domingo, 7 de dezembro de 2008


JOSÉ SIMÃO

É a crise! Os maridos estão nervosos!

E a nova definição de Primeiro Mundo: entrar em crise e perder cliente!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Voltei, macacada! Fiz a tour Angelina Jolie: Dubai, Tailândia e Camboja! E voltei mais por fora que o umbigo da Mulher Melancia!
E Dubai é o Salão do Automóvel de 2011! E na Tailândia tem show de perereca que fuma! Especial pro Serra! Rarará!

Os caras ficam na calçada em frente ao bar gritando com um cardápio na mão: "Pussy! Pussy!". E o médico americano: "Eu ganho pra ver isso, agora eu vou pagar?".

E no Camboja uma menina pobre, no meio das ruínas, vendendo postal: "De onde voce é?" "Brasil." "Brasil, capital Brasilia." Fofa! Acho que é a única no mundo que sabe disso! Nem o Lula sabe! Eu devia ter adotado ela, como a Angelina Jolie.

Aí trazia pro Brasil e ela virava presidente. Mas adorei mesmo foram as linhas aéreas asiáticas. Duração do vôo: uma hora e um minuto. E em uma hora e um minuto o avião descia. Como a Gol. Que demora uma hora e um minuto pro avião levantar!

E os aeroportos em Bancoc foram fechados por manifestantes. Trezentos mil turistas sem vôo. Sabe o que eu ia gritar pra esses 300 mil sem vôo? "Relaxa e goza!" Como é "relaxa e goza" em tailandês? Nhang Pra Tá! Rarará!

Cansei de descansar! Agora quero me estressar! Adorei a lei do call center, um minuto pra atender. Aí voce liga pra operadora de celular: "Quero cancelar a assinatura". "NÃO!". Perfeito, menos de um minuto. "Quero mudar de plano!".

"NÃO!". Menos de 30 segundos. E aí você liga pra qualquer call center e em menos de 30 segundos, a ligação cai! Rarará! Eu vou lançar o COW CENTER! Voce liga e a mulher do outro lado fica mugindo. Por 30 segundos!

Cansei de descansar! Agora quero me estressar! Devido a quebra dos bancos, a queda nas bolsas e ao corte nos orçamentos informamos que a famosa luz no fim do túnel está temporariamente DESLIGADA!

E a melhor definição de crise fica com a dona da Daslu: "Os maridos estão nervosos!". Claro, o cara ganha 13 salários e a mulher gasta 14!

Aliás, a situação tá tão braba que um amigo meu que tem loja no shopping só conseguiu contratar um Papai Noel magro, fumante e com a cara do Serra. E a nova definição de Primeiro Mundo: Primeiro Mundo é entrar em crise e perder cliente!

E adorei a charge do Ivan, do Diário de Natal com o Papai Noel: "Tem cada pedido esquisito, um tal de Daniel Dantas pediu um juiz de presente".

Eu acrescentaria: MAIS um juiz. E sabe o que o dólar falou pro real? Valeu! E a Vale? Não vale mais... É mole? É mole, mas sobe!

simao@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

Resmungos financeiros

Para funcionar, o capitalismo deve contar com a confiança de todos no valor do dinheiro

PARA QUEM que, como eu, não entende de economia, esta crise financeira mundial é, além de atemorizante, incompreensível. Não é que eu não perceba, no geral, como a coisa nasceu, gerando a tal bolha imobiliária, que terminou arrebentando sobre a cabeça de banqueiros e empresários.

Dentro do possível, tenho acompanhado a evolução da crise, as medidas tomadas para detê-la, a inoperância de algumas dessas medidas e a falência de empresas até então poderosas.

Logo que a bomba estourou e seus efeitos se ampliaram, era de ver a expressão apreensiva de altas figuras que antes pareciam ter o mundo em suas mãos.

Era-lhes impossível esconder a perplexidade e a impotência diante do tsunami financeiro que parecia arrasar o sistema capitalista inteiro. Mas, além da impotência dos homens de empresa e de Estado, espantava-me muito mais a inesperada fragilidade do próprio sistema, que parecia se desfazer como um castelo de cartas.

E, juntamente com essa sensação, assaltava-me ainda o espanto de ver que tudo que ocorrera -os empréstimos sem limites, as dívidas sem garantia consistente (ou nenhuma), a irresponsabilidade de executivos de notório prestígio- tudo se me apresentava agora como uma aventura irresponsável, supostamente apoiada num capital hipotético e, de fato, inexistente.

Foi aí que me vi refletindo sobre o dinheiro, como surgiu e em que se transformara nos tempos de agora.

É divertido fazer esse retrospecto: o dinheiro nasceu para atender à crescente atividade comercial, que consistia, no começo, em trocar pano por trigo, arroz por sal e, mais tarde, adotou-se o ouro como moeda de troca, por ser muito raro, logo valioso, e preservar suas qualidades sem se deteriorar. E daí veio o resto.

Veja se não é interessante: o comércio cresceu tanto, ampliou-se tanto geograficamente, que se tornou impossível levar, por toda a parte, a quantidade de ouro necessária para satisfazer as operações de troca, e surgiu o papel moeda: leve, fácil de carregar e guardar, que não era o ouro, e sim uma representação dele.

Lembro-me, não faz muito tempo, de uma cédula nossa onde se lia mais ou menos isto: "O valor desta nota será trocado por seu equivalente em ouro no Tesouro Nacional".

Quer dizer: aquele papel só valia porque o governo lhe garantia o valor em ouro. Por isso que, um dia, o general De Gaulle, então presidente da França, obrigou o Tesouro norte-americano a trocar por ouro os bilhões de dólares que estavam em mãos do governo francês.

E o Tesouro norte-americano teve de atendê-lo, sob pena de desacreditar-se mundialmente, confessando que não dispunha de lastro que garantia o valor de sua moeda. E o que é a inflação senão emitir moeda além do lastro que lhe assegure o valor?

De certo modo, desde que surgiu, o capitalismo, para funcionar, tem que contar com a confiança de todos no valor do dinheiro, assim como você tem que confiar em que o dinheiro com que lhe pagam não é falso e pode ser trocado por ouro, se preciso for.

Na verdade, a maioria das pessoas de nada desconfia, acha que está tudo garantido. Até que uma bolha imobiliária estoura e arrasa com as finanças da maior potência econômica do mundo. Aí então, estabelece-se o pânico, a confiança se evapora e o sistema inteiro entra em crise.

Esta crise é proporcional ao nível de abstração a que chegaram as transações financeiras no mundo de hoje e a crescente distância entre o valor real da moeda e sua representação simbólica.

O ouro, que se tornara o lastro do papel-moeda, passou a ser representado pelo cheque, que tende a sumir, substituído pelo cartão eletrônico. Assim, você tem cada vez que confiar mais e mais em meras abstrações.

Por exemplo, se alguém me paga por serviço prestado, deposita o valor correspondente em minha conta no banco. Não vejo a cor do dinheiro, só constato, no extrato do banco, a informação. Se vou comprar alguma coisa, uso o cartão de crédito e o que o vendedor recebe é também apenas uma informação.

Foi assim que as financeiras norte-americanas negociaram "informações" com outras financeiras, que passaram a outras até que, como quem garantia o lastro desses valores não pagou, veio tudo por água abaixo.

Com isso, perdeu-se a confiança em toda e qualquer informação financeira, e ninguém mais quer investir, nem emprestar nem avalizar.

A crise atinge o comércio, a indústria, o sistema ameaça entrar em colapso. E a impressão que temos é que a economia mundial era um sonho, minha gente!

DANUZA LEÃO

Uma perda

Seria tão bom se, no lugar de morrer, elas pegassem um avião para fazer uma viagem bem longa e não voltassem

EU TINHA uma amiga doente há muito tempo; há alguns meses teve que fazer mais uma operação e ficou claro que ia morrer -e em pouco tempo. Sem perceber, fui me habituando à idéia de sua morte.

Quando ela aconteceu, já estava tão preparada que não derramei uma lágrima; me senti uma pessoa fria e sem sentimentos. Ela era minha melhor e mais antiga amiga.

O tempo foi passando, eu lembrava dela com freqüência, mas era como se ela tivesse viajado. Não conseguia -como não consigo ainda- pensar nela como alguém que morreu.

Não fui visitá-la no hospital e disse, pelo telefone, que não ia por não querer vê-la em condições desfavoráveis, digamos assim, e que iria quando ela estivesse de novo bonita e alegre como sempre foi.

Não me senti culpada de não ter ido, porque se fosse eu a doente, detestaria que alguém me visse nas tais condições desfavoráveis -vocês me entendem. Junte-se a isso minha covardia, claro.

Ela morreu, e a ficha foi caindo aos poucos. Tão aos poucos que às vezes ainda pego o telefone e começo a ligar para ela e só depois dos primeiros números discados me dou conta de que ela não existe mais.

E a cada vez fico mais triste. É uma tristeza que foi chegando aos poucos, e que só faz aumentar.

E mais uma vez não consigo compreender a vida nem aceitar a morte.

Há os que dizem que vida e morte são uma coisa só, mas não entendo como alguém que um dia está falando, rindo, comendo, pensando, andando, correndo, brincando, no dia seguinte pode não existir mais. Dizem que o que não existe mais é só o corpo, mas isso é difícil de entender.

Para mim não melhora em nada lembrar dos bons momentos que passamos juntas, das risadas que demos, do quanto nos divertíamos o dia inteiro na praia, dos conselhos que dávamos uma à outra na hora de escolher entre um namorado e outro.

Eu queria mesmo era poder falar com ela agora, mesmo que fosse para rir menos e mais para trocar nossas aflições, mas não posso. Ela não existe mais.

Isso pode acontecer com qualquer pessoa de quem gostamos (e conosco também, claro): de um dia para o outro, desaparecer. Seria tão bom se, no lugar de morrer, elas pegassem um avião para fazer uma viagem bem longa e nunca mais voltassem.

A gente sentiria saudades, com o tempo as saudades iriam diminuindo, e um dia nos esqueceríamos de que elas haviam existido e sido tão importantes em nossa vida, mas não. Temos que passar por toda a tristeza do final, lembrando e não entendendo.

Eu tive uma outra amiga que umas duas semanas depois de morrer seus dois filhos convidaram seus mais próximos para uma happy hour no apartamento em que ela morava; a casa estava cheia das flores de que ela mais gostava e fotos pela casa inteira.

As pessoas lembraram histórias divertidas e brindaram com champanhe a alegria que ela deu a todos.

Não houve lágrimas nem tristeza, e depois foram todos para casa se sentindo privilegiados por terem compartilhado de uma vida tão rica.

Seria bom se isso virasse um hábito, mas seria possível? Quando a dor é muito funda, é difícil. E a morte, nos países latinos, massacra os que ficam. É proibido não sofrer, e fica melhor na foto quem sofrer mais.

Se a viúva se debater querendo ser enterrada junto com o marido, aí o sucesso é total. Porque há muito de exibição nessas horas, e se o morto é famoso e houver fotógrafos e câmeras de televisão, aí o espetáculo ganha muito.

Mas por que eu estou falando de tanta coisa triste? O Natal está chegando, o Ano Novo, depois o Carnaval, a hora é de alegria.

Acho que é porque eu pensei na minha amiga e fiquei imaginando como vai ser o primeiro Natal dos filhos sem ela, e isso me entristeceu muito. Desculpem tanta tristeza, leitores.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 6 de dezembro de 2008



07 de dezembro de 2008
N° 15812 - MARTHA MEDEIROS


A mulher independente

Estava autografando meu livro na Feira quando uma senhora alta, elegante, já bem madura, chegou sorridente pra mim e disse: Te acho uma mulher fenomenal.

Eu, toda sorrisos, tomei o livro que ela tinha em mãos e me preparei para escrever uma dedicatória bem carinhosa. Ela então complementou: Mas eu não queria ser casada contigo tu és muito independente!.

Concluí a dedicatória, agradeci a gentil presença dela, enquanto que meu coração começou a bater de forma mais lenta. “O que estou sentindo?”, perguntei a mim mesma, em silêncio. Tristeza, respondi a mim mesma, em silêncio, enquanto a próxima pessoa da fila se aproximava.

Em que eu seria mais independente do que qualquer outra mulher? Quase todas as que conheço trabalham, ganham seu próprio sustento, defendem suas opiniões e votam em seus próprios candidatos. Algumas não gostam de ir ao cinema sozinha, já eu não me importo. Poucas moraram sozinhas antes de casar, eu morei. Quase nenhuma, que eu lembre, viajou sozinha, eu já. E nisso consta toda minha independência, o que não me parece suficiente para assustar ninguém.

Fico imaginando que essa tal “mulher independente”, aos olhos dos outros, pareça ser uma pessoa que nunca precise de ninguém, que nunca peça apoio, que jamais chore, que não tenha dúvidas, que não valorize um cafuné. Enfim, um bloco de cimento.

Quando eu comecei a ter idade pra sonhar com independência, passei a ler afoitamente os livros de Marina Colasanti – foram eles que me ensinaram a importância de abrir mão de tutelas e a se colocar na vida com uma postura própria, autônoma, mas nem por isso menos amorosa e sensível.

Independência nada mais é do que ter poder de escolha. Conceder-se a liberdade de ir e vir, atendendo suas necessidades e vontades próprias, mas sem dispensar a magia de se viver um grande amor. Independência não é sinônimo de solidão. É sinônimo de honestidade: estou onde quero, com quem quero, porque quero.

Sobre a questão da independência afugentar os homens, Marina Colasanti brincava: “Se isso for verdade, então ficarão longe de nós os competitivos, os que sonham com mulheres submissas, os que não são muito seguros de si. Que ótima triagem”.

Infelizmente, a ameaça que aquela senhora acredita que as independentes representam não é um pensamento arcaico: no aqui e agora ainda há quem acredite que ser um bibelô (ou fazer-se de) tem lá suas vantagens. Eu não vejo quais.

Acredito que a independência feminina é estimulante, alegre, desafiadora, vital, enfim, uma qualidade que promove movimentação e avanço à sociedade como um todo e aos familiares e amigos em particular.

“Eu preciso de você” talvez seja uma frase que os homens estejam escutando pouco de nós, e isso talvez lhes esteja fazendo falta. Por outro lado, nunca o “eu amo você” foi pronunciado com tanta verdade.

Um ótimo domingo especialmente para você.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - MOACYR SCLIAR


Negro de óculos

A discussão sobre cotas está de volta (esses dias, na tevê, os ex-ministros da Educação Paulo Renato e Cristovam Buarque debateram a respeito) e, independente das opiniões discordantes – o assunto é mesmo polêmico – tem um mérito: obriga-nos a examinar a questão do racismo na sociedade brasileira.

O que me faz lembrar um curioso costume de minha infância, uma espécie de competição entre garotos.

Dupla competição, dentro do grupo e também de cada um contra si próprio. O jogo consistia em colecionar mentalmente finais de placas de automóveis. A gente começava pelo zero, depois vinha o um, o dois, o três e assim por diante, até o cem. O notável é que ninguém, a não ser o nosso superego, fiscalizava esta atividade.

E, entre nós, mantínhamos uma espécie de lúdico pacto de honra, essas coisas que são raras na vida adulta. Havia, no processo de coletar os números, um curioso detalhe, uma intrigante punição: mesmo que tivéssemos chegado, digamos, ao noventa e nove, teríamos de voltar ao início, ao zero – caso encontrássemos um negro de óculos.

Por que um negro de óculos? Em primeiro lugar, por causa do racismo, por causa do estigma que representava, e representa, a cor negra da pele. Não era esta, contudo, a única razão. Afinal, é praticamente impossível andar por uma cidade brasileira sem encontrar negros. Mas havia o detalhe: negro de óculos.

O que era uma coisa rara. E por que era rara? Não é difícil deduzir a razão. Negros quase não usavam óculos. Pobres como eram, e são, não dispunham de dinheiro para isso. Além disso, não teriam, ao menos segundo o raciocínio corrente, motivos para usar óculos. Não freqüentavam escolas; muitos deles eram analfabetos. Ou seja: negro de óculos era exceção.

E uma exceção ominosa, suficientemente ameaçadora para ser interpretada como um risco para o nosso jogo dos números. Se os negros começassem a usar óculos, o que aconteceria?

Uma subversão completa dos valores então vigentes. Logo estariam freqüentando colégios, quem sabe até universidades.

O que seria um espanto, para dizer o mínimo. Na Faculdade de Medicina da UFRGS, que cursei, o número de alunos negros dava para contar nos dedos de uma mão; havia um professor (assistente) negro, mas ele era completa exceção.

Atribuía-se a um diretor da faculdade um a frase que dá a medida do preconceito então reinante: “Negro, nesta faculdade, só o telefone”.

Naquela época, e isto também é significativo, os telefones – de quem se esperava fossem obedientes servidores, eram obrigatoriamente pretos.

Tem-se afirmado que, com a eleição de Obama (que não usa óculos), chegamos à uma fase pós-racial da História, também anunciada pela diversificação de cores dos telefones. Tomara que seja verdade. Tomara que não tenhamos de voltar para o zero.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - VERISSIMO


Diálogo de posteridades

O túmulo do Herbert Spencer fica em frente ao do Karl Marx no cemitério Highgate, em Londres. Spencer morreu em 1903, o que significa que os dois são vizinhos há 105 anos.

Pode-se especular que, vez por outra, cheguem na sacada dos seus respectivos monumentos para uma conversa. – Que tempo, hein Herbert?

– Horrível, Karl. Eu sempre digo que a única vantagem de estar morto na Inglaterra é que nos livramos do clima.

– Não me refiro ao clima, Herbert. Me refiro a esse tempo que estamos vivendo. Ou que os vivos estão vivendo. Essa crise...

– Imaginei que você estaria contente com ela, meu velho. Você sempre disse que o capitalismo ia acabar...

– Mas não assim, não num desastre sem qualquer significado histórico. Causado pela pura ganância, pela simples cupidez humana, por três ou quatro gerentes financeiros pensando apenas em trocar seu Porsche pelo modelo do ano. Há algo menos científico do que a cupidez humana, Herbert? – Bem...

– O que eu tinha previsto era o fim de um processo, a síntese final de uma inevitável progressão dialética que terminaria com o proletariado livre para sempre dos seus grilhões numa sociedade sem classes. Não com a classe média impossibilitada de comprar um microondas. Que consciência revolucionária pode nascer de uma insatisfação com a falta de crédito?

– Pois eu baseei toda uma filosofia na defesa da cupidez humana, como você deve se lembrar, Karl. Nada é mais natural do que a cupidez humana, e a ciência deve reconhecer que as leis da Natureza também regem o comportamento humano. E a primeira lei da Natureza é cada um por si e por suas ambições. É o desejo do microondas, do qual o desejo do Porsche novo é uma exacerbação, que move, metaforicamente, a humanidade.

– Você e o seu darwinismo social. Como é mesmo a sua frase famosa? A sobrevivência dos mais capazes...

– Que hoje todo mundo pensa que é do Darwin, e é minha. Infelizmente, não podemos controlar nossa posteridade do túmulo.

– Mas a sua posteridade está ganhando da minha, Herbert. O capitalismo em crise não comprova a minha teoria, comprova a sua. A fome do mundo não é de igualdade e justiça, é de eletrodomésticos e férias no verão. Não foi a reação que derrotou o comunismo, foi o consumismo. Nunca uma troca tão pequena de letras significou tanto.

– Não se deprecie, homem. Que importa se o capitalismo acabará com uma revolução ou um gemido, se se autodestruirá ou se regenerará? Aconteça o que acontecer, ainda virá mais gente visitar o seu túmulo do que o meu.

Aliás, nenhum dos neoliberais que vinham prestar suas homenagens ao seu filósofo favorito tem aparecido, ultimamente. Como você vê, as flores que deixaram da última vez no meu túmulo estão mais murchas do que os prognósticos econômicos para 2009. Você ainda é o cara.

– Obrigado, Herbert. Mas você não está querendo ver o paradoxo. Se o capitalismo cair por acaso, por nenhum determinismo científico, eu caio junto com ele. Terei sido o pior tipo de profeta, o que acerta porque estava errado.

– O acaso, o acaso... Neste ponto nós sempre concordamos, discordando do Darwin. Ele atribuía a evolução ao acaso. Nós sempre achamos que havia um fim previsível para as nossas respectivas explicações do mundo, que nossas evoluções tinham um objetivo que as redimiria.

– Mas num ponto Darwin teria razão em defender o acaso, Herbert. – Qual? – Foi por puro acaso que enterraram você aí, na minha frente, e podemos ter estas nossas conversas.

– Isso é verdade, Karl.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - PAULO SANT’ANA


A dor de ser acusado

Deixa eu entender melhor este capítulo findo sexta-feira, em que o Ministério Público, depois de ingentes investigações, declarou que a casa da governadora Yeda Crusius foi comprada antes de ela assumir o Piratini e não houve qualquer vestígio de improbidade na aquisição do imóvel.

A acusação de que a governadora adquirira a casa ao locupletar-se de recursos públicos surgiu no auge da Operação Rodin, na qual a Polícia Federal desbaratou uma quadrilha que agia no Detran sob a forma de propinoduto oriundo de fundações que esfolavam a bolsa popular com a cobrança de taxas extorsivas para aquisição da carta de habilitação para os motoristas.

Fragilizada pelo escândalo no Detran, a governadora foi pasto fácil para as acusações de que comprara a casa com recursos públicos.

Alguns dizem que a governadora deveria desde o início das acusações tê-las refutado com documentos.

Mas o ônus da prova não cabe aos acusadores? Dizem os que objetam a governadora que no caso da pessoa pública é obrigação dela a transparência total sobre os seus bens.

Mas, se a governadora não adquiriu a casa durante seu mandato no Piratini, fê-lo antes, tinha ela o dever de formalizar sua defesa, quando o que interessava no momento eram as investigações apenas atinentes ao seu mandato?

O que sei é que a governadora suportou por um ano inteiro as acusações e as dúvidas sobre a compra de sua casa.

Deve ter custado muito caro a ela suportar as acusações. Isso moralmente, porque materialmente custou-lhe também caro contratar advogado e organizar a sua defesa.

Agora o Ministério Público declara encerradas as investigações, conclui que a casa foi comprada antes de ela assumir o governo e que os recursos para a aquisição do imóvel foram absolutamente lícitos.

Eu bati duro no governo aqui nesta coluna sobre o escândalo do Detran.

Eu bati duro no governo ainda na semana passada sobre essa pressa inexplicável para prorrogar os contratos dos pedágios.

E justamente por isso é que não posso, por dever de imparcialidade, me calar agora, quando o Ministério Público inocenta totalmente a governadora no aspecto da compra da sua casa.

Dói-me ver que uma acusação desse tipo, tão grave quanto caluniosa, tenha pesado durante 13 meses sobre uma pessoa inocente, cuja aparência de probidade tem de ser sempre mantida, apesar das ânsias vis e ambições ferozes da vida política e os ímpetos oposicionistas de denúncia.

Não há bem maior de uma pessoa que a reputação. E quando ela está investida de múnus público, ainda se torna um bem muito valioso a sua reputação.

Por isso é que me condôo com o que sofreu a governadora durante os ataques à sua reputação na compra de sua casa.

E muito mais condoído fico quando penso que é brutal para um acusado que caiba a ele o ônus de provar que não é culpado.

Soltaram as acusações contra Yeda como folhas amarelas de outono, que agora merecida e desmoralizadamente restaram caídas no chão, à espera apenas da vassoura que as jogue no lixo.


07 de dezembro de 2008
N° 15812 - DAVID COIMBRA


Os maiores frios da minha vida

O segundo maior frio que passei na vida foi no estádio do Ferroviário, time de Tubarão, sul de Santa Catarina. Era noite, chovia, a temperatura devia ser de uns dois graus e lá estava eu, cobrindo o clássico tubaronense Ferroviário versus Hercílio Luz.

Essa é a dura vida de repórter: noite, frio, chuva e Ferroviário versus Hercílio Luz. Brabeza. Um dia depois daquele jogo, lembro bem, eu e o fotógrafo Ezequiel Passos estávamos na sucursal do Diário Catarinense em Criciúma e o telefone tocou. Ainda chovia, ainda fazia frio e também era noite. Do outro lado da linha, o editor-chefe com sua voz rascante de editor-chefe:

– Vocês têm que estar em Florianópolis em três horas, rapazes! Vão embarcar agora para Belo Horizonte para cobrir Atlético Mineiro e Criciúma!

Arrá! Agora sim: Criciúma e Atlético Mineiro em Belo Horizonte! Aí estava uma cobertura digna da dinâmica dupla de reportagem David Coimbra & Ezequiel Passos! Saímos correndo, eu e o Zeca, e em algumas horas sobrevoávamos o sudeste brasileiro.

No primeiro dia em Belô, procuramos os colegas do Estado de Minas. Foram muito simpáticos. Prometeram:

– Não largamos vocês antes que conheçam toda a noite de Belo Horizonte.

Não estavam brincando. Passamos quatro dias e quatro noites em Minas. Nessas quatro noites, eles apareciam no hotel, sempre muito animados, nos saudando:

– E aí, gauchada! Vamos lá! Vamos para a noite!

E nos levavam para bares e boates, só nos liberando com a manhã alta. Chegávamos e os jogadores do Criciúma estavam tomando café, comendo mamão, passando manteiga no pãozinho. Isso todos os dias! No final, eu já queria fugir dos mineiros, mas não tinha jeito: eles nos forçavam a ir para a noite e nos divertir e nos divertir e nos divertir insuportavelmente, até o desespero.

Neste fim de semana, alguns colegas mineiros estarão na cidade para cobrir Grêmio versus Atlético Mineiro. Em ocasiões que tais, sempre imagino que eles gostariam de ter uma recepção semelhante à que tive naquela época do Diário Catarinense, e até gostaria de levá-los por aí. Mas, confesso, não tenho saúde para exercer tanta hospitalidade.

Às vezes a vida do repórter é menos dura. O maior dos maiores frios que passei na vida foi, não é para me exibir, na Suíça. Suíça! Um país quase perfeito. Não vi um único lugar feio na Suíça. Os becos da Suíça são graciosos; as latas de lixo suíças, formosas; os terrenos baldios... bem, acho que nem existem terrenos baldios na Suíça.

Talvez o único defeito da Suíça seja o frio. No inverno, a neblina rola Alpes abaixo e cobre as cidades ao sopé das montanhas. O nevoeiro leva semanas para se dissipar. Os suíços ficam deprimidos e o índice de suicídios aumenta.

Desta vez em que passei o primeiro maior frio da minha vida o clima era assim invernal. A Seleção Brasileira foi jogar contra um selecionado qualquer na Basiléia. Vesti uma camiseta de mangas curtas, uma camiseta de mangas compridas, uma camisa, um blusão, um casaco, enrolei o pescoço em uma manta, enfiei duas meias em cada pé, mais, obviamente, as calças e as cuecas e as botinas, e nada adiantou. Tiritava de frio na arquibancada. E os Ronaldinhos fazendo brilhatura contra aqueles pernas-de-pau lá embaixo, no campo.

Pensando bem, a vida de repórter é realmente dura.

Seleções, seleções

O pessoal da Zero Pontocom pediu para que nós, da Zero “papel”, escalássemos uma seleção dos dois times do Grêmio que foram campeões brasileiros mais o deste ano, que pode ganhar o título. Eu, que adoro seleções e listas, vibrei. Fiz a minha. Primeiro a lista dos melhores em cada posição, depois o time titular. Ó:

Os três goleiros são craques: Leão em 1981, Danrlei em 1996 e Victor em 2008. Laterais: Paulo Roberto ou Arce pela direita e Roger ou Casemiro pela esquerda.

Zagueiros: Mauro Galvão, Adilson, De León, Réver, Rivarola. Volantes: Rafael Carioca, William Magrão, Dinho, Goiano, China.

Meias: Tcheco, Paulo Isidoro, Carlos Miguel, Arilson e Emerson. Atacantes: Tarciso, Baltazar e Paulo Nunes.

Pensei, pensei e meu time ficou assim: Danrlei; Paulo Roberto, Adilson, De León e Roger; Dinho, Tcheco, Paulo Isidoro e Carlos Miguel; Tarciso e Paulo Nunes.

Aceito contestações.

Diogo Mainardi

Cof, cof, cof...

"Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração"

Benjamin Steinbruch, dono da CSN, publicou na Folha de S.Paulo um artigo intitulado "Expectadores da recessão". Assim mesmo: "expectadores" com "xis". Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração.

Por isso, o artigo de Benjamin Steinbruch me fez refletir profundamente. Dá para expectorar uma recessão? Interpretei da seguinte maneira: cada pneumococo é um keynesiano em potencial, com seus estratagemas para contaminar os organismos do estado e sufocar as vias respiratórias da economia. É isso?

Se entendi direito, Benjamin Steinbruch pertence ao partido dos pneumococos keynesianos. Cito um trecho de seu artigo: "Até a semana passada, pacotes para estimular investimentos e consumo num total de 3 trilhões de dólares já haviam sido anunciados por diferentes governos.

No Brasil, o caminho é o mesmo. Uma vez que não temos por aqui nenhum problema de solidez no sistema financeiro, a tarefa é direcionar recursos a empreendedores públicos ou privados que efetivamente tenham coragem e competência para gastá-los de forma produtiva".

Cof, cof, cof. Considerando todos os recursos que, nos últimos anos, o BNDES direcionou à CSN, como os 900 milhões de reais para a Nova Transnordestina ou os 300 milhões de reais para o Porto de Sepetiba, Benjamin Steinbruch só pode ser um desses corajosos e competentes empreendedores privados que, segundo ele próprio, teriam de ser contemplados com ainda mais dinheiro público.

Pergunte ao senador petista Aloizio Mercadante o que ele pensa sobre o assunto. Aposto que ele concorda.

Achei que os keynesianos fossem mais obsoletos do que as escarradeiras dos tuberculosos, para continuar com a analogia pulmonar. Mas me enganei. Eles voltaram.

E em sua forma mais agressiva: a dos keynesianos em causa própria, como o presidente da GM, nos Estados Unidos, ou o presidente da CSN, no Brasil. Benjamin Steinbruch, o Hans Castorp da siderurgia nacional, internado em seu sanatório de verbas do BNDES – sim,

Thomas Mann, A Montanha Mágica –, conclui seu artigo recomendando que os recursos públicos "sejam realmente gastos e não fiquem debaixo dos colchões de apavorados expectadores da recessão".

Como eu sou apenas um espectador comum – um espectador com "esse" –, aconselho o governo a fazer o contrário: é melhor ficar sentado na platéia, de mãos dadas com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e assistir aos desdobramentos do espetáculo, deixando o dinheiro prudentemente debaixo do colchão.

E se um keynesiano em causa própria expectorar em sua orelha, na poltrona de trás, afaste-o imediatamente: ele é contagioso.

Lya Luft

Do horror brota a grandeza

"Na hora da tragédia, a solidariedade – que só floresce na dor – vem com força. Em algum lugar, alguém, um desconhecido que jamais iremos ver, abre os braços e diz: irmão. Essa era a palavra que, só ela, poderia nos salvar. E foi pronunciada"

Uma quadrilha de dez a quinze terroristas, meninada em torno de 20 anos, toma de assalto a lendária Bombaim, na Índia, hoje Mumbai, e sai matando a torto e a direito. Simples assim.

Com armas pesadas e moderníssimas, o bando mata sorrindo, segundo testemunhas. Entra em lugares apinhados e famosos, também na cozinha de um hotel de muitas estrelas. Um grupo de jovens chefs com animação e capricho prepara jantares para hóspedes e outros clientes.

Os meninos terroristas entram, sorriem e fuzilam todo o grupo. Saem pelo imenso hotel matando, e, depois de algumas horas (foram dias inteiros!!!), há lugares onde o assoalho é escorregadio de tanto sangue.

Até hoje não sei se tudo ficou esclarecido, pois as notícias eram vagas e confusas, e a matança dos inocentes, vasta e desordenada para quem recebia as notícias, parece que foi muito bem preparada:

havia meses a gangue assassina treinava, preparava, sondava terreno, ia se instalando nos próprios hotéis escolhidos, levando armamentos e preparando salas de comando com sofisticados recursos.

Enquanto isso, ali junto, pais de família, crianças, mulheres grávidas, simples empregados e altos funcionários, da modesta faxineira ao mais bem-posto milionário, viviam sua vidinha ou vidona, sem imaginar que sua morte espreitava com um belo sorriso num rosto de garotão.

A vida tem dessas coisas, não temos lá grande controle sobre ela, corremos muitas vezes como animais confusos para o matadouro.

Ilustração Atômica Studio

Há mais tragédias na lista do momento, como aqui ao lado, na bela, ensolarada, mágica Santa Catarina, onde meus filhos quando meninos iam surfar e eu mesma já experimentei momentos de beleza e serenidade, de pura alegria.

Agora, nesse suposto paraíso, o tsunami – relatava uma jovem vitimada pelo horror – não era água e espuma, mas lama, barro, pedras enormes, arrastando casas, árvores, corpos de gente e de bichos. Pessoas foram enterradas no quintal ou na hortinha, pois nada mais sobrava, nem um metro de terra firme.

Alguns desaparecidos jamais serão achados. Povoados não poderão ser reconstruídos, pois o terreno simplesmente sumiu. Famílias para sempre destroçadas, para todo o sempre, sem sentido, sem aviso, sem entender nada. Não há o que dizer.

Mas não é apenas isso a nossa vida: é também a revelação da grandeza humana, uma onda incessante de generosidade e compaixão.

Pessoas simples de Santa Catarina doam o essencial; acolhem em sua casa vizinhos ou desconhecidos que tudo perderam e, em boa parte, jamais vão recuperar. Gente modesta do país inteiro se mobiliza e as estradas (muitas nem existem mais) seriam insuficientes para esse tráfego de humanidade.

Empregadas domésticas dão um de seus três pares de sapatos usados; crianças dão dois de seus cinco brinquedos; famílias doam um colchão e dormem apertadas; gente manda uma lata de leite em pó e bota mais água na caneca de seus filhos.

Isso tem de valer mais do que todo o frio horror da natureza, descontrolada em parte pela nossa irresponsabilidade, ganância e despreparo, e pela fatalidade que nos ronda.

Tem de valer mais do que a perversão dos terroristas que mataram sorrindo, mais até do que a desgraça de milhares de pessoas que nada tinham a ver com isso, aqui e no outro lado do mundo: o rabino idealista com sua mulher, os garçons e camareiras, os casais em lua-de-mel, os velhos em sua primeira viagem juntos, os empresários ocupados e os funcionários esforçados, os agricultores e professoras, os namorados, as grávidas, os bebezinhos.

Na hora da tragédia, aqui e lá, a solidariedade – que só floresce na dor – vem com força. Estamos na sombra, estamos no abismo, doentes, sofridos, perdidos, órfãos e enlutados, sem ter nem para onde voltar – mas, em algum lugar, alguém, um desconhecido que jamais iremos ver, ou o vizinho próximo, no fim desse horrendo túnel, abre os braços e diz: irmão.

Essa era a palavra que, só ela, poderia nos salvar. E foi pronunciada.

Lya Luft é escritora


Guerra das bonecas

Barbie leva a melhor e Bratz podem sumir após Natal

Decisão da justiça americana ordena que MGA pare de produzir e comercializar as bonecas Bratz, que já renderam US$ 3,1 bilhões desde seu lançamento em 2001

As bonecas Bratz correm o risco de ser banidas das lojas de brinquedos dos Estados Unidos, depois que um tribunal de justiça federal americano proibiu esta semana a MGA Entertainment de fabricar a rival da Barbie. A decisão foi divulgada somente nesta sexta-feira (5/12).



A corte tomou a decisão depois que a Mattel, a maior fabricante de brinquedos do mundo e criadora da Barbie, ganhou uma causa de infração de copyright contra a MGA em agosto.

Uma juíza federal da Califórnia proibiu a MGA de vender e produzir todos os 40 modelos de bonecas multi-étnicas que fazem parte da linha Bratz.

Mas deu prazo à MGA para retirar suas bonecas de todas as lojas logo depois do Natal.

No processo, que se arrastou por meses, o designer Carter Bryant foi considerado culpado por ter desenvolvido a boneca Bratz para a MGA, enquanto ainda trabalhava para a Mattel.

A MGA já apelou, alegando que isso afetará muito a empresa, já que a Bratz é o brinquedo mais vendido da companhia. Em junho, as vendas da Bratz atingiram US$ 3,1 bilhões nos EUA desde o lançamento em 2001. As vendas da Barbie, ainda o brinquedo mais popular da América, caíram 15% em 2007.

A Mattel acha que a rival MGA não deveria lucrar em cima da desonestidade. A empresa já ganhou indenização de US$ 100 milhões em agosto, por conta da quebra de direitos de copyright e mais US$ 90 milhões por quebra de contrato. Se a MGA não conseguir recorrer a tempo, a Mattel pode usar a decisão como base para tirar as Bratz das prateleiras de todas as lojas do mundo.

A marca Bratz tem sido responsável pela queda nas vendas da Barbie desde seu lançamento em 2001. De acordo com números não oficiais, as bonecas Bratz respondem por 40% do mercado total de bonecas nos EUA.

Em 2005, as vendas globais dos produtos Bratz alcançaram US$ 2 bilhões.

Ídolos & Heróis – E da reportagem de capa da Época deste fim de semana escolhemos a Claudia aí abaixo dentre os brasileiros destaques de 2008

Claudia Leitte

Claudia Leitte é um clássico da miscigenação brasileira. Meio carioca e meio baiana, é uma pessoa do mundo.

Tem o maior suingue negro-afro, canta com percussão de forma única. Ao mesmo tempo, tem aquele rostinho de mulher da Baixa Escandinávia. Só o Brasil consegue produzir alguém como Claudia Leitte.

Ela é a prova de que o preconceito não pegou na música brasileira. Claudia expõe a cultura da Bahia de forma elegante e contemporânea.

Afirma para o Brasil que a música do país é a melhor para ser ouvida no mundo inteiro. Além de tudo, é corajosa: é muito difícil, com sua ascensão atual, conceber uma criança. Claudia é um orgulho para a Bahia. Feliz tudo para Claudia!

Carlinhos Brown, cantor e compositor


06 de dezembro de 2008
N° 15811 - PAULO SANT’ANA


Assassínio sob encomenda

A cidade ficou chocada ontem com o brutal assassinato do médico oftalmologista Marco Antonio Becker, dirigente do Conselho Regional de Medicina.

A exemplo do que aconteceu dias atrás com aquele advogado e engenheiro que caiu sob as balas de dois motoqueiros na Rua Felipe Neri, tudo indica que se trata de um assassinato sob encomenda.

O assassinato sob encomenda é perverso para a vítima. Porque ela conhece a face do seu desafeto, mas é assassinada por pessoas que não conhece.

A vítima jaz indefesa no assassinato sob encomenda, uma nova modalidade que parece ingressar no nosso meio social.

Foi tal a demonstração de poder dos sicários que assassinaram o Dr. Becker anteontem na Rua Ramiro Barcelos, que eles tiveram o cuidado de ordenar a um zelador de carros que se afastasse do local para agirem livremente.

E desferiram cinco tiros sobre o vidro do carro do Dr. Becker, atingindo-o mortalmente no rosto e no tórax.

Um serviço perfeito e despreocupado com a movimentação do trânsito de pessoas e de carros, um lugar escolhido a dedo, com a Avenida Farrapos oferecida generosamente à fuga dos assassinos, que usaram novamente de uma moto, veículo ideal, pela sua mobilidade, aos homicídios.

Os criadores e defensores do Estatuto do Desarmamento podem agora se debruçar meditativamente sobre sua obra.

São tais as dificuldades criadas para os cidadãos portarem uma arma, que eles se vêem obrigados a andar desarmados, enquanto os ladrões, os bandidos e assassinos portam as armas que bem quiserem.

É uma luta desigual, ainda mais desparelha se torna sob a vigência dessa criminalidade desenfreada.

Planejou-se juridicamente que as vítimas têm de estar desarmadas. E o Estado se mostra impotente para desarmar os bandidos.

É o ambiente ideal para os predadores, nada mais fácil para os que cometem os crimes do que encontrar as vítimas desarmadas.

O Estatuto do Desarmamento é o código das relações entre predadores e presas.

Às presas é impedido portar armas. Aos assassinos torna-se fácil e na maioria das vezes gratuito portar os armamentos mais sofisticados.

Está montado o cenário perfeito para o holocausto.

Só a dois tipos de pessoas é permitido andar armado: os policiais e os bandidos.

Como a estrutura financeira do Estado ruiu, há muito poucos policiais pelas ruas. Evidentemente que a essa realidade tinha de ser adaptada uma outra: a licença para os cidadãos idôneos andarem armados.

Não pode. A regra é eles serem cada vez mais abatidos sem portar armas.

Por isso nunca foi tão fácil matar: os assassinos zombam das penas e sabem que sua ação nas ruas é equiparada à dos leopardos na savana repleta de antílopes. É atacar e matar, basta apenas escolher quem será abatido.

Anteontem o bravo e bem-humorado dirigente sindical, Dr. Marco Antonio Becker, foi o antílope escolhido.


06 de dezembro de 2008
N° 15811 - NILSON SOUZA

Por que corremos?

Não gosto de dezembro. Sei que é um mês igual aos outros, tem chuva e sol, tem dias iluminados e sombrios, tem noites escuras e estreladas. Esta semana, inclusive, fomos contemplados por uma magnífica conjugação da Lua com Júpiter e Vênus, formando um desenho inesperado e lindo no céu do Rio Grande.

Minha bronca, portanto, não é com a natureza deste mês que foi colocado no final do calendário por pura convenção.

O problema são as pessoas. Elas enlouquecem no último mês do ano. Correm como se o mundo – e não o ano – fosse acabar. Ficam nervosas, brigam no trânsito, empurram-se nas lojas, compram o que não precisam, cometem excessos, bebem demais e raciocinam de menos.

Os habitantes de dezembro são uns trogloditas.

Melhor dizendo, são demasiado civilizados. Outro dia li um texto sobre nossos ancestrais pré-históricos e concluí que eles eram bem mais parceiros e solidários do que o homem moderno.

Até por necessidade, para se proteger dos perigos daqueles tempos primitivos, para enfrentar animais ferozes e o medo do desconhecido, formavam grupos, ajudavam-se mutuamente. Embora dependessem da força física para sobreviver, aprenderam a ser criativos e habilidosos.

Basta imaginar, por exemplo, o primeiro homem que dominou a arte de fazer fogo, debruçado sobre um montinho de palha, assoprando levemente para que a faísca resultante do atrito das pedrinhas virasse a chama que ele, orgulhosamente, transformaria em fogueira para aquecer a tribo.

Quem teria paciência para uma proeza dessas neste mundo de tecnologia, urgência e competição?

Já ouvi dizer que as pessoas correm desta maneira no período de festas na ilusão de alcançar uma miragem fugidia chamada felicidade. Por isso, forçam confraternizações, tentam participar de todas as baladas, obrigam-se a trocar presentes e votos de sucesso. A maioria, porém, alcança apenas a frustração.

Talvez pela singela razão de que a verdadeira felicidade é feita de tênues momentos de paz, de breves instantes de ternura familiar, de pequenas gentilezas entre amigos. Na inevitável escaramuça de dezembro, quase não nos sobra tempo para a simplicidade.

O consolo é que o mês da ansiedade passa como um trem de alta velocidade. Querendo ou não, somos todos passageiros. E a alternativa que nos resta, como ensinou Mario Quintana, é seguir em frente, jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Aproveite o sábado - Um excelente fim de semana com muito sol aí dentro de você e lá fora.


MAIS UMA DE PALOMAS

Apesar da crise americana com reflexos mundiais, Palomas está cada vez mais neoliberal e sem porteira. É incrível o que acontece por lá. Vive-se o crepúsculo da elegância, mesmo que a indumentária esteja sempre cuidada como se fosse para baile, missa, batizado ou carreira.

Tem cada índio saindo da bainha mais lustroso do que bota de defunto e cada prenda mais enfeitada que árvore de Natal de casa de estancieiro. Povoado de fronteira, contudo, vila sem limites. Ainda bem que o restante do país está imune ao vírus que tomou conta de Palomas. Imagino que seja difícil entender o que estou dizendo.

Em Palomas, lugar de extrema beleza natural e de gente afável no trato, embora rápida no gatilho, há muita corrupção entre políticos, clientelismo, falta de transparência e, mais do que tudo, arrogância nos setores que deveriam dar exemplos de racionalidade e ponderação. Algumas pessoas e grupos se imaginam donos do pedaço.

Eu, que sou palomense de quatro costados, especialmente o da costela, não consigo, certos dias, acreditar no que vejo, ouço e, principalmente, leio. A baixaria pode ir muito longe, ao fundo de poço artesiano. Como dizia meu avô, um filósofo do pampa, a moral em Palomas cresce feito cola de cavalo. Para baixo. Há quem apare. Aí fica rabão.

Nesta semana, li no jornal oficial da Rede Baita Sol, conhecido por seu bairrismo radical e por adorar celebridades efêmeras, uma nota que me fez corar de vergonha. A Rede Baita Sol só vê o próprio umbigo. Se acontece uma tsunami nos confins do planeta e morrem milhares de pessoas, a Rede Baita Sol titula sem hesitação: Palomense escapa por pouco da tragédia.

A nota que me fez ficar mais rubro do que com a vitória do Inter na Sul-Americana era mesquinha.

O veículo menosprezava a campanha beneficente da concorrência em favor das vítimas das chuvas em Santa Catarina. Insinuava não existir controle externo das doações recebidas em dinheiro. Isso por ter o Ministério Público de São Paulo se recusado a fiscalizar o processo por não considerar a tarefa uma atribuição sua. Imediatamente, então, foi contratada uma auditoria privada.

A maledicência, contudo, prosperou. Afinal de contas, a Rede Baita Sol começara atrasada a cobertura da catástrofe natural de Santa Catarina e, acima de tudo, não se empenhara desde o princípio numa campanha para ajudar os flagelados.

É incrível como só em Palomas pode acontecer esse tipo de golpe baixo. A Rede Baita Sol sempre entendeu que o astro-rei era sua propriedade. Até aí nenhuma novidade. O novo consiste em achar que até as piores tempestades devem trazer-lhe alguns benefícios.

Uma leitura apressada poderia levar a pensar que se trata de inveja. Xará engano!, como gostava de dizer seu Ledo, poeta palomense afeito a um trocadalho do carilho em meio a um jogo de truco (no qual jamais cantava 'flor', mas somente 'sua formosa irmã'). Pois inveja não pode ser.

A Rede Baita Sol julga-se tão acima de tudo, tão desinteressada, tão soberana, tão impoluta e legal que jamais sentiria inveja. Ou não confessaria. Nesse caso, só resta uma possibilidade: extrema preocupação com o bafo na nuca dado pela concorrência.

Seria melhor – como também dizia seu Ledo, mais conhecido como Seu Engano, pois os demais palomenses também adoram 'trucodilhar' e fazer prosa –, enfim, seria melhor não misturar malhos com bugalhos. Cheira e paga mal.

juremir@correiodopovo.com.br


06 de dezembro de 2008
N° 15811 - CLÁUDIA LAITANO


Ignorância seletiva

Uma das retrospectivas mais interessantes divulgadas nesta época do ano é organizada pelos editores do dicionário Webster’s New World.

Enquanto a maioria das publicações trata de revisar o ano que passou relembrando as personalidades e os fatos que foram manchete, a equipe do Webster’s sai à cata das palavras que entraram no vocabulário dos americanos nos últimos meses – rastreando jornais, revistas, sites e programas de rádio e TV.

Como o universo de informação que abastece o Webster’s é mais ou menos o mesmo em boa parte da fatia bem alimentada do planeta, a palavra do ano funciona, mesmo quando traduzida para outros idiomas, como uma boa sinalização dos assuntos mais comentados da temporada – além de registrar aquilo que os alemães batizaram de “zeitgeist”, o espírito do tempo, que nada mais é do que o repertório de idéias e interesses que boa parte de nós, os alimentados, compartilha.

Em 2008, não foi diferente: cada uma das cinco expressões selecionadas pelo Webster’s para disputar a vaga de palavra do ano revela um pouco da nossa época e de suas idiossincrasias. Você pode nunca ter lido ou ouvido a palavra “overshare” (algo como “superexpor-se”), por exemplo, mas com certeza sabe o que isso significa.

O termo, que acabou sendo o mais votado pelos internautas, refere-se a duas maneiras diferentes de levar a intimidade a público: através de sites de relacionamento, blogs e fotologs que acompanham cada suspiro de cada dia da vida de um número cada vez maior de pessoas ou, no caso das celebridades, através de entrevistas que revelam tudo o que você nunca quis saber sobre uma pessoa que não faz parte das suas relações.

A palavra número 2 , “cyberchondriac” (algo como “hiponcondríaco virtual”), flagra outra esquisitice contemporânea.

O cybercondríaco é aquele sujeito que entra em pânico com os sintomas imaginários de doenças que ele descobriu na internet – fazendo aquele cursinho rápido de medicina aplicada e farmacologia que o Google oferece gratuitamente para qualquer um com curiosidade e coragem suficientes.

O mal-estar na palavra número 3, “leisure sickness” (doença do lazer), pode ser igualmente imaginário, mas ataca apenas quem está de folga ou de férias – vai entender. Já a palavra número 4, “youthanasia”, leva a maluquice a níveis ainda mais surpreendentes:

trata-se do termo cunhado para designar uma bateria de procedimentos antiidade realizados, todos ao mesmo tempo, em pacientes obcecados pela idéia de retardar os efeitos visíveis do tempo.

A minha favorita nesta listinha de cinco palavras que resumem 2008 merece um parágrafo só para ela. “Selective ignorance” (ignorância seletiva) é a prática de deliberadamente ignorar informações desnecessárias ou irrelevantes recebidas por e-mail ou outro meio de comunicação qualquer.

“Ignorar seletivamente”, além de aliviar o peso da nossa caixa postal mental, é aprender a identificar, em meio a um turbilhão de notícias, fofocas, mensagens, torpedos, correntes, boatos... , aquelas informações que realmente merecem o melhor de nós e da nossa atenção.

Em uma época em que a informação se tornou tão onipresente e, às vezes, até massacrante, o verdadeiro conhecimento depende, cada vez mais, não apenas do que a gente se dedica a aprender, mas também do que a gente escolhe ignorar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008



Socuerro! A Vale não vale mais!

Agora eu quero me estressar! E sabe o que os desempregados da Vale gritaram? "VALEU"!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Cansei de descansar. Agora eu quero me estressar: governo reconhece aumento de desemprego em 2009! Então demite os que calculam o desemprego!

E eu já disse que o único brasileiro que tem emprego garantido até dezembro de 2010 é o piloto do Aerolula! Aliás, sabe como vai ser reconhecida a era Lula? ERA DOSE! Rarará!

E a Vale? Não vale mais! E sabe o que os desempregados da Vale gritaram? "VALEU"! E os peitos da Ana Maria Braga? Ela tá parecendo um anão de jardim segurando duas melancias! Rarará!

E essa lei do call center, que eles têm que atender em um minuto? As operadoras de celular estão dando exemplo de rapidez. Você liga: "Quero cancelar a assinatura!". "NÃO!"

Perfeito! Menos de um minuto. "Quero mudar meu plano." "NÃO!" Menos de 30 segundos! E aí você liga pra qualquer call center e a ligação cai. Em menos de 30 segundos.

E um amigo me contou que tiraram o cafezinho das lojas da Vivo. É que um cliente jogou cafezinho na atendente. Em vez de melhorar os serviços, tiraram o cafezinho. Rarará! Cansei de descansar. Eu quero me estressar!

E um amigo meu vai dar um trote nos call centers. "Alô, é do call center? Peraí, um minutinho." Rarará!

Eu vou abrir um COW CENTER. Você liga e uma mulher fica mugindo do outro lado. Rarará!

Alerta da crise! Atenção! Devido a quebra de bancos, queda das bolsas e cortes nos orçamentos informamos que a famosa luz no fim do túnel está temporariamente desligada! E a crise tá tão braba que um amigo meu que tem loja no shopping só conseguiu contratar um Papai Noel magro, fumante e com a cara do Serra.

E adorei a charge do Ivan do "Diário de Natal" com o Papai Noel: "Recebo cada pedido esquisito.

Tem um tal de Daniel Dantas querendo ganhar um juiz". Eu acrescentaria: MAIS um juiz. Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! NADA! Rarará.
Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". É que em Ourinhos tem um centro comercial chamado Centro Comercial MATACHANA!

E não é o primeiro centro comercial do planeta que mulher não gosta. Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Transexual": transporte pro povo GLS! Rarará. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza.

simao@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Socuerro! A Vale não vale mais!

SÃO PAULO - Recebi uma surpreendente chuva de e-mails a propósito da coluna de ontem, em que defendi regras básicas e mais rígidas para que a Folha aceite palpites de economistas.

Surpreendente primeiro pela quantidade. Temas econômicos mobilizam menos o leitor. Surpreendente também por ter sido a primeira vez na vida em que todos os bilhetes eram favoráveis -até de uma economista (Maria do Rosário Peixoto, do Rio de Janeiro).

Mas o que me leva a voltar ao assunto é a incrível coincidência de o jornal espanhol "El País" ter dedicado ao tema, no mesmo dia em que saiu a coluna, duas páginas inteirinhas. Conta inclusive que a rainha da Inglaterra fez uma visita solene à mitológica London School of Economics. Depois do protocolo de praxe, sacou da algibeira a seguinte pergunta: "Por que ninguém foi capaz de antecipar o que desabou sobre nós?".

Pois é, rainha, fico feliz de ter sua nobre companhia. "El País" foi bem além do que meu modesto espaço me permitia, para contar coisas do arco da velha. Como: 1 - Há um ano, pediu a 15 corretoras da Bolsa um palpite sobre o nível em que estaria a Bolsa madrilenha em dezembro. Na média dos palpites, deu 17,3 mil pontos. Na vida real, está em 9.000 pontos.

2 - Crédit Suisse, UBS, Citigroup, JPMorgan, Deutsche Bank, Goldman Sachs, BNP Paribas são mega-instituições que, em conjunto, analisam ações de 10 mil companhias.

Em junho (detalhe: um ano depois de eclodida a crise das subprimes), só 13% de seus conselhos eram para vender ações (a propósito, você reviu os conselhos do economista-chefe de seu banco?).

3 - Saindo do setor privado, o FMI dizia, em janeiro de 2007, que os Estados Unidos cresceriam 3% em 2008. Agora, a nova previsão é de magro 1,4%, a metade, portanto. Repito: jogadores de búzios fariam melhor. E mais barato.

crossi@uol.com.br


VONTADE DE PAGAR MICO

Eu nunca fui muito certo. Tem épocas em que entro num surto manso. Fico com uma vontade danada de pagar mico. Conto até 10 mil para escapar. Não consigo. Sou fraco. Caio em tentação.

É uma espécie de comichão frenética que me obriga a dizer coisas comprometedoras. Nada que ofenda o mundo. Mas coisas que podem comprometer a minha dignidade ou o meu senso de pudor e de recato.

Trocando em miúdos, sou acossado por um desespero incontrolável de fazer promessas capazes de me levarem ao ridículo absoluto. Neste momento, não consigo controlar a minha vontade de prometer o seguinte: saio pelado na rua se José Fogaça vetar a lei dos espigões aprovada pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Acho que eu sempre quis sair nu pela rua e estou arranjando pretexto.

O Executivo municipal tem pressa na votação pela Câmara de Vereadores dos projetos envolvendo a construção da arena do Grêmio e a reforma do Beira-Rio. Sem isso, o sonho de receber jogos da Copa do Mundo em Porto Alegre vai para escanteio. A Fifa, que manda no universo, fixou prazo para ter as suas exigências atendidas.

Os nossos excelentíssimos edis sabem disso e estão fazendo corpo mole. Só querem votar depois que a pendenga do Pontal do Estaleiro estiver resolvida. No popular, estão fazendo 'pressão'. Ou o prefeito José Fogaça sanciona logo a lei do Pontal, ou não tem Copa do Mundo.

O recado vale também para o Ministério Público Estadual. Se o MPE não largar o pé dos vereadores que aprovaram a construção de espigões residenciais na beira do Guaíba, exclusivamente por terem espírito progressista, ninguém vai chutar bola colorida em 2014, nestas plagas, na programação oficial da Fifa.

É pegar ou largar. Os vereadores garantem que não há clima para votação desse tipo de matéria no momento. Ainda mais que o Conselho Municipal de Meio Ambiente aprovou, por 11 votos a 5, moção aconselhando o prefeito Fogaça a vetar a lei do Pontal das janelinhas. O Comam entende que houve vício de iniciativa.

Esse tipo de proposta de lei só poderia partir do Executivo, nunca, como ocorreu, dos vereadores. O Comam vê também 'incompatibilidade do regime urbanístico proposto com a orla, que é considerada Área de Interesse Cultural e Área de Preservação Permanente'.

Andaram espalhando que o Comam apoiava o projeto. Não sei se a clareza é o forte nisso tudo, mesmo se uma das empresas por trás do projeto do Pontal do Estaleiro atua num ramo novíssimo pautado pela transparência. Talvez haja alguma confusão entre transparência e opacidade. Salvo se for aquele fenômeno interessante: clareza em excesso não deixa ver nada.

Não tem mais jeito. Sinto que vou fazer bobagem. É o meu destino. Está no meu DNA. Quero pagar mico. É irresistível. Repito e assino: saio pelado na rua se esta equação – Copa do Mundo = sanção do projeto Pontal – não der imediatamente os seus frutos.

Que jogadinha ensaiada! Um quer, o outro precisa. Um restinho de racionalidade e discrição me vem do fundo da alma insana. Saio peladinho da silva se Fogaça vetar a lei dos espigões.

Saio pelado mesmo, elegante, esbelto e solene como um porta-bandeiras num Sete de Setembro. Mas não digo em que rua nem a que horas. Nem por quanto tempo.

Nunca é demais proteger a retaguarda. Afinal, há sempre o perigo de um pontal ou de alguns espigões à beira do rio.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite o dia - Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana
CARA A CARA COM GABI

A jornalista, atriz e escritora MARÍLIA GABRIELA (foto acima) estará em Porto Alegre na próxima segunda-feira lançando Eu que Amo Tanto, livro que reúne confissões de 13 mulheres que a apresentadora de TV conheceu em uma reunião do grupo de apoio MADA (Mulheres que Amam Demais) e depois entrevistou em casa.

Gabi também participa também no dia 8 do talk-show Conversa no Praia Especial, no Praia de Belas Shopping, quando será entrevistada pelo jornalista Tulio Milman. O papo rola das 19h às 20h, na sala 3 do GNC Cinemas – depois, a autora fará uma sessão de autógrafos na Saraiva MegaStore.


05 de dezembro de 2008
N° 15810 - JOSÉ PEDRO GOULART


O crediário

Baixou o Jim Jones no Saramago. Em recente sabatina promovida pela Folha, o escriba decretou que “a humanidade não merece a vida”. E justificou a sentença falando que nunca na história vivemos em paz; e que, ao contrário dos animais, que usam seus instintos de ataque somente para se alimentar, nós matamos por prazer.

Há pouco foi descoberta uma prática entre homossexuais na Califórnia chamada barebang, que é uma roleta russa sexual. E consiste em fazer sexo em grupo sem proteção, sendo que um dos praticantes, cuja identidade é desconhecida do grupo, é portador de HIV. Relatos de participantes dão conta que alguns desses portadores ao serem identificados foram ainda mais solicitados.

Não, eu não trouxe esse exemplo para contribuir com o sentenciamento do Saramago a nosso respeito. Ao contrário. Eu só lembrei disso para mostrar o tipo de flagelo psicológico a que somos submetidos na ânsia de obter prazer a qualquer custo.

Para sobreviver foi preciso aprender a domesticar impulsos. A maioria, ao contrário da rapaziada da Califórnia, se mantém sóbria, mesmo que esse sufoco nos instintos gere um tanto de tédio.

Ouvimos desde cedo que a vida é um presente. E temos que viver sob o peso disso sempre, com o presente sendo cobrado em sucessivas e infindáveis prestações – e ainda por cima vindo sem bula ou manual de explicações.

Estamos diante de tantos enigmas que mal conseguimos suportar. E ainda temos que lidar com a consciência da decrepitude e da morte no final. Mesmo assim, seguimos; inventamos a civilização, a arte, e até alguma idéia de felicidade.

Saramago, porém, levanta o dedo diz que o nosso crediário deveria ser extinto. Normalmente acusações assim, eximem o acusador.

Além disso, carregam um tom místico – ironicamente vindo de quem sempre lutou contra a idéia de um deus que nos “proporcionou” a vida. Tratar a coisa enquanto merecimento é pôr o sentimento de culpa num patamar que um sujeito como o Saramago deveria combater.

Em tempo: o planeta tem sofrido com agressões múltiplas, inclusive já se sabe dos efeitos nocivos dos puns e arrotos das vacas junto à camada de ozônio. Mas até aqui não se tem conhecimento de que as vacas estejam se organizando no sentido de solucionar o problema.