terça-feira, 6 de janeiro de 2009


RUBEM ALVES

O caos e a beleza

A minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza

QUANDO EU ERA seminarista gostava de dormir ouvindo música. Eu tinha um radinho de válvulas e a música vinha sempre misturada com os ruídos da estática. Eu preferia a música às rezas. Se eu fosse Deus, eu também preferiria.

Na verdade eu já não rezava mais por duas razões. Primeiro, as aulas de teologia, pela mediocridade, me fizeram pensar -e o pensamento é um perigoso adversário das ideias religiosas. Eu nem sabia se ainda acreditava em Deus.

Segundo, se Deus existia, valia o dito pelo salmista e por Jesus de que, antes que eu falasse qualquer coisa, Deus já sabia o que eu iria falar; o que tornava desnecessária a minha fala. Eu estava mais interessado em ouvir a divina beleza da música que em repetir as minhas mesmices que deveriam dar um tédio infinito ao Criador.

Se Deus existe, a beleza é o seu jeito de se comunicar com os mortais. Disso sabem os poetas, como é o caso da Helena Kolody, que escreveu: "Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo". Ela poderia ter sido uma amiga da solitária Emily Dickinson, que sentia igual.

"Alguns guardam o domingo indo à igreja / Eu o guardo ficando em casa / Tendo um sabiá como cantor / E um pomar por santuário / E, ao invés do repicar dos sinos na igreja / Nosso pássaro canta na palmeira / É Deus que está pregando, pregador admirável / E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final eu o encontro o tempo todo no quintal." Às vezes, Deus se revela como pássaro...

Deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, tempestade. O ar estava carregado de eletricidade -que entrava no rádio sob a forma de ruídos, estática, assobios. Era um caos sem sentido. Mas não perdi a esperança e continuei a procurar.

De repente -a estática dominava a audição- ouvi lá no fundo uma música que muito amo: o concerto para piano e orquestra n.º 1, de Chopin. Fiquei ali lutando contra a estática: 90% de ruído caótico, 10% de beleza.

Eu não entendo esse mistério: todos os sons, estática e música chegavam juntos, misturados. Mas a minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza, que me comoviam.

Minha alma sabia que a ordem morava no meio do caos e ela estava disposta a suportar o horrendo do caos pela beleza quase inaudível que existia no meio dele.

Aí me veio uma ideia sob a forma de uma pergunta que me pareceu uma revelação: a vida toda não será assim, uma luta contra o caos sem sentido em busca de uma beleza escondida? E essa busca da beleza, não será ela a essência daquilo a que se poderia dar o nome de "sentimento religioso?"

"Sentimento religioso", como eu o entendo, nada tem a ver com ideias sobre o outro mundo. E algo parecido com a experiência que se tem ao ouvir a "valsinha" do Chico, ou a primeira balada de Chopin.

Uma sonata de Mozart... Um crítico musical poderia escrever um livro inteiro analisando e descrevendo a sonata. Mas, ao final da leitura do livro, o leitor continuaria sem nada saber sobre a sua beleza.

A beleza está além das palavras, exceto quando as palavras se transformam em música, como na poesia. Ficou aquela imagem. Uma melodia linda se faz ouvir em meio aos horrores da vida. Ainda que seja uma "marcha fúnebre"...


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - LUÍS AUGUSTO FISCHER


Memórias de fatos

Terminei há uns tempos o belo livro Memórias de um Escritor de Província, com que Sérgio da Costa Franco brindou o leitor no ano recém-findo. Não sei se agora estará disponível para o público geral, porque parece que a primeira leva foi distribuída; se estiver, é uma das melhores recomendações para a leitura privilegiada das férias.

Conhecido do público de jornal, âmbito em que praticou a crônica política e a crônica geral, no antigo Correio do Povo e depois na Zero Hora, respeitado historiador, autor de alguns clássicos da área no Rio Grande do Sul, promotor público aposentado já há tempos, Sérgio da Costa Franco oferece neste livro um painel ao mesmo tempo vasto de sua vida e também da marcha das décadas entre 1930 e agora, e pontuado por pequenas inserções críticas de grande valia, com relatos minuciosos sobre momentos chaves de sua trajetória, que em parte são também os da vida de todo mundo.

Sendo o livro de uma vida, em mais de um sentido, é natural que dele se espere o painel variado que ele oferece; sendo memórias, também é esperável o amor pelo detalhe secundário.

Mas o que ressalta no conjunto é que ambas as dimensões vão se encontrando e desencontrando com bastante harmonia e oferecendo leitura prazerosa. Me ocorrem exemplos em passagens como no relato da golpe de 1964, que vai encontrar o autor como jovem promotor em Soledade, ou na decadência da Caldas Júnior, a outrora poderosa empresa de comunicação do Estado.

Para além de tudo, ficam algumas impressões fundas, que reparto com o leitor. Uma tem a ver com o temperamento forte do autor, que ainda por cima faz jus literal ao último sobrenome; lê-se o livro acompanhando a trajetória de uma personalidade que vale a pena conhecer.

A outra tem a ver com o título: o escritor se qualifica como “de província” e circunscreve assim a geografia do livro e o gosto pelas coisas do passado rio-grandense, assim como o comprazimento com o nível direto dos fatos, sempre longe das generalizações de tipo especulativo – mas o adjetivo em nada diminui o valor do que ali dentro vai contado, matéria farta para a consideração dos leitores presentes e futuros.

Aproveite o dia - Uma ótima terça-feira.


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - PAULO SANT’ANA


Nem vestígio da crise

Estou de volta depois de 10 dias de folga. Apreciei muito os textos de todos os colegas que serviram de interinos desta coluna durante o período, mas não me responsabilizo por eles.

O Alexandre Bach, por exemplo, assumiu o lugar por um dia, deu um pau no Grêmio e no Internacional, chamou gremistas e colorados de parasitas e exploradores sociais e foi embora.

O espontáneo é o espectador de touradas na Espanha que, em determinado instante do espetáculo, pula da arquibancada para dentro da arena e vai tourear o touro, fazendo concorrência com o toureiro, mas sem pano e sem espada.

Ou seja, atrai toda a atenção do público, com a vantagem da irresponsabilidade.

O Alexandre Bach se portou como um espontáneo, criticou com veemência nada mais, nada menos que a totalidade do mundo futebolístico gaúcho e se mandou.

Não há nada mais temerário que um interino priápico. Os outros interinos todos foram sensatos e notáveis.

Em tempo: o Alexandre Bach tem razão num aspecto de seu destampatório contra a dupla Gre-Nal: os dirigentes lidam com fortunas em compra e venda de jogadores e não há nenhum tribunal de contas para pedir-lhes satisfações. Alguns até quebram os clubes que dirigiram, tornando-os inviáveis pelas dívidas e indignos futebolisticamente de sua grandeza por falta absoluta de recursos para fazer times.

Volto e encontro a sensação de que não há crise econômico-financeira internacional que supere o cotidiano das pessoas.

Ninguém quer saber de queda no emprego na Europa ou nos EUA, nem da alta do dólar que está inviabilizando as viagens para o estrangeiro: o que preocupa a todos aqui é a interrupção da BR-101 em Araranguá, os engarrafamentos na freeway, o pagamento de IPVA e de IPTU a ameaçar o equilíbrio orçamentário das pessoas, mas isso é problema de todo ano e não chega a ser crise.

Não vejo no espírito das pessoas e no noticiário qualquer vestígio da crise. Dá-se mais importância aos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza e à impressionante taxa de mortes em nosso trânsito, que só se iguala, em nosso meio, ao número assustador de homicídios por arma de fogo, ambos os índices superiores aos de mortes no Iraque e em Gaza.

Foram 22 assassinatos no RS em apenas 48 horas. É demais.

Fiquei particularmente condoído com a morte de um casal e seus quatro filhos num acidente de trânsito na BR-386 (Rodovia Canoas-Iraí) na sexta-feira passada.

Eram seis pessoas de uma família, o casal com 39 anos, quatro filhos com idades de 15, 13, 10 e seis anos, em direção a Ronda Alta, tinham viajado para um feriado em Não-Me-Toque. A família viajava em seu Voyage.

Em dado momento, querendo ultrapassar, o chefe de família topou na faixa contrária com um caminhão Mercedes Benz.

Foi um massacre. Na foto publicada em Zero Hora, o Voyage parecia um papel amassado, ninguém podia mesmo sair com vida daquele esmigalhamento total do carro.

Seis mortes num carro só.

Noto que as pessoas viajam tranquilas dentro de um carro, supondo-se seguras nas cabinas de pura lataria, tão frágeis quanto caixotes de madeira.

Mas as pessoas se imaginam num bunker ou no interior de um tanque de guerra, quando na verdade qualquer choque as atingirá violentamente, como se estivessem numa moto.

O carro, muito ao contrário do que as pessoas imaginam, é muito menos resistente que uma noz ou uma melancia.

E quem viaja nele pensa que está numa fortaleza. Este desastre acabou me deixando traumatizado.

Que trânsito perigoso este em que ninguém está protegido pelas carroçarias dos veículos, que não passam de véus ou de cortinas devassáveis a qualquer contato.


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - MOACYR SCLIAR


O trema, tremendo trema, já era

Se existe alguém com um lugar garantido no céu é o professor Evanildo Bechara. Em primeiro lugar, pela dedicação. Membro da Academia Brasileira de Letras, Bechara não falta a uma reunião; quando não há reuniões ou eventos, está sempre em sua salinha, trabalhando duro. Não é pequena a tarefa que tem de enfrentar. Respeitado filólogo, Bechara tornou-se o vanguardista no processo de reforma ortográfica que agora se torna realidade, e que tem provocado não poucas discussões.

O assunto é mesmo controverso e nasceu de uma constatação óbvia: o português é falado e escrito em muitos países, mas de maneira diferente. No que se refere à fala, isto é inevitável; mas quando se trata da grafia a coisa muda de figura, porque nisso o português é exceção.

O espanhol que se escreve na Espanha, em Cuba, na Venezuela, na Colômbia, é o mesmo: a grafia foi padronizada. Já o português de Portugal escreve-se diferente do português do Brasil e diferente do português de países africanos. No entanto, Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe fazem parte – há exatos 20 anos – da CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Se é uma comunidade, e uma comunidade definida pelo idioma, seria de esperar que esse idioma comum deveria ser grafado de maneira comum. Não era. Para tanto, seria necessária uma reforma ortográfica para compatibilizar as diferentes formas de grafia. Um acordo a respeito foi firmado em 1990, e aprovado no Brasil em 1995, mas não aprovado por Portugal, o que deu margem a uma polêmica: que tipo de grafia deveria afinal predominar?

Portugal é o país gerador do idioma; o Brasil é o país onde esse idioma é falado, e escrito, por maior número de pessoas. A discussão não envolvia, portanto, apenas aspectos ortográficos. Era, no fundo, uma questão de política, de poder, exigindo muita habilidade para lidar com as naturais resistências que, aliás, continuam aparecendo nos debates e nos artigos publicados na mídia.

Sem desanimar, mestre Bechara continuou lutando para que se transformasse em realidade a afirmação de Fernando Pessoa, para quem o idioma português, mais que o território, era a pátria. Agora, o acordo será finalmente implementado. Está sujeito a críticas, sem dúvida, mas foi o acordo possível, e certamente vai facilitar a difusão das obras em português, sobretudo porque simplifica a nossa vida.

O trema, por exemplo, não fará falta alguma, apesar do pronunciamento do nosso Sant’Ana, que afirma tremer só de pensar que lingüiça agora é linguiça. Trema, caro Sant’Ana. Pode tremer, mas o trema, para alívio da maioria, já era. Aliás, se eu tivesse de fazer algum reparo ao acordo, seria a limitação deste: só mexe com 0,5% das palavras.

Deveria mexer muito mais, sobretudo no que se refere a acentos. Já se disse que foi a Inglaterra que conquistou o mundo, e não Portugal, porque os ingleses não precisavam perder tempo acentuando palavras – nem se interrogando acerca de quando usar a crase, que tanto confunde nossa gente: na dúvida, o brasileiro acaba craseando tudo para não dar vexame.

De todo modo, estamos no caminho. Bons ventos sopram nas velas de nossos barcos, como sopraram nas velas dos navegantes de outrora. Um dia ainda vamos descobrir, todos os países juntos, o País da Simplicidade Linguística (sem trema nesse “Linguística”).

Agradeço os e-mails de Ana Beatriz Callegari, João Luiz L.Fontoura, Maria Morales H.Dias, Rosane Santos, Paulo Oliveira, Vitor Stepansky (todos comentando a coluna sobre Cuba), de Neide Maria La Salvia, Juan Carlos Arrosa-Carve (escrevendo do Uruguai – ZH chega longe), de José Diogo C. da Silva.

A Candice Soldatelli manda um nome que condiciona destino: um psicólogo chamado Hélio Deliberador (de fato, deliberar é parte do tratamento; pelo menos liberar é).

E que me dizem do diretor financeiro de uma empresa de telefonia que se chama Fábio Graham Bell, o mesmo sobrenome do inventor do telefone?

Melhor só a professora que dá nome a uma escola de Jundiaí: Escolástica Pontes. Muitas pontes ela deve ter estabelecido com seus escolares, não é mesmo? Feliz 2009 para todos.


06 de janeiro de 2009
N° 15840 - DAVID COIMBRA


Tática revolucionária

O Cosme Rímoli é um grande repórter. Em talento e compleição física. Lá em São Paulo, onde milita, chamam-no de Cosmão. É um tipo meio árabe, de metro e noventa de altura, frequentador de academias e, segundo a lenda, virtuose das pistas de dança da pauliceia. Faz certo sucesso com as mulheres, o Cosmão.

Um Casanova de laptop. Mas também já o vi servo do amor, suspirante, pensativo antes de puxar a perna de uma vírgula ou indeciso sobre que verbo será mais feroz para descrever um gol perdido.

Cosmão já cobriu quatro Copas. Todos o conhecem, no ambiente da Seleção. Luiz Felipe, em especial, o admira e o distingue. Durante as coletivas, costuma comentar:

– O Cosme aqui sabe muito bem que...

Um jeito de o Luiz Felipe se exibir com os outros jornalistas.

Agora, neste dezembro dourado, Cosme Rímoli assinou duas entrevistas exclusivas para a Zero Hora, que ele, paulista, chama de “o” Zero Hora.

Uma das entrevistas foi com nosso medalhista de ouro, César Cielo. A outra com Muricy Ramalho. A do Muricy foi muito elucidativa. Em resumo, Muricy defende duas bandeiras. Ei-las:

Bandeira número 1 – Muito pouca gente no Brasil e na Terra entende de futebol.

Bandeira número 2 – Os técnicos são importantíssimos para os clubes. E, de todos os técnicos, um ele destacou com maior entusiasmo: Celso Roth, do Grêmio.

No caso da bandeira número 2, alguém poderia argumentar que Muricy só poderia mesmo elogiar Celso Roth, já que, no Campeonato Brasileiro, ele, Muricy, terminou como campeão e Roth como vice.

Mais: Roth estava 11 pontos à frente de Muricy, e ainda assim perdeu o campeonato. Quer dizer: um adversário desses merece todos os elogios.

Mas é claro que Muricy não estava sendo assim tão solerte quando concedeu a entrevista ao Cosme. Ele não seria ardiloso e sutil a esse ponto. Na verdade, Muricy, ao elogiar Roth e todos os técnicos do Brasil e quiçá do mundo, tentava exaltar, justamente, a bandeira número 2. Ou seja: muito pouca gente entende de futebol.

Com exceção dos técnicos.

Trata-se de um raciocínio precioso, e precioso é o adjetivo mais adequado para essa questão: os treinadores são detentores de um conhecimento exclusivo. Eles, e só eles, estão imersos nos mistérios e segredos do futebol, mistérios e segredos de tal forma herméticos que os técnicos pedem, e os clubes lhes pagam, salários de centenas de milhares de reais. Centenas de milhares!

Não é por acaso que os técnicos de futebol são chamados de professores. Eles ensinam os jogadores a jogar, eles planejam tudo o que vai acontecer durante uma partida. Eles mudaram até a linguagem do futebol.

Agora há atacantes que flutuam atrás da zaga, há jogadores de passagem, jogadores que atuam por dentro e outros que vão pelos lados do campo, agora muitos jogadores, que coisa, espetam, e alguns times jogam em duas linhas de quatro.

Duas linhas de quatro. Gosto especialmente disso. Gostaria de ver, por exemplo, um time jogando em cinco linhas de dois. Ou, melhor: 11 linhas de um. A tática, revolucionária, seria o um-um-um-um-um-um-um-um-um-um-um. Que lindeza.

Observe um treinador nas fímbrias do gramado, de pé na chamada “área técnica”, uma área que não existia quando os técnicos não eram professores, área criada só para eles, como tronos imaginários.

Lá está o treinador, dentro de seus mocassins italianos, apontando o indicador e o dedo médio da mão esquerda em vê para algum meio-campista e, em volta desses dois dedos, traçando círculos com a mão direita. O que significa esse gesto? Ah! Só os iniciados sabem.

De onde vem tanta sabedoria? De que fonte bebem esses escassos privilegiados? São perguntas difíceis de responder. Mas, se você por acaso me perguntar se prefiro um técnico de R$ 300 mil ou três centroavantes de R$ 100 mil, isso eu respondo. Ah, isso sei responder.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


MOACYR SCLIAR

Um protesto contra o Viagra

Presenteiem-no com canivetes, com ferramentas, com próteses dentárias. É um pedido, mas também é uma advertência

O Viagra, remédio para disfunção erétil, é uma das armas usadas pelos agentes da CIA (a agência de inteligência americana) na conquista de aliados no Afeganistão, informa o "Washington Post".

Conforme o jornal, entre os favores, além da distribuição do medicamento, estão doações de canivetes e ferramentas, pagamento de cirurgias e tratamentos dentários. "Oficiais dizem que esses atrativos são necessários no Afeganistão, um país onde militares e líderes tribais esperam recompensas pela cooperação e onde, para alguns, trocar de lado é tão fácil quanto trocar de roupa.

Se os americanos não oferecem incentivos, há quem o faça, incluindo líderes do Taleban, traficantes de drogas ou mesmo agentes do Irã", diz o jornal. Segundo informações, o Viagra tem grande prestígio, por exemplo, entre líderes tribais que têm várias mulheres e querem "voltar à posição de autoridade". Folha Online

"PREZADOS DIRIGENTES da CIA: esta carta, que por razões óbvias é confidencial, está chegando a vocês graças à ajuda de uma pessoa cuja identidade é secreta, alguém que escreve em inglês, que tem bons contatos, e que nos animou a contar o que segue.

Somos as quatro esposas de um patriarca que vocês conhecem pelo codinome de Caolho, porque de fato ele tem um olho só.

Durante muito tempo, Caolho nos tratou bem e não tínhamos motivo de queixa, nem mesmo pelo fato de fazermos parte de um harém, coisa que nesta região é, como os senhores sabem, tradicional: os patriarcas bíblicos tinham várias esposas, e o rei Salomão chegou a ter cerca de mil mulheres, das quais certamente não sabia nem sequer o nome.

Caolho, ao contrário, era gentil, ao menos no começo. Depois foi mudando e tornando-se cada vez mais tirano; tratava-nos mal, ofendia-nos com palavras grosseiras -até que decidimos nos rebelar, e da forma que estava ao nosso alcance.

Não poderíamos, como as ocidentais, simplesmente sair de casa; não teríamos sequer meios para nos sustentar. Como mostrar nossa inconformidade? Uma de nós teve uma ideia que logo se revelou brilhante: exigir do patriarca o cumprimento das obrigações conjugais, mas exigir insistentemente, de forma a esgotar suas energias, a humilhá-lo.

E assim, a cada noite uma de nós introduzia-se na cama dele, pedindo sexo. Deu certo: em poucos dias ele já não tinha forças para nos atender. Consequentemente, foi perdendo a arrogância, e já não ousava sequer nos olhar. Estávamos vencendo a batalha!

De repente, tudo mudou. De repente, ele tornou-se de novo um garanhão. E aí tínhamos de desfilar pelo leito dele, às vezes as quatro ao mesmo tempo. Com o que, e para nosso desgosto, ele logo recuperou a antiga arrogância.

Não conseguíamos entender o que se passava, até que uma empregada nos revelou o segredo: o homem estava tomando Viagra. O Viagra que vocês, para obter a cooperação dele, forneciam -para a nossa desgraça. O que pedimos, portanto, é que vocês parem com isso. Presenteiem-no com canivetes, com ferramentas, com próteses dentárias. Com Viagra, não.

É um pedido, mas é também uma advertência. Vocês não vão querer que nos rebelemos, vão? Vocês não vão querer que nos tornemos guerrilheiras, não é? Então, pensem bem. Cuidado com o Viagra."

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

ROGER COHEN

O valor de uma viagem

Outro dia fui de metrô à Universidade Columbia, onde eu deveria dar uma palestra para celebrar o centenário de nascimento de Luigi Barzini, o maior dos jornalistas italianos do século 20.

Barzini passou parte de sua juventude nos EUA, e acho que essa experiência contribuiu para seu olhar de outsider sobre seu próprio país.

Seu livro, “The Italians”, ainda é o guia fundamental da Itália. O maravilhoso estilo e a teatralidade bombástica da vida italiana escondem um fundamental realismo, para não dizer pessimismo.

Sobre seus compatriotas, Barzini escreveu: “Eles acreditam que os males do homem não podem ser curados, apenas amenizados; que as catástrofes não podem ser evitadas, apenas mitigadas.

Os italianos preferem deslizar com elegância pela superfície da vida, sem mergulhar em suas profundezas”. Por essa razão, “é preciso que tudo brilhe: uma simples refeição, uma transação ordinária, um discurso desinteressante, uma capitulação covarde, todos precisam ser embelezados”.

Os insights de Barzini não lhe valeram o apreço de seu país, onde o centenário passou quase despercebido. Quanto ao pessimismo dos italianos, parece justificado. 2008 dá lugar a 2009 com bombas israelenses sobre a faixa de Gaza: a roda-viva de ódio na Terra Santa.

Mas um novo ano não é momento para sucumbirmos ao desânimo. Minha viagem do centro de Manhattan a Columbia foi sugestiva da imprevisibilidade da vida. Embarquei no trem errado e acabei no Harlem. Parti a pé para a universidade, refletindo sobre o fato de o Harlem ter deixado de representar uma ameaça e me perguntando que impacto a recessão pode ter sobre tudo isso.

Chegando à universidade, porém, descobri que eu viera no dia errado. Voltei ao metrô e comecei a bater papo com a mulher sentada ao meu lado.
Nada de extraordinário, mas foi um momento de civilidade nova-iorquina.

Conversamos sobre as pressões da vida na cidade, sobre as lojas esvaziadas e sobre as fugas da senhora em questão para encontrar paz em Martha’s Vineyard, a ilha na qual crescera. Se eu não tivesse iniciado essa viagem acidental no dia errado, não teria tido o prazer dessa conversa.

Isso me fez pensar em um de meus poemas favoritos, “Ithaca”, de Constantine Cavafy, sobre uma viagem cujo valor, em última análise, está em seu percurso irregular. “Ithaca lhe deu a viagem bela. Sem ela você nunca teria posto os pés na estrada.

Ela não tem nada mais a lhe dar.” O poema se encerra com: “E, se você a achar pobre, Ithaca não o terá enganado. Sábio, como você se tornou, com tanta experiência, Você já deve ter compreendido o que Ithaca significa”.

Quando refleti sobre esses versos, pareceu que Barzini e Cavafy estavam unidos pela ideia de que, sejam quais forem as decepções inevitáveis da vida, a beleza pode ser encontrada e criada na viagem. Não é uma reflexão sem mérito para ser levada para um novo ano.

Voltei para Columbia dois dias mais tarde. Fui no trem certo. Meu erro me proporcionara o prazer de dedicar mais tempo a Barzini. A conferência foi muito prazerosa.

Fez lembrar que, como escreveu Barzini, “a Itália é o refúgio atemporal do mundo, a margem de rio para a qual podemos nos retirar, afastando-nos da correnteza forte”.


05 de janeiro de 2009
N° 15839 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Um caso de autoestima

Uma das mais ilustres veranistas da atual temporada do litoral mudou de nome da noite para o dia. Falo da coruja Zoia, que em pleno Réveillon perdeu o acento agudo, passando a chamar-se Zoia. A culpada foi a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, mal-humorada senhora que causou outros estragos no idioma em que navegamos.

O acordo, firmado entre o Brasil e as outras sete nações da mesma fala, provocou mais vítimas inocentes. Embora as mudanças só devam atingir algo como 0,5% das palavras empregadas em Pindorama, há algumas que me provocam a mais sentida consternação.

O trema, por exemplo, morreu sem choro nem vela, sem uma fita amarela. Ou você acha que dizer tranquilo, que significa de ânimo calmo, de natureza serena, sem receio, confiante, vai representar a mesma coisa que tranquilo, feia palavrinha decepada do duplo e clássico sinal?

E as palavras compostas, quem vai reconhecê-las? Tomem para-quedas. O sentido não pode ser mais claro. Significa frear a queda, o que vale tanto para tempos de paz como de guerra. Já paraquedas parece o título de alguma receita destinada a quem quer consertar as costelas.

Peguem circunavegação. Parece evidente que foi a viagem que Fernão de Magalhães fez, tirando todas as dúvidas de quem ainda suspeitava de que a Terra era redonda, ou quase. Agora, escolham circum-navegação, que é como ficou decretado, e será difícil não pensar numa regata ao redor do um circo.

O velho prédio da Assembleia, aqui na Rua Duque, que será reinaugurado ao que anunciam neste janeiro, terá de providenciar nova placa, pois perdeu o acento. De igual acidente sofrerão a Coreia, a ideia, e a paranoia. A jiboia, a odisseia e a tramoia padecerão do mesmo mal.

Mas enquanto aqui refletimos, os portugueses continuarão a reflectir: é a tal de informação fonética. Outras informações menos técnicas têm o timbre da máquina registradora.

Os dicionários precisarão ser atualizados e calcula-se que milhões de exemplares de livros didáticos deverão receber reedições. O mesmo vale para as obras que nós compramos por prazer.

No fundo tudo será uma questão de auto-estima, ou de autoestima, segundo os mandamentos da grafia única e dos caprichos das Academias de Letras.

Aproveite a segunda-feira e tenha uma excelente semana.


05 de janeiro de 2009
N° 15839 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Ensinar a escrever?

Ensina-se a escrever literatura? – eis a pergunta que um jovem estudante faz ao escritor. A pergunta é tão desnecessária quanto perguntar se é possível ensinar a pintar, a esculpir, a tocar um instrumento musical, a dançar, a interpretar no palco ou na TV.

Todas essas são formas de expressão artística e, se não se discute que é possível ensiná-las, também não se discute, logicamente que é possível ensinar a escrever, já que a literatura é uma arte. O problema, portanto, não está aí.

É preciso um deslocamento do foco, e este está ligado à formação do escritor. Como um escritor forma a si mesmo? Os caminhos são múltiplos, concomitantes e não-excludentes: leitura atenta, reflexão, estudos teóricos, diálogos com escritores mais experientes e, se possível, frequência a uma oficina literária.

Quer-se dizer, simplesmente: a oficina é um dos caminhos disponíveis – e, talvez, um dos mais eficazes. Mas, agora, esse não é o ponto.

Como os laboratórios de texto passaram a existir apenas no século 20, é natural que nos séculos anteriores os aspirantes a escritor faziam sua aprendizagem utilizando os meios tradicionais. Contudo, evoca-se aqui o curioso depoimento de Guy de Maupassant: “Trabalhei durante sete anos com [Gustave] Flaubert, sem escrever uma linha.

Durante esses sete anos [ele] me deu as noções literárias que eu não teria adquirido nem com 40 anos de experiência”. É possível dizer, portanto, que o autor de Bola de Sebo frequentou uma oficina literária sim; no caso, uma oficina particular, privada [e possivelmente grátis] com Flaubert.

O mesmo acontecia com Balzac; em biografia recentemente publicada, verifica-se que esse escritor era muito procurado por autores estreantes, aos quais atendia sempre que se via de bom humor, e um dos conselhos que mais dava [e ele mesmo não seguia] era: “Escreva pouco, meu jovem, para que o crítico tenha menos a criticar”.

Estes são depoimentos de que temos registro documentado; os outros perderam-se, mas é fácil imaginar que foram desde sempre abundantes e consagradores. Qualquer escritor, aliás, pode atestar o quanto são devedores de uma palavra, de um ensinamento, de viva voz ou por correspondência, dos que o precederam.

Muitos, no Rio Grande do Sul, tiveram essa palavra de Erico Verissimo e Josué Guimarães, por exemplo, e não fazem disso segredo. Afinal, a literatura, como diz Ivan Ângelo, é uma corrida de bastão que já tem milênios. E mesmo considerando desnecessária a pergunta do jovem estudante, não podemos deixá-lo sem resposta. E esta, já a sabemos.


05 de janeiro de 2009
N° 15839 - PAULO SANT’ANA | CLÓVIS MALTA (interino)


A bolha das convicções

O final do último ano e o início deste serão lembrados por algum tempo como um período no qual algumas de nossas convicções, aparentemente as mais sólidas, estouraram como bolhas de espuma ao vento.

Primeiro foi a polêmica sobre a conveniência de comprar ou poupar, amplificada em pleno mês de dezembro. Depois, instalou-se entre uma parcela de gaúchos o debate sobre o dilema de ir ou não ao Litoral para o Réveillon.

Em alguns casos, a dúvida se tornou ainda mais angustiante: avançar ou não até Santa Catarina para aguardar o início de 2009, ou para as férias de verão? É claro que não há respostas prontas e unificadas para quaisquer desses casos. Ainda assim, a torrente de fatos, em menos de uma semana de novo ano, faz pensar.

Pode ser que o comércio esperasse mais, pois dezembro de 2008 vinha se encaminhando para ser um mês de delírio no consumo. Mas a afluência às lojas fez lembrar o comportamento de formigas antes da tempestade, quando todas correm na mesma direção, preocupadas em garantir o que quer que seja, enquanto é tempo.

Quem se arriscou a ir de qualquer ponto do Estado para o Litoral no primeiro feriadão forçado do ano, pôde constatar que sobrou carro e faltou estrada. Alguns tiveram que cear no caminho mesmo, onde ainda se encontravam à meia-noite, sem conseguir avançar.

Entre os que ousaram mais, buscando o azul do mar catarinense e o verde das montanhas, a mesma natureza mostrou que pode ser bela, mas não é necessariamente dócil o tempo todo. É por isso que tantos motoristas e seus acompanhantes, ao tentarem acelerar o retorno ou a ida, viraram flagelados dentro do carro, sob o pavor da ameaça da água avançando ao redor.

Uma troca de presentes natalinos não se resume a um ritual quase obrigatório, nem serve apenas para compensar com bens materiais eventuais pequenas ou grandes frustrações acumuladas durante o ano. Quem compra e quem vende ajuda a mover a roda da economia, a gerar imposto, a abrir ou garantir vagas. E, é claro, a permitir que mais pessoas possam ter um veraneio mais próximo de suas ambições, onde quiserem e puderem pagar.

Não interessa se a esteira será estendida na beira do rio mais próximo ou do mar de Punta del Este. Nem que a opção seja pelas praias gaúchas ou pelas de Santa Catarina. Mas a decisão de comprar ou guardar, de abrir o guardassol abaixo ou acima do Mampituba precisa, ou deveria, estar muito bem embasada em dados reais. Quanto há de dinheiro no bolso? O que diz previsão do tempo? Como estão as condições das rodovias?

Sim, juntamente com as nossas, ruíram também algumas verdades inabaláveis de figuras até agora influentes no cotidiano coletivo. Economistas foram os últimos a saber da maior crise financeira em oito décadas. Empresários avessos à atuação do Estado precisaram se socorrer adivinhem onde?

Meteorologistas estão cada vez mais equipados com o que há de melhor em tecnologia, mas continuam atordoados pelas ciladas do aquecimento global, que gera estiagem do lado de cheia. E onde estão os carros menos poluentes? Cadê as estradas para que possam fluir?

É difícil, impossível mesmo, garantir sem correr o risco de errar como os financistas ou os homens do tempo que agiu errado quem esbanjou dinheiro no último mês do ano.

Ou, então, considerar acertada a opção de quem prefere ajudar na reconstrução de Santa Catarina aproveitando suas praias e a recepção calorosa dos moradores. As duas decisões são coerentes com uma lógica à qual estávamos acostumados e sobre a qual não refletíamos, pois faz parte nossas crenças. Mas só o tempo dirá quem agiu certo – e depois do veraneio.

Claro que pode ser ruim começar um novo ano diante da constatação de tanta impermanência. Mas certamente seria bom que tudo isso nos levasse a uma maior consciência sobre o que realmente é frágil e precisa mais de nossa atenção, como a natureza, e sobre um certo jeito de levar a vida, que até agora parecia imutável, mas não é.


05 de janeiro de 2009
N° 15839 - L.F. VERISSIMO


No Céu

Não acredito na reencarnação, mas confesso que tenho um medo: o de morrer, ser reencarnado e encontrar reencarnada uma das pessoas com quem vivo discutindo a reencarnação, dizendo que não acredito. E que não perderá a oportunidade de, todas as vezes que nos encontrarmos, gritar:

– Eu não disse?! Não vai dar para aguentar.

Também me imagino chegando ao Céu e descobrindo que é tudo exatamente como o descrevem os crentes, ou pelo menos exatamente como o descrevem as anedotas. São Pedro, o portão, os anjos, tudo.

– Eu não acredito no que estou vendo! – direi. São Pedro entenderá mal minha exclamação e dirá:

– Bacana, né? – Não. É que eu era ateu e não acreditava em nada disto. – E agora, acredita? – Claro.

– Então vai para o Inferno – dirá São Pedro, já levando o dedo ao botão que abre o alçapão.

– Mas, por quê? – perguntarei, espantado. – Adesistas não.

E tem aquela do cara que chega ao Céu e, enquanto preenche a ficha na recepção, vê passar dois barbudos conversando animadamente. Começa a perguntar:

– Aqueles dois não são...

– São eles mesmos – diz São Pedro. – Marx e Freud. Na sua caminhada matinal.

– Mas, eles aqui? – Qual é o problema?

– Era o último lugar em que eu esperava encontrar esses dois. Marx, o materialista ateu, que dizia que a religião era o ópio do povo. Freud, o homem que liquidou com a ideia da alma eterna. No Céu?!

– Bom, nossos critérios de admissão são flexíveis...

Nisso Marx e Freud começam a discutir em altos brados.

– O que é isso? – pergunta o recém-chegado.

– Você não conhece o velho ditado? Dois judeus, quatro opiniões diferentes.

– Mas eles parecem que vão se engalfinhar!

– Você devia ver quando Jesus caminha com eles. Aí ninguém se entende.

Outro cara chega ao Céu entusiasmadíssimo. “Que maravilha!” , diz, olhando em volta. A vida eterna. Paz para sempre. Tudo imutável e perfeito.

– É – diz São Pedro. – Mas você devia ver isto aqui nos bons tempos.

domingo, 4 de janeiro de 2009



O julgamento

A maneira como formamos as nossas opiniões sobre os mais diversos assuntos e temas normalmente é muito particular.

Depende muitas vezes das experiências anteriores que tivemos, de como as vivemos e também muito da nossa formação.

Julgamos e definimos sempre interiormente as situações e as pessoas. Algumas vezes estamos certos, outras errados, mas temos sempre uma chance de mudar a forma de como vemos as coisas.

Carregamos durante a nossa vida os conceitos do que é certo e errado e quando normalmente formamos a nossa opinião sobre alguém ou um determinado fato, o importante é saber dentro de nós que naquela situação e naquela altura, o que foi feito era o que se podia fazer, afinal ninguém estava no seu lugar, a viver aquele momento.

A verdade que existe dentro de nós não é mesma que existe dentro do outro e este é sem dúvida um exercício que devemos praticar.

Ainda penso que devemos nos lembrar que todas as situações têm dois lados, com igual importância e diferentes "verdades", sem esquecermos da nossa própria auto-avaliação: - Quem somos nós para julgar?

O meu pai uma vez disse e só o fêz uma vez: "Quando estiveres por cima, presta muita atenção aos que estão embaixo, porque eles naturalmente estão a suportar o teu peso", ficou-me para a vida toda.

Durante muito tempo de sua vida foi juiz de futebol e sabia muito bem o que estava a dizer...


Um agradável convívio

SEMPRE ACHEI um enorme privilégio poder escrever em um jornal influente e independente e que presta tantos serviços à democracia brasileira como a Folha de S.Paulo.

Ademais, gosto da palavra escrita. Meu professor de português do Ginásio Rio Branco, o velho Castelões, via nesse gosto uma possível carreira de escritor.

Previsão errada, aliás, como fazem muitos economistas nos dias de hoje... Formei-me engenheiro e, como tal, passei a escrever mais números do que letras, até que o saudoso Octavio Frias de Oliveira abriu-me a página 2 da Folha. Era uma oferta de ouro para quem desejava debater com centenas de milhares de leitores os grandes temas nacionais. Aceitei na hora.

Os primeiros artigos foram motivo para longas conversas com o querido Frias, nas quais íamos muito além dos temas, querendo consertar o Brasil e o mundo. Senti-me feliz na nova empreita. Mas faltava a prática. Minhas ideias não cabiam no espaço do jornal.

Êta coisa irritante! Tive de aprender a pensar dentro da magreza da coluna. Mesmo assim, de quando em vez, protestava junto ao Frias, até que um dia ele me perguntou: por que você não escreve um livro para contar a sua vasta experiência de empresário, chefe de uma bela família e colaborador de tantas obras sociais? A pergunta me intrigou.

Não sabia se era uma sugestão séria ou mera brincadeira. Fiquei com ela na cabeça. Lembrei-me do Castelões. Mas a mosca me mordeu. Pensei alguns dias e decidi: vou escrever uma peça de teatro. E acabei escrevendo três.

Os atores amigos já tinham me falado que as ideias transformam-se em verdadeiros torpedos quando expostas num palco, com emoção, música, cenários e figurinos. Eles estão certos. Com essa moldura, elas penetram fundo e atingem a alma.

Como aprendiz de dramaturgo e na forma de ficção, procurei passar para o público, e em especial para a juventude, a minha infinita crença nos valores da humildade, do trabalho, da educação, da ética, da liberdade, da democracia e, enfim, em tudo aquilo que meus pais me ensinaram e eu nunca esqueci.

De maneira muito modesta, no jornal e no teatro, nas empresas e nas obras sociais, esforço-me para exercer a cidadania, fazendo propostas, criando empregos e ajudando os necessitados. Para os artigos, meus leitores me alimentam com excelentes sugestões. Sou muito grato a todos.

Otavio Frias Filho, ao suceder seu pai no jornal, acolheu-me com a mesma amabilidade, fazendo-me sentir parte da família Frias. Gente generosa. Competente. Patriótica.

Sou grato a todos, inclusive aos funcionários da Folha, de quem espero igual apoio na inauguração de uma nova fase, na qual pretendo escrever ocasionalmente, mas com o mesmo propósito: ajudar a construir um Brasil melhor.

antonio.ermirio@antonioermirio.com.br

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES ocupou esta coluna aos domingos desde março de 1991.

DANUZA LEÃO

Carta à diretora da Anac

Que saudades do tempo em que se comprava bilhete da ponte aérea e se embarcava em qualquer companhia

D. SOLANGE: não te conheço, mas você é tão jovem, tem um sorriso tão bonito e me parece tão sensata em suas opiniões, que vou chamá-la de Solange, apesar do seu pomposo cargo à frente da Agência Nacional de Aviação Civil -a hoje famosa Anac.

Vou desabafar contando algumas coisas banais que acontecem quando se é um passageiro comum, que quer fazer um vôo bem simples, tipo ponte aérea.

Outro dia eu estava em São Paulo e minha passagem para o Rio estava marcada para as 13h; mas como uma reunião foi desmarcada, cheguei ao aeroporto às 10h30 e perguntei se não havia um vôo saindo mais cedo.

Não só havia vários como os aviões estavam quase vazios. Mas para mudar o horário precisaria ir ao escritório da companhia e pagar mais 400 e poucos reais. Faz sentido?

Que saudades do tempo em que se comprava um bilhete da ponte aérea e se embarcava em qualquer avião de qualquer companhia, a qualquer hora, o que era um conforto total. A regra foi mudada para acabar com o cartel, quando todas as companhias cobravam o mesmo preço pelas passagens, mas em compensação enlouqueceu os passageiros; são tantas as tarifas existentes atualmente que não dá para entender que passagem se deve comprar.

Dá um jeito nisso, Solange. De outra vez, comprei uma passagem para a Europa; queria viajar numa determinada data, mas como nesse dia o avião estava cheio, tive que marcar na semana seguinte.

Soube depois, por meio de uma amiga, que no dia que eu gostaria de ir tinha lugar, sim. Liguei, contei a novela toda, e eles me disseram que, efetivamente, havia vagado um lugar na data que eu queria. Só que deveria pagar a módica quantia de US$ 200 pela modificação.

É justo? Dá para entender? Não, não é justo nem dá para entender. Mas a Anac é para ver o lado de quem, das companhias ou do passageiro?

Quem projetou os aeroportos Santos Dumont, Tom Jobim, Congonhas e Cumbica nunca andou de avião. Anda-se quilômetros para embarcar, para desembarcar, e para poderem ganhar mais dinheiro e lucrar mais, os construtores dos aeroportos colocam os pisos sempre de mármore. Resultado: no Santos Dumont, com mármore no chão e vidro nas paredes, não se entende nada do que é anunciado pelos alto-falantes.

Com o dinheiro gasto no mármore, seria bem melhor botar esteiras rolantes, para não ter que andar quilômetros até chegar ao embarque (ou desembarque). Outra coisa é o "overbooking". As companhias vendem mais passagens para se prevenir dos passageiros que não aparecem e os aviões não voarem vazios.

Mas por que nunca ninguém pensou em punir esses passageiros, cobrando uma bela multa para quem não aparecer na hora do embarque? Elementar, Solange.

Pesquisando na internet, descobri que se pode conseguir um vôo de Lisboa a Londres por 28 euros. Nunca ouvi falar que isso existisse no Brasil, mas a Infraero agora está se vangloriando e se exibindo na televisão pelo fato de os aviões estarem saindo no horário e da ausência de filas. Ora, isso é obrigação, não motivo de comemoração.

Não entendo de problemas da Aeronáutica, mas morando no Rio, é claro que todas as vezes que tenho que tomar um avião, se puder ser do Santos Dumont, é sempre mil vezes melhor, pois economizo meu tempo, meu dinheiro e minha paciência.

E qual a razão do nosso tão simpático governador carioca ser contra o aumento de vôos saindo do Santos Dumont e obrigar os passageiros das novas companhias se deslocarem para o aeroporto internacional (R$ 30 de taxi, só a ida)? Boa pergunta.

Mas a resposta? Como sou sua fã, Solange, e acredito muito no bom senso e na honestidade das mulheres, torço e espero que você dê ordem a esse caos, sobretudo pensando no bem-estar dos passageiros comuns, como eu. Boa sorte e não nos decepcione.

danuza.leao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

O Maranhão é o Brasil

BRASÍLIA - Nada poderia espelhar melhor a desigualdade brasileira do que o Maranhão que emergiu de três páginas diferentes da Folha na última sexta-feira.

Na pág. A2, no texto "A crise na janela", delicioso como sempre, José Sarney não fica a ver navios e sim "um solitário barco envolto na bruma de sal".

É a crise a olho nu, mas Sarney trata de enaltecer São Luís como o segundo porto do Brasil, exportando 110 milhões de toneladas de minério de ferro e alumínio, além de soja, milho, babaçu.

O Maranhão também tem "a maior fábrica de alumínio do mundo, da Alcoa" e a "melhor infraestrutura do Nordeste", com estradas de ferro e "comboios imensos, milhares de operários, lavra, energia e estradas". Fantástico.

Mas esse é um Maranhão. Há outros. Você vira a página e, na A4, as notas "Fichados 1" e "Fichados 2", do Painel, informam que o Estado contribui para a nova "lista suja" de trabalho escravo com um juiz, Marcelo Baldochi, e o ex-prefeito de Santa Luzia Antonio Braide, pai de um ex-assessor do ministro maranhense Edison Lobão.

Virando mais uma página, chegamos à A6 e à reportagem sobre maranhenses que, no primeiro dia do ano, incendiaram a prefeitura, o fórum e o cartório da mesma Santa Luzia, a 300 km de São Luís e do segundo porto brasileiro. Motivo: quem ganhou a eleição para prefeito não levou. A Justiça não deixou.

Na véspera, com os salários atrasados e sem Natal, prestadores de serviço tinham invadido a casa do prefeito Zilmar Melo e a empresa de informática da família, em Tutoia (457 km da capital e do porto maravilhoso). Quebraram até os carros. O que restou, levaram.

E o Maranhão de um ex-presidente recente (1985-1990) e "da maior fábrica de alumínio do mundo" não é só lembrado por trabalho escravo e pela fúria de cidadãos, mas pelos piores desempenhos em português e em matemática. E no IDH, claro.
O Maranhão é o Brasil. Ou melhor, o Brasil é o Maranhão.

elianec@uol.com.br

sábado, 3 de janeiro de 2009



04 de janeiro de 2009
N° 15838 - MARTHA MEDEIROS


“Queridos Amigos”

Nesses dias de festa, me dediquei ao ócio caseiro, não coloquei o nariz pra fora. Em vez de badalações, preferi recompor as energias no sofá da minha sala, curtindo o melhor presente que recebi no Natal: o DVD da minissérie Queridos Amigos, que foi ao ar em 2008 e que eu não havia assistido.

Pra quem não lembra, a minissérie foi baseada no romance Aos Meus Amigos, da divina Maria Adelaide Amaral. A história gira em torno de um homem que descobre ter uma grave doença e que em função disso resolve reunir a turma de amigos da juventude, à qual ele chama de “família”. A partir desse encontro, cada um deles reavaliará sua própria vida.

Não sei se porque assisti agora, no final do ano, com a emoção à flor da pele, mas essa minissérie testou minha resistência cardiológica. Foi uma overdose de sentimentos intensos. Pra começar, sou uma pessoa que realmente considera os amigos uma outra espécie de família.

Nada comove tanto quanto abraçar uma pessoa que compartilhou com você os melhores e piores momentos da sua vida, que percebe seu estado de ânimo só de te olhar. Tenho apenas um irmão biológico, mas vários outros irmãos e irmãs que me conhecem melhor do que eu mesma e que fortalecem minha identidade – sem eles, eu não sou eu.

Não bastasse, a minissérie tem um elenco de soltar fogos de artifício. Dan Stulbach, Débora Bloch, Denise Fraga, Matheus Nachtergaele, Bruno Garcia, Maria Luisa Mendonça, Drica Moraes, Guilherme Weber, Malu Galli, Juca de Oliveira, Fernanda Montenegro (e outras feras de igual calibre), mostrando o quanto se pode emocionar através de uma interpretação sem pieguice. Mágicos, todos.

E eu nem falei da trilha sonora. Uma viagem no tempo. Impossível citar o playlist inteiro, cada música é mais significativa do que a outra, nada está ali à toa, nada é apenas “pano de fundo”, são personagens da história.

Mas o mais valioso é que o DVD me chegou às mãos através da minha mãe, e isso não é uma trivialidade. Ela assistiu à minissérie quando foi ao ar e sabia que estava diante de algo qualificado. Vivia me dizendo: Martha, não perde, tu vais adorar – mas eu perdi. Portanto, não é apenas o desenrolar da história que me deixou assim comovida.

É o fato de eu ter perto de mim uma pessoa que sabe o valor de se passar adiante uma emoção, que me conhece bem o suficiente para ter certeza de que vou ficar tocada, que me dá de presente não apenas uma caixa com quatro CDS, mas algumas horas de pura sensibilidade, nada de melodrama barato. Ofertou reflexão, abalo e divertimento de alto nível.

Já escrevi uma crônica sobre isso anos atrás: o melhor presente que podemos oferecer a alguém é um acréscimo de vida. Podemos fazer isso dando uma dica de livro, de disco, de um lugar para conhecer, de um programa de tevê que fuja da mesmice, e assim tornar a vida do outro mais rica através da abertura de idéias e de um êxtase novo.

Minha mãe me ensinou a importância da arte e do livre pensar, me transmitiu o gene da alegria e do prazer, e apesar de todas as incomodações inerentes ao papel dela (mãe é mãe), acabou se tornando uma das minhas melhores e queridas amigas.

N esses dias de festa, me dediquei ao ócio caseiro, não coloquei o nariz pra fora. Em vez de badalações, preferi recompor as energias no sofá da minha sala, curtindo o melhor presente que recebi no Natal: o DVD da minissérie Queridos Amigos, que foi ao ar em 2008 e que eu não havia assistido.

Pra quem não lembra, a minissérie foi baseada no romance Aos Meus Amigos, da divina Maria Adelaide Amaral. A história gira em torno de um homem que descobre ter uma grave doença e que em função disso resolve reunir a turma de amigos da juventude, à qual ele chama de “família”. A partir desse encontro, cada um deles reavaliará sua própria vida.

Não sei se porque assisti agora, no final do ano, com a emoção à flor da pele, mas essa minissérie testou minha resistência cardiológica. Foi uma overdose de sentimentos intensos. Pra começar, sou uma pessoa que realmente considera os amigos uma outra espécie de família.

Nada comove tanto quanto abraçar uma pessoa que compartilhou com você os melhores e piores momentos da sua vida, que percebe seu estado de ânimo só de te olhar. Tenho apenas um irmão biológico, mas vários outros irmãos e irmãs que me conhecem melhor do que eu mesma e que fortalecem minha identidade – sem eles, eu não sou eu.

Não bastasse, a minissérie tem um elenco de soltar fogos de artifício. Dan Stulbach, Débora Bloch, Denise Fraga, Matheus Nachtergaele, Bruno Garcia, Maria Luisa Mendonça, Drica Moraes, Guilherme Weber, Malu Galli, Juca de Oliveira, Fernanda Montenegro (e outras feras de igual calibre), mostrando o quanto se pode emocionar através de uma interpretação sem pieguice. Mágicos, todos.

E eu nem falei da trilha sonora. Uma viagem no tempo. Impossível citar o playlist inteiro, cada música é mais significativa do que a outra, nada está ali à toa, nada é apenas “pano de fundo”, são personagens da história.

Mas o mais valioso é que o DVD me chegou às mãos através da minha mãe, e isso não é uma trivialidade.

Ela assistiu à minissérie quando foi ao ar e sabia que estava diante de algo qualificado. Vivia me dizendo: Martha, não perde, tu vais adorar – mas eu perdi. Portanto, não é apenas o desenrolar da história que me deixou assim comovida.

É o fato de eu ter perto de mim uma pessoa que sabe o valor de se passar adiante uma emoção, que me conhece bem o suficiente para ter certeza de que vou ficar tocada, que me dá de presente não apenas uma caixa com quatro CDS, mas algumas horas de pura sensibilidade, nada de melodrama barato. Ofertou reflexão, abalo e divertimento de alto nível.

Já escrevi uma crônica sobre isso anos atrás: o melhor presente que podemos oferecer a alguém é um acréscimo de vida. Podemos fazer isso dando uma dica de livro, de disco, de um lugar para conhecer, de um programa de tevê que fuja da mesmice, e assim tornar a vida do outro mais rica através da abertura de idéias e de um êxtase novo.

Minha mãe me ensinou a importância da arte e do livre pensar, me transmitiu o gene da alegria e do prazer, e apesar de todas as incomodações inerentes ao papel dela (mãe é mãe), acabou se tornando uma das minhas melhores e queridas amigas.


04 de janeiro de 2009
N° 15838 - VERISSIMO


A tia que caiu no Sena


A sobrinha Alda foi intimada a descobrir tudo sobre aquela queda e contar em detalhes para o grupo

A conversa era sobre parentes, os parentes estranhos, interessantes ou por qualquer razão notáveis de cada um. Alguém já tinha contado que um parente comia favo de mel com abelha dentro.

Outro contara que um tio longínquo se perdera no mato e fora encontrado quase à morte depois de uma semana. Outro que um avô tinha conhecido a Marlene Dietrich em Berlim. Outro que uma tia-avó fora miss, ou um primo jogava futebol profissional e até não era ruim. Foi quando Alda, timidamente, sem saber se o que tinha para contar merecia ser contado, disse:

– Eu tenho uma tia que caiu no Sena.

– Ficaram todos esperando que ela continuasse, mas não havia mais nada para contar. – Como foi que sua tia caiu no Sena? – Não sei.

Mas como, não sabia?

– Não sei. Sempre ouvi contarem em casa que a tia Belinha tinha caído no Sena, mas nunca perguntei como.

– E a tia Belinha nunca contou? – Não. Ela foi morar em outra cidade. Nos vimos pouco. E eu nunca me lembrei de perguntar.

– Ela ainda vive? – Vive.

Aquilo não podia ficar assim. Uma pessoa não podia cair no Sena e fim de história. Era preciso investigar. Caíra no Sena como? Por quê? Fora um acidente? Caíra de um barco? Caíra de uma ponte?

Alda foi intimada a descobrir tudo o que pudesse sobre a queda da tia Belinha no Sena e contar para o grupo.

A mãe não ajudou. – Foi quando ela esteve em Paris... – É óbvio, mamãe. Mas quando foi isso? Ela estava sozinha? Foi com alguém?

– Não me lembro. – Ela não contou como caiu no rio?

– Contou. Deve ter contado. Senão como é que a gente ia saber que ela tinha caído? Contou. Mas eu não me lembro. Faz tanto tempo.

– Vou falar com ela.

A tia Belinha nunca se casara. Estava internada numa clínica. Sempre fora pequena e magra e com a velhice ficara ainda menor e mais magra. Mas os olhos continuavam vivos. Fez uma festa quando viu a sobrinha.

– Aldinha! – Como vai, titia? – Eu não vou mais, minha filha. Eu agora só fico.

– Mas a senhora já andou bastante, hein titia? Lembra quando foi a Paris?

– Ah, Paris, Paris. Nunca mais voltei. Fiquei só com as lembranças daquela vez. As lembranças me fazem companhia e me consolam.

– Como foi que a senhora conseguiu cair no rio, titia?

– Que rio? – O Sena. – Eu caí no Sena?! – A senhora mesmo contou.

– Meu Deus, é mesmo. Eu caí no rio. Eu caí no Sena! Como foi aquilo, meu Deus? Eu não consigo...

E seus olhos de repente perderam o brilho. Quando falou outra vez, foi para se queixar da sua memória. Nem aquele consolo lhe restava. Nem as lembranças tinha mais. Como fora que ela caíra no Sena?

Alda contou para o grupo que a tia Belinha tinha ido sozinha a Paris e lá conhecera um conde francês, ligeiramente arruinado e ligeiramente maluco, com quem tivera um tórrido caso de verão. Numa noite quente, dançando numa margem do Sena, depois de muitos copos de champanhe, os dois tinham tropeçado e...


04 de janeiro de 2009
N° 15838 - MOACYR SCLIAR


A Terra do Nunca, A Terra do Sempre

Uma frase inevitável nesta época é: “Parece que foi ontem que o ano começou e ele já está terminando”. Tradução: o tempo passa.

Quando a gente vê, a semana terminou, o mês terminou, o ano terminou. E, claro, a vida termina, mesmo para os imortais membros da ABL, que, como dizia Rachel de Queiroz, podem ser imortais mas não são imorríveis. É bom a gente lembrar a transitoriedade da vida.

Porque a passagem do tempo é coisa que não aceitamos, que negamos fervorosamente, e aí está o botox para comprová-lo. Essa negação tem um preço, inclusive em termos emocionais. Se a gente soubesse avaliar melhor o tempo, usar melhor o tempo, se a gente pudesse aprender com o tempo, a nossa vida seria muito melhor.

Existem duas palavras que disso dão testemunho: nunca e sempre. As duas palavras negam que o tempo passe, que o tempo mude as coisas. Correspondem a uma fantasia infantil e não é de admirar que o escritor J.M. Barrie, o criador de Peter Pan, tenha dado o nome de Terra do Nunca àquela mítica região onde as crianças jamais envelheceriam.

Também não é de admirar que o estranho Michael Jackson tenha dado esse nome ao rancho que possuía em Santa Barbara, na Califórnia, e que teria sido cenário de cenas de pedofilia – até o cantor perder a propriedade por causa de uma milionária dívida hipotecária.

De alguma maneira vivemos na Terra do Nunca. E também na Terra do Sempre. Usamos constantemente essas duas palavras. Que são, podem estar certos disso, um desastre para qualquer relacionamento. É a mulher que diz ao marido: “Tu nunca me levas para jantar fora”, é o marido que acusa a mulher: “Tu nunca perguntas como é que estão as coisas no escritório”.

É o namorado que diz à namorada: “Tu estás sempre me criticando”, é a namorada que responde: “Tu estás sempre pensando em sexo”. Essas acusações tendem a se perpetuar, porque um “nunca” puxa outro “nunca”, um “sempre” evoca outro “sempre”. Um conflito eterno, muito mais eterno que o próprio amor, que, recomenda Vinicius de Moraes, deve ser eterno apenas enquanto dure.

Claro, não são poucas as pessoas que perceberam as armadilhas contidas nessas palavras. Há uma expressão em inglês que deveria servir de antídoto ao menos para o “nunca”: “Never say never”. É título de uma canção, título de um filme do 007, e deu origem a um neologismo, cunhado pelo jornalista americano William Safire, o “never-say-neverism”, que é uma regra para escrever melhor. Exemplo: “Nunca use pontos de exclamação!” (este que termina a frase é, claro, irônico).

As palavras nos unem, as palavras nos separam. As palavras criam beleza ou geram desgraça. E deste último caso “nunca” e “sempre” são exemplos eloquentes. Querem uma boa resolução de Ano Novo? Aí vai: nunca usar o nunca, sempre evitar o sempre.

ma frase inevitável nesta época é: “Parece que foi ontem que o ano começou e ele já está terminando”. Tradução: o tempo passa. Quando a gente vê, a semana terminou, o mês terminou, o ano terminou. E, claro, a vida termina, mesmo para os imortais membros da ABL, que, como dizia Rachel de Queiroz, podem ser imortais mas não são imorríveis. É bom a gente lembrar a transitoriedade da vida.

Porque a passagem do tempo é coisa que não aceitamos, que negamos fervorosamente, e aí está o botox para comprová-lo. Essa negação tem um preço, inclusive em termos emocionais. Se a gente soubesse avaliar melhor o tempo, usar melhor o tempo, se a gente pudesse aprender com o tempo, a nossa vida seria muito melhor.

Existem duas palavras que disso dão testemunho: nunca e sempre. As duas palavras negam que o tempo passe, que o tempo mude as coisas. Correspondem a uma fantasia infantil e não é de admirar que o escritor J.M. Barrie, o criador de Peter Pan, tenha dado o nome de Terra do Nunca àquela mítica região onde as crianças jamais envelheceriam.

Também não é de admirar que o estranho Michael Jackson tenha dado esse nome ao rancho que possuía em Santa Barbara, na Califórnia, e que teria sido cenário de cenas de pedofilia – até o cantor perder a propriedade por causa de uma milionária dívida hipotecária.

De alguma maneira vivemos na Terra do Nunca. E também na Terra do Sempre. Usamos constantemente essas duas palavras. Que são, podem estar certos disso, um desastre para qualquer relacionamento. É a mulher que diz ao marido: “Tu nunca me levas para jantar fora”, é o marido que acusa a mulher: “Tu nunca perguntas como é que estão as coisas no escritório”.

É o namorado que diz à namorada: “Tu estás sempre me criticando”, é a namorada que responde: “Tu estás sempre pensando em sexo”. Essas acusações tendem a se perpetuar, porque um “nunca” puxa outro “nunca”, um “sempre” evoca outro “sempre”. Um conflito eterno, muito mais eterno que o próprio amor, que, recomenda Vinicius de Moraes, deve ser eterno apenas enquanto dure.

Claro, não são poucas as pessoas que perceberam as armadilhas contidas nessas palavras. Há uma expressão em inglês que deveria servir de antídoto ao menos para o “nunca”: “Never say never”.

É título de uma canção, título de um filme do 007, e deu origem a um neologismo, cunhado pelo jornalista americano William Safire, o “never-say-neverism”, que é uma regra para escrever melhor. Exemplo: “Nunca use pontos de exclamação!” (este que termina a frase é, claro, irônico).

As palavras nos unem, as palavras nos separam. As palavras criam beleza ou geram desgraça. E deste último caso “nunca” e “sempre” são exemplos eloquentes. Querem uma boa resolução de Ano Novo? Aí vai: nunca usar o nunca, sempre evitar o sempre.


04 de janeiro de 2009
N° 15838 - PAULO SANT’ANA | NÍLSON SOUZA (interino)


Doutor Telmo

Ele sempre foi uma figura mítica nas conversas dos adultos lá de casa. Vivíamos na era da imaginação, não havia tevê na sala para hipnotizar e isolar as pessoas. À noite, depois da janta, os homens se reuniam para contar histórias enquanto esperavam o sono.

E nós, crianças, ficávamos em volta, escutando tudo, especialmente os relatos sobre assombrações que nos enchiam de curiosidade e terror. Quantas vezes ouvi a história do sujeito que conheceu uma bela mulher num baile e, quando foi levá-la em casa, acabou na porta do cemitério.

Mas os homens e mulheres da casa falavam também sobre os vivos e sobre as enfermidades que os ameaçavam. E quando falavam em doença, meu pai invariavelmente pronunciava um nome que era ouvido com respeitoso silêncio por todos os presentes:

– Doutor Telmo!

Nunca o vi, mas sabia de sua existência. Pelos relatos familiares, fiquei sabendo que uma vez meu pai caiu de cama durante vários dias, com febre, vômitos e outros achaques que nenhum médico conseguia curar.

Então apareceu na sua vida o doutor Telmo Kruse, que tinha consultório na zona norte da cidade. Administrou as poções certas e o fez erguer-se novamente para o trabalho. Meu pai era um trabalhador braçal.

Distribuía leite para o antigo Deal, como era chamado o Departamento Estadual de Abastecimento de Leite. Era um trabalho duro. Na madrugada, ele carregava a sua velha camionete Ford-38 com pesados engradados de ferro lotados de garrafas de leite, que distribuía de porta em porta. Um de seus fregueses era o Doutor Telmo.

Quando meu irmão foi acometido de apendicite aguda e precisou ser operado às pressas, meu pai desesperou-se porque não tinha dinheiro para pagar a cirurgia. Foi então que o Doutor Telmo conquistou sua admiração eterna, com a seguinte proposta:

– Eu opero e você me paga com leite.

Assim foi feito. Depois de contar e recontar esta história trocentas vezes, meu pai nos deixou há dois anos. Mas meu irmão está aí, com uma pequena cicatriz na barriga, para confirmar o inédito acordo.

Pois, na última quinta-feira, resolvi mostrar a meus colegas de trabalho alguns registros deixados por meu pai e, por uma dessas inexplicáveis casualidades, ressuscitei este episódio que agora relato.

No dia seguinte, fui surpreendido com uma notícia de duas colunas na página 39 deste jornal. Começava assim: “A cena médica do Estado perdeu ontem um dos seus ativos integrantes.

Telmo Kruse, um dos fundadores do Hospital Cristo Redentor, morreu aos 87 anos”. Só então vi numa pequena foto o rosto daquele personagem que tantas vezes frequentou a minha casa nos comentários de seus devotados pacientes. Fiquei arrepiado, como no tempo em que escutava aqueles relatos sobrenaturais.

A notícia sobre sua morte dava conta da importância que teve como profissional e como fundador de um dos maiores hospitais da América Latina, o Grupo Hospitalar Conceição. Também relatava sua militância em entidades de classe, sua participação no Rotary Club e o reconhecimento que teve da cidade ao receber o título de cidadão emérito de Porto Alegre.

Mas não contava – porque talvez nem ele tenha contado para alguém – que numa época pretérita, antes da televisão entrar na casa das pessoas pobres, havia um médico capaz de operar o filho de um operário, aceitando como pagamento um litro de leite por dia.

Para a minha família, este profissional que nem cheguei a conhecer não era apenas um médico competente e respeitado. Era um ídolo.

Por isso, uso a imaginação que aqueles serões familiares atiçaram na infância para vislumbrar sua chegada a outra dimensão, onde meu pai já se encontra há algum tempo.

Aposto que na primeira hora de todas as manhãs eternas, quando ele abrir a porta de sua nova morada, ou do consultório que certamente já mandou instalar lá no alto para curar anjos desastrados, encontrará um imaculado litro de leite.

Artigo Demétrio Magnoli

Começa o outono de Lula

"No fim de seu segundo mandato, seremos ‘brancos’ ou ‘negros’ antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração"

Sergio Moraes/Reuters

SALVACIONISMO Lula em discurso: ele não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento

Lula chegou ao Palácio do Planalto como a personificação de esperanças exageradas, quase ilimitadas: "Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da República: para mudar". Na hora em que começa o outono de seu segundo mandato, contudo, é tempo de investigar a sua herança: desses oito anos, o que ficará incrustado no edifício político brasileiro?

"Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta." Antes de tudo, provou-se que diplomas acadêmicos não são adereços indispensáveis para governar. Os acertos e os erros de Lula decorrem de suas opções políticas, não das supostas virtudes ou das óbvias carências associadas a um nível baixo de instrução formal.

O presidente não precisou de uma universidade para preencher a diretoria do Banco Central com um time de economistas que ostenta medalhas acadêmicas incontáveis – e concepções opostas às doutrinas econômicas petistas.

Bastou-lhe o faro político privilegiado do conservador que, no fundo, nunca deixou de ser. Inversamente, o elogio da ignorância, um traço ubíquo dos pronunciamentos presidenciais, não reflete uma suposta convicção de que a escola é desnecessária, mas o egocentrismo exacerbado de um líder salvacionista.

"Nunca antes neste país." O salvacionismo abomina a história, apresentando-se como o início de tudo: a virtude que exclui o vício e escreve uma nova história num mármore intocado. A democracia enxerga a si mesma como um processo de mudanças incrementais. O líder salvacionista não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento. Lula é uma versão pragmática, cuidadosa e mesquinha de salvacionismo. De dia, ele denuncia "a elite que nos governa há 500 anos". À noite, cerca-se de grandes empresários, a quem atende e de quem espera retribuição. O sucesso do estilo político salvacionista deriva das fraquezas de nossa democracia – e as perpetua.

"Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados." Lula não inventou o paralelo entre a nação e a família, que faz parte da longa linhagem do pensamento conservador de raiz autoritária.

Mas, com a expansão do Bolsa Família, ele encontrou uma fórmula de modernização do assistencialismo tradicional. A distribuição direta de dinheiro, no lugar das proverbiais dentaduras, não é a fonte do aumento do consumo dos pobres, que reflete o crescimento da economia em geral e do salário mínimo em particular. Pouco importa: em virtude de sua eficácia eleitoral, o Bolsa Família será adotado pelos próximos governantes, sejam quem forem. Eis um legado duradouro da "mãe do povo".

"Não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar." O lulismo aprofundou a subserviência do Parlamento ao Executivo, que se manifesta sob a forma de um intercâmbio: o Congresso se anula politicamente enquanto os congressistas da base do governo chantageiam o presidente para conseguir cargos e favores.

A troca descamba sem dificuldades para a corrupção aberta. O "mensalão" foi isto: um projeto de estabilização da base governista pela compra direta dos parlamentares. Ele acabou exposto, mas apenas em virtude de uma fortuita ruptura interna à ordem da corrupção. Lula não caiu, apesar de tudo, e a oposição nem sequer apresentou um processo de impeachment. A elite política aprendeu do episódio que um presidente popular não será punido nem mesmo se distribuir dinheiro a parlamentares.

"Se tem uma coisa que está dando certo no governo é a política econômica. O PT não pode se esconder, procurando motivos para as derrotas, com críticas a ela."

O PT morreu como partido da mudança antes da vitória eleitoral de Lula, com a Carta ao Povo Brasileiro, que o converteu em partido da ordem. Nos partidos social-democratas europeus, transições similares verificaram-se antes e de modo diferente.

Eles renunciaram publicamente a seus velhos programas revolucionários, adotando programas fundados nos cânones da democracia e da economia de mercado. O PT, não: embora, na prática, sustente a ortodoxia econômica do governo Lula, suas resoluções clamam pela ruptura socialista, denunciam a liberdade de imprensa e fazem o elogio da ditadura de partido único cubana.

A cisão entre o gesto e a palavra não apenas corrompe politicamente o partido como também alimenta um tipo mais virulento de corrupção.

Dida Sampaio/AE

MÁQUINA CLANDESTINA O operador do mensalão Delúbio Soares: o PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido

"Se eu falhar, será o fracasso da classe trabalhadora." Uma máquina clandestina petista, instalada dentro do Planalto, conduziu as operações do "mensalão". Militantes partidários em altos cargos públicos realizaram a quebra de sigilo do caseiro Francenildo, um crime de estado que passará impune.

Se acreditamos que temos a chave do futuro e uma missão histórica redentora, não hesitamos em usar de qualquer expediente para realizar as finalidades partidárias.

O PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido. No fundo, interpreta a democracia como instrumento transitório para a sua perpetuação no poder. Depois de Lula, o maior partido brasileiro continuará a figurar como elemento de distúrbio no sistema político.

"Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades no mundo são tão limpas." Os estereótipos raciais clássicos, afundados na lagoa do senso comum, são um componente óbvio da rasa visão de mundo de Lula.

Entretanto, o programa de racialização da sociedade brasileira conduzido por seu governo decorre de um frio cálculo político. O presidente quer conservar na sua ampla coalizão as ONGs racialistas, financiadas pela poderosa Fundação Ford.

Em nome dessa meta, patrocina uma enxurrada de leis raciais com repercussões na educação, no mercado de trabalho e no funcionalismo público.

No fim de seu segundo mandato, todos os direitos dos cidadãos estarão mediados e condicionados por rótulos oficiais de raça. Seremos "brancos" ou "negros" antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração.