segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


FERNANDO DE BARROS E SILVA

O vazio e a fúria

SÃO PAULO - Caroline Sustos (sobrenome de guerra) está presa há mais de 50 dias. Ela integra o grupo que pichou um dos andares do pavilhão do Ibirapuera na abertura da Bienal de São Paulo. Aquela que ficou conhecida como Bienal do Vazio virou, enfim, um caso de polícia.

A prisão desta jovem me parece um exagero absurdo e cruel. Sim, há a lei. Mas imagine o leitor se os "artistas" da especulação imobiliária fossem em cana a cada predação do bem público que patrocinam, não raro em conluio com o poder público, para construir esta cidade tragicamente horrorosa e desumana.

Isso não redime outros vandalismos, claro que não. As artes da pichação podem fazer sentido como ritual de grupo, catarse, terapia, mas o resultado é regressivo social e esteticamente. Não há nenhum valor artístico associado à transgressão gravada nas paredes sujas. Trata-se, antes, da irrupção em língua cifrada de um mal-estar pouco digerido na cultura brasileira.

"Nas paredes surgem pichações monótonas, cuja única mensagem é o autismo: elas exorcizam o eu que não mais existe. (...) Nas ações espontâneas expressa-se a raiva das coisas em bom estado, o ódio por tudo o que funciona e que forma um amálgama indissolúvel com o ódio por si mesmo", escreveu Hans Magnus Enzensberger no ensaio "Visões da Guerra Civil", de 1993.

Como se viesse confirmar o diagnóstico do alemão, a garota, com a voz infantilizada, disse o seguinte: "Eu me identifico com o vazio. Sentia falta de alguma coisa na minha vida, fazia coisas e nada cobria aquilo. Sentia um buraco. Comecei a pichar, foi tapando aos poucos..."

Entre o vazio existencial da jovem Sustos e o vazio conceitual da Bienal há menos identificação do que antagonismo: a fúria da primeira é um impulso desesperado de vida que traz à luz o espírito burocrático e mortificante da segunda.

O templo da arte contemporânea (a Bienal) faz aqui o papel (ou papelão) de museu do que há de pior na tradição nacional. Ou esse qüiproquó artístico-policial não é um sinal das nossas iniqüidades de sempre?
Elton John perde briga na Justiça contra jornal inglês
Dave Chidley/AP

O cantor britânico Elton John perdeu uma ação judicial contra o jornal inglês "The Guardian", após a Justiça londrina ter considerado que o músico confundiu "ironia e brincadeira" com "difamação".

A sentença protegeu jornalistas que publicam brincadeiras sobre personalidades

A sentença protegeu jornalistas que publicam notas irônicas ou brincadeiras sobre personalidades. Após a decisão, os advogados do cantor declararam que recorrerão da sentença. O processo dizia respeito a um artigo publicado no último mês de julho.

A nota imitava um diário pessoal imaginário de Elton John, que mencionava uma festa anual de trajes brancos organizada pelo cantor para arrecadar fundos para sua fundação contra a Aids. "Naturalmente todos podem doar dinheiro se estiverem interessados nas pesquisas sobre a Aids", satirizava o falso diário.

"Porém nós queremos dar aos convidados uma festa extravagante e pomposa porque eles são o tipo de gente que não moveria um dedo por nada menos", escreveu a jornalista, como se fosse o cantor escrevendo em seu diário. A nota também incluía algumas fotos da revista "OK!" sobre o evento, no qual os convidados deveriam se vestir de branco.

Após a publicação, o cantor afirmou que o artigo sugeria que sua dedicação à caridade não era sincera e que usava o evento "como uma ocasião para se reunir com celebridades e para autopromoção".

Além disso, Elton John disse que o jornal usou de má fé, mas o juiz deu ganho de causa ao "The Guardian", afirmando que o cantor interpretou de forma errada a "brincadeira".

Alan Rusbridger, editor do jornal, elogiou a decisão judicial. "Lamentamos que Elton John tenha perdido seu senso de humor", declarou.

Foram confirmados nesta terça-feira (4) dois shows do cantor inglês Elton John no Brasil. Ele se apresenta no dia 17 de janeiro em São Paulo, no Anhembi, e dia 19 no Rio de Janeiro, na Praça da Apoteose. O cantor traz ao Brasil a turnê "Rocket Man" e, de acordo com a agenda disponível em seu site oficial, os shows no Brasil serão os primeiros do cantor em 2009.

Brasil

O cantor vai se apresentar no Brasil em janeiro de 2009. Em São Paulo, a apresentação será no dia 17 de janeiro e, no Rio de Janeiro, será no dia 19.

Elton John e sua banda apresentarão cerca de duas horas de sucessos acumulados ao longo de quatro décadas, incluindo clássicos como "Rocket Man", "Your Song", "The Bitch is Back", "Don't Let the Sun Go Down on Me" e muitos outros.

A turnê "Rocket Man" começou em 2007, logo após o lançamento do CD "Rocket Man - The Definitive Hits".

Aqui no Brasil, Elton John se apresentará acompanhando de sua banda: Davey Johnstone (guitarra e vocal), Guy Babylon (teclado), Bob Birch (baixo e vocal), John Mahon (percussão e vocal) e Nigel Olsson (bateria e vocal).


15 de dezembro de 2008
N° 15820 - KLEDIR RAMIL


Um findi a fuzel

Assim ó. Todo mundo tinha ido pra Atlântida e eu pensei: “Bem capaz que eu vou ir, isso não vai dar um quilo”. Não sei a troco de quê, acabei fondo. Azar é do goleiro.

Deu no rádio que o tempo ia abrir e entrei numas de pegar um sol e dar uma perneada. Pedi o carro pro pai, passei na Lomba do Pinheiro pra pegar o Magrão e encarei a Freeway.

Cheguei lá, primeira coisa, botei um chinelo de dedo. Aí, peguei uma bici e fui no super comprar umas berga. Parei na sinaleira e vi que tinha uma galera tri massa na lancheria da esquina. Entrei, pedi um refri e fiquei ali de canto.

Eram aquelas guria do Anchieta, que eu conheci no Parcão. E eu, loco de faceiro, pois tava lá aquela alemoa, com cara de colona, dando sopa. Pra tu vê que eu não sou chinelão, cheguei junto e mandei um texto tri profí. A alemoa se abriu pra mim: “Bah, tu é parceiro, dos meu, cara”.

Mas ah! Baita balaqueiro! Te liga, então. Aproveitei que eu tava bem na foto e chamei ela pra dar uma volta de carro. A guria tava tri a fim de ir pra Santa. Fui. Peguei a Brioi, que vai dar em Floripa, e acelerei. Pra tu ver como são as coisa. A familia da mina tem uma baia dessas de veranear, na Lagoa da Conceição. Pensei comigo: “Vai ser um findi a fuzel”.

Aí a gente chegou e a guria pirou na batatinha, viajou na maionese. Entrou numa nóia, tipo cheia de dedos. Não podia mexer em nada, nem fazer barulho, pra não sujar “com as véia aí do lado”. Maior saco, cortou o barato.

Na hora do vamo ver, não rolou. Sei lá, travei. Falei pra mina bem nessas: “Aí, não deu liga”. Ela resmungou “tô de cara” e comecou a chorar. Pegou uma garrafa de vodca e mamou no gargalo. Tomou um balaço.

Chamou o Hugo, fez o maior porquinho. É brincadeira! Ainda bem que foi na patente. Pedi arrego. Fechei um chimas, botei um calção e fui pra sacada, lagartear. A mina chegou pro meu lado: “Aí ó, baita sanduba que eu fiz pra ti, na responsa”.

Olhei de revesgueio. Era um cacetinho com umas gororoba dentro. Periga, a mina nem lavou as mão. Dei um godô e fiquei pensando: “Bah, eu me meto em cada indiada”.

Eu já tava ali há horas, louco pra picar a mula. Foi quando tocou o celular. Era a Li me chamando prum churras tri a fu no Campeche. Não falei nada pra não alertar os ganso. Mas a pinta se tocou e queria se escalar pra ir junto. Aí fechou o tempo. Montei num porco. “Tchê, qual é o teu pastel?”.

Recolhi as tralha e me mandei. Deixei a mina lá. Deu pra mim.

Dia 20, espero todos vocês no Caminho do Livro para bate-papo e autógrafos. Será às 14h30min no ICBNA (Riachuelo, 1257).


15 de dezembro de 2008
N° 15820 L.F. VERISSIMO


Lugares estranhos

O comunismo pegou onde menos se esperava - na Rússia, terra de camponeses e místicos, e na exótica China. Não deve surpreender que o socialismo triunfe em outros lugares estranhos: a GM, o Citibank...


Na coxa

Me pediram para comentar o Vicky Cristina Barcelona. Gostei pela Vicky, pela Cristina, por Barcelona e principalmente pela Penélope, mas me pareceu um filme meio relaxado. Dá para imaginar o Woody Allen escrevendo o roteiro em cima da coxa, no quarto do hotel, louco para voltar pra casa.

Há personagens que aparecem e desaparecem sem função ou explicação, e o Woody Allen poderia ter nos poupado, e ao seu currículo, o pai pintor do Javier Bardem, que não pinta mais porque há pouco amor no mundo. E para o Bardem o filme veio muito em cima do seu papel anterior, como o bandido do cabelo armado dos irmãos Coen. Passei todo o filme esperando que ele estrangulasse alguém.


Sujou?

Falando em cabelo... O governador de Illinois merece ser banido da política duas vezes, pela corrupção e pelo penteado. A direita americana já caiu em cima do Barack Obama por causa da sua ligação com o governador Blagojevich, acusado de querer leiloar a cadeira do Senado que o Baraca desocupou.

Os investigadores disseram que o presidente eleito não tem nada a ver com as manobras, ou com o penteado, do governador, que pela lei é quem nomeia o novo senador, mas o Baraca fez sua carreira na notoriamente corrupta política do Estado, que agora ganha um incômodo destaque com as acusações a Blagojevich – dando razão, implicitamente, a tudo que os republicanos diziam durante a campanha sobre as origens obscuras do candidato democrata.

Chicago foi a capital do crime organizado americano e tem uma tradição paralela de política suja, como a dos tempos do prefeito Dailey, que dominou o Partido Democrata local durante anos, era um populista a serviço do grande capital e fez a carreira de muita gente – inclusive a do seu filho, que hoje é o prefeito. Obama se criou, politicamente, neste meio de caciques e aproveitadores. Para a direita, ele não pode não ter se sujado.

Perplexidade

Fico pensando no trabalho que terão os historiadores do futuro para entender o governo Lula. Nunca um presidente foi tão odiado e ridicularizado, nunca um presidente foi tão aprovado.

Nem a raiva nem o amor são muito racionais, existem num plano subjetivo à prova de fatos. A raiva parece visceral, feita em grande parte de preconceito e ressentimento. O amor persiste contra todas as notícias de escândalos e desmandos.

Talvez com a perspectiva histórica o fenômeno não pareça tão raro. Getúlio Vargas também foi amado e execrado em proporção parecida. Juscelino também dividiu.

Mas até daqui a uns 50 anos, quando a perspectiva histórica nos dirá o que houve, a perplexidade com o Lula permanecerá.


15 de dezembro de 2008
N° 15820 - PAULO SANT’ANA


Desigualdade nos reajustes

Ouvi o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) dizer que a preocupação do governo não é com a inflação. A apreensão governamental é com a provável queda na produção e no emprego.

O governo não se preocupa com a inflação, entre outros tantos fatores, porque não reajusta baseado nela os proventos dos aposentados do INSS.

A lógica do governo quanto aos proventos dos aposentados é que eles não precisam ser reajustados dignamente, em face de que mantêm suas aposentadorias de forma perpétua.

Esse é o mesmo raciocínio do governo estadual gaúcho, se os funcionários públicos mantêm seus empregos, não necessitam ser reajustados. Não importa que se miserabilizem, o que importa é continuarem recebendo seus parcos vencimentos até a aposentadoria ou a morte.

O mandamento constitucional de que os cidadãos têm direito a reajustes anuais com base na inflação é jogado no lixo pelo governo Lula e pelo governo Yeda, mas só no que se refere aos aposentados e aos setores majoritários do funcionalismo público.

Em outros setores, os reajustes são distribuídos a mancheias, em grande parte das vezes com níveis acima da inflação, criando-se dessa forma a divisão bem clara no funcionalismo: os que são reajustados todos os anos e os que não são reajustados nunca.

No meio deles, os aposentados do INSS, que ganhavam 10 salários mínimos de proventos, foram baixando para 9, 8, 7, 6, 5 salários mínimos, tudo indicando que em poucos anos todos os aposentados do INSS ganharão apenas um salário mínimo, brutal injustiça de empobrecimento de pessoas que tiveram seus descontos de previdência feitos sobre base salarial mais alta, numa vida inteira de trabalho, completamente desconhecidos e desprezados pelos governantes no curso das aposentadorias.

Ou seja, faz-se a Constituição, erige-se o princípio de que todos são iguais perante a lei, mas quando a lei cai nas mãos dos homens para ser adaptada à realidade, grupos representativos abocanham os privilégios e segmentos sem representatividade, como os aposentados do INSS e grande parte do funcionalismo público estadual, entre eles os policiais e os técnico-científicos, vêem minguar clamorosamente seus ganhos na comparação com os privilegiados.

Não se queira que o princípio de que todos são iguais perante a lei signifique ganhos iguais para todos: há uma hierarquia salarial necessária.

No entanto, quando dos reajustes, o índice teria de ser igual para todos. Manter-se-ia a hierarquia salarial, mas, para que ela própria não fosse violada, uns não podiam ser reajustados em seus ganhos em nível superior aos outros. A percentagem de reajuste tinha de ser rigorosamente a mesma para todos.

Mas não é. E se instala a bagunça salarial. Ou melhor, a perversidade salarial, em que uns são mais titulares de direitos do que os outros, outros são menos beneficiados de direitos do que uns.

Uma coisa é a lei, outra coisa é a marra. Quando a lei não é cumprida, instala-se o ambiente ideal para a marra.

A marra quase sempre é originada nos atos governamentais. Mas a Justiça existe para conter a marra dos Executivos e dos outros dois poderes.

Quando a Justiça se torna indiferente à marra dos Executivos e dos poderes, está instalada a desigualdade.

Os aposentados do INSS e grande parte dos funcionários públicos estaduais são presas indefesas da marra, da prepotência, da desigualdade de tratamento salarial por parte do governo Lula e de sucessivos governos estaduais.

E mais ainda se tornarão vítimas dessa iniqüidade porque foram tanto sufocados pelos governos que já não têm mais voz.

domingo, 14 de dezembro de 2008


BRUNO YUTAKA SAITO

Sofia Coppola revela talento em drama sobre a juventude

Em sua estréia na direção, filha de Francis Ford aborda irmãs nos anos 70

Em 1999, quando estreou na direção com "As Virgens Suicidas", que tem lançamento em DVD, Sofia Coppola ainda era lembrada apenas como a adolescente nariguda que tivera uma atuação constrangedora em "O Poderoso Chefão 3" (90).

Foi ao entrar em contato com o livro homônimo de Jeffrey Eugenides que Sofia encontrou a maneira de se reinventar como artista. Ela tinha à mão uma trama contemporânea, escrita como se fosse um romance clássico, como explica o making of do DVD.

É fácil, hoje, após a consagração com seus filmes seguintes, os excelentes "Encontros e Desencontros" (03) e "Maria Antonieta" (06), entender as razões pelas quais o livro de Eugenides fascinou a diretora. Sofia começava ali a definir seus temas essenciais, perseguidos e seguidos à risca nessas produções.

Mais do que um cinema de "mulherzinha", ou feminista, como um olhar mais rasteiro poderia sugerir, ela adota visão cúmplice sobre a alienação, carregada de um sentimento de não-pertencimento, algo que extrapola as definições de sexos.

Com "Virgens...", tais sensações vêm em estado bruto, já que o foco é a adolescência. Uma das idéias que resumem o filme está na fala de Cecilia, a irmã mais nova, após tentativa de suicídio. "Você não tem idade para saber o quanto a vida fica difícil", diz o médico, no que ela responde: "Obviamente, doutor, você nunca foi uma garota de 13 anos".

A questão não é entender as razões do que o título do filme entrega -a repressão dos pais não explica o ato das cinco irmãs. Prevalece o inexplicável.

A estrutura escolhida por Sofia garante a magia. A história vem narrada por homens que na época -o longa se passa nos anos 70- eram apenas moleques apaixonados pelo quinteto. Eles relembram garotas que permanecerão para sempre em suas memórias, perfeitas, belas e intocadas.

Sofia parece evocar astros que morreram jovens, como James Dean ou Marilyn Monroe, para vasculhar o voyeurismo e o fetichismo.

Para completar, a trilha do duo francês Air garante o clima onírico, de beleza mórbida, necessário a esse filme que só melhora com o tempo.
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AS VIRGENS SUICIDAS
Direção: Sofia Coppola
Distribuidora: Paramount (à venda exclusivamente nas lojas da rede
2001; site: www.2001video.com.br, por R$ 19,90)
Classificação: não indicado para menores de 16 anos
Avaliação: bom

FERREIRA GULLAR

Foi ontem, há 40 anos

Me fizeram entrar e trancaram a porta. Um preso falou: "Não se preocupe, deita e dorme"

MORÁVAMOS À rua Visconde de Pirajá, 630, em Ipanema, esquina com Henrique Dumont, onde hoje há um obelisco.

Era 13 de dezembro de 1968, mal passava das sete da noite, quando chegaram João das Neves e Pichín Plá, nossos companheiros do Grupo Opinião. Iríamos ao cinema, junto com Vianinha, que logo deveria chegar.

Teresa se aprontava no quarto, quando tocou a campainha da porta e eu fui atender, certo de que era o Vianinha. Mal abri a porta, um oficial do Exército, em roupa da campanha, perguntou se ali morava Ferreira Gullar, respondi que sim e ele entrou, seguido de dois soldados.

"O senhor está preso por ordem do governo." Neste momento, Teresa interpelou o oficial: "O senhor tem um mandado de prisão contra meu marido?" Ele apontou para a televisão: "Não precisa ordem de prisão.

Escute aí". Na tela, via-se a figura de Gama e Silva, ministro da Justiça da ditadura, lendo um documento: "Ficam suspensos todos os direitos dos cidadãos..." Era o Ato Institucional nº 5, que, ontem, fez 40 anos.

Pichín e João assistiam a tudo, apreensivos. Podia sobrar para eles, que eram também militantes na luta contra o regime. "Nosso cinema já era", disse a eles. "Vão vocês que já está quase na hora." Minha preocupação era evitar que o Vianinha entrasse ali.

Os dois saíram. Vesti o paletó, que estava no espaldar de uma cadeira, e perguntei ao oficial: "Posso tomar água?" Entrei na cozinha, abri a geladeira, tirei do bolso a caderneta de endereço e joguei-a lá dentro, antes de pegar a garrafa.

Eles vasculharam demoradamente o apartamento. Em meu quarto, recolheram alguns exemplares de um jornal clandestino.

Quando tentaram entrar no quarto onde estavam meus filhos, Luciana, a mais velha, de 13 anos, reagiu. Eles desistiram e saíram comigo para um jipão do Exército estacionado em frente ao edifício. Entramos e o veículo se dirigiu até a rua Francisco Sá, onde parou, descemos e entramos num restaurante.

O oficial perguntou se eu queria comer alguma coisa, respondi que não. Eles comeram, voltamos para o jipe que tomou o rumo da Vieira Souto e parou em frente ao edifício onde morava Millôr Fernandes.

O oficial desceu com um dos soldados, mas não conseguiu entrar no prédio. Agora o veículo seguia pela Nossa Senhora de Copacabana, mas dobrou na Bulhões de Carvalho, como se fosse voltar para Ipanema. É que ali morava Paulo Francis.

Foram até a entrada do edifício e voltaram. "O pilantra está viajando", disse o oficial (que era o famoso capitão Guimarães, hoje bicheiro e presidente da Liga das Escolas de Samba) ao soldado que dirigia o jipe. "Vamos para a Vila Militar."

Foi uma longa viagem. Finalmente chegamos, fui levado para uma sala onde me revistaram, me tomaram o relógio, a caneta, o chaveiro, a carteira de dinheiro e os documentos. Fui levado por um corredor escuro, ladeado de portas com grades de ferro.

O soldado abriu uma dessas portas, acordando as pessoas que ali estavam. Me fizeram entrar e trancaram a porta. Fiquei um tempo, atônito, quando um dos presos, de uns 50 anos, me falou: "São uns putos. Não se preocupe, deita aí e dorme".

Naquele xadrez, denominado X-13, havia quatro presos: Ferreira, o mais velho, dono de uma oficina de guarda-chuvas, acusado de guerrilheiro; um rapaz, de menos de 20 anos, da mesma organização, e dois outros presos por equívoco:

um paraibano, recém-chegado ao Rio, por ter alugado inadvertidamente uma casa que servira de "aparelho" ao pessoal do Marighella; e finalmente, um funcionário público, por ter o mesmo nome de Antônio Callado, escritor e jornalista.

Este, ao saber que eu era escritor e amigo de Callado, implorou-me: "Então, diga a eles que eu não sou o Antônio Callado que eles pensam que eu sou!" Era quase engraçado. "Mas como vou dizer, se estamos incomunicáveis?"

Três dias depois, chegou Paulo Francis, diretamente do hotel Waldorf Astoria de Nova York. Entrou pálido, assustado.

À hora do almoço, não conseguiu comer. "A gororoba é intragável", disse-lhe, "mas sem comer não vai agüentar esta merda". Terminou comendo e, uma semana depois, batia nas grades, reclamando pelo almoço que demorava.

Em breve o xadrez estava superlotado. O primeiro a ser solto foi o falso Callado, depois o paraibano. Eu e Francis saímos, ambos, no dia 2 de janeiro. Fora o gás que soltaram na cela, passamos incólumes por ali. Mas aquilo era só o começo.

DANUZA LEÃO

Falando de comidas

Vamos reconhecer: quem vê pela primeira vez uma feijoada se assusta com sua aparência; é preciso explicar

UMA FEIJOADA bem feita, com todos os pertences, como se dizia antigamente, é uma coisa muito boa. Maravilhosa, eu diria. Mas é preciso ter uma certa cultura gastronômica para apreciar devidamente esse prato divino.

Vamos reconhecer: quem vê pela primeira vez uma feijoada se assusta com sua aparência. As pessoas gostam de saber o que estão comendo, e quem olha para aquele festival de negrumes não pode supor do que se trata.

Por isso, quando um estrangeiro amigo nos visita, é uma temeridade convidá-lo para uma feijoada -o que, aliás, fazemos sempre. É preciso, antes, explicar, pacientemente, do que se trata, e também lhe dar uma outra opção. O feijão é simples; mas as carnes?
Uma feijoada de fé tem que ter paio, linguiça, carne-seca -gorda e magra-, língua defumada, orelha, rabinho, toucinho defumado, lombo, costela, carne de boi, bacon e chispe -que é o pé do porco.

Além disso, como acompanhamento, tem o arroz, a farofa, a couve, a laranja e o torresmo, a oitava maravilha do mundo, que é o couro do porco frito; às vezes ele vem com um fiozinho de cabelo, uma prova da autenticidade do produto. Tudo regado com uma boa pimenta malagueta, é claro.

Para que esse manjar dos deuses seja servido condignamente, as carnes têm que ser servidas separadas, e só quem conhece e aprecia reconhece, num primeiro olhar, todas elas. Se não sabe, é preciso que alguém explique, e se for em outra língua, a situação se complica.

Agora, que está chegando o verão e com ele os estrangeiros, é o momento apropriado das feijoadas. Num calor de 40C, tudo começa com as batidas; depois de umas três, e com o samba como fundo musical, é servida a feijoada, e é preciso um guia que fale muito bem a língua do turista para traduzir, item por item, o que contém cada travessa.

Com os franceses não tem problema, pois eles comem de tudo, mas com os gringos mesmo -americanos e alemães- a coisa já fica mais perigosa. E a pimenta, como explicar que é fundamental?

É preciso levá-los também a um restaurante baiano, fazê-los provar um acarajé e depois passar para um sarapatel com bastante pimenta-de-cheiro, e mais um vatapá, um siri mole, ou uma simples moqueca com bastante dendê. Talvez ele passe mal depois, mas tudo tem seu preço.

Outro dia fui a um restaurante chique e moderno no Rio, e quatro pratos foram servidos. Detalhe: a louça, branca, era gigantesca.

A primeira iguaria foi uma espécie de bolinho -delicioso, por sinal- recheado de foie gras. Um só. A segunda, três dedinhos de sopa com uns legumes cortados na vertical, com -me disseram- uma fatia de atum tão fina, mas tão fina, que eu não a percebi. A terceira, pasmem, era um camarão.

Um camarão sozinho, sem acompanhamento de nada, reinando absoluto naquele prato imenso; de dar pena de sua solidão.

E por fim, dois pedacinhos de carneiro deliciosos, que meu gato comeria em duas mordidas.

É triste a gente sentir que não consegue acompanhar os tempos modernos. Eu até tento, e em muitas coisas consigo, mas na gastronomia é inútil, já desisti.

Por isso, quando combino de jantar com alguém, já no telefone pergunto "e onde vamos?" Se for num desses modernos, estou fora. Afinal, respeito é bom e eu gosto.

Um camarão sozinho num prato: fala sério. Mas os restaurateurs, além de estarem fazendo muita gente de boba, devem estar bilionários, pois esse tipo de comida é caro.
Aliás, caríssimo.

danuza.leao@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ronalducho! Fiel é nome de balança!

Um são-paulino me disse que torcedor do São Paulo é torcedor múmia. De tanta faixa!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! E esse é o slogan natalino da crise: Peru Mole e Papai Noel Duro.

E os Reis Magos estão perdidos no deserto. Desligaram o cometa. Devido à crise desligaram o cometa! E o Timão vai ter um Natal Gordo! RÔ RÔ RÔ Ronaldo!

E pra ver a apresentação do Ronaldo no Corinthians tinha de doar 1 kg de alimento. Assim o cara não vai emagrecer nunca! Mas pense bem: o cara já comeu todas, agora ele quer comer TUDO! Rarará!

E o Timão confirma: as camisetas do Ronalducho estão lançadas. As camisinhas, só quando os travestis chegarem. Rarará! E camisa do Ronaldo é boa porque serve como barraca. Barraca de camping!

E um palmeirense me disse que o Ronaldo pegou uma traveca pensando que era mulher. E agora vai jogar no Corinthians pensando que é time. E avisa pro Ronaldo que Fiel é marca de balança! Rarará!

E um são-paulino me disse que torcedor do São Paulo é torcedor múmia. De tanta faixa, da cabeça aos pés. Múmia Bambi. E sabe quanto o Ronaldo vai ganhar no Corinthians? Três paus por noite. Rarará!

E sabe o que um bambi falou pro outro: "Não fala hexa, fala tri bi que é mais chique". O São Paulo não é hexa, é TRI-BI! E ainda bem que o Lula é corintiano, senão como ele ia conseguir falar "hexacampeão"?

Aliás, o Lula lançou um novo call center: o SKOLL CENTER. Pra reclamar que a cerveja tá quente!
E pra desespero da Miriam Leitão o Brasil não tá em crise. Uma amiga chegou da 25 de Março toda roxa. De tanto levar cotovelada.

E um amigo foi pro shopping Eldorado e tava bombando: todo mundo de sacola. Ou é sacola emprestada ou é a mesma do ano passado. O Brasil não tá em crise. Olha a faixa que eu vi: "Igreja Evangélica do Templo da Verdade. Reunião da Conquista. Crise mundial.

Saiba como não ser afetado por ela. Palestra Pastor Alexandro". Vamos botar o Pastor Alexandro no lugar do Meirelles! Não tá em crise, mas os shopping estão lançando o chequeporto. Aeroporto pra cheque voador!

E já saiu o corno Papai Noel: aquele que vai embora, mas volta por causa da crianças. Rarará! E diz que esse ano vai ser o Natal do IPOD. Ipod parcelar em dez vezes?

Ipod dar um desconto? Ipod não comprar presente pra ninguém? E o Gornaldo vai lançar um spa no Corinthians: o SPArque São Jorge.

Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou como disse aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece!
Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje, só amanhã!

simao@uol.com.br

sábado, 13 de dezembro de 2008



14 de dezembro de 2008
N° 15819 - MARTHA MEDEIROS


A volta triunfal das samambaias

Hoje ninguém mais quer sair da casa dos pais. Adolescentes se tornam adultos, ganham um ótimo salário e seguem entrincheirados no doce lar em que foram criados, desfrutando das vantagens de se ter comida, roupa lavada e liberdade para ir e vir. No meu tempo não era assim.

Aos 16 anos já estávamos sonhando em ter nosso cantinho, aos 18 já estávamos trabalhando, aos 20 já estávamos alugando um apê minúsculo com algum colega de faculdade. Bom, estou generalizando, cada um teve uma saída a seu modo.

A minha aconteceu por volta dos 23 anos, quando só então consegui bancar minhas despesas. Fui morar sozinha num apartamento de um dormitório e mal podia conter minha satisfação: finalmente, teria minha própria samambaia.

Naquela época, ter uma samambaia era tão essencial quanto ter um fogão ou um chuveiro. A samambaia era o toque de natureza de qualquer casa ou apartamento, não importava a classe social. Todos tinham ao menos uma, bem verdinha, pendurada no teto ou em cima de um móvel (mas pendurada no teto era mais legal, tinha mais caimento).

Aos poucos, as samambaias foram sendo transferidas para a área de serviço, cedendo lugar na sala para outras plantas. E, passado um tempo, nem na área de serviço foram toleradas. Saíram de moda. Ter uma samambaia passou a ser cafona.

Quem determina o que é moda ou não é? Na indústria têxtil, ouvi dizer que funciona mais ou menos assim: um pigmento ou um tecido sofre retração de mercado e há uma mobilização para que, na próxima estação, ele seja anunciado como “tendência”, acelerando a demanda.

Claro que os estilistas também fazem sua parte, decretando em seus desfiles o que é chique e o que é ultrapassado – e como não há inúmeras idéias para o ato corriqueiro de se vestir, o que é novo envelhece, depois o velho se recicla e volta a ser novo. E cá estamos nós usando as mesmas coisas, sempre.

Mas será que isso funciona com plantas também? Pasmem, descobri que sim. Abri uma revista e li com esses olhos que a terra um dia há de usar como adubo: “A volta triunfal das samambaias!”.

Achei que era algum filme trash, ao estilo O Ataque dos Tomates Assassinos, mas não, era mesmo o anúncio bombástico de que a samambaia voltou com tudo.

Pegou carona no revival dos anos 70, que já se insinua forte na moda e no décor. Passou a ser o must do paisagismo atual. Cafona? Cafona sou eu e você, santa. Quem não tem uma, pode começar a arrancar os cabelos.

Um excelente domingo e um ótimo inicio de semana para você.


14 de dezembro de 2008
N° 15819 - MOACYR SCLIAR


Barba e cabelo

No Oriente Médio, é um costume antigo e tradicional: as mulheres cobrem a cabeça com um lenço ou com um véu, um sinal de modéstia e de pudor. Para os homens, a regra é deixar crescer a barba: um rosto barbeado equivale a uma desavergonhada e ofensiva nudez.

Ah, sim, e a barba não pode ser aparada. Deve crescer conforme o desígnio divino, em direção à terra, que é nosso destino final. Os pelos faciais do homem são um sinal de dignidade. Os cabelos da mulher, não. Ao contrário, são um símbolo de sedução.

E isso nos lembra a lenda da Medusa, aquela mulher cujo olhar paralisava os homens e que exibia uma cabeleira formada de serpentes. De onde teria surgido essa espantosa figura? Não é difícil imaginar.

A serpente, réptil de ataque sorrateiro, é um antigo símbolo de pérfida sedução – não foi a serpente que tentou Adão e Eva no Paraíso? Mas, notem, foi à mulher que a serpente se dirigiu, não ao homem, como se houvesse, entre ambas, certa afinidade, certa cumplicidade.

Não é de se admirar que, nas religiões monoteístas, a mulher tenha ficado com o estigma de pecadora em potencial. Estigma que tem um símbolo, os cabelos. Tal como vistos pelos moralistas de todos os tempos, os cabelos das mulheres são sutis tentáculos, prontos a prender os homens. São as serpentes da Medusa.

O mundo mudou. Aos poucos, as mulheres foram se libertando e seus cabelos dão testemunho disso. Agora, não apenas são mostrados, são também cuidados e embelezados, o que sustenta uma milionária indústria. E a imagem de sucesso masculino, no Ocidente, é a do executivo sorridente, com rosto bem escanhoado. As barbas, quando existem (por exemplo, no caso de professores e intelectuais) são bem cuidadas.

Uma exceção ocorreu quando da revolução cubana, que a barba de Fidel até hoje lembra: aquela, sim, é uma barba bíblica, uma barba de profeta, papel que os líderes revolucionários de certa maneira sonharam desempenhar. Uma barba que lembra os revolucionários lutando em Sierra Maestra: não tinham tempo nem condições para cuidar da aparência, mas sonhavam com um mundo melhor.

Uma vez escrevi um conto chamado O Cabeleireiro da Medusa, descrevendo os sofrimentos de um pobre homem às voltas com o ninho de cobras que era a cabeleira da medonha figura.

Tirando este fictício caso, a profissão é amena, agradável e, em alguns casos, chega às fronteiras da arte – nomes famosos não faltam para comprová-lo e, nos filmes americanos mais antigos, o nome do responsável pelos penteados das atrizes sempre figura nos créditos.

Em relação aos homens é diferente. Para começar, falamos de barbeiro, não de cabeleireiro, mostrando a importância de estar bem barbeado. Aliás, no passado, os barbeiros eram figuras importantes, porque prestavam cuidados cirúrgicos (durante muito tempo, a cirurgia, coisa manual, era vista com desprezo pelos clínicos). Barbeiro abria abscesso, fazia sangria, providenciava curativos.

Mas, mesmo cuidando apenas da barba e do cabelo, sempre foi uma figura típica e aí está a ópera O Barbeiro de Sevilha para confirmá-lo.

O barbeiro era, e freqüentemente o é, um profissional animado, loquaz, o que é compreensível: ali está ele, perto de seu cliente que, imóvel, só pode falar (e escutar). O dentista não pode manter um diálogo; o barbeiro pode. Resultado: as barbearias são locais animados. Espera-se ali que todos, profissionais e clientes, batam papo.

Estudante de medicina, e fazendo um curso em São Paulo, fui uma vez a uma barbearia para cortar o cabelo. Sentei-me na cadeira, o homem perguntou se era para aparar a cabeleira (abundante, naqueles bons tempos), fiz que sim com a cabeça e ali permaneci imóvel, enquanto ele trabalhava. O homem me olhava e sorria, muito amável, coisa que eu não estava entendendo. Lá pelas tantas perguntou:

– Não fala? Mirei-o, espantado. Ele repetiu: – Não fala português?

Aí me dei conta: como muitas vezes acontece, no Rio ou no Nordeste, ele estava me achando com cara de americano. Claro que falo português, respondi. Ah, bom, ele disse. E daí por diante, sem qualquer esperança de receber em dólar, atacou selvagemente os meus cabelos, como se fossem as cobras da Medusa. Houve época em que os cabelos americanos impunham respeito. Bush deve ter saudades disso.

Eu trabalho em uma fábrica de idéias, algumas delas são rutilantes, mas outras são frouxas, mancas, sem brilho.

E os leitores saberão se colocar numa posição discernível de encantamento quando escrevo bem e de perdão apenas quando me saio mal.

E haverão de distinguir que não sou um artista plástico, que pode só apresentar ao público a sua obra quando ela for satisfatória.

Não. Eu tenho prazo diário severo para entregar a minha obra.


14 de dezembro de 2008
N° 15819 - PAULO SANT’ANA


O ofício da agonia

Comigo, pobre cronista provinciano, acontece sempre quase exatamente o mesmo: sofro durante horas a ausência de inspiração para iniciar a escrita de uma coluna, vago pelos corredores numa agonia perversa, tentando achar um assunto para abordá-lo, sinto vontade de desistir da profissão.

Passa-me pelo pensamento que isso não deveria ser assim e eu tinha de ter talento suficiente para sentar no computador e escrever sobre qualquer assunto.

Há colunas minhas que levo oito horas para começar a escrever. E só começo porque é soada a hora de baixar o jornal e já está quase esgotado o prazo para eu entregar a coluna pronta.

São raras as colunas que escrevo com grande prazer por já ter alinhavado sem dificuldade as idéias que nelas vou desenvolver.

Quase sempre as colunas que escrevo têm a dificuldade e as dores de um parto. E quando elas são feitas em cima do prazo, sob a pressão do relógio, eu sinto que as submeti a cesarianas.

Nestes 37 anos como jornalista, já escrevi cerca de 14 mil colunas. Nem sei como encontrei tanto assunto.

Uso alguns recursos para fugir aos meus suplícios à procura de assuntos. O mais comum deles é me debruçar sobre a análise de fatos do cotidiano, retirados do noticiário dos jornais.

Mas há dias em que não há fatos dignos de abordagem. Então me volto para dentro de mim, tentando achar um assunto introspectivo, algo que possa estar dominando as minhas preocupações ou os meus contentamentos.

Só que minha vida, nesses anos todos, tem sido tão igual, que quase sempre já abordei em outras colunas o que está se passando no meu terreno emocional.

Esbarro no noticiário infértil e nos sentimentos redundantes e repetitivos, que já adiantei outras vezes para meus leitores.

Verifica-se então dentro de mim a mais perversa de todas as agonias: bato contra o rochedo rude da ausência mais completa de inspiração. E sinto uma vontade imensa de desistir, de entregar-me ao ócio vergonhoso das armas ensarilhadas.

Mas aí sobrevém aquele ímpeto de quando acordo pela manhã, a vontade que sinto é de ficar deitado até a noite seguinte.

Mas o dever me chama, é preciso ir adiante, seria vexatório não tomar banho e não dirigir-me ao trabalho, como seria aviltante que um cronista desistisse de ser cronista por lhe faltarem assuntos interessantes.

Penso nos leitores. Eles compraram o jornal na expectativa de lerem alguma coisa proveitosa, não posso decepcioná-los.

Algumas vezes não os decepciono, mas, quando aquilo que escrevi não era o que os leitores esperavam, fico torcendo para que sejam compreensivos comigo, para que tenham a piedade de entender que quando se escreve todos os dias é impossível estar sempre munido de um desfastio alentador.

Quase sempre dá certo. E, quando não dá, hão que relevar. Consola-me a idéia de que o que interessa é a média, quando alguma coluna for insossa, estéril ou de pensamento errático, não passará de um acidente de percurso. No dia seguinte, se Deus quiser, vai melhorar.

Eu não trabalho numa fábrica de pregos, onde sempre há que se produzir pregos, todos os dias, em escala industrial.


14 de dezembro de 2008
N° 15819 - DAVID COIMBRA


Uma alegre mistura de Alemanha e Brasil

Domingão de sol da amena primavera porto-alegrense. Seis dias depois do feriado da Independência e da histórica apresentação do EC Rio Grande, um grupo de amigos que trabalhava no comércio do centro da cidade rumou para uma chácara na Cascata.

Estavam empolgados com o novo esporte e queriam eles mesmos tentar jogar bola. Marcaram as goleiras com suas próprias roupas, arregaçaram as calças e realizaram o primeiro jogo de futebol de um clube porto-alegrense. Ou do que viria a ser um clube porto-alegrense. Era 13 de setembro de 1903, e o Grêmio seria fundado dois dias depois.

Fundar clubes era meio moda da época. Havia muito menos mobilidade social, naquele tempo. Os clubes serviam para que os “iguais” se reunissem, se divertissem juntos e, assim, permanecessem juntos, para continuar “iguais”.

Desde o fim do século, por exemplo, os alemães se encontravam no Leopoldina Juvenil e os negros no Floresta Aurora. Essas divisões foram acentuadas por dois acontecimentos: a abolição da escravatura e a proclamação da República. Uma e outra flexibilizaram as relações sociais. Com o fim do império, desmoronava a hierarquia da nobreza.

Ser marquês, conde ou duque não significava mais nenhum privilégio. Não significava mais nada. Qualquer meirinho ou guarda-livros tinha, perante à lei, os mesmos direitos que um visconde. E, com o fim da escravatura, os negros tornavam-se cidadãos como quaisquer outros, não precisando se recolher aos lugares reservados aos escravos.

Porque os negros podiam até conviver no mesmo ambiente que os brancos, mas não podiam misturar-se a eles. No século 19, por exemplo, os escravos não podiam caminhar nas calçadas, só no meio das ruas, correndo o risco de ser atropelados por cavalos e carroças. Com a abolição isso mudou. Com a abolição, ninguém poderia ser discriminado pela lei. A discriminação, portanto, teria de ser social.

Você conseguiu entender essa lógica que parece de viés? Como não havia mais divisão legal, a própria sociedade tratou de se dividir. Inclusive geograficamente: os negros foram para a Ilhota, onde hoje se ergue o Ginásio Tesourinha, ou para a chamada Colônia Africana, curiosamente um dos bairros mais nobres da cidade, hoje em dia: a Bela Vista.

Também se homiziaram na Azenha, o primeiro bairro de Porto Alegre, e, bem perto, na Santana. Os alemães se refugiaram nas lonjuras do Moinhos de Vento. Mais tarde, os judeus ocupariam o Bom Fim.

Bem mais tarde. Na sua origem, Porto Alegre era portuguesa – os 60 casais açorianos, aquela coisa. Depois chegaram os negros, embora não por vontade própria. Os alemães estabeleceram-se em São Leopoldo em 1824 e, de lá, espalharam-se por outras cidades do Estado, inclusive, e principalmente, Porto Alegre.

Essa onda migratória foi importante. O grande Sérgio da Costa Franco conta que um viajante norte-americano descreveu a Capital em 1880 como “uma alegre mistura de Alemanha e Brasil”. Por volta de 1900, mais de 20% dos 70 mil habitantes da cidade eram alemães. E os alemães é que tinham essa tendência associativa que depois contaminou as outras etnias.

É basicamente por causa dos alemães, portanto, que tantos clubes foram fundados em Porto Alegre entre os séculos 19 e 20. O Grêmio não era exatamente um clube de alemães. Entre seus 33 fundadores havia alemães, italianos, portugueses e brasileiros que os imigrantes denominavam de “pêlos-duros”. Alemão, alemão mesmo era o Fuss-Ball, clube fundado no mesmo dia que o Grêmio. E, como só existiam os dois na cidade, o jeito era um jogar contra o outro.

Jogaram 14 partidas até1909, o Grêmio sempre com seu uniforme tricolor, o Fuss-Ball de preto e branco. O Grêmio venceu nove e o Fuss-Ball três. Esse panorama mudaria em 1909, um ano agitado na Capital. A cidade estava crescendo, mais gente chegava de fora, mais clubes eram formados.

Em 1909, finalmente, o Grêmio teve dois novos adversários. O primeiro foi o velho Esporte Clube Rio Grande. O segundo? Ah, o segundo como que sairia da costela do próprio Grêmio. Você já sabe quem é. O Inter. Era a parte que faltava para se fazer um Gre-Nal.

Texto integral - Diogo Mainardi

Protógenes, o carcereiro de Dantas

Protógenes Queiroz se candidatou à vaga de carcereiro de Daniel Dantas. Meus cumprimentos. Ele está certo. A cadeia é um bom lugar para ambos. Tanto faz se dentro ou fora das grades.

Só tenho uma dúvida: quem permanecerá com a chave da cadeia enquanto Protógenes Queiroz estiver viajando pelo mundo, com todas as despesas pagas pela CBF? Porque Protógenes Queiroz, algumas semanas atrás, visitou Rússia, Suiça e Inglaterra, como um parasita no intestino do ponta-direita do ABC de Natal, agregado à comitiva da CBF.

A mesma CBF, por sinal, que foi investigada por ele em 2005, no caso da "Máfia do Apito", denunciado por VEJA. Me pergunto singelamente: será que, em 2011, Protógenes Queiroz estará viajando pelo mundo com todas as despesas pagas pelo Opportunity?

Daniel Dantas está acabado. Ele merece. Mas para quem, como eu, acompanhou suas artimanhas desde o estouro do mensalão, o resultado do inquérito a seu respeito, pelo menos até agora, é escandalosamente frustrante. Daniel Dantas não se tornou Daniel Dantas por ter corrompido um policial ou por ter reciclado dinheiro sujo.

Isso um monte de gente faz. Daniel Dantas é Daniel Dantas apenas por causa de sua promiscuidade com a política. Primeiro, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Depois, durante o governo de Lula, quando o PT se dividiu ao meio, entre a sua turma e a turma da Telecom Italia, uma em guerra com a outra, uma cobrando mais caro do que a outra.

Onde foi parar a política no inquérito sobre Daniel Dantas? Protógenes Queiroz, apesar de seu primarismo debilitante, apesar de sua palermice gangrenosa, apesar de sua falsidade caluniadora, apesar de sua desonestidade rudimentar, era acumpliciado com uns tipinhos perturbados que tinham interesse em mandar recados oblíquos para o governo.

Nesse ponto, seu relatório era melhor do que o dos policiais que foram postos em seu lugar.

Se os arapongas engajados por ele tivessem dedicado mais tempo à compra da Brasil Telecom pela Oi, e menos tempo descarregando material pornográfico da internet, como os arquivos "Boqueteira" e "Jussara", conforme o que a PF encontrou nos computadores da Abin, certamente teríamos mais notícias sobre os esquemas bilionários envolvendo Daniel Dantas e o poder público.

Mas duvido que Protógenes Queiroz quisesse encontrar mais notícias sobre o envolvimento de Daniel Dantas com o poder público.

O que ele realmente queria era mais simples do que isso: ter a chave da cadeia, para poder decidir quem ficava do lado de dentro e quem ficava do lado de fora, de acordo com suas necessidades mais urgentes. Quanto ao parasita no intestino do ponta-direita do ABC de Natal, recomendo um tratamento à base de Quinacrina.

Claudio de Moura Castro

Aprovar quem não aprendeu?

"O medo da repetência leva o aluno de classe média a estudar, para evitar os castigos. Nas famílias mais modestas não há medo nem pressão para que
os filhos estudem"

Para chamar atenção sobre pesquisas irrelevantes, um bando de gaiatos de Harvard criou o prêmio Ignobel (um brasileiro já foi agraciado, por estudar o impacto dos tatus na arqueologia).

De fato, esse é um problema clássico da academia. Como às vezes aparecem descobertas de valor na enxurrada de idéias que parecem bobas, todos se acham no direito de defender as suas. Diante disso, é reconfortante encontrar pesquisas colimando assuntos palpitantes e com resultados precisos e definitivos.

Esse é o caso da tese de Luciana Luz, orientada pelo professor Rios Neto (UFMG), que examinou um problema fundamental: no fim do ano, o que fazer com um aluno que não aprendeu o suficiente? Dar bomba, para que repita o ano? Ou deixá-lo passar?

O uso de dados longitudinais permitiu grande precisão na análise. A autora tratou os números com cuidado e sofisticação estatística. O cuidado aumenta a confiança nos resultados. Mas a sofisticação impossibilita que se faça aqui uma explicação acessível da análise estatística.

Contudo, a interpretação das conclusões é clara. A tese permite comparar um aluno que repetiu o ano por não saber a matéria com outro que foi aprovado em condições similares.

Os números mostram com meridiana precisão: um ano depois, os repetentes aprenderam menos do que alunos aprovados sem saber o bastante. Tudo o que se diga sobre o assunto não pode ignorar o significado desses dados, que, aliás, corroboram o que foi encontrado pelo professor Naércio Menezes e por pesquisadores de outros países.

Ao que parece, para os repetentes, é a mesma chatice do ano anterior, somada à frustração e à auto-estima chamuscada. Andemos mais além da tese. Não reprovando, a nação economiza recursos, pois, com a repetência, o estado paga a conta duas vezes.

E, como sabemos por meio de muitos estudos, os repetentes correm muito mais risco de uma evasão futura. Logo, ganha-se de três lados. Como a "pedagogia da reprovação" não funciona, a "promoção automática" é um mal menor.

Ilustração Atômica Studio

A história não acaba aqui. A angústia de decidir se devemos aprovar quem não sabe torna-se assunto secundário, diante da constatação de que o aluno não aprendeu. Esse é o drama mais brutal do ensino brasileiro. Por isso, a discussão está fora de foco. Precisamos fazer com que os alunos aprendam.

De resto, não faltam idéias nos países onde a educação dá certo. Por exemplo, na Finlândia – e mesmo no Uruguai – há professores cuja tarefa é dar uma atenção especial aos mais fracos.

Por que se digladiam todos contra a "promoção automática", quando a verdadeira chaga é o fraco aprendizado? De fato, há uma razão. Grosso modo, três quartos da população brasileira é definida como de "classe baixa".

Dada essa enorme participação, o que é verdade para seus membros é verdade para o Brasil como um todo. Mas há os 20% de classe média e alta. Para esses pimpolhos, a situação é diferente. Famílias de classe baixa são fatalistas, assistem passivamente à reprovação dos seus filhos.

Se não aprenderam a lição, é porque "sua cabeça não dá". Já na classe média a regra é outra. Levou bomba? Antes zunia a vara de marmelo, depois veio o confisco da bola, da bicicleta ou do i-Phone. Santo remédio!

Reina a "pedagogia do medo da repetência". Essa é a arma dos pais para que o filho se mantenha por longo tempo colado à cadeira e com os olhos no livro. Cá entre nós, eu estudava por medo da bomba. É também a ameaça da bomba que permite aos professores forçar os alunos a estudar. Sem ela, sentem-se impotentes. Portanto, estamos diante de um dilema.

O medo da repetência leva a minoria de classe média a estudar, para evitar os castigos. Pode não ser a pedagogia ideal, mas ruim não é. Já nas famílias mais modestas não há medo nem pressão para que os filhos estudem.

O que há são as bombas caindo do céu e criando repetência abundante e disfuncional. Pouquíssimos países no mundo têm níveis tão altos de repetência como o nosso. Ao contrário de outros dilemas, esse tem solução clara, ainda que difícil. Basta melhorar a qualidade da educação para todos.

Claudio de Moura Castro é economista - claudio&moura&castro@cmcastro.com.br


A arte de envelhecer

As novas descobertas que ajudam a abrandar os sinais da passagem do tempo e garantir uma velhice cheia de vida
Irene Ruberti

EM PAZ COM O ESPELHO

Adriana, de 58 anos, com as filhas gêmeas Bianca (à esq.) e Chiara, de 24.

"O importante é viver bem todas as fases da vida", diz a mãeA paisagista Adriana Giuliano Miniguini, de 58 anos, é daquelas mulheres maduras que, sem esforço, atraem olhares.

Na juventude, a beleza da italiana criada no Brasil era tamanha que as pessoas paravam para observá-la. Adriana continua feliz com sua aparência. Tem rugas, mas nunca quis aplicar Botox ou se submeter a grandes tratamentos estéticos. “As rugas são o sinal de uma nova fase na minha vida.

O importante é viver bem todas elas”, diz. A forma como encara o envelhecimento é tão positiva e sábia que infl uencia as três fi lhas, Bianca, Chiara (gêmeas de 24 anos) e Natália, de 34. “Queremos seguir os passos de nossa mãe. Há pessoas que fazem mil tratamentos, mas não são felizes. Nunca se sentem realmente bonitas”, diz Natália.

Além da genética, que parece favorecer as mulheres da família Giuliano Miniguini, elas se beneficiam de bons hábitos adquiridos na infância. A alimentação sempre foi saudável, com frutas, verduras, legumes e carnes magras.

Todas fi zeram balé, como a mãe. As quatro freqüentam academias, para manter o corpo em forma. Cuidam da pele, com limpeza, hidratação e filtro solar, diariamente. Não têm o menor interesse em disfarçar os anos vividos, uma das maiores obsessões contemporâneas.

Artistas sofrem essa pressão contra o envelhecimento com freqüência. Recentemente, uma maquiadora perguntou ao ator Stepan Nercessian, de 54 anos, por que não fazia uma plástica para tirar as bolsas sob os olhos. “Não quero matar o velho que vou ser”, disse ele. “Quero me olhar no espelho com 70 anos e ver como realmente sou.” Essa reação é uma exceção.

Para camuflar a idade, homens e mulheres se entregam aos mais variados tratamentos estéticos sem medir esforços e conseqüências. Alguns exageram no Botox e ficam com a expressão paralisada.

Submetem-se a sucessivas cirurgias plásticas e ganham um aspecto de boneco de cera. Quase sempre, o excesso de intervenções provoca mais estranhamento que admiração (Clique aqui e confira a opinião de internautas sobre o visual de celebridades).

Apesar dos avanços da medicina, a descoberta da pílula da juventude continua sendo um sonho distante

Um dos motivos que tornam a velhice um fantasma é o medo das restrições impostas pelo envelhecimento. O corpo começa a dar sinais de cansaço. A pele perde o viço. O cérebro murcha. Aos 50 anos, o encéfalo pesa em média 1,3 quilo. Quinze anos depois, costuma ter 200 gramas a menos. O sistema nervoso fica mais lento. A massa muscular diminui. A gordura aumenta.

Apesar dos avanços da medicina, que têm contribuído para o aumento da expectativa de vida, a ciência está muito longe de descobrir uma pílula da juventude. Mas existe uma receita para envelhecer com mais qualidade de vida. Ela consiste em cinco simples recomendações:

comer menos
movimentar-se mais
usar e abusar do cérebro
realizar atividades em grupo
nutrir alguma forma de espiritualidade


13 de dezembro de 2008
N° 15818 - NILSON SOUZA


Medida provisória

No uso das atribuições que me confere o princípio universal da liberdade de criação e a paciência dos meus leitores, adoto a seguinte Medida Provisória, sem força de lei, mas com o desejo de que seja compreendida:

Art. 1º – A nova ortografia da Língua Portuguesa, que entra em vigor a partir de 2009, deverá suprimir do vocabulário nacional a palavra “crise”, que tem sido utilizada em nosso país como pretexto para o imobilismo, para a insensibilidade, para a especulação, para a ganância desenfreada e para safadezas de toda ordem.

§ 1º – Em caso de necessidade, poderão ser utilizados como sinônimos da palavra suprimida os termos “desequilíbrio”, “transição” ou, em situações extremadas, “distúrbio”.

§ 2º – Fica terminantemente vetada a palavra “desarranjo”, por sua conotação gastrointestinal, inclusive em pronunciamentos de autoridades de alto escalão ou baixo calão.

Art. 2º – Restrinja-se o uso do prefixo “in”, especialmente diante das palavras segurança, decência, diferença, sensatez, competência, compreensão e tolerância.

Art. 3º – Estimule-se a difusão em todo o território nacional de palavras ameaçadas de extinção pelo desuso, tais como “honestidade”, “solidariedade”, “gentileza”, “simpatia”, “compaixão” e “fraternidade”.

Art. 4º – Fica mantido o trema numa única palavra do nosso vocabulário, para que ela volte a ser pronunciada com ênfase e orgulho por todos os brasileiros: “tranqüilidade”.

Art. 5º – Cumpra-se a supressão do acento diferencial nas palavras ditas homófonas, como determina o Acordo Ortográfico, mas abra-se exceção para pára, quando a forma verbal tiver que ser usada para conter a violência, o desrespeito, a chatice, a covardia e qualquer tipo de abuso contra crianças.

§ único – Neste último caso, o acento diferencial deve ser colocado sobre todos os “as” e seguido de outras expressões devidamente acentuadas: crítica enérgica, denúncia à polícia e punição implacável.

Art. 6º – Inclua-se no alfabeto as letras K, W e Y, mas evite-se, sempre que possível, a escrita de palavras como show, download e megabyte, que dificultam a compreensão, expressam arrogância e um certo desprezo à língua pátria.

Art. 7º – Esta Medida Provisória entra em vigor na data de sua publicação e perde o efeito no mesmo dia, com exceção dos artigos e parágrafos que tocarem o coração dos leitores.

Juremir Machado

O GOLPE DE MORTE

Há 40 anos, em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva baixava o AI-5. Era o golpe dentro do golpe, o aprofundamento da ditadura. Os milicos jogavam o Brasil na escuridão total. Os ditadores davam-se todos os poderes imagináveis.

Pelo artigo 2º, o 'presidente da República', quer dizer, o general de plantão, podia 'decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sítio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo presidente da República'.

O detonador de tamanha arbitrariedade não poderia ser mais absurdo e burlesco: o pronunciamento do deputado Márcio Moreira Alves, do MDB, conclamando o povo a boicotar o desfile de Sete de Setembro e as moças a não saírem ou dançar com oficiais.

O Brasil quase teve a sua Lisístrata. Na peça de Aristófanes, as mulheres fizeram greve de sexo para que os homens selassem a paz. No Brasil ainda pudico, pois os verdadeiros efeitos de maio de 68 só chegaram aqui mais tarde, a greve das moças era para ser bem mais recatada.

A milicada, ainda assim, não gostou da provocação. Interessante mesmo é ver a lista de ministros que subscreveram o AI-5. A maioria já morreu. Estão por aí Jarbas Passarinho e Delfim Netto. A prova de que o Brasil não é país sério é essa mesma: nenhum deles sofreu qualquer punição. Nem sequer uma geladeira.

Delfim encontrou voto para se eleger representante no Congresso cujo fechamento autorizou. Hoje, pimpante, escreve para Carta Capital, uma revista vista por muitos dos seus leitores como genuinamente de esquerda.

Viva o perdão total! Viva a falta de memória e de ressentimento!
Mino Carta, chefão da Carta Capital, foi o primeiro diretor de redação da revista Veja, criada em 1968. Ele garante que teve de prestar 36 depoimentos à Polícia Federal. Veja sofreu muita censura.

As más línguas sugerem que Veja surgiu para defender a democracia com apoio de Golbery, o Maquiavel da ditadura. Certo é que Mino não guardou mágoas do poderoso Delfim, ministro de confiança dos milicos. Afinal, no Brasil tudo começa em feijoada e termina em pizza ou em geléia geral. O AI-5, autorizado também por Delfim Netto, não foi brincadeira.

Pelo artigo 10º, ficava 'suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular'. Um pouquinho de rancor em relação a quem subscreveu tudo isso não seria excessivo nem pecado de falta de grandeza espiritual. Passamos a borracha.

Muita gente morreu ou foi torturada sob o manto profano do AI-5. O Rio Grande do Sul contribuiu fartamente para os períodos mais autoritários da vida brasileira, com Getúlio Vargas no Estado Novo e com três dos cinco ditadores pós-64 (Costa e Silva, Médici e Geisel).

Figueiredo, o mais estúpido de todos, aquele que preferia cavalo a gente, não era gaúcho, mas foi educado em nosso pagos. Somos uma fábrica de ditadores.

Tivemos alguns para consumo doméstico, como Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, cujos nomes estão por toda parte como prova do nosso apreço por executivos fortes, e outros para exportação.

Quem sabe um dia o Rio Grande do Sul não aproveitará um aniversário do AI-5, por exemplo, o de 50 anos, para pedir desculpas ao Brasil pelos ditadores que gerou, formou, aprimorou, abrigou ou apenas apoiou.

juremir@correiodopovo.com.br


13 de dezembro de 2008
N° 15818 - PAULO SANT’ANA


Elogio distraído de Pelé

A discussão sobre se quem foi melhor, Pelé ou Maradona, volta mais ao noticiário do que as desordens e overdoses do ex-PM e ex-marido da atriz global Susana Vieira.

Não entendo como pode interessar ao noticiário a overdose do ex-marido de Susana Vieira. Quando era marido, ainda se justificava que fosse manchete dos jornais.

Mas, como ex-marido, é forçado.

Parece, no entanto, que a vida dos empregados, dos parentes, dos conhecidos dos artistas globais interessa muito à opinião pública. Tanto que existem revistas especializadas em publicar fofocas e escândalos que envolvam os artistas globais.

A mim interessa, no entanto, a comparação entre Pelé e Maradona. Nem sei como se pode comparar um com o outro, mas volta e meia ressurge o cotejo.

Se se retirasse do currículo de Pelé mil gols, ou seja, suprimisse-se da bagagem de Pelé um milhar de gols, os gols que restariam chegariam para superar em número os gols que Maradona fez em toda a sua carreira. Isso é por demais conclusivo.

Pelé fez mais de 1.300 gols, Maradona fez 300. Pelé foi três vezes campeão mundial, Maradona apenas uma.

Então não entendo como se atreve tanta gente a comparar Pelé com Maradona.

Mas comparam.

E no programa do Falcão, na Rádio Gaúcha, sábado passado, um jogador júnior perguntou a Pelé como ele encarava a comparação dele com Maradona.

Pelé respondeu rápido: “Não tem comparação, eu jogava com o pé direito, com o pé esquerdo e com a cabeça. Maradona só jogava com o pé esquerdo”.

Sem se aperceber, Pelé acabou por fazer o maior elogio que já vi alguém fazer a Maradona: pois só tendo o pé esquerdo como ferramenta de trabalho, sendo um anão, um baixinho desproporcionalmente desfavorecido entre os adversários em campo, ainda assim Maradona mostrou-se como um dos três maiores jogadores do mundo em todos os tempos, imaginem o tamanho de sua obra se ele jogasse com o pé direito e soubesse cabecear.

Pelé se traiu nessa. Pelé, Garrincha e Maradona foram para mim os maiores gênios do futebol.

Suplantaram Puskas, Cruyff, Di Stéfano, Platini, Beckenbauer. Garrincha, na Copa do Mundo de 1962, fez gol de cabeça, de falta, de pé esquerdo, fez misérias jogando pelo meio, quando provou que era um craque que transcendia as estripulias encantadoras e estonteantes da ponta-direita e tinha um talento indomável.

De Pelé, nem se fala, vi pelo cinema um jogo do Santos com o Benfica, em Lisboa, em que Pelé tabelava intencionalmente com as canelas dos adversários na corrida em rumo da área adversária.

Pelé fez sete ou oito gols em um jogo noturno do campeonato paulista e o Jornal da Tarde estampou no dia seguinte a manchete célebre: “Noite negra de Pelé”.

E Maradona fazia o que bem entendia com seu pé esquerdo, era tão delicioso vê-lo jogar quanto ver Pelé e Garrincha.

Eles três foram insuperáveis.

Os três tinham talento, isto é, dom trazido de berço, um carisma.

Mas Pelé foi o maior deles por ter-se preparado melhor para o futebol.

Não houve ninguém, entre os 12 e 15 anos de Maradona, que o aconselhasse a treinar chutes com o pé direito, como Dondinho, o pai de Pelé, fazia com seu filho na mesma idade, insistindo para que ele se esmerasse em chutar com o pé esquerdo.

E Garrincha nem teve quem pudesse orientá-lo em Pau Grande, ele nada sabia, tudo era fruto da sua espontaneidade e do improviso.

Mas como tinha talento igual ao do Garrincha e ao de Maradona, Pelé foi o maior de todos porque foi o único entre os três que aprimorou seus dotes e destrezas.

Ah, se Maradona chutasse com o pé direito e tivesse altura para cabecear! Seria com certeza o maior de todos.


13 de dezembro de 2008
N° 15818 - CLÁUDIA LAITANO


A mãe de Capitu

Lygia Fagundes Telles fez sua primeira leitura de Dom Casmurro (1899) quando era estudante de Direito, nos anos 40. À jovem aspirante a escritora, Bentinho causou forte impressão negativa.

O narrador da obra-prima de Machado de Assis lhe pareceu um sujeito histérico, um doido varrido obcecado pela idéia de uma traição que não houve. Capitu, por sua vez, era uma vítima perplexa e impotente do ciúme do marido – a voz que dá sua própria versão dos fatos no romance.

Lygia voltou a ler o romance de Machado para escrever o roteiro do filme Capitu (1968), de Paulo César Saraceni – primeira versão cinematográfica do livro que os telespectadores viram adaptado de forma feérica e arrebatadora na minissérie Capitu, que foi ao ar esta semana pela RBS TV.

Na leitura da maturidade, a escritora paulista mudou de idéia a respeito dos personagens. Capitu havia, sim, traído Bentinho, e o filho que ela leva para a Europa é mesmo do amante.

Em uma entrevista publicada no começo deste ano, o repórter do jornal O Estado de S. Paulo quis saber qual o veredicto da escritora, agora octogenária, sobre o caráter de Capitu: “Eu já não sei mais. Minha última versão é essa, não sei. Acho que enfim suspendi o juízo. No começo, ela era uma santa; na segunda, um monstro. Agora, na velhice, eu não sei”.

As diferentes leituras de Lygia Fagundes Telles ao longo dos últimos 60 anos ilustram a riqueza escondida nas sutilezas do romance, mas vão de certa forma na contracorrente da crítica machadiana. No momento em que a jovem escritora via em Capitu a vítima de um ciúme irracional e potencialmente violento, críticos e leitores comuns iam no máximo até a possibilidade da dúvida – o romance não autorizaria nem uma versão nem outra, ou seja, nem a da santa nem a da bruxa.

Em 1960, o ensaio de uma professora americana mudaria para sempre a leitura de Dom Casmurro, influenciando críticos como o brasileiro Roberto Schwarz (responsável ele próprio por outra guinada na crítica machadiana) e o inglês John Gledson. Helen Caldwell (1904 – 1987) é, em certo sentido, a “mãe” da moderna Capitu, que nasce no livro O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, surpreendentemente nunca traduzido para o português até ser publicado pela Ateliê Editorial, em 2002.

Capitu, argumenta a ensaísta, é tão inocente quanto Desdêmona, enquanto Bento Santiago, o Bentinho, condensa as fraquezas e os ardis de Otelo e Iago – inclusive no nome.

O livro de Helen Caldwell honra, de todas as formas possíveis, o livro de Machado de Assis – e não apenas por referir-se a ele como “o maior de todos os romances do continente americano”. Buscando responder basicamente a duas grandes questões a respeito de Dom Casmurro, “a heroína é culpada de adultério?” e “por que o romance é escrito de tal forma a deixar a questão da culpa ou inocência da heroína para decisão do leitor?”,

a autora compôs um ensaio crítico que se lê com o prazer de um livro policial erudito – em que pistas espalhadas pelo escritor ao longo de toda sua obra (inclusive como poeta e cronista) são investigadas.

Helen foi lida por parte da crítica como uma autora protofeminista – o que talvez explique a tradução brasileira tardia, mas não é justo com a reverência à profundidade psicológica da obra de Machado de Assis que ela demonstra.

Para Lygia Fagundes Telles, importa menos saber se Capitu era santa ou monstro do que saborear o prazer da dúvida – artifício que em si só já demonstraria a genialidade do autor.

O que Helen Caldwell fez foi mostrar que o gênio poderia ser ainda mais sofisticado do que os críticos e os leitores imaginaram nos primeiros 60 anos do livro.