terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Filmes de Brad Pitt e Angelina Jolie disputam prêmio nos EUA
Publicidade - da Folha Online

"O Curioso Caso de Benjamin Button", estrelado por Brad Pitt, concorre com "A Troca", que tem Angelina Jolie no papel principal, ao prêmio de melhor filme na 14ª edição do Critics's Choice Awards.


Angelina Jolie em "Changeling" x Brad Pitt em "The Curious Case of Benjamin Button"

Outros oito filmes estão na disputa: "Batman - O Cavaleiro das Trevas", "Frost/Nixon", "Milk", "Slumdog Millionaire", "WALL-E", "Doubt", "The Reader" e "The Wrestler".

O prêmio é considerado uma prévia do Oscar nos EUA.

Pitt disputa ainda o prêmio de melhor ator com Sean Penn, indicado por "Milk".

"Benjamin Button" e "Milk" lideram as indicações ao prêmio --concorrem em oito categorias.

Organizado pela Broadcast Film Critics Association, o prêmio será entregue em 8 de janeiro


A MELHORIA NA REPRESENTATIVIDADE FEMININA

Não obstante o fato de serem 51% da população brasileira, a ocupação de espaços públicos por parte das mulheres ainda deixa muito a desejar.

Essa é a avaliação da coordenadora do Instituto Feminista para a Democracia (SOS Corpo), Carmem Silva, que, juntamente com outras entidades, é responsável por um foro para organização do público feminino pela democratização da gestão pública.

O evento, sediado em Recife, reuniu gestoras municipais, estaduais e mulheres engajadas na busca de maior atuação das mulheres na sociedade.

Segundo Carmem Silva, o fato de as brasileiras participarem em eleições periódicas não significa que elas tenham acesso a uma igualdade real. Para ela, a democracia implica um trabalho efetivo para superação das desigualdades com que são confrontadas todos os dias.

É por isso que no encontro definiram-se reivindicações para serem apresentadas para todos os eleitos que irão tomar posse em cargos municipais a partir de janeiro. Trata-se de buscar a elaboração de planos municipais coerentes com o Plano Nacional de Políticas Públicas para Mulheres.

Conforme um levantamento do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), também organizador do seminário, a participação das mulheres nos poderes Legislativo e Executivo continua a evoluir lentamente.

Em 2008, apenas 12,52% dos eleitos para as câmaras municipais foram mulheres, apresentando, inclusive, um decréscimo em relação a 2004, quando esse percentual foi de 12,65%. No caso das prefeituras, de um montante de 5.558 eleitos, somente 9,08% são prefeitas.

Para melhorar esse quadro, de falta de prioridades às candidatas, que não recebem prioridade nos partidos e enfrentam problemas como os da dupla jornada de trabalho, a coordenadora sugere mudanças no sistema político, abrindo espaço para favorecer as candidaturas femininas.

Além disso, medidas no rumo da igualdade para enfrentar a pobreza e o desemprego são bem-vindas.

As mulheres são um importante segmento da sociedade brasileira e, enquanto não tiverem uma representação proporcional ao seu peso demográfico, não teremos ainda uma democracia efetiva.

Melhorar a participação delas na vida pública é um desafio de todos, homens, mulheres, partidos, instituições e governantes.

Aproveite o dia. Tenha uma ótima terça-feira

arte pedro dreher sobre fotos cp memória

AVANTE, PARA TRÁS

Como é bom errar. Nunca me senti tão feliz pagando um mico. Ao contrário do que eu previ, num momento de desespero e ceticismo, o prefeito José Fogaça anunciou seu veto ao projeto do Pontal do Estaleiro.

Tratei de cumprir o prometido. Desci, enrolado num cobertor, e fiquei 30 segundos pelado na rua. Fogaça mostrou independência, coragem e visão de estadista. A decisão ficará para a população de Porto Alegre.

Confesso que Fogaça me surpreendeu. Tiro o chapéu para ele. Não tenho problema em reconhecer os acertos dos outros, mesmo, ou principalmente, depois de tê-los fustigado com as minhas críticas. Espero que Tite fique no Inter em 2009.

Admito que Fogaça agiu com perfeição pelo interesse da cidade. Ando tão flexível que sou capaz de pedir também a permanência do Edinho no Internacional por mais dez anos.

Na verdade, houve uma articulação engenhosa para ajudar o prefeito a vetar. Os vereadores perceberam que haviam pisado na bola, aprovando de maneira precipitada uma alteração importante numa lei relativa a uma área de proteção permanente, e queriam recuar, mas não podiam dar a impressão de derrota.

Não ficaria bem. Era aquela história de mudança de rumo, dita de muitas formas e por muitos bons frasistas, resumida assim: não tão rápido que pareça fuga nem tão lentamente que pareça medo ou falta de planejamento. Avante, para trás. Nada de anormal.

É isso que se chama costumeiramente de política: a arte de dobrar dando a impressão de seguir em linha reta. Deve ser por isso que se pode considerar a arte política como uma ilusão de ótica ou uma ótica da ilusão racional.

O prefeito, por seu turno, pretendia vetar, mas não queria desmoralizar nem desautorizar os vereadores. Surgiu, então, o plano B, a retirada estratégica, o recuo com cara de avanço: o referendo popular.

Não critico. Elogio. Esse recuo é, de fato, um avanço. Graças a essa saída de emergência, sugerida muitas vezes por adversários do Pontal, todo mundo vai ficar bem na parada.

Fogaça veta sem ferir os brios dos vereadores, que tiveram a grandeza de sugerir ao prefeito essa solução honrosa, há mais tempo (talvez muito tempo) para que a sociedade discuta o projeto, e o povo, soberano, leve e solto, pode decidir.

A governadora Yeda Crusius precisa se espelhar em tão sábia atitude e propor um plebiscito sobre a prorrogação dos pedágios gaúchos.

Como é bom quando os representantes do povo resolvem ouvir as ruas. Fico emocionado com essa sintonia entre representantes e representados. A ordem surge da desordem, a luz vem das trevas e do caos vem a sabedoria. Que lindo! Há quem não goste desse tipo de discurso por achá-lo piegas, pomposo ou meramente retórico.

É gente rude, ou direta, que prefere formular a mesma idéia com termos mais frontais: nada como a pressão e o bafo na nuca para que o gosto pela democracia direta toque os corações mais empedernidos. Logicamente, não posso endossar palavras cruas assim.

Acredito nos processos de amadurecimento. Nunca me passaria pela cabeça a hipótese cínica de que os vereadores, sabendo da inexorabilidade do veto, resolvessem apresentar ao prefeito, por sugestão dele, um mecanismo que salvasse a face de todo mundo.

Eu só penso o melhor. Estou convencido de que cada um pesou, ponderou, refletiu e percebeu que era hora de dar o braço a torcer, o que evitou uma dolorosa queda-de-braço.

juremir@correiodopovo.com.br


09 de dezembro de 2008
N° 15814 - PAULO SANT’ANA


Assaltante, não!

Depois se queixam quando não escrevo.

Mas é que se torna impossível deixar-se de conceder ao governo uma resposta como esta: “Comunicador Paulo Sant’Ana. Li com atenção sua coluna de 5/12, com o título ‘Pressa suspeita’ e em respeito a seus leitores devo fazer alguns esclarecimentos.

Em primeiro lugar, Sant’Ana, preciso contestar o título da coluna, porque não espelha de forma alguma as relações do Poder Executivo com o parlamento gaúcho.

O governo enviou para a Assembléia Legislativa um projeto de lei claro, detalhado e definido. Entregou, também, aos parlamentares de todos os partidos um kit contendo fartas informações sobre os objetivos do projeto e sobre as mudanças que serão feitas no Plano Estadual de Concessões Rodoviárias.

Aliás, o mesmo material completo foi entregue aos jornais, em geral, e para alguns jornalistas, em particular, como foi o seu caso.

Ao contrário do que você afirma, não há pressa e não há ação suspeita. A urgência é adotada quando o assunto em pauta é de grande domínio público e quando as opiniões encontram-se estratificadas ou fortemente contaminadas por preconceitos ideológicos, como ocorre com o caso das concessões rodoviárias.

A urgência não interfere na soberania do parlamento, nem impede o debate; afinal, entre a apresentação do projeto e sua votação, são mais de 30 dias para ler, questionar e apresentar sugestões. Será que nossos deputados não são capazes de conhecer, debater e formar opinião neste prazo?

Eu acredito que sim. Você, por suas palavras, pensa que não. Sant’Ana, quem quer mais tempo não quer votar, não quer decidir, agora ou no ano que vem. Essa é a verdade.

Mas, Sant’Ana, o que é inaceitável para o governo do Estado são as insinuações de que o projeto enviado pelo governo ‘cheira mal’ ou que ‘tem coelho neste mato’, além de outras acusações, igualmente ofensivas, de que o governo age como assaltante e quer ‘arrancar’ a prorrogação do Legislativo.

São afirmações absurdas sobre um governo formado por uma aliança formal e lícita entre partidos políticos tradicionais e representativos e que vem anunciando aos quatro ventos desde abril deste ano todas as informações sobre o Programa Duplica RS, inclusive visitando todas as principais empresas de comunicação do Estado. Na RBS, estive em pelo menos três ocasiões expondo e debatendo as propostas do governo.

E quem é que está tentando ‘arrancar’ algo do Poder Legislativo? E quem você está acusando de ser ‘assaltante armado de arcabuz’ ou de ser ‘coelho no mato’? Opinar sobre um projeto é uma coisa, mas acusar pessoas ou um governo é outra. Na democracia, devemos respeitar as opiniões, e respeitamos, mas jamais tolerar as acusações injuriosas.

Ao contrário do que você insinua, o projeto do governo é inédito na história das concessões no Brasil. Observe: nosso projeto reduz a tarifa básica em 20%.

Em 2000, o governo aumentou os pedágios em 36,5% e isso foi votado em uma semana, sem qualquer debate público. O que você diz a respeito dessa transparência? Nosso projeto prevê mais de R$ 1 bilhão em obras novas, contra nem um centavo sequer em 2000.

Nós propomos ampliar a exigência de qualidade das estradas para dar mais segurança, exigência que foi reduzida em 2000 tornando mais inseguras as rodovias. Nós queremos valorizar a participação dos usuários e propomos a criação dos conselhos de usuários em cada pólo, um assunto que foi ignorado em 2000.

E, finalmente, se aprovado, o novo modelo vai zerar a dívida hoje estimada em R$ 1 bilhão, que o Estado reconheceu por lei em 2000, e que até hoje não pagou.

Quanto à prorrogação dos contratos, vários Estados já fizeram isso e aqui no Rio Grande do Sul, sem a sua oposição, o governo federal prorrogou o contrato da concessão do pólo de Pelotas.

No meu entendimento, você tem todo o direito de não gostar do projeto que altera o Plano Estadual de Concessões Rodoviárias, mesmo sem conhecer nada sobre ele. Pode achar que é ruim, que está todo errado e até que é uma porcaria. Isso tudo faz parte da democracia e os governantes precisam ouvir mesmo quando não gostam.

O que você não pode fazer, Sant’Ana, é insinuar que o trabalho de homens e mulheres que deram o melhor de seu esforço e de seu talento para elaborar um plano com o objetivo de reduzir as perdas de mercadorias e de vidas humanas nas rodovias de nosso Estado ‘cheira mal”.

Sant’Ana, assaltante, não! (ass.)Daniel Andrade, secretário de Infra-Estrutura e Logística do Rio Grande do Sul”.


09 de dezembro de 2008
N° 15814 - MOACYR SCLIAR


O que fizeste?

Notícias sobre violência fazem parte de nosso cotidiano; estamos tão acostumados a elas que não raro reagimos com indiferença às sombrias manchetes. Mas às vezes acontecem coisas que nos abalam, que nos sacodem, que nos obrigam a pensar.

Dias atrás, o comerciante Adair Pereira da Rosa, 56 anos, foi assaltado, junto com a esposa, a professora Mara Regina da Rosa, na pizzaria da família em Gravataí. Eram três os bandidos, estavam armados e Adair não reagiu: pediu apenas que não machucassem ninguém. Mara entregou o dinheiro que tinha no caixa, R$ 200.

E aí aconteceu algo que ultrapassa tudo quanto se possa imaginar em termos de crueldade. Um dos assaltantes mandou que Adair se ajoelhasse e matou-o com um tiro na nuca. Gesto brutal, que desafia nossa compreensão e nos faz desesperar da racionalidade humana.

Mas a história tem um desdobramento. Segundo a notícia, outro assaltante, indignado com o que acabava de acontecer, gritou: “O que tu fez, cara?”.

A pergunta chama a atenção. É a mesma que Deus dirigiu a Caim quando este havia acabado de matar Abel, e que em geral expressamos num português melhor: “O que fizeste?”.

No caso da divindade, não se trata de surpresa ou de averiguação. O Senhor sabe perfeitamente o que Caim fez. Sua finalidade é outra; perguntando, quer que o assassino tome consciência de seu crime.

O assaltante que interroga o cúmplice, porém, de fato não entende o que se passou, não consegue compreender a razão pela qual o criminoso não respeitou aquilo que provavelmente tinha sido acordado: nada de vítimas. A resposta que daríamos a sua pergunta é: “Só Deus sabe” Mas o assaltante não é Deus.

Quem se julgou Deus foi o criminoso, que, sentindo-se infinitamente poderoso (afinal, empunhava um revólver, coisa que dá a muitos a sensação de poder absoluto), exigiu, muito simbolicamente, que o homem se ajoelhasse diante dele antes de matá-lo.

Entre o poder alucinado do assassino e o desamparo absoluto da vítima, está o segundo assaltante, com sua perplexa raiva, da qual, e de alguma maneira, participamos.

Qualquer esperança de resolver o problema do crime depende, paradoxalmente, dessa perplexidade, que indica a existência de uma terra de ninguém, de um território de limite indefinido separando as pessoas comuns dos criminosos. É deste território que o segundo assaltante brada, raivoso e aflito: “O que tu fez, cara?”.

Mas é ali que podemos fazer alguma coisa para evitar a alucinada violência que caracteriza nossa época. Este é o lugar para prevenção da violência através do processo educativo. Que não pode ser feito de forma ingênua, romântica; não pode excluir punição.

Crime exige castigo, até porque o castigo, adequadamente instituído, educa. O que não podemos é ficar inermes, aguardando que Deus nos interrogue: “O que fizeste?”. Alguma coisa temos de fazer. Quando mais não seja, como homenagem à memória de Adair Pereira da Rosa.

Para o último fim de semana estava programada a realização, em Florianópolis ( Universidade Federal de Santa Catarina), do Congresso Brasileiro de Saúde Mental, no qual eu deveria dar uma conferência.

Preocupado com a situação no vizinho Estado, resolvi telefonar dias antes aos organizadores para saber se o evento estava confirmado. Estava.

Mais que isto: “Agora ficou ainda mais importante realizar o congresso”, disse a pessoa que me atendeu, uma resposta que reflete a atitude corajosa dos catarinenses diante da desgraça.

O Congresso atraiu muita gente e cumpriu suas finalidades, examinando uma área crucial na saúde pública e propondo soluções.

E o fim de semana estava glorioso, sol brilhando e mar azul: a bela e brava Santa Catarina que nós conhecemos e da qual somos eternos admiradores.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008


MOACYR SCLIAR

O mortífero celular

Antes que fizesse qualquer coisa, Tony já tinha lhe metido três balas na cabeça; Cipriano caiu sem um gemido

Máfia italiana "disfarça" arma em formato de celular. A polícia italiana descobriu na semana passada um aparelho celular que, na verdade, é uma arma calibre 22. O "telefone-arma" tem a capacidade para quatro balas, e foi apreendido com gângsteres da máfia italiana, em Nápoles.

Segundo a polícia, o telefone se transforma em arma ao deslizar o teclado; um toque em uma tecla específica faz a bala disparar. "É a primeira vez que uma arma desse tipo foi apreendida. Isso mostra a sofisticação tecnológica. Os mafiosos estão transformando a criminalidade", disse um porta-voz da polícia italiana. Folha Online

OS DOIS ERAM mafiosos, os dois eram jovens e ambiciosos, os dois eram conhecidos pela astúcia e pelo temperamento violento. Tony "Raivoso" e Cipriano "Escorpião" se odiavam.

Um havia jurado matar o outro. Mas a ambos repugnava pagar um assassino para fazer isso; ambos queriam, eles próprios, fazer justiça, como diziam, com as próprias mãos. Cara a cara.

O que seria difícil. Encontravam-se freqüentemente, em geral num pitoresco restaurante onde ambos costumavam almoçar ou jantar. E aí conversavam cordialmente, como se fossem bons amigos. Mas, claro, um estava observando o outro.

Se Tony levasse a mão ao bolso interno do paletó, Cipriano já estaria com a automática na mão, pronto para disparar. Portanto, evitavam fazer qualquer gesto suspeito. Mas tinham a certeza que um dia, o inimigo descobriria um jeito de empunhar uma arma sem cha- mar a atenção.

Foi então que Tony ficou sabendo do telefone-arma, que estava sendo usado por gângsteres em Nápoles. E estremeceu: em matéria de astúcia, de traição, aquilo era a obra-prima.

Com todo mundo usando celular, quem desconfiaria desse truque? Naquela noite, não dormiu. Tinha certeza que, assim como soubera da notícia, Cipriano também já estava informado acerca do telefone-arma.

Provavelmente já tinha o seu. E isso era para ele, Tony, uma ameaça terrível. Com esse alerta muito presente, dirigiu-se, ao meio-dia, para o restaurante, esperando que Cipriano não estivesse lá.

Mas Cipriano estava lá, e recebeu o desafeto de maneira surpreendentemente amável e até carinhosa.

Porque tinha uma novidade para contar: acordara no meio da noite com uma certeza: estava na hora de dar um fim àquela rivalidade, aquele ódio. Por que não se uniam, os dois, e seus grupos? Unidos, seriam imbatíveis. Tony não estava de acordo?

Desconfiado, Tony disse que sim, que aquela era uma boa idéia, impregnada, inclusive, de espírito natalino. Se você concorda, disse Cipriano, radiante, vou avisar minha gente agora. E tirou do bol- so o celular.

Antes que fizesse qualquer coisa, Tony já tinha lhe metido três balas na cabeça. Cipriano caiu sem um gemido.

Tony apanhou o celular. Não era uma arma, era um celular mesmo, dos antigos. Cipriano morrera por equívoco. Mas Tony não admitiria seu erro. O culpado de tudo era o próprio Cipriano.

Que história era aquela de, subitamente, falar ao celular? Bem que ele poderia ter recorrido a outro método para avisar seus homens. Pombo-correio, por exemplo. Mesmo porque o pombo, como se sabe, é o símbolo da paz.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

FERNANDO RODRIGUES

Monotonia micropolítica

BRASÍLIA - Uma certa instabilidade política se repete a cada dois anos por ocasião das eleições para as presidências da Câmara e do Senado -as escolhas serão em 1º de fevereiro, em menos de dois meses.

Desta vez, a disputa interna na micropolítica congressual parece ter atingido um estágio de monotonia nunca visto em décadas. Há uma emulação do que se passou em eleições gerais recentes, realizadas num clima de grande calmaria e normalidade. Era comum ouvir em outubro pessoas não se dando conta de que mais de 5.500 prefeitos estavam sendo eleitos.

Colabora para o marasmo um cenário no qual não há nenhum candidato exótico disposto a fazer oposição ao Planalto. Na Câmara, os dois nomes mais competitivos são Michel Temer (PMDB-SP) e Ciro Nogueira (PP-PI). Ambos querem o apoio de Lula e fazem juras de amor ao presidente. Nem pensam em romper com o governo.
No Senado, um candidato já lançado é o petista Tião Viana, do Acre.

O outro deve ser do PMDB, partido mais governista que o PT. Também deve ser relativizado o efeito colateral no caso de o PMDB perder a presidência da Câmara ou a do Senado -ou as duas.

Haverá choro e ranger de dentes. Alguns peemedebistas ameaçarão romper com Lula. Acusarão o Planalto de interferência. Mas é nula a chance de o PMDB entregar seus seis ministérios e virar oposição.

Há ainda a teoria segundo a qual Lula deve arbitrar o processo porque os presidentes da Câmara e do Senado estarão no comando durante a sucessão de 2010. Bobagem. Se o PMDB encaçapar as duas Casas, nada garante seu apoio ao candidato de Lula. Os peemedebistas se movem com o vento. Quem estiver na frente e oferecer mais, leva.

Tudo somado, surgirá muita espuma no Congresso até fevereiro. Muita retórica e pouca conseqüência prática na vida real do país.

frodriguesbsb@uol.com.br


Construção, tragédia, desconstrução, construção

Na natureza, na vida pessoal e na coletiva, a vida e a morte, a construção e a desconstrução se sucedem, desde que o mundo é mundo.

Chuva, enchentes, pessoas, terremotos, maremotos, incêndios, ciclones, mares e rios constroem e destroem nos infinitos caminhos que percorrem através do tempo.

A tragédia de nossos vizinhos catarinenses nos toca de modo especial, pela magnitude e pela proximidade, e as mobilizações e a solidariedade mostram que, nesses momentos, o essencial é mesmo a ajuda.

Em épocas de bonança, tantas vezes as pessoas se recolhem aos seus domínios, curtindo as benesses sozinhas ou com poucos parentes e amigos.

Nas horas de céu de brigadeiro, mar calmo e temperatura amena, os humanos ficam sonhando imortalidades, fortalezas eternas e pensam que nada de mal os poderá atingir, enquanto sentem o entardecer na pele, flutuando num barco, andando a cavalo, deslizando num carro na freeway, andando de bicicleta ou simplesmente caminhando despreocupadamente num parque florido.

É até bom que seja assim. Ninguém agüenta tragédias o tempo inteiro e quem nunca enfrentou grandes problemas não dá o mesmo valor para os momentos de felicidade e paz.

Não estou dizendo novidades, eu sei. Nem é o que pretendo. Nessa hora de horror, além de ajudar os irmãos de Santa, o melhor é se dar conta, mais uma vez, de que estamos de passagem pela terra e que devemos valorizar cada segundo vivido, seja ele fácil, difícil, alegre ou triste.

O tempo não pára. Madre Teresa de Calcutá disse que quando nos relacionamos com alguém, o melhor é sair do encontro melhor do que quando chegamos.

Emendando a preciosa lição da religiosa gigante, é bom pensar que, quando entramos em contato com as coisas do mundo, é conveniente sair melhor da aproximação.

Mesmo quando a natureza e as pessoas se mostram destrutivas, sempre dá para tirar alguma coisa boa e produtiva do fato. Rezar, ajudar, dar-se conta de que somos frágeis anjos de uma asa só, que precisamos do outro para voar, por exemplo.

Existe o tempo para construir, o tempo de destruição e o tempo de reconstruir. Existe tempo para sonhar, executar, semear e colher.

O tempo agora é de ajudar os vizinhos, que, no dia em que precisarmos, certamente não vão nos negar solidariedade. Jaime Cimenti

Ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós


OS PIORES DO ANO

Foi dada a largada. Todo mundo já está fazendo listas de melhores de ano. Eu não. Sou do contra. Prefiro listar os piores do ano.

É jogo duro. São muitos os candidatos. Em todo caso, em décimo lugar aparece a Seleção Brasileira do gaúcho Dunga.

Apesar de figurar em segundo lugar nas eliminatórias para a Copa do Mundo, o time da amarelinha mais amarelou do que dourou. Desse jeito, vai superar a era Parreira e ganhar a próxima Copa sem nenhuma apresentação convincente. Em nono lugar, figura o jornalismo cultural brasileiro, em especial o praticado por Veja,

O Globo, Jornal do Brasil, Estado de S. Paulo e Época. Nunca, o provincianismo e o compadrismo foram tão longe. A idiotice deslumbrada atingiu o ponto culminante com a divulgação de uma pesquisa dando Britney Spears como a mulher mais influente do mundo.

Veja bateu seu recorde de jequice, só para atacar o petismo federal, com oito páginas para o livro de Larry Rohter, 'Deu no New York Times', um amontoado de reportagens clichês e babacas sobre o Brasil e suas eternas contradições.

O Rio Grande do Sul não poderia ficar de fora de uma lista tão digna. O oitavo lugar vai para o nepotismo em nossos 'poderes constituídos'.

O sétimo lugar fica com os 20 vereadores que aprovaram a lei dos espigões, entregando parte da orla do Guaíba para a especulação imobiliária. Somos originais e flexíveis. Primeiro fazemos os negócios. Depois, se necessário, mudamos as leis para que elas não atrapalhem a marcha do progresso.

Nesse sentido, o Brasil não fica atrás. O sexto lugar vai para Lula pela mudança na lei para permitir a fusão Oi/Telemar, caracterizada pelo colunista Jânio de Freitas como a 'transação mais inescrupulosa de todas'.

O quinto lugar volta ao Rio Grande do Sul. Vai para a secretária da Educação Marisa Abreu por se recusar a aceitar como salário inicial o piso de R$ 950,00 fixado por lei federal.

Para ela, piso deve ser teto. E pela façanha perversa de ter cortado metade do miserável salário dos professores que fizeram greve contra a sua truculenta tentativa de manter o Rio Grande do Sul fora da lei.

Uma lista de piores deve ter muita cultura. Cabe ao cinema um lugar de honra. O cinema brasileiro é especializado no pior. Mas o de Hollywood consegue o pior e o melhor ao mesmo tempo. 'Batman, o Cavaleiro das Trevas' fica com quarto lugar.

Até quando esse besteirol infantil vai se repetir como novidade? O terceiro lugar é Eduardo Galeano pela sua capacidade estratosférica, comprovada em 'Espelhos, uma História quase Universal', de ser rasteiro.

O segundo lugar é de Adriana Calcanhoto pela sua neutralidade espetacular: fazer um show que, mesmo não sendo tecnicamente ruim, não pode ser chamado rigorosamente de epidermicamente bom. Embala até dormir.

O primeiríssimo lugar vai para 'O Mago', biografia picareta de Paulo Coelho feita por Fernando Moraes.

Como um bom gigolô de celebridades, sempre colado a algum valor de mercado seguro, Moraes conseguiu mesclar oportunismo, bajulação, hagiografia, promoção e autopromoção num grau raramente visto.

Meu nome foi citado nesse tijolo indigesto entre os primeiros críticos de Paulo Coelho.

Parece que vai desaparecer das novas edições internacionais como represália às minhas observações deselegantes sobre tão 'esmerado' trabalho. Moraes merece o troféu Picareta de Diamante de 2008. O pior de todos, fora da lista por pudor, sou eu mesmo.

juremir@correiodopovo.com.br


08 de dezembro de 2008
N° 15813 - PAULO SANT’ANA


Vergonhoso desfecho

Terminou ontem um campeonato nacional malcheiroso.

Na última rodada, segundo manifestação da própria CBF, havia uma manipulação armada para garantir resultado no jogo entre Goiás e São Paulo.

Em síntese, o São Paulo tomou todas as providências para ser campeão. O alvo era o árbitro Wagner Tardelli e foi atingido no âmago.

Não foi a CBF que constatou a manipulação. Foi a Federação Paulista. Embora não tenha sido esclarecida a manipulação, do episódio brotaram as evidências de que a urdidura partiu do São Paulo.

Como tanto adverti no rádio e na televisão e uma vez nesta coluna, a troca de mando de campo do jogo do Goiás contra o São Paulo foi imoral.

Obrigou-se o Goiás a jogar em Brasília, onde ontem 95% da torcida era favorável ao São Paulo. Uma vergonha!

Nunca vi uma troca de mando de campo prejudicar um terceiro, no caso o Grêmio, e favorecer vergonhosamente um segundo, no caso o São Paulo. Sem punir o faltoso, o Goiás.

Uma vergonha.

Caiu do céu para o São Paulo o jogo marcado para Brasília: nas duas últimas rodadas, o time paulistano jogou em “sua” casa, no Morumbi e, ontem, no estádio do Gama. A troca foi feita para garantir ao São Paulo dois locais propícios para sua festa.

Onde estão a igualdade e o equilíbrio do campeonato?

Outro absurdo: ao constatar, por notícia do Ministério Público e da Federação Paulista, que tinha havido manipulação de resultado na rodada final, junto ao árbitro, a CBF trocou o juiz e não trocou os bandeirinhas escalados.

Se a arbitragem tinha sido manipulada, os bandeirinhas pertencem à arbitragem. Então, como é que a CBF não trocou os bandeirinhas? Uma vergonha.

Essa manipulação do resultado do jogo de Brasília leva o universo dos torcedores de futebol a uma desilusão.

Não foi a CBF que flagrou a manipulação, a manobra criminosa de manipulação do resultado foi levada a efeito com a CBF completamente desinformada da contaminação de seu árbitro.

E aí surge a pergunta: quantos outros resultados foram manipulados? Quantos?

Até quando vai prosseguir a barganha de jogos manipulados junto às arbitragens?

Corre uma baba cloacal sobre as arbitragens brasileiras.

A aparência é sempre de moralidade. Mas, por baixo da superfície, corre um mar de lama, clubes do Rio e de São Paulo fazem o que bem querem dos resultados, em desfavor dos otários clubes provincianos.

Isso precisa acabar. Embora, como se vê, isso nunca vá acabar.

Campeonato roubado pelo São Paulo. Tanto pelo gol anulado do Botafogo, no jogo contra o São Paulo, quanto ontem pelo vergonhoso gol de impedimento do São Paulo sobre o Goiás, que decretou o título de bandeja para o poderio financeiro do São Paulo, que manipula a seu bel-prazer as arbitragens.

Assim é desanimador torcer por futebol. Constatar-se que os resultados são mudados ao sabor de negociatas, a maioria delas de tal subterraneidade que nem de longe são percebidas pelas torcidas e pela imprensa, constitui-se numa tragédia incomparável para o esporte.

O São Paulo tinha de ser o campeão. Precaveu-se contra qualquer azar ou demérito fora do campo.

Tristemente decreta-se num lodaçal que o campeão é o que tem mais dinheiro e pode comprar quem ele bem quiser.


08 de dezembro de 2008
N° 15813 - LF VERISSIMO


Para manter a sanidade

Há uma maneira de você escapar do noticiário catastrófico do dia. Não por alienação ou insensibilidade, mas para manter a sanidade.

Faça o seguinte: procure, no jornal ou na internet, a notícia mais inconseqüente, ridícula, ou bizarra que puder encontrar e concentre-se nela. Tem que ser algo que desminta a gravidade geral do momento e mostre que, por pior que esteja a situação, ainda poderemos ser salvos pela bobagem.

Há dias li, já não me lembro onde, que um carregamento de seios postiços a caminho da Austrália tinha desaparecido. Não posso descrever minha alegria ao ler a notícia.

Abandonei, imediatamente, toda preocupação com desastres naturais e econômicos e me entreguei a especulações sobre o fato insólito, ou, no caso, fofo. A notícia não trazia muitos detalhes.

Aparentemente, tinham perdido contato com um navio carregado com 120 mil seios postiços – ou 60 mil pares, não sei. A localização do navio quando desaparecera não era revelada.

Se fosse no Oceano Índico – especulei alegremente – a explicação podia ser um ataque de piratas da Somália, que teriam ocupado o navio, aberto os seus porões, mergulhado de ponta-cabeça na carga, gritando “Alá seja louvado!” e no momento discutiam o valor do seio postiço no mercado para cobrar o resgate.

O navio poderia ter naufragado, o que imediatamente sugeria a imagem de 120 mil seios boiando no oceano. Piloto de avião de busca para base: “Acho que localizei destroços do naufrágio, boiando sugestivamente na superfície. Câmbio”. Náufrago abandonado na proverbial ilha deserta vê seios e mais seios chegarem na praia, olha para o céu, abre os braços e grita “Que parte do meu pedido você não entendeu, Senhor?!” .

Mas o maior mistério de todos era: o que 120 mil seios postiços iam fazer na Austrália? Neste ponto deixei de me divertir com a notícia. Tive uma visão pungente de 60 mil travestis australianos esperando, inutilmente, no porto.

Ainda não se sabe se há água, e portanto vida, em Marte. Uma das luas de Saturno parece ter um ambiente propício para a vida orgânica, mas também não é certo.

Talvez estejamos mesmo sós neste canto do Universo. É pouco provável que não exista vida em algum lugar das trilhões de galáxias além da nossa, mas estas não nos interessam.

Esperamos, isto sim, que haja organismos que cresçam, se desenvolvam, formem civilizações e comecem a jogar futebol em planetas teoricamente acessíveis, para que se possa pensar num campeonato do sistema solar. Senão o Internacional não vai ter mais nada para ganhar!

domingo, 7 de dezembro de 2008


JOSÉ SIMÃO

É a crise! Os maridos estão nervosos!

E a nova definição de Primeiro Mundo: entrar em crise e perder cliente!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Voltei, macacada! Fiz a tour Angelina Jolie: Dubai, Tailândia e Camboja! E voltei mais por fora que o umbigo da Mulher Melancia!
E Dubai é o Salão do Automóvel de 2011! E na Tailândia tem show de perereca que fuma! Especial pro Serra! Rarará!

Os caras ficam na calçada em frente ao bar gritando com um cardápio na mão: "Pussy! Pussy!". E o médico americano: "Eu ganho pra ver isso, agora eu vou pagar?".

E no Camboja uma menina pobre, no meio das ruínas, vendendo postal: "De onde voce é?" "Brasil." "Brasil, capital Brasilia." Fofa! Acho que é a única no mundo que sabe disso! Nem o Lula sabe! Eu devia ter adotado ela, como a Angelina Jolie.

Aí trazia pro Brasil e ela virava presidente. Mas adorei mesmo foram as linhas aéreas asiáticas. Duração do vôo: uma hora e um minuto. E em uma hora e um minuto o avião descia. Como a Gol. Que demora uma hora e um minuto pro avião levantar!

E os aeroportos em Bancoc foram fechados por manifestantes. Trezentos mil turistas sem vôo. Sabe o que eu ia gritar pra esses 300 mil sem vôo? "Relaxa e goza!" Como é "relaxa e goza" em tailandês? Nhang Pra Tá! Rarará!

Cansei de descansar! Agora quero me estressar! Adorei a lei do call center, um minuto pra atender. Aí voce liga pra operadora de celular: "Quero cancelar a assinatura". "NÃO!". Perfeito, menos de um minuto. "Quero mudar de plano!".

"NÃO!". Menos de 30 segundos. E aí você liga pra qualquer call center e em menos de 30 segundos, a ligação cai! Rarará! Eu vou lançar o COW CENTER! Voce liga e a mulher do outro lado fica mugindo. Por 30 segundos!

Cansei de descansar! Agora quero me estressar! Devido a quebra dos bancos, a queda nas bolsas e ao corte nos orçamentos informamos que a famosa luz no fim do túnel está temporariamente DESLIGADA!

E a melhor definição de crise fica com a dona da Daslu: "Os maridos estão nervosos!". Claro, o cara ganha 13 salários e a mulher gasta 14!

Aliás, a situação tá tão braba que um amigo meu que tem loja no shopping só conseguiu contratar um Papai Noel magro, fumante e com a cara do Serra. E a nova definição de Primeiro Mundo: Primeiro Mundo é entrar em crise e perder cliente!

E adorei a charge do Ivan, do Diário de Natal com o Papai Noel: "Tem cada pedido esquisito, um tal de Daniel Dantas pediu um juiz de presente".

Eu acrescentaria: MAIS um juiz. E sabe o que o dólar falou pro real? Valeu! E a Vale? Não vale mais... É mole? É mole, mas sobe!

simao@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

Resmungos financeiros

Para funcionar, o capitalismo deve contar com a confiança de todos no valor do dinheiro

PARA QUEM que, como eu, não entende de economia, esta crise financeira mundial é, além de atemorizante, incompreensível. Não é que eu não perceba, no geral, como a coisa nasceu, gerando a tal bolha imobiliária, que terminou arrebentando sobre a cabeça de banqueiros e empresários.

Dentro do possível, tenho acompanhado a evolução da crise, as medidas tomadas para detê-la, a inoperância de algumas dessas medidas e a falência de empresas até então poderosas.

Logo que a bomba estourou e seus efeitos se ampliaram, era de ver a expressão apreensiva de altas figuras que antes pareciam ter o mundo em suas mãos.

Era-lhes impossível esconder a perplexidade e a impotência diante do tsunami financeiro que parecia arrasar o sistema capitalista inteiro. Mas, além da impotência dos homens de empresa e de Estado, espantava-me muito mais a inesperada fragilidade do próprio sistema, que parecia se desfazer como um castelo de cartas.

E, juntamente com essa sensação, assaltava-me ainda o espanto de ver que tudo que ocorrera -os empréstimos sem limites, as dívidas sem garantia consistente (ou nenhuma), a irresponsabilidade de executivos de notório prestígio- tudo se me apresentava agora como uma aventura irresponsável, supostamente apoiada num capital hipotético e, de fato, inexistente.

Foi aí que me vi refletindo sobre o dinheiro, como surgiu e em que se transformara nos tempos de agora.

É divertido fazer esse retrospecto: o dinheiro nasceu para atender à crescente atividade comercial, que consistia, no começo, em trocar pano por trigo, arroz por sal e, mais tarde, adotou-se o ouro como moeda de troca, por ser muito raro, logo valioso, e preservar suas qualidades sem se deteriorar. E daí veio o resto.

Veja se não é interessante: o comércio cresceu tanto, ampliou-se tanto geograficamente, que se tornou impossível levar, por toda a parte, a quantidade de ouro necessária para satisfazer as operações de troca, e surgiu o papel moeda: leve, fácil de carregar e guardar, que não era o ouro, e sim uma representação dele.

Lembro-me, não faz muito tempo, de uma cédula nossa onde se lia mais ou menos isto: "O valor desta nota será trocado por seu equivalente em ouro no Tesouro Nacional".

Quer dizer: aquele papel só valia porque o governo lhe garantia o valor em ouro. Por isso que, um dia, o general De Gaulle, então presidente da França, obrigou o Tesouro norte-americano a trocar por ouro os bilhões de dólares que estavam em mãos do governo francês.

E o Tesouro norte-americano teve de atendê-lo, sob pena de desacreditar-se mundialmente, confessando que não dispunha de lastro que garantia o valor de sua moeda. E o que é a inflação senão emitir moeda além do lastro que lhe assegure o valor?

De certo modo, desde que surgiu, o capitalismo, para funcionar, tem que contar com a confiança de todos no valor do dinheiro, assim como você tem que confiar em que o dinheiro com que lhe pagam não é falso e pode ser trocado por ouro, se preciso for.

Na verdade, a maioria das pessoas de nada desconfia, acha que está tudo garantido. Até que uma bolha imobiliária estoura e arrasa com as finanças da maior potência econômica do mundo. Aí então, estabelece-se o pânico, a confiança se evapora e o sistema inteiro entra em crise.

Esta crise é proporcional ao nível de abstração a que chegaram as transações financeiras no mundo de hoje e a crescente distância entre o valor real da moeda e sua representação simbólica.

O ouro, que se tornara o lastro do papel-moeda, passou a ser representado pelo cheque, que tende a sumir, substituído pelo cartão eletrônico. Assim, você tem cada vez que confiar mais e mais em meras abstrações.

Por exemplo, se alguém me paga por serviço prestado, deposita o valor correspondente em minha conta no banco. Não vejo a cor do dinheiro, só constato, no extrato do banco, a informação. Se vou comprar alguma coisa, uso o cartão de crédito e o que o vendedor recebe é também apenas uma informação.

Foi assim que as financeiras norte-americanas negociaram "informações" com outras financeiras, que passaram a outras até que, como quem garantia o lastro desses valores não pagou, veio tudo por água abaixo.

Com isso, perdeu-se a confiança em toda e qualquer informação financeira, e ninguém mais quer investir, nem emprestar nem avalizar.

A crise atinge o comércio, a indústria, o sistema ameaça entrar em colapso. E a impressão que temos é que a economia mundial era um sonho, minha gente!

DANUZA LEÃO

Uma perda

Seria tão bom se, no lugar de morrer, elas pegassem um avião para fazer uma viagem bem longa e não voltassem

EU TINHA uma amiga doente há muito tempo; há alguns meses teve que fazer mais uma operação e ficou claro que ia morrer -e em pouco tempo. Sem perceber, fui me habituando à idéia de sua morte.

Quando ela aconteceu, já estava tão preparada que não derramei uma lágrima; me senti uma pessoa fria e sem sentimentos. Ela era minha melhor e mais antiga amiga.

O tempo foi passando, eu lembrava dela com freqüência, mas era como se ela tivesse viajado. Não conseguia -como não consigo ainda- pensar nela como alguém que morreu.

Não fui visitá-la no hospital e disse, pelo telefone, que não ia por não querer vê-la em condições desfavoráveis, digamos assim, e que iria quando ela estivesse de novo bonita e alegre como sempre foi.

Não me senti culpada de não ter ido, porque se fosse eu a doente, detestaria que alguém me visse nas tais condições desfavoráveis -vocês me entendem. Junte-se a isso minha covardia, claro.

Ela morreu, e a ficha foi caindo aos poucos. Tão aos poucos que às vezes ainda pego o telefone e começo a ligar para ela e só depois dos primeiros números discados me dou conta de que ela não existe mais.

E a cada vez fico mais triste. É uma tristeza que foi chegando aos poucos, e que só faz aumentar.

E mais uma vez não consigo compreender a vida nem aceitar a morte.

Há os que dizem que vida e morte são uma coisa só, mas não entendo como alguém que um dia está falando, rindo, comendo, pensando, andando, correndo, brincando, no dia seguinte pode não existir mais. Dizem que o que não existe mais é só o corpo, mas isso é difícil de entender.

Para mim não melhora em nada lembrar dos bons momentos que passamos juntas, das risadas que demos, do quanto nos divertíamos o dia inteiro na praia, dos conselhos que dávamos uma à outra na hora de escolher entre um namorado e outro.

Eu queria mesmo era poder falar com ela agora, mesmo que fosse para rir menos e mais para trocar nossas aflições, mas não posso. Ela não existe mais.

Isso pode acontecer com qualquer pessoa de quem gostamos (e conosco também, claro): de um dia para o outro, desaparecer. Seria tão bom se, no lugar de morrer, elas pegassem um avião para fazer uma viagem bem longa e nunca mais voltassem.

A gente sentiria saudades, com o tempo as saudades iriam diminuindo, e um dia nos esqueceríamos de que elas haviam existido e sido tão importantes em nossa vida, mas não. Temos que passar por toda a tristeza do final, lembrando e não entendendo.

Eu tive uma outra amiga que umas duas semanas depois de morrer seus dois filhos convidaram seus mais próximos para uma happy hour no apartamento em que ela morava; a casa estava cheia das flores de que ela mais gostava e fotos pela casa inteira.

As pessoas lembraram histórias divertidas e brindaram com champanhe a alegria que ela deu a todos.

Não houve lágrimas nem tristeza, e depois foram todos para casa se sentindo privilegiados por terem compartilhado de uma vida tão rica.

Seria bom se isso virasse um hábito, mas seria possível? Quando a dor é muito funda, é difícil. E a morte, nos países latinos, massacra os que ficam. É proibido não sofrer, e fica melhor na foto quem sofrer mais.

Se a viúva se debater querendo ser enterrada junto com o marido, aí o sucesso é total. Porque há muito de exibição nessas horas, e se o morto é famoso e houver fotógrafos e câmeras de televisão, aí o espetáculo ganha muito.

Mas por que eu estou falando de tanta coisa triste? O Natal está chegando, o Ano Novo, depois o Carnaval, a hora é de alegria.

Acho que é porque eu pensei na minha amiga e fiquei imaginando como vai ser o primeiro Natal dos filhos sem ela, e isso me entristeceu muito. Desculpem tanta tristeza, leitores.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 6 de dezembro de 2008



07 de dezembro de 2008
N° 15812 - MARTHA MEDEIROS


A mulher independente

Estava autografando meu livro na Feira quando uma senhora alta, elegante, já bem madura, chegou sorridente pra mim e disse: Te acho uma mulher fenomenal.

Eu, toda sorrisos, tomei o livro que ela tinha em mãos e me preparei para escrever uma dedicatória bem carinhosa. Ela então complementou: Mas eu não queria ser casada contigo tu és muito independente!.

Concluí a dedicatória, agradeci a gentil presença dela, enquanto que meu coração começou a bater de forma mais lenta. “O que estou sentindo?”, perguntei a mim mesma, em silêncio. Tristeza, respondi a mim mesma, em silêncio, enquanto a próxima pessoa da fila se aproximava.

Em que eu seria mais independente do que qualquer outra mulher? Quase todas as que conheço trabalham, ganham seu próprio sustento, defendem suas opiniões e votam em seus próprios candidatos. Algumas não gostam de ir ao cinema sozinha, já eu não me importo. Poucas moraram sozinhas antes de casar, eu morei. Quase nenhuma, que eu lembre, viajou sozinha, eu já. E nisso consta toda minha independência, o que não me parece suficiente para assustar ninguém.

Fico imaginando que essa tal “mulher independente”, aos olhos dos outros, pareça ser uma pessoa que nunca precise de ninguém, que nunca peça apoio, que jamais chore, que não tenha dúvidas, que não valorize um cafuné. Enfim, um bloco de cimento.

Quando eu comecei a ter idade pra sonhar com independência, passei a ler afoitamente os livros de Marina Colasanti – foram eles que me ensinaram a importância de abrir mão de tutelas e a se colocar na vida com uma postura própria, autônoma, mas nem por isso menos amorosa e sensível.

Independência nada mais é do que ter poder de escolha. Conceder-se a liberdade de ir e vir, atendendo suas necessidades e vontades próprias, mas sem dispensar a magia de se viver um grande amor. Independência não é sinônimo de solidão. É sinônimo de honestidade: estou onde quero, com quem quero, porque quero.

Sobre a questão da independência afugentar os homens, Marina Colasanti brincava: “Se isso for verdade, então ficarão longe de nós os competitivos, os que sonham com mulheres submissas, os que não são muito seguros de si. Que ótima triagem”.

Infelizmente, a ameaça que aquela senhora acredita que as independentes representam não é um pensamento arcaico: no aqui e agora ainda há quem acredite que ser um bibelô (ou fazer-se de) tem lá suas vantagens. Eu não vejo quais.

Acredito que a independência feminina é estimulante, alegre, desafiadora, vital, enfim, uma qualidade que promove movimentação e avanço à sociedade como um todo e aos familiares e amigos em particular.

“Eu preciso de você” talvez seja uma frase que os homens estejam escutando pouco de nós, e isso talvez lhes esteja fazendo falta. Por outro lado, nunca o “eu amo você” foi pronunciado com tanta verdade.

Um ótimo domingo especialmente para você.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - MOACYR SCLIAR


Negro de óculos

A discussão sobre cotas está de volta (esses dias, na tevê, os ex-ministros da Educação Paulo Renato e Cristovam Buarque debateram a respeito) e, independente das opiniões discordantes – o assunto é mesmo polêmico – tem um mérito: obriga-nos a examinar a questão do racismo na sociedade brasileira.

O que me faz lembrar um curioso costume de minha infância, uma espécie de competição entre garotos.

Dupla competição, dentro do grupo e também de cada um contra si próprio. O jogo consistia em colecionar mentalmente finais de placas de automóveis. A gente começava pelo zero, depois vinha o um, o dois, o três e assim por diante, até o cem. O notável é que ninguém, a não ser o nosso superego, fiscalizava esta atividade.

E, entre nós, mantínhamos uma espécie de lúdico pacto de honra, essas coisas que são raras na vida adulta. Havia, no processo de coletar os números, um curioso detalhe, uma intrigante punição: mesmo que tivéssemos chegado, digamos, ao noventa e nove, teríamos de voltar ao início, ao zero – caso encontrássemos um negro de óculos.

Por que um negro de óculos? Em primeiro lugar, por causa do racismo, por causa do estigma que representava, e representa, a cor negra da pele. Não era esta, contudo, a única razão. Afinal, é praticamente impossível andar por uma cidade brasileira sem encontrar negros. Mas havia o detalhe: negro de óculos.

O que era uma coisa rara. E por que era rara? Não é difícil deduzir a razão. Negros quase não usavam óculos. Pobres como eram, e são, não dispunham de dinheiro para isso. Além disso, não teriam, ao menos segundo o raciocínio corrente, motivos para usar óculos. Não freqüentavam escolas; muitos deles eram analfabetos. Ou seja: negro de óculos era exceção.

E uma exceção ominosa, suficientemente ameaçadora para ser interpretada como um risco para o nosso jogo dos números. Se os negros começassem a usar óculos, o que aconteceria?

Uma subversão completa dos valores então vigentes. Logo estariam freqüentando colégios, quem sabe até universidades.

O que seria um espanto, para dizer o mínimo. Na Faculdade de Medicina da UFRGS, que cursei, o número de alunos negros dava para contar nos dedos de uma mão; havia um professor (assistente) negro, mas ele era completa exceção.

Atribuía-se a um diretor da faculdade um a frase que dá a medida do preconceito então reinante: “Negro, nesta faculdade, só o telefone”.

Naquela época, e isto também é significativo, os telefones – de quem se esperava fossem obedientes servidores, eram obrigatoriamente pretos.

Tem-se afirmado que, com a eleição de Obama (que não usa óculos), chegamos à uma fase pós-racial da História, também anunciada pela diversificação de cores dos telefones. Tomara que seja verdade. Tomara que não tenhamos de voltar para o zero.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - VERISSIMO


Diálogo de posteridades

O túmulo do Herbert Spencer fica em frente ao do Karl Marx no cemitério Highgate, em Londres. Spencer morreu em 1903, o que significa que os dois são vizinhos há 105 anos.

Pode-se especular que, vez por outra, cheguem na sacada dos seus respectivos monumentos para uma conversa. – Que tempo, hein Herbert?

– Horrível, Karl. Eu sempre digo que a única vantagem de estar morto na Inglaterra é que nos livramos do clima.

– Não me refiro ao clima, Herbert. Me refiro a esse tempo que estamos vivendo. Ou que os vivos estão vivendo. Essa crise...

– Imaginei que você estaria contente com ela, meu velho. Você sempre disse que o capitalismo ia acabar...

– Mas não assim, não num desastre sem qualquer significado histórico. Causado pela pura ganância, pela simples cupidez humana, por três ou quatro gerentes financeiros pensando apenas em trocar seu Porsche pelo modelo do ano. Há algo menos científico do que a cupidez humana, Herbert? – Bem...

– O que eu tinha previsto era o fim de um processo, a síntese final de uma inevitável progressão dialética que terminaria com o proletariado livre para sempre dos seus grilhões numa sociedade sem classes. Não com a classe média impossibilitada de comprar um microondas. Que consciência revolucionária pode nascer de uma insatisfação com a falta de crédito?

– Pois eu baseei toda uma filosofia na defesa da cupidez humana, como você deve se lembrar, Karl. Nada é mais natural do que a cupidez humana, e a ciência deve reconhecer que as leis da Natureza também regem o comportamento humano. E a primeira lei da Natureza é cada um por si e por suas ambições. É o desejo do microondas, do qual o desejo do Porsche novo é uma exacerbação, que move, metaforicamente, a humanidade.

– Você e o seu darwinismo social. Como é mesmo a sua frase famosa? A sobrevivência dos mais capazes...

– Que hoje todo mundo pensa que é do Darwin, e é minha. Infelizmente, não podemos controlar nossa posteridade do túmulo.

– Mas a sua posteridade está ganhando da minha, Herbert. O capitalismo em crise não comprova a minha teoria, comprova a sua. A fome do mundo não é de igualdade e justiça, é de eletrodomésticos e férias no verão. Não foi a reação que derrotou o comunismo, foi o consumismo. Nunca uma troca tão pequena de letras significou tanto.

– Não se deprecie, homem. Que importa se o capitalismo acabará com uma revolução ou um gemido, se se autodestruirá ou se regenerará? Aconteça o que acontecer, ainda virá mais gente visitar o seu túmulo do que o meu.

Aliás, nenhum dos neoliberais que vinham prestar suas homenagens ao seu filósofo favorito tem aparecido, ultimamente. Como você vê, as flores que deixaram da última vez no meu túmulo estão mais murchas do que os prognósticos econômicos para 2009. Você ainda é o cara.

– Obrigado, Herbert. Mas você não está querendo ver o paradoxo. Se o capitalismo cair por acaso, por nenhum determinismo científico, eu caio junto com ele. Terei sido o pior tipo de profeta, o que acerta porque estava errado.

– O acaso, o acaso... Neste ponto nós sempre concordamos, discordando do Darwin. Ele atribuía a evolução ao acaso. Nós sempre achamos que havia um fim previsível para as nossas respectivas explicações do mundo, que nossas evoluções tinham um objetivo que as redimiria.

– Mas num ponto Darwin teria razão em defender o acaso, Herbert. – Qual? – Foi por puro acaso que enterraram você aí, na minha frente, e podemos ter estas nossas conversas.

– Isso é verdade, Karl.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - PAULO SANT’ANA


A dor de ser acusado

Deixa eu entender melhor este capítulo findo sexta-feira, em que o Ministério Público, depois de ingentes investigações, declarou que a casa da governadora Yeda Crusius foi comprada antes de ela assumir o Piratini e não houve qualquer vestígio de improbidade na aquisição do imóvel.

A acusação de que a governadora adquirira a casa ao locupletar-se de recursos públicos surgiu no auge da Operação Rodin, na qual a Polícia Federal desbaratou uma quadrilha que agia no Detran sob a forma de propinoduto oriundo de fundações que esfolavam a bolsa popular com a cobrança de taxas extorsivas para aquisição da carta de habilitação para os motoristas.

Fragilizada pelo escândalo no Detran, a governadora foi pasto fácil para as acusações de que comprara a casa com recursos públicos.

Alguns dizem que a governadora deveria desde o início das acusações tê-las refutado com documentos.

Mas o ônus da prova não cabe aos acusadores? Dizem os que objetam a governadora que no caso da pessoa pública é obrigação dela a transparência total sobre os seus bens.

Mas, se a governadora não adquiriu a casa durante seu mandato no Piratini, fê-lo antes, tinha ela o dever de formalizar sua defesa, quando o que interessava no momento eram as investigações apenas atinentes ao seu mandato?

O que sei é que a governadora suportou por um ano inteiro as acusações e as dúvidas sobre a compra de sua casa.

Deve ter custado muito caro a ela suportar as acusações. Isso moralmente, porque materialmente custou-lhe também caro contratar advogado e organizar a sua defesa.

Agora o Ministério Público declara encerradas as investigações, conclui que a casa foi comprada antes de ela assumir o governo e que os recursos para a aquisição do imóvel foram absolutamente lícitos.

Eu bati duro no governo aqui nesta coluna sobre o escândalo do Detran.

Eu bati duro no governo ainda na semana passada sobre essa pressa inexplicável para prorrogar os contratos dos pedágios.

E justamente por isso é que não posso, por dever de imparcialidade, me calar agora, quando o Ministério Público inocenta totalmente a governadora no aspecto da compra da sua casa.

Dói-me ver que uma acusação desse tipo, tão grave quanto caluniosa, tenha pesado durante 13 meses sobre uma pessoa inocente, cuja aparência de probidade tem de ser sempre mantida, apesar das ânsias vis e ambições ferozes da vida política e os ímpetos oposicionistas de denúncia.

Não há bem maior de uma pessoa que a reputação. E quando ela está investida de múnus público, ainda se torna um bem muito valioso a sua reputação.

Por isso é que me condôo com o que sofreu a governadora durante os ataques à sua reputação na compra de sua casa.

E muito mais condoído fico quando penso que é brutal para um acusado que caiba a ele o ônus de provar que não é culpado.

Soltaram as acusações contra Yeda como folhas amarelas de outono, que agora merecida e desmoralizadamente restaram caídas no chão, à espera apenas da vassoura que as jogue no lixo.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - DAVID COIMBRA


Os maiores frios da minha vida

O segundo maior frio que passei na vida foi no estádio do Ferroviário, time de Tubarão, sul de Santa Catarina. Era noite, chovia, a temperatura devia ser de uns dois graus e lá estava eu, cobrindo o clássico tubaronense Ferroviário versus Hercílio Luz.

Essa é a dura vida de repórter: noite, frio, chuva e Ferroviário versus Hercílio Luz. Brabeza. Um dia depois daquele jogo, lembro bem, eu e o fotógrafo Ezequiel Passos estávamos na sucursal do Diário Catarinense em Criciúma e o telefone tocou. Ainda chovia, ainda fazia frio e também era noite. Do outro lado da linha, o editor-chefe com sua voz rascante de editor-chefe:

– Vocês têm que estar em Florianópolis em três horas, rapazes! Vão embarcar agora para Belo Horizonte para cobrir Atlético Mineiro e Criciúma!

Arrá! Agora sim: Criciúma e Atlético Mineiro em Belo Horizonte! Aí estava uma cobertura digna da dinâmica dupla de reportagem David Coimbra & Ezequiel Passos! Saímos correndo, eu e o Zeca, e em algumas horas sobrevoávamos o sudeste brasileiro.

No primeiro dia em Belô, procuramos os colegas do Estado de Minas. Foram muito simpáticos. Prometeram:

– Não largamos vocês antes que conheçam toda a noite de Belo Horizonte.

Não estavam brincando. Passamos quatro dias e quatro noites em Minas. Nessas quatro noites, eles apareciam no hotel, sempre muito animados, nos saudando:

– E aí, gauchada! Vamos lá! Vamos para a noite!

E nos levavam para bares e boates, só nos liberando com a manhã alta. Chegávamos e os jogadores do Criciúma estavam tomando café, comendo mamão, passando manteiga no pãozinho. Isso todos os dias! No final, eu já queria fugir dos mineiros, mas não tinha jeito: eles nos forçavam a ir para a noite e nos divertir e nos divertir e nos divertir insuportavelmente, até o desespero.

Neste fim de semana, alguns colegas mineiros estarão na cidade para cobrir Grêmio versus Atlético Mineiro. Em ocasiões que tais, sempre imagino que eles gostariam de ter uma recepção semelhante à que tive naquela época do Diário Catarinense, e até gostaria de levá-los por aí. Mas, confesso, não tenho saúde para exercer tanta hospitalidade.

Às vezes a vida do repórter é menos dura. O maior dos maiores frios que passei na vida foi, não é para me exibir, na Suíça. Suíça! Um país quase perfeito. Não vi um único lugar feio na Suíça. Os becos da Suíça são graciosos; as latas de lixo suíças, formosas; os terrenos baldios... bem, acho que nem existem terrenos baldios na Suíça.

Talvez o único defeito da Suíça seja o frio. No inverno, a neblina rola Alpes abaixo e cobre as cidades ao sopé das montanhas. O nevoeiro leva semanas para se dissipar. Os suíços ficam deprimidos e o índice de suicídios aumenta.

Desta vez em que passei o primeiro maior frio da minha vida o clima era assim invernal. A Seleção Brasileira foi jogar contra um selecionado qualquer na Basiléia. Vesti uma camiseta de mangas curtas, uma camiseta de mangas compridas, uma camisa, um blusão, um casaco, enrolei o pescoço em uma manta, enfiei duas meias em cada pé, mais, obviamente, as calças e as cuecas e as botinas, e nada adiantou. Tiritava de frio na arquibancada. E os Ronaldinhos fazendo brilhatura contra aqueles pernas-de-pau lá embaixo, no campo.

Pensando bem, a vida de repórter é realmente dura.

Seleções, seleções

O pessoal da Zero Pontocom pediu para que nós, da Zero “papel”, escalássemos uma seleção dos dois times do Grêmio que foram campeões brasileiros mais o deste ano, que pode ganhar o título. Eu, que adoro seleções e listas, vibrei. Fiz a minha. Primeiro a lista dos melhores em cada posição, depois o time titular. Ó:

Os três goleiros são craques: Leão em 1981, Danrlei em 1996 e Victor em 2008. Laterais: Paulo Roberto ou Arce pela direita e Roger ou Casemiro pela esquerda.

Zagueiros: Mauro Galvão, Adilson, De León, Réver, Rivarola. Volantes: Rafael Carioca, William Magrão, Dinho, Goiano, China.

Meias: Tcheco, Paulo Isidoro, Carlos Miguel, Arilson e Emerson. Atacantes: Tarciso, Baltazar e Paulo Nunes.

Pensei, pensei e meu time ficou assim: Danrlei; Paulo Roberto, Adilson, De León e Roger; Dinho, Tcheco, Paulo Isidoro e Carlos Miguel; Tarciso e Paulo Nunes.

Aceito contestações.

Diogo Mainardi

Cof, cof, cof...

"Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração"

Benjamin Steinbruch, dono da CSN, publicou na Folha de S.Paulo um artigo intitulado "Expectadores da recessão". Assim mesmo: "expectadores" com "xis". Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração.

Por isso, o artigo de Benjamin Steinbruch me fez refletir profundamente. Dá para expectorar uma recessão? Interpretei da seguinte maneira: cada pneumococo é um keynesiano em potencial, com seus estratagemas para contaminar os organismos do estado e sufocar as vias respiratórias da economia. É isso?

Se entendi direito, Benjamin Steinbruch pertence ao partido dos pneumococos keynesianos. Cito um trecho de seu artigo: "Até a semana passada, pacotes para estimular investimentos e consumo num total de 3 trilhões de dólares já haviam sido anunciados por diferentes governos.

No Brasil, o caminho é o mesmo. Uma vez que não temos por aqui nenhum problema de solidez no sistema financeiro, a tarefa é direcionar recursos a empreendedores públicos ou privados que efetivamente tenham coragem e competência para gastá-los de forma produtiva".

Cof, cof, cof. Considerando todos os recursos que, nos últimos anos, o BNDES direcionou à CSN, como os 900 milhões de reais para a Nova Transnordestina ou os 300 milhões de reais para o Porto de Sepetiba, Benjamin Steinbruch só pode ser um desses corajosos e competentes empreendedores privados que, segundo ele próprio, teriam de ser contemplados com ainda mais dinheiro público.

Pergunte ao senador petista Aloizio Mercadante o que ele pensa sobre o assunto. Aposto que ele concorda.

Achei que os keynesianos fossem mais obsoletos do que as escarradeiras dos tuberculosos, para continuar com a analogia pulmonar. Mas me enganei. Eles voltaram.

E em sua forma mais agressiva: a dos keynesianos em causa própria, como o presidente da GM, nos Estados Unidos, ou o presidente da CSN, no Brasil. Benjamin Steinbruch, o Hans Castorp da siderurgia nacional, internado em seu sanatório de verbas do BNDES – sim,

Thomas Mann, A Montanha Mágica –, conclui seu artigo recomendando que os recursos públicos "sejam realmente gastos e não fiquem debaixo dos colchões de apavorados expectadores da recessão".

Como eu sou apenas um espectador comum – um espectador com "esse" –, aconselho o governo a fazer o contrário: é melhor ficar sentado na platéia, de mãos dadas com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e assistir aos desdobramentos do espetáculo, deixando o dinheiro prudentemente debaixo do colchão.

E se um keynesiano em causa própria expectorar em sua orelha, na poltrona de trás, afaste-o imediatamente: ele é contagioso.