-se sua obra (mal editada e quase inencontrável) e se vê que ele realmente empenhou a vida nessa delicadeza que é pensar sobre a condição de gente comum, como o leitor e eu.

Num poema de 1967, chamado A Foto (está em Anotações à Margem, editado pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, 1994, série Petit Poa), a gente lê essa reflexão breve, que vai aqui como homenagem ao grande sujeito que ele foi (e que agora bem que poderia ganhar edição decente).

Que é uma foto de pessoa morta
para quem a conheceu
em vida?
Em geral coisa opaca e estática
e pouco diz de quem foi.

Mas quando menos se espera
pode mudar-se em cor, em movimento,
sorriso, voz, braços que vêm e cingem
e nós ressuscitamos.

Museu, a ponta do só e o Rio

Estes dias ouvi, em tom de viva reprovação, a história de que alguns visitantes do belo museu Iberê se espantam ao constatar que não há janelas panorâmicas que deem vista do Guaíba a partir de dentro do prédio. A vontade de que houvesse janelas no prédio, para ver o rio, tem a ver com a nossa vontade de olhar para aquilo ali, a partir de posição boa, capaz de descortinar horizonte largo, e não tem nada a ver com uma crítica ao prédio.

É uma legítima vontade de olhar para o que sabemos existir logo ali mas que não aparece direito. (A gente ainda uns anos atrás tinha uma possibilidade de ver o rio e a cidade de cima do morro Santa Teresa; mas o rebaixamento da vida diária, a violência trivial, a bandidagem miúda nos impediram este pequeno prazer localista.)

Assim também se explica, creio, uma parte importante da reação àquele projeto de aproveitamento imobiliário do terreno do antigo Estaleiro Só: aquilo tem que ser para todos, para sempre, e a simples ideia de construir vistas privilegiadas já dá nos nervos.

Pibe, pivete

Estou lendo o livro de memórias de Joel Rufino dos Santos Assim Foi (Se me Parece), publicado pela editora Rocco, de escrita nem tão boa assim, mas com história ótima, incluindo várias lembranças dele sobre a grande figura que foi Nélson Werneck Sodré, uma espécie de tutor de Joel, e a páginas tantas me deparo com uma nota sobre um guri encontrado por ele na Bolívia em 1964, quando o autor estava autoexilado pelo Golpe, de má memória. E diz ele: “(...) fomos admirados pelo pive Garrincha, que sabia tudo sobre a seleção brasileira de 1962”.

Que esquina histórica: exilados brasileiros, descendo da Bolívia para o Chile – que em 64 era uma democracia florescente, até ser chacinada por outro golpe militar, liderado por aquela figura fantasmal em cujo coração sempre vale a pena cravar a simbólica estaca de madeira –, encontram um guri apelidado de Garrincha, nada mais, nada menos.

Garrincha havia sido o grande jogador da segunda Copa que levantamos, precisamente no Chile, em 62 (mais dados na ótima biografia de Ruy Castro sobre ele); “garrincha”, dizem os dicionários, é o apelido nordestino para o passarinho conhecido como cambaxirra, ou ainda como corruíra, coisa mais querida, pequeninho e doce. E Garrincha virou o apelido do guri lá nas alturas andinas, entre a terra do Evo (que não se perca por isso) e a da Michelle.

Mas o meu caso é o pive. Li a palavra e pensei “pibe”, como os platinos chamam guri. Talvez o Joel tenha escrito errado mesmo e a forma seja com “b”. Faz mais sentido, pelos dicionários: o Diccionario da Real Academia espanhola dá “pebete”, não “pibe”; o nosso competente Houaiss anota, como sabemos, “pivete”, oriundo do espanhol “pebete”, palavra esta que designava originalmente uma pasta aromática queimada como incenso.

Em algum momento da história, então, passou-se a chamar ironicamente de “pevete” alguma coisa malcheirosa, e daí se derivou para chamar assim, como “fedorento”, o guri saído dos cueiros, ou, para ser mais atual, saído das fraldas. Como o Garrincha das alturas andinas.

Secretaria da Cultura

A Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre existe há nem faz tanto tempo. Até o começo dos anos 1990, era um departamento da Secretaria de Educação. A elevação do estatuto correspondeu ao período da redemocratização, agora já virado em história simples.

O primeiro titular foi Joaquim Felizardo, que era um professor conhecido na cidade desde os anos 60: militante de esquerda, sobrinho do Prestes, amigo de todo mundo, grande causeur, Joaquim havia ocupado outros cargos antes da secretaria, como a presidência do Cruzeiro, sim, o clube de futebol porto-alegrense.

Aberto à conversa e atento à cidade, Joaquim soube dar curso e prestígio a uma série de iniciativas relevantes para Porto Alegre. Levou para trabalhar com ele gente da melhor qualidade, como Juarez Fonseca e Arnaldo Campos, sem ir mais longe – e o Arnaldo foi quem inventou de oferecer cursos e palestras de literatura pelos sábados de manhã, um dos raros horários em que os teatros da prefeitura estavam à disposição.

Saiu o Joaquim (e lamentavelmente faleceu pouco depois) e entrou o Luiz Paulo de Pilla Vares, jornalista e também militante de esquerda, há pouco falecido. Estávamos já na Era PT de Porto Alegre, e o Pilla, igualmente aberto à conversa e atento à cidade, fez bonito.

Levou para trabalhar com ele gente da maior importância, como Fernando Schüler e Luciano Alabarse, para ficar em apenas outros dois nomes. Participando de um governo com continuidade política e vivendo a energia positiva daqueles tempos, o Pilla empurrou o horizonte da cultura porto-alegrense para mais longe ainda.

Depois dessa breve história, veio a ocupar o primeiro cargo da Cultura da Capital o Sergius Gonzaga. Parceiro do Joaquim Felizardo de anos, amigo do Pilla, ex-diretor da Editora da UFRGS, professor talentoso e grande vocação de jornalista cultural, o Sergius também é um sujeito da conversa e da cidade.

Professor de literatura da UFRGS (meu professor, inclusive), daqueles que levam a sério a arte e a cultura em geral (frequenta com gosto e competência creio que todos os campos de atuação cultural relevantes), ele agora é reconduzido ao cargo no segundo governo Fogaça.

É ótimo para a cidade. A gestão passada, na Cultura, teve grandes acertos: o Sergius manteve os projetos e as pessoas que já tinham mostrado excelência quando era o caso, assim como soube delegar tarefas e enfrentar pessoalmente os desafios mais cabeludos da área, inovando em algumas regiões sensíveis da administração.

Tudo fácil de enumerar aqui, tudo difícil de levar a cabo, ainda mais na seara política, habitat de malas inomináveis, interesses mesquinhos e armadilhas de monte.

Porto Alegre ganha com sua permanência. Fiquei pensando em como fazer este elogio e me dou conta que o mais simples é o mais eficaz: com o Sergius na secretaria, um cara que é do ramo e mostra cotidianamente que faz bem e certo, eu tenho a segurança de que a coisa está em boas mãos, nas melhores mãos. Assim simples: o cara certo para o lugar.


10 de janeiro de 2009
N° 15844 - PAULO SANT’ANA


As obras do acaso

Não me sai da cabeça o acidente de trânsito que anteontem matou duas pessoas e feriu 14 na esquina da Júlio de Castilhos com Coronel Vicente, na Capital.

Aconteceu um fato raro neste acidente: ele não teve nem participação nem omissão humana em seu desenrolar.

Em todos, praticamente todos os acidentes de trânsito, há negligência, imperícia ou imprudência de alguém. Quando não há intenção direta ou indireta, fato que agrava a autoria.

Neste acidente de anteontem, desde logo se afasta a culpa do motorista do ônibus que colidiu com um prédio e incendiou-se: ele teve um mal súbito e portanto estava inconsciente quando espocaram os primeiros movimentos trágicos do acidente.

Os pedestres caminhavam pela calçada ou buscavam atingi-la, o que lhes retira a culpa por descuido, desatenção ou desídia.

Ninguém teve qualquer responsabilidade nas mortes, nos ferimentos e nos danos materiais da tragédia.

Tudo foi presidido por um fator altamente decisivo na vida e no destino das pessoas: o acaso.

Quantas e quantas vidas através dos séculos foram construídas ou destruídas pelo acaso?

Se a mãe e a filha mortas no acidente, que se faziam acompanhar pelo pai e pelo filho, que restaram feridos, estivessem passando pelo local (estavam indo buscar um documento numa repartição pública), se estivessem passando por ali cinco ou dez segundos antes ou depois, não tinham sido vitimados. Foi uma questão de acaso, o que se define chamar de sorte ou azar, algo que nunca foi explicado por qualquer tratado filosófico.

Por detalhe, foram atingidas diversas pessoas pelo ônibus, antes de ele ir chocar-se com o prédio da Rua Coronel Vicente. Em tantas outras alternativas de tempo não estaria passando ninguém por ali, mesmo que tivesse sido no Centro, onde é comum a aglomeração nas ruas.

Se o motorista, ao sofrer o mal súbito, por isso mesmo tivesse tirado o pé do acelerador, o máximo que poderia acontecer era o ônibus colidir com um outro veículo, não haveria vítimas.

Mas o acaso, este personagem misterioso e mítico da existência, este desencadeador de sublimidades e desgraças, impeliu a perna do motorista a impulsionar o seu pé contra o acelerador logo que se desfechou o mal súbito.

Então, por obra do acaso, este ator importante da vida do homem sobre a Terra, fez acelerar um ônibus que tinha por lógico que desacelerar.

E aí o ônibus atravessa todo o leito da avenida, invade o canteiro, derruba coqueiros e vai em busca do choque exatamente contra a família que caminhava sobre a calçada.

Há bilhões de vezes em que as famílias caminham seguras sobre as calçadas. Mas tinha de intervir, desta vez tragicamente, o acaso.

Pelo acaso se ganha na loteria ou se encontra a morte. Pelo acaso, somente pelo acaso, homens e mulheres se conhecem, namoram, casam, têm filhos e oferecem assim novamente ao acaso o destino de seus filhos, netos e demais descendentes.

O acaso determina a sorte ou o infortúnio das pessoas, ele é uma engrenagem importante na vida, por ele se regride e se progride, por ele se sofre e se tem prazer, por ele se afunda na existência ou se arremessa para grandes realizações.

Imagino a confusão que se passa nas mentes do pai e do filho que se salvaram, chorando o fim da mãe e da filha que morreram.

Se não tivessem ido ao Centro naquela hora, se tivessem parado num bar para tomar um refrigerante, se tivessem escolhido a calçada da frente para se dirigirem ao local em que iam tirar o documento, todos estariam salvos e livres da dor cruciante dos sobreviventes.

O acaso, sem que percebamos, é soberano todos os dias nas nossas vidas.


10 de janeiro de 2009
N° 15844 - DAVID COIMBRA


Ele não comia chocolate

Quando entrevistei Figueroa para o livro sobre a história dos Gre-Nais, ele fez uma revelação que me deixou desconfiado. Disse que, em campo, era ele quem orientava o Caçapava:

– Agora vai! Dá o bote! Ou: – Passa pro Claudião!

Ou: – Recua! Recua!

Pensei: esse gringo está se exibindo. Não que duvidasse da categoria ou da integridade do Figueroa. Ao contrário, sempre o considerei um craque iluminado, além de grande pessoa. Mais: tantas vezes o entrevistei que desenvolvemos uma amizade mantida por eventuais trocas de imeils.

Mas os heróis têm a propensão de adornar suas façanhas e, se não têm, sempre encontram quem as adorne por eles. No caso de Figueroa, o mito o ronda desde a sua chegada a Porto Alegre, quando, numa recepção na casa do Luis Fernando Verissimo, ele olhou para uma estrela coruscante no firmamento e declamou o Poema Vinte, de Neruda:

– Puedo escribir los versos más triste esta noche. Escribir, por ejemplo: “La noche esta estrellada, y tiritan, azules, los astros, a lo lejos”...

Os presentes, entre eles Ibsen Pinheiro e o Professor Ruy, suspiraram. Era o sonho realizado dos intelectuais do futebol porto-alegrense: um zagueiro poeta.

Figueroa seguiu cultivando sua própria lenda. Proclamava: – A grande área é a minha casa. Nela só entra quem convido.

Era um zagueiro viril, mas que declamava poesia; um líder latino-americano dos gramados, espécie de Simon Bolívar de calção e camiseta, mas de fala macia, capaz de transformar em suflê os corações das mulheres mais bem casadas da província.

Por todos esses motivos, achei que seria demais. Não era possível que Figueroa jogasse fisicamente por ele mesmo e intelectualmente pelos outros. Mas, na sequência das entrevistas, procurei o próprio Caçapava e, sem que perguntasse, no meio da conversa, ele me contou:

– Era o Figueroa quem me dizia: “Agora vai! Dá o Bote!”, ou “Passa para o Claudião!”, ou “Recua, recua!”

Quer dizer: Figueroa era mesmo Figueroa.

Os que viram Aírton Ferreira da Silva e Calvet jogar juram que eles eram superiores a Figueroa. Pode ser. Mas eu aqui não vi ninguém melhor. Oberdan tinha igual imposição física e liderança, tinha técnica e sabia jogar.

Eram muito parecidos, um e outro. Mas Figueroa possuía mais credenciais. Jogou Copa do Mundo, era o maior da história de toda uma nação. Há um só que poderia se equiparar a Figueroa, dos que vi dentro de uma chuteira, e era um zagueiro e um homem completamente diferente dele: Mauro Galvão.

Galvão era discreto, silencioso e, mais, comedido. Morou na Suíça e, para preservar a forma física de ginasta olímpico, não se concedia nem o prazer de comer chocolate. Não era forte nem alto, não gritava em campo e jamais cultivou a própria imagem, mas fechava a grande área como se fosse a sua casa, instruía e ajustava a defesa inteira como se jogasse com um megafone na frente dos dentes e terminou a carreira com a justa fama de ganhador de títulos por onde quer que passasse.

Como fazia isso tudo? Com uma única arma: com a inteligência. Galvão jogava subraindo espaços dos atacantes inimigos com o seu posicionamento perfeito e orientava os colegas menos pelo grito e mais pelo exemplo. Um jogador de xadrez. Um zagueiro cerebral.

Por tudo isso, confio em Mauro Galvão na sua nova função no futebol. A inteligência não se esvai com a idade, como a forma física. A idade dá requinte à inteligência. O Grêmio acertou ao trazer Mauro Galvão. Rodrigo Caetano é que talvez tenha errado ao ir para o Vasco.