segunda-feira, 5 de janeiro de 2009



05 de janeiro de 2009
N° 15839 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Um caso de autoestima

Uma das mais ilustres veranistas da atual temporada do litoral mudou de nome da noite para o dia. Falo da coruja Zoia, que em pleno Réveillon perdeu o acento agudo, passando a chamar-se Zoia. A culpada foi a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa, mal-humorada senhora que causou outros estragos no idioma em que navegamos.

O acordo, firmado entre o Brasil e as outras sete nações da mesma fala, provocou mais vítimas inocentes. Embora as mudanças só devam atingir algo como 0,5% das palavras empregadas em Pindorama, há algumas que me provocam a mais sentida consternação.

O trema, por exemplo, morreu sem choro nem vela, sem uma fita amarela. Ou você acha que dizer tranquilo, que significa de ânimo calmo, de natureza serena, sem receio, confiante, vai representar a mesma coisa que tranquilo, feia palavrinha decepada do duplo e clássico sinal?

E as palavras compostas, quem vai reconhecê-las? Tomem para-quedas. O sentido não pode ser mais claro. Significa frear a queda, o que vale tanto para tempos de paz como de guerra. Já paraquedas parece o título de alguma receita destinada a quem quer consertar as costelas.

Peguem circunavegação. Parece evidente que foi a viagem que Fernão de Magalhães fez, tirando todas as dúvidas de quem ainda suspeitava de que a Terra era redonda, ou quase. Agora, escolham circum-navegação, que é como ficou decretado, e será difícil não pensar numa regata ao redor do um circo.

O velho prédio da Assembleia, aqui na Rua Duque, que será reinaugurado ao que anunciam neste janeiro, terá de providenciar nova placa, pois perdeu o acento. De igual acidente sofrerão a Coreia, a ideia, e a paranoia. A jiboia, a odisseia e a tramoia padecerão do mesmo mal.

Mas enquanto aqui refletimos, os portugueses continuarão a reflectir: é a tal de informação fonética. Outras informações menos técnicas têm o timbre da máquina registradora.

Os dicionários precisarão ser atualizados e calcula-se que milhões de exemplares de livros didáticos deverão receber reedições. O mesmo vale para as obras que nós compramos por prazer.

No fundo tudo será uma questão de auto-estima, ou de autoestima, segundo os mandamentos da grafia única e dos caprichos das Academias de Letras.

Aproveite a segunda-feira e tenha uma excelente semana.


05 de janeiro de 2009
N° 15839 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Ensinar a escrever?

Ensina-se a escrever literatura? – eis a pergunta que um jovem estudante faz ao escritor. A pergunta é tão desnecessária quanto perguntar se é possível ensinar a pintar, a esculpir, a tocar um instrumento musical, a dançar, a interpretar no palco ou na TV.

Todas essas são formas de expressão artística e, se não se discute que é possível ensiná-las, também não se discute, logicamente que é possível ensinar a escrever, já que a literatura é uma arte. O problema, portanto, não está aí.

É preciso um deslocamento do foco, e este está ligado à formação do escritor. Como um escritor forma a si mesmo? Os caminhos são múltiplos, concomitantes e não-excludentes: leitura atenta, reflexão, estudos teóricos, diálogos com escritores mais experientes e, se possível, frequência a uma oficina literária.

Quer-se dizer, simplesmente: a oficina é um dos caminhos disponíveis – e, talvez, um dos mais eficazes. Mas, agora, esse não é o ponto.

Como os laboratórios de texto passaram a existir apenas no século 20, é natural que nos séculos anteriores os aspirantes a escritor faziam sua aprendizagem utilizando os meios tradicionais. Contudo, evoca-se aqui o curioso depoimento de Guy de Maupassant: “Trabalhei durante sete anos com [Gustave] Flaubert, sem escrever uma linha.

Durante esses sete anos [ele] me deu as noções literárias que eu não teria adquirido nem com 40 anos de experiência”. É possível dizer, portanto, que o autor de Bola de Sebo frequentou uma oficina literária sim; no caso, uma oficina particular, privada [e possivelmente grátis] com Flaubert.

O mesmo acontecia com Balzac; em biografia recentemente publicada, verifica-se que esse escritor era muito procurado por autores estreantes, aos quais atendia sempre que se via de bom humor, e um dos conselhos que mais dava [e ele mesmo não seguia] era: “Escreva pouco, meu jovem, para que o crítico tenha menos a criticar”.

Estes são depoimentos de que temos registro documentado; os outros perderam-se, mas é fácil imaginar que foram desde sempre abundantes e consagradores. Qualquer escritor, aliás, pode atestar o quanto são devedores de uma palavra, de um ensinamento, de viva voz ou por correspondência, dos que o precederam.

Muitos, no Rio Grande do Sul, tiveram essa palavra de Erico Verissimo e Josué Guimarães, por exemplo, e não fazem disso segredo. Afinal, a literatura, como diz Ivan Ângelo, é uma corrida de bastão que já tem milênios. E mesmo considerando desnecessária a pergunta do jovem estudante, não podemos deixá-lo sem resposta. E esta, já a sabemos.


05 de janeiro de 2009
N° 15839 - PAULO SANT’ANA | CLÓVIS MALTA (interino)


A bolha das convicções

O final do último ano e o início deste serão lembrados por algum tempo como um período no qual algumas de nossas convicções, aparentemente as mais sólidas, estouraram como bolhas de espuma ao vento.

Primeiro foi a polêmica sobre a conveniência de comprar ou poupar, amplificada em pleno mês de dezembro. Depois, instalou-se entre uma parcela de gaúchos o debate sobre o dilema de ir ou não ao Litoral para o Réveillon.

Em alguns casos, a dúvida se tornou ainda mais angustiante: avançar ou não até Santa Catarina para aguardar o início de 2009, ou para as férias de verão? É claro que não há respostas prontas e unificadas para quaisquer desses casos. Ainda assim, a torrente de fatos, em menos de uma semana de novo ano, faz pensar.

Pode ser que o comércio esperasse mais, pois dezembro de 2008 vinha se encaminhando para ser um mês de delírio no consumo. Mas a afluência às lojas fez lembrar o comportamento de formigas antes da tempestade, quando todas correm na mesma direção, preocupadas em garantir o que quer que seja, enquanto é tempo.

Quem se arriscou a ir de qualquer ponto do Estado para o Litoral no primeiro feriadão forçado do ano, pôde constatar que sobrou carro e faltou estrada. Alguns tiveram que cear no caminho mesmo, onde ainda se encontravam à meia-noite, sem conseguir avançar.

Entre os que ousaram mais, buscando o azul do mar catarinense e o verde das montanhas, a mesma natureza mostrou que pode ser bela, mas não é necessariamente dócil o tempo todo. É por isso que tantos motoristas e seus acompanhantes, ao tentarem acelerar o retorno ou a ida, viraram flagelados dentro do carro, sob o pavor da ameaça da água avançando ao redor.

Uma troca de presentes natalinos não se resume a um ritual quase obrigatório, nem serve apenas para compensar com bens materiais eventuais pequenas ou grandes frustrações acumuladas durante o ano. Quem compra e quem vende ajuda a mover a roda da economia, a gerar imposto, a abrir ou garantir vagas. E, é claro, a permitir que mais pessoas possam ter um veraneio mais próximo de suas ambições, onde quiserem e puderem pagar.

Não interessa se a esteira será estendida na beira do rio mais próximo ou do mar de Punta del Este. Nem que a opção seja pelas praias gaúchas ou pelas de Santa Catarina. Mas a decisão de comprar ou guardar, de abrir o guardassol abaixo ou acima do Mampituba precisa, ou deveria, estar muito bem embasada em dados reais. Quanto há de dinheiro no bolso? O que diz previsão do tempo? Como estão as condições das rodovias?

Sim, juntamente com as nossas, ruíram também algumas verdades inabaláveis de figuras até agora influentes no cotidiano coletivo. Economistas foram os últimos a saber da maior crise financeira em oito décadas. Empresários avessos à atuação do Estado precisaram se socorrer adivinhem onde?

Meteorologistas estão cada vez mais equipados com o que há de melhor em tecnologia, mas continuam atordoados pelas ciladas do aquecimento global, que gera estiagem do lado de cheia. E onde estão os carros menos poluentes? Cadê as estradas para que possam fluir?

É difícil, impossível mesmo, garantir sem correr o risco de errar como os financistas ou os homens do tempo que agiu errado quem esbanjou dinheiro no último mês do ano.

Ou, então, considerar acertada a opção de quem prefere ajudar na reconstrução de Santa Catarina aproveitando suas praias e a recepção calorosa dos moradores. As duas decisões são coerentes com uma lógica à qual estávamos acostumados e sobre a qual não refletíamos, pois faz parte nossas crenças. Mas só o tempo dirá quem agiu certo – e depois do veraneio.

Claro que pode ser ruim começar um novo ano diante da constatação de tanta impermanência. Mas certamente seria bom que tudo isso nos levasse a uma maior consciência sobre o que realmente é frágil e precisa mais de nossa atenção, como a natureza, e sobre um certo jeito de levar a vida, que até agora parecia imutável, mas não é.


05 de janeiro de 2009
N° 15839 - L.F. VERISSIMO


No Céu

Não acredito na reencarnação, mas confesso que tenho um medo: o de morrer, ser reencarnado e encontrar reencarnada uma das pessoas com quem vivo discutindo a reencarnação, dizendo que não acredito. E que não perderá a oportunidade de, todas as vezes que nos encontrarmos, gritar:

– Eu não disse?! Não vai dar para aguentar.

Também me imagino chegando ao Céu e descobrindo que é tudo exatamente como o descrevem os crentes, ou pelo menos exatamente como o descrevem as anedotas. São Pedro, o portão, os anjos, tudo.

– Eu não acredito no que estou vendo! – direi. São Pedro entenderá mal minha exclamação e dirá:

– Bacana, né? – Não. É que eu era ateu e não acreditava em nada disto. – E agora, acredita? – Claro.

– Então vai para o Inferno – dirá São Pedro, já levando o dedo ao botão que abre o alçapão.

– Mas, por quê? – perguntarei, espantado. – Adesistas não.

E tem aquela do cara que chega ao Céu e, enquanto preenche a ficha na recepção, vê passar dois barbudos conversando animadamente. Começa a perguntar:

– Aqueles dois não são...

– São eles mesmos – diz São Pedro. – Marx e Freud. Na sua caminhada matinal.

– Mas, eles aqui? – Qual é o problema?

– Era o último lugar em que eu esperava encontrar esses dois. Marx, o materialista ateu, que dizia que a religião era o ópio do povo. Freud, o homem que liquidou com a ideia da alma eterna. No Céu?!

– Bom, nossos critérios de admissão são flexíveis...

Nisso Marx e Freud começam a discutir em altos brados.

– O que é isso? – pergunta o recém-chegado.

– Você não conhece o velho ditado? Dois judeus, quatro opiniões diferentes.

– Mas eles parecem que vão se engalfinhar!

– Você devia ver quando Jesus caminha com eles. Aí ninguém se entende.

Outro cara chega ao Céu entusiasmadíssimo. “Que maravilha!” , diz, olhando em volta. A vida eterna. Paz para sempre. Tudo imutável e perfeito.

– É – diz São Pedro. – Mas você devia ver isto aqui nos bons tempos.

domingo, 4 de janeiro de 2009



O julgamento

A maneira como formamos as nossas opiniões sobre os mais diversos assuntos e temas normalmente é muito particular.

Depende muitas vezes das experiências anteriores que tivemos, de como as vivemos e também muito da nossa formação.

Julgamos e definimos sempre interiormente as situações e as pessoas. Algumas vezes estamos certos, outras errados, mas temos sempre uma chance de mudar a forma de como vemos as coisas.

Carregamos durante a nossa vida os conceitos do que é certo e errado e quando normalmente formamos a nossa opinião sobre alguém ou um determinado fato, o importante é saber dentro de nós que naquela situação e naquela altura, o que foi feito era o que se podia fazer, afinal ninguém estava no seu lugar, a viver aquele momento.

A verdade que existe dentro de nós não é mesma que existe dentro do outro e este é sem dúvida um exercício que devemos praticar.

Ainda penso que devemos nos lembrar que todas as situações têm dois lados, com igual importância e diferentes "verdades", sem esquecermos da nossa própria auto-avaliação: - Quem somos nós para julgar?

O meu pai uma vez disse e só o fêz uma vez: "Quando estiveres por cima, presta muita atenção aos que estão embaixo, porque eles naturalmente estão a suportar o teu peso", ficou-me para a vida toda.

Durante muito tempo de sua vida foi juiz de futebol e sabia muito bem o que estava a dizer...


Um agradável convívio

SEMPRE ACHEI um enorme privilégio poder escrever em um jornal influente e independente e que presta tantos serviços à democracia brasileira como a Folha de S.Paulo.

Ademais, gosto da palavra escrita. Meu professor de português do Ginásio Rio Branco, o velho Castelões, via nesse gosto uma possível carreira de escritor.

Previsão errada, aliás, como fazem muitos economistas nos dias de hoje... Formei-me engenheiro e, como tal, passei a escrever mais números do que letras, até que o saudoso Octavio Frias de Oliveira abriu-me a página 2 da Folha. Era uma oferta de ouro para quem desejava debater com centenas de milhares de leitores os grandes temas nacionais. Aceitei na hora.

Os primeiros artigos foram motivo para longas conversas com o querido Frias, nas quais íamos muito além dos temas, querendo consertar o Brasil e o mundo. Senti-me feliz na nova empreita. Mas faltava a prática. Minhas ideias não cabiam no espaço do jornal.

Êta coisa irritante! Tive de aprender a pensar dentro da magreza da coluna. Mesmo assim, de quando em vez, protestava junto ao Frias, até que um dia ele me perguntou: por que você não escreve um livro para contar a sua vasta experiência de empresário, chefe de uma bela família e colaborador de tantas obras sociais? A pergunta me intrigou.

Não sabia se era uma sugestão séria ou mera brincadeira. Fiquei com ela na cabeça. Lembrei-me do Castelões. Mas a mosca me mordeu. Pensei alguns dias e decidi: vou escrever uma peça de teatro. E acabei escrevendo três.

Os atores amigos já tinham me falado que as ideias transformam-se em verdadeiros torpedos quando expostas num palco, com emoção, música, cenários e figurinos. Eles estão certos. Com essa moldura, elas penetram fundo e atingem a alma.

Como aprendiz de dramaturgo e na forma de ficção, procurei passar para o público, e em especial para a juventude, a minha infinita crença nos valores da humildade, do trabalho, da educação, da ética, da liberdade, da democracia e, enfim, em tudo aquilo que meus pais me ensinaram e eu nunca esqueci.

De maneira muito modesta, no jornal e no teatro, nas empresas e nas obras sociais, esforço-me para exercer a cidadania, fazendo propostas, criando empregos e ajudando os necessitados. Para os artigos, meus leitores me alimentam com excelentes sugestões. Sou muito grato a todos.

Otavio Frias Filho, ao suceder seu pai no jornal, acolheu-me com a mesma amabilidade, fazendo-me sentir parte da família Frias. Gente generosa. Competente. Patriótica.

Sou grato a todos, inclusive aos funcionários da Folha, de quem espero igual apoio na inauguração de uma nova fase, na qual pretendo escrever ocasionalmente, mas com o mesmo propósito: ajudar a construir um Brasil melhor.

antonio.ermirio@antonioermirio.com.br

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES ocupou esta coluna aos domingos desde março de 1991.

DANUZA LEÃO

Carta à diretora da Anac

Que saudades do tempo em que se comprava bilhete da ponte aérea e se embarcava em qualquer companhia

D. SOLANGE: não te conheço, mas você é tão jovem, tem um sorriso tão bonito e me parece tão sensata em suas opiniões, que vou chamá-la de Solange, apesar do seu pomposo cargo à frente da Agência Nacional de Aviação Civil -a hoje famosa Anac.

Vou desabafar contando algumas coisas banais que acontecem quando se é um passageiro comum, que quer fazer um vôo bem simples, tipo ponte aérea.

Outro dia eu estava em São Paulo e minha passagem para o Rio estava marcada para as 13h; mas como uma reunião foi desmarcada, cheguei ao aeroporto às 10h30 e perguntei se não havia um vôo saindo mais cedo.

Não só havia vários como os aviões estavam quase vazios. Mas para mudar o horário precisaria ir ao escritório da companhia e pagar mais 400 e poucos reais. Faz sentido?

Que saudades do tempo em que se comprava um bilhete da ponte aérea e se embarcava em qualquer avião de qualquer companhia, a qualquer hora, o que era um conforto total. A regra foi mudada para acabar com o cartel, quando todas as companhias cobravam o mesmo preço pelas passagens, mas em compensação enlouqueceu os passageiros; são tantas as tarifas existentes atualmente que não dá para entender que passagem se deve comprar.

Dá um jeito nisso, Solange. De outra vez, comprei uma passagem para a Europa; queria viajar numa determinada data, mas como nesse dia o avião estava cheio, tive que marcar na semana seguinte.

Soube depois, por meio de uma amiga, que no dia que eu gostaria de ir tinha lugar, sim. Liguei, contei a novela toda, e eles me disseram que, efetivamente, havia vagado um lugar na data que eu queria. Só que deveria pagar a módica quantia de US$ 200 pela modificação.

É justo? Dá para entender? Não, não é justo nem dá para entender. Mas a Anac é para ver o lado de quem, das companhias ou do passageiro?

Quem projetou os aeroportos Santos Dumont, Tom Jobim, Congonhas e Cumbica nunca andou de avião. Anda-se quilômetros para embarcar, para desembarcar, e para poderem ganhar mais dinheiro e lucrar mais, os construtores dos aeroportos colocam os pisos sempre de mármore. Resultado: no Santos Dumont, com mármore no chão e vidro nas paredes, não se entende nada do que é anunciado pelos alto-falantes.

Com o dinheiro gasto no mármore, seria bem melhor botar esteiras rolantes, para não ter que andar quilômetros até chegar ao embarque (ou desembarque). Outra coisa é o "overbooking". As companhias vendem mais passagens para se prevenir dos passageiros que não aparecem e os aviões não voarem vazios.

Mas por que nunca ninguém pensou em punir esses passageiros, cobrando uma bela multa para quem não aparecer na hora do embarque? Elementar, Solange.

Pesquisando na internet, descobri que se pode conseguir um vôo de Lisboa a Londres por 28 euros. Nunca ouvi falar que isso existisse no Brasil, mas a Infraero agora está se vangloriando e se exibindo na televisão pelo fato de os aviões estarem saindo no horário e da ausência de filas. Ora, isso é obrigação, não motivo de comemoração.

Não entendo de problemas da Aeronáutica, mas morando no Rio, é claro que todas as vezes que tenho que tomar um avião, se puder ser do Santos Dumont, é sempre mil vezes melhor, pois economizo meu tempo, meu dinheiro e minha paciência.

E qual a razão do nosso tão simpático governador carioca ser contra o aumento de vôos saindo do Santos Dumont e obrigar os passageiros das novas companhias se deslocarem para o aeroporto internacional (R$ 30 de taxi, só a ida)? Boa pergunta.

Mas a resposta? Como sou sua fã, Solange, e acredito muito no bom senso e na honestidade das mulheres, torço e espero que você dê ordem a esse caos, sobretudo pensando no bem-estar dos passageiros comuns, como eu. Boa sorte e não nos decepcione.

danuza.leao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

O Maranhão é o Brasil

BRASÍLIA - Nada poderia espelhar melhor a desigualdade brasileira do que o Maranhão que emergiu de três páginas diferentes da Folha na última sexta-feira.

Na pág. A2, no texto "A crise na janela", delicioso como sempre, José Sarney não fica a ver navios e sim "um solitário barco envolto na bruma de sal".

É a crise a olho nu, mas Sarney trata de enaltecer São Luís como o segundo porto do Brasil, exportando 110 milhões de toneladas de minério de ferro e alumínio, além de soja, milho, babaçu.

O Maranhão também tem "a maior fábrica de alumínio do mundo, da Alcoa" e a "melhor infraestrutura do Nordeste", com estradas de ferro e "comboios imensos, milhares de operários, lavra, energia e estradas". Fantástico.

Mas esse é um Maranhão. Há outros. Você vira a página e, na A4, as notas "Fichados 1" e "Fichados 2", do Painel, informam que o Estado contribui para a nova "lista suja" de trabalho escravo com um juiz, Marcelo Baldochi, e o ex-prefeito de Santa Luzia Antonio Braide, pai de um ex-assessor do ministro maranhense Edison Lobão.

Virando mais uma página, chegamos à A6 e à reportagem sobre maranhenses que, no primeiro dia do ano, incendiaram a prefeitura, o fórum e o cartório da mesma Santa Luzia, a 300 km de São Luís e do segundo porto brasileiro. Motivo: quem ganhou a eleição para prefeito não levou. A Justiça não deixou.

Na véspera, com os salários atrasados e sem Natal, prestadores de serviço tinham invadido a casa do prefeito Zilmar Melo e a empresa de informática da família, em Tutoia (457 km da capital e do porto maravilhoso). Quebraram até os carros. O que restou, levaram.

E o Maranhão de um ex-presidente recente (1985-1990) e "da maior fábrica de alumínio do mundo" não é só lembrado por trabalho escravo e pela fúria de cidadãos, mas pelos piores desempenhos em português e em matemática. E no IDH, claro.
O Maranhão é o Brasil. Ou melhor, o Brasil é o Maranhão.

elianec@uol.com.br

sábado, 3 de janeiro de 2009



04 de janeiro de 2009
N° 15838 - MARTHA MEDEIROS


“Queridos Amigos”

Nesses dias de festa, me dediquei ao ócio caseiro, não coloquei o nariz pra fora. Em vez de badalações, preferi recompor as energias no sofá da minha sala, curtindo o melhor presente que recebi no Natal: o DVD da minissérie Queridos Amigos, que foi ao ar em 2008 e que eu não havia assistido.

Pra quem não lembra, a minissérie foi baseada no romance Aos Meus Amigos, da divina Maria Adelaide Amaral. A história gira em torno de um homem que descobre ter uma grave doença e que em função disso resolve reunir a turma de amigos da juventude, à qual ele chama de “família”. A partir desse encontro, cada um deles reavaliará sua própria vida.

Não sei se porque assisti agora, no final do ano, com a emoção à flor da pele, mas essa minissérie testou minha resistência cardiológica. Foi uma overdose de sentimentos intensos. Pra começar, sou uma pessoa que realmente considera os amigos uma outra espécie de família.

Nada comove tanto quanto abraçar uma pessoa que compartilhou com você os melhores e piores momentos da sua vida, que percebe seu estado de ânimo só de te olhar. Tenho apenas um irmão biológico, mas vários outros irmãos e irmãs que me conhecem melhor do que eu mesma e que fortalecem minha identidade – sem eles, eu não sou eu.

Não bastasse, a minissérie tem um elenco de soltar fogos de artifício. Dan Stulbach, Débora Bloch, Denise Fraga, Matheus Nachtergaele, Bruno Garcia, Maria Luisa Mendonça, Drica Moraes, Guilherme Weber, Malu Galli, Juca de Oliveira, Fernanda Montenegro (e outras feras de igual calibre), mostrando o quanto se pode emocionar através de uma interpretação sem pieguice. Mágicos, todos.

E eu nem falei da trilha sonora. Uma viagem no tempo. Impossível citar o playlist inteiro, cada música é mais significativa do que a outra, nada está ali à toa, nada é apenas “pano de fundo”, são personagens da história.

Mas o mais valioso é que o DVD me chegou às mãos através da minha mãe, e isso não é uma trivialidade. Ela assistiu à minissérie quando foi ao ar e sabia que estava diante de algo qualificado. Vivia me dizendo: Martha, não perde, tu vais adorar – mas eu perdi. Portanto, não é apenas o desenrolar da história que me deixou assim comovida.

É o fato de eu ter perto de mim uma pessoa que sabe o valor de se passar adiante uma emoção, que me conhece bem o suficiente para ter certeza de que vou ficar tocada, que me dá de presente não apenas uma caixa com quatro CDS, mas algumas horas de pura sensibilidade, nada de melodrama barato. Ofertou reflexão, abalo e divertimento de alto nível.

Já escrevi uma crônica sobre isso anos atrás: o melhor presente que podemos oferecer a alguém é um acréscimo de vida. Podemos fazer isso dando uma dica de livro, de disco, de um lugar para conhecer, de um programa de tevê que fuja da mesmice, e assim tornar a vida do outro mais rica através da abertura de idéias e de um êxtase novo.

Minha mãe me ensinou a importância da arte e do livre pensar, me transmitiu o gene da alegria e do prazer, e apesar de todas as incomodações inerentes ao papel dela (mãe é mãe), acabou se tornando uma das minhas melhores e queridas amigas.

N esses dias de festa, me dediquei ao ócio caseiro, não coloquei o nariz pra fora. Em vez de badalações, preferi recompor as energias no sofá da minha sala, curtindo o melhor presente que recebi no Natal: o DVD da minissérie Queridos Amigos, que foi ao ar em 2008 e que eu não havia assistido.

Pra quem não lembra, a minissérie foi baseada no romance Aos Meus Amigos, da divina Maria Adelaide Amaral. A história gira em torno de um homem que descobre ter uma grave doença e que em função disso resolve reunir a turma de amigos da juventude, à qual ele chama de “família”. A partir desse encontro, cada um deles reavaliará sua própria vida.

Não sei se porque assisti agora, no final do ano, com a emoção à flor da pele, mas essa minissérie testou minha resistência cardiológica. Foi uma overdose de sentimentos intensos. Pra começar, sou uma pessoa que realmente considera os amigos uma outra espécie de família.

Nada comove tanto quanto abraçar uma pessoa que compartilhou com você os melhores e piores momentos da sua vida, que percebe seu estado de ânimo só de te olhar. Tenho apenas um irmão biológico, mas vários outros irmãos e irmãs que me conhecem melhor do que eu mesma e que fortalecem minha identidade – sem eles, eu não sou eu.

Não bastasse, a minissérie tem um elenco de soltar fogos de artifício. Dan Stulbach, Débora Bloch, Denise Fraga, Matheus Nachtergaele, Bruno Garcia, Maria Luisa Mendonça, Drica Moraes, Guilherme Weber, Malu Galli, Juca de Oliveira, Fernanda Montenegro (e outras feras de igual calibre), mostrando o quanto se pode emocionar através de uma interpretação sem pieguice. Mágicos, todos.

E eu nem falei da trilha sonora. Uma viagem no tempo. Impossível citar o playlist inteiro, cada música é mais significativa do que a outra, nada está ali à toa, nada é apenas “pano de fundo”, são personagens da história.

Mas o mais valioso é que o DVD me chegou às mãos através da minha mãe, e isso não é uma trivialidade.

Ela assistiu à minissérie quando foi ao ar e sabia que estava diante de algo qualificado. Vivia me dizendo: Martha, não perde, tu vais adorar – mas eu perdi. Portanto, não é apenas o desenrolar da história que me deixou assim comovida.

É o fato de eu ter perto de mim uma pessoa que sabe o valor de se passar adiante uma emoção, que me conhece bem o suficiente para ter certeza de que vou ficar tocada, que me dá de presente não apenas uma caixa com quatro CDS, mas algumas horas de pura sensibilidade, nada de melodrama barato. Ofertou reflexão, abalo e divertimento de alto nível.

Já escrevi uma crônica sobre isso anos atrás: o melhor presente que podemos oferecer a alguém é um acréscimo de vida. Podemos fazer isso dando uma dica de livro, de disco, de um lugar para conhecer, de um programa de tevê que fuja da mesmice, e assim tornar a vida do outro mais rica através da abertura de idéias e de um êxtase novo.

Minha mãe me ensinou a importância da arte e do livre pensar, me transmitiu o gene da alegria e do prazer, e apesar de todas as incomodações inerentes ao papel dela (mãe é mãe), acabou se tornando uma das minhas melhores e queridas amigas.


04 de janeiro de 2009
N° 15838 - VERISSIMO


A tia que caiu no Sena


A sobrinha Alda foi intimada a descobrir tudo sobre aquela queda e contar em detalhes para o grupo

A conversa era sobre parentes, os parentes estranhos, interessantes ou por qualquer razão notáveis de cada um. Alguém já tinha contado que um parente comia favo de mel com abelha dentro.

Outro contara que um tio longínquo se perdera no mato e fora encontrado quase à morte depois de uma semana. Outro que um avô tinha conhecido a Marlene Dietrich em Berlim. Outro que uma tia-avó fora miss, ou um primo jogava futebol profissional e até não era ruim. Foi quando Alda, timidamente, sem saber se o que tinha para contar merecia ser contado, disse:

– Eu tenho uma tia que caiu no Sena.

– Ficaram todos esperando que ela continuasse, mas não havia mais nada para contar. – Como foi que sua tia caiu no Sena? – Não sei.

Mas como, não sabia?

– Não sei. Sempre ouvi contarem em casa que a tia Belinha tinha caído no Sena, mas nunca perguntei como.

– E a tia Belinha nunca contou? – Não. Ela foi morar em outra cidade. Nos vimos pouco. E eu nunca me lembrei de perguntar.

– Ela ainda vive? – Vive.

Aquilo não podia ficar assim. Uma pessoa não podia cair no Sena e fim de história. Era preciso investigar. Caíra no Sena como? Por quê? Fora um acidente? Caíra de um barco? Caíra de uma ponte?

Alda foi intimada a descobrir tudo o que pudesse sobre a queda da tia Belinha no Sena e contar para o grupo.

A mãe não ajudou. – Foi quando ela esteve em Paris... – É óbvio, mamãe. Mas quando foi isso? Ela estava sozinha? Foi com alguém?

– Não me lembro. – Ela não contou como caiu no rio?

– Contou. Deve ter contado. Senão como é que a gente ia saber que ela tinha caído? Contou. Mas eu não me lembro. Faz tanto tempo.

– Vou falar com ela.

A tia Belinha nunca se casara. Estava internada numa clínica. Sempre fora pequena e magra e com a velhice ficara ainda menor e mais magra. Mas os olhos continuavam vivos. Fez uma festa quando viu a sobrinha.

– Aldinha! – Como vai, titia? – Eu não vou mais, minha filha. Eu agora só fico.

– Mas a senhora já andou bastante, hein titia? Lembra quando foi a Paris?

– Ah, Paris, Paris. Nunca mais voltei. Fiquei só com as lembranças daquela vez. As lembranças me fazem companhia e me consolam.

– Como foi que a senhora conseguiu cair no rio, titia?

– Que rio? – O Sena. – Eu caí no Sena?! – A senhora mesmo contou.

– Meu Deus, é mesmo. Eu caí no rio. Eu caí no Sena! Como foi aquilo, meu Deus? Eu não consigo...

E seus olhos de repente perderam o brilho. Quando falou outra vez, foi para se queixar da sua memória. Nem aquele consolo lhe restava. Nem as lembranças tinha mais. Como fora que ela caíra no Sena?

Alda contou para o grupo que a tia Belinha tinha ido sozinha a Paris e lá conhecera um conde francês, ligeiramente arruinado e ligeiramente maluco, com quem tivera um tórrido caso de verão. Numa noite quente, dançando numa margem do Sena, depois de muitos copos de champanhe, os dois tinham tropeçado e...


04 de janeiro de 2009
N° 15838 - MOACYR SCLIAR


A Terra do Nunca, A Terra do Sempre

Uma frase inevitável nesta época é: “Parece que foi ontem que o ano começou e ele já está terminando”. Tradução: o tempo passa.

Quando a gente vê, a semana terminou, o mês terminou, o ano terminou. E, claro, a vida termina, mesmo para os imortais membros da ABL, que, como dizia Rachel de Queiroz, podem ser imortais mas não são imorríveis. É bom a gente lembrar a transitoriedade da vida.

Porque a passagem do tempo é coisa que não aceitamos, que negamos fervorosamente, e aí está o botox para comprová-lo. Essa negação tem um preço, inclusive em termos emocionais. Se a gente soubesse avaliar melhor o tempo, usar melhor o tempo, se a gente pudesse aprender com o tempo, a nossa vida seria muito melhor.

Existem duas palavras que disso dão testemunho: nunca e sempre. As duas palavras negam que o tempo passe, que o tempo mude as coisas. Correspondem a uma fantasia infantil e não é de admirar que o escritor J.M. Barrie, o criador de Peter Pan, tenha dado o nome de Terra do Nunca àquela mítica região onde as crianças jamais envelheceriam.

Também não é de admirar que o estranho Michael Jackson tenha dado esse nome ao rancho que possuía em Santa Barbara, na Califórnia, e que teria sido cenário de cenas de pedofilia – até o cantor perder a propriedade por causa de uma milionária dívida hipotecária.

De alguma maneira vivemos na Terra do Nunca. E também na Terra do Sempre. Usamos constantemente essas duas palavras. Que são, podem estar certos disso, um desastre para qualquer relacionamento. É a mulher que diz ao marido: “Tu nunca me levas para jantar fora”, é o marido que acusa a mulher: “Tu nunca perguntas como é que estão as coisas no escritório”.

É o namorado que diz à namorada: “Tu estás sempre me criticando”, é a namorada que responde: “Tu estás sempre pensando em sexo”. Essas acusações tendem a se perpetuar, porque um “nunca” puxa outro “nunca”, um “sempre” evoca outro “sempre”. Um conflito eterno, muito mais eterno que o próprio amor, que, recomenda Vinicius de Moraes, deve ser eterno apenas enquanto dure.

Claro, não são poucas as pessoas que perceberam as armadilhas contidas nessas palavras. Há uma expressão em inglês que deveria servir de antídoto ao menos para o “nunca”: “Never say never”. É título de uma canção, título de um filme do 007, e deu origem a um neologismo, cunhado pelo jornalista americano William Safire, o “never-say-neverism”, que é uma regra para escrever melhor. Exemplo: “Nunca use pontos de exclamação!” (este que termina a frase é, claro, irônico).

As palavras nos unem, as palavras nos separam. As palavras criam beleza ou geram desgraça. E deste último caso “nunca” e “sempre” são exemplos eloquentes. Querem uma boa resolução de Ano Novo? Aí vai: nunca usar o nunca, sempre evitar o sempre.

ma frase inevitável nesta época é: “Parece que foi ontem que o ano começou e ele já está terminando”. Tradução: o tempo passa. Quando a gente vê, a semana terminou, o mês terminou, o ano terminou. E, claro, a vida termina, mesmo para os imortais membros da ABL, que, como dizia Rachel de Queiroz, podem ser imortais mas não são imorríveis. É bom a gente lembrar a transitoriedade da vida.

Porque a passagem do tempo é coisa que não aceitamos, que negamos fervorosamente, e aí está o botox para comprová-lo. Essa negação tem um preço, inclusive em termos emocionais. Se a gente soubesse avaliar melhor o tempo, usar melhor o tempo, se a gente pudesse aprender com o tempo, a nossa vida seria muito melhor.

Existem duas palavras que disso dão testemunho: nunca e sempre. As duas palavras negam que o tempo passe, que o tempo mude as coisas. Correspondem a uma fantasia infantil e não é de admirar que o escritor J.M. Barrie, o criador de Peter Pan, tenha dado o nome de Terra do Nunca àquela mítica região onde as crianças jamais envelheceriam.

Também não é de admirar que o estranho Michael Jackson tenha dado esse nome ao rancho que possuía em Santa Barbara, na Califórnia, e que teria sido cenário de cenas de pedofilia – até o cantor perder a propriedade por causa de uma milionária dívida hipotecária.

De alguma maneira vivemos na Terra do Nunca. E também na Terra do Sempre. Usamos constantemente essas duas palavras. Que são, podem estar certos disso, um desastre para qualquer relacionamento. É a mulher que diz ao marido: “Tu nunca me levas para jantar fora”, é o marido que acusa a mulher: “Tu nunca perguntas como é que estão as coisas no escritório”.

É o namorado que diz à namorada: “Tu estás sempre me criticando”, é a namorada que responde: “Tu estás sempre pensando em sexo”. Essas acusações tendem a se perpetuar, porque um “nunca” puxa outro “nunca”, um “sempre” evoca outro “sempre”. Um conflito eterno, muito mais eterno que o próprio amor, que, recomenda Vinicius de Moraes, deve ser eterno apenas enquanto dure.

Claro, não são poucas as pessoas que perceberam as armadilhas contidas nessas palavras. Há uma expressão em inglês que deveria servir de antídoto ao menos para o “nunca”: “Never say never”.

É título de uma canção, título de um filme do 007, e deu origem a um neologismo, cunhado pelo jornalista americano William Safire, o “never-say-neverism”, que é uma regra para escrever melhor. Exemplo: “Nunca use pontos de exclamação!” (este que termina a frase é, claro, irônico).

As palavras nos unem, as palavras nos separam. As palavras criam beleza ou geram desgraça. E deste último caso “nunca” e “sempre” são exemplos eloquentes. Querem uma boa resolução de Ano Novo? Aí vai: nunca usar o nunca, sempre evitar o sempre.


04 de janeiro de 2009
N° 15838 - PAULO SANT’ANA | NÍLSON SOUZA (interino)


Doutor Telmo

Ele sempre foi uma figura mítica nas conversas dos adultos lá de casa. Vivíamos na era da imaginação, não havia tevê na sala para hipnotizar e isolar as pessoas. À noite, depois da janta, os homens se reuniam para contar histórias enquanto esperavam o sono.

E nós, crianças, ficávamos em volta, escutando tudo, especialmente os relatos sobre assombrações que nos enchiam de curiosidade e terror. Quantas vezes ouvi a história do sujeito que conheceu uma bela mulher num baile e, quando foi levá-la em casa, acabou na porta do cemitério.

Mas os homens e mulheres da casa falavam também sobre os vivos e sobre as enfermidades que os ameaçavam. E quando falavam em doença, meu pai invariavelmente pronunciava um nome que era ouvido com respeitoso silêncio por todos os presentes:

– Doutor Telmo!

Nunca o vi, mas sabia de sua existência. Pelos relatos familiares, fiquei sabendo que uma vez meu pai caiu de cama durante vários dias, com febre, vômitos e outros achaques que nenhum médico conseguia curar.

Então apareceu na sua vida o doutor Telmo Kruse, que tinha consultório na zona norte da cidade. Administrou as poções certas e o fez erguer-se novamente para o trabalho. Meu pai era um trabalhador braçal.

Distribuía leite para o antigo Deal, como era chamado o Departamento Estadual de Abastecimento de Leite. Era um trabalho duro. Na madrugada, ele carregava a sua velha camionete Ford-38 com pesados engradados de ferro lotados de garrafas de leite, que distribuía de porta em porta. Um de seus fregueses era o Doutor Telmo.

Quando meu irmão foi acometido de apendicite aguda e precisou ser operado às pressas, meu pai desesperou-se porque não tinha dinheiro para pagar a cirurgia. Foi então que o Doutor Telmo conquistou sua admiração eterna, com a seguinte proposta:

– Eu opero e você me paga com leite.

Assim foi feito. Depois de contar e recontar esta história trocentas vezes, meu pai nos deixou há dois anos. Mas meu irmão está aí, com uma pequena cicatriz na barriga, para confirmar o inédito acordo.

Pois, na última quinta-feira, resolvi mostrar a meus colegas de trabalho alguns registros deixados por meu pai e, por uma dessas inexplicáveis casualidades, ressuscitei este episódio que agora relato.

No dia seguinte, fui surpreendido com uma notícia de duas colunas na página 39 deste jornal. Começava assim: “A cena médica do Estado perdeu ontem um dos seus ativos integrantes.

Telmo Kruse, um dos fundadores do Hospital Cristo Redentor, morreu aos 87 anos”. Só então vi numa pequena foto o rosto daquele personagem que tantas vezes frequentou a minha casa nos comentários de seus devotados pacientes. Fiquei arrepiado, como no tempo em que escutava aqueles relatos sobrenaturais.

A notícia sobre sua morte dava conta da importância que teve como profissional e como fundador de um dos maiores hospitais da América Latina, o Grupo Hospitalar Conceição. Também relatava sua militância em entidades de classe, sua participação no Rotary Club e o reconhecimento que teve da cidade ao receber o título de cidadão emérito de Porto Alegre.

Mas não contava – porque talvez nem ele tenha contado para alguém – que numa época pretérita, antes da televisão entrar na casa das pessoas pobres, havia um médico capaz de operar o filho de um operário, aceitando como pagamento um litro de leite por dia.

Para a minha família, este profissional que nem cheguei a conhecer não era apenas um médico competente e respeitado. Era um ídolo.

Por isso, uso a imaginação que aqueles serões familiares atiçaram na infância para vislumbrar sua chegada a outra dimensão, onde meu pai já se encontra há algum tempo.

Aposto que na primeira hora de todas as manhãs eternas, quando ele abrir a porta de sua nova morada, ou do consultório que certamente já mandou instalar lá no alto para curar anjos desastrados, encontrará um imaculado litro de leite.

Artigo Demétrio Magnoli

Começa o outono de Lula

"No fim de seu segundo mandato, seremos ‘brancos’ ou ‘negros’ antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração"

Sergio Moraes/Reuters

SALVACIONISMO Lula em discurso: ele não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento

Lula chegou ao Palácio do Planalto como a personificação de esperanças exageradas, quase ilimitadas: "Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da República: para mudar". Na hora em que começa o outono de seu segundo mandato, contudo, é tempo de investigar a sua herança: desses oito anos, o que ficará incrustado no edifício político brasileiro?

"Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta." Antes de tudo, provou-se que diplomas acadêmicos não são adereços indispensáveis para governar. Os acertos e os erros de Lula decorrem de suas opções políticas, não das supostas virtudes ou das óbvias carências associadas a um nível baixo de instrução formal.

O presidente não precisou de uma universidade para preencher a diretoria do Banco Central com um time de economistas que ostenta medalhas acadêmicas incontáveis – e concepções opostas às doutrinas econômicas petistas.

Bastou-lhe o faro político privilegiado do conservador que, no fundo, nunca deixou de ser. Inversamente, o elogio da ignorância, um traço ubíquo dos pronunciamentos presidenciais, não reflete uma suposta convicção de que a escola é desnecessária, mas o egocentrismo exacerbado de um líder salvacionista.

"Nunca antes neste país." O salvacionismo abomina a história, apresentando-se como o início de tudo: a virtude que exclui o vício e escreve uma nova história num mármore intocado. A democracia enxerga a si mesma como um processo de mudanças incrementais. O líder salvacionista não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento. Lula é uma versão pragmática, cuidadosa e mesquinha de salvacionismo. De dia, ele denuncia "a elite que nos governa há 500 anos". À noite, cerca-se de grandes empresários, a quem atende e de quem espera retribuição. O sucesso do estilo político salvacionista deriva das fraquezas de nossa democracia – e as perpetua.

"Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados." Lula não inventou o paralelo entre a nação e a família, que faz parte da longa linhagem do pensamento conservador de raiz autoritária.

Mas, com a expansão do Bolsa Família, ele encontrou uma fórmula de modernização do assistencialismo tradicional. A distribuição direta de dinheiro, no lugar das proverbiais dentaduras, não é a fonte do aumento do consumo dos pobres, que reflete o crescimento da economia em geral e do salário mínimo em particular. Pouco importa: em virtude de sua eficácia eleitoral, o Bolsa Família será adotado pelos próximos governantes, sejam quem forem. Eis um legado duradouro da "mãe do povo".

"Não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar." O lulismo aprofundou a subserviência do Parlamento ao Executivo, que se manifesta sob a forma de um intercâmbio: o Congresso se anula politicamente enquanto os congressistas da base do governo chantageiam o presidente para conseguir cargos e favores.

A troca descamba sem dificuldades para a corrupção aberta. O "mensalão" foi isto: um projeto de estabilização da base governista pela compra direta dos parlamentares. Ele acabou exposto, mas apenas em virtude de uma fortuita ruptura interna à ordem da corrupção. Lula não caiu, apesar de tudo, e a oposição nem sequer apresentou um processo de impeachment. A elite política aprendeu do episódio que um presidente popular não será punido nem mesmo se distribuir dinheiro a parlamentares.

"Se tem uma coisa que está dando certo no governo é a política econômica. O PT não pode se esconder, procurando motivos para as derrotas, com críticas a ela."

O PT morreu como partido da mudança antes da vitória eleitoral de Lula, com a Carta ao Povo Brasileiro, que o converteu em partido da ordem. Nos partidos social-democratas europeus, transições similares verificaram-se antes e de modo diferente.

Eles renunciaram publicamente a seus velhos programas revolucionários, adotando programas fundados nos cânones da democracia e da economia de mercado. O PT, não: embora, na prática, sustente a ortodoxia econômica do governo Lula, suas resoluções clamam pela ruptura socialista, denunciam a liberdade de imprensa e fazem o elogio da ditadura de partido único cubana.

A cisão entre o gesto e a palavra não apenas corrompe politicamente o partido como também alimenta um tipo mais virulento de corrupção.

Dida Sampaio/AE

MÁQUINA CLANDESTINA O operador do mensalão Delúbio Soares: o PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido

"Se eu falhar, será o fracasso da classe trabalhadora." Uma máquina clandestina petista, instalada dentro do Planalto, conduziu as operações do "mensalão". Militantes partidários em altos cargos públicos realizaram a quebra de sigilo do caseiro Francenildo, um crime de estado que passará impune.

Se acreditamos que temos a chave do futuro e uma missão histórica redentora, não hesitamos em usar de qualquer expediente para realizar as finalidades partidárias.

O PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido. No fundo, interpreta a democracia como instrumento transitório para a sua perpetuação no poder. Depois de Lula, o maior partido brasileiro continuará a figurar como elemento de distúrbio no sistema político.

"Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades no mundo são tão limpas." Os estereótipos raciais clássicos, afundados na lagoa do senso comum, são um componente óbvio da rasa visão de mundo de Lula.

Entretanto, o programa de racialização da sociedade brasileira conduzido por seu governo decorre de um frio cálculo político. O presidente quer conservar na sua ampla coalizão as ONGs racialistas, financiadas pela poderosa Fundação Ford.

Em nome dessa meta, patrocina uma enxurrada de leis raciais com repercussões na educação, no mercado de trabalho e no funcionalismo público.

No fim de seu segundo mandato, todos os direitos dos cidadãos estarão mediados e condicionados por rótulos oficiais de raça. Seremos "brancos" ou "negros" antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração.

Stephen Kanitz

Um castelo de cartas que desaba?

"Para o futuro, devemos indagar por que as empresas não possuem as reservas que deveriam ter para aguentar as crises"

Ilustração Atómica Studio

Duas alegorias estão sendo associadas à crise de 2008. A primeira, a de que se trata de um castelo de cartas que desabou, como o Muro de Berlim – só que agora é o muro de Wall Street –, o que significaria uma nova ordem mundial a ser construída, com Barack Obama no comando.

Por isso tão poucos artigos foram escritos numa tentativa de impedir essa crise. Muito pelo contrário, a maioria dos intelectuais americanos noticiava, com certo prazer, cada detalhe desse desmoronamento. Quanto pior e mais rápido, melhor. O problema é que o castelo de cartas era americano, e não brasileiro, e quem vai pagar pelo pânico aqui gerado é nosso trabalhador, como sempre.

Uma pesquisa do Datafolha revela que 29% dos trabalhadores brasileiros acham que perderão o emprego em 2009, o que mostra a extensão do medo disseminado. Nem em 1929 o desemprego chegou a tanto. Pesquisa do Ibope indica que 50% dos brasileiros vão reduzir gastos.

Se não revertermos esse pânico, aí, sim, teremos uma recessão em 2009. Portanto, demos vários tiros no pé, podería-mos ter passado relativamente imunes, mas não agora com esse pessimismo todo. Acreditar que reduzir juros resolve, como muitos estão sugerindo, é até infantil. Quem teme perder o emprego não compra a prazo nem com juro zero. Nem com redução de IPI.

A outra alegoria, a que eu prefiro, é a da cadeia de dominós que tombam um a um. É o setor imobiliário, que derruba o setor financeiro, que derruba o setor automobilístico, que derruba o de autopeças, e assim por diante. Não é um castelo de cartas que desaba, mas, sim, uma única peça que cai por alguma razão e arrasta as demais.

Perguntas que aqueles que se dizem especialistas no assunto deveriam fazer, mas, infelizmente, não fazem, são: por que o segundo dominó não conseguiu aguentar o tranco do primeiro? Por que, quando um cliente seu não paga, você tem de atrasar seu fornecedor ou despedir seus funcionários?

Quando uma empresa despede 2% dos funcionários, como fez a Vale do Rio Doce, o que ela está dizendo é o seguinte: "Vocês, trabalhadores, que sobrevivam usando as suas reservas financeiras pessoais. Não vamos ajudá-los usando as nossas reservas empresariais. Boa sorte e adeus!".

A solução para o futuro é fazer indagações como estas: por que as companhias não possuem as reservas que deveriam ter para aguentar o tranco do parceiro na frente, se ele tropeçar? Por que as empresas não constituem reservas nos tempos bons para usar nos tempos difíceis? Não é por ganância, mas por arrogância intelectual.

Muitas companhias passaram a contratar especialistas em prever o cenário econômico, aqueles que previram que o dólar fecharia o ano a 1,67 real, lembram-se?

Derrubaram a Sadia, a VCP e a Aracruz. "O futuro é previsível, senhores, o câmbio não passa de 1,80 real, portanto as reservas da sua empresa podem ser reduzidas." Ledo engano, como já alertei inúmeras vezes aqui. O futuro não é previsível, minha gente, e foi essa arrogância intelectual que fez o sistema todo ruir.

O Brasil em outros tempos já estaria pedindo socorro ou reservas financeiras ao FMI. O que ocorreu de diferente desta vez? O país tinha reservas de 200 bilhões de dólares, acumuladas sob críticas constantes de que eram desnecessárias.

Existem inúmeras outras razões por que empresas não constituem reservas, desde a pressão de analistas, a tributação de reservas, o que é um absurdo, e otimismo demasiado com relação ao futuro. No Brasil, taxamos reservas na pessoa jurídica em 32% e na pessoa física em 20%, o que leva à distribuição imediata aos sócios. Outro absurdo.

Para que companhias se mantenham sólidas no futuro, temos de lidar com essas questões, e não com a redução de juros, mais gastos do governo, mais supervisão mundial.

Portanto, preparem-se, porque em 2009 vamos ler um monte de bobagens, com prêmios Nobel sugerindo uma nova ordem mundial, e ninguém vai se lembrar do óbvio de que países, empresas e famílias precisam de reservas financeiras adequadas, para aguentar as tempestades futuras e não demitir pessoal.

Stephen Kanitz é administrador www.kanitz.com.br

Martha Mendonça Colaboraram Francine Lima e Juliana Costa

Eles se depilam, elas adoram

As mulheres são as grandes incentivadoras da nova onda de vaidade masculina

CÚMPLICES

Oliveira, de 43 anos, e a mulher, Henriette. Ele usa cremes para o corpo e tira a barba com laser.

“Ela adora que eu tenha uma pele boa e um corpo bonito”O professor de educação física paulistano Eduardo Vilhena, de 24 anos, costuma demorar mais para se arrumar que a namorada. Só sai com cabelo arrumado, creme hidratante e figurino impecável. Há dois anos, passou a depilar o peito.

A namorada, Tathiane Costa, de 29, gerente de uma academia em São Paulo, ri com a vaidade do parceiro. “Quem não gosta de um homem com tudo em cima? Chega de preconceito”, afirma. A jornalista carioca Henriette Soares, de 39 anos, concorda. Seu marido, o empresário Eduardo Oliveira, de 43, é consumidor de cremes para o corpo todo e, para manter a pele lisa, faz ainda, duas vezes por mês, um tratamento a laser na área da barba.

“De dois anos para cá, intensifiquei meus cuidados. O resultado é ótimo, e não ligo para o preconceito de alguns amigos”, diz Oliveira. Não deixa de combinar as roupas com sapatos e relógio e faz tratamento para amaciar os cabelos grisalhos. Pai de três filhos, ele diz que a mulher é sua grande incentivadora.

“Ela acha que o homem inteligente tem de se cuidar. E adora que eu tenha uma pele boa e um corpo bonito”, afirma. “Afinal, é ela quem desfruta.” Foi Henriette quem levou o marido para a clínica de estética, onde ele faz também um trabalho de modulação do abdome com equipamento especial. “Hoje, alguns amigos o olham de lado quando ele diz que passa creme até nos cotovelos”, afirma ela. “Mas ele é o homem do futuro.”

Tathiane e Henriette são mulheres que deixaram de lado o preconceito e acreditam que o homem vaidoso é uma das melhores novidades do mundo contemporâneo. Elas são uma das forças que fazem os homens radicalizar os cuidados com o próprio corpo. Por trás de um homem que tira as sobrancelhas ou depila as pernas, há um par atento de olhos – ou mãos – femininos.

Tratamentos que há pouco tempo faziam parte apenas do universo gay começam a virar condição para o interesse feminino. No site de relacionamento Orkut, há centenas de comunidades sobre homens vaidosos. Na maior delas, Sou Homem & Sou Vaidoso, com 3.200 membros, o fórum é recheado de relatos sobre a preferência das mulheres.

“Depilar é a coisa mais normal do mundo. E a mulherada adora”, afirma o internauta Dudu. Depilação, aliás, é um assunto em pauta. Os homens discutem, de forma corriqueira e informada, os diferentes tipos de creme e os lugares do corpo mais adequados para ter os pelos retirados. A maioria depila o peito; outros, também barriga e costas. Há ainda quem tire os cabelos das pernas, axilas e partes íntimas. “Fica bem melhor para a minha namorada, se é que vocês me entendem”, diz o participante Alex22.

Na comunidade de mulheres Adoro Homem Vaidoso, que tem 372 pessoas registradas, mulheres elogiam o contato com peles masculinas macias. “Eu mesma compro o creme e passo nele todos os dias antes de dormir. Agora, quero que ele vá comigo à manicure”, diz a internauta LolitaES.

O desejo de perfeição estética que agora assola o mundo masculino nada mais é que o prolongamento daquilo que já existe no universo feminino. Vivemos um tempo de compulsões – comida, drogas, sexo –, e entre elas está o culto ao corpo.

“Trata-se do mesmo fenômeno que já atinge as mulheres”, afirma a psicanalista Joana de Vilhena, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio, autora do livro O intolerável peso da feiura. “Existe ainda uma intolerância maior à feiura feminina, mas com o tempo isso tende a se igualar.”

A estudante de design carioca Camilla Ghermandi, de 19 anos, garante que a nova geração de mulheres não tolera mais homem desleixado. E diz que as mulheres mais jovens dispensam solenemente os pelos no corpo masculino. “Onde é que está escrito que eles precisam ter o cabelo seco, a pele grossa e o corpo cabeludo?”, diz.

Já está na sua lista de metas de 2009 depilar o peito do novo namorado, Bruno, também estudante. “No calor do Brasil, é mais higiênico homem sem pelos”, afirma.

De outra geração, a ex-jogadora de vôlei Virna Dias, de 34 anos, também questiona a máxima de que o homem de verdade é o homem rústico. Desde que começou a namorar o empresário paulista Rodrigo Piovesan, já o convenceu a usar creme noturno, a tirar o excesso de sobrancelha e a fazer as unhas semanalmente, sem falar no tratamento para amaciar os pés. “Não tem nada pior que aquele pé áspero”, afirma. “Burro é o homem que diz que isso é coisa de gay.”

O incentivo feminino deve incrementar ainda mais o mercado da vaidade masculina, que já era crescente nos últimos anos. Nas clínicas de estética, o movimento dos homens cresceu 50% em 2007 e repetiu o resultado ao longo do ano passado.

Eles já representam 20% dos pacientes de cirurgias plásticas, com ênfase na blefaroplastia (quando se retiram excessos de pele e bolsas de gordura das pálpebras), e a rinoplastia, que diminui ou afina o nariz.

“Também aumentou muito a procura pelo lifting facial e a lipoaspiração no abdome e no pescoço, para acabar com a papada”, diz o cirurgião plástico carioca Tomaz Nassif.

Tratamentos que só faziam parte do universo gay começam a virar condição para atrair as mulheres


03 de janeiro de 2009
N° 15837 - NILSON SOUZA


A penúltima meta

No início do ano passado, fiz uma lista de propósitos com 10 itens e realizei o nono nos últimos dias de dezembro. Minha penúltima meta era completar uma corrida de seis quilômetros, ida e volta no percurso onde caminho diariamente. Nada de excepcional. Meu sósia, com quem cruzo de vez em quando, corre 42 quilômetros por dia, o que reduz o meu feito à sua insignificância.

Mas a verdade é que fiquei muito feliz por ter alcançado meu objetivo no prazo que eu mesmo havia estipulado. E também por ter encerrado o ano com uma média alta de propósitos atingidos, apenas com uma pendência, que pretendo liquidar logo.

Tudo é relativo, sei disso. É bem provável que eu tenha sido pouco exigente comigo mesmo. Reconheço que não sou muito ambicioso. Minhas metas certamente eram todas factíveis. Não planejei fazer uma viagem ao redor da Terra, não me propus a ganhar meu primeiro milhão de dólares, nem desejei beijar a mulher mais linda do mundo – como fez Jack Nicholson no comovente Antes de Partir.

Apenas segui um conselho retirado de leituras pretéritas: entre as grandes coisas que não podemos fazer e as pequenas que não queremos, o perigo está em não fazermos nenhuma.

Então, tratei de anotar o que estava ao meu alcance. Para muita gente, pode parecer bobagem fazer anotações. Porém, como sou metódico e tenho uma memória predominantemente visual, sinto necessidade do registro. Sempre fiz assim, até para estudar. Quando escrevo o que li, dificilmente esqueço.

E quando faço uma lista de tarefas sinto-me compelido a executá-las, pois o papel funciona como uma nota promissória que leva a minha assinatura. Fico na obrigação de honrá-la.

Gosto de anotar, inclusive, minhas atribuições diárias, só para ter o prazer de riscá-las na medida em que as vou cumprindo. Pode ser só uma mania inútil, mas é a sugestão que deixo para os leitores e leitoras deste espaço. Registrem suas metas no cartório particular da consciência, mas não esqueçam de lavrar a ata.

E quem ainda não fez a sua lista, deve se apressar, pois a areia do Ano-Novo já começou a descer inexoravelmente para a parte debaixo da ampulheta.


03 de janeiro de 2009
N° 15837 - PAULO SANT’ANA | CLÁUDIO BRITO (interino)


Nossas cidades

As posses de quase 6 mil prefeitos e perto de 52 mil vereadores não podem ser vistas apenas como formalidade de pequena significação. Nascemos, vivemos, morreremos e seremos sepultados ou nossas cinzas guardadas em nossos municípios. A vida acontece em nossas cidades.

O Estado e a União são entes jurídicos que não tocamos nem sentimos. Os rios, as montanhas, as ruas e nossas casas estão nas cidades. O município é a célula fundamental de toda a federação, que é uma abstração. Onde está a União? Suas estradas e edifícios públicos são traçadas ou se encravam no território de algum município.

Compramos, vendemos, lucramos ou perdemos nas cidades em que moramos ou nas de quem negocia, vende ou compra de nós. A vida de relação desenvolve-se nas cidades e por conta disso pagam-se impostos. E começa aí a injustiça. O leão é federal, mas alimenta-se do que as cidades geram de situações tributáveis.

O retorno às cidades é menor que o devido, se confrontarmos o que se exige do município em prestação de serviços e o que lhe rende o imposto recolhido. Bem por isso a maioria das cidades não cumpre ainda a municipalização de algumas atividades que a Constituição determina.

É o caso dos órgãos de defesa dos direitos dos consumidores. No Rio Grande do Sul, não chegam a 80 os municípios que já organizaram seus Procons e mesmo Porto Alegre fez isso há pouco tempo. Parecido com o que acontece em áreas mais sensíveis, como a saúde e a educação.

Cobra-se dos prefeitos a correção desse quadro. Defendem-se com argumentos aceitáveis, pois é inegável que são cometidos vários deveres aos municípios, sem o aporte de recursos necessários e suficientes. Tudo por conta de um modelo institucional que valoriza a ideia da municipalização, sem esquecer que a União é faminta e quer cada vez mais impostos.

Assim não dá. O desequilíbrio precisa ser corrigido um dia. Repetem-se as marchas de prefeitos e vereadores sobre Brasília a cada ano, mas ainda não se vê com otimismo o que possam fazer deputados federais e senadores. Melhor dizer que não se vê o que eles queiram realizar, pois, poder eles podem.

Confesso-me um municipalista. Gostaria de experimentar outro desenho institucional, em que se consolidasse o preceito constitucional de valorização do município como ente público de maior relevância.

Serviços essenciais municipalizados, presídios e órgãos de segurança dimensionados ao menos regionalmente, escolas, creches e hospitais logo ali na esquina, com todos os recursos e condições. Viveríamos em melhores condições, tenho certeza.

Mais que nossos mandatários, prefeitos e vereadores são nossos vizinhos. Cuidaríamos das cidades como nossos grandes condomínios, fosse outro o pacto federativo. E teríamos gosto em pagar nossos tributos, pois mais de perto perceberíamos o retorno que se pretende ao pagar algum serviço.

Faço minhas as palavras de Cezar Schirmer, que, no dia da posse, admitiu ser hoje um municipalista convicto para quem “é melhor termos 6 mil grandes prefeitos que um grande presidente”.

Tem razão o novo prefeito de Santa Maria. Há muito está superada a fórmula de governança aos cuidados de um “pai de todos”, por mais competente, bem-intencionado e carismático que seja.

Se a Carta de 88 traçou os parâmetros de uma democracia participativa, melhor que se busque entregar aos municípios a grave missão de fazer o bem comum. Políticas públicas realistas, adequadas, bem dimensionadas, caso a caso, cidade por cidade.

Do conjunto da obra é que faríamos um grande Brasil. Por tudo isso é que assisti às cerimônias de posse dia 1º com muita atenção e dedicada postura de quase solenidade.

Os prefeitos e vereadores merecem mais atenção e consideração e, é claro, devem-nos a contrapartida do mesmo tamanho. E, para nós e para eles, resta um dever: o de lutar pela reestruturação de nossa federação, com a criação de mecanismos que contemplem a municipalização como forma de administração pública mais importante.

Afinal, se tantas vezes foram alterados os rumos brasileiros, por que não se experimentar o que, a rigor, está no coração da Constituição Federal, faltando apenas que sua vontade seja cumprida?


03 de janeiro de 2009
N° 15837 - A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR


Repelir o mosquito (não o bom senso

Verão é época de viagens e época de dengue. Isto significa que, nos próximos meses, muitas pessoas estarão em áreas onde a picada pelo mosquito transmissor do vírus, o Aedes aegypti, é um risco real. E a questão é: como se proteger desse risco?

Para isto, é preciso, em primeiro lugar, considerar os hábitos do Aedes. Diferente do mosquito que transmite a malária, é um inseto diurno, que pode ser encontrado nas habitações. Daí as providências que se devem adotar: uso de mosquiteiros impregnados ou não com inseticidas, roupas que protejam pernas e braços, telas em portas e janelas, uso de repelentes.

Repelente: eis um tema que merece consideração especial. Existem algumas substâncias vegetais consideradas repelentes naturais, mas, por causa da dificuldade de encontrá-las, as pessoas acabam usando os produtos comprados em farmácia.

A maioria destes tem em sua fórmula o DEET (atenção: não é DDT), abreviatura de dietil-meta-toluamida e também do dietil-metilbenzamida. Não é coisa nova: a substância foi desenvolvida pelo exército americano (que não produz só invasões) em 1946 e liberada para uso geral em 1957.

Nos Estados Unidos são mais de 230 formulações registradas na Agência de Proteção Ambiental. O uso do DEET é recomendado pelo respeitável Centro de Controle de Doenças (CDC) norte-americano. Pergunta: é seguro?

Há um risco claro: a ingestão da substância. Pode causar baixa da pressão arterial e convulsões. É claro que a ingestão é acidental, mas daí já resulta uma regra: deve-se manter o produto longe das crianças.

Os pais devem aplicar nos filhos pequenos, cuidando para não colocar o produto nas palmas das mãos deles. Crianças têm se mostrado mais sensíveis aos efeitos neurotóxicos do DEET que os adultos e têm maior risco de convulsões, embora o número de casos até hoje registrado seja relativamente pequeno.

De qualquer forma, emerge daí uma determinação do Ministério da Saúde: não se deve aplicar repelentes com DEET em crianças menores de dois anos. Em crianças de dois a 12 anos as aplicações não devem exceder três ao dia, dando-se preferência a produtos que tenham menor concentração de DEET (menos de 10%).

Estudos mostraram que formulações com baixas concentrações de DEET são tão efetivas quanto aquelas com concentrações maiores. Deve-se aplicar nas áreas expostas (dorso das mãos, pescoço, rosto, nuca), mas não em lugares com lesão de pele. Evitar o contato com os olhos, boca e narinas; e, depois do uso, lavar as mãos com água e sabão.

Mas tudo isto é proteção individual. Para acabar com o mosquito, é preciso um esforço coletivo, no sentido de evitar a formação de focos. É uma boa medida de defesa da saúde. E tem um benefício: nos torna mais conscientes do risco representado por um meio ambiente negligenciado.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009



Q U A S E

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

(Autoria atribuída a Luís Fernando Veríssimo, mas que ele mesmo diz ser de Sarah Westphal Batista da Silva, em sua coluna do dia 31 de março de 2005 do jornal O Globo)


NOVOS TEMPOS

Tem gente dando festa para comemorar separação. Até aí, tudo bem. Afinal, acabar com certos casamentos pode ser uma libertação. Mas o interessante, nestes novos tempos dominados pelo efêmero - em que o máximo de um amor perfeito tem a duração de uma novela das 8, mais do que isso o público acha chato e a audiência cai -, é a reformulação do imaginário amoroso desde a infância.

Em aniversários de crianças, tornou-se costume, depois do 'Parabéns', cantar uma musiquinha que começa assim: 'Com quem será, com quem será que a fulana vai ficar?'. E termina de forma inusitada: 'Teve filhos e depois se separou'. Adeus ao final feliz? Mais ou menos. A separação passa a fazer parte do pacote e é desdramatizada ou naturalizada.

Tem gente que bate recordes de separação. Tomo o caso do Toninho como exemplo. Depois de seis casamentos e de seis filhos, um de cada mulher, ele já paga quase todo o seu salário de pensão, tudo descontado em folha. Toninho é refém da sua imensa capacidade procriativa.

Como ele continua disposto a casar de novo, as suas 'ex' criaram uma associação informal para defender os seus direitos e evitar que mais um filho venha a determinar a divisão de mais uma fatia num bolo que já não garante perfeitamente o sustento de todos os toninhozinhos.

A operação é simples: as 'ex' dão um jeito de infernizar a vida da nova candidata a mulher do Toninho até que ela desista. Trata-se de um trabalho de conscientização. Seria mais fácil se o Toninho aceitasse fazer uma vasectomia. Mas o taura é de Palomas e não aceita intervenções nos seus países baixos.

Sempre que toca o sinal de alarme, uma das 'ex' do Toninho, a que estiver solteira no momento, entra em cena para evitar um novo casamento. Vale tudo para impedir o Toninho de procriar. Até mesmo tentar voltar para ele.

Ou oferecer cursos de prevenção para a nova escolhida. Tudo isso só funciona porque o Toninho, apesar de fidedigno representante dos novos tempos, continua, no fundo, um tipo muito convencional: só faz filhos depois de casado.

Ou, em última instância, casa assim que uma namorada engravida. Isso complica as coisas para as 'ex', pois é preciso agir por antecipação.

Por ora, Toninho está sob controle. Já o Carlão, que é um pragmático, resiste à moda e não se separa. Fez as contas e concluiu que separação dá prejuízo. Além de terminar no mesmo lugar: outro casamento.

juremir@correiodopovo.com.br