sábado, 3 de janeiro de 2009


Artigo Demétrio Magnoli

Começa o outono de Lula

"No fim de seu segundo mandato, seremos ‘brancos’ ou ‘negros’ antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração"

Sergio Moraes/Reuters

SALVACIONISMO Lula em discurso: ele não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento

Lula chegou ao Palácio do Planalto como a personificação de esperanças exageradas, quase ilimitadas: "Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da República: para mudar". Na hora em que começa o outono de seu segundo mandato, contudo, é tempo de investigar a sua herança: desses oito anos, o que ficará incrustado no edifício político brasileiro?

"Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta." Antes de tudo, provou-se que diplomas acadêmicos não são adereços indispensáveis para governar. Os acertos e os erros de Lula decorrem de suas opções políticas, não das supostas virtudes ou das óbvias carências associadas a um nível baixo de instrução formal.

O presidente não precisou de uma universidade para preencher a diretoria do Banco Central com um time de economistas que ostenta medalhas acadêmicas incontáveis – e concepções opostas às doutrinas econômicas petistas.

Bastou-lhe o faro político privilegiado do conservador que, no fundo, nunca deixou de ser. Inversamente, o elogio da ignorância, um traço ubíquo dos pronunciamentos presidenciais, não reflete uma suposta convicção de que a escola é desnecessária, mas o egocentrismo exacerbado de um líder salvacionista.

"Nunca antes neste país." O salvacionismo abomina a história, apresentando-se como o início de tudo: a virtude que exclui o vício e escreve uma nova história num mármore intocado. A democracia enxerga a si mesma como um processo de mudanças incrementais. O líder salvacionista não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento. Lula é uma versão pragmática, cuidadosa e mesquinha de salvacionismo. De dia, ele denuncia "a elite que nos governa há 500 anos". À noite, cerca-se de grandes empresários, a quem atende e de quem espera retribuição. O sucesso do estilo político salvacionista deriva das fraquezas de nossa democracia – e as perpetua.

"Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados." Lula não inventou o paralelo entre a nação e a família, que faz parte da longa linhagem do pensamento conservador de raiz autoritária.

Mas, com a expansão do Bolsa Família, ele encontrou uma fórmula de modernização do assistencialismo tradicional. A distribuição direta de dinheiro, no lugar das proverbiais dentaduras, não é a fonte do aumento do consumo dos pobres, que reflete o crescimento da economia em geral e do salário mínimo em particular. Pouco importa: em virtude de sua eficácia eleitoral, o Bolsa Família será adotado pelos próximos governantes, sejam quem forem. Eis um legado duradouro da "mãe do povo".

"Não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar." O lulismo aprofundou a subserviência do Parlamento ao Executivo, que se manifesta sob a forma de um intercâmbio: o Congresso se anula politicamente enquanto os congressistas da base do governo chantageiam o presidente para conseguir cargos e favores.

A troca descamba sem dificuldades para a corrupção aberta. O "mensalão" foi isto: um projeto de estabilização da base governista pela compra direta dos parlamentares. Ele acabou exposto, mas apenas em virtude de uma fortuita ruptura interna à ordem da corrupção. Lula não caiu, apesar de tudo, e a oposição nem sequer apresentou um processo de impeachment. A elite política aprendeu do episódio que um presidente popular não será punido nem mesmo se distribuir dinheiro a parlamentares.

"Se tem uma coisa que está dando certo no governo é a política econômica. O PT não pode se esconder, procurando motivos para as derrotas, com críticas a ela."

O PT morreu como partido da mudança antes da vitória eleitoral de Lula, com a Carta ao Povo Brasileiro, que o converteu em partido da ordem. Nos partidos social-democratas europeus, transições similares verificaram-se antes e de modo diferente.

Eles renunciaram publicamente a seus velhos programas revolucionários, adotando programas fundados nos cânones da democracia e da economia de mercado. O PT, não: embora, na prática, sustente a ortodoxia econômica do governo Lula, suas resoluções clamam pela ruptura socialista, denunciam a liberdade de imprensa e fazem o elogio da ditadura de partido único cubana.

A cisão entre o gesto e a palavra não apenas corrompe politicamente o partido como também alimenta um tipo mais virulento de corrupção.

Dida Sampaio/AE

MÁQUINA CLANDESTINA O operador do mensalão Delúbio Soares: o PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido

"Se eu falhar, será o fracasso da classe trabalhadora." Uma máquina clandestina petista, instalada dentro do Planalto, conduziu as operações do "mensalão". Militantes partidários em altos cargos públicos realizaram a quebra de sigilo do caseiro Francenildo, um crime de estado que passará impune.

Se acreditamos que temos a chave do futuro e uma missão histórica redentora, não hesitamos em usar de qualquer expediente para realizar as finalidades partidárias.

O PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido. No fundo, interpreta a democracia como instrumento transitório para a sua perpetuação no poder. Depois de Lula, o maior partido brasileiro continuará a figurar como elemento de distúrbio no sistema político.

"Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades no mundo são tão limpas." Os estereótipos raciais clássicos, afundados na lagoa do senso comum, são um componente óbvio da rasa visão de mundo de Lula.

Entretanto, o programa de racialização da sociedade brasileira conduzido por seu governo decorre de um frio cálculo político. O presidente quer conservar na sua ampla coalizão as ONGs racialistas, financiadas pela poderosa Fundação Ford.

Em nome dessa meta, patrocina uma enxurrada de leis raciais com repercussões na educação, no mercado de trabalho e no funcionalismo público.

No fim de seu segundo mandato, todos os direitos dos cidadãos estarão mediados e condicionados por rótulos oficiais de raça. Seremos "brancos" ou "negros" antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração.

Stephen Kanitz

Um castelo de cartas que desaba?

"Para o futuro, devemos indagar por que as empresas não possuem as reservas que deveriam ter para aguentar as crises"

Ilustração Atómica Studio

Duas alegorias estão sendo associadas à crise de 2008. A primeira, a de que se trata de um castelo de cartas que desabou, como o Muro de Berlim – só que agora é o muro de Wall Street –, o que significaria uma nova ordem mundial a ser construída, com Barack Obama no comando.

Por isso tão poucos artigos foram escritos numa tentativa de impedir essa crise. Muito pelo contrário, a maioria dos intelectuais americanos noticiava, com certo prazer, cada detalhe desse desmoronamento. Quanto pior e mais rápido, melhor. O problema é que o castelo de cartas era americano, e não brasileiro, e quem vai pagar pelo pânico aqui gerado é nosso trabalhador, como sempre.

Uma pesquisa do Datafolha revela que 29% dos trabalhadores brasileiros acham que perderão o emprego em 2009, o que mostra a extensão do medo disseminado. Nem em 1929 o desemprego chegou a tanto. Pesquisa do Ibope indica que 50% dos brasileiros vão reduzir gastos.

Se não revertermos esse pânico, aí, sim, teremos uma recessão em 2009. Portanto, demos vários tiros no pé, podería-mos ter passado relativamente imunes, mas não agora com esse pessimismo todo. Acreditar que reduzir juros resolve, como muitos estão sugerindo, é até infantil. Quem teme perder o emprego não compra a prazo nem com juro zero. Nem com redução de IPI.

A outra alegoria, a que eu prefiro, é a da cadeia de dominós que tombam um a um. É o setor imobiliário, que derruba o setor financeiro, que derruba o setor automobilístico, que derruba o de autopeças, e assim por diante. Não é um castelo de cartas que desaba, mas, sim, uma única peça que cai por alguma razão e arrasta as demais.

Perguntas que aqueles que se dizem especialistas no assunto deveriam fazer, mas, infelizmente, não fazem, são: por que o segundo dominó não conseguiu aguentar o tranco do primeiro? Por que, quando um cliente seu não paga, você tem de atrasar seu fornecedor ou despedir seus funcionários?

Quando uma empresa despede 2% dos funcionários, como fez a Vale do Rio Doce, o que ela está dizendo é o seguinte: "Vocês, trabalhadores, que sobrevivam usando as suas reservas financeiras pessoais. Não vamos ajudá-los usando as nossas reservas empresariais. Boa sorte e adeus!".

A solução para o futuro é fazer indagações como estas: por que as companhias não possuem as reservas que deveriam ter para aguentar o tranco do parceiro na frente, se ele tropeçar? Por que as empresas não constituem reservas nos tempos bons para usar nos tempos difíceis? Não é por ganância, mas por arrogância intelectual.

Muitas companhias passaram a contratar especialistas em prever o cenário econômico, aqueles que previram que o dólar fecharia o ano a 1,67 real, lembram-se?

Derrubaram a Sadia, a VCP e a Aracruz. "O futuro é previsível, senhores, o câmbio não passa de 1,80 real, portanto as reservas da sua empresa podem ser reduzidas." Ledo engano, como já alertei inúmeras vezes aqui. O futuro não é previsível, minha gente, e foi essa arrogância intelectual que fez o sistema todo ruir.

O Brasil em outros tempos já estaria pedindo socorro ou reservas financeiras ao FMI. O que ocorreu de diferente desta vez? O país tinha reservas de 200 bilhões de dólares, acumuladas sob críticas constantes de que eram desnecessárias.

Existem inúmeras outras razões por que empresas não constituem reservas, desde a pressão de analistas, a tributação de reservas, o que é um absurdo, e otimismo demasiado com relação ao futuro. No Brasil, taxamos reservas na pessoa jurídica em 32% e na pessoa física em 20%, o que leva à distribuição imediata aos sócios. Outro absurdo.

Para que companhias se mantenham sólidas no futuro, temos de lidar com essas questões, e não com a redução de juros, mais gastos do governo, mais supervisão mundial.

Portanto, preparem-se, porque em 2009 vamos ler um monte de bobagens, com prêmios Nobel sugerindo uma nova ordem mundial, e ninguém vai se lembrar do óbvio de que países, empresas e famílias precisam de reservas financeiras adequadas, para aguentar as tempestades futuras e não demitir pessoal.

Stephen Kanitz é administrador www.kanitz.com.br

Martha Mendonça Colaboraram Francine Lima e Juliana Costa

Eles se depilam, elas adoram

As mulheres são as grandes incentivadoras da nova onda de vaidade masculina

CÚMPLICES

Oliveira, de 43 anos, e a mulher, Henriette. Ele usa cremes para o corpo e tira a barba com laser.

“Ela adora que eu tenha uma pele boa e um corpo bonito”O professor de educação física paulistano Eduardo Vilhena, de 24 anos, costuma demorar mais para se arrumar que a namorada. Só sai com cabelo arrumado, creme hidratante e figurino impecável. Há dois anos, passou a depilar o peito.

A namorada, Tathiane Costa, de 29, gerente de uma academia em São Paulo, ri com a vaidade do parceiro. “Quem não gosta de um homem com tudo em cima? Chega de preconceito”, afirma. A jornalista carioca Henriette Soares, de 39 anos, concorda. Seu marido, o empresário Eduardo Oliveira, de 43, é consumidor de cremes para o corpo todo e, para manter a pele lisa, faz ainda, duas vezes por mês, um tratamento a laser na área da barba.

“De dois anos para cá, intensifiquei meus cuidados. O resultado é ótimo, e não ligo para o preconceito de alguns amigos”, diz Oliveira. Não deixa de combinar as roupas com sapatos e relógio e faz tratamento para amaciar os cabelos grisalhos. Pai de três filhos, ele diz que a mulher é sua grande incentivadora.

“Ela acha que o homem inteligente tem de se cuidar. E adora que eu tenha uma pele boa e um corpo bonito”, afirma. “Afinal, é ela quem desfruta.” Foi Henriette quem levou o marido para a clínica de estética, onde ele faz também um trabalho de modulação do abdome com equipamento especial. “Hoje, alguns amigos o olham de lado quando ele diz que passa creme até nos cotovelos”, afirma ela. “Mas ele é o homem do futuro.”

Tathiane e Henriette são mulheres que deixaram de lado o preconceito e acreditam que o homem vaidoso é uma das melhores novidades do mundo contemporâneo. Elas são uma das forças que fazem os homens radicalizar os cuidados com o próprio corpo. Por trás de um homem que tira as sobrancelhas ou depila as pernas, há um par atento de olhos – ou mãos – femininos.

Tratamentos que há pouco tempo faziam parte apenas do universo gay começam a virar condição para o interesse feminino. No site de relacionamento Orkut, há centenas de comunidades sobre homens vaidosos. Na maior delas, Sou Homem & Sou Vaidoso, com 3.200 membros, o fórum é recheado de relatos sobre a preferência das mulheres.

“Depilar é a coisa mais normal do mundo. E a mulherada adora”, afirma o internauta Dudu. Depilação, aliás, é um assunto em pauta. Os homens discutem, de forma corriqueira e informada, os diferentes tipos de creme e os lugares do corpo mais adequados para ter os pelos retirados. A maioria depila o peito; outros, também barriga e costas. Há ainda quem tire os cabelos das pernas, axilas e partes íntimas. “Fica bem melhor para a minha namorada, se é que vocês me entendem”, diz o participante Alex22.

Na comunidade de mulheres Adoro Homem Vaidoso, que tem 372 pessoas registradas, mulheres elogiam o contato com peles masculinas macias. “Eu mesma compro o creme e passo nele todos os dias antes de dormir. Agora, quero que ele vá comigo à manicure”, diz a internauta LolitaES.

O desejo de perfeição estética que agora assola o mundo masculino nada mais é que o prolongamento daquilo que já existe no universo feminino. Vivemos um tempo de compulsões – comida, drogas, sexo –, e entre elas está o culto ao corpo.

“Trata-se do mesmo fenômeno que já atinge as mulheres”, afirma a psicanalista Joana de Vilhena, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio, autora do livro O intolerável peso da feiura. “Existe ainda uma intolerância maior à feiura feminina, mas com o tempo isso tende a se igualar.”

A estudante de design carioca Camilla Ghermandi, de 19 anos, garante que a nova geração de mulheres não tolera mais homem desleixado. E diz que as mulheres mais jovens dispensam solenemente os pelos no corpo masculino. “Onde é que está escrito que eles precisam ter o cabelo seco, a pele grossa e o corpo cabeludo?”, diz.

Já está na sua lista de metas de 2009 depilar o peito do novo namorado, Bruno, também estudante. “No calor do Brasil, é mais higiênico homem sem pelos”, afirma.

De outra geração, a ex-jogadora de vôlei Virna Dias, de 34 anos, também questiona a máxima de que o homem de verdade é o homem rústico. Desde que começou a namorar o empresário paulista Rodrigo Piovesan, já o convenceu a usar creme noturno, a tirar o excesso de sobrancelha e a fazer as unhas semanalmente, sem falar no tratamento para amaciar os pés. “Não tem nada pior que aquele pé áspero”, afirma. “Burro é o homem que diz que isso é coisa de gay.”

O incentivo feminino deve incrementar ainda mais o mercado da vaidade masculina, que já era crescente nos últimos anos. Nas clínicas de estética, o movimento dos homens cresceu 50% em 2007 e repetiu o resultado ao longo do ano passado.

Eles já representam 20% dos pacientes de cirurgias plásticas, com ênfase na blefaroplastia (quando se retiram excessos de pele e bolsas de gordura das pálpebras), e a rinoplastia, que diminui ou afina o nariz.

“Também aumentou muito a procura pelo lifting facial e a lipoaspiração no abdome e no pescoço, para acabar com a papada”, diz o cirurgião plástico carioca Tomaz Nassif.

Tratamentos que só faziam parte do universo gay começam a virar condição para atrair as mulheres


03 de janeiro de 2009
N° 15837 - NILSON SOUZA


A penúltima meta

No início do ano passado, fiz uma lista de propósitos com 10 itens e realizei o nono nos últimos dias de dezembro. Minha penúltima meta era completar uma corrida de seis quilômetros, ida e volta no percurso onde caminho diariamente. Nada de excepcional. Meu sósia, com quem cruzo de vez em quando, corre 42 quilômetros por dia, o que reduz o meu feito à sua insignificância.

Mas a verdade é que fiquei muito feliz por ter alcançado meu objetivo no prazo que eu mesmo havia estipulado. E também por ter encerrado o ano com uma média alta de propósitos atingidos, apenas com uma pendência, que pretendo liquidar logo.

Tudo é relativo, sei disso. É bem provável que eu tenha sido pouco exigente comigo mesmo. Reconheço que não sou muito ambicioso. Minhas metas certamente eram todas factíveis. Não planejei fazer uma viagem ao redor da Terra, não me propus a ganhar meu primeiro milhão de dólares, nem desejei beijar a mulher mais linda do mundo – como fez Jack Nicholson no comovente Antes de Partir.

Apenas segui um conselho retirado de leituras pretéritas: entre as grandes coisas que não podemos fazer e as pequenas que não queremos, o perigo está em não fazermos nenhuma.

Então, tratei de anotar o que estava ao meu alcance. Para muita gente, pode parecer bobagem fazer anotações. Porém, como sou metódico e tenho uma memória predominantemente visual, sinto necessidade do registro. Sempre fiz assim, até para estudar. Quando escrevo o que li, dificilmente esqueço.

E quando faço uma lista de tarefas sinto-me compelido a executá-las, pois o papel funciona como uma nota promissória que leva a minha assinatura. Fico na obrigação de honrá-la.

Gosto de anotar, inclusive, minhas atribuições diárias, só para ter o prazer de riscá-las na medida em que as vou cumprindo. Pode ser só uma mania inútil, mas é a sugestão que deixo para os leitores e leitoras deste espaço. Registrem suas metas no cartório particular da consciência, mas não esqueçam de lavrar a ata.

E quem ainda não fez a sua lista, deve se apressar, pois a areia do Ano-Novo já começou a descer inexoravelmente para a parte debaixo da ampulheta.


03 de janeiro de 2009
N° 15837 - PAULO SANT’ANA | CLÁUDIO BRITO (interino)


Nossas cidades

As posses de quase 6 mil prefeitos e perto de 52 mil vereadores não podem ser vistas apenas como formalidade de pequena significação. Nascemos, vivemos, morreremos e seremos sepultados ou nossas cinzas guardadas em nossos municípios. A vida acontece em nossas cidades.

O Estado e a União são entes jurídicos que não tocamos nem sentimos. Os rios, as montanhas, as ruas e nossas casas estão nas cidades. O município é a célula fundamental de toda a federação, que é uma abstração. Onde está a União? Suas estradas e edifícios públicos são traçadas ou se encravam no território de algum município.

Compramos, vendemos, lucramos ou perdemos nas cidades em que moramos ou nas de quem negocia, vende ou compra de nós. A vida de relação desenvolve-se nas cidades e por conta disso pagam-se impostos. E começa aí a injustiça. O leão é federal, mas alimenta-se do que as cidades geram de situações tributáveis.

O retorno às cidades é menor que o devido, se confrontarmos o que se exige do município em prestação de serviços e o que lhe rende o imposto recolhido. Bem por isso a maioria das cidades não cumpre ainda a municipalização de algumas atividades que a Constituição determina.

É o caso dos órgãos de defesa dos direitos dos consumidores. No Rio Grande do Sul, não chegam a 80 os municípios que já organizaram seus Procons e mesmo Porto Alegre fez isso há pouco tempo. Parecido com o que acontece em áreas mais sensíveis, como a saúde e a educação.

Cobra-se dos prefeitos a correção desse quadro. Defendem-se com argumentos aceitáveis, pois é inegável que são cometidos vários deveres aos municípios, sem o aporte de recursos necessários e suficientes. Tudo por conta de um modelo institucional que valoriza a ideia da municipalização, sem esquecer que a União é faminta e quer cada vez mais impostos.

Assim não dá. O desequilíbrio precisa ser corrigido um dia. Repetem-se as marchas de prefeitos e vereadores sobre Brasília a cada ano, mas ainda não se vê com otimismo o que possam fazer deputados federais e senadores. Melhor dizer que não se vê o que eles queiram realizar, pois, poder eles podem.

Confesso-me um municipalista. Gostaria de experimentar outro desenho institucional, em que se consolidasse o preceito constitucional de valorização do município como ente público de maior relevância.

Serviços essenciais municipalizados, presídios e órgãos de segurança dimensionados ao menos regionalmente, escolas, creches e hospitais logo ali na esquina, com todos os recursos e condições. Viveríamos em melhores condições, tenho certeza.

Mais que nossos mandatários, prefeitos e vereadores são nossos vizinhos. Cuidaríamos das cidades como nossos grandes condomínios, fosse outro o pacto federativo. E teríamos gosto em pagar nossos tributos, pois mais de perto perceberíamos o retorno que se pretende ao pagar algum serviço.

Faço minhas as palavras de Cezar Schirmer, que, no dia da posse, admitiu ser hoje um municipalista convicto para quem “é melhor termos 6 mil grandes prefeitos que um grande presidente”.

Tem razão o novo prefeito de Santa Maria. Há muito está superada a fórmula de governança aos cuidados de um “pai de todos”, por mais competente, bem-intencionado e carismático que seja.

Se a Carta de 88 traçou os parâmetros de uma democracia participativa, melhor que se busque entregar aos municípios a grave missão de fazer o bem comum. Políticas públicas realistas, adequadas, bem dimensionadas, caso a caso, cidade por cidade.

Do conjunto da obra é que faríamos um grande Brasil. Por tudo isso é que assisti às cerimônias de posse dia 1º com muita atenção e dedicada postura de quase solenidade.

Os prefeitos e vereadores merecem mais atenção e consideração e, é claro, devem-nos a contrapartida do mesmo tamanho. E, para nós e para eles, resta um dever: o de lutar pela reestruturação de nossa federação, com a criação de mecanismos que contemplem a municipalização como forma de administração pública mais importante.

Afinal, se tantas vezes foram alterados os rumos brasileiros, por que não se experimentar o que, a rigor, está no coração da Constituição Federal, faltando apenas que sua vontade seja cumprida?


03 de janeiro de 2009
N° 15837 - A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR


Repelir o mosquito (não o bom senso

Verão é época de viagens e época de dengue. Isto significa que, nos próximos meses, muitas pessoas estarão em áreas onde a picada pelo mosquito transmissor do vírus, o Aedes aegypti, é um risco real. E a questão é: como se proteger desse risco?

Para isto, é preciso, em primeiro lugar, considerar os hábitos do Aedes. Diferente do mosquito que transmite a malária, é um inseto diurno, que pode ser encontrado nas habitações. Daí as providências que se devem adotar: uso de mosquiteiros impregnados ou não com inseticidas, roupas que protejam pernas e braços, telas em portas e janelas, uso de repelentes.

Repelente: eis um tema que merece consideração especial. Existem algumas substâncias vegetais consideradas repelentes naturais, mas, por causa da dificuldade de encontrá-las, as pessoas acabam usando os produtos comprados em farmácia.

A maioria destes tem em sua fórmula o DEET (atenção: não é DDT), abreviatura de dietil-meta-toluamida e também do dietil-metilbenzamida. Não é coisa nova: a substância foi desenvolvida pelo exército americano (que não produz só invasões) em 1946 e liberada para uso geral em 1957.

Nos Estados Unidos são mais de 230 formulações registradas na Agência de Proteção Ambiental. O uso do DEET é recomendado pelo respeitável Centro de Controle de Doenças (CDC) norte-americano. Pergunta: é seguro?

Há um risco claro: a ingestão da substância. Pode causar baixa da pressão arterial e convulsões. É claro que a ingestão é acidental, mas daí já resulta uma regra: deve-se manter o produto longe das crianças.

Os pais devem aplicar nos filhos pequenos, cuidando para não colocar o produto nas palmas das mãos deles. Crianças têm se mostrado mais sensíveis aos efeitos neurotóxicos do DEET que os adultos e têm maior risco de convulsões, embora o número de casos até hoje registrado seja relativamente pequeno.

De qualquer forma, emerge daí uma determinação do Ministério da Saúde: não se deve aplicar repelentes com DEET em crianças menores de dois anos. Em crianças de dois a 12 anos as aplicações não devem exceder três ao dia, dando-se preferência a produtos que tenham menor concentração de DEET (menos de 10%).

Estudos mostraram que formulações com baixas concentrações de DEET são tão efetivas quanto aquelas com concentrações maiores. Deve-se aplicar nas áreas expostas (dorso das mãos, pescoço, rosto, nuca), mas não em lugares com lesão de pele. Evitar o contato com os olhos, boca e narinas; e, depois do uso, lavar as mãos com água e sabão.

Mas tudo isto é proteção individual. Para acabar com o mosquito, é preciso um esforço coletivo, no sentido de evitar a formação de focos. É uma boa medida de defesa da saúde. E tem um benefício: nos torna mais conscientes do risco representado por um meio ambiente negligenciado.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009



Q U A S E

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

(Autoria atribuída a Luís Fernando Veríssimo, mas que ele mesmo diz ser de Sarah Westphal Batista da Silva, em sua coluna do dia 31 de março de 2005 do jornal O Globo)


NOVOS TEMPOS

Tem gente dando festa para comemorar separação. Até aí, tudo bem. Afinal, acabar com certos casamentos pode ser uma libertação. Mas o interessante, nestes novos tempos dominados pelo efêmero - em que o máximo de um amor perfeito tem a duração de uma novela das 8, mais do que isso o público acha chato e a audiência cai -, é a reformulação do imaginário amoroso desde a infância.

Em aniversários de crianças, tornou-se costume, depois do 'Parabéns', cantar uma musiquinha que começa assim: 'Com quem será, com quem será que a fulana vai ficar?'. E termina de forma inusitada: 'Teve filhos e depois se separou'. Adeus ao final feliz? Mais ou menos. A separação passa a fazer parte do pacote e é desdramatizada ou naturalizada.

Tem gente que bate recordes de separação. Tomo o caso do Toninho como exemplo. Depois de seis casamentos e de seis filhos, um de cada mulher, ele já paga quase todo o seu salário de pensão, tudo descontado em folha. Toninho é refém da sua imensa capacidade procriativa.

Como ele continua disposto a casar de novo, as suas 'ex' criaram uma associação informal para defender os seus direitos e evitar que mais um filho venha a determinar a divisão de mais uma fatia num bolo que já não garante perfeitamente o sustento de todos os toninhozinhos.

A operação é simples: as 'ex' dão um jeito de infernizar a vida da nova candidata a mulher do Toninho até que ela desista. Trata-se de um trabalho de conscientização. Seria mais fácil se o Toninho aceitasse fazer uma vasectomia. Mas o taura é de Palomas e não aceita intervenções nos seus países baixos.

Sempre que toca o sinal de alarme, uma das 'ex' do Toninho, a que estiver solteira no momento, entra em cena para evitar um novo casamento. Vale tudo para impedir o Toninho de procriar. Até mesmo tentar voltar para ele.

Ou oferecer cursos de prevenção para a nova escolhida. Tudo isso só funciona porque o Toninho, apesar de fidedigno representante dos novos tempos, continua, no fundo, um tipo muito convencional: só faz filhos depois de casado.

Ou, em última instância, casa assim que uma namorada engravida. Isso complica as coisas para as 'ex', pois é preciso agir por antecipação.

Por ora, Toninho está sob controle. Já o Carlão, que é um pragmático, resiste à moda e não se separa. Fez as contas e concluiu que separação dá prejuízo. Além de terminar no mesmo lugar: outro casamento.

juremir@correiodopovo.com.br

Jaime Cimenti

Catedral vazia, 2008, 2009, Setembro negro & Barack Obama

Início da tarde, entre um compromisso e outro consigo uns minutos para entrar na Catedral Metropolitana. Beleeeeza, ela está vazia. Vazia ela fica ainda maior e mais silenciosa. Nada contra pessoas, religiosos, fiéis, missas, celebrações etc., mas um templo vazio e silencioso, só com a presença de velas, imagens e estátuas, sempre me fascinou mais.

Fecho os olhos, inspiro só pelo nariz e relaxo das agitações de final de ano. A respiração e os batimentos cardíacos ficam mais compassados, o tempo passa mais devagar. Estou simplesmente vivo. Posso ao menos tentar, por alguns minutos, ordenar pensamentos, ideias, sentimentos. Conseguir ordenar totalmente o caos de dentro e de fora é inviável, isso já sei faz muito.

Mas curtindo o silêncio, a solidão, o altar sem objetos e a atmosfera de eternidade da igreja dá para pensar um pouco em 2008, eleições, problemas e soluções nacionais, setembro negro global desesperançador, Barack Obama esperançado e esperançante e tal. Machado de Assis fez 168 anos em 2008. Comemoramos cem da pretensa morte dele.

Em 2009 podemos comemorar os 170 anos do nascimento do Bruxo, que disse que estamos no mundo, mas não somos do mundo. O Bruxo sentiu, pensou e escreveu muito. Dizem que nos momentos finais ele sentenciou: a vida é boa.

É isso, estamos no mundo, de passagem, mas não somos do mundo. No clima da Catedral Metropolitana vazia fico contemplando a pátina invisível do tempo pairando e pensando que nada é mais velho do que a novidade do jornal de ontem.

Uma crônica de final de ano não precisa, necessariamente, fazer retrospectivas do ano velho, nem lhe botar epitáfios e adjetivos. No Brasil, como se sabe, até o passado é imprevisível. Previsões provavelmente furadas para o novo ano são dispensáveis.

Deus deve estar aqui na Catedral, ou, ao menos, está no meu pensamento. Não pergunto, agora, se ele existe, de onde vim, quem sou e para onde vou. Agora, nesses minutos, fazer orações e estar respirando com calma é o bastante para mim. O que vou entender ou não, o que vou resolver ou não pode esperar um pouco.

Chovia lá fora, mas o sol que atravessa os vitrais nesse momento mostra que o mundo está sendo envernizado mais uma vez. De repente já é alguma preparação para 2009, ou simplesmente a natureza soprando a grande velha novidade: a vida continua. Melhor a gente achar que ela é da boa.

Jaime Cimenti

Aproveite o dia - Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana


Jaime Cimenti
2/1/2009


Heroína visionária, mundo belo e assustador

Belezas perigosas, da dramaturga e escritora norte-americana Libba Bray, é, acima de tudo, um livro intrigante, a começar pela qualidade de visionária da protagonista, moça que herdou um dom sobrenatural, o de ver o futuro. Antes de se profissionalizar como escritora, Libba Bray foi desde garçonete até revisora e, na juventude passada no Texas, sob uma cultura underground, adquiriu uma personalidade excêntrica e direta.

Atualmente, ela mora no Brooklin, em Nova Iorque, com o marido e o filho.
Gemma Doyle, a heroína de Belezas perigosas, não tem os modos impecáveis de outras moças e muito menos a graça e a desfaçatez para mentir em nome da Inglaterra.

Após assistir à morte da mãe duplamente - numa visão perturbadora que logo se confirmou real - no dia de seu aniversário, em uma tarde quente e agitada em Bombaim, ela foi mandada para Londres, onde o irmão se encarrega de matriculá-la na tradicional escola Spence, para moças.

Sob o lema "graça, charme e beleza", a escola guarda, no entanto, em seu bosque, onde às vezes aparecem ciganos, sua capela, seus encantos secretos e mistérios que farão com que Gemma entre em contato com seu dom (ou seria uma maldição?), de forma cada vez mais intensa.

No início, ela é recebida com frieza em Spence, mas aos poucos as coisas vão mudando. O jovem Kartik bem que tenta ajudá-la a lidar com suas visões e alertá-la para os perigos de se envolver numa antiga e nebulosa história.

Mas Gemma não tem medo e encontra em Felicity e Pippa, duas das meninas mais invejadas do colégio, e até mesmo na humilde Ann, o impulso necessário para enfrentar seus próprios fantasmas.

O romance é ambientado na Índia e na Inglaterra do final do século XIX e narrado em primeira pessoa por Gemma, dona de belezas perigosas escondidas no coração e na mente. Ela vai descobrir a ligação de sua mãe com um grupo muito antigo e misterioso conhecido como a Ordem.

O mundo de Gemma é, ao mesmo tempo, belo e assustador e ela tenta conhecê-lo para, quem sabe, dominar uma mente inquieta e um coração cheio de vida, questionamentos e angústias.

Culpa, solidão, desejo e repressão são elementos que regem a sua vida, mas ela tem cabeça para enfrentar tudo. Tradução de Lea Viveiros de Castro, 280 páginas, R$ 37,50. Editora Rocco, telefone 21-3525-2000 .


COMEÇO DE ANO

No Brasil, ao menos, o ano começa de três a dez vezes. Não é qualquer país que tem esse privilégio.

Na maioria dos nações, o ano começa no máximo duas vezes. Em alguns casos, três. Na China, por exemplo, dá para estimar em dois o número oficial de começos de ano, o do calendário ocidental e o do calendário chinês.

Em Israel também dá para falar em, no mínimo, dois, pois há o ano-novo judaico. Não é fácil saber exatamente quantos começos de ano tem cada país. O primeiro começo de ano no Brasil cai sempre no dia 1º de janeiro. É de uma precisão extraordinária.

Talvez seja a única coisa que jamais atrasa entre nós. Já o segundo começo acontece depois do feriado de 1º de janeiro. O problema é quando o 1º de janeiro cai num sábado ou num domingo. Aí, o segundo começo acontece mais cedo para decepção geral do povo.

Na verdade, esses dois começos são quase simbólicos na cultura brasileira. Todo mundo sabe que o 1º de janeiro marca mesmo é o fim do ano de trabalho. Começam de fato as férias. Cidades como Porto Alegre sofrem reduções demográficas impressionantes. Tramandaí salta de menos de 100 mil habitantes para em torno de 1 milhão.

Até São Paulo, não fossem as chuvas de verão, se tornaria habitável. O terceiro começo de ano brasileiro é o que vale. O ano começa realmente no Brasil depois do Carnaval. Isso não é novidade. Somos um dos poucos países do mundo a ter o ano começando em fevereiro ou até em março.

É isso que nos faz diferentes, mais flexíveis, mais legais e com um humor de fazer inveja aos desenvolvidos. Quem começa o ano muito cedo, seguindo o positivismo do calendário, termina mal. Melhor não ter pressa ou ir por partes. O calendário, afinal de contas, é uma convenção histórica. Não existe começo nem fim.

Tem muita gente que só considera o ano começado verdadeiramente depois da Páscoa. É o quarto começo. Outros, ainda mais calmos, entendem que o quinto começo, depois de 1º de maio, Dia de Trabalho, é o que vale. O Brasil tem dessas coisas.

Assim como tem lei que não pega, tem começo de ano que também não pega. Existem mesmo alguns radicais que festejam o começo do ano, o sexto desta lista, em 31 de julho. Para eles, obviamente, o ano começa em 1º de agosto, se não for sábado nem domingo. Viram como é difícil precisar o dia exato do começo de um ano?

Os defensores do começo em agosto alegam que aí, sim, não para mais até 31 de dezembro, salvo por uma breve interrupção na semana da Pátria. Nacionalistas reivindicam o 7 de Setembro, se não for sábado nem domingo, como o real começo do ano verde-amarelo (o sétimo). No Rio Grande do Sul, porém, a semana farroupilha complica um pouco essa definição cívica.

Certos gaúchos garantem que o ano termina para eles no início dos festejos farroupilhas. Outro ano, portanto, começa para esses gaudérios em 20 de setembro (oitavo). Já para certos escritores, editores e leitores, o ano termina ao final da Feira do Livro do Porto Alegre.

A mesma idéia têm alguns patriotas para quem o ano começa com o 15 de novembro (nono). O caso mais radical que pude identificar é o de um grupo de fabricantes de panetone.

Para eles, o ano começa em dezembro e termina no Natal. Fica, então, uma semana a descoberto. Ninguém se importa. Ou está de ressaca. É uma semana em que o tempo passa tão depressa ou tão livremente que nem dá para contar. Afinal, um ano já acabou e o outro ainda não começou.

juremir@correiodopovo.com.br


02 de janeiro de 2009
N° 15836 - JOSÉ PEDRO GOULART


Caráter

Aqui na praia, o Jorge Furtado me empresta o último número da Granta, famosa publicação literária inglesa lançada recentemente no Brasil. A edição tem um artigo do Salman Rushdie e já falaremos dele.

Do Jorge também veio, de presente, um disco com todo o Sérgio Sampaio (se você não sabe quem é, pesquise que vale a pena), um livro, Arlequim, Servidor de Dois Amos, do Carlo Goldoni (nunca vi mais goldoni) e, provando que é eclético, ele ainda me alcançou o CD da menina-prodígio Mallu Magalhães.

O Jorge tem esse espírito de compartilhar as coisas – é impossível ir à casa dele sem que ele mostre uma música recentemente descoberta, um gibi novo, alguma edição literária peculiar.

Diga-se que ele é um sujeito pré-internet, de um tempo em que havia coisas raras e as descobertas dele eram ainda mais valiosas. De todo modo, o caráter propagador do Jorge é muito mais uma forma de diálogo: ele se expressa através do que divulga.

Caráter, aliás, é o tema do artigo do Salman Rushdie na Granta. Ele escreve sobre Heráclito, o filósofo que viveu há 2,5 mil anos e cuja obra permaneceu apenas em aforismos que foram se espalhando em escritos de outros escritores. Um deles, pinçado pelo Rushdie, afirma que “o caráter de um homem é sua sina”: não há como escapar da própria natureza.

Lembrei da fábula da rã e do escorpião. Ao concordar em atravessar o rio com o escorpião nas costas, a rã acaba sendo ferroada por ele, e com isso ambos se afogam. A rã protesta e o escorpião responde: “É a minha natureza”.

Entretanto, a natureza explica muito, mas não explica tudo. O Rushdie procura no acaso, no imprevisível, as razões “sem razões’, e dá exemplos disso no cinema e na literatura. Também indaga, lembrando Borges, que sabia que a história é um jardim de caminhos que se bifurcam: “Não poderia nosso destino ter moldado nosso caráter em vez de o contrário?”

Vinte e cinco séculos nos separam de Heráclito. Nesse tempo todo, muito se discutiu sobre a ideia tentadora de caráter/destino. Outra máxima, porém, essa de Ortega Y Gasset e bem mais contemporânea, diz que “O homem é ele e suas circunstâncias”.

O que no fundo nos leva a uma conclusão mais sucinta (e menos nobre) sobre nós, que é a seguinte: depende.

Bem, mas desde ontem é um ano novo. E eu aqui falando, falando. Lembrei do Dilbert, que, numa daquelas tirinhas geniais, diz o seguinte para o cão Dogbert: “Sabia que a solidão não pode ser curada ouvindo os outros? A gente só se sente vivo e completo quando os outros estão ouvindo você. Sabia disso?” E o Dogbert responde: “Disso o quê?”

Portanto, FELIZ ANO-NOVO, Ô SURDO!


02 de janeiro de 2009
N° 15836 - PAULO SANT’ANA | ALEXANDRE BACH (interino)


Em nome da paixão

Há quase uma tragédia shakespeariana na defesa que fazem parte de meus colegas que atuam na área esportiva e alguns cartolas: em nome da paixão futebolística, vale tudo na área financeira dos clubes.

Vale, inclusive, fazer vistas grossas para deslizes cometidos pelas administrações em relação às leis, rigorosas com empresas e contribuintes, mas cheia de benesses para os cofres dos clubes. Assim, não pagam os impostos em dia ou em prazo qualquer.

Exigem que o Estado gaste com um evento particular (que é uma partida de futebol), colocando a Brigada Militar para conter os ânimos de sócios baderneiros que insistem em manter em seus quadros, mas não querem pagar por isso. Querem serviço privado sem custo algum.

Tudo em nome de paixões.

Quando a situação do tesoureiro fica insustentável, o clube beira a falência, negocia-se um Refis, parcelam-se as dívidas a perder de vista. Tempos depois, o Refis também não é pago. Dane-se o que foi assinado.

Enquanto isso, como se vivessem num mundo onde o dinheiro brota dos gramados direto para os cofres, os dirigentes se mexem a fazer novas contratações, novos investimentos, sob o argumento de que o estádio lota pelo futebol e não pelo balanço financeiro em dia.

Tudo em nome de paixões.

A participação da sociedade neste drama termina aqui. Quando o clube negocia um jogador, aí ninguém mais quer socializar os resultados, neste caso bem positivos, medido em milhões de euros ou dólares. A venda de um atleta para o Exterior é sempre misteriosa, existe um manto de silêncio envolvendo a negociação: os números nunca são anunciados oficialmente pelos dirigentes, os valores não aparecem em balanços, ninguém sabe publicamente quanto entrou nos cofres dos clubes.

À imprensa, cabe apenas especular, com informações extraoficiais, o quanto rendeu uma ou outra transação. O jogador vai, tem despedida no aeroporto, jogo de estreia no novo time. Mas o quanto de dinheiro chegou é um mistério guardado a sete chaves por poucos.

Tudo em nome de paixões.

No meio desse ambiente de clubes que não pagam o serviço privado, não pagam as contas, não pagam as dívidas, não pagam o que renegociam e ainda ganham áreas públicas da cidade para aumentar sua estrutura, rondam empresários, levando jogadores de um lado para outro, pressionando por negociações, ignorando por completo o sonho da torcida de ver um atleta defendendo suas cores (empresário de futebol movido por paixão?

Esqueçam) e aproveitando para tirar sua beira na forma de polpudas comissões, muitas vezes na casa dos milhões.

Num ambiente onde existem mais zonas escuras do que claras, vendem, compram, embolsam o seu, privatizam a paixão e deixam as dívidas com o clube, que a repassa à sociedade. Ao nosso bolso. Ou o leitor acha que ninguém vai pagar o Refis que foi renegociado, mas não quitado?

Tudo em nome de paixões.

Só que paixão que privatiza o lucro e socializa o prejuízo não me serve. Paixão, para ficarmos com Shakespeare, só a de Romeu e Julieta: ou se vive o amor em sua plenitude ou se morre por ele. Mas sempre juntos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


CONTARDO CALLIGARIS

Um Ano Novo feliz e desconfiado

Meus votos de um Ano Novo corajoso, sem as pequenas complacências do nosso dia-a-dia

SE VOCÊ quer começar o ano com o pé direito (ou seja, como é costume, com alguns bons propósitos), não perca "Um Homem Bom", de Vicente Amorim. O filme, uma produção anglo-alemã, traz para a tela "Good", de C. P. Taylor -peça de 1981, que é uma das grandes meditações literárias sobre a poltronice que pode levar qualquer um às piores cumplicidades.

Viggo Mortensen é o professor Halder, que, na Berlim dos anos 1930, ensina Proust na universidade e se deita regularmente no divã de um psicanalista freudiano. Junto a seu psicanalista (que é judeu e é também seu melhor amigo), Halder observa o nazismo incipiente com um sarcasmo que se torna desgosto quando os livros de seus autores preferidos são destinados à fogueira.

Em suma, tudo prepara Halder para ser um dissidente (eventualmente morno e pouco heroico, mas, mesmo assim, um dissidente). Ora, eis que, um belo dia, a Chancelaria do Terceiro Reich se interessa por um romance que Halder publicou sem grande sucesso. Nele, é narrada a história de um homem cuja amada sofre de uma doença terminal; por amor, o homem aceita ajudá-la a pôr fim a seus dias.

A Chancelaria pede a Halder um ensaio que sirva de fundamento moral para os projetos de "eutanásia" que o regime nazista, "caridosamente", está concebendo para doentes mentais e deficientes graves -na verdade, para todos os "subumanos".

Halder não quer o mal de ninguém -ainda menos o de seu amigo judeu. Mas, aos poucos, ele é enredado numa malha de sentimentos pequenos, banais e dificilmente resistíveis: vaidade, ambição, medo e, talvez sobretudo, preguiça e inércia.

Tornando-se membro do partido e da SS, Halder pode festejar sua promoção: ele é agora chefe de seu departamento universitário. Claro, no dito departamento, não se ensina mais Proust. Também, em sua ascensão, Halder substituiu um colega judeu; é uma pena, mas, afinal, se não fosse Halder, seria outro, não é?

Assim, à força de covardias aparentemente triviais, homens "bons" e comuns se tornam cúmplices de horrores dos quais, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que "não sabiam", "não imaginavam" nada disso.

Ou, melhor ainda, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que, se tivessem sabido, se tivessem sido informados, aí sim, eles, "obviamente", não teriam concordado, sua oposição teria sido explícita e vigorosa, mesmo que isso colocasse a perder sua carreira e sua vida.

Alguém observará: o fascismo e o nazismo foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, e o sistema soviético desmoronou com o Muro de Berlim -por que é que a gente se debruçaria a esta altura sobre a facilidade de nossa complacência com os totalitarismos?

Seria possível responder que a lista é longa dos totalitarismos, grandes e pequenos, que continuam vivos ainda hoje, e não muito longe de nossa casa. Mas o mais importante é que a complacência com o totalitarismo segue sendo a chave mestra que explica quase todas as patologias de nossa relação com as coletividades (nações, torcidas, religiões, culturas, partidos etc).

Claro, pertencer a um grupo e se deixar levar por ele é sempre menos cansativo do que decidir por nossa conta. A ponto que as razões para aderir ao grupo se tornam indiferentes: o que importa é o conforto que o grupo oferece a seus membros.

Em outras palavras, para não ter que pensar e agir sozinho, o homem "bom" topa qualquer parada. Por exemplo, pertencer ao partido nazista alivia seriamente meu dever (incômodo) de pensar e agir segundo meu foro íntimo; aceito ser antissemita, homofóbico, defensor da supremacia ariana etc. tanto mais facilmente que tudo isso, no fundo, pouco me importa: é apenas um pedágio que pago para ser membro do clube.

Paradoxo crucial: um grupo pode se unir ao redor de uma ideologia ou de uma convicção na qual quase nenhum de seus membros, em sã consciência, acredita, mas que todos compartilham apenas PARA constituir um grupo -ou seja, pelo prazer de sair quebrando vitrinas, linchando negros e "bichas", torturando calouros, apedrejando o ônibus da torcida oposta. E qual é esse "prazer"?

Simples, é o prazer de esquecer a dificuldade de viver, tirando das costas o fardo e a responsabilidade de julgar com a nossa cabeça. Pois bem, aqui vão meus votos de um Ano-Novo corajoso, livre das pequenas (e terrificantes) complacências do nosso dia-a-dia.

ccalligari@uol.com.br

Bem começo 2009 examinando o Relatório de Gestão de uma instituição pública para o PQGF (Programa de Qualidade do Governo Federal), ao mesmo tempo que procuro escrever o projeto de dissertação de meu mestrado e desenvolver o projeto das novas atividades de minha área com descrição das atividades de controle de segundo nível, ou de nível II.

Bem desafiante 2009, mas está aí para ser saboreado e deglutido, sem falar dos sentimentos, sim, porque o coração reclama e fica rebelde se ficar um pouquinho só esquecido...

Tão despedaçado o coitado mas enfim é preciso, juntar os cacos e tentar uma reconstrução...Afinal, talvez não seja a primeira e nem seja a última que ele tenha sido destituído de outro coração

JOSÉ SIMÃO

É 2009! Acorda, macacada!

Hoje é o Dia Nacional da Dieta! Todo mundo fazendo força para ver se a calça fecha!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Acorda, macacada! Já é 2009! Ai, que preguiça. Tô com preguiça de passar manteiga na bolacha! E hoje é o Dia Nacional da Dieta! Todo mundo fazendo força para ver se a calça fecha! Dia Nacional de Fazer Força para a Calça Fechar!

E um leitor me disse que vai fazer uma promessa diferente pra 2009: "Vou começar a fumar e engordar uns dez quilos". Rarará! E já é 2009! Parece ficção científica. Quando eu era menino, achava que 2009 era coisa de ficção científica. Que as cidades seriam cobertas por redomas de vidro e com ar-condicionado.

E um monte de carro voador. Mas já é 2009, e São Paulo está lotado de carro velho. Se um cachorro mija no poste, dá enchente e, se abrir a porta do carro, dá engarrafamento! E Sampa está tão deserta que parece que teve uma explosão nuclear. Só ficaram as baratas!

Aliás, Sampa está tão deserta, mas tão deserta, que o silêncio está ensurdecedor. Não consigo dormir. O silêncio está muito alto. Rarará! E um amigo meu está tão duro, mas tão duro, que sabe como ele passou a virada? Virando de um lado para o outro na cama, SOZINHO!

E uma amiga é tão insegura, mas tão insegura, que sabe o que ela escreveu na calcinha que ela comprou para o Ano Novo? Você me ama mesmo ou só quer me comer? Rarará!

E a minha promessa, a minha "new year's resolution", é transformar 2009 num saco de risada. Prometo transformar 2009 num saco de risada! E um amigo disse que já está com preguiça de todos os exercícios que ele vai ter que fazer em 2009! E hoje é o famoso e tradicional Dia do Ressacão!

De passar o dia na porta da geladeira! Botar um banquinho na porta da geladeira e ficar tomando água. Uma Foz de Iguaçu com gás! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Alegre, Espírito Santo, tem um motel chamado Entra-Sai! Básico! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete para o óbvio lulante. "Enólogo": companheiro viciado em sal de frutas ENO! Perfeito para o dia de hoje! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E quem não tiver colírio pode pingar Sonrisal com Alka Seltzer!

simao@uol.com.br

RICARDO ANTUNES

A crise

Será que os remédios que faliram no século 20 serão os antídotos da crise que parece liquefazer o capitalismo nos inícios do século 21?

MUITO JÁ se escreveu sobre a crise. Crise dos "subprime", crise especulativa, bancária, financeira, global, réplica da crise de 1929 etc. Floresce uma fenomenologia da crise, em que o que se falou ontem é hoje obsoleto. Os grandes jornais, começando pelo "Economist", falam em "crise de confiança", e a máxima se esparrama. A crise se resume a um ato volitivo. "Fiducia!", diriam os latinos. Eis a chave analítica.

Bush, Sarkozy e Gordon Brown redescobriram, então, o estatismo todo privatizado como receituário para eliminar a desconfiança. O remédio neokeynesiano, sepultado nas últimas quatro décadas, ressurge como salvação para o verdadeiro caminho da servidão.

Aqui, Lula falou em "espirro nos EUA e marolinha no Brasil". E, ao modo dos pícaros, a cada semana aparece uma nova história, com o calão raspando no chão. Pouco importa que a versão mais recente seja o oposto da anterior, pois há um traço de coerência no discurso: falar o que não faz e fazer o que não fala. Versão íngreme do grande Gil Blas de Santillana.

Para além da fenomenologia da crise, vale recordar aqueles (ao menos alguns) que procuraram ir além das aparências. Robert Kurz, por exemplo, vem alertando, desde inícios dos anos 1990, que a crise que levou à bancarrota os países do chamado "socialismo real" (com a URSS à frente), não sem antes ter devastado o Terceiro Mundo, era expressão de uma crise do modo de produção de mercadorias que agora migra em direção ao coração do sistema capitalista.

François Chesnais apontou as complexas conexões existentes entre produção, financeirização ("a forma mais fetichizada da acumulação") e mundialização do capital, enfatizando que a esfera financeira nutre-se da riqueza gerada pelo investimento e da exploração da força de trabalho dotada de múltiplas qualificações e amplitude global. E é parte dessa riqueza, canalizada para a esfera financeira, que infla o flácido capital fictício.

E István Mészáros, há muito mais tempo ainda, vem sistematicamente indicando que o sistema de metabolismo social do capital, depois de vivenciar a era dos ciclos, adentrou em uma nova fase, inédita, de crise estrutural, marcada por um continuum depressivo que fará aquela fase virar história. Não é por outro motivo que, embora alterne o seu epicentro, a crise se mostra longeva e duradoura.

E mais: demonstrou a falência dos dois mais arrojados sistemas estatais de controle e regulação do capital experimentados no século 20. O primeiro, de talhe keynesiano, que vigorou especialmente nas sociedades marcadas pelo "welfare state".

O segundo, de "tipo soviético", que, embora fosse resultado de uma revolução social que procurou destruir o capital, foi por ele fagocitado. Em ambos os casos o ente regulador foi desregulado.

Processo similar parece ocorrer na China de nossos dias, laboratório excepcional para a reflexão crítica.

E, afinal, quem vai pagar a conta? A OIT adverte: para 1,5 bilhão de trabalhadores, o cenário é turbulento e será marcado pela erosão salarial e ampliação do desemprego, não só para os mais empobrecidos mas também para as classes médias que "serão gravemente afetadas" ("Relatório Mundial sobre Salários 2008/2009").

Se uma das três grandes montadoras dos EUA (GM, Ford e Chrysler) fechar as portas, evaporam-se milhões de empregos, com repercussões funestas para o desemprego mundial. O Eurostat, que oferece as estatísticas da União Europeia, calcula que, se a indústria automotiva de lá cortar 25% dos empregos, gerará, numa tacada, 3 milhões de desempregados.

Na China, com quase 1 bilhão que compreende sua população economicamente ativa, cada ponto percentual a menos no PIB corresponde a uma hecatombe social, e os operários deserdados das cidades não têm mais o campo como refúgio.

O PC chinês pode esperar nova onda de revoltas, ampliando o cenário da tragédia atual.

Sem falar nos imigrantes do mundo, errantes em busca de qualquer labor, que agora são expulsos em massa do "trabalho sujo", uma vez que ele também passa a ser cobiçado pelos trabalhadores nativos, inflados pela xenofobia e pressionados pela anorexia social.

Enquanto isso, uma parte grandona da "esquerda" atolou-se tentando remendar o velho sistema do mercado. Está, agora, em estado pasmado. Paralelamente, a magistral crítica da economia política do capital parece renascer das cinzas...

Será que os remédios que faliram no longo século 20 serão os antídotos da crise que parece liquefazer o capitalismo nos inícios do século 21?

RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 55, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Trabalho".

KENNETH MAXWELL

2009: O ano que nos aguarda

2009 SERÁ UM ano repleto de dificuldades. O colapso financeiro mundial tem papel central. Não se trata apenas do que já sabemos sobre os múltiplos esquemas para enriquecer rapidamente, expostos a cada dia, mas também daquilo que não sabemos sobre as manipulações do mercado financeiro por pessoas que imaginavam saber mais do que as demais, usaram o sistema em benefício próprio e realizaram imensos lucros.

Pelo menos até que o edifício todo desabasse sobre elas. Assim, uma coisa é certa sobre 2009: será um período de recomposição -como sempre, doloroso e difícil.
2009 também verá a posse de um novo presidente nos Estados Unidos.

Não se trata do melhor momento possível para assumir a Presidência dos Estados Unidos, mas a posse de Barack Obama significa que teremos um homem jovem e ponderado na Casa Branca, e ele se cercou de assessores experientes.

As dificuldades que enfrentará serão enormes, mas previsíveis: problemas econômicos e desemprego; inadimplências continuadas relacionadas à crise hipotecária; pobreza crescente; as guerras no Iraque e no Afeganistão; e agora a crise na Palestina. Mas ele também traz consigo grandes expectativas e um amplo consenso nacional. A maneira pela qual administrará e conciliará esses interesses concorrentes formará um dos dramas de 2009.

O novo ano verá crescente independência na América Latina. A velha conexão entre América Latina e Estados Unidos se dissolveu. O Brasil assumirá um claro papel de liderança na América do Sul. De certa forma, já o fez, mas a abordagem brasileira quanto ao exercício do poder político do país é discreta.

De fato, o Brasil sempre definiu sua posição como a de intermediário entre seus vizinhos e o mundo mais amplo. A Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva deu novo passo quanto a isso ao promover o desenvolvimento de elos com a África e a Ásia, mas retendo as conexões europeias e norte-americanas do país.
As condições sociais também terão posição de destaque na agenda.

É inevitável que esse continue a ser o caso, mas não é inevitável que alguma coisa seja feita para combater a pobreza na qual milhões de brasileiros vivem. No entanto, Lula tentou confrontar os elementos mais grotescos da estrutura social muito desigual de seu país. Como resultado, manteve sua forte popularidade com o público mais amplo.

2009 verá a questão da sucessão presidencial conquistar destaque na agenda, e Lula continua a ser o principal protagonista. Será um ano difícil para o Brasil financeiramente, como para o resto do mundo. Mas também será um ano de esperança no cenário político.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

KENNETH MAXWELL

2009: O ano que nos aguarda

2009 SERÁ UM ano repleto de dificuldades. O colapso financeiro mundial tem papel central. Não se trata apenas do que já sabemos sobre os múltiplos esquemas para enriquecer rapidamente, expostos a cada dia, mas também daquilo que não sabemos sobre as manipulações do mercado financeiro por pessoas que imaginavam saber mais do que as demais, usaram o sistema em benefício próprio e realizaram imensos lucros.

Pelo menos até que o edifício todo desabasse sobre elas. Assim, uma coisa é certa sobre 2009: será um período de recomposição -como sempre, doloroso e difícil.
2009 também verá a posse de um novo presidente nos Estados Unidos.

Não se trata do melhor momento possível para assumir a Presidência dos Estados Unidos, mas a posse de Barack Obama significa que teremos um homem jovem e ponderado na Casa Branca, e ele se cercou de assessores experientes.

As dificuldades que enfrentará serão enormes, mas previsíveis: problemas econômicos e desemprego; inadimplências continuadas relacionadas à crise hipotecária; pobreza crescente; as guerras no Iraque e no Afeganistão; e agora a crise na Palestina. Mas ele também traz consigo grandes expectativas e um amplo consenso nacional. A maneira pela qual administrará e conciliará esses interesses concorrentes formará um dos dramas de 2009.

O novo ano verá crescente independência na América Latina. A velha conexão entre América Latina e Estados Unidos se dissolveu. O Brasil assumirá um claro papel de liderança na América do Sul. De certa forma, já o fez, mas a abordagem brasileira quanto ao exercício do poder político do país é discreta.

De fato, o Brasil sempre definiu sua posição como a de intermediário entre seus vizinhos e o mundo mais amplo. A Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva deu novo passo quanto a isso ao promover o desenvolvimento de elos com a África e a Ásia, mas retendo as conexões europeias e norte-americanas do país.
As condições sociais também terão posição de destaque na agenda.

É inevitável que esse continue a ser o caso, mas não é inevitável que alguma coisa seja feita para combater a pobreza na qual milhões de brasileiros vivem. No entanto, Lula tentou confrontar os elementos mais grotescos da estrutura social muito desigual de seu país. Como resultado, manteve sua forte popularidade com o público mais amplo.

2009 verá a questão da sucessão presidencial conquistar destaque na agenda, e Lula continua a ser o principal protagonista. Será um ano difícil para o Brasil financeiramente, como para o resto do mundo. Mas também será um ano de esperança no cenário político.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Editorial da Folha

Desafios de 2009

Novos focos de instabilidade e de poder apontam necessidade de fortalecer mecanismos internacionais de decisão

O PRÓXIMO capítulo "será fascinante", diz o jornalista Michael Skapinker, do "Financial Times", comentando as perspectivas globais para 2009. E não se arrisca a maiores previsões, num bem-humorado artigo que a Folha publicou.

"As taxas de juros dos EUA caindo a zero. Boa parte do sistema bancário estatizado. Um presidente carismático na Casa Branca. O que acontece a seguir? Não sei", provoca o articulista, sem dúvida escaldado pela quantidade dos imprevistos registrados ao longo deste ano.

Todavia, se parece mais difícil do que nunca antecipar o futuro, sempre é possível identificar as variáveis e as tendências que se firmam no presente, e o ano de 2008 trouxe evidências quanto a mudanças e desafios que, além do puro aspecto econômico, se impõem no cenário global.

Vários fatos apontam para a crise do atual sistema de poder nas relações internacionais. Embora os EUA concentrem força militar incomparável, entram em crise teorias e práticas fundadas em sua capacidade unilateral de intervenção sobre o planeta.

Novos focos de instabilidade se somam ao frustrado intento americano de impor militarmente um regime pró-ocidental no Iraque, deixando claros os limites de expedições do tipo.

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a Rússia afirmou militarmente a disposição de preservar sua esfera de influência. Em agosto deste ano, sua incursão esmagadora no território georgiano não provocou, nos países do Ocidente, mais do que condenações retóricas.

Irã, Índia, Paquistão e China, com tudo o que os diferencia em termos ideológicos e políticos, mostram a característica comum de emergirem como polos de poder e fatores de desequilíbrio num mundo que uma só hiperpotência, por mais forças de que disponha, não se vê mais em condições de controlar.

Eis uma realidade que se associa à violência da crise econômica e aos permanentes impasses nas discussões sobre o aquecimento global para indicar a importância de um fortalecimento dos organismos internacionais.

O peso conjunto de países como China, Rússia, Índia e Brasil começa a mostrar-se relevante para o futuro da economia mundial -ainda que não se conheça, por enquanto, o real impacto da crise sobre os países emergentes.

Seja como for, não pertence ao ramo da futurologia a constatação de que se acentua, como nunca, a interdependência entre os países e diminuiu a assimetria nas suas relações de poder.

Se, a partir dessa realidade, irão fortalecer-se mecanismos mais amplos de diálogo e decisão é uma questão a que só o futuro responderá. Mas o futuro, ainda que insondável, também é, em parte, resultado da vontade humana. Que, em 2009, ao menos não desesperemos dela.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Boas entradas e melhores saídas!

Feias, bagulhos e mocréias, evitem as praias! Senão, o Ano Novo se assusta!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Boas entradas! Boas entradas e melhores saídas. Porque a última vez que me desejaram boas entradas, eu entrei pelo cano.

Rarará! Então: boas entradas e melhores saídas! E olha o que umas amigas minhas já tão dizendo umas pra outras: FELIZ HOMEM NOVO! Rarará! E uma delas disse que, em vez de entrar, ela quer ser entrada.

E eu acho que vou passar o Réveillon na padaria. Hoje de manhã, entrei na padaria, e os caras: "É aí garoto, tudo bem?". "Vai um cafezinho, meu jovem?". Garoto? Meu jovem? Ueba! Vou passar o Réveillon na padoca. Virada na Padoca!

E só hoje reparei que Réveillon tem acento. Eu achava que só a Ivete Sangalo falava RÉveillon! E essa guerra na Faixa de Gaza no Natal? Eu me lembro de duas frases. "A humanidade não deu certo", de Nelson Rodrigues. "A civilização não se comportou", de Ronald Golias, o Bronco. A civilização não se comportou! E essa manchete: "EUA exigem que Hamas pare de atacar Israel".

E atenção! Feias, bagulhos e mocréias, evitem as praias! Senão, o Ano Novo se assusta e não entra! E o Lula que falou: "No dia 31, os brasileiros vão dormir e acordar no dia 1º com uma vida melhor". Só que ninguém dorme no dia 31. Fica todo mundo em pé. E não vai acordar com uma vida melhor, vai acordar com um fígado pior! Vai acordar fazendo curva quadrada. E com a língua mais seca que língua de papagaio! Rarará!

E um grande conselho para a crise: se não tiver dinheiro pro champanhe, pega um saco de supermercado e estoura. O que importa é o barulho. É que um amigo meu foi pro supermercado e disse que tudo aumentou. No Iraque, tem carro-bomba. E agora no Brasil tem o carrinho-bomba. Carrinho-bomba de supermercado. Explode qualquer saldo! É mole? É mole, mas sobe. Ou como disse aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em São Miguel do Gostoso (RN), tem uma casa de shows chamada Traseirão. Taí um bom programa pra começar 2009: encarando o Traseirão. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Analista": companheiro especializado na vida emocional do ânus. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. Pra ver fogos psicodélicos!

simao@uol.com.br

Ótima quarta-feira - FELIZ ANO NOVO - FELIZ 2009 - ENTRELACOS