quinta-feira, 8 de janeiro de 2009


JOSÉ SIMÃO

IPVA! Meu carro tá implacável!

E o ipê é a árvore-símbolo do país: IPÊva, IPÊtu, IPÊi. Tô com ipêrtensão de tanto ipê a pagar!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Ano-Novo! Tudo novo! Olha a faixa duma loja: "Em Deus nós confiamos, o resto tem que pagar à vista".

E o Lula de sunga? Um gato! Faça ginástica com o Lula e ganhe uma barriga de chope! E as Maysas? Entre a menina Maísa e a Maysa da Globo, ainda prefiro a do seu Silvio, porque não bebe nem fuma. Rarará! E o ipê é a árvore-símbolo do país: IPÊva, IPÊtu, IPÊi, IPÊRTENSÃO!

Tô com ipêrtensão de tanto ipê a pagar! É tanto tributo que já tô ficando triputo. TRIPUTO DA VIDA! Vou vender o carro pra pagar o IPVA!

E todo mês de janeiro provo que Cristo é brasileiro: vivia fazendo milagre, andava sem dinheiro e se ferrou na mão do governo. E diz que o IPVA está impagável, e o carro, IMPLACÁVEL! Vou entrar em rebelião. Que nem na cadeia.

Vou botar fogo no colchão. Não pago porra nenhuma. IPN: Imposto de Porra Nenhuma! E, como disse o outro, acabaram com o imposto do cheque e incluíram no contracheque! Rarará!

E sabe o que o Zeca Pagodinho falou da minissérie "Maysa"? "Não vejo minissérie de gente que bebe menos que eu." E uma amiga, que nunca tinha ouvido falar na Maysa: "Essa mulher era uma porra louca!".

O Brasil não tá em crise! Pra desespero da Miriam Leitão! Olha o outdoor em Fortaleza: "Comece o Ano-Novo com o pé direito. NA BUNDA DA CRISE!" E essa: "Israel vai fazer pausa diária de três horas nos bombardeios em Gaza".

E aí os Irmãos Bacalhau lançaram aquele antigo comercial de companhia aérea: "360 bombas, 360 bombas, para um pouquinho, descansa um pouquinho, 361 bombas". Quem tava certo sobre guerras era o Ronald Golias, o Bronco: "A civilização não se comportou".

E acredita que, no primeiro dia útil do ano, segunda de manhã com chuva, cidade vazia, uma mulher conseguiu bater no único carro da esquina daqui de casa? Essa entrou o ano com o pé direito. No acelerador! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Campo Maior, Piauí, tem uma placa num mercadinho: "Vendem-se ovos e outras frutas". Sensacional. Parece Dias Gomes.

Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E mais um verbete pro óbvio lulante. "Valisère": vale que o companheiro Lula vai dar pras companhêra comprar calçola pro Carnaval. Rarará!

O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que vou pingar meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br


08 de janeiro de 2009
N° 15842 - LETICIA WIERZCHOWSKI


Pra começar 2009

Primeiro texto deste ano novinho em folha, e a uma altura dessas você já deve ter comido lentilhas e uvas, pulado sete ondas, vestido vermelho ou branco ou azul na noite da virada, começado uma dieta, cortado os cabelos, pintado as paredes da sala ou, ainda, terminado aquele namoro sem graça.

A gente sempre começa o ano com energia redobrada, cheio de planos e boas intenções pra dar e vender. Sorrir para aquele vizinho bonitão, comer mais legumes, aumentar o saldo da poupança, usar sacolas ecológicas, mudar de cidade, ter um filho.

Tem gente que faz listas, tem gente que não faz planos – somos muitos e muito diversos. Mas todos acreditamos que o princípio de um novo ano traz coisas boas no seu rastro.

Ou, pelo menos, ao bater da meia-noite, temos a certeza de que os velhos problemas foram embora, nem que seja para dar lugar a problemas novos. Enfim, crédulos ou não, estamos aí com um ano inteiro pela frente, e em um ano dá pra fazer muita coisa.

Assim, venho fazer aqui uma sugestão. Anote aí mais um objetivo pro seu ano novo. Depois de ler essas linhas, pegue seu telefone, ligue 051-34336902 e faça uma doação. Seja um dindo do Pão dos Pobres. Adote uma criança dessa instituição contribuindo mensalmente com um valor que você mesmo estipula (são aceitos valores acima de R$ 20 mensais), e faça sim uma coisa boa nesse ano que principia.

Ajude uma outra pessoa. Ajude um menino carente para que ele tenha um futuro. O Pão dos Pobres acolhe 200 meninos entre 8 e 10 anos no projeto de Atendimento Integral – as crianças moram lá de segunda a sexta-feira, frequentam o Ensino Fundamental e recebem aulas de inglês, informática, além de participarem do coral.

Outros 400 adolescentes fazem parte do projeto de Educação Profissional, o qual oferece os cursos de marcenaria, serralheria, mecânina, elétrica e informática.

São 600 crianças longe das nossas esquinas, aprendendo uma profissão e ganhando a chance de uma vida digna, de um futuro cheio de planos e possibilidades.

Faça sua dieta, troque seu emprego, arranje uma namorada, mas dê um ano novo pra uma criança carente.

Eu já virei dinda. Vire dindo você também.

Aproveite o dia - Uma ótima quinta -feira a você.


A ASTÚCIA DA IDEOLOGIA

A Revolução Cubana completou 50 anos. Participei, outro dia, da banca de uma dissertação, defendida por Juan Domingues, sob orientação de Dóris Haussen, sobre o mito Che Guevara como fenômeno de comunicação.

O revolucionário argentino está por toda parte. Quanto mais é declarado morto, mais a sua imagem se dissemina. Quanto mais a sua biografia é revisada para destacar que foi um sanguinário ou um fanático, mais ele se consolida como símbolo de uma liberdade impossível. Parece que, eliminada a causa, o efeito anda sozinho. Hegel falava em astúcia da razão.

Talvez estejamos vivendo a época da astúcia da ideologia. Visto que a ideologia defendida por Che não pode atualmente se exprimir com legitimidade pelas vias tradicionais – partidos, discursos, política –, encontra outros meios para se fazer presente. A ideologia já esteve na mente dos homens. Hoje, está no corpo todo.

Por exemplo, no meio das pernas da top model Gisele Bundchen, no já famoso biquíni com a estampa do guerrilheiro. Nada mal como evolução. Poderia o homem de Sierra Maestra imaginar que um dia teria um suporte de divulgação tão íntimo e privilegiado?

Ele queria ganhar corações e mentes. Foi além. A sua imagem aparece também numa tatuagem no corpo de Maradona. Sem dúvida, um lugar menos interessante ou charmoso que o anterior. Mas não menos impressionante como mídia global. Ou nas bandeiras da torcida Camisa 12 do Internacional de Porto Alegre.

Pelo jeito, por essa astúcia suprema, a ideologia, feito um vírus resistente, contamina a cultura de massa contra a qual Che Guevara investia. Vitória da sua ideologia sob a forma de cooptação do inimigo? Como explicar que personagens da sociedade do consumo e do espetáculo se encantem dessa maneira com um ideólogo marxista?

Muito já se anunciou o fim. Há uma obsessão pelo fim. Mas o fim não quer chegar ao fim. Depois do fim do capitalismo, veio o fim do comunismo. Agora, com a crise americana, fala-se no fim do neoliberalismo. Che Guevara teve o seu fim em 1967. Paradoxalmente, desde a sua execução e da foto que o transformou no 'Cristo de Vallegrande', Che não cessa de retornar por caminhos inesperados.

Alguns entendem que se trata apenas de uma boa jogada de marketing, transformando em objeto de consumo um ícone do anticonsumismo. E se fosse o oposto? E se a tal astúcia da ideologia, na condição metafísica de ação sem sujeito, estivesse apropriando-se da sociedade de consumo ou aparecendo como sintoma de uma falta, de uma insatisfação profunda, um desejo incontrolável de algo que não pode ser ou não será?

O mundo nunca mais foi o mesmo desde que Gisele carregou Che Guevara entre as suas coxas. Esse gesto certamente foi mais importante do que os atentados de 11 de setembro de 2001. Ali algo se quebrou. Talvez quando Gisele ajeitou o biquíni, exibindo um sorriso menos profissional e mais utópico, o neoliberalismo tenha dado o seu último suspiro ou o seu primeiro sinal de esgotamento.

Eu não duvidaria de que a tragédia do subprime seja apenas mais um elo na cadeia iniciada por Gisele. É claro que se pode especular sobre o desconhecimento do verdadeiro Che Guevara por parte de quem o tatua no corpo, cola em bandeiras ou estampa em roupas íntimas.

Essa é uma hipótese inquietante. Pois por mais verdadeira que seja, mais prova o que deseja negar. Nada mais perigoso do que um efeito cuja causa morreu.

juremir@correiodopovo.com.br


08 de janeiro de 2009
N° 15842 - PAULO SANT’ANA


A fuga do tédio

Existem três estados de espírito que podem significar a mesma coisa: tristeza, tédio e aborrecimento.

Mas dou o direito à leitora, ao leitor, de traçar diferenças entre estes três estados de espírito.

Para mim, não têm diferença, foram palavras criadas para definir o mesmo sentimento dominante numa pessoa humana.

O tédio ou o aborrecimento ou a tristeza se caracterizam pelo desalento, pela mágoa, o desgosto, o nojo, o pesar.

Quem tem tédio ou aborrecimento ou tristeza está impedido de ser feliz. Embora possa ainda não se considerar infeliz.

A sensação que impede totalmente uma pessoa de ser feliz é outra: a depressão, também chamada de melancolia.

Neste caso, preteia o olho da gateada. Porque a pessoa tomada por melancolia ou depressão é dominada por uma sensação de incapacidade.

O depressivo ou melancólico revela uma total falta de interesse para viver, ou seja, a vida perde o sentido para ele.

Nada mais grave, até mesmo porque este estado pode levar a outros tipos de doenças mentais que induzem o paciente a pôr fim à sua vida.

Um tipo de depressão curiosíssimo é o da melancolia indefinida. A pessoa a tem mas não sabe por quê. É tão indefinida, que o paciente começa a arrolar todos os seus desfavores, na ânsia de identificar a causa da sua depressão, podendo assim talvez atribuí-la a algum deles.

Mas não, nenhum deles seria suficiente para prostrá-lo assim, de forma deplorável e sem solução.

A tristeza ou o tédio ou o aborrecimento não inviabilizam a vida de ninguém, tanto que não conheço nenhuma pessoa que nunca tenha sido atacada de tristeza ou tédio ou aborrecimento, que são intrínsecos à vida humana.

A chave dessa questão nos distúrbios emocionais ou psíquicos se chama esperança.

Sempre que Paulo está se afundando nas águas da depressão, Pablo de pronto mergulha e vai buscar para ele a boia da esperança.

É preciso, mais que preciso, é imprescindível manter a esperança. Buscar a esperança, fabricar a esperança se ela não existe.

É necessário criar um derivativo sempre que o perigo da depressão estiver a rondar o espírito. Seja lá a prática de um exercício físico, seja lá assistir a um espetáculo, a filmes, arranjar um cachorro para criar, procurar um amigo ou criar um amigo, formar uma roda de amigos para jogar cartas, planejar qualquer viagem, seguir uma religião, estes são apenas alguns exemplos da imensa gama de hipóteses que levam à busca da esperança e a exorcização da depressão.

O que não pode é perder-se a esperança.

O tédio é irmão gêmeo da rotina. A tristeza é irmã gêmea da mesmice.

Para sair deles e não se deixar arrastar para a depressão, na maioria das vezes é preciso a coragem de mudar.

Não existe nada mais difícil na vida do que mudar. Desde deixar de fumar (como é difícil) até sair de um casamento (mais difícil ainda).

Mas é preciso mudar, de endereço, de cidade, de hábitos, de pertences, de paisagem, de ideias, de princípios.

Tem que mudar. É quase impossível, depois que se teceu o emaranhado da vida da gente.

Mas tem que mudar. Alguma coisa diferente tem que ser feita. Não pode continuar assim.

A chave é mudar. Mas para isso é preciso ter um gesto. Nem que pareça louco.


08 de janeiro de 2009
N° 15842 - L.F. VERISSIMO


A prova do angu

Videntes antigos procuravam presságios nas vísceras dos pássaros.

Os que tentam antever como será o governo Barack Obama estudam a sua escolha de secretários como se fossem tripas, pois seu gabinete tem algo de angu à baiana. Há conservadores, centristas e menos progressistas do que se esperava e sua inspiração principal parece ser o governo Clinton – ou seja, mais um passado testado do que o novo prometido.

É difícil deduzir o que vem aí dessa mistura. Uma previsão é de que Barack proporá outro New Deal como o do Roosevelt para enfrentar a crise econômica – o que também não deixará de ser um apelo ao passado – mas nada de dramaticamente muito diferente em outras áreas, como a da política externa. Pelo menos baseada na aparência do angu.

Na questão Israel/palestinos, as opiniões do Barack não divergem da posição da quase totalidade dos políticos americanos, de ajuda incondicional a Israel. Hillary Clinton, sua secretária de Estado, era senadora por Nova York com forte apoio do voto judaico.

A única esperança de que a política americana em relação ao Oriente Médio passe a ser mais equilibrada vem de uma declaração que o Barack fez durante a campanha, segundo a qual ser a favor de Israel não significa ser necessariamente a favor do Likud, o partido de extrema direita tão intransigente nas suas pregações e ações quanto os radicais do outro lado.

O implícito reconhecimento de que a política expansionista e do revide desproporcional é de uma corrente política não favorece a segurança de Israel e portanto não merece apoio incondicional, é um vislumbre de mudança. Se o Baraka não estava apenas fazendo uma frase.

A mistura de conveniência política com ódios irracionais é o que tem de mais repugnante na crise crônica do Oriente Médio. Toda essa gente morrendo para que o Hamas pareça mais duro do que as outras facçõs palestinas contra Israel e o governo israelense pareça duro o suficiente para derrotar o ainda mais duro Bibi Netanyahu nas eleições de fevereiro. As ambições sectárias de lado a lado medidas em crianças mortas.

Se você pode entender a reação de Israel diante do terror palestino, e para isso basta se imaginar vivendo entre vizinhos que simplesmente negam a sua existência, também não pode deixar de lamentar que a retribuição de Israel seja o terror no mesmo nível.

Nenhuma corrente ou facção tem o direito de fazer isto com a reputação de um povo com o passado e o acervo moral do povo judeu. No Oriente Médio se tem o triste espetáculo de uma nação sacrificando sua história para garantir sua geografia.

O que o governo Barack Obama fará a respeito de tudo isso? Bom, isso será a prova do angu.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


DANIELA ARRAIS - DA REPORTAGEM LOCAL

Astrólogos viram estrelas na internet

ESOTERISMO >> Milhões de pessoas visitam sites que oferecem previsões e trazem dicas sobre a vida profissional e amorosa

Neste começo de ano, milhões de pessoas ao redor do mundo irão digitar ansiosamente o endereço www.astrologyzone.com para saber o que Susan Miller tem a dizer.

A astróloga, em suas extensas previsões, dará as pistas para quem acredita na influência dos astros sobre o dia-a-dia.

E esse é um grupo expressivo -Susan Miller recebe cerca de 18 milhões de visitas por mês em seu site, que oferece combinação de signos, indicações de livros e previsões para saúde e vida profissional.

Há ainda sites que oferecem mapa astral e sintonia amorosa, que avalia as características da combinação de seu signo com o de seu parceiro.

O brasileiro Personare (www.personare.com.br) se propõe a fazer estudos astrológicos que "indicam tendências de comportamento e situações de um determinado período e facilitam a pessoa a tomar decisões de forma consciente".

Tem serviços como mapa astral, mapa profissional, revolução solar (guia para o ano pessoal), que custam entre R$ 24,80 e R$ 48,80.

O site possui 750 mil cadastrados, sendo 77% mulheres, e oferece gratuitamente o Horóscopo Personare. A previsão pode ser lida na internet ou recebida por e-mail.

No Horóscopo UOL, a astróloga Barbara Abramo, que é colunista da Folha, dá dicas sobre amor, finanças, saúde e futuro -os horóscopos são disponibilizados em texto e, também, em voz, por meio de podcasts. "Meus leitores adoram análises que possam ser empregadas em suas vidas cotidianas", diz.

O retorno que ela recebe é intenso. "As pessoas escrevem comentando, pedindo explicações, conselhos, ou criticando, dando ideias e sugestões", afirma a astróloga, que começou a fazer testes com o microblog Twitter (www.twitter.com/barbarabramo).

Para os céticos, que não gostam nem de ouvir falar nesse tipo de serviço, a astróloga deixa claro que não se apresenta como um guru. "Acho que isso é desserviço e enganação, quero fugir dessa caricatura de que o astrólogo é um vidente que fala de um lugar acima da moral, isso é enganar as pessoas. Vejo a astrologia como um serviço de utilidade pública."

Não é brincadeira

Susan Miller também não brinca com astrologia. "Muita gente confunde astrologia com predestinação. Não tem a ver. Vejo áreas de expansão e de contração, mas a decisão final fica a cargo do indivíduo", disse em entrevista à Folha.

"Posso sugerir quando agir e quando voltar atrás. Posso até sugerir que perguntas fazer em determinada situação e quais os melhores métodos para alcançar um objetivo. Sinto que a astrologia pode aumentar a chance de sucesso, mas cada um pode escolher o que achar melhor para fazer."

A ideia de ir para o mundo digital surgiu quando ela percebeu a necessidade que os usuários tinham em receber informações de maneira mais rápida e conveniente. Além do site, Susan disponibiliza previsões por celular, podcast e até TV.

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Chegou a conta dos fogos!

Sabe aquela translumbrante estrela roxa que você achou linda? Era o seu IPVA!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Ano-Novo! Tudo Novo! Jiboia não tem acento! E diz que o Lula tá mais preocupado com a crase do que com a crise!

E diz que o Lula vai financiar a reforma hortográfica (herrar é umano) em 25 anos. "Cum mais tempo, fica mais FÁFIL DE AFIMILAR!" E um leitor me disse que hífen é como hímen: só serve para atrapalhar. Rarará!

E socuerro! Me bate um abacate com Lexotan! Chegou a conta dos fogos! Começou o ano fiscal! Pensa que os fogos foram de graça? Já vem tudo embutido no imposto.

Sabe aquela translumbrante estrelona roxa que você achou linda? Era o seu IPVA! Era o seu IPVA explodindo! IPVA, IPTU, IPI, IH... ME FERREI!

É o famoso IMF: Ih Me Ferrei! E sabe por que tributo se chama tributo? Porque os carnês vem de três em três. De manhã chegam três, de tarde chegam mais três e, à noite, 33! O Lula tem que lançar um novo PAC: Programa de Ajuda ao Contribuinte! E este ano, que não acaba? Faltam 34 dias úteis pro Carnaval!

Aliás, já tem um bloco no Rio chamado FILHOS DE BAMBI. É a versão gay de Filhos de Gandhy. Com Barack OBAMBI e Mahatma BAMBI!

E já começaram a fazer a clássica pergunta: "Onde vai passar o Carnaval?". Respondo como todo ano: em Curitiba e com a namorada menstruada. Rarará!

Previsão pra 2009! E janeiro é o mês da dieta. Continuo fazendo força pra fechar a calça. De tanto bicho que comi nesse final de ano: peru, galinha, porco, cordeiro.

Parece que engoli um zoológico. E um médico me disse que depois dos 40 a única coisa que você pode comer com gordura é a sua mulher!

Por isso que tá todo mundo de dieta! Rarará! É que um amigo me disse que a mulher dele é tão feia, mas tão feia, que, na hora de descascar cebola, quem chora é a cebola! Rarará!

É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece ! Antitucanês Reloaded, a Missão!

Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Itupeva, no interior de São Paulo, tem uma oficina de consertos chamada Casa das Roçadeiras!

Deve ser um inferninho de sapatas. Mais direto, impossível. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Encino": assão de tocar cinos. Rarará! É a Reforma Hortográfica no Planalto. O lulês é mais fácil que o ingrêis.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E quem não tiver colírio pode pingar Chocomilk com Grapette quente!

simao@uol.com.br


07 de janeiro de 2009
N° 15841 - MARTHA MEDEIROS


Queridos amigos, de novo

Insistindo no assunto: domingo passado elogiei a minissérie Queridos Amigos, que assisti em DVD quase um ano depois de ela ter ido ao ar. O motivo da crônica era aproveitar essa época de troca de presentes para salientar que bom mesmo é receber algo que faz a gente refletir e se emocionar, como filmes, livros, discos. Não que joias e passagens aéreas sejam desprezíveis. Crise, que crise?

Mas muitos me perguntaram: por que gostei tanto, afinal? Um dos motivos eu já disse: porque enaltece a amizade, e não estou falando de qualquer “oi, tudo bem?” que a gente troca no meio da rua, mas da amizade fundamentada em alicerces sólidos, construída com o tempo, coisa que dificilmente um orkut possibilita (admito, porém, que já iniciei três ou quatro excelentes amizades por e-mail, com desdobramentos ao vivo e a cores).

Outra razão: a história se passa em 1989, ou seja, na idade da pedra, quando ainda se usava máquina de escrever, se falava em orelhão, se ouvia disco de vinil e se era mais politizado.

É tocante ver o drama daqueles amigos que vivenciaram a ditadura tendo que se confrontar com o iminente desaparecimento do idealismo, coisa que acabou se estabelecendo em definitivo entre nós.

Qual é a nossa causa, hoje? Por quem a gente luta? Sejamos honestos: pelo nosso bem-estar e por mais nada. Viramos uns individualistas que até se comovem com o menino miserável que faz malabarismo na sinaleira, mas já não somos capazes de nos mobilizar, de brigar.

Temos consciência ecológica, torcemos pelo Obama, mas são fenômenos midiáticos que não sei até onde nos mobilizam de fato ou simplesmente nos levam de roldão.

Eu me lembro que chorei quando as diretas-já não passaram em 1984, lembro do meu desapontamento quando Tancredo morreu e da minha alegria com o impeachment do Collor, mas a partir daí meus sentimentos foram sendo neutralizados e acabei sendo absorvida por um certo desencantamento, e espero que o nome disso não seja maturidade.

Queridos Amigos é uma bofetada naqueles que chegaram a cantar com Cazuza “ideologia, eu quero uma pra viver”, mas que seguiram vivendo numa boa sem ela.

E como se essas reflexões e alertas não bastassem, a minissérie também é um tratado sobre as relações íntimas e afetivas, sobre como ficamos desarmados diante da traição, da rejeição, do abandono, não importa o quão inteligentes e modernos sejamos – assuntos do coração fragilizam a todos, e talvez esta seja, hoje, a única dor que nos unifica.

Mas quem quer saber disso em tempos de Zorra Total?

Aproveite o dia - Uma ótima quarta-feira para você.


07 de janeiro de 2009
N° 15841 - PAULO SANT’ANA


Mais mortes nas boas estradas

Não tem jeito de sair da minha cabeça este número: somente nas rodovias federais, vejam bem, morreram 435 pessoas em acidentes durante os feriadões de Natal e Ano-Novo.

Foram 16 dias pesquisados. Ou seja, foram 27 mortes por dia só nas estradas federais. Atualmente, a média de mortes por dia no trânsito brasileiro é de cem cadáveres.

E, por ano, morrem 50 mil pessoas em acidentes de trânsito no Brasil, contando aqueles que morrem feridos nos hospitais, depois da ocorrência dos acidentes, que não são computados nos índices oficiais.

Eu me preocupo, talvez tolamente, com esses números. É que não tenho como evitá-los, nada posso fazer para evitar essas cifras superiores às do Iraque e de Gaza.

Nem eu posso fazer nada, nem as autoridades, nem os governos, nem os legisladores.

O que tinham de fazer já o fizeram. O novo Código de Trânsito Brasileiro foi editado em 1998 e saudado com as fanfarras da diminuição das mortes no trânsito.

Depois desse Código, aumentou o número de mortos no trânsito.

Assim foi também com a Lei Seca, todos a festejaram como a Lei Áurea do trânsito.

Pois, depois da Lei Seca, no início, diminuíram as mortes no trânsito.

Mas agora voltaram a aumentar as mortes no trânsito. Os pardais também foram saudados entusiasticamente como os salvadores de vida.

Não salvaram nada. Aumentaram as mortes. Então nada há mais que fazer?

Cheguei a pensar que esse morticínio é tão grande e alarmante, que seremos obrigados a determinar por lei às montadoras que construam carros com capacidade máxima de 110 km/h.

Acho que só essa medida tecnicamente antimercado pode acabar com as mortes.

Porque se todos transitassem a uma média de 80 km/h, as mortes iriam diminuir em 90%.

Tenho certeza de que nós seremos obrigados a isso, embora contrarie todo o bom senso internacional.

Alguma coisa terá de ser feita. Não pode continuar assim.

Não pode morrer a cada ano no Brasil uma população inteira do município de Santiago do Boqueirão (51 mil habitantes).

É demais.

E o pior é que os patrulheiros federais do Rio de Janeiro estão declarando que, quanto melhor for a estrada, mais mortes acontecerão nela.

Um deles disse: “É como se o condutor tivesse mais carinho pela roda de liga leve de seu carro, pelo eixo do seu carro do que pela sua própria família, que vai dentro do carro”.

Ora, se, quanto melhores forem as estradas, mais mortes haverá nelas, se, quanto mais esburacadas forem as estradas, menos mortes haverá nelas, então estamos fritos no futuro, eis que pregamos cada vez melhores estradas.

Sinceramente, eu nunca pensara que, quando suplicamos que os governos dupliquem as rodovias, estamos clamando por mais mortes no trânsito!


07 de janeiro de 2009
N° 15841 - DIANA CORSO


Vida besta

O título do último filme dirigido por Joel e Ethan Coen, Queime depois de Ler, é uma expressão que pode estar no fim de uma importante mensagem secreta, mas também significa que não vale a pena guardar. Opto pela primeira.

Embora as personagens pareçam gente importante, a locação deste filme lembra a América profunda de Fargo.

São pessoas medíocres, fracassadas, falsas ou irrelevantes, que confundem suas pequenas prioridades e impressões com grandes coisas. Obcecadas por sexo, poder, dinheiro e beleza, elas se afogam numa comédia de erros.

As personagens, não somente deste, mas da maior parte dos filmes dos irmãos Coen, são de um universo de toupeiras, que medem a realidade pelo diâmetro de seus túneis escuros. Parte da brincadeira dos diretores foi colocar dois galãs, Pitt e Clooney, no papel de abobados e torna-los convincentes. Como se vê, o charme depende do papel que se desempenhe.

A mesma vontade que temos de sacudir as personagens, para que acordem do pesadelo de non-sense e burrice para o qual nos arrastam, serve para nós mesmos. Vivemos quase sempre cegos para o que ocorre ao redor: aquele que nos ama está mais perto do que pensamos, assim como aquele que pensamos que nos é dedicado sonha longe de nós; a grande conspiração que imaginamos existir é falsa e a que realmente existe nos é desconhecida;

não somos tão feios como nos parece, mas somos menos espertos do que acreditamos; o sexo não significa encontro; e assim por diante. Não adianta sair do cinema pensando que somos inteligentes e as personagens, imbecis. Depois de rir, é difícil queimar em nossa memória um resto amargo que nos identifica com aqueles idiotas.

Desde o começo, a obra dos irmãos Coen é dedicada a revelar nosso imensurável potencial de imbecilidade, por vezes com crueldade, em Onde os Fracos não Têm Vez, outras com certa doçura, como em O Grande Lebowski.

Boa parte das guerras, assim como os piores feitos da humanidade, têm sido obra de idiotas achando-se grande coisa, seguida por outros medíocres que alegavam obediência devida aos primeiros, acompanhados de um bando de espertos com mentes estreitas. E assim seguimos vivendo sem pensar.

Acabamos de ganhar um ano novinho em folha, ano novo é como caderno novo, parece uma chance de melhorar.

Só o tempo dirá o que conseguimos fazer com isso, provavelmente nada que importe. Mas estes filmes ajudam a lembrar que alienação não é um termo filosófico vago, é uma forma de vida ao alcance de todos nós


07 de janeiro de 2009
N° 15841 - DAVID COIMBRA


A estranha vida praiana

Avida praiana não é tão fácil quanto parece. Já foi pior, verdade. Houve tempo em que não existia protetor solar, sabia? Ou não havia por aqui. Ou lá no IAPI não tínhamos notícia da descoberta desse milagre da ciência. Então, eu, um branquicela notório, sofria medonhamente com a vida praiana.

O problema é que sempre quis viver a vida praiana. Era guri e via aqueles comerciais da Imcosul. Sol, sal, sul, Imcosul. Ondas espumavam em todos os programas de TV. O jornal. Pegava o jornal e a cobertura de praia era uma festa.

As mulheres de biquíni, o campeonato praiano, o Carlos Nobre escrevia direto de Tramandaí. Dava vontade de ir à praia. Era lá que as coisas aconteciam. Lá é que as pessoas estavam vivendo, entre camarões fritos e caipirinhas. Só que nós não tínhamos verba para ir à Orla, permanecíamos aqui, na modorra, na canícula.

O pai da Alice tinha. A Alice era a minha namorada, uma morena que usava shortinho branco. Era legal aquele shortinho branco da Alice. Bem curto e apertado e tudo mais. Pois o pai dela era dono de um Fusca verde. Ainda mora lá no IAPI, o pai da Alice. Nos verões, ele pegava a Alice e a mãe da Alice e o Beto Zúqui, irmão da Alice, que era bom meia-direita, ele pegava todo mundo e botava naquele Fusca verde e ia para a praia. Imbituba.

Eu ficava aqui. Eu e os guris que não iam à praia. Curioso: nenhum guri ia à praia; só as gurias. Os guris que iam à praia eram os dos outros bairros. Os da Sogipa. Do Juvenil. Malditos.

Quando a Alice voltava, bronzeada e sorridente, ela contava sobre o que havia feito na praia. Ai, como amo Imbituba, miava. Ai, que saudade de Imbituba. Me dava uma raiva de Imbituba. Um verão ela voltou falando de um certo Éder. Aí eu e o Éder fomos pegar jacarezinho, aí o Éder me falou que da areia do mar se faz o vidro das janelas. O Éder, o Éder, o Éder. Somos só amigos, ela alegava.

Amigos. Sei.

Por tudo isso, por causa do Carlos Nobre em Tramandaí, dos comerciais da Imcosul e da Alice, queria viver a vida praiana. Quando ficamos mais taludos, eu e os guris demos um jeito nisso. Íamos para a Orla de carona. Antes era possível isso, viajar de carona. Ponto para as velhas gerações. Hoje, carona é um perigo. Para quem pega e para quem dá. Na época, que nada. Pendurávamos as mochilas nas costas e tocávamos para a Friuei.

Vinte, 30 guris. Claro, ninguém dá carona para 20. Tínhamos de nos dividir aos pares. Lá ficávamos nós, dedão em riste. Um carro parava. Outro. Mais outro. Em duas horas, todo mundo ia. A volta, por algum motivo, era mais difícil. Uma vez, eu e o Chico Trago só conseguimos carona num DKW Vemaguete de um vendedor de churrasquinho.

O DKW estava cheio de panelas e sacos de farinha e troços de fazer churrasquinho. Eu o Chico e mais o vendedor de churrasquinho tivemos de nos acomodar no banco da frente. O DKW andava a 60 por hora e tinha um buraco no assoalho. Por Deus. O vento que vinha da estrada queimava o pé da gente. Brabeza.

O fato é que era difícil pegar carona na volta. Mesmo assim, nós íamos e retornávamos de carona todos os fins de semana do verão. Chegando lá, corríamos para a arelha da pralha, que alegria.

Passávamos o dia jogando bola e rondando as gurias e bebendo cerveja. De noite, eu estava todo vermelho, meus ombros e meu nariz ardiam, não entendia como é que os outros não se queimavam e eu sim.

Até que arrumei uma namorada. Não a Alice. Outra. Edna. Fomos juntos para a praia. Para um camping em Araranguá. Ela disse que ia cuidar de mim para que não me queimasse. Sabe o que a mina fez? Me untou com Óleo Johnson. Óleo Johnson, cara! Fritou-me, a Edna.

A vida praiana era dura sem o protetor solar. E por outros motivos, alguns deles futebolísticos, dos quais falarei amanhã, na segunda parte da coluna sobre a estranha vida praiana.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009



Imortalidade

Buscamos todos a imortalidade. Não somente a nossa, mas a de todos os que são caros ao nosso coração.

Por isso sofremos tanto quando um dos nossos fica doente ou acontece algo na sua vida que traga a possibilidade que essa pessoa se vá. Nós fomos preparados para a vida, não para a morte.

Nós fomos preparados para vermos coisas surgirem, não desaparecerem.

Fomos preparados para receber, não para ceder.

Controlamos muitos dos nossos atos, mas não a vida.

Não temos esse poder.

Colocamos, com a graça de Deus, vidas no mundo; podemos até tirá-las... Infelizmente!

Mas não temos o poder de guardar o tempo todo perto de nós todas as pessoas que amamos, aquelas às quais prometemos amor eterno ou mesmo às que nunca dissemos nada, mas a ternura que sentimos por elas é palpável e real.

A imortalidade que devemos buscar, para nós e para os outros, é a da alma.

Por isso é importante ser bom, amar e amar e amar!... dar das nossas horas e nossos gestos, do nosso pão e da nossa atenção, até que todos os nossos atos sejam fruto desse amor, ele, imortal. Imortal não é quem não morre, é quem fica depois da morte, acima dela. É o resultado do que fazemos e do que deixamos.

Nunca antecipe sofrimentos. Eles já são cruéis o bastante quando estão presentes.

Só o amor torna imortal uma pessoa.

O que damos e o que recebemos. E o que somos aqui na terra, enquanto temos essa casca da aparência para nos representar, é o que vai nos levar adiante, ao encontro das promessas do Deus-Pai.

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Linguiça não tem mais trema!

Campanha contra a reforma ortográfica: eu quero botar os pingos nos us! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Ano-Novo! Tudo Novo! Linguiça não tem mais trema! Essa é a grande novidade de 2009: linguiça não tem mais trema.

Como é que eu vou conseguir passar este ano todo sem trema?! Campanha contra a reforma ortográfica: eu quero botar os pingos nos us! Rarará! O trauma do trema!

E voo não tem mais acento. Principalmente os da TAM e da GOL! Só dá overbooking! E outra novidade de 2009: já tão chamado o Ronaldo Fofômeno de Ronaldo Judiciário: lento, pesado e demora pra tomar uma decisão.

Rarará! E a piada pronta do ano: "Sandy eleita a personalidade mais importante de 2008!". OBAMA PROTESTA! Rarará! E eu já tô com saudades de 2008!

Principalmente dos últimos dez dias! Depois de comer tudo aquilo voltamos a comer por quilo. Essa é a definição de volta ao trabalho: depois de comer tudo aquilo voltamos a comer no quilo!

Depois da grande virada, todo mundo se virando. Pra pagar as contas! Chegou a conta dos fogos! Pensa que rojão é de graça? Meu IPVA chegou. É Imposto Para Vários Amigos. Tem que fazer vaquinha pra pagar. IPVAquinha!

E aviso aos navegantes: não é reforma pornográfica , é ortográfica. E não vão mexer no hímen, mas no hífen! Reforma ortográfica. Sacanagem, agora que o Lula tava aprendendo, mudaram tudo!

E diz que o Lula, todo confuso, perguntou: "Marisa, caminhão tem acento?". "Depende, é caminhão de quê?". Rarará! Essa é reforma pornográfica: em 2009, faça um 69! E a reforma ortográfica já tá sendo chamada de Reforma pra Encher Linguiça! Ou, numa tradução mais erudita: tiraram as bolas da linguiça. Rarará!

E sabe porque Israel e Hamas voltaram a guerrear? Porque havia AMEAÇA DE PAZ no Oriente Médio! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que, em São Carlos, interior de São Paulo, tem uma boate chamada Boite Viagra. E com a placa: "APEZAR da reforma, estamos funcionando".

APEZAR da reforma ortográfica? Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Hímen": objeto que o companheiro gruda na geladeira! Rarará! Vendemos himens pra geladeira.

O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Pra ver se pego no tranco!

simao@uol.com.br

RUBEM ALVES

O caos e a beleza

A minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza

QUANDO EU ERA seminarista gostava de dormir ouvindo música. Eu tinha um radinho de válvulas e a música vinha sempre misturada com os ruídos da estática. Eu preferia a música às rezas. Se eu fosse Deus, eu também preferiria.

Na verdade eu já não rezava mais por duas razões. Primeiro, as aulas de teologia, pela mediocridade, me fizeram pensar -e o pensamento é um perigoso adversário das ideias religiosas. Eu nem sabia se ainda acreditava em Deus.

Segundo, se Deus existia, valia o dito pelo salmista e por Jesus de que, antes que eu falasse qualquer coisa, Deus já sabia o que eu iria falar; o que tornava desnecessária a minha fala. Eu estava mais interessado em ouvir a divina beleza da música que em repetir as minhas mesmices que deveriam dar um tédio infinito ao Criador.

Se Deus existe, a beleza é o seu jeito de se comunicar com os mortais. Disso sabem os poetas, como é o caso da Helena Kolody, que escreveu: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo". Ela poderia ter sido uma amiga da solitária Emily Dickinson, que sentia igual.

"Alguns guardam o domingo indo à igreja / Eu o guardo ficando em casa / Tendo um sabiá como cantor / E um pomar por santuário / E, ao invés do repicar dos sinos na igreja / Nosso pássaro canta na palmeira / É Deus que está pregando, pregador admirável / E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final eu o encontro o tempo todo no quintal." Às vezes, Deus se revela como pássaro...

Deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, tempestade. O ar estava carregado de eletricidade -que entrava no rádio sob a forma de ruídos, estática, assobios. Era um caos sem sentido. Mas não perdi a esperança e continuei a procurar.

De repente -a estática dominava a audição- ouvi lá no fundo uma música que muito amo: o concerto para piano e orquestra n.º 1, de Chopin. Fiquei ali lutando contra a estática: 90% de ruído caótico, 10% de beleza.

Eu não entendo esse mistério: todos os sons, estática e música chegavam juntos, misturados. Mas a minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza, que me comoviam.

Minha alma sabia que a ordem morava no meio do caos e ela estava disposta a suportar o horrendo do caos pela beleza quase inaudível que existia no meio dele.

Aí me veio uma ideia sob a forma de uma pergunta que me pareceu uma revelação: a vida toda não será assim, uma luta contra o caos sem sentido em busca de uma beleza escondida? E essa busca da beleza, não será ela a essência daquilo a que se poderia dar o nome de "sentimento religioso?"

"Sentimento religioso", como eu o entendo, nada tem a ver com ideias sobre o outro mundo. E algo parecido com a experiência que se tem ao ouvir a "valsinha" do Chico, ou a primeira balada de Chopin.

Uma sonata de Mozart... Um crítico musical poderia escrever um livro inteiro analisando e descrevendo a sonata. Mas, ao final da leitura do livro, o leitor continuaria sem nada saber sobre a sua beleza.

A beleza está além das palavras, exceto quando as palavras se transformam em música, como na poesia. Ficou aquela imagem. Uma melodia linda se faz ouvir em meio aos horrores da vida. Ainda que seja uma "marcha fúnebre"...


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - LUÍS AUGUSTO FISCHER


Memórias de fatos

Terminei há uns tempos o belo livro Memórias de um Escritor de Província, com que Sérgio da Costa Franco brindou o leitor no ano recém-findo. Não sei se agora estará disponível para o público geral, porque parece que a primeira leva foi distribuída; se estiver, é uma das melhores recomendações para a leitura privilegiada das férias.

Conhecido do público de jornal, âmbito em que praticou a crônica política e a crônica geral, no antigo Correio do Povo e depois na Zero Hora, respeitado historiador, autor de alguns clássicos da área no Rio Grande do Sul, promotor público aposentado já há tempos, Sérgio da Costa Franco oferece neste livro um painel ao mesmo tempo vasto de sua vida e também da marcha das décadas entre 1930 e agora, e pontuado por pequenas inserções críticas de grande valia, com relatos minuciosos sobre momentos chaves de sua trajetória, que em parte são também os da vida de todo mundo.

Sendo o livro de uma vida, em mais de um sentido, é natural que dele se espere o painel variado que ele oferece; sendo memórias, também é esperável o amor pelo detalhe secundário.

Mas o que ressalta no conjunto é que ambas as dimensões vão se encontrando e desencontrando com bastante harmonia e oferecendo leitura prazerosa. Me ocorrem exemplos em passagens como no relato da golpe de 1964, que vai encontrar o autor como jovem promotor em Soledade, ou na decadência da Caldas Júnior, a outrora poderosa empresa de comunicação do Estado.

Para além de tudo, ficam algumas impressões fundas, que reparto com o leitor. Uma tem a ver com o temperamento forte do autor, que ainda por cima faz jus literal ao último sobrenome; lê-se o livro acompanhando a trajetória de uma personalidade que vale a pena conhecer.

A outra tem a ver com o título: o escritor se qualifica como “de província” e circunscreve assim a geografia do livro e o gosto pelas coisas do passado rio-grandense, assim como o comprazimento com o nível direto dos fatos, sempre longe das generalizações de tipo especulativo – mas o adjetivo em nada diminui o valor do que ali dentro vai contado, matéria farta para a consideração dos leitores presentes e futuros.

Aproveite o dia - Uma ótima terça-feira.


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - PAULO SANT’ANA


Nem vestígio da crise

Estou de volta depois de 10 dias de folga. Apreciei muito os textos de todos os colegas que serviram de interinos desta coluna durante o período, mas não me responsabilizo por eles.

O Alexandre Bach, por exemplo, assumiu o lugar por um dia, deu um pau no Grêmio e no Internacional, chamou gremistas e colorados de parasitas e exploradores sociais e foi embora.

O espontáneo é o espectador de touradas na Espanha que, em determinado instante do espetáculo, pula da arquibancada para dentro da arena e vai tourear o touro, fazendo concorrência com o toureiro, mas sem pano e sem espada.

Ou seja, atrai toda a atenção do público, com a vantagem da irresponsabilidade.

O Alexandre Bach se portou como um espontáneo, criticou com veemência nada mais, nada menos que a totalidade do mundo futebolístico gaúcho e se mandou.

Não há nada mais temerário que um interino priápico. Os outros interinos todos foram sensatos e notáveis.

Em tempo: o Alexandre Bach tem razão num aspecto de seu destampatório contra a dupla Gre-Nal: os dirigentes lidam com fortunas em compra e venda de jogadores e não há nenhum tribunal de contas para pedir-lhes satisfações. Alguns até quebram os clubes que dirigiram, tornando-os inviáveis pelas dívidas e indignos futebolisticamente de sua grandeza por falta absoluta de recursos para fazer times.

Volto e encontro a sensação de que não há crise econômico-financeira internacional que supere o cotidiano das pessoas.

Ninguém quer saber de queda no emprego na Europa ou nos EUA, nem da alta do dólar que está inviabilizando as viagens para o estrangeiro: o que preocupa a todos aqui é a interrupção da BR-101 em Araranguá, os engarrafamentos na freeway, o pagamento de IPVA e de IPTU a ameaçar o equilíbrio orçamentário das pessoas, mas isso é problema de todo ano e não chega a ser crise.

Não vejo no espírito das pessoas e no noticiário qualquer vestígio da crise. Dá-se mais importância aos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza e à impressionante taxa de mortes em nosso trânsito, que só se iguala, em nosso meio, ao número assustador de homicídios por arma de fogo, ambos os índices superiores aos de mortes no Iraque e em Gaza.

Foram 22 assassinatos no RS em apenas 48 horas. É demais.

Fiquei particularmente condoído com a morte de um casal e seus quatro filhos num acidente de trânsito na BR-386 (Rodovia Canoas-Iraí) na sexta-feira passada.

Eram seis pessoas de uma família, o casal com 39 anos, quatro filhos com idades de 15, 13, 10 e seis anos, em direção a Ronda Alta, tinham viajado para um feriado em Não-Me-Toque. A família viajava em seu Voyage.

Em dado momento, querendo ultrapassar, o chefe de família topou na faixa contrária com um caminhão Mercedes Benz.

Foi um massacre. Na foto publicada em Zero Hora, o Voyage parecia um papel amassado, ninguém podia mesmo sair com vida daquele esmigalhamento total do carro.

Seis mortes num carro só.

Noto que as pessoas viajam tranquilas dentro de um carro, supondo-se seguras nas cabinas de pura lataria, tão frágeis quanto caixotes de madeira.

Mas as pessoas se imaginam num bunker ou no interior de um tanque de guerra, quando na verdade qualquer choque as atingirá violentamente, como se estivessem numa moto.

O carro, muito ao contrário do que as pessoas imaginam, é muito menos resistente que uma noz ou uma melancia.

E quem viaja nele pensa que está numa fortaleza. Este desastre acabou me deixando traumatizado.

Que trânsito perigoso este em que ninguém está protegido pelas carroçarias dos veículos, que não passam de véus ou de cortinas devassáveis a qualquer contato.


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - MOACYR SCLIAR


O trema, tremendo trema, já era

Se existe alguém com um lugar garantido no céu é o professor Evanildo Bechara. Em primeiro lugar, pela dedicação. Membro da Academia Brasileira de Letras, Bechara não falta a uma reunião; quando não há reuniões ou eventos, está sempre em sua salinha, trabalhando duro. Não é pequena a tarefa que tem de enfrentar. Respeitado filólogo, Bechara tornou-se o vanguardista no processo de reforma ortográfica que agora se torna realidade, e que tem provocado não poucas discussões.

O assunto é mesmo controverso e nasceu de uma constatação óbvia: o português é falado e escrito em muitos países, mas de maneira diferente. No que se refere à fala, isto é inevitável; mas quando se trata da grafia a coisa muda de figura, porque nisso o português é exceção.

O espanhol que se escreve na Espanha, em Cuba, na Venezuela, na Colômbia, é o mesmo: a grafia foi padronizada. Já o português de Portugal escreve-se diferente do português do Brasil e diferente do português de países africanos. No entanto, Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe fazem parte – há exatos 20 anos – da CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Se é uma comunidade, e uma comunidade definida pelo idioma, seria de esperar que esse idioma comum deveria ser grafado de maneira comum. Não era. Para tanto, seria necessária uma reforma ortográfica para compatibilizar as diferentes formas de grafia. Um acordo a respeito foi firmado em 1990, e aprovado no Brasil em 1995, mas não aprovado por Portugal, o que deu margem a uma polêmica: que tipo de grafia deveria afinal predominar?

Portugal é o país gerador do idioma; o Brasil é o país onde esse idioma é falado, e escrito, por maior número de pessoas. A discussão não envolvia, portanto, apenas aspectos ortográficos. Era, no fundo, uma questão de política, de poder, exigindo muita habilidade para lidar com as naturais resistências que, aliás, continuam aparecendo nos debates e nos artigos publicados na mídia.

Sem desanimar, mestre Bechara continuou lutando para que se transformasse em realidade a afirmação de Fernando Pessoa, para quem o idioma português, mais que o território, era a pátria. Agora, o acordo será finalmente implementado. Está sujeito a críticas, sem dúvida, mas foi o acordo possível, e certamente vai facilitar a difusão das obras em português, sobretudo porque simplifica a nossa vida.

O trema, por exemplo, não fará falta alguma, apesar do pronunciamento do nosso Sant’Ana, que afirma tremer só de pensar que lingüiça agora é linguiça. Trema, caro Sant’Ana. Pode tremer, mas o trema, para alívio da maioria, já era. Aliás, se eu tivesse de fazer algum reparo ao acordo, seria a limitação deste: só mexe com 0,5% das palavras.

Deveria mexer muito mais, sobretudo no que se refere a acentos. Já se disse que foi a Inglaterra que conquistou o mundo, e não Portugal, porque os ingleses não precisavam perder tempo acentuando palavras – nem se interrogando acerca de quando usar a crase, que tanto confunde nossa gente: na dúvida, o brasileiro acaba craseando tudo para não dar vexame.

De todo modo, estamos no caminho. Bons ventos sopram nas velas de nossos barcos, como sopraram nas velas dos navegantes de outrora. Um dia ainda vamos descobrir, todos os países juntos, o País da Simplicidade Linguística (sem trema nesse “Linguística”).

Agradeço os e-mails de Ana Beatriz Callegari, João Luiz L.Fontoura, Maria Morales H.Dias, Rosane Santos, Paulo Oliveira, Vitor Stepansky (todos comentando a coluna sobre Cuba), de Neide Maria La Salvia, Juan Carlos Arrosa-Carve (escrevendo do Uruguai – ZH chega longe), de José Diogo C. da Silva.

A Candice Soldatelli manda um nome que condiciona destino: um psicólogo chamado Hélio Deliberador (de fato, deliberar é parte do tratamento; pelo menos liberar é).

E que me dizem do diretor financeiro de uma empresa de telefonia que se chama Fábio Graham Bell, o mesmo sobrenome do inventor do telefone?

Melhor só a professora que dá nome a uma escola de Jundiaí: Escolástica Pontes. Muitas pontes ela deve ter estabelecido com seus escolares, não é mesmo? Feliz 2009 para todos.


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - DAVID COIMBRA


Tática revolucionária

O Cosme Rímoli é um grande repórter. Em talento e compleição física. Lá em São Paulo, onde milita, chamam-no de Cosmão. É um tipo meio árabe, de metro e noventa de altura, frequentador de academias e, segundo a lenda, virtuose das pistas de dança da pauliceia. Faz certo sucesso com as mulheres, o Cosmão.

Um Casanova de laptop. Mas também já o vi servo do amor, suspirante, pensativo antes de puxar a perna de uma vírgula ou indeciso sobre que verbo será mais feroz para descrever um gol perdido.

Cosmão já cobriu quatro Copas. Todos o conhecem, no ambiente da Seleção. Luiz Felipe, em especial, o admira e o distingue. Durante as coletivas, costuma comentar:

– O Cosme aqui sabe muito bem que...

Um jeito de o Luiz Felipe se exibir com os outros jornalistas.

Agora, neste dezembro dourado, Cosme Rímoli assinou duas entrevistas exclusivas para a Zero Hora, que ele, paulista, chama de “o” Zero Hora.

Uma das entrevistas foi com nosso medalhista de ouro, César Cielo. A outra com Muricy Ramalho. A do Muricy foi muito elucidativa. Em resumo, Muricy defende duas bandeiras. Ei-las:

Bandeira número 1 – Muito pouca gente no Brasil e na Terra entende de futebol.

Bandeira número 2 – Os técnicos são importantíssimos para os clubes. E, de todos os técnicos, um ele destacou com maior entusiasmo: Celso Roth, do Grêmio.

No caso da bandeira número 2, alguém poderia argumentar que Muricy só poderia mesmo elogiar Celso Roth, já que, no Campeonato Brasileiro, ele, Muricy, terminou como campeão e Roth como vice.

Mais: Roth estava 11 pontos à frente de Muricy, e ainda assim perdeu o campeonato. Quer dizer: um adversário desses merece todos os elogios.

Mas é claro que Muricy não estava sendo assim tão solerte quando concedeu a entrevista ao Cosme. Ele não seria ardiloso e sutil a esse ponto. Na verdade, Muricy, ao elogiar Roth e todos os técnicos do Brasil e quiçá do mundo, tentava exaltar, justamente, a bandeira número 2. Ou seja: muito pouca gente entende de futebol.

Com exceção dos técnicos.

Trata-se de um raciocínio precioso, e precioso é o adjetivo mais adequado para essa questão: os treinadores são detentores de um conhecimento exclusivo. Eles, e só eles, estão imersos nos mistérios e segredos do futebol, mistérios e segredos de tal forma herméticos que os técnicos pedem, e os clubes lhes pagam, salários de centenas de milhares de reais. Centenas de milhares!

Não é por acaso que os técnicos de futebol são chamados de professores. Eles ensinam os jogadores a jogar, eles planejam tudo o que vai acontecer durante uma partida. Eles mudaram até a linguagem do futebol.

Agora há atacantes que flutuam atrás da zaga, há jogadores de passagem, jogadores que atuam por dentro e outros que vão pelos lados do campo, agora muitos jogadores, que coisa, espetam, e alguns times jogam em duas linhas de quatro.

Duas linhas de quatro. Gosto especialmente disso. Gostaria de ver, por exemplo, um time jogando em cinco linhas de dois. Ou, melhor: 11 linhas de um. A tática, revolucionária, seria o um-um-um-um-um-um-um-um-um-um-um. Que lindeza.

Observe um treinador nas fímbrias do gramado, de pé na chamada “área técnica”, uma área que não existia quando os técnicos não eram professores, área criada só para eles, como tronos imaginários.

Lá está o treinador, dentro de seus mocassins italianos, apontando o indicador e o dedo médio da mão esquerda em vê para algum meio-campista e, em volta desses dois dedos, traçando círculos com a mão direita. O que significa esse gesto? Ah! Só os iniciados sabem.

De onde vem tanta sabedoria? De que fonte bebem esses escassos privilegiados? São perguntas difíceis de responder. Mas, se você por acaso me perguntar se prefiro um técnico de R$ 300 mil ou três centroavantes de R$ 100 mil, isso eu respondo. Ah, isso sei responder.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


MOACYR SCLIAR

Um protesto contra o Viagra

Presenteiem-no com canivetes, com ferramentas, com próteses dentárias. É um pedido, mas também é uma advertência

O Viagra, remédio para disfunção erétil, é uma das armas usadas pelos agentes da CIA (a agência de inteligência americana) na conquista de aliados no Afeganistão, informa o "Washington Post".

Conforme o jornal, entre os favores, além da distribuição do medicamento, estão doações de canivetes e ferramentas, pagamento de cirurgias e tratamentos dentários. "Oficiais dizem que esses atrativos são necessários no Afeganistão, um país onde militares e líderes tribais esperam recompensas pela cooperação e onde, para alguns, trocar de lado é tão fácil quanto trocar de roupa.

Se os americanos não oferecem incentivos, há quem o faça, incluindo líderes do Taleban, traficantes de drogas ou mesmo agentes do Irã", diz o jornal. Segundo informações, o Viagra tem grande prestígio, por exemplo, entre líderes tribais que têm várias mulheres e querem "voltar à posição de autoridade". Folha Online

"PREZADOS DIRIGENTES da CIA: esta carta, que por razões óbvias é confidencial, está chegando a vocês graças à ajuda de uma pessoa cuja identidade é secreta, alguém que escreve em inglês, que tem bons contatos, e que nos animou a contar o que segue.

Somos as quatro esposas de um patriarca que vocês conhecem pelo codinome de Caolho, porque de fato ele tem um olho só.

Durante muito tempo, Caolho nos tratou bem e não tínhamos motivo de queixa, nem mesmo pelo fato de fazermos parte de um harém, coisa que nesta região é, como os senhores sabem, tradicional: os patriarcas bíblicos tinham várias esposas, e o rei Salomão chegou a ter cerca de mil mulheres, das quais certamente não sabia nem sequer o nome.

Caolho, ao contrário, era gentil, ao menos no começo. Depois foi mudando e tornando-se cada vez mais tirano; tratava-nos mal, ofendia-nos com palavras grosseiras -até que decidimos nos rebelar, e da forma que estava ao nosso alcance.

Não poderíamos, como as ocidentais, simplesmente sair de casa; não teríamos sequer meios para nos sustentar. Como mostrar nossa inconformidade? Uma de nós teve uma ideia que logo se revelou brilhante: exigir do patriarca o cumprimento das obrigações conjugais, mas exigir insistentemente, de forma a esgotar suas energias, a humilhá-lo.

E assim, a cada noite uma de nós introduzia-se na cama dele, pedindo sexo. Deu certo: em poucos dias ele já não tinha forças para nos atender. Consequentemente, foi perdendo a arrogância, e já não ousava sequer nos olhar. Estávamos vencendo a batalha!

De repente, tudo mudou. De repente, ele tornou-se de novo um garanhão. E aí tínhamos de desfilar pelo leito dele, às vezes as quatro ao mesmo tempo. Com o que, e para nosso desgosto, ele logo recuperou a antiga arrogância.

Não conseguíamos entender o que se passava, até que uma empregada nos revelou o segredo: o homem estava tomando Viagra. O Viagra que vocês, para obter a cooperação dele, forneciam -para a nossa desgraça. O que pedimos, portanto, é que vocês parem com isso. Presenteiem-no com canivetes, com ferramentas, com próteses dentárias. Com Viagra, não.

É um pedido, mas é também uma advertência. Vocês não vão querer que nos rebelemos, vão? Vocês não vão querer que nos tornemos guerrilheiras, não é? Então, pensem bem. Cuidado com o Viagra."

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

ROGER COHEN

O valor de uma viagem

Outro dia fui de metrô à Universidade Columbia, onde eu deveria dar uma palestra para celebrar o centenário de nascimento de Luigi Barzini, o maior dos jornalistas italianos do século 20.

Barzini passou parte de sua juventude nos EUA, e acho que essa experiência contribuiu para seu olhar de outsider sobre seu próprio país.

Seu livro, “The Italians”, ainda é o guia fundamental da Itália. O maravilhoso estilo e a teatralidade bombástica da vida italiana escondem um fundamental realismo, para não dizer pessimismo.

Sobre seus compatriotas, Barzini escreveu: “Eles acreditam que os males do homem não podem ser curados, apenas amenizados; que as catástrofes não podem ser evitadas, apenas mitigadas.

Os italianos preferem deslizar com elegância pela superfície da vida, sem mergulhar em suas profundezas”. Por essa razão, “é preciso que tudo brilhe: uma simples refeição, uma transação ordinária, um discurso desinteressante, uma capitulação covarde, todos precisam ser embelezados”.

Os insights de Barzini não lhe valeram o apreço de seu país, onde o centenário passou quase despercebido. Quanto ao pessimismo dos italianos, parece justificado. 2008 dá lugar a 2009 com bombas israelenses sobre a faixa de Gaza: a roda-viva de ódio na Terra Santa.

Mas um novo ano não é momento para sucumbirmos ao desânimo. Minha viagem do centro de Manhattan a Columbia foi sugestiva da imprevisibilidade da vida. Embarquei no trem errado e acabei no Harlem. Parti a pé para a universidade, refletindo sobre o fato de o Harlem ter deixado de representar uma ameaça e me perguntando que impacto a recessão pode ter sobre tudo isso.

Chegando à universidade, porém, descobri que eu viera no dia errado. Voltei ao metrô e comecei a bater papo com a mulher sentada ao meu lado.
Nada de extraordinário, mas foi um momento de civilidade nova-iorquina.

Conversamos sobre as pressões da vida na cidade, sobre as lojas esvaziadas e sobre as fugas da senhora em questão para encontrar paz em Martha’s Vineyard, a ilha na qual crescera. Se eu não tivesse iniciado essa viagem acidental no dia errado, não teria tido o prazer dessa conversa.

Isso me fez pensar em um de meus poemas favoritos, “Ithaca”, de Constantine Cavafy, sobre uma viagem cujo valor, em última análise, está em seu percurso irregular. “Ithaca lhe deu a viagem bela. Sem ela você nunca teria posto os pés na estrada.

Ela não tem nada mais a lhe dar.” O poema se encerra com: “E, se você a achar pobre, Ithaca não o terá enganado. Sábio, como você se tornou, com tanta experiência, Você já deve ter compreendido o que Ithaca significa”.

Quando refleti sobre esses versos, pareceu que Barzini e Cavafy estavam unidos pela ideia de que, sejam quais forem as decepções inevitáveis da vida, a beleza pode ser encontrada e criada na viagem. Não é uma reflexão sem mérito para ser levada para um novo ano.

Voltei para Columbia dois dias mais tarde. Fui no trem certo. Meu erro me proporcionara o prazer de dedicar mais tempo a Barzini. A conferência foi muito prazerosa.

Fez lembrar que, como escreveu Barzini, “a Itália é o refúgio atemporal do mundo, a margem de rio para a qual podemos nos retirar, afastando-nos da correnteza forte”.