sexta-feira, 2 de janeiro de 2009


Jaime Cimenti

Catedral vazia, 2008, 2009, Setembro negro & Barack Obama

Início da tarde, entre um compromisso e outro consigo uns minutos para entrar na Catedral Metropolitana. Beleeeeza, ela está vazia. Vazia ela fica ainda maior e mais silenciosa. Nada contra pessoas, religiosos, fiéis, missas, celebrações etc., mas um templo vazio e silencioso, só com a presença de velas, imagens e estátuas, sempre me fascinou mais.

Fecho os olhos, inspiro só pelo nariz e relaxo das agitações de final de ano. A respiração e os batimentos cardíacos ficam mais compassados, o tempo passa mais devagar. Estou simplesmente vivo. Posso ao menos tentar, por alguns minutos, ordenar pensamentos, ideias, sentimentos. Conseguir ordenar totalmente o caos de dentro e de fora é inviável, isso já sei faz muito.

Mas curtindo o silêncio, a solidão, o altar sem objetos e a atmosfera de eternidade da igreja dá para pensar um pouco em 2008, eleições, problemas e soluções nacionais, setembro negro global desesperançador, Barack Obama esperançado e esperançante e tal. Machado de Assis fez 168 anos em 2008. Comemoramos cem da pretensa morte dele.

Em 2009 podemos comemorar os 170 anos do nascimento do Bruxo, que disse que estamos no mundo, mas não somos do mundo. O Bruxo sentiu, pensou e escreveu muito. Dizem que nos momentos finais ele sentenciou: a vida é boa.

É isso, estamos no mundo, de passagem, mas não somos do mundo. No clima da Catedral Metropolitana vazia fico contemplando a pátina invisível do tempo pairando e pensando que nada é mais velho do que a novidade do jornal de ontem.

Uma crônica de final de ano não precisa, necessariamente, fazer retrospectivas do ano velho, nem lhe botar epitáfios e adjetivos. No Brasil, como se sabe, até o passado é imprevisível. Previsões provavelmente furadas para o novo ano são dispensáveis.

Deus deve estar aqui na Catedral, ou, ao menos, está no meu pensamento. Não pergunto, agora, se ele existe, de onde vim, quem sou e para onde vou. Agora, nesses minutos, fazer orações e estar respirando com calma é o bastante para mim. O que vou entender ou não, o que vou resolver ou não pode esperar um pouco.

Chovia lá fora, mas o sol que atravessa os vitrais nesse momento mostra que o mundo está sendo envernizado mais uma vez. De repente já é alguma preparação para 2009, ou simplesmente a natureza soprando a grande velha novidade: a vida continua. Melhor a gente achar que ela é da boa.

Jaime Cimenti

Aproveite o dia - Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana


Jaime Cimenti
2/1/2009


Heroína visionária, mundo belo e assustador

Belezas perigosas, da dramaturga e escritora norte-americana Libba Bray, é, acima de tudo, um livro intrigante, a começar pela qualidade de visionária da protagonista, moça que herdou um dom sobrenatural, o de ver o futuro. Antes de se profissionalizar como escritora, Libba Bray foi desde garçonete até revisora e, na juventude passada no Texas, sob uma cultura underground, adquiriu uma personalidade excêntrica e direta.

Atualmente, ela mora no Brooklin, em Nova Iorque, com o marido e o filho.
Gemma Doyle, a heroína de Belezas perigosas, não tem os modos impecáveis de outras moças e muito menos a graça e a desfaçatez para mentir em nome da Inglaterra.

Após assistir à morte da mãe duplamente - numa visão perturbadora que logo se confirmou real - no dia de seu aniversário, em uma tarde quente e agitada em Bombaim, ela foi mandada para Londres, onde o irmão se encarrega de matriculá-la na tradicional escola Spence, para moças.

Sob o lema "graça, charme e beleza", a escola guarda, no entanto, em seu bosque, onde às vezes aparecem ciganos, sua capela, seus encantos secretos e mistérios que farão com que Gemma entre em contato com seu dom (ou seria uma maldição?), de forma cada vez mais intensa.

No início, ela é recebida com frieza em Spence, mas aos poucos as coisas vão mudando. O jovem Kartik bem que tenta ajudá-la a lidar com suas visões e alertá-la para os perigos de se envolver numa antiga e nebulosa história.

Mas Gemma não tem medo e encontra em Felicity e Pippa, duas das meninas mais invejadas do colégio, e até mesmo na humilde Ann, o impulso necessário para enfrentar seus próprios fantasmas.

O romance é ambientado na Índia e na Inglaterra do final do século XIX e narrado em primeira pessoa por Gemma, dona de belezas perigosas escondidas no coração e na mente. Ela vai descobrir a ligação de sua mãe com um grupo muito antigo e misterioso conhecido como a Ordem.

O mundo de Gemma é, ao mesmo tempo, belo e assustador e ela tenta conhecê-lo para, quem sabe, dominar uma mente inquieta e um coração cheio de vida, questionamentos e angústias.

Culpa, solidão, desejo e repressão são elementos que regem a sua vida, mas ela tem cabeça para enfrentar tudo. Tradução de Lea Viveiros de Castro, 280 páginas, R$ 37,50. Editora Rocco, telefone 21-3525-2000 .


COMEÇO DE ANO

No Brasil, ao menos, o ano começa de três a dez vezes. Não é qualquer país que tem esse privilégio.

Na maioria dos nações, o ano começa no máximo duas vezes. Em alguns casos, três. Na China, por exemplo, dá para estimar em dois o número oficial de começos de ano, o do calendário ocidental e o do calendário chinês.

Em Israel também dá para falar em, no mínimo, dois, pois há o ano-novo judaico. Não é fácil saber exatamente quantos começos de ano tem cada país. O primeiro começo de ano no Brasil cai sempre no dia 1º de janeiro. É de uma precisão extraordinária.

Talvez seja a única coisa que jamais atrasa entre nós. Já o segundo começo acontece depois do feriado de 1º de janeiro. O problema é quando o 1º de janeiro cai num sábado ou num domingo. Aí, o segundo começo acontece mais cedo para decepção geral do povo.

Na verdade, esses dois começos são quase simbólicos na cultura brasileira. Todo mundo sabe que o 1º de janeiro marca mesmo é o fim do ano de trabalho. Começam de fato as férias. Cidades como Porto Alegre sofrem reduções demográficas impressionantes. Tramandaí salta de menos de 100 mil habitantes para em torno de 1 milhão.

Até São Paulo, não fossem as chuvas de verão, se tornaria habitável. O terceiro começo de ano brasileiro é o que vale. O ano começa realmente no Brasil depois do Carnaval. Isso não é novidade. Somos um dos poucos países do mundo a ter o ano começando em fevereiro ou até em março.

É isso que nos faz diferentes, mais flexíveis, mais legais e com um humor de fazer inveja aos desenvolvidos. Quem começa o ano muito cedo, seguindo o positivismo do calendário, termina mal. Melhor não ter pressa ou ir por partes. O calendário, afinal de contas, é uma convenção histórica. Não existe começo nem fim.

Tem muita gente que só considera o ano começado verdadeiramente depois da Páscoa. É o quarto começo. Outros, ainda mais calmos, entendem que o quinto começo, depois de 1º de maio, Dia de Trabalho, é o que vale. O Brasil tem dessas coisas.

Assim como tem lei que não pega, tem começo de ano que também não pega. Existem mesmo alguns radicais que festejam o começo do ano, o sexto desta lista, em 31 de julho. Para eles, obviamente, o ano começa em 1º de agosto, se não for sábado nem domingo. Viram como é difícil precisar o dia exato do começo de um ano?

Os defensores do começo em agosto alegam que aí, sim, não para mais até 31 de dezembro, salvo por uma breve interrupção na semana da Pátria. Nacionalistas reivindicam o 7 de Setembro, se não for sábado nem domingo, como o real começo do ano verde-amarelo (o sétimo). No Rio Grande do Sul, porém, a semana farroupilha complica um pouco essa definição cívica.

Certos gaúchos garantem que o ano termina para eles no início dos festejos farroupilhas. Outro ano, portanto, começa para esses gaudérios em 20 de setembro (oitavo). Já para certos escritores, editores e leitores, o ano termina ao final da Feira do Livro do Porto Alegre.

A mesma idéia têm alguns patriotas para quem o ano começa com o 15 de novembro (nono). O caso mais radical que pude identificar é o de um grupo de fabricantes de panetone.

Para eles, o ano começa em dezembro e termina no Natal. Fica, então, uma semana a descoberto. Ninguém se importa. Ou está de ressaca. É uma semana em que o tempo passa tão depressa ou tão livremente que nem dá para contar. Afinal, um ano já acabou e o outro ainda não começou.

juremir@correiodopovo.com.br


02 de janeiro de 2009
N° 15836 - JOSÉ PEDRO GOULART


Caráter

Aqui na praia, o Jorge Furtado me empresta o último número da Granta, famosa publicação literária inglesa lançada recentemente no Brasil. A edição tem um artigo do Salman Rushdie e já falaremos dele.

Do Jorge também veio, de presente, um disco com todo o Sérgio Sampaio (se você não sabe quem é, pesquise que vale a pena), um livro, Arlequim, Servidor de Dois Amos, do Carlo Goldoni (nunca vi mais goldoni) e, provando que é eclético, ele ainda me alcançou o CD da menina-prodígio Mallu Magalhães.

O Jorge tem esse espírito de compartilhar as coisas – é impossível ir à casa dele sem que ele mostre uma música recentemente descoberta, um gibi novo, alguma edição literária peculiar.

Diga-se que ele é um sujeito pré-internet, de um tempo em que havia coisas raras e as descobertas dele eram ainda mais valiosas. De todo modo, o caráter propagador do Jorge é muito mais uma forma de diálogo: ele se expressa através do que divulga.

Caráter, aliás, é o tema do artigo do Salman Rushdie na Granta. Ele escreve sobre Heráclito, o filósofo que viveu há 2,5 mil anos e cuja obra permaneceu apenas em aforismos que foram se espalhando em escritos de outros escritores. Um deles, pinçado pelo Rushdie, afirma que “o caráter de um homem é sua sina”: não há como escapar da própria natureza.

Lembrei da fábula da rã e do escorpião. Ao concordar em atravessar o rio com o escorpião nas costas, a rã acaba sendo ferroada por ele, e com isso ambos se afogam. A rã protesta e o escorpião responde: “É a minha natureza”.

Entretanto, a natureza explica muito, mas não explica tudo. O Rushdie procura no acaso, no imprevisível, as razões “sem razões’, e dá exemplos disso no cinema e na literatura. Também indaga, lembrando Borges, que sabia que a história é um jardim de caminhos que se bifurcam: “Não poderia nosso destino ter moldado nosso caráter em vez de o contrário?”

Vinte e cinco séculos nos separam de Heráclito. Nesse tempo todo, muito se discutiu sobre a ideia tentadora de caráter/destino. Outra máxima, porém, essa de Ortega Y Gasset e bem mais contemporânea, diz que “O homem é ele e suas circunstâncias”.

O que no fundo nos leva a uma conclusão mais sucinta (e menos nobre) sobre nós, que é a seguinte: depende.

Bem, mas desde ontem é um ano novo. E eu aqui falando, falando. Lembrei do Dilbert, que, numa daquelas tirinhas geniais, diz o seguinte para o cão Dogbert: “Sabia que a solidão não pode ser curada ouvindo os outros? A gente só se sente vivo e completo quando os outros estão ouvindo você. Sabia disso?” E o Dogbert responde: “Disso o quê?”

Portanto, FELIZ ANO-NOVO, Ô SURDO!


02 de janeiro de 2009
N° 15836 - PAULO SANT’ANA | ALEXANDRE BACH (interino)


Em nome da paixão

Há quase uma tragédia shakespeariana na defesa que fazem parte de meus colegas que atuam na área esportiva e alguns cartolas: em nome da paixão futebolística, vale tudo na área financeira dos clubes.

Vale, inclusive, fazer vistas grossas para deslizes cometidos pelas administrações em relação às leis, rigorosas com empresas e contribuintes, mas cheia de benesses para os cofres dos clubes. Assim, não pagam os impostos em dia ou em prazo qualquer.

Exigem que o Estado gaste com um evento particular (que é uma partida de futebol), colocando a Brigada Militar para conter os ânimos de sócios baderneiros que insistem em manter em seus quadros, mas não querem pagar por isso. Querem serviço privado sem custo algum.

Tudo em nome de paixões.

Quando a situação do tesoureiro fica insustentável, o clube beira a falência, negocia-se um Refis, parcelam-se as dívidas a perder de vista. Tempos depois, o Refis também não é pago. Dane-se o que foi assinado.

Enquanto isso, como se vivessem num mundo onde o dinheiro brota dos gramados direto para os cofres, os dirigentes se mexem a fazer novas contratações, novos investimentos, sob o argumento de que o estádio lota pelo futebol e não pelo balanço financeiro em dia.

Tudo em nome de paixões.

A participação da sociedade neste drama termina aqui. Quando o clube negocia um jogador, aí ninguém mais quer socializar os resultados, neste caso bem positivos, medido em milhões de euros ou dólares. A venda de um atleta para o Exterior é sempre misteriosa, existe um manto de silêncio envolvendo a negociação: os números nunca são anunciados oficialmente pelos dirigentes, os valores não aparecem em balanços, ninguém sabe publicamente quanto entrou nos cofres dos clubes.

À imprensa, cabe apenas especular, com informações extraoficiais, o quanto rendeu uma ou outra transação. O jogador vai, tem despedida no aeroporto, jogo de estreia no novo time. Mas o quanto de dinheiro chegou é um mistério guardado a sete chaves por poucos.

Tudo em nome de paixões.

No meio desse ambiente de clubes que não pagam o serviço privado, não pagam as contas, não pagam as dívidas, não pagam o que renegociam e ainda ganham áreas públicas da cidade para aumentar sua estrutura, rondam empresários, levando jogadores de um lado para outro, pressionando por negociações, ignorando por completo o sonho da torcida de ver um atleta defendendo suas cores (empresário de futebol movido por paixão?

Esqueçam) e aproveitando para tirar sua beira na forma de polpudas comissões, muitas vezes na casa dos milhões.

Num ambiente onde existem mais zonas escuras do que claras, vendem, compram, embolsam o seu, privatizam a paixão e deixam as dívidas com o clube, que a repassa à sociedade. Ao nosso bolso. Ou o leitor acha que ninguém vai pagar o Refis que foi renegociado, mas não quitado?

Tudo em nome de paixões.

Só que paixão que privatiza o lucro e socializa o prejuízo não me serve. Paixão, para ficarmos com Shakespeare, só a de Romeu e Julieta: ou se vive o amor em sua plenitude ou se morre por ele. Mas sempre juntos.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


CONTARDO CALLIGARIS

Um Ano Novo feliz e desconfiado

Meus votos de um Ano Novo corajoso, sem as pequenas complacências do nosso dia-a-dia

SE VOCÊ quer começar o ano com o pé direito (ou seja, como é costume, com alguns bons propósitos), não perca "Um Homem Bom", de Vicente Amorim. O filme, uma produção anglo-alemã, traz para a tela "Good", de C. P. Taylor -peça de 1981, que é uma das grandes meditações literárias sobre a poltronice que pode levar qualquer um às piores cumplicidades.

Viggo Mortensen é o professor Halder, que, na Berlim dos anos 1930, ensina Proust na universidade e se deita regularmente no divã de um psicanalista freudiano. Junto a seu psicanalista (que é judeu e é também seu melhor amigo), Halder observa o nazismo incipiente com um sarcasmo que se torna desgosto quando os livros de seus autores preferidos são destinados à fogueira.

Em suma, tudo prepara Halder para ser um dissidente (eventualmente morno e pouco heroico, mas, mesmo assim, um dissidente). Ora, eis que, um belo dia, a Chancelaria do Terceiro Reich se interessa por um romance que Halder publicou sem grande sucesso. Nele, é narrada a história de um homem cuja amada sofre de uma doença terminal; por amor, o homem aceita ajudá-la a pôr fim a seus dias.

A Chancelaria pede a Halder um ensaio que sirva de fundamento moral para os projetos de "eutanásia" que o regime nazista, "caridosamente", está concebendo para doentes mentais e deficientes graves -na verdade, para todos os "subumanos".

Halder não quer o mal de ninguém -ainda menos o de seu amigo judeu. Mas, aos poucos, ele é enredado numa malha de sentimentos pequenos, banais e dificilmente resistíveis: vaidade, ambição, medo e, talvez sobretudo, preguiça e inércia.

Tornando-se membro do partido e da SS, Halder pode festejar sua promoção: ele é agora chefe de seu departamento universitário. Claro, no dito departamento, não se ensina mais Proust. Também, em sua ascensão, Halder substituiu um colega judeu; é uma pena, mas, afinal, se não fosse Halder, seria outro, não é?

Assim, à força de covardias aparentemente triviais, homens "bons" e comuns se tornam cúmplices de horrores dos quais, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que "não sabiam", "não imaginavam" nada disso.

Ou, melhor ainda, sem mentir propriamente, eles poderão dizer que, se tivessem sabido, se tivessem sido informados, aí sim, eles, "obviamente", não teriam concordado, sua oposição teria sido explícita e vigorosa, mesmo que isso colocasse a perder sua carreira e sua vida.

Alguém observará: o fascismo e o nazismo foram derrotados na Segunda Guerra Mundial, e o sistema soviético desmoronou com o Muro de Berlim -por que é que a gente se debruçaria a esta altura sobre a facilidade de nossa complacência com os totalitarismos?

Seria possível responder que a lista é longa dos totalitarismos, grandes e pequenos, que continuam vivos ainda hoje, e não muito longe de nossa casa. Mas o mais importante é que a complacência com o totalitarismo segue sendo a chave mestra que explica quase todas as patologias de nossa relação com as coletividades (nações, torcidas, religiões, culturas, partidos etc).

Claro, pertencer a um grupo e se deixar levar por ele é sempre menos cansativo do que decidir por nossa conta. A ponto que as razões para aderir ao grupo se tornam indiferentes: o que importa é o conforto que o grupo oferece a seus membros.

Em outras palavras, para não ter que pensar e agir sozinho, o homem "bom" topa qualquer parada. Por exemplo, pertencer ao partido nazista alivia seriamente meu dever (incômodo) de pensar e agir segundo meu foro íntimo; aceito ser antissemita, homofóbico, defensor da supremacia ariana etc. tanto mais facilmente que tudo isso, no fundo, pouco me importa: é apenas um pedágio que pago para ser membro do clube.

Paradoxo crucial: um grupo pode se unir ao redor de uma ideologia ou de uma convicção na qual quase nenhum de seus membros, em sã consciência, acredita, mas que todos compartilham apenas PARA constituir um grupo -ou seja, pelo prazer de sair quebrando vitrinas, linchando negros e "bichas", torturando calouros, apedrejando o ônibus da torcida oposta. E qual é esse "prazer"?

Simples, é o prazer de esquecer a dificuldade de viver, tirando das costas o fardo e a responsabilidade de julgar com a nossa cabeça. Pois bem, aqui vão meus votos de um Ano-Novo corajoso, livre das pequenas (e terrificantes) complacências do nosso dia-a-dia.

ccalligari@uol.com.br

Bem começo 2009 examinando o Relatório de Gestão de uma instituição pública para o PQGF (Programa de Qualidade do Governo Federal), ao mesmo tempo que procuro escrever o projeto de dissertação de meu mestrado e desenvolver o projeto das novas atividades de minha área com descrição das atividades de controle de segundo nível, ou de nível II.

Bem desafiante 2009, mas está aí para ser saboreado e deglutido, sem falar dos sentimentos, sim, porque o coração reclama e fica rebelde se ficar um pouquinho só esquecido...

Tão despedaçado o coitado mas enfim é preciso, juntar os cacos e tentar uma reconstrução...Afinal, talvez não seja a primeira e nem seja a última que ele tenha sido destituído de outro coração

JOSÉ SIMÃO

É 2009! Acorda, macacada!

Hoje é o Dia Nacional da Dieta! Todo mundo fazendo força para ver se a calça fecha!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Acorda, macacada! Já é 2009! Ai, que preguiça. Tô com preguiça de passar manteiga na bolacha! E hoje é o Dia Nacional da Dieta! Todo mundo fazendo força para ver se a calça fecha! Dia Nacional de Fazer Força para a Calça Fechar!

E um leitor me disse que vai fazer uma promessa diferente pra 2009: "Vou começar a fumar e engordar uns dez quilos". Rarará! E já é 2009! Parece ficção científica. Quando eu era menino, achava que 2009 era coisa de ficção científica. Que as cidades seriam cobertas por redomas de vidro e com ar-condicionado.

E um monte de carro voador. Mas já é 2009, e São Paulo está lotado de carro velho. Se um cachorro mija no poste, dá enchente e, se abrir a porta do carro, dá engarrafamento! E Sampa está tão deserta que parece que teve uma explosão nuclear. Só ficaram as baratas!

Aliás, Sampa está tão deserta, mas tão deserta, que o silêncio está ensurdecedor. Não consigo dormir. O silêncio está muito alto. Rarará! E um amigo meu está tão duro, mas tão duro, que sabe como ele passou a virada? Virando de um lado para o outro na cama, SOZINHO!

E uma amiga é tão insegura, mas tão insegura, que sabe o que ela escreveu na calcinha que ela comprou para o Ano Novo? Você me ama mesmo ou só quer me comer? Rarará!

E a minha promessa, a minha "new year's resolution", é transformar 2009 num saco de risada. Prometo transformar 2009 num saco de risada! E um amigo disse que já está com preguiça de todos os exercícios que ele vai ter que fazer em 2009! E hoje é o famoso e tradicional Dia do Ressacão!

De passar o dia na porta da geladeira! Botar um banquinho na porta da geladeira e ficar tomando água. Uma Foz de Iguaçu com gás! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Alegre, Espírito Santo, tem um motel chamado Entra-Sai! Básico! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete para o óbvio lulante. "Enólogo": companheiro viciado em sal de frutas ENO! Perfeito para o dia de hoje! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E quem não tiver colírio pode pingar Sonrisal com Alka Seltzer!

simao@uol.com.br

RICARDO ANTUNES

A crise

Será que os remédios que faliram no século 20 serão os antídotos da crise que parece liquefazer o capitalismo nos inícios do século 21?

MUITO JÁ se escreveu sobre a crise. Crise dos "subprime", crise especulativa, bancária, financeira, global, réplica da crise de 1929 etc. Floresce uma fenomenologia da crise, em que o que se falou ontem é hoje obsoleto. Os grandes jornais, começando pelo "Economist", falam em "crise de confiança", e a máxima se esparrama. A crise se resume a um ato volitivo. "Fiducia!", diriam os latinos. Eis a chave analítica.

Bush, Sarkozy e Gordon Brown redescobriram, então, o estatismo todo privatizado como receituário para eliminar a desconfiança. O remédio neokeynesiano, sepultado nas últimas quatro décadas, ressurge como salvação para o verdadeiro caminho da servidão.

Aqui, Lula falou em "espirro nos EUA e marolinha no Brasil". E, ao modo dos pícaros, a cada semana aparece uma nova história, com o calão raspando no chão. Pouco importa que a versão mais recente seja o oposto da anterior, pois há um traço de coerência no discurso: falar o que não faz e fazer o que não fala. Versão íngreme do grande Gil Blas de Santillana.

Para além da fenomenologia da crise, vale recordar aqueles (ao menos alguns) que procuraram ir além das aparências. Robert Kurz, por exemplo, vem alertando, desde inícios dos anos 1990, que a crise que levou à bancarrota os países do chamado "socialismo real" (com a URSS à frente), não sem antes ter devastado o Terceiro Mundo, era expressão de uma crise do modo de produção de mercadorias que agora migra em direção ao coração do sistema capitalista.

François Chesnais apontou as complexas conexões existentes entre produção, financeirização ("a forma mais fetichizada da acumulação") e mundialização do capital, enfatizando que a esfera financeira nutre-se da riqueza gerada pelo investimento e da exploração da força de trabalho dotada de múltiplas qualificações e amplitude global. E é parte dessa riqueza, canalizada para a esfera financeira, que infla o flácido capital fictício.

E István Mészáros, há muito mais tempo ainda, vem sistematicamente indicando que o sistema de metabolismo social do capital, depois de vivenciar a era dos ciclos, adentrou em uma nova fase, inédita, de crise estrutural, marcada por um continuum depressivo que fará aquela fase virar história. Não é por outro motivo que, embora alterne o seu epicentro, a crise se mostra longeva e duradoura.

E mais: demonstrou a falência dos dois mais arrojados sistemas estatais de controle e regulação do capital experimentados no século 20. O primeiro, de talhe keynesiano, que vigorou especialmente nas sociedades marcadas pelo "welfare state".

O segundo, de "tipo soviético", que, embora fosse resultado de uma revolução social que procurou destruir o capital, foi por ele fagocitado. Em ambos os casos o ente regulador foi desregulado.

Processo similar parece ocorrer na China de nossos dias, laboratório excepcional para a reflexão crítica.

E, afinal, quem vai pagar a conta? A OIT adverte: para 1,5 bilhão de trabalhadores, o cenário é turbulento e será marcado pela erosão salarial e ampliação do desemprego, não só para os mais empobrecidos mas também para as classes médias que "serão gravemente afetadas" ("Relatório Mundial sobre Salários 2008/2009").

Se uma das três grandes montadoras dos EUA (GM, Ford e Chrysler) fechar as portas, evaporam-se milhões de empregos, com repercussões funestas para o desemprego mundial. O Eurostat, que oferece as estatísticas da União Europeia, calcula que, se a indústria automotiva de lá cortar 25% dos empregos, gerará, numa tacada, 3 milhões de desempregados.

Na China, com quase 1 bilhão que compreende sua população economicamente ativa, cada ponto percentual a menos no PIB corresponde a uma hecatombe social, e os operários deserdados das cidades não têm mais o campo como refúgio.

O PC chinês pode esperar nova onda de revoltas, ampliando o cenário da tragédia atual.

Sem falar nos imigrantes do mundo, errantes em busca de qualquer labor, que agora são expulsos em massa do "trabalho sujo", uma vez que ele também passa a ser cobiçado pelos trabalhadores nativos, inflados pela xenofobia e pressionados pela anorexia social.

Enquanto isso, uma parte grandona da "esquerda" atolou-se tentando remendar o velho sistema do mercado. Está, agora, em estado pasmado. Paralelamente, a magistral crítica da economia política do capital parece renascer das cinzas...

Será que os remédios que faliram no longo século 20 serão os antídotos da crise que parece liquefazer o capitalismo nos inícios do século 21?

RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 55, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Trabalho".

KENNETH MAXWELL

2009: O ano que nos aguarda

2009 SERÁ UM ano repleto de dificuldades. O colapso financeiro mundial tem papel central. Não se trata apenas do que já sabemos sobre os múltiplos esquemas para enriquecer rapidamente, expostos a cada dia, mas também daquilo que não sabemos sobre as manipulações do mercado financeiro por pessoas que imaginavam saber mais do que as demais, usaram o sistema em benefício próprio e realizaram imensos lucros.

Pelo menos até que o edifício todo desabasse sobre elas. Assim, uma coisa é certa sobre 2009: será um período de recomposição -como sempre, doloroso e difícil.
2009 também verá a posse de um novo presidente nos Estados Unidos.

Não se trata do melhor momento possível para assumir a Presidência dos Estados Unidos, mas a posse de Barack Obama significa que teremos um homem jovem e ponderado na Casa Branca, e ele se cercou de assessores experientes.

As dificuldades que enfrentará serão enormes, mas previsíveis: problemas econômicos e desemprego; inadimplências continuadas relacionadas à crise hipotecária; pobreza crescente; as guerras no Iraque e no Afeganistão; e agora a crise na Palestina. Mas ele também traz consigo grandes expectativas e um amplo consenso nacional. A maneira pela qual administrará e conciliará esses interesses concorrentes formará um dos dramas de 2009.

O novo ano verá crescente independência na América Latina. A velha conexão entre América Latina e Estados Unidos se dissolveu. O Brasil assumirá um claro papel de liderança na América do Sul. De certa forma, já o fez, mas a abordagem brasileira quanto ao exercício do poder político do país é discreta.

De fato, o Brasil sempre definiu sua posição como a de intermediário entre seus vizinhos e o mundo mais amplo. A Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva deu novo passo quanto a isso ao promover o desenvolvimento de elos com a África e a Ásia, mas retendo as conexões europeias e norte-americanas do país.
As condições sociais também terão posição de destaque na agenda.

É inevitável que esse continue a ser o caso, mas não é inevitável que alguma coisa seja feita para combater a pobreza na qual milhões de brasileiros vivem. No entanto, Lula tentou confrontar os elementos mais grotescos da estrutura social muito desigual de seu país. Como resultado, manteve sua forte popularidade com o público mais amplo.

2009 verá a questão da sucessão presidencial conquistar destaque na agenda, e Lula continua a ser o principal protagonista. Será um ano difícil para o Brasil financeiramente, como para o resto do mundo. Mas também será um ano de esperança no cenário político.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

KENNETH MAXWELL

2009: O ano que nos aguarda

2009 SERÁ UM ano repleto de dificuldades. O colapso financeiro mundial tem papel central. Não se trata apenas do que já sabemos sobre os múltiplos esquemas para enriquecer rapidamente, expostos a cada dia, mas também daquilo que não sabemos sobre as manipulações do mercado financeiro por pessoas que imaginavam saber mais do que as demais, usaram o sistema em benefício próprio e realizaram imensos lucros.

Pelo menos até que o edifício todo desabasse sobre elas. Assim, uma coisa é certa sobre 2009: será um período de recomposição -como sempre, doloroso e difícil.
2009 também verá a posse de um novo presidente nos Estados Unidos.

Não se trata do melhor momento possível para assumir a Presidência dos Estados Unidos, mas a posse de Barack Obama significa que teremos um homem jovem e ponderado na Casa Branca, e ele se cercou de assessores experientes.

As dificuldades que enfrentará serão enormes, mas previsíveis: problemas econômicos e desemprego; inadimplências continuadas relacionadas à crise hipotecária; pobreza crescente; as guerras no Iraque e no Afeganistão; e agora a crise na Palestina. Mas ele também traz consigo grandes expectativas e um amplo consenso nacional. A maneira pela qual administrará e conciliará esses interesses concorrentes formará um dos dramas de 2009.

O novo ano verá crescente independência na América Latina. A velha conexão entre América Latina e Estados Unidos se dissolveu. O Brasil assumirá um claro papel de liderança na América do Sul. De certa forma, já o fez, mas a abordagem brasileira quanto ao exercício do poder político do país é discreta.

De fato, o Brasil sempre definiu sua posição como a de intermediário entre seus vizinhos e o mundo mais amplo. A Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva deu novo passo quanto a isso ao promover o desenvolvimento de elos com a África e a Ásia, mas retendo as conexões europeias e norte-americanas do país.
As condições sociais também terão posição de destaque na agenda.

É inevitável que esse continue a ser o caso, mas não é inevitável que alguma coisa seja feita para combater a pobreza na qual milhões de brasileiros vivem. No entanto, Lula tentou confrontar os elementos mais grotescos da estrutura social muito desigual de seu país. Como resultado, manteve sua forte popularidade com o público mais amplo.

2009 verá a questão da sucessão presidencial conquistar destaque na agenda, e Lula continua a ser o principal protagonista. Será um ano difícil para o Brasil financeiramente, como para o resto do mundo. Mas também será um ano de esperança no cenário político.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Editorial da Folha

Desafios de 2009

Novos focos de instabilidade e de poder apontam necessidade de fortalecer mecanismos internacionais de decisão

O PRÓXIMO capítulo "será fascinante", diz o jornalista Michael Skapinker, do "Financial Times", comentando as perspectivas globais para 2009. E não se arrisca a maiores previsões, num bem-humorado artigo que a Folha publicou.

"As taxas de juros dos EUA caindo a zero. Boa parte do sistema bancário estatizado. Um presidente carismático na Casa Branca. O que acontece a seguir? Não sei", provoca o articulista, sem dúvida escaldado pela quantidade dos imprevistos registrados ao longo deste ano.

Todavia, se parece mais difícil do que nunca antecipar o futuro, sempre é possível identificar as variáveis e as tendências que se firmam no presente, e o ano de 2008 trouxe evidências quanto a mudanças e desafios que, além do puro aspecto econômico, se impõem no cenário global.

Vários fatos apontam para a crise do atual sistema de poder nas relações internacionais. Embora os EUA concentrem força militar incomparável, entram em crise teorias e práticas fundadas em sua capacidade unilateral de intervenção sobre o planeta.

Novos focos de instabilidade se somam ao frustrado intento americano de impor militarmente um regime pró-ocidental no Iraque, deixando claros os limites de expedições do tipo.

Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a Rússia afirmou militarmente a disposição de preservar sua esfera de influência. Em agosto deste ano, sua incursão esmagadora no território georgiano não provocou, nos países do Ocidente, mais do que condenações retóricas.

Irã, Índia, Paquistão e China, com tudo o que os diferencia em termos ideológicos e políticos, mostram a característica comum de emergirem como polos de poder e fatores de desequilíbrio num mundo que uma só hiperpotência, por mais forças de que disponha, não se vê mais em condições de controlar.

Eis uma realidade que se associa à violência da crise econômica e aos permanentes impasses nas discussões sobre o aquecimento global para indicar a importância de um fortalecimento dos organismos internacionais.

O peso conjunto de países como China, Rússia, Índia e Brasil começa a mostrar-se relevante para o futuro da economia mundial -ainda que não se conheça, por enquanto, o real impacto da crise sobre os países emergentes.

Seja como for, não pertence ao ramo da futurologia a constatação de que se acentua, como nunca, a interdependência entre os países e diminuiu a assimetria nas suas relações de poder.

Se, a partir dessa realidade, irão fortalecer-se mecanismos mais amplos de diálogo e decisão é uma questão a que só o futuro responderá. Mas o futuro, ainda que insondável, também é, em parte, resultado da vontade humana. Que, em 2009, ao menos não desesperemos dela.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Boas entradas e melhores saídas!

Feias, bagulhos e mocréias, evitem as praias! Senão, o Ano Novo se assusta!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Boas entradas! Boas entradas e melhores saídas. Porque a última vez que me desejaram boas entradas, eu entrei pelo cano.

Rarará! Então: boas entradas e melhores saídas! E olha o que umas amigas minhas já tão dizendo umas pra outras: FELIZ HOMEM NOVO! Rarará! E uma delas disse que, em vez de entrar, ela quer ser entrada.

E eu acho que vou passar o Réveillon na padaria. Hoje de manhã, entrei na padaria, e os caras: "É aí garoto, tudo bem?". "Vai um cafezinho, meu jovem?". Garoto? Meu jovem? Ueba! Vou passar o Réveillon na padoca. Virada na Padoca!

E só hoje reparei que Réveillon tem acento. Eu achava que só a Ivete Sangalo falava RÉveillon! E essa guerra na Faixa de Gaza no Natal? Eu me lembro de duas frases. "A humanidade não deu certo", de Nelson Rodrigues. "A civilização não se comportou", de Ronald Golias, o Bronco. A civilização não se comportou! E essa manchete: "EUA exigem que Hamas pare de atacar Israel".

E atenção! Feias, bagulhos e mocréias, evitem as praias! Senão, o Ano Novo se assusta e não entra! E o Lula que falou: "No dia 31, os brasileiros vão dormir e acordar no dia 1º com uma vida melhor". Só que ninguém dorme no dia 31. Fica todo mundo em pé. E não vai acordar com uma vida melhor, vai acordar com um fígado pior! Vai acordar fazendo curva quadrada. E com a língua mais seca que língua de papagaio! Rarará!

E um grande conselho para a crise: se não tiver dinheiro pro champanhe, pega um saco de supermercado e estoura. O que importa é o barulho. É que um amigo meu foi pro supermercado e disse que tudo aumentou. No Iraque, tem carro-bomba. E agora no Brasil tem o carrinho-bomba. Carrinho-bomba de supermercado. Explode qualquer saldo! É mole? É mole, mas sobe. Ou como disse aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em São Miguel do Gostoso (RN), tem uma casa de shows chamada Traseirão. Taí um bom programa pra começar 2009: encarando o Traseirão. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Analista": companheiro especializado na vida emocional do ânus. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. Pra ver fogos psicodélicos!

simao@uol.com.br

Ótima quarta-feira - FELIZ ANO NOVO - FELIZ 2009 - ENTRELACOS

LIA ZATZ

Assim caminha a juventude...

E será desse barco, que ainda anda à deriva, que o desenvolvimento sustentável, a utopia deste século, poderá lançar âncora

VAI CHEGANDO ao fim o ano em que se comemorou e se homenageou de diversas formas -festas, debates, palestras, exposições- os 40 anos de Maio de 68. Nesses eventos, foi possível ouvir um discurso repetido como uma espécie de mantra por muita gente da chamada geração 68: "Os jovens de hoje não têm ideais como tínhamos, não lutam como lutávamos".

Causa no mínimo estranheza ver muitos desses sessentões sendo vítimas de conhecida armadilha: manifestar surpresa ao encontrar um jovem que não é contestador.

Inimaginável pensar que não saibam que sempre foi e sempre será uma minoria dentro da juventude a principal alavanca de novas idéias, de mudanças e de revoluções.

Ou não foi assim com a geração 68? Pesquisa realizada em 1967 pela finada revista "Realidade" e citada em caderno especial da Folha sobre o perfil do jovem do século 21 (27/7) mostra que as mudanças revolucionárias, como a libertação da mulher, não eram ideais da juventude como um todo, mas de uma minoria.

O que interessa, portanto, é entender as dificuldades que hoje enfrentam os jovens que tendem a ser contestadores e rebeldes. Muitos filhos da geração 68, ao ouvirem embevecidos os relatos das aventuras vividas por seus pais, chegam ao ponto de afirmar que estes é que tiveram sorte de viver no tempo da ditadura militar, pois sabiam contra o que lutar.

Esses perplexos adolescentes e/ou jovens adultos se deparam com múltiplos adversários ou inimigos, sendo não só difícil identificá-los como localizá-los, nomeá-los, hierarquizá-los e, principalmente, enfrentá-los.

É fácil ficar perdido em época de inigualáveis liberdades, governos democráticos, abundância, crescimento rápido da esperança de vida e comunicação interligando todas as partes do planeta. Sobretudo porque tudo isso coexiste com a insegurança de uma crise financeira anunciada que finalmente atingiu todos e cujas conseqüências ainda são imprevisíveis, com a persistência trágica da fome, da subnutrição, da pobreza, da insatisfação das necessidades mais básicas, da falta de oportunidades em todos os âmbitos, da violação das liberdades, das injustiças e violências cometidas contra pobres, mulheres, negros, deficientes, indígenas etc. e, finalmente, da ameaça à única casa em que todos -brancos ou negros, homens ou mulheres, ricos ou pobres, enfim gente, bicho ou planta- podem morar.

Em tal situação, não há por que se surpreender com o fato de que o jovem deste início de século 21 queira, em sua maioria, atender em primeiro lugar suas necessidades básicas, como se formar, ter emprego, uma carreira, uma casa, uma família. E, sobretudo, não ter tanto medo dos perigos cada vez mais presentes e próximos, como a violência e a Aids.

O Nobel de Economia Amartya Sen já dizia, no livro "Desenvolvimento como Liberdade", que, para pensar em outras demandas, não basta sequer ter as necessidades básicas -renda digna, saúde e instrução- supridas. É fundamental ter também a oportunidade de fazer escolhas e de exercer a cidadania.

Não é difícil constatar que se está muito longe de viver algo parecido.

Mas também é preciso estar atento e sensível para perceber que há, sim, no mundo todo, jovens não conformistas. Uma minoria combativa, discutindo novas formas de fazer política, escancarando em atos coletivos e participativos coisas que acontecem em pleno regime dito democrático.

Como o exílio (dentro do próprio país) de quem não está inserido na economia de mercado. Mais: propondo modos de vida, de produção, de consumo, de trabalho alternativos aos vigentes nas atuais sociedades.

E será certamente desse barco, que ainda anda à deriva, que o desenvolvimento sustentável, a utopia deste século, poderá lançar âncora.

LIA ZATZ é escritora de livros infantis e juvenis. Lançou recentemente em co-autoria com José Eli da Veiga o livro dirigido aos jovens "Desenvolvimento Sustentável, que Bicho é Esse?".

MOACYR SCLIAR

O julgamento de 2008

Tendo ouvido a acusação e a defesa, o juiz deveria dar o veredicto. Faltavam poucos minutos para a meia-noite e todos aguardavam ansiosos

COMO ERA de esperar, o julgamento do ano de 2008 realizou-se na noite do dia 31 de dezembro e deveria terminar impreterivelmente à meia-noite. Primeiro falou o advogado de acusação.

"Meritíssimo, como é de seu conhecimento, este tribunal funciona há muitos anos -quase tantos quanto os réus aqui julgados, que não foram poucos. Já tivemos casos sombrios: 1914, que viu o começo da Primeira Guerra; 1929, que deu de presente ao mundo uma tremenda crise.

Mas acho, meritíssimo, que dificilmente algum ano terá se saído pior que este senhor chamado 2008 e que ali está sentado no banco dos réus. É, como deveria se esperar de um ano que termina, um ancião. Mas anciãos merecem nosso respeito. Esse senhor aí, não. Observe, meritíssimo, a cara debochada desse senhor 2008, muito pouco compatível com a dignidade que se espera da idade avançada.

Há mais, porém. Há um depoimento precioso, e este se refere a um ano que está recém-chegando, o jovem e simpático 2009. Como todos sabem, os anos ocupam sempre os mesmos aposentos por um período de 365 dias -às vezes, e como infelizmente foi o caso com esse sinistro 2008, estendendo-se para 366 dias.

Digo "infelizmente" porque essa malfadada coincidência deu ao 2008 um dia a mais para que ele aumentasse os seus estragos. Que não foram poucos. Disse-me, com justificada indignação, o jovem 2009: "Eu nunca imaginei que teria de viver num lugar tão mal cuidado. Vou ter de passar boa parte da minha gestão arrumando as coisas que o 2008 estragou. Só lamento que essa tarefa tenha tocado a mim. Bem que eu queria ser o 2010".

Mas o que fez o sinistro 2008? Começou permitindo que impostos aumentassem, mesmo depois que a CPMF foi rejeitada. Deixou que a destruição ambiental chegasse a níveis incríveis. Trouxe febre amarela, meritíssimo! E dengue! Doenças que já poderiam estar controladas há muito tempo!

Isso sem falar nos escândalos dos dossiês -aliás, até esse estrangeirismo foi ele quem popularizou. Assistiu, deliciado, ao fracasso da Rodada Doha, que tanto prejudicou o Brasil. E trouxe a crise dos grampos. Grampo, coisa que antes só se via em penteados femininos ou grampeadores, de repente estava nas manchetes.

Mais: foi em seu reinado que ocorreram ataques terroristas em Mumbai -coisa que deve ter aplaudido. Isso sem falar no seqüestro do petroleiro -um navio enorme seqüestrado por piratas da Somália, coisa inédita. Por fim, deu um jeito de fazer as Bolsas desabarem, iniciando uma crise que vai ficar na história.

Por tudo isso, meritíssimo, peço a pena máxima para 2008. Que ele seja retirado de todos os calendários, que sua retrospectiva seja apagada e que nunca mais seja mencionado." Respondeu o advogado de defesa: "Meritíssimo, nós acabamos de ouvir o advogado da acusação atacando o meu cliente.

Como é habitual, ele usou todos os artifícios de retórica para atacar um ano já velho, que não tem forças para se defender. A propósito, é interessante que tenha citado palavras do novo ano, o 2009. Claro, meritíssimo: ele quer ficar bem com quem está assumindo. Provavelmente está de olho em alguma boquinha.

Mas será verdade isso que foi dito com tanta veemência? Será que 2008 só fez bagunçar a casa? Acho que não. É suficiente percorrer o seu relatório de gestão, aliás redigido em termos modestos, comedidos. Ele falou em problemas do Brasil. Quero lembrar, meritíssimo, que, logo no começo do ano, uma conceituada agência classificou o Brasil como um país confiável. Há quantos séculos isso não acontecia?

E outras coisas boas ocorreram no Brasil. A lei seca, por exemplo. A acusação talvez não goste disso -o nariz vermelho do meu colega sugere uma certa afinidade com o álcool-, mas a verdade é que o número de acidentes e de mortes nas estradas diminuiu muito.

A acusação citou grampos, mas quero recordar aqui que, graças a um excelente trabalho de investigação, foram presos Marcos Valério e Daniel Dantas -certo, este último foi solto, mas, pelo menos, experimentou o que é a prisão.

O Brasil também proibiu o nepotismo, coisa que parecia embutida no genoma do país. E que me dizem da descoberta do pré-sal? A esta altura já está meio esquecida, porque as pessoas têm memória fraca, mas o petróleo está lá, esperando por nós.

No plano internacional -à exceção da crise mencionada, que talvez não seja marolinha, mas também não é dilúvio bíblico-, as notícias foram boas: Ingrid Betancourt foi solta, a China mostrou que não é um dragão furioso, realizando as Olimpíadas, e Obama foi eleito -caso a acusação queira rotular 2008 como um "ano Bush".

Por último, mas não menos importante, meritíssimo, o São Paulo conquistou o hexa, um feito obviamente glorioso, como o senhor haverá de admitir, a menos que torça pelo Grêmio.

Por tudo isso, peço que 2008 seja absolvido e que ele suba ao pódio para receber o troféu "Ano do Ano"."

Tendo ouvido a acusação e a defesa, o juiz deveria dar o seu veredicto. Faltavam poucos minutos para a meia-noite e todos aguardavam ansiosos.

Mas o magistrado teve uma crise (não é a palavra do momento?) de tosse. Tossiu durante um bom quarto de hora. Quando finalmente conseguiu falar, o prazo para o funcionamento do tribunal tinha se esgotado e ele marcou nova sessão para 31 de dezembro -algum 31 de dezembro, a definir no futuro. E foi correndo para casa, brindar, com a família e os amigos (incluindo os dois advogados, seus convidados) ao novo ano que começava.

MOACYR SCLIAR, 71, médico e escritor, é membro da Academia Brasileira de Letras e colunista da Folha. É autor, entre outras obras, de "O Texto, ou: A Vida".

ELVIRA LOBATO

Ser ou não ser nacional

NA SEMANA em que a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) aprovou a compra da Brasil Telecom pela Oi, a Folha reacendeu a discussão sobre a falta de instrumento legal para impedir a venda da supertele ao capital estrangeiro.

A constatação é verdadeira, mas desconfio da eficácia de leis ou decretos para manter empresas sob controle nacional à força. A história das telecomunicações está recheada de exemplos nesse sentido.

Durante o regime militar, só empresas sob controle nacional podiam fabricar equipamentos de telefonia no país. Grandes grupos estrangeiros, como a Ericsson, a Nec e a Siemens transferiram artificialmente o controle de suas subsidiárias no Brasil a empresários locais para se beneficiarem da reserva de mercado.

O controle da Nec foi entregue, inicialmente, ao empresário Mário Garnero. Em 1986, graças à intervenção do então ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, o controle passou para as Organizações Globo, o que rendeu até uma CPI.

Depois que a reserva de mercado acabou, no governo Collor, e outros fabricantes puderam produzir livremente no país, Siemens, Ericsson e Nec voltaram a seu controle estrangeiro de origem.

Outro exemplo foi o da banda B de telefonia celular, na segunda metade dos anos 90. Para quem não se lembra, a banda B iniciou a competição na telefonia celular no país. O governo leiloou as concessões em julho de 1997. A legislação exigia que os consórcios fossem controlados por capital nacional.

Também era proibida a troca de controle nos cinco primeiros anos de atividade. Rapidamente as empresas acharam meios de burlar as proibições e iniciou-se o processo de fusão entre elas e de venda para o capital estrangeiro.

Foi em razão dessa tática que o grupo mexicano América Móvil entrou no país e montou a rede da Claro.
Na privatização da Telebrás, em 1998, também houve situação semelhante. A Lei Geral de Telecomunicações estabeleceu prazo mínimo de cinco anos para a mudança de controle acionário das empresas privatizadas.

Porém, seis meses depois do leilão, a UGB (empresa formada pelo Bradesco e Globo) foi autorizada a vender 50% da Tele Norte Celular e da Tele Nordeste Celular ao sócio estrangeiro, Telecom Italia.

A Anatel interpretou que se tratava apenas de um remanejamento de ações entre acionistas e aprovou a venda. Pelo menos no Brasil a história tem provado que controle nacional, por decreto, não funciona.

ELVIRA LOBATO é repórter especial da Sucursal do Rio. Hoje, excepcionalmente, não é publicado o artigo de Antonio Delfim Netto.

CLÓVIS ROSSI

O exílio de Eliot Ness

SÃO PAULO - O delegado Paulo Lacerda é o mais próximo que o Brasil conseguiu produzir em matéria de Eliot Ness, que acabou mais famoso pela série/filme "Os Intocáveis" do que por ter derrotado o crime organizado em Chicago.

Aliás, é justo que a fama venha pelo cinema, já que o crime organizado em Chicago goza de muito boa saúde, como acaba de demonstrar o episódio envolvendo o governador de Illinois, Rod Blagojevich.

Lacerda, em vez de se tornar personagem de cinema, está indo para o exílio, ainda que dourado, na doce e bela Lisboa.

É a grande diferença entre Brasil e Estados Unidos: lá, o xerife vai para o céu ou para o inferno, mata ou morre, mas não vai para o exílio nem para o limbo.

Aqui, não. Quantos dos Al Capones que a Polícia Federal de Paulo Lacerda expôs ao público estão na cadeia? Se eu disser nenhum estarei exagerando? Aqui, tudo é turvo, raros casos chegam de fato ao epílogo quando envolvem criminosos ou suspeitos de colarinho branco.

Tanto que o único punido, até agora, na tal Operação Satiagraha é quem? Sim, sim, é o nosso Eliot Ness, o xerife, enquanto os vários acusados de Al Capone gozam do ar fresco da liberdade -e no Rio de Janeiro, que não perde para Lisboa, a não ser no quesito bala perdida.

Se, como diz o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lacerda é uma das pessoas que ele mais respeita, por que a punição, ainda que seja doce como o é um exílio dourado? (o exílio só é duro quando você não pode voltar para casa sob pena de ser preso).

Nos Estados Unidos, Eliot Ness não conseguiu enquadrar Al Capone em nenhum crime a não ser em sonegação fiscal. No Brasil, a Operação Satiagraha só conseguiu enquadrar o nosso Eliot Ness. É todo um compêndio sobre os usos e costumes da pátria amada. Ainda assim, Feliz Ano Novo.

crossi@uol.com.br

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Para ouvir a mensagem não esqueça de desligar a rádio Guaíba que toca automaticamente ao entrar na página.






FELIZ 2009 - ENTRELACOS

CANDIDO MENDES

Lições e espantos de 2008

A democracia sai, de fato, do anônimo de seus rituais para a virada histórica de página como sustento dos direitos humanos

O RECADO do êxito de Barack Obama foi sobretudo o da obrigatória convivência da democracia com os emergentes sistemas de poder do século 21. Veio à frente desse sucesso uma América profunda que nos trouxe de volta à cidadania arraigada em Estados drasticamente conservadores, como Iowa ou Virgínia do Sul, rompendo todas as previsões de jogo, que afinal fazem das eleições sempre meras alternativas de um mesmo establishment.

O ganho do senador do Illinois livra-nos por outro lado do horror da permanência dos republicanos, o que só cristalizaria de vez o pior fundamentalismo ocidental. Na declaração de George W. Bush, esses valores autorizariam até a mentira política no enfrentamento previsível de uma guerra de religiões.

Se a queda do atual situacionismo afasta a hegemonia política tradicional, a crise financeira deste fim de ano elimina de fato, após as dramáticas reuniões de outubro último, o comando do globo pelo G8, trocado pelo G20 e dando a partida a uma multipolaridade universal.

O desponte dos Brics elimina de vez a noção de centro e periferia, aposentando a visão de um mundo partido em que sobrevivia o fantasma da Guerra Fria.

Não há que ver a catástrofe financeira, porém, como um tsunami na sua chegada às plagas de países continentais, de mercado interno gigantesco e mobilidade social desatada, a modificar as dominantes da prosperidade moderna ainda assentada no balanço das trocas externas e de uma complementaridade de mercados.

De toda forma, não há de pensar numa retomada da crise de 30 nem de um retorno do modelo liberal, de seu dinamismo selvagem e irresponsável pela extraordinária prosperidade da última trintena -esta que acaba agora nos desequilíbrios da ganância confessa, da falta de previsibilidade dos retornos do mercado imobiliário e de seus "subprimes" ou da aposta na obsolescência dos parques clássicos da produção automobilística norte-americana.

As terapias financeira européias, a partir da iniciativa de Gordon Brown, na Inglaterra, reinstalam as cautelas dos controles de investimento público que representam uma vitória póstuma do ideário de Keynes sobre o de Freedman na base da prosperidade, como entrevista por Nixon, Reagan e Bush.

O terrorismo internacional em 2008, no recado de Zawahiri -o guru do Al Qaeda- a Obama, não deixa dúvidas sobre a manutenção do impasse, na medida em que Bin Laden baixará as armas diante do novo homem da Casa Branca, presumidamente nascido de pai islâmico, se voltar à fé de origem e converterem-se, a seu exemplo, os Estados Unidos à crença do profeta.

Não se irá à jihad no entretempo, mas os destruidores do World Trade Center são os mártires precursores de uma nova ordem internacional, que promete conviver com a barbárie ocidental.

Nessa liderança transversa, os Brics eliminam as velhas bússolas Norte-Sul e juntam de vez o crescimento econômico e o reforço democrático em que o Brasil apresenta posição ímpar.

Obama acordará tarde para a América Latina, numa das poucas falhas que hoje abalam as suas prioridades internacionais. Mas o salto histórico que representou a sua vitória, tornando anacrônicos populismos como o de Chávez, reverbera no continente dessa consolidação democrática que lidera o Brasil de Lula, repudiando um terceiro mandato e conservando um paradigma para ficar.

Torna a pretensão à Presidência perpétua de Chávez grotesca, senão patética. A democracia sai, de fato, do anônimo de seus rituais para a virada histórica de página como sustento dos direitos humanos.

No ano em que se celebram os 60 anos de sua declaração, mais do que nunca, são os países da afirmação cidadã, como o nosso, que podem oferecer a melhor garantia ao desenvolvimento, já, e de fato, sustentável.

CANDIDO MENDES, 80, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, é presidente do "senior Board" do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

MARCOS NOBRE

Medo de fantasmas

NO CONTO "Os mortos", de James Joyce, Gabriel Con- roy é o encarregado do discurso da festa na casa de suas tias, que acontece todo ano na época do Natal. Suas hesitações e contradições são as de uma pessoa viva.

Mas que pretende também representar uma nova geração, capaz de lidar com sucesso com o passado, com os mortos.

Diz ele no discurso: "Em encontros como este, sempre nos ocorrem tristes recordações: lembranças do passado, da juventude, de mudanças, de rostos ausentes, cuja falta sentimos.

Nossa passagem pela vida é marcada por muitas dessas recordações e, se tivéssemos de pensar nelas todo o tempo, não nos sobrariam forças para desempenhar corajosamente nossas tarefas entre os vivos". 2008 mostrou que não é nem um pouco fácil viver entre os vivos.

Obama foi entendido como o Martin Luther King que sobreviveu e venceu. A crise econômica de hoje veio dizer que aprendeu a lição de 1929. Já a agitação de 1968 não teve repetição. Cartola e a bossa nova também não.

São experiências que ficaram no passado. Não foram atualizadas como matéria viva do presente.
Reverências e homenagens protocolares receberam Antonio Vieira, Machado de Assis e Guimarães Rosa.

E também a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição de 1988. As comemorações da chegada da corte portuguesa, em 1808, ameaçaram fixar a data como a verdadeira fundação do Brasil. Uma vez mais, ficaram na superfície folclórica.

Em 2008, o passado surgiu, no geral, dessas maneiras assepticamente conservadoras: cuidadosamente progressista, saudosista, reverencial ou folclorizante. Um ano de muito pouco barulho. Como que para não perturbar o sono dos mortos. Medo de fantasmas, com certeza.

Um fantasma apareceu para Gabriel Conroy naquela noite. Sua mulher ouviu uma canção que a deixou triste e chorosa. Lembrou-a de sua juventude e de um rapaz de 17 anos, Michael Furey, que tinha se martirizado por amor a ela, no duro frio irlandês.

Pela primeira vez ela contava essa história trágica a Gabriel. E, pela primeira vez, ele penetrou no mundo de fantasmas em que vivem os vivos: "Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos.

Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se".

O passado e o presente estão repletos de Michael Fureys. Lembrar-se deles, deixá-los falar é a mais corajosa promessa que se pode fazer para o ano novo.

nobre.a2@uol.com.br - MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras nesta coluna.

JOSÉ SIMÃO

2009! O ano do estacionamento!

E quem mais pediu Viagra foi um chefe tribal de 70 anos e quatro mulheres!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Ops, do planeta da piada pronta: "EUA distribuíram Viagra para obter ajuda dos afegãos". Pra eles virarem dedo duro. VIAGRA DEIXA DEDO DURO! E quem mais pediu Viagra foi um chefe tribal de 70 anos e quatro mulheres! Esse vai cair duro! Tomou Viagra e caiu duro!

E em troca de informação, um afegão pediu centenas de Viagra: esse vai transar até com o papagaio. Ou ele coleciona Viagra. Vai empilhar. Fazer uma torre Eiffel de Viagra.

E a filha do Ronaldo Fofônemo se chama Sofia. E um leitor me disse que ela devia se chamar SoFia do Gordo! Rarará! Ninguém deixa escapar nada! E isso que é comercial.

Olha a placa num poste da Baixa do Fiscal, em Salvador: "Jesus é o meu Senhor, e Luiz é pintor, telefone xxxx-xxxx". E atenção! 2009 mandou avisar que só entra depois do Carnaval. E diz que em 2009 teremos um crescimento sustentado. Sustentado por quem? Espero que não seja por mim.

Rarará! E a crise? Acho que 2009 não vai ser o ano do crescimento. Devido à crise, vai ser o ano do ESTACIONAMENTO! Vai ficar todo mundo estacionado e pagando por hora! E um amigo meu tá tão traumatizado com a crise que quando a aeromoça gritou: "Por favor, apertem os cintos", ele rebateu: "MAIS AINDA?". E um outro: "JÁ?! Não dá pra esperar até março?".

E um amigo meu estava sem dormir por causa das dívidas. E aí, sabe o que ele fez? Ligou para todos os credores desejando um Feliz Ano Novo e avisando oficialmente que não ia pagar dívida alguma. Aí, ELES é que estão sem dormir! Rarará!

E diz que as praias estão tão sujas que ninguém mais joga frescobol, é bostabol! E um primo foi visitar a mãe no interior e disse que prefere buraco que pedágio. Dos buracos, pelo menos, a gente consegue desviar! É mole?

É mole, mas sobe! OU como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Conchal tem uma esquina conhecida como DIVA.

Departamento de Investigação da Vida Alheia. Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção!

Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. Porque o Lula continua com a língua plesa no pelu. Rarará. O lulês é mais fácil que o ingreis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br