quarta-feira, 10 de dezembro de 2008


SERGIO FERNANDO MORO

Justiça sem fim

Não raramente o discurso válido de defesa dos direitos fundamentais é utilizado para defender privilégios de casta, confundindo o debate

NA SEMANA em que famoso empresário foi condenado por corrupção, reportagem publicada na "Economist" colocou em dúvida a efetividade da punição, afirmando que a Justiça brasileira seria "estragada por cortes sobrecarregadas e recursos intermináveis".

A desconfiança também foi a marca da abordagem jornalística nacional. Segundo comentário representativo, "Dantas foi condenado à prisão, mas nunca será de fato preso".

O diagnóstico é preciso. A Justiça no Brasil está estruturada para possibilitar que criminosos poderosos retardem indefinidamente o resultado do processo e a aplicação da lei penal.

Autoridades públicas de elevada hierarquia são protegidas pelo foro privilegiado. Não respondem aos processos como os cidadãos comuns, mas diretamente perante tribunais. Como estes são estruturados para julgar recursos, e não para processar ações penais, o resultado é a extrema lentidão, às vezes sem outro fim senão o reconhecimento da prescrição do crime.

As estatísticas não mentem. Não há registro de condenações em número significativo, e casos como o do mensalão e o da Operação Furacão revelam a dificuldade para, mesmo em esforço notável, chegar ao recebimento da denúncia, ainda um passo inicial da ação penal.

Mesmo quem não tem foro privilegiado e responde perante a primeira instância pode, se -frise-se- tiver condições financeiras, valer-se de um generoso sistema de recursos, o qual possibilita que um caso seja submetido a até quatro instâncias.

Uma sentença não vale mais do que um parecer, pois a lei e a jurisprudência equivocadamente equiparam a situação de um acusado não julgado com a de um condenado, como se um julgamento, com a ampla avaliação das provas e dos argumentos da acusação e da defesa, nada significasse.

Mesmo em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, que constituem o berço da presunção de inocência, a sentença de primeira instância gera efeitos imediatos, autorizando a prisão, salvo exceções, o que diminui a tentação de usar apelos com motivos protelatórios.

No Brasil, chegou-se ao extremo de defender que mesmo a confirmação de uma condenação por tribunal de apelação não deve ter efeito algum, consistindo em mais um parecer. Assim, criminosos que tiveram a sua culpa reconhecida por sentença e mesmo em apelação, às vezes até confessos, podem recorrer inúmeras vezes em liberdade como se nada houvesse acontecido e na expectativa incerta de que um dia chegue o trânsito em julgado.

Acrescente-se ao quadro a obstrução das cortes superiores, entulhadas com milhares de recursos mesmo de quem não têm a menor razão.

A Suprema Corte norte-americana não julga mais do que uma centena de casos no ano. Já o Supremo brasileiro, até novembro de 2008, havia recebido 63.544 processos. Institutos como o da repercussão geral e a lei de recursos repetitivos, embora representem um avanço louvável, ainda se mostram insuficientes.

Os remédios são simples. Cumpre acabar com o foro privilegiado ou, se for o caso, restringi-lo aos presidentes dos três Poderes.

Faz-se necessário desestimular recursos protelatórios, conferindo alguma eficácia, salvo exceções, às sentenças condenatórias e ainda eficácia, salvo exceções mais raras, às confirmações de condenações por tribunais de apelação.

Tem que desobstruir as cortes superiores, estendendo o instituto da repercussão geral ao Superior Tribunal de Justiça e aprofundando o uso dele no Supremo Tribunal Federal. Se o diagnóstico e os remédios são óbvios, por que nada ou pouco é feito?

É que as distorções geram uma Justiça de casta que, apesar de incompatível com a democracia e com o Estado de Direito, protege interesses poderosos. Romper com eles exige uma mobilização da sociedade e das autoridades que é difícil de alcançar.

Não raramente o discurso válido de defesa dos direitos fundamentais é utilizado para defender privilégios de casta, confundindo o debate.

Urge fazer a distinção. Democracia e direitos fundamentais não se confundem com Justiça de casta, e a aplicação igual da lei penal democrática não é autoritarismo. Justiça sem fim é Justiça nenhuma.

SERGIO FERNANDO MORO , 36, mestre e doutor em direito pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), é juiz federal da Vara Criminal de Curitiba (PR).

CLÓVIS ROSSI

O G8, o cafezinho e o Brasil

SÃO PAULO - Durante a reunião ministerial do G20 em São Paulo, faz um mês, o ministro Guido Mantega disse que o Brasil não queria mais participar do G8 só para "tomar cafezinho".

Era uma alusão ao fato de que nas mais recentes cúpulas do grupo dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia passaram a participar também o que o jargão diplomático batizou de "outreach countries" (em tradução absolutamente livre, a periferia, formada, no caso, por Brasil, Índia, China, África do Sul e México).

Acontece que a periferia só é chamada, como diz Mantega, para o cafezinho. Ou seja, entra nos salões da nobreza no dia seguinte, depois que o G8 propriamente já almoçou e jantou toda a agenda e já emitiu o documento final.

Para o ano que vem, o anfitrião (Silvio Berlusconi, premiê italiano) já anunciou um novo formato: continua, no primeiro dia, a reunião só do G8, mas, no dia seguinte, a periferia entra e fica o dia todo reunida com os grandes (Berlusconi incluiu o Egito entre os "outreach countries"). No terceiro dia, entram os africanos e, acha Berlusconi, forma-se um G20.
É o típico jogo lampedusiano de mudar tudo para que tudo fique igual. Quando Mantega se queixa de que o Brasil não quer só o cafezinho, não está, como é óbvio, se referindo a refeições, mas a jogar o jogo desde o início.

Depois de duas cúpulas do G20 (em novembro, em Washington, e no próximo abril, em Londres), não faz sentido o G8 continuar como um clube exclusivo, até porque a sua única agenda é a crise global, de cuja discussão não podem ser excluídos os grandes emergentes.

Aceitar esse formato equivale a aceitar que o G20 tenha a função de "legitimar as iniciativas do G8", como aponta Xaiojin Chen, do Instituto de Tecnologia e Economia Internacional da China. Ou tomar só o cafezinho -e frio, ainda por cima.

crossi@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Peru mole e Papai Noel duro!

Últimas notícias: os reis magos estão perdidos no deserto! Devido à crise, desligaram o cometa!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

A Cláudia Raia tá parecendo rena de Natal. Com aquele nariz sempre vermelho. Tá parecendo o Rudolf! Ela vai acabar puxando trenó!

E esse é o slogan natalino da crise: "Peru Mole e Papai Noel Duro"! Últimas notícias: os Reis Magos estão perdidos no deserto. Desligaram o cometa. Devido à crise, desligaram o cometa! Mas, para o desespero da Miriam Leitão, o Brasil não está em crise. Uma amiga minha foi pra 25 de Março e voltou toda roxa. De tanta cotovelada!

E um amigo foi pro shopping Eldorado e tava lotado, todo mundo com sacola. Não sei se é emprestada ou a mesma. Ou então é a sacola do ano passado só pra fazer pose!

E a música da decoração de Natal do Itaú Personnalité lá na Paulista: "Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem/ já faz tempo que morreu ou felicidade é brinquedo que não tem". Mensagem de Natal do mercado financeiro!!!!!

E uma amiga minha recebeu um cartão de fim de ano: "Pediram-me uma flor, dei um jardim. Pediram-me uma estrela, dei um céu. Pediram-me uma perereca, dei o seu telefone". Rarará! E alguém pede perereca pro Papai Noel? Pede. O Daniel Dantas não pediu um juiz? Então! E avisa pro povo que são-paulino não é mais bambi, é BAMBI-TRI! Bambitri! Bambi trilegal!

E a Honda sai da Fórmula 1. E o Rubinho ficou sem carro. Por isso que ele disse que tá na sua melhor fase. Sem carro. E os irmãos Bacalhau fizeram a versão HONDA do Rubinho:

"De noite eu rondo as pistas/ a te procurar, você não está/ McLaren e Ferrari, espio/ todos os lugares, minha vaga não está/ Porém, com perfeita paciência/ volto a te buscar/ hei de encontrar/ guiando o meu kart/ rodando, batendo, tentando frear/ e nesse dia então vai dar na primeira edição: "Preso maluco em Interlagos DIRIGINDO UM FUSCÃO'" ! Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que na Argentina tem um supermercado chamado Supermercados Bambi. Promoção pra hexacampeão. Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. Lula só amanhã. E com arroz! Rarará! Ou melhor, nem com arroz! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br


10 de dezembro de 2008
N° 15815 - MARTHA MEDEIROS


O mesmo mar, o mesmo sol

A cotação do dólar mantém-se alta, contrariando os prognósticos levemente otimistas dos mercados globais. Até ontem, ele seguia a R$ 2,50 (hoje não sei), e alguns economistas acreditam que ele se estabilizará em R$ 2,80, o que pode ser uma boa notícia para quem lida com exportação, mas é péssima para quem está de malas feitas para sair de férias. Ir para o Exterior ficou, para muitos, proibitivo.

O jeito é entrar numa livraria, comprar o 100 Praias que Valem a Viagem, novo guia do turista profissional Ricardo Freire, e botar o pé na estrada por aqui mesmo.

O livro disseca a costa brasileira desde o Pará até o Rio Grande do Sul. Curiosidade: Ricardo já havia publicado, anos atrás, um guia de praias brasileiras onde ignorou solenemente nosso Estado, e vocês podem imaginar a gritaria dos leitores, ainda mais que o moço é gaúcho. Diplomaticamente, desta vez ele deu uma colher de chá para a Praia dos Molhes, em Torres.

Mas, pra quem está disposto a subir centenas de quilômetros litoral acima, o que não falta é dica de paraísos, com todos os toques sobre hospedagem, alimentação, passeios, melhores ondas e demais informações de primeira necessidade.

Ricardo classificou cada praia com um ícone bem-humorado: em vez de estrelas, a cotação foi feita com havaianas. As praias consideradas imperdíveis ganharam três chinelinhos – e, entre estas praias que atingiram a cotação máxima, estão três de Santa Catarina: Mole, Ilha do Campeche (ambas em Florianópolis) e Praia do Rosa.

Quem conhece bem o litoral catarinense sabe que há inúmeros outros recantos incríveis, mas será que é pra lá que a gente vai neste verão?

Estamos sendo muito solidários com nossos vizinhos. Caminhões saem daqui lotados de donativos e, a prosseguir neste ritmo, não faltarão alimentos, remédios, roupas ou colchões para aqueles que ficaram desabrigados.

No entanto, Santa Catarina não é apenas o Vale do Itajaí. Uma das maiores riquezas do Estado é o turismo, que está sofrendo uma outra espécie de avalanche:

a de cancelamentos de reservas feitas para o Ano-Novo, assim como para as temporadas de janeiro e fevereiro. Isso está acontecendo em praias ao sul de Florianópolis, como Garopaba, Ferrugem, Ibiraquera, Guarda do Embaú, Imbituba, Laguna, onde as enchentes não provocaram alteração na paisagem nem risco aos imóveis. As estradas que tiveram bloqueios já foram liberadas. A vida continua inalterada.

Eu não estou lá para ver com meus próprios olhos, mas creio que vale a pena se informar melhor antes de evitar cruzar o Mampituba.

Claro que os prefeitos das nossas praias ficarão muito satisfeitos em acolher todos os gaúchos por aqui, mas quem tem o hábito de passar as férias em Santa Catarina não deve interromper seus planos sem antes buscar notícias mais realistas.

Também é um ato de solidariedade colaborar para que hoteleiros e comerciantes catarinenses mantenham seus negócios e o emprego de seus funcionários.

Apenas isso: informar-se. Uma atitude que também vale três chinelinhos.

Ainda que com chuva, aproveite o dia


10 de dezembro de 2008
N° 15815 - DIANA CORSO


Memórias felinas

Meus gatos sempre abusaram de mim. Faziam gato e sapato, para ser redundante. Koshka, minha segunda cria felina, parecia dar discursos.

Mesmo sem entender o gatês, eu sabia que ele estava reclamando do meu tempo de ausência, embora os dele pudessem durar dias. Ele era louco por briga e rabo-de-saia, suas temporadas mais caseiras coincidiam com olho purulento, orelha rasgada ou pata inchada.

Entre minhas atribuições de escrava humana estavam, obviamente, os curativos. Já minha primogênita, a Fera, era confinada num apartamento, o que só aumentava seu poder sobre mim:

ela decidia em que posição eu iria dormir, sentar e comer, além de que sua farra noturna me exauria. Felinos passam o dia dormindo, assim ficam prontos para as noitadas.

No caso da Fera isso incluía uma bolita de gude, que ela mantinha escondida, sendo resgatada para fazer rolar pelo parquê e bater nos cantinhos nas altas horas da madrugada. Nunca consegui tirar a bolita dela, sumia providencialmente assim que eu me levantava, acho que ela guardava na boca...

Sempre supus que Jim Davis, o cartunista que criou Garfield, tinha uma verdadeira experiência com gatos. A gestualidade da personagem, sua relação tirânica com o dono e o inabalável narcisismo felino eram traduzidos à perfeição através de seu traço e das situações hilárias que ele cria.

Soube, por entrevista na Folha, concedida por ocasião dos 30 anos da criação da tira, que ele cresceu numa casa com 25 gatos, devia ser um caos.

Nessa entrevista, Davis declara que ele se identifica particularmente com Jon, o fracassado e melancólico dono do Garfield, particularmente nas memórias de sua adolescência de garoto pouco popular com o sexo oposto.

Com o gato gorducho, sarcástico e exigente, identificamo-nos todos nós, nas lembranças da infância. A memória dessa época, na qual vivíamos a comer (bem) e dormir (muito), é preciosa.

Crianças e gatos vêem os adultos como fontes de satisfação potencial e de exigências que não estão muito dispostos a atender.

Quando éramos crianças, os humanos grandes nos enxergavam como Odie, o cão idiota e brincalhão dessas tiras, ou como Nermal, um gatinho terrivelmente fofo, de quem Garfield morre de ciúme.

Na verdade, embora parecêssemos uns bobinhos, faceiros e fofinhos por fora, éramos críticos e meio azedos por dentro, como Garfield.

Por isso rimos tanto, porque embora pareçamos pessoas ocupadas e ponderadas por fora, ainda somos um gato gorducho, preguiçoso e egoísta por dentro. Pelo menos às segundas feiras.


10 de dezembro de 2008
N° 15815 - PAULO SANT’ANA


Vítima condenada


Estou simplesmente apavorado com o linchamento moral a que está sendo submetido o cadáver do médico oftalmologista Marco Antonio Becker.

Todos os dias, uma série de emissoras de rádio e televisão, aliada à poderosa teia de boatos e cochichos que pesponta diariamente intrigas sobre a vida pregressa do assassinado, prolata um auto farto de presumidos defeitos e prováveis perversidades morais e comportamentais da vítima, com fúria duplamente homicida.

Li que a polícia pediu autorização à Justiça para proceder à quebra de sigilo telefônico e de correspondência do médico que foi assassinado na semana passada às margens do Restaurante Alfredo, na Rua Ramiro Barcelos.

Pois, se o morto tem direito ao sigilo telefônico, que só pode ser violado por decisão da Justiça, deveria também ter o direito à privacidade, automaticamente estendido à sua memória.

No entanto, nos romances de Sir Arthur Conan Doyle, de Agatha Christie e de Georges Simenon, nota-se a tendência da investigação criminal em dedicar-se inicialmente, nos homicídios de autoria desconhecida, a vasculhar a vida da vítima.

Tecnicamente perfeito. Só que os resultados obtidos na vivissecção investigatória dos hábitos da vítima, quando desfavoráveis a ela, se lançados ao campo fértil da imaginação da opinião pública, se transformam em libelo violento contra a memória do morto.

Se não há o que dizer do caráter dos criminosos, eis que sua identidade não é conhecida, então lança-se a opinião pública à compulsiva investigação necroscópica da vida pregressa da vítima.

E todas as ilações possíveis são feitas sobre o proceder do assassinado antes de morrer.

Como todas as pessoas possuem defeitos, os da vítima são geometrizados, sua reputação dança de boca em boca e acaba tendo seu retrato pintado como um monstro.

Assim está sendo feito com a memória do Dr. Marco Antonio Becker. Na marcha em que vai o desfile de defeitos da vítima, os dois assassinos da motocicleta, depois de ler os jornais, ouvir as rádios e os boatos entre o povaréu todas as manhãs, devem assim concluir: “Olhem, até que prestamos um relevante serviço à sociedade”.

Arrolam-se tantos defeitos à personalidade do Dr. Becker, que, no ritmo que vão as “descobertas” dos seus vícios ou pretensos desvios, os assassinos em breve vão receber o título de Cidadão de Porto Alegre, em comenda da Câmara.

O certo seria que o arrolamento dos hábitos da vítima interessasse somente às investigações da autoria do crime.

Espalhados à famélica boataria das multidões, estamos diante apenas de mais um caso em que os criminosos ainda não são conhecidos, mas a vítima já resta para sempre condenada.


10 de dezembro de 2008
N° 15815 - DAVID COIMBRA


Toda a verdade sobre o Paraíso

Agora, no 2009 que já pedala a porta, o Gre-Nal completará 100 anos. Pelo que, inauguro hoje uma série de colunas que contará um pouco da história do clássico e do ambiente no qual se desenvolveu, a nossa mui leal e valorosa cidade de Porto Alegre.

Mas não vou começar pelo começo. Vou começar antes do começo, quando não havia Gre-Nal. Na verdade, não havia nem futebol na capital de todos os gaúchos.

O porto-alegrense se divertia era com corrida de cavalo, jogo de bocha e bolão e esportes náuticos. O futebol era novidade no Brasil. Fazia apenas nove anos que o bigodudo Charles Miller desembarcara em São Paulo com duas bolas de couro confeccionadas na Velha Álbion.

Esse Charles Miller, diziam que era craque. Será possível que o primeiro jogador brasileiro de todos os tempos, o nosso Adão de chuteiras, já fosse craque? Qualquer repórter com ano e meio de experiência duvidaria disso.

Só que Charles Miller foi mesmo goleador dos campeonatos de que participou lá na Ilha e, depois, descendo ao Sul da Linha do Equador, também. Ele inclusive inventou uma jogada que leva seu nome: o miller. Quem ainda não deu um passe de miller numa pelada?

Brincadeirinha: estou falando do charles, ou a popular “chaleira”.

Pois Charles Miller só foi dar seus charles um ano depois de chegar, em 1895. A partir daí é que o futebol começou a se espraiar pela então jovem República.

Sem Internet, televisão, telefone e rádio, sem avião, carros e caminhões, sem energia elétrica, sem nem estradas que prestassem, as novidades só chegavam via marítima e fluvial. Assim, o futebol desembarcou primeiro no porto do Rio Grande. O EC Rio Grande foi fundado em 1900 e passou a enfrentar os times do lado de lá da Fronteira.

Havia curiosidade no Estado a respeito do chamado “novel esporte bretão”. Por isso, no feriado de 7 de setembro de 1903, o Rio Grande enviou uma comitiva a Porto Alegre a fim de fazer uma apresentação. Uma espécie de show. O time titular jogaria contra o reserva para mostrar como funcionava aquele jogo. O evento ocorreu na Várzea, hoje Parque Farroupilha.

Centenas de curiosos compareceram. Entre eles, o dono da primeira e até então única bola de futebol da cidade, o comerciante Cândido Dias, paulista como Charles Miller. Cândido Dias, incentivado por amigos e parentes de São Paulo, queria jogar futebol, mas não tinha companhia no Sul longínquo.

Então, arrastou os amigos comerciantes de Porto Alegre para assistir à exibição do Rio Grande. No feriado, lá estavam eles, em volta do campo da Várzea.

Chuta daqui, chuta dali, deu-se o acidente: a bola furou! Era a única, evidentemente. O jogo teria de ser encerrado. Arrá, mas Cândido Dias levara a sua própria bola! Disse que a emprestaria, contanto que os riograndinos lhes ensinassem como jogar e lhes dessem um livrinho de regras do esporte. Feito.

Desta forma, primeiro jogo de futebol da história de Porto Alegre pôde ser finalizado. Uma semana depois, em 15 de setembro, dois grupos de amigos resolveram fundar os primeiros clubes de futebol da capital. Ambas as entidades nasceram mais ou menos no mesmo local, na antiga Praça do Paraíso.

De paraíso o lugar tinha pouco. Era um terreno sem calçamento, que nos dias de chuva se transformava em um lodaçal intransitável. Porém, lá havia uma casa onde, segundo o célebre cronista Coruja, residiam “moças cantadeiras”.

Ou seja: elas cantavam maviosamente e, com suas vozes de rouxinóis, alegravam a vida da Porto Alegre d´antanho. Donde, a casa delas virou o Paraíso.

Cá entre nós, não era bem isso. A casa nada mais era do que de tolerância, um rendez-vous, um lupanar, um alcouce. Um prostíbulo, enfim. Em plena Praça Paraíso!

Praça essa que, bem mais tarde, com a proclamação da República, ganhou novo nome, que vige ainda hoje: 15 de Novembro. Isso mesmo: a Praça 15, do Chalé e do Mercado Público. Lá é que surgiram os dois primeiros clubes de futebol de Porto Alegre. Um, de alemães, o Fuss-Ball Porto Alegre.

Outro, fundado por 33 comerciantes de descendência alemã, italiana e portuguesa, denominado Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense.

Pronto. Já havia o Gre do Gre-Nal.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

A plebe rude

RIO DE JANEIRO - De certa forma, e uns pelos outros, quase todos os cronistas e colunistas em atividade na mídia nacional comentaram a recente fala do presidente da República, que usou uma expressão classificada de "chula". Resisti até agora, mas quem há de?

De minha modesta parte, não fiquei escandalizado com a expressão em si, mas confesso que até hoje fico ruborizado quando leio ou ouço a palavra "chula".

Quando a ouvi pela primeira vez, mais ou menos aos 12 anos, pensei que se tratava de um sinônimo técnico ou erudito para "vagina", órgão feminino que eu conhecia por outros nomes em voga no distante Lins de Vasconcelos, onde nasci e me criei.

Vai daí, achei o uso da palavra "chula" mil vezes pior do que a expressão popular usada por Lula. Além disso, a exposição do cargo que ocupa o obriga a falar todos os dias em diversas ocasiões, nem sempre formais.

E a linguagem coloquial nem sempre pode ser evitada. Nunca tivemos um presidente que falasse tanto em público, muitas vezes desnecessariamente.

Nos 20 anos em que exerceu o poder, Getúlio Vargas pouquíssimo falou de improviso. Seu sucessor, o marechal Dutra, era ruim de prosódia e só falava o estritamente necessário, às vezes nem isso

JK falou muito, FHC também. Somando os dois, não chegam à metade do que Lula já falou -e ainda lhe restam quase dois anos de mandato.

Jânio era econômico e castiço demais quando falava qualquer coisa -e até mesmo quando não falava. Tinha obsessões pela colocação dos pronomes.

Em outro cenário político e lingüístico, a expressão usada chocaria a classe média, como chocou alguns comentaristas da mídia. Mas a plebe rude, que engrossa os 70% de aprovação ao presidente, teve mais um motivo para considerar Lula como um dos seus.

JOSÉ SIMÃO

Buemba! Lula lança o "Skoll Center"!

É o call center pra reclamar da cerveja quente! E Bambi não é hexa, é TRI-BI!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

O Brasil não está em crise! Pra desespero da Miriam Leitão (ops, Miriam Porcão), não estamos em crise. Ontem vi na TV: "França: parisienses moderam nos gastos natalinos".

Aí corta pro Brasil, e tá todo mundo no Feirão do Carro! Comprando em 75 meses. Crise é pra milionário! Diz que esse vai ser o Natal do iPod!

IPod parcelar em dez vezes? IPod dar desconto? Aliás, diz que o melhor programa da crise é levar o iPod pra jantar fora: canta bem, não come lagosta e você desliga quando quiser.

Rarará! E não se fala recessão. É desaceleração. Desaceleração da aceleração econômica! E um amigo meu quer ir pra Teresina passar o Natal com a família.

Sabe quanto tá a passagem só de ida? R$ 1.200. Guarulhos, Brasília, Goiânia, Salvador e Teresina. Doze horas! Por esse preço tem mesmo é que passar 12 horas no avião. Tem que aproveitar o avião!

BAMBIS! O meu São Paulo é hexa!

Os bambis buzinaram até 0h! Hegaxerados! Corintiano festeja com pagode na laje. E são-paulino com buzinaço nos Jardins. E sabe o que um bambi falou pro outro? "Não fala hexa, fala tri-bi que é mais chique." Bambi não é hexa, é TRI-BI!

Sou bambi com orgulho! E, em vez de parabéns, só recebo desaforo. "Simão, sabe por que o São Paulo é campeão? Porque mantém sempre a mesma base. Só muda o esmalte."

"Simão, sabe qual o maior panetone do mundo? O Morumbi, grande, redondo e cheio de frutinha." Ah, vai sifu, como diz o Lula. Aliás, o Lula não quer saber de call center.

Lançou o SKOLL CENTER. Pra reclamar que a cerveja tá quente. Ainda bem que o Lula é corintiano. Como ia pronunciar hexacampeão? Ia falar EXTRA. Extra Supermercado.

E ainda bem que o Tardelli não apitou o jogo, senão a torcida ia gritar: "Juiz ladrão, bonitão e gostosão". Rarará! Mas avisa pros palmeirenses e corintianos que a gente é bambi, mas não toma de quatro!

E avisa pro Vasco que segunda divisão é como chuveiro frio: é ruim ao entrar, depois acostuma, e no fim é uma beleza. Manda contratarem o motorista do Corinthians;

ele conhece todos os campos da segunda divisão, sabe onde parar! Uma palavra de consolo ao Vasco: é na merda que nasce o champinhon! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Obelisco": apertão que o companheiro dá no traseiro da companheira. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês!

Nóis sofre, mas nóis goza! Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br
Filmes de Brad Pitt e Angelina Jolie disputam prêmio nos EUA
Publicidade - da Folha Online

"O Curioso Caso de Benjamin Button", estrelado por Brad Pitt, concorre com "A Troca", que tem Angelina Jolie no papel principal, ao prêmio de melhor filme na 14ª edição do Critics's Choice Awards.


Angelina Jolie em "Changeling" x Brad Pitt em "The Curious Case of Benjamin Button"

Outros oito filmes estão na disputa: "Batman - O Cavaleiro das Trevas", "Frost/Nixon", "Milk", "Slumdog Millionaire", "WALL-E", "Doubt", "The Reader" e "The Wrestler".

O prêmio é considerado uma prévia do Oscar nos EUA.

Pitt disputa ainda o prêmio de melhor ator com Sean Penn, indicado por "Milk".

"Benjamin Button" e "Milk" lideram as indicações ao prêmio --concorrem em oito categorias.

Organizado pela Broadcast Film Critics Association, o prêmio será entregue em 8 de janeiro


A MELHORIA NA REPRESENTATIVIDADE FEMININA

Não obstante o fato de serem 51% da população brasileira, a ocupação de espaços públicos por parte das mulheres ainda deixa muito a desejar.

Essa é a avaliação da coordenadora do Instituto Feminista para a Democracia (SOS Corpo), Carmem Silva, que, juntamente com outras entidades, é responsável por um foro para organização do público feminino pela democratização da gestão pública.

O evento, sediado em Recife, reuniu gestoras municipais, estaduais e mulheres engajadas na busca de maior atuação das mulheres na sociedade.

Segundo Carmem Silva, o fato de as brasileiras participarem em eleições periódicas não significa que elas tenham acesso a uma igualdade real. Para ela, a democracia implica um trabalho efetivo para superação das desigualdades com que são confrontadas todos os dias.

É por isso que no encontro definiram-se reivindicações para serem apresentadas para todos os eleitos que irão tomar posse em cargos municipais a partir de janeiro. Trata-se de buscar a elaboração de planos municipais coerentes com o Plano Nacional de Políticas Públicas para Mulheres.

Conforme um levantamento do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), também organizador do seminário, a participação das mulheres nos poderes Legislativo e Executivo continua a evoluir lentamente.

Em 2008, apenas 12,52% dos eleitos para as câmaras municipais foram mulheres, apresentando, inclusive, um decréscimo em relação a 2004, quando esse percentual foi de 12,65%. No caso das prefeituras, de um montante de 5.558 eleitos, somente 9,08% são prefeitas.

Para melhorar esse quadro, de falta de prioridades às candidatas, que não recebem prioridade nos partidos e enfrentam problemas como os da dupla jornada de trabalho, a coordenadora sugere mudanças no sistema político, abrindo espaço para favorecer as candidaturas femininas.

Além disso, medidas no rumo da igualdade para enfrentar a pobreza e o desemprego são bem-vindas.

As mulheres são um importante segmento da sociedade brasileira e, enquanto não tiverem uma representação proporcional ao seu peso demográfico, não teremos ainda uma democracia efetiva.

Melhorar a participação delas na vida pública é um desafio de todos, homens, mulheres, partidos, instituições e governantes.

Aproveite o dia. Tenha uma ótima terça-feira

arte pedro dreher sobre fotos cp memória

AVANTE, PARA TRÁS

Como é bom errar. Nunca me senti tão feliz pagando um mico. Ao contrário do que eu previ, num momento de desespero e ceticismo, o prefeito José Fogaça anunciou seu veto ao projeto do Pontal do Estaleiro.

Tratei de cumprir o prometido. Desci, enrolado num cobertor, e fiquei 30 segundos pelado na rua. Fogaça mostrou independência, coragem e visão de estadista. A decisão ficará para a população de Porto Alegre.

Confesso que Fogaça me surpreendeu. Tiro o chapéu para ele. Não tenho problema em reconhecer os acertos dos outros, mesmo, ou principalmente, depois de tê-los fustigado com as minhas críticas. Espero que Tite fique no Inter em 2009.

Admito que Fogaça agiu com perfeição pelo interesse da cidade. Ando tão flexível que sou capaz de pedir também a permanência do Edinho no Internacional por mais dez anos.

Na verdade, houve uma articulação engenhosa para ajudar o prefeito a vetar. Os vereadores perceberam que haviam pisado na bola, aprovando de maneira precipitada uma alteração importante numa lei relativa a uma área de proteção permanente, e queriam recuar, mas não podiam dar a impressão de derrota.

Não ficaria bem. Era aquela história de mudança de rumo, dita de muitas formas e por muitos bons frasistas, resumida assim: não tão rápido que pareça fuga nem tão lentamente que pareça medo ou falta de planejamento. Avante, para trás. Nada de anormal.

É isso que se chama costumeiramente de política: a arte de dobrar dando a impressão de seguir em linha reta. Deve ser por isso que se pode considerar a arte política como uma ilusão de ótica ou uma ótica da ilusão racional.

O prefeito, por seu turno, pretendia vetar, mas não queria desmoralizar nem desautorizar os vereadores. Surgiu, então, o plano B, a retirada estratégica, o recuo com cara de avanço: o referendo popular.

Não critico. Elogio. Esse recuo é, de fato, um avanço. Graças a essa saída de emergência, sugerida muitas vezes por adversários do Pontal, todo mundo vai ficar bem na parada.

Fogaça veta sem ferir os brios dos vereadores, que tiveram a grandeza de sugerir ao prefeito essa solução honrosa, há mais tempo (talvez muito tempo) para que a sociedade discuta o projeto, e o povo, soberano, leve e solto, pode decidir.

A governadora Yeda Crusius precisa se espelhar em tão sábia atitude e propor um plebiscito sobre a prorrogação dos pedágios gaúchos.

Como é bom quando os representantes do povo resolvem ouvir as ruas. Fico emocionado com essa sintonia entre representantes e representados. A ordem surge da desordem, a luz vem das trevas e do caos vem a sabedoria. Que lindo! Há quem não goste desse tipo de discurso por achá-lo piegas, pomposo ou meramente retórico.

É gente rude, ou direta, que prefere formular a mesma idéia com termos mais frontais: nada como a pressão e o bafo na nuca para que o gosto pela democracia direta toque os corações mais empedernidos. Logicamente, não posso endossar palavras cruas assim.

Acredito nos processos de amadurecimento. Nunca me passaria pela cabeça a hipótese cínica de que os vereadores, sabendo da inexorabilidade do veto, resolvessem apresentar ao prefeito, por sugestão dele, um mecanismo que salvasse a face de todo mundo.

Eu só penso o melhor. Estou convencido de que cada um pesou, ponderou, refletiu e percebeu que era hora de dar o braço a torcer, o que evitou uma dolorosa queda-de-braço.

juremir@correiodopovo.com.br


09 de dezembro de 2008
N° 15814 - PAULO SANT’ANA


Assaltante, não!

Depois se queixam quando não escrevo.

Mas é que se torna impossível deixar-se de conceder ao governo uma resposta como esta: “Comunicador Paulo Sant’Ana. Li com atenção sua coluna de 5/12, com o título ‘Pressa suspeita’ e em respeito a seus leitores devo fazer alguns esclarecimentos.

Em primeiro lugar, Sant’Ana, preciso contestar o título da coluna, porque não espelha de forma alguma as relações do Poder Executivo com o parlamento gaúcho.

O governo enviou para a Assembléia Legislativa um projeto de lei claro, detalhado e definido. Entregou, também, aos parlamentares de todos os partidos um kit contendo fartas informações sobre os objetivos do projeto e sobre as mudanças que serão feitas no Plano Estadual de Concessões Rodoviárias.

Aliás, o mesmo material completo foi entregue aos jornais, em geral, e para alguns jornalistas, em particular, como foi o seu caso.

Ao contrário do que você afirma, não há pressa e não há ação suspeita. A urgência é adotada quando o assunto em pauta é de grande domínio público e quando as opiniões encontram-se estratificadas ou fortemente contaminadas por preconceitos ideológicos, como ocorre com o caso das concessões rodoviárias.

A urgência não interfere na soberania do parlamento, nem impede o debate; afinal, entre a apresentação do projeto e sua votação, são mais de 30 dias para ler, questionar e apresentar sugestões. Será que nossos deputados não são capazes de conhecer, debater e formar opinião neste prazo?

Eu acredito que sim. Você, por suas palavras, pensa que não. Sant’Ana, quem quer mais tempo não quer votar, não quer decidir, agora ou no ano que vem. Essa é a verdade.

Mas, Sant’Ana, o que é inaceitável para o governo do Estado são as insinuações de que o projeto enviado pelo governo ‘cheira mal’ ou que ‘tem coelho neste mato’, além de outras acusações, igualmente ofensivas, de que o governo age como assaltante e quer ‘arrancar’ a prorrogação do Legislativo.

São afirmações absurdas sobre um governo formado por uma aliança formal e lícita entre partidos políticos tradicionais e representativos e que vem anunciando aos quatro ventos desde abril deste ano todas as informações sobre o Programa Duplica RS, inclusive visitando todas as principais empresas de comunicação do Estado. Na RBS, estive em pelo menos três ocasiões expondo e debatendo as propostas do governo.

E quem é que está tentando ‘arrancar’ algo do Poder Legislativo? E quem você está acusando de ser ‘assaltante armado de arcabuz’ ou de ser ‘coelho no mato’? Opinar sobre um projeto é uma coisa, mas acusar pessoas ou um governo é outra. Na democracia, devemos respeitar as opiniões, e respeitamos, mas jamais tolerar as acusações injuriosas.

Ao contrário do que você insinua, o projeto do governo é inédito na história das concessões no Brasil. Observe: nosso projeto reduz a tarifa básica em 20%.

Em 2000, o governo aumentou os pedágios em 36,5% e isso foi votado em uma semana, sem qualquer debate público. O que você diz a respeito dessa transparência? Nosso projeto prevê mais de R$ 1 bilhão em obras novas, contra nem um centavo sequer em 2000.

Nós propomos ampliar a exigência de qualidade das estradas para dar mais segurança, exigência que foi reduzida em 2000 tornando mais inseguras as rodovias. Nós queremos valorizar a participação dos usuários e propomos a criação dos conselhos de usuários em cada pólo, um assunto que foi ignorado em 2000.

E, finalmente, se aprovado, o novo modelo vai zerar a dívida hoje estimada em R$ 1 bilhão, que o Estado reconheceu por lei em 2000, e que até hoje não pagou.

Quanto à prorrogação dos contratos, vários Estados já fizeram isso e aqui no Rio Grande do Sul, sem a sua oposição, o governo federal prorrogou o contrato da concessão do pólo de Pelotas.

No meu entendimento, você tem todo o direito de não gostar do projeto que altera o Plano Estadual de Concessões Rodoviárias, mesmo sem conhecer nada sobre ele. Pode achar que é ruim, que está todo errado e até que é uma porcaria. Isso tudo faz parte da democracia e os governantes precisam ouvir mesmo quando não gostam.

O que você não pode fazer, Sant’Ana, é insinuar que o trabalho de homens e mulheres que deram o melhor de seu esforço e de seu talento para elaborar um plano com o objetivo de reduzir as perdas de mercadorias e de vidas humanas nas rodovias de nosso Estado ‘cheira mal”.

Sant’Ana, assaltante, não! (ass.)Daniel Andrade, secretário de Infra-Estrutura e Logística do Rio Grande do Sul”.


09 de dezembro de 2008
N° 15814 - MOACYR SCLIAR


O que fizeste?

Notícias sobre violência fazem parte de nosso cotidiano; estamos tão acostumados a elas que não raro reagimos com indiferença às sombrias manchetes. Mas às vezes acontecem coisas que nos abalam, que nos sacodem, que nos obrigam a pensar.

Dias atrás, o comerciante Adair Pereira da Rosa, 56 anos, foi assaltado, junto com a esposa, a professora Mara Regina da Rosa, na pizzaria da família em Gravataí. Eram três os bandidos, estavam armados e Adair não reagiu: pediu apenas que não machucassem ninguém. Mara entregou o dinheiro que tinha no caixa, R$ 200.

E aí aconteceu algo que ultrapassa tudo quanto se possa imaginar em termos de crueldade. Um dos assaltantes mandou que Adair se ajoelhasse e matou-o com um tiro na nuca. Gesto brutal, que desafia nossa compreensão e nos faz desesperar da racionalidade humana.

Mas a história tem um desdobramento. Segundo a notícia, outro assaltante, indignado com o que acabava de acontecer, gritou: “O que tu fez, cara?”.

A pergunta chama a atenção. É a mesma que Deus dirigiu a Caim quando este havia acabado de matar Abel, e que em geral expressamos num português melhor: “O que fizeste?”.

No caso da divindade, não se trata de surpresa ou de averiguação. O Senhor sabe perfeitamente o que Caim fez. Sua finalidade é outra; perguntando, quer que o assassino tome consciência de seu crime.

O assaltante que interroga o cúmplice, porém, de fato não entende o que se passou, não consegue compreender a razão pela qual o criminoso não respeitou aquilo que provavelmente tinha sido acordado: nada de vítimas. A resposta que daríamos a sua pergunta é: “Só Deus sabe” Mas o assaltante não é Deus.

Quem se julgou Deus foi o criminoso, que, sentindo-se infinitamente poderoso (afinal, empunhava um revólver, coisa que dá a muitos a sensação de poder absoluto), exigiu, muito simbolicamente, que o homem se ajoelhasse diante dele antes de matá-lo.

Entre o poder alucinado do assassino e o desamparo absoluto da vítima, está o segundo assaltante, com sua perplexa raiva, da qual, e de alguma maneira, participamos.

Qualquer esperança de resolver o problema do crime depende, paradoxalmente, dessa perplexidade, que indica a existência de uma terra de ninguém, de um território de limite indefinido separando as pessoas comuns dos criminosos. É deste território que o segundo assaltante brada, raivoso e aflito: “O que tu fez, cara?”.

Mas é ali que podemos fazer alguma coisa para evitar a alucinada violência que caracteriza nossa época. Este é o lugar para prevenção da violência através do processo educativo. Que não pode ser feito de forma ingênua, romântica; não pode excluir punição.

Crime exige castigo, até porque o castigo, adequadamente instituído, educa. O que não podemos é ficar inermes, aguardando que Deus nos interrogue: “O que fizeste?”. Alguma coisa temos de fazer. Quando mais não seja, como homenagem à memória de Adair Pereira da Rosa.

Para o último fim de semana estava programada a realização, em Florianópolis ( Universidade Federal de Santa Catarina), do Congresso Brasileiro de Saúde Mental, no qual eu deveria dar uma conferência.

Preocupado com a situação no vizinho Estado, resolvi telefonar dias antes aos organizadores para saber se o evento estava confirmado. Estava.

Mais que isto: “Agora ficou ainda mais importante realizar o congresso”, disse a pessoa que me atendeu, uma resposta que reflete a atitude corajosa dos catarinenses diante da desgraça.

O Congresso atraiu muita gente e cumpriu suas finalidades, examinando uma área crucial na saúde pública e propondo soluções.

E o fim de semana estava glorioso, sol brilhando e mar azul: a bela e brava Santa Catarina que nós conhecemos e da qual somos eternos admiradores.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008


MOACYR SCLIAR

O mortífero celular

Antes que fizesse qualquer coisa, Tony já tinha lhe metido três balas na cabeça; Cipriano caiu sem um gemido

Máfia italiana "disfarça" arma em formato de celular. A polícia italiana descobriu na semana passada um aparelho celular que, na verdade, é uma arma calibre 22. O "telefone-arma" tem a capacidade para quatro balas, e foi apreendido com gângsteres da máfia italiana, em Nápoles.

Segundo a polícia, o telefone se transforma em arma ao deslizar o teclado; um toque em uma tecla específica faz a bala disparar. "É a primeira vez que uma arma desse tipo foi apreendida. Isso mostra a sofisticação tecnológica. Os mafiosos estão transformando a criminalidade", disse um porta-voz da polícia italiana. Folha Online

OS DOIS ERAM mafiosos, os dois eram jovens e ambiciosos, os dois eram conhecidos pela astúcia e pelo temperamento violento. Tony "Raivoso" e Cipriano "Escorpião" se odiavam.

Um havia jurado matar o outro. Mas a ambos repugnava pagar um assassino para fazer isso; ambos queriam, eles próprios, fazer justiça, como diziam, com as próprias mãos. Cara a cara.

O que seria difícil. Encontravam-se freqüentemente, em geral num pitoresco restaurante onde ambos costumavam almoçar ou jantar. E aí conversavam cordialmente, como se fossem bons amigos. Mas, claro, um estava observando o outro.

Se Tony levasse a mão ao bolso interno do paletó, Cipriano já estaria com a automática na mão, pronto para disparar. Portanto, evitavam fazer qualquer gesto suspeito. Mas tinham a certeza que um dia, o inimigo descobriria um jeito de empunhar uma arma sem cha- mar a atenção.

Foi então que Tony ficou sabendo do telefone-arma, que estava sendo usado por gângsteres em Nápoles. E estremeceu: em matéria de astúcia, de traição, aquilo era a obra-prima.

Com todo mundo usando celular, quem desconfiaria desse truque? Naquela noite, não dormiu. Tinha certeza que, assim como soubera da notícia, Cipriano também já estava informado acerca do telefone-arma.

Provavelmente já tinha o seu. E isso era para ele, Tony, uma ameaça terrível. Com esse alerta muito presente, dirigiu-se, ao meio-dia, para o restaurante, esperando que Cipriano não estivesse lá.

Mas Cipriano estava lá, e recebeu o desafeto de maneira surpreendentemente amável e até carinhosa.

Porque tinha uma novidade para contar: acordara no meio da noite com uma certeza: estava na hora de dar um fim àquela rivalidade, aquele ódio. Por que não se uniam, os dois, e seus grupos? Unidos, seriam imbatíveis. Tony não estava de acordo?

Desconfiado, Tony disse que sim, que aquela era uma boa idéia, impregnada, inclusive, de espírito natalino. Se você concorda, disse Cipriano, radiante, vou avisar minha gente agora. E tirou do bol- so o celular.

Antes que fizesse qualquer coisa, Tony já tinha lhe metido três balas na cabeça. Cipriano caiu sem um gemido.

Tony apanhou o celular. Não era uma arma, era um celular mesmo, dos antigos. Cipriano morrera por equívoco. Mas Tony não admitiria seu erro. O culpado de tudo era o próprio Cipriano.

Que história era aquela de, subitamente, falar ao celular? Bem que ele poderia ter recorrido a outro método para avisar seus homens. Pombo-correio, por exemplo. Mesmo porque o pombo, como se sabe, é o símbolo da paz.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

FERNANDO RODRIGUES

Monotonia micropolítica

BRASÍLIA - Uma certa instabilidade política se repete a cada dois anos por ocasião das eleições para as presidências da Câmara e do Senado -as escolhas serão em 1º de fevereiro, em menos de dois meses.

Desta vez, a disputa interna na micropolítica congressual parece ter atingido um estágio de monotonia nunca visto em décadas. Há uma emulação do que se passou em eleições gerais recentes, realizadas num clima de grande calmaria e normalidade. Era comum ouvir em outubro pessoas não se dando conta de que mais de 5.500 prefeitos estavam sendo eleitos.

Colabora para o marasmo um cenário no qual não há nenhum candidato exótico disposto a fazer oposição ao Planalto. Na Câmara, os dois nomes mais competitivos são Michel Temer (PMDB-SP) e Ciro Nogueira (PP-PI). Ambos querem o apoio de Lula e fazem juras de amor ao presidente. Nem pensam em romper com o governo.
No Senado, um candidato já lançado é o petista Tião Viana, do Acre.

O outro deve ser do PMDB, partido mais governista que o PT. Também deve ser relativizado o efeito colateral no caso de o PMDB perder a presidência da Câmara ou a do Senado -ou as duas.

Haverá choro e ranger de dentes. Alguns peemedebistas ameaçarão romper com Lula. Acusarão o Planalto de interferência. Mas é nula a chance de o PMDB entregar seus seis ministérios e virar oposição.

Há ainda a teoria segundo a qual Lula deve arbitrar o processo porque os presidentes da Câmara e do Senado estarão no comando durante a sucessão de 2010. Bobagem. Se o PMDB encaçapar as duas Casas, nada garante seu apoio ao candidato de Lula. Os peemedebistas se movem com o vento. Quem estiver na frente e oferecer mais, leva.

Tudo somado, surgirá muita espuma no Congresso até fevereiro. Muita retórica e pouca conseqüência prática na vida real do país.

frodriguesbsb@uol.com.br


Construção, tragédia, desconstrução, construção

Na natureza, na vida pessoal e na coletiva, a vida e a morte, a construção e a desconstrução se sucedem, desde que o mundo é mundo.

Chuva, enchentes, pessoas, terremotos, maremotos, incêndios, ciclones, mares e rios constroem e destroem nos infinitos caminhos que percorrem através do tempo.

A tragédia de nossos vizinhos catarinenses nos toca de modo especial, pela magnitude e pela proximidade, e as mobilizações e a solidariedade mostram que, nesses momentos, o essencial é mesmo a ajuda.

Em épocas de bonança, tantas vezes as pessoas se recolhem aos seus domínios, curtindo as benesses sozinhas ou com poucos parentes e amigos.

Nas horas de céu de brigadeiro, mar calmo e temperatura amena, os humanos ficam sonhando imortalidades, fortalezas eternas e pensam que nada de mal os poderá atingir, enquanto sentem o entardecer na pele, flutuando num barco, andando a cavalo, deslizando num carro na freeway, andando de bicicleta ou simplesmente caminhando despreocupadamente num parque florido.

É até bom que seja assim. Ninguém agüenta tragédias o tempo inteiro e quem nunca enfrentou grandes problemas não dá o mesmo valor para os momentos de felicidade e paz.

Não estou dizendo novidades, eu sei. Nem é o que pretendo. Nessa hora de horror, além de ajudar os irmãos de Santa, o melhor é se dar conta, mais uma vez, de que estamos de passagem pela terra e que devemos valorizar cada segundo vivido, seja ele fácil, difícil, alegre ou triste.

O tempo não pára. Madre Teresa de Calcutá disse que quando nos relacionamos com alguém, o melhor é sair do encontro melhor do que quando chegamos.

Emendando a preciosa lição da religiosa gigante, é bom pensar que, quando entramos em contato com as coisas do mundo, é conveniente sair melhor da aproximação.

Mesmo quando a natureza e as pessoas se mostram destrutivas, sempre dá para tirar alguma coisa boa e produtiva do fato. Rezar, ajudar, dar-se conta de que somos frágeis anjos de uma asa só, que precisamos do outro para voar, por exemplo.

Existe o tempo para construir, o tempo de destruição e o tempo de reconstruir. Existe tempo para sonhar, executar, semear e colher.

O tempo agora é de ajudar os vizinhos, que, no dia em que precisarmos, certamente não vão nos negar solidariedade. Jaime Cimenti

Ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós


OS PIORES DO ANO

Foi dada a largada. Todo mundo já está fazendo listas de melhores de ano. Eu não. Sou do contra. Prefiro listar os piores do ano.

É jogo duro. São muitos os candidatos. Em todo caso, em décimo lugar aparece a Seleção Brasileira do gaúcho Dunga.

Apesar de figurar em segundo lugar nas eliminatórias para a Copa do Mundo, o time da amarelinha mais amarelou do que dourou. Desse jeito, vai superar a era Parreira e ganhar a próxima Copa sem nenhuma apresentação convincente. Em nono lugar, figura o jornalismo cultural brasileiro, em especial o praticado por Veja,

O Globo, Jornal do Brasil, Estado de S. Paulo e Época. Nunca, o provincianismo e o compadrismo foram tão longe. A idiotice deslumbrada atingiu o ponto culminante com a divulgação de uma pesquisa dando Britney Spears como a mulher mais influente do mundo.

Veja bateu seu recorde de jequice, só para atacar o petismo federal, com oito páginas para o livro de Larry Rohter, 'Deu no New York Times', um amontoado de reportagens clichês e babacas sobre o Brasil e suas eternas contradições.

O Rio Grande do Sul não poderia ficar de fora de uma lista tão digna. O oitavo lugar vai para o nepotismo em nossos 'poderes constituídos'.

O sétimo lugar fica com os 20 vereadores que aprovaram a lei dos espigões, entregando parte da orla do Guaíba para a especulação imobiliária. Somos originais e flexíveis. Primeiro fazemos os negócios. Depois, se necessário, mudamos as leis para que elas não atrapalhem a marcha do progresso.

Nesse sentido, o Brasil não fica atrás. O sexto lugar vai para Lula pela mudança na lei para permitir a fusão Oi/Telemar, caracterizada pelo colunista Jânio de Freitas como a 'transação mais inescrupulosa de todas'.

O quinto lugar volta ao Rio Grande do Sul. Vai para a secretária da Educação Marisa Abreu por se recusar a aceitar como salário inicial o piso de R$ 950,00 fixado por lei federal.

Para ela, piso deve ser teto. E pela façanha perversa de ter cortado metade do miserável salário dos professores que fizeram greve contra a sua truculenta tentativa de manter o Rio Grande do Sul fora da lei.

Uma lista de piores deve ter muita cultura. Cabe ao cinema um lugar de honra. O cinema brasileiro é especializado no pior. Mas o de Hollywood consegue o pior e o melhor ao mesmo tempo. 'Batman, o Cavaleiro das Trevas' fica com quarto lugar.

Até quando esse besteirol infantil vai se repetir como novidade? O terceiro lugar é Eduardo Galeano pela sua capacidade estratosférica, comprovada em 'Espelhos, uma História quase Universal', de ser rasteiro.

O segundo lugar é de Adriana Calcanhoto pela sua neutralidade espetacular: fazer um show que, mesmo não sendo tecnicamente ruim, não pode ser chamado rigorosamente de epidermicamente bom. Embala até dormir.

O primeiríssimo lugar vai para 'O Mago', biografia picareta de Paulo Coelho feita por Fernando Moraes.

Como um bom gigolô de celebridades, sempre colado a algum valor de mercado seguro, Moraes conseguiu mesclar oportunismo, bajulação, hagiografia, promoção e autopromoção num grau raramente visto.

Meu nome foi citado nesse tijolo indigesto entre os primeiros críticos de Paulo Coelho.

Parece que vai desaparecer das novas edições internacionais como represália às minhas observações deselegantes sobre tão 'esmerado' trabalho. Moraes merece o troféu Picareta de Diamante de 2008. O pior de todos, fora da lista por pudor, sou eu mesmo.

juremir@correiodopovo.com.br


08 de dezembro de 2008
N° 15813 - PAULO SANT’ANA


Vergonhoso desfecho

Terminou ontem um campeonato nacional malcheiroso.

Na última rodada, segundo manifestação da própria CBF, havia uma manipulação armada para garantir resultado no jogo entre Goiás e São Paulo.

Em síntese, o São Paulo tomou todas as providências para ser campeão. O alvo era o árbitro Wagner Tardelli e foi atingido no âmago.

Não foi a CBF que constatou a manipulação. Foi a Federação Paulista. Embora não tenha sido esclarecida a manipulação, do episódio brotaram as evidências de que a urdidura partiu do São Paulo.

Como tanto adverti no rádio e na televisão e uma vez nesta coluna, a troca de mando de campo do jogo do Goiás contra o São Paulo foi imoral.

Obrigou-se o Goiás a jogar em Brasília, onde ontem 95% da torcida era favorável ao São Paulo. Uma vergonha!

Nunca vi uma troca de mando de campo prejudicar um terceiro, no caso o Grêmio, e favorecer vergonhosamente um segundo, no caso o São Paulo. Sem punir o faltoso, o Goiás.

Uma vergonha.

Caiu do céu para o São Paulo o jogo marcado para Brasília: nas duas últimas rodadas, o time paulistano jogou em “sua” casa, no Morumbi e, ontem, no estádio do Gama. A troca foi feita para garantir ao São Paulo dois locais propícios para sua festa.

Onde estão a igualdade e o equilíbrio do campeonato?

Outro absurdo: ao constatar, por notícia do Ministério Público e da Federação Paulista, que tinha havido manipulação de resultado na rodada final, junto ao árbitro, a CBF trocou o juiz e não trocou os bandeirinhas escalados.

Se a arbitragem tinha sido manipulada, os bandeirinhas pertencem à arbitragem. Então, como é que a CBF não trocou os bandeirinhas? Uma vergonha.

Essa manipulação do resultado do jogo de Brasília leva o universo dos torcedores de futebol a uma desilusão.

Não foi a CBF que flagrou a manipulação, a manobra criminosa de manipulação do resultado foi levada a efeito com a CBF completamente desinformada da contaminação de seu árbitro.

E aí surge a pergunta: quantos outros resultados foram manipulados? Quantos?

Até quando vai prosseguir a barganha de jogos manipulados junto às arbitragens?

Corre uma baba cloacal sobre as arbitragens brasileiras.

A aparência é sempre de moralidade. Mas, por baixo da superfície, corre um mar de lama, clubes do Rio e de São Paulo fazem o que bem querem dos resultados, em desfavor dos otários clubes provincianos.

Isso precisa acabar. Embora, como se vê, isso nunca vá acabar.

Campeonato roubado pelo São Paulo. Tanto pelo gol anulado do Botafogo, no jogo contra o São Paulo, quanto ontem pelo vergonhoso gol de impedimento do São Paulo sobre o Goiás, que decretou o título de bandeja para o poderio financeiro do São Paulo, que manipula a seu bel-prazer as arbitragens.

Assim é desanimador torcer por futebol. Constatar-se que os resultados são mudados ao sabor de negociatas, a maioria delas de tal subterraneidade que nem de longe são percebidas pelas torcidas e pela imprensa, constitui-se numa tragédia incomparável para o esporte.

O São Paulo tinha de ser o campeão. Precaveu-se contra qualquer azar ou demérito fora do campo.

Tristemente decreta-se num lodaçal que o campeão é o que tem mais dinheiro e pode comprar quem ele bem quiser.


08 de dezembro de 2008
N° 15813 - LF VERISSIMO


Para manter a sanidade

Há uma maneira de você escapar do noticiário catastrófico do dia. Não por alienação ou insensibilidade, mas para manter a sanidade.

Faça o seguinte: procure, no jornal ou na internet, a notícia mais inconseqüente, ridícula, ou bizarra que puder encontrar e concentre-se nela. Tem que ser algo que desminta a gravidade geral do momento e mostre que, por pior que esteja a situação, ainda poderemos ser salvos pela bobagem.

Há dias li, já não me lembro onde, que um carregamento de seios postiços a caminho da Austrália tinha desaparecido. Não posso descrever minha alegria ao ler a notícia.

Abandonei, imediatamente, toda preocupação com desastres naturais e econômicos e me entreguei a especulações sobre o fato insólito, ou, no caso, fofo. A notícia não trazia muitos detalhes.

Aparentemente, tinham perdido contato com um navio carregado com 120 mil seios postiços – ou 60 mil pares, não sei. A localização do navio quando desaparecera não era revelada.

Se fosse no Oceano Índico – especulei alegremente – a explicação podia ser um ataque de piratas da Somália, que teriam ocupado o navio, aberto os seus porões, mergulhado de ponta-cabeça na carga, gritando “Alá seja louvado!” e no momento discutiam o valor do seio postiço no mercado para cobrar o resgate.

O navio poderia ter naufragado, o que imediatamente sugeria a imagem de 120 mil seios boiando no oceano. Piloto de avião de busca para base: “Acho que localizei destroços do naufrágio, boiando sugestivamente na superfície. Câmbio”. Náufrago abandonado na proverbial ilha deserta vê seios e mais seios chegarem na praia, olha para o céu, abre os braços e grita “Que parte do meu pedido você não entendeu, Senhor?!” .

Mas o maior mistério de todos era: o que 120 mil seios postiços iam fazer na Austrália? Neste ponto deixei de me divertir com a notícia. Tive uma visão pungente de 60 mil travestis australianos esperando, inutilmente, no porto.

Ainda não se sabe se há água, e portanto vida, em Marte. Uma das luas de Saturno parece ter um ambiente propício para a vida orgânica, mas também não é certo.

Talvez estejamos mesmo sós neste canto do Universo. É pouco provável que não exista vida em algum lugar das trilhões de galáxias além da nossa, mas estas não nos interessam.

Esperamos, isto sim, que haja organismos que cresçam, se desenvolvam, formem civilizações e comecem a jogar futebol em planetas teoricamente acessíveis, para que se possa pensar num campeonato do sistema solar. Senão o Internacional não vai ter mais nada para ganhar!