sábado, 6 de dezembro de 2008


Diogo Mainardi

Cof, cof, cof...

"Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração"

Benjamin Steinbruch, dono da CSN, publicou na Folha de S.Paulo um artigo intitulado "Expectadores da recessão". Assim mesmo: "expectadores" com "xis". Tenho expectorado continuamente desde setembro, quando meu menorzinho me passou uma tosse. Posso não entender nada de recessão, mas me considero um especialista em matéria de expectoração.

Por isso, o artigo de Benjamin Steinbruch me fez refletir profundamente. Dá para expectorar uma recessão? Interpretei da seguinte maneira: cada pneumococo é um keynesiano em potencial, com seus estratagemas para contaminar os organismos do estado e sufocar as vias respiratórias da economia. É isso?

Se entendi direito, Benjamin Steinbruch pertence ao partido dos pneumococos keynesianos. Cito um trecho de seu artigo: "Até a semana passada, pacotes para estimular investimentos e consumo num total de 3 trilhões de dólares já haviam sido anunciados por diferentes governos.

No Brasil, o caminho é o mesmo. Uma vez que não temos por aqui nenhum problema de solidez no sistema financeiro, a tarefa é direcionar recursos a empreendedores públicos ou privados que efetivamente tenham coragem e competência para gastá-los de forma produtiva".

Cof, cof, cof. Considerando todos os recursos que, nos últimos anos, o BNDES direcionou à CSN, como os 900 milhões de reais para a Nova Transnordestina ou os 300 milhões de reais para o Porto de Sepetiba, Benjamin Steinbruch só pode ser um desses corajosos e competentes empreendedores privados que, segundo ele próprio, teriam de ser contemplados com ainda mais dinheiro público.

Pergunte ao senador petista Aloizio Mercadante o que ele pensa sobre o assunto. Aposto que ele concorda.

Achei que os keynesianos fossem mais obsoletos do que as escarradeiras dos tuberculosos, para continuar com a analogia pulmonar. Mas me enganei. Eles voltaram.

E em sua forma mais agressiva: a dos keynesianos em causa própria, como o presidente da GM, nos Estados Unidos, ou o presidente da CSN, no Brasil. Benjamin Steinbruch, o Hans Castorp da siderurgia nacional, internado em seu sanatório de verbas do BNDES – sim,

Thomas Mann, A Montanha Mágica –, conclui seu artigo recomendando que os recursos públicos "sejam realmente gastos e não fiquem debaixo dos colchões de apavorados expectadores da recessão".

Como eu sou apenas um espectador comum – um espectador com "esse" –, aconselho o governo a fazer o contrário: é melhor ficar sentado na platéia, de mãos dadas com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e assistir aos desdobramentos do espetáculo, deixando o dinheiro prudentemente debaixo do colchão.

E se um keynesiano em causa própria expectorar em sua orelha, na poltrona de trás, afaste-o imediatamente: ele é contagioso.

Lya Luft

Do horror brota a grandeza

"Na hora da tragédia, a solidariedade – que só floresce na dor – vem com força. Em algum lugar, alguém, um desconhecido que jamais iremos ver, abre os braços e diz: irmão. Essa era a palavra que, só ela, poderia nos salvar. E foi pronunciada"

Uma quadrilha de dez a quinze terroristas, meninada em torno de 20 anos, toma de assalto a lendária Bombaim, na Índia, hoje Mumbai, e sai matando a torto e a direito. Simples assim.

Com armas pesadas e moderníssimas, o bando mata sorrindo, segundo testemunhas. Entra em lugares apinhados e famosos, também na cozinha de um hotel de muitas estrelas. Um grupo de jovens chefs com animação e capricho prepara jantares para hóspedes e outros clientes.

Os meninos terroristas entram, sorriem e fuzilam todo o grupo. Saem pelo imenso hotel matando, e, depois de algumas horas (foram dias inteiros!!!), há lugares onde o assoalho é escorregadio de tanto sangue.

Até hoje não sei se tudo ficou esclarecido, pois as notícias eram vagas e confusas, e a matança dos inocentes, vasta e desordenada para quem recebia as notícias, parece que foi muito bem preparada:

havia meses a gangue assassina treinava, preparava, sondava terreno, ia se instalando nos próprios hotéis escolhidos, levando armamentos e preparando salas de comando com sofisticados recursos.

Enquanto isso, ali junto, pais de família, crianças, mulheres grávidas, simples empregados e altos funcionários, da modesta faxineira ao mais bem-posto milionário, viviam sua vidinha ou vidona, sem imaginar que sua morte espreitava com um belo sorriso num rosto de garotão.

A vida tem dessas coisas, não temos lá grande controle sobre ela, corremos muitas vezes como animais confusos para o matadouro.

Ilustração Atômica Studio

Há mais tragédias na lista do momento, como aqui ao lado, na bela, ensolarada, mágica Santa Catarina, onde meus filhos quando meninos iam surfar e eu mesma já experimentei momentos de beleza e serenidade, de pura alegria.

Agora, nesse suposto paraíso, o tsunami – relatava uma jovem vitimada pelo horror – não era água e espuma, mas lama, barro, pedras enormes, arrastando casas, árvores, corpos de gente e de bichos. Pessoas foram enterradas no quintal ou na hortinha, pois nada mais sobrava, nem um metro de terra firme.

Alguns desaparecidos jamais serão achados. Povoados não poderão ser reconstruídos, pois o terreno simplesmente sumiu. Famílias para sempre destroçadas, para todo o sempre, sem sentido, sem aviso, sem entender nada. Não há o que dizer.

Mas não é apenas isso a nossa vida: é também a revelação da grandeza humana, uma onda incessante de generosidade e compaixão.

Pessoas simples de Santa Catarina doam o essencial; acolhem em sua casa vizinhos ou desconhecidos que tudo perderam e, em boa parte, jamais vão recuperar. Gente modesta do país inteiro se mobiliza e as estradas (muitas nem existem mais) seriam insuficientes para esse tráfego de humanidade.

Empregadas domésticas dão um de seus três pares de sapatos usados; crianças dão dois de seus cinco brinquedos; famílias doam um colchão e dormem apertadas; gente manda uma lata de leite em pó e bota mais água na caneca de seus filhos.

Isso tem de valer mais do que todo o frio horror da natureza, descontrolada em parte pela nossa irresponsabilidade, ganância e despreparo, e pela fatalidade que nos ronda.

Tem de valer mais do que a perversão dos terroristas que mataram sorrindo, mais até do que a desgraça de milhares de pessoas que nada tinham a ver com isso, aqui e no outro lado do mundo: o rabino idealista com sua mulher, os garçons e camareiras, os casais em lua-de-mel, os velhos em sua primeira viagem juntos, os empresários ocupados e os funcionários esforçados, os agricultores e professoras, os namorados, as grávidas, os bebezinhos.

Na hora da tragédia, aqui e lá, a solidariedade – que só floresce na dor – vem com força. Estamos na sombra, estamos no abismo, doentes, sofridos, perdidos, órfãos e enlutados, sem ter nem para onde voltar – mas, em algum lugar, alguém, um desconhecido que jamais iremos ver, ou o vizinho próximo, no fim desse horrendo túnel, abre os braços e diz: irmão.

Essa era a palavra que, só ela, poderia nos salvar. E foi pronunciada.

Lya Luft é escritora


Guerra das bonecas

Barbie leva a melhor e Bratz podem sumir após Natal

Decisão da justiça americana ordena que MGA pare de produzir e comercializar as bonecas Bratz, que já renderam US$ 3,1 bilhões desde seu lançamento em 2001

As bonecas Bratz correm o risco de ser banidas das lojas de brinquedos dos Estados Unidos, depois que um tribunal de justiça federal americano proibiu esta semana a MGA Entertainment de fabricar a rival da Barbie. A decisão foi divulgada somente nesta sexta-feira (5/12).



A corte tomou a decisão depois que a Mattel, a maior fabricante de brinquedos do mundo e criadora da Barbie, ganhou uma causa de infração de copyright contra a MGA em agosto.

Uma juíza federal da Califórnia proibiu a MGA de vender e produzir todos os 40 modelos de bonecas multi-étnicas que fazem parte da linha Bratz.

Mas deu prazo à MGA para retirar suas bonecas de todas as lojas logo depois do Natal.

No processo, que se arrastou por meses, o designer Carter Bryant foi considerado culpado por ter desenvolvido a boneca Bratz para a MGA, enquanto ainda trabalhava para a Mattel.

A MGA já apelou, alegando que isso afetará muito a empresa, já que a Bratz é o brinquedo mais vendido da companhia. Em junho, as vendas da Bratz atingiram US$ 3,1 bilhões nos EUA desde o lançamento em 2001. As vendas da Barbie, ainda o brinquedo mais popular da América, caíram 15% em 2007.

A Mattel acha que a rival MGA não deveria lucrar em cima da desonestidade. A empresa já ganhou indenização de US$ 100 milhões em agosto, por conta da quebra de direitos de copyright e mais US$ 90 milhões por quebra de contrato. Se a MGA não conseguir recorrer a tempo, a Mattel pode usar a decisão como base para tirar as Bratz das prateleiras de todas as lojas do mundo.

A marca Bratz tem sido responsável pela queda nas vendas da Barbie desde seu lançamento em 2001. De acordo com números não oficiais, as bonecas Bratz respondem por 40% do mercado total de bonecas nos EUA.

Em 2005, as vendas globais dos produtos Bratz alcançaram US$ 2 bilhões.

Ídolos & Heróis – E da reportagem de capa da Época deste fim de semana escolhemos a Claudia aí abaixo dentre os brasileiros destaques de 2008

Claudia Leitte

Claudia Leitte é um clássico da miscigenação brasileira. Meio carioca e meio baiana, é uma pessoa do mundo.

Tem o maior suingue negro-afro, canta com percussão de forma única. Ao mesmo tempo, tem aquele rostinho de mulher da Baixa Escandinávia. Só o Brasil consegue produzir alguém como Claudia Leitte.

Ela é a prova de que o preconceito não pegou na música brasileira. Claudia expõe a cultura da Bahia de forma elegante e contemporânea.

Afirma para o Brasil que a música do país é a melhor para ser ouvida no mundo inteiro. Além de tudo, é corajosa: é muito difícil, com sua ascensão atual, conceber uma criança. Claudia é um orgulho para a Bahia. Feliz tudo para Claudia!

Carlinhos Brown, cantor e compositor


06 de dezembro de 2008
N° 15811 - PAULO SANT’ANA


Assassínio sob encomenda

A cidade ficou chocada ontem com o brutal assassinato do médico oftalmologista Marco Antonio Becker, dirigente do Conselho Regional de Medicina.

A exemplo do que aconteceu dias atrás com aquele advogado e engenheiro que caiu sob as balas de dois motoqueiros na Rua Felipe Neri, tudo indica que se trata de um assassinato sob encomenda.

O assassinato sob encomenda é perverso para a vítima. Porque ela conhece a face do seu desafeto, mas é assassinada por pessoas que não conhece.

A vítima jaz indefesa no assassinato sob encomenda, uma nova modalidade que parece ingressar no nosso meio social.

Foi tal a demonstração de poder dos sicários que assassinaram o Dr. Becker anteontem na Rua Ramiro Barcelos, que eles tiveram o cuidado de ordenar a um zelador de carros que se afastasse do local para agirem livremente.

E desferiram cinco tiros sobre o vidro do carro do Dr. Becker, atingindo-o mortalmente no rosto e no tórax.

Um serviço perfeito e despreocupado com a movimentação do trânsito de pessoas e de carros, um lugar escolhido a dedo, com a Avenida Farrapos oferecida generosamente à fuga dos assassinos, que usaram novamente de uma moto, veículo ideal, pela sua mobilidade, aos homicídios.

Os criadores e defensores do Estatuto do Desarmamento podem agora se debruçar meditativamente sobre sua obra.

São tais as dificuldades criadas para os cidadãos portarem uma arma, que eles se vêem obrigados a andar desarmados, enquanto os ladrões, os bandidos e assassinos portam as armas que bem quiserem.

É uma luta desigual, ainda mais desparelha se torna sob a vigência dessa criminalidade desenfreada.

Planejou-se juridicamente que as vítimas têm de estar desarmadas. E o Estado se mostra impotente para desarmar os bandidos.

É o ambiente ideal para os predadores, nada mais fácil para os que cometem os crimes do que encontrar as vítimas desarmadas.

O Estatuto do Desarmamento é o código das relações entre predadores e presas.

Às presas é impedido portar armas. Aos assassinos torna-se fácil e na maioria das vezes gratuito portar os armamentos mais sofisticados.

Está montado o cenário perfeito para o holocausto.

Só a dois tipos de pessoas é permitido andar armado: os policiais e os bandidos.

Como a estrutura financeira do Estado ruiu, há muito poucos policiais pelas ruas. Evidentemente que a essa realidade tinha de ser adaptada uma outra: a licença para os cidadãos idôneos andarem armados.

Não pode. A regra é eles serem cada vez mais abatidos sem portar armas.

Por isso nunca foi tão fácil matar: os assassinos zombam das penas e sabem que sua ação nas ruas é equiparada à dos leopardos na savana repleta de antílopes. É atacar e matar, basta apenas escolher quem será abatido.

Anteontem o bravo e bem-humorado dirigente sindical, Dr. Marco Antonio Becker, foi o antílope escolhido.


06 de dezembro de 2008
N° 15811 - NILSON SOUZA

Por que corremos?

Não gosto de dezembro. Sei que é um mês igual aos outros, tem chuva e sol, tem dias iluminados e sombrios, tem noites escuras e estreladas. Esta semana, inclusive, fomos contemplados por uma magnífica conjugação da Lua com Júpiter e Vênus, formando um desenho inesperado e lindo no céu do Rio Grande.

Minha bronca, portanto, não é com a natureza deste mês que foi colocado no final do calendário por pura convenção.

O problema são as pessoas. Elas enlouquecem no último mês do ano. Correm como se o mundo – e não o ano – fosse acabar. Ficam nervosas, brigam no trânsito, empurram-se nas lojas, compram o que não precisam, cometem excessos, bebem demais e raciocinam de menos.

Os habitantes de dezembro são uns trogloditas.

Melhor dizendo, são demasiado civilizados. Outro dia li um texto sobre nossos ancestrais pré-históricos e concluí que eles eram bem mais parceiros e solidários do que o homem moderno.

Até por necessidade, para se proteger dos perigos daqueles tempos primitivos, para enfrentar animais ferozes e o medo do desconhecido, formavam grupos, ajudavam-se mutuamente. Embora dependessem da força física para sobreviver, aprenderam a ser criativos e habilidosos.

Basta imaginar, por exemplo, o primeiro homem que dominou a arte de fazer fogo, debruçado sobre um montinho de palha, assoprando levemente para que a faísca resultante do atrito das pedrinhas virasse a chama que ele, orgulhosamente, transformaria em fogueira para aquecer a tribo.

Quem teria paciência para uma proeza dessas neste mundo de tecnologia, urgência e competição?

Já ouvi dizer que as pessoas correm desta maneira no período de festas na ilusão de alcançar uma miragem fugidia chamada felicidade. Por isso, forçam confraternizações, tentam participar de todas as baladas, obrigam-se a trocar presentes e votos de sucesso. A maioria, porém, alcança apenas a frustração.

Talvez pela singela razão de que a verdadeira felicidade é feita de tênues momentos de paz, de breves instantes de ternura familiar, de pequenas gentilezas entre amigos. Na inevitável escaramuça de dezembro, quase não nos sobra tempo para a simplicidade.

O consolo é que o mês da ansiedade passa como um trem de alta velocidade. Querendo ou não, somos todos passageiros. E a alternativa que nos resta, como ensinou Mario Quintana, é seguir em frente, jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Aproveite o sábado - Um excelente fim de semana com muito sol aí dentro de você e lá fora.


MAIS UMA DE PALOMAS

Apesar da crise americana com reflexos mundiais, Palomas está cada vez mais neoliberal e sem porteira. É incrível o que acontece por lá. Vive-se o crepúsculo da elegância, mesmo que a indumentária esteja sempre cuidada como se fosse para baile, missa, batizado ou carreira.

Tem cada índio saindo da bainha mais lustroso do que bota de defunto e cada prenda mais enfeitada que árvore de Natal de casa de estancieiro. Povoado de fronteira, contudo, vila sem limites. Ainda bem que o restante do país está imune ao vírus que tomou conta de Palomas. Imagino que seja difícil entender o que estou dizendo.

Em Palomas, lugar de extrema beleza natural e de gente afável no trato, embora rápida no gatilho, há muita corrupção entre políticos, clientelismo, falta de transparência e, mais do que tudo, arrogância nos setores que deveriam dar exemplos de racionalidade e ponderação. Algumas pessoas e grupos se imaginam donos do pedaço.

Eu, que sou palomense de quatro costados, especialmente o da costela, não consigo, certos dias, acreditar no que vejo, ouço e, principalmente, leio. A baixaria pode ir muito longe, ao fundo de poço artesiano. Como dizia meu avô, um filósofo do pampa, a moral em Palomas cresce feito cola de cavalo. Para baixo. Há quem apare. Aí fica rabão.

Nesta semana, li no jornal oficial da Rede Baita Sol, conhecido por seu bairrismo radical e por adorar celebridades efêmeras, uma nota que me fez corar de vergonha. A Rede Baita Sol só vê o próprio umbigo. Se acontece uma tsunami nos confins do planeta e morrem milhares de pessoas, a Rede Baita Sol titula sem hesitação: Palomense escapa por pouco da tragédia.

A nota que me fez ficar mais rubro do que com a vitória do Inter na Sul-Americana era mesquinha.

O veículo menosprezava a campanha beneficente da concorrência em favor das vítimas das chuvas em Santa Catarina. Insinuava não existir controle externo das doações recebidas em dinheiro. Isso por ter o Ministério Público de São Paulo se recusado a fiscalizar o processo por não considerar a tarefa uma atribuição sua. Imediatamente, então, foi contratada uma auditoria privada.

A maledicência, contudo, prosperou. Afinal de contas, a Rede Baita Sol começara atrasada a cobertura da catástrofe natural de Santa Catarina e, acima de tudo, não se empenhara desde o princípio numa campanha para ajudar os flagelados.

É incrível como só em Palomas pode acontecer esse tipo de golpe baixo. A Rede Baita Sol sempre entendeu que o astro-rei era sua propriedade. Até aí nenhuma novidade. O novo consiste em achar que até as piores tempestades devem trazer-lhe alguns benefícios.

Uma leitura apressada poderia levar a pensar que se trata de inveja. Xará engano!, como gostava de dizer seu Ledo, poeta palomense afeito a um trocadalho do carilho em meio a um jogo de truco (no qual jamais cantava 'flor', mas somente 'sua formosa irmã'). Pois inveja não pode ser.

A Rede Baita Sol julga-se tão acima de tudo, tão desinteressada, tão soberana, tão impoluta e legal que jamais sentiria inveja. Ou não confessaria. Nesse caso, só resta uma possibilidade: extrema preocupação com o bafo na nuca dado pela concorrência.

Seria melhor – como também dizia seu Ledo, mais conhecido como Seu Engano, pois os demais palomenses também adoram 'trucodilhar' e fazer prosa –, enfim, seria melhor não misturar malhos com bugalhos. Cheira e paga mal.

juremir@correiodopovo.com.br


06 de dezembro de 2008
N° 15811 - CLÁUDIA LAITANO


Ignorância seletiva

Uma das retrospectivas mais interessantes divulgadas nesta época do ano é organizada pelos editores do dicionário Webster’s New World.

Enquanto a maioria das publicações trata de revisar o ano que passou relembrando as personalidades e os fatos que foram manchete, a equipe do Webster’s sai à cata das palavras que entraram no vocabulário dos americanos nos últimos meses – rastreando jornais, revistas, sites e programas de rádio e TV.

Como o universo de informação que abastece o Webster’s é mais ou menos o mesmo em boa parte da fatia bem alimentada do planeta, a palavra do ano funciona, mesmo quando traduzida para outros idiomas, como uma boa sinalização dos assuntos mais comentados da temporada – além de registrar aquilo que os alemães batizaram de “zeitgeist”, o espírito do tempo, que nada mais é do que o repertório de idéias e interesses que boa parte de nós, os alimentados, compartilha.

Em 2008, não foi diferente: cada uma das cinco expressões selecionadas pelo Webster’s para disputar a vaga de palavra do ano revela um pouco da nossa época e de suas idiossincrasias. Você pode nunca ter lido ou ouvido a palavra “overshare” (algo como “superexpor-se”), por exemplo, mas com certeza sabe o que isso significa.

O termo, que acabou sendo o mais votado pelos internautas, refere-se a duas maneiras diferentes de levar a intimidade a público: através de sites de relacionamento, blogs e fotologs que acompanham cada suspiro de cada dia da vida de um número cada vez maior de pessoas ou, no caso das celebridades, através de entrevistas que revelam tudo o que você nunca quis saber sobre uma pessoa que não faz parte das suas relações.

A palavra número 2 , “cyberchondriac” (algo como “hiponcondríaco virtual”), flagra outra esquisitice contemporânea.

O cybercondríaco é aquele sujeito que entra em pânico com os sintomas imaginários de doenças que ele descobriu na internet – fazendo aquele cursinho rápido de medicina aplicada e farmacologia que o Google oferece gratuitamente para qualquer um com curiosidade e coragem suficientes.

O mal-estar na palavra número 3, “leisure sickness” (doença do lazer), pode ser igualmente imaginário, mas ataca apenas quem está de folga ou de férias – vai entender. Já a palavra número 4, “youthanasia”, leva a maluquice a níveis ainda mais surpreendentes:

trata-se do termo cunhado para designar uma bateria de procedimentos antiidade realizados, todos ao mesmo tempo, em pacientes obcecados pela idéia de retardar os efeitos visíveis do tempo.

A minha favorita nesta listinha de cinco palavras que resumem 2008 merece um parágrafo só para ela. “Selective ignorance” (ignorância seletiva) é a prática de deliberadamente ignorar informações desnecessárias ou irrelevantes recebidas por e-mail ou outro meio de comunicação qualquer.

“Ignorar seletivamente”, além de aliviar o peso da nossa caixa postal mental, é aprender a identificar, em meio a um turbilhão de notícias, fofocas, mensagens, torpedos, correntes, boatos... , aquelas informações que realmente merecem o melhor de nós e da nossa atenção.

Em uma época em que a informação se tornou tão onipresente e, às vezes, até massacrante, o verdadeiro conhecimento depende, cada vez mais, não apenas do que a gente se dedica a aprender, mas também do que a gente escolhe ignorar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008



Socuerro! A Vale não vale mais!

Agora eu quero me estressar! E sabe o que os desempregados da Vale gritaram? "VALEU"!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Cansei de descansar. Agora eu quero me estressar: governo reconhece aumento de desemprego em 2009! Então demite os que calculam o desemprego!

E eu já disse que o único brasileiro que tem emprego garantido até dezembro de 2010 é o piloto do Aerolula! Aliás, sabe como vai ser reconhecida a era Lula? ERA DOSE! Rarará!

E a Vale? Não vale mais! E sabe o que os desempregados da Vale gritaram? "VALEU"! E os peitos da Ana Maria Braga? Ela tá parecendo um anão de jardim segurando duas melancias! Rarará!

E essa lei do call center, que eles têm que atender em um minuto? As operadoras de celular estão dando exemplo de rapidez. Você liga: "Quero cancelar a assinatura!". "NÃO!"

Perfeito! Menos de um minuto. "Quero mudar meu plano." "NÃO!" Menos de 30 segundos! E aí você liga pra qualquer call center e a ligação cai. Em menos de 30 segundos.

E um amigo me contou que tiraram o cafezinho das lojas da Vivo. É que um cliente jogou cafezinho na atendente. Em vez de melhorar os serviços, tiraram o cafezinho. Rarará! Cansei de descansar. Eu quero me estressar!

E um amigo meu vai dar um trote nos call centers. "Alô, é do call center? Peraí, um minutinho." Rarará!

Eu vou abrir um COW CENTER. Você liga e uma mulher fica mugindo do outro lado. Rarará!

Alerta da crise! Atenção! Devido a quebra de bancos, queda das bolsas e cortes nos orçamentos informamos que a famosa luz no fim do túnel está temporariamente desligada! E a crise tá tão braba que um amigo meu que tem loja no shopping só conseguiu contratar um Papai Noel magro, fumante e com a cara do Serra.

E adorei a charge do Ivan do "Diário de Natal" com o Papai Noel: "Recebo cada pedido esquisito.

Tem um tal de Daniel Dantas querendo ganhar um juiz". Eu acrescentaria: MAIS um juiz. Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! NADA! Rarará.
Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". É que em Ourinhos tem um centro comercial chamado Centro Comercial MATACHANA!

E não é o primeiro centro comercial do planeta que mulher não gosta. Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Transexual": transporte pro povo GLS! Rarará. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza.

simao@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Socuerro! A Vale não vale mais!

SÃO PAULO - Recebi uma surpreendente chuva de e-mails a propósito da coluna de ontem, em que defendi regras básicas e mais rígidas para que a Folha aceite palpites de economistas.

Surpreendente primeiro pela quantidade. Temas econômicos mobilizam menos o leitor. Surpreendente também por ter sido a primeira vez na vida em que todos os bilhetes eram favoráveis -até de uma economista (Maria do Rosário Peixoto, do Rio de Janeiro).

Mas o que me leva a voltar ao assunto é a incrível coincidência de o jornal espanhol "El País" ter dedicado ao tema, no mesmo dia em que saiu a coluna, duas páginas inteirinhas. Conta inclusive que a rainha da Inglaterra fez uma visita solene à mitológica London School of Economics. Depois do protocolo de praxe, sacou da algibeira a seguinte pergunta: "Por que ninguém foi capaz de antecipar o que desabou sobre nós?".

Pois é, rainha, fico feliz de ter sua nobre companhia. "El País" foi bem além do que meu modesto espaço me permitia, para contar coisas do arco da velha. Como: 1 - Há um ano, pediu a 15 corretoras da Bolsa um palpite sobre o nível em que estaria a Bolsa madrilenha em dezembro. Na média dos palpites, deu 17,3 mil pontos. Na vida real, está em 9.000 pontos.

2 - Crédit Suisse, UBS, Citigroup, JPMorgan, Deutsche Bank, Goldman Sachs, BNP Paribas são mega-instituições que, em conjunto, analisam ações de 10 mil companhias.

Em junho (detalhe: um ano depois de eclodida a crise das subprimes), só 13% de seus conselhos eram para vender ações (a propósito, você reviu os conselhos do economista-chefe de seu banco?).

3 - Saindo do setor privado, o FMI dizia, em janeiro de 2007, que os Estados Unidos cresceriam 3% em 2008. Agora, a nova previsão é de magro 1,4%, a metade, portanto. Repito: jogadores de búzios fariam melhor. E mais barato.

crossi@uol.com.br


VONTADE DE PAGAR MICO

Eu nunca fui muito certo. Tem épocas em que entro num surto manso. Fico com uma vontade danada de pagar mico. Conto até 10 mil para escapar. Não consigo. Sou fraco. Caio em tentação.

É uma espécie de comichão frenética que me obriga a dizer coisas comprometedoras. Nada que ofenda o mundo. Mas coisas que podem comprometer a minha dignidade ou o meu senso de pudor e de recato.

Trocando em miúdos, sou acossado por um desespero incontrolável de fazer promessas capazes de me levarem ao ridículo absoluto. Neste momento, não consigo controlar a minha vontade de prometer o seguinte: saio pelado na rua se José Fogaça vetar a lei dos espigões aprovada pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Acho que eu sempre quis sair nu pela rua e estou arranjando pretexto.

O Executivo municipal tem pressa na votação pela Câmara de Vereadores dos projetos envolvendo a construção da arena do Grêmio e a reforma do Beira-Rio. Sem isso, o sonho de receber jogos da Copa do Mundo em Porto Alegre vai para escanteio. A Fifa, que manda no universo, fixou prazo para ter as suas exigências atendidas.

Os nossos excelentíssimos edis sabem disso e estão fazendo corpo mole. Só querem votar depois que a pendenga do Pontal do Estaleiro estiver resolvida. No popular, estão fazendo 'pressão'. Ou o prefeito José Fogaça sanciona logo a lei do Pontal, ou não tem Copa do Mundo.

O recado vale também para o Ministério Público Estadual. Se o MPE não largar o pé dos vereadores que aprovaram a construção de espigões residenciais na beira do Guaíba, exclusivamente por terem espírito progressista, ninguém vai chutar bola colorida em 2014, nestas plagas, na programação oficial da Fifa.

É pegar ou largar. Os vereadores garantem que não há clima para votação desse tipo de matéria no momento. Ainda mais que o Conselho Municipal de Meio Ambiente aprovou, por 11 votos a 5, moção aconselhando o prefeito Fogaça a vetar a lei do Pontal das janelinhas. O Comam entende que houve vício de iniciativa.

Esse tipo de proposta de lei só poderia partir do Executivo, nunca, como ocorreu, dos vereadores. O Comam vê também 'incompatibilidade do regime urbanístico proposto com a orla, que é considerada Área de Interesse Cultural e Área de Preservação Permanente'.

Andaram espalhando que o Comam apoiava o projeto. Não sei se a clareza é o forte nisso tudo, mesmo se uma das empresas por trás do projeto do Pontal do Estaleiro atua num ramo novíssimo pautado pela transparência. Talvez haja alguma confusão entre transparência e opacidade. Salvo se for aquele fenômeno interessante: clareza em excesso não deixa ver nada.

Não tem mais jeito. Sinto que vou fazer bobagem. É o meu destino. Está no meu DNA. Quero pagar mico. É irresistível. Repito e assino: saio pelado na rua se esta equação – Copa do Mundo = sanção do projeto Pontal – não der imediatamente os seus frutos.

Que jogadinha ensaiada! Um quer, o outro precisa. Um restinho de racionalidade e discrição me vem do fundo da alma insana. Saio peladinho da silva se Fogaça vetar a lei dos espigões.

Saio pelado mesmo, elegante, esbelto e solene como um porta-bandeiras num Sete de Setembro. Mas não digo em que rua nem a que horas. Nem por quanto tempo.

Nunca é demais proteger a retaguarda. Afinal, há sempre o perigo de um pontal ou de alguns espigões à beira do rio.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite o dia - Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana
CARA A CARA COM GABI

A jornalista, atriz e escritora MARÍLIA GABRIELA (foto acima) estará em Porto Alegre na próxima segunda-feira lançando Eu que Amo Tanto, livro que reúne confissões de 13 mulheres que a apresentadora de TV conheceu em uma reunião do grupo de apoio MADA (Mulheres que Amam Demais) e depois entrevistou em casa.

Gabi também participa também no dia 8 do talk-show Conversa no Praia Especial, no Praia de Belas Shopping, quando será entrevistada pelo jornalista Tulio Milman. O papo rola das 19h às 20h, na sala 3 do GNC Cinemas – depois, a autora fará uma sessão de autógrafos na Saraiva MegaStore.


05 de dezembro de 2008
N° 15810 - JOSÉ PEDRO GOULART


O crediário

Baixou o Jim Jones no Saramago. Em recente sabatina promovida pela Folha, o escriba decretou que “a humanidade não merece a vida”. E justificou a sentença falando que nunca na história vivemos em paz; e que, ao contrário dos animais, que usam seus instintos de ataque somente para se alimentar, nós matamos por prazer.

Há pouco foi descoberta uma prática entre homossexuais na Califórnia chamada barebang, que é uma roleta russa sexual. E consiste em fazer sexo em grupo sem proteção, sendo que um dos praticantes, cuja identidade é desconhecida do grupo, é portador de HIV. Relatos de participantes dão conta que alguns desses portadores ao serem identificados foram ainda mais solicitados.

Não, eu não trouxe esse exemplo para contribuir com o sentenciamento do Saramago a nosso respeito. Ao contrário. Eu só lembrei disso para mostrar o tipo de flagelo psicológico a que somos submetidos na ânsia de obter prazer a qualquer custo.

Para sobreviver foi preciso aprender a domesticar impulsos. A maioria, ao contrário da rapaziada da Califórnia, se mantém sóbria, mesmo que esse sufoco nos instintos gere um tanto de tédio.

Ouvimos desde cedo que a vida é um presente. E temos que viver sob o peso disso sempre, com o presente sendo cobrado em sucessivas e infindáveis prestações – e ainda por cima vindo sem bula ou manual de explicações.

Estamos diante de tantos enigmas que mal conseguimos suportar. E ainda temos que lidar com a consciência da decrepitude e da morte no final. Mesmo assim, seguimos; inventamos a civilização, a arte, e até alguma idéia de felicidade.

Saramago, porém, levanta o dedo diz que o nosso crediário deveria ser extinto. Normalmente acusações assim, eximem o acusador.

Além disso, carregam um tom místico – ironicamente vindo de quem sempre lutou contra a idéia de um deus que nos “proporcionou” a vida. Tratar a coisa enquanto merecimento é pôr o sentimento de culpa num patamar que um sujeito como o Saramago deveria combater.

Em tempo: o planeta tem sofrido com agressões múltiplas, inclusive já se sabe dos efeitos nocivos dos puns e arrotos das vacas junto à camada de ozônio. Mas até aqui não se tem conhecimento de que as vacas estejam se organizando no sentido de solucionar o problema.


05 de dezembro de 2008
N° 15810 - PAULO SANT’ANA


Pressa suspeita

Nesta encrenca dos pedágios, o que não entendo é a pressa em aprovar a prorrogação das concessões, quando elas serão estendidas por mais 15 anos.

Para longos 15 anos de prorrogação, toque de caixa na aprovação. Por que a pressa? Ainda mais que só em 2013 vencerá o atual contrato?

Até agora, ninguém me explicou o mistério dessa pressa. Como alguém já disse, isso cheira mal.

Outra coisa: é fato notório que a cobrança de pedágios no Rio Grande do Sul é amaldiçoada, protestos chovem de todos os lados pelos preços das taxas exigidas.

Paira no ar sempre por parte do usuário uma sensação de que está sendo escorchado.

Não deveria ser assim. O certo é que as pessoas pagassem a taxa de pedágio com o prazer de que estavam sendo objetos de um serviço útil e adequado, que lhes estava livrando de uma estrada esburacada, sem sinalização e com outros defeitos.

Mas, não, as pessoas passam pelas cancelas com sentimento de revolta, achando que estão sendo exploradas e pagando um preço extorsivo.

Isto tem de mudar. Os preços têm de se tornar razoáveis. De forma a que as pessoas se sintam satisfeitas com a cobrança. Convictas de que o serviço é útil e o preço sensato.

É neste exato momento de insatisfação quase geral por parte de quem paga pedágio que o povo é chamado a renovar os contratos de concessão, representado pelos deputados estaduais.

É visível que a outra ponta do contrato, as concessionárias, deseja a prorrogação.

No mínimo, os usuários têm dúvidas quanto ao mérito dessa prorrogação. Temem ficar por mais 15 anos reféns dos concessionários, que cobram preços altos sem darem satisfação sobre seus serviços e sem prestação de contas satisfatória sobre o negócio.

Não poderia ter dúvida nenhuma. Os deputados estaduais tinham de autorizar a prorrogação dos contratos com a concordância cordial dos usuários das estradas pedagiadas.

Mas o que se vê é o açodamento e até uma atitude deplorável das forças governistas, que manifestam pressa em aprovar a prorrogação, sob a alegação de que, se o projeto for demoradamente analisado, acabará sendo desaprovado.

Quer dizer, então, que só com pressa, como enterro de pobre, pode-se chegar à aprovação?

Quer dizer que tem de ser agora ou nunca? Pois o povo gaúcho rejeita essa aprovação afobada.

Tem coelho neste mato. Ainda faltam cinco anos para vencer o contrato e o governo, sem explicar os motivos de tamanha pressa, mudo, silencioso, como um assaltante atrás da árvore armado de arcabuz, quer arrancar do Legislativo, onde tem maioria suspeita, a prorrogação.

Não pode ser assim. Esse contrato de prorrogação só pode ser aprovado se o povo gaúcho estiver bem ciente dos seus termos, da honestidade e equilíbrio social dos seus propósitos.

Não se pode prorrogar uma charada.

E repito: só se pode prorrogar um contato em que os usuários se sintam bem ao pagar as taxas de pedágio, sem a náusea das vítimas, sem a revolta dos espoliados.

Não pode ser celebrada uma prorrogação em que o povo reste com ódio das concessionárias e dos deputados que votarem a favor.


05 de dezembro de 2008
N° 15810 - DAVID COIMBRA


A voz de uma mãe do outro lado da linha

Quarta-feira passada eu estava na Feira do Livro de Osório e alguém me perguntou:

– O que mudou na tua vida com o nascimento do teu filho?

Tenho ouvido muito essa pergunta. É algo que desperta a curiosidade das pessoas, já percebi. Respondo sempre que minha rotina não mudou tanto.

A mudança foi mais sutil, e também mais profunda. Descobri em mim um sentimento que não tinha. Ou que achava que não tinha – o tal amor incondicional dos pais. É um sentimento que dispensa retribuição e, exatamente por isso, torna-se uma aflição e uma angústia.

Porque a minha serenidade depende do bem-estar do outro, não da reciprocidade do outro. Afinal, a estima de alguém é muito mais fácil de conquistar e de controlar do que a felicidade de alguém.

Nesta mesma quarta-feira, minutos antes de sair da Redação rumo a Osório, recebi a ligação de uma mãe angustiada. Ana Maria Villodre, mãe de Eduardo, torcedor do Grêmio acusado de ter se envolvido na briga que terminou em tiros depois de um jogo, dias atrás. Notei o desespero da mãe logo nas suas primeiras palavras. Ela começou se desculpando pela ligação.

Dizia que nem sabia exatamente por que ligava. Talvez por ser minha leitora e por não ver mais a quem apelar. Explicou que seu filho tem 28 anos, é gerente de um banco e mora com ela e o pai em Canoas. Como tenho acompanhado meio distraidamente esse noticiário, quis saber:

– Onde está o seu filho agora? Foi quando ela desabou.

– No presídio! – gritou, aos soluços. E prosseguiu num choro convulso: – No presídio! Meu filho está no presídio! Ah, meu Deus, ele mora comigo, ele tem residência fixa, ele trabalha num banco, por que tinham de levá-lo para o presídio?

E o que estão dizendo dele nas rádios e nos jornais? O meu filho não é racista. Eu também vou ao jogo nesta torcida, o pai dele e a namorada dele também. Eles não conhecem o meu filho! Ele é meu filho! E está no presídio!

Foi como se me tivessem dado uma facada no peito. Pensei no meu filhinho, sim, mas também pensei na minha mãe, e entendi o desespero da leitora que me ligava. Senti pena daquela mãe e, se pudesse, a ajudaria. Buscaria seu filho na cadeia e o devolveria aos seus braços.

Não sei se o filho dela é culpado ou inocente, não sei se deveria ou não estar preso, nem sei quem tem razão neste caso.

Mas sei que nada disso, a briga, os tiros, as prisões, e também o tanto de crueldade que há pelas ruas da cidade, nada disso aconteceria se as pessoas pensassem no sentimento que citei acima, no imenso e incondicional amor que um pai e uma mãe sentem por seus filhos.

Porque quem quer infligir dor no outro talvez hesite ao lembrar que pode infligir dor em terceiros.

Em uma mãe ou em um pai que são como a mãe e o pai que ele próprio tem. Porque o que nos falta, e cada vez nos falta mais, é precisamente isso: de vez em quando, olhar com os olhos do outro, sentir como se fosse o outro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Ai, ai, ai! Voltei de Dubai e da Tailândia!

Trezentos mil turistas presos no aeroporto? "Nhang pra tá", relaxa e goza em tailandês!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República! Direto do país da piada pronta! Ai, ai, ai! Voltei de Dubai!

Dubai é o Salão do Automóvel de 2011! E eu estava na porta de um shopping quando uma mulher desceu de um Porsche 20022!

De burca toda bordada de pérolas e diamantes. Aí eu pensei: vou atrás dessa mulher; se ela deixar cair um diamante, eu pego, aí volto pro Brasil e compro um Porsche igual ao dela.

E aí fui pra Tailândia! Mas saí antes dos manifestantes fecharem os aeroportos! Corpo fechado! Trezentos mil turistas esperando vôo! Sabe o que eu falaria pra eles? Relaxa e goza! Rarará! E como é relaxa e goza em tailandês?

Nhang pra tá! Aí falei prum taxista em Bangcoc: "Somos do Brasil". E o taxista: "Donaldo! DONALDINHO! Cafú, Kaká. DO NALDINHO CHAMPION!"

E lá na Tailândia tem carambola, pitomba e jaca. Socuerro! Atravassei o mundo pra comer uma carambola!

E aí Camboja. Camboja, pra quem não sabe, é aquele país onde Angelina Jolie adotou um menino. É o ventre da Angelina Jolie. E uma menina bem pobre, no meio das ruínas, vendendo postal: "De onde vocês são?".

"Brasil". E a menina: "Brasil, capital Brasília". FOFA! Acho que é a única do mundo que sabe disso. Nem o Lula sabe. Vou trazer essa menina pro Brasil. Pra virar presidente. Rarará!

E, pra terminar essa redação "minhas férias", vou falar como aquela senhora baiana que rodou o mundo: "Foi tudo maravilhoso, foi tudo fantástico, MAS COMO A TERRINHA NÃO HÁ!". E aí voltei pra terrinha! Pro país da piada pronta!

"Dantas condenado a dez anos de prisão." Só se for prisão de ventre. Só se for condenado a dez minutos de prisão. E outra piada pronta: "Primo de Sadam Hussein condenado à morte pela segunda vez". Rarará!

Depois dessa, ele pode andar pela Linha Vermelha, andar com o vidro do carro aberto em São Paulo! E sabe como se chamam os irmãos do Sadam? Kuday e Foday! É verdade! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado. É que em Piracicaba tem a fábrica de urnas mortuárias CAPELETE! Deve ser uma quentinha. Mais direto, impossível!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Escotismo": ciência que estuda o scotch! Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. O já famoso Estoura Brasil!

simao@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Cadê a blindagem que estava aqui?

SÃO PAULO - Era uma vez um tempo em que o Brasil estava blindado contra a crise externa. No máximo, haveria por aqui uma "marolinha", lembra-se? Agora, já são duas as consultorias (Morgan Stanley, norte-americana, e LCA, brasileira) falando não mais em desaceleração, mas em recessão -os tais dois trimestres consecutivos de retração da economia.

Não sei se vem "marolinha" ou recessão por aí. Mas sei que foram pouquíssimos os economistas/consultorias que não falaram em blindagem.

Ou pelas formidáveis reservas, ou pelo formidável mercado interno, ou porque os emergentes salvariam o mundo, ou por qualquer outra tese que, agora, se desmancha no ar cada vez que sai um novo dado da vida real.

O que acho, honestamente, é que a Folha, para não dizer todo o jornalismo brasileiro, deveria adotar como regras pétreas de seu "Manual da Redação" os seguintes elementos: 1 - Todo economista/consultoria que errar por mais de 5% suas previsões sobre PIB, câmbio, juros etc.

fica definitivamente riscado da agenda de fontes. Nunca mais será ouvido.

Vinicius Torres Freire, esse excelente colunista, me diz que, se aplicada, a regra nos deixaria com zero fontes. Ótimo. Cometeríamos nossos próprios erros em vez de sermos cúmplices de erros alheios.

2 - Toda vez que se publicar palpite de economista/consultoria, seria obrigatório mencionar quais interesses estão em jogo, se ele tem ou recomenda aplicações no dólar ou contra o dólar, nos juros altos ou baixos, e assim por diante.

O leitor teria pelo menos um elemento para julgar se o palpite vem do cérebro do consultado ou do bolso. 3 - No fim de cada ano ou trimestre, seria publicada a lista completa de palpites dessa turma toda, ao lado dos dados da realidade, para que o leitor possa saber quem chuta bem e quem chuta mal.

crossi@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Tudo muito feio

BRASÍLIA - Em uma semana, o que era feio ficou mais feio, e o governador Cássio Cunha Lima, da Paraíba, e o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força Sindical, entraram e saíram da linha de fogo. Ilesos.

O mesmo TSE que decidiu cassar os mandatos de Cunha Lima (PSDB) e de seu vice, José Lacerda (DEM), recuou e lhes devolveu o governo paraibano, apesar da acusação de distribuição irregular de recursos de... programas sociais.

Na Câmara, o Conselho de Ética atendeu às pressões para livrar a cara do sindicalista Paulinho e jogou fora o parecer do relator, que pedia a cassação do deputado Paulo.

No fim, os dois, o Paulo e o Paulinho, são uma pessoa só, enrolada com desvio de verbas do BNDES e assombrada por cursos e alunos fantasmas que receberam verbas do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). E essa pessoa vira a cara da Câmara, do Congresso.

Só falta agora o ministro Paulo Medina, do Superior Tribunal de Justiça, sair "limpinho da Silva" da ação aberta contra ele pelo Supremo por "indícios suficientes" de envolvimento com a chamada "máfia dos caça-níqueis", que vendia sentenças judiciais para bicheiros e donos de bingos.

Para contrabalançar, o juiz Fausto De Sanctis condenou o banqueiro Daniel Dantas a dez anos de prisão, mais multa pesada, por corrupção ativa -ou, para ficar mais claro, por tentativa de subornar policiais da Operação Satiagraha que investigavam as suas estripulias. Até quando vai durar a condenação? Sabe-se lá...

A Justiça tem tantos meandros, jeitinhos e habeas corpus que é possível empurrar decisões indefinidamente com a barriga.

O caso vai subindo de uma instância para outra, e os réus, seguros de si e de seus advogados, podem sempre recorrer ao velho e bom mandato. Qualquer problema, o TSE segura, o Conselho de Ética garante. Vem aí o deputado Daniel Dantas?

elianec@uol.com.br


A VERDADEIRA ALMA

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juremir@correiodopovo.com.br

Essa é a homanagem aos colorados leitores deste blogger, com os parabéns devidos - Aproveite o dia - Tenhamos todos uma excelente quinta-feira


04 de dezembro de 2008
N° 15809 - RICARDO SILVESTRIN


Livros para as pessoas

Sérgio Vaz, poeta da periferia de São Paulo, ligou para um órgão do governo pedindo livros. Ele queria distribuir para quem fosse ao Sarau da Cooperifa, que acontece toda quarta-feira no Bar Zé Batidão, na periferia.

O funcionário de uma espécie de Instituto Estadual do Livro paulista perguntou para que Sérgio estava pedindo os cerca de 300 livros. O poeta respondeu que era para dar às pessoas. O funcionário disse que não poderiam atender ao pedido, pois só podiam dar livros para instituições, não para pessoas. Sérgio insistiu.

Após uma série de ponderações e consultas aos chefes, concederam entregar os livros, pagos com dinheiro público, para as pessoas, em vez de deixá-los nas prateleiras de um órgão da cultura.

O que as pessoas iriam fazer com os livros, chegaram a perguntar. Sérgio disse que cada um faria o que bem entendesse, desde ler a jogar fora. Isso era com elas. O importante era que o livro chegasse até suas mãos.

Essa personalidade rara, dotada de uma enorme clareza e de uma capacidade de realização como poucos, vem fazendo um importante trabalho hoje na sua região.

Fui, a convite do escritor pernambucano Marcelino Freire, participar do Sarau da Cooperifa. Num botecão de bairro lotado, 70 poetas, entre rappers, pessoas de várias idades, gente com livro, com papel escrito a caneta, todos leram para a platéia que escutava na mais absoluta concentração.

No início, Sérgio vai ao microfone e explica que, a partir daquele momento, era preciso fazer silêncio para ouvir todos que iriam se apresentar.

Após dizer o bordão “O silêncio é uma prece”, situou o evento, falando que aquilo não era um pagode, nem escola de samba, nem show de rock. Era um espetáculo de poesia. Portanto, seria chato.

Já estavam todos avisados. Depois, não adiantaria sair falando “pô, foi chato”. Já sabiam desde o princípio.

Quem quisesse ficar que ficasse. Mas teria que fazer silêncio. Quem não quisesse que fosse pra casa, pois passaria o jogo do Brasil na tevê, que é muito mais divertido.

Com essa ironia refinada e essa profunda sabedoria, Sérgio ganha a atenção e o respeito de todos. Falei dois poemas meus. Aplausos empolgados. Não deve ter sido muito chato.


04 de dezembro de 2008
N° 15809 - PAULO SANT’ANA


Pena mata um, premia outro

Nunca vou me conformar que o jogo entre o Goiás e o São Paulo vá ser disputado em Brasília no próximo domingo.

O jogo saiu da casa do Goiás, em Goiânia, foi parar em Brasília.

Por quê? Tratou-se de uma pena aplicada ao Goiás por desordens em seu estádio.

O Goiás, portanto, foi penalizado. Com uma pena.

Ora, um dos princípios basilares do Direito Penal (pena) é o de que a pena não pode exceder a pessoa do réu.

Ou seja, não se pode apenar ninguém mais num processo penal senão o autor do crime ou no máximo a quem de qualquer forma concorreu para a consumação do crime.

Uma pessoa comete um crime e não se pode condenar por ele a sua família, o seu amigo, o seu vizinho. Só o autor do crime pode ser penalizado.

O Goiás foi penalizado porque houve brigas e agressões em outro jogo no seu estádio.

Tinha de ser penalizado só o Goiás com a troca do mando de campo, do seu estádio para Brasília.

Mas, no caso, incrivelmente, para o que interessa, que é a disputa do título ou de classificação para a Libertadores ou para efeito de rebaixamento, em realidade não há nenhuma pena sobre o Goiás: ele não disputa mais nada no campeonato, o resultado do jogo não mexerá uma palha no Goiás.

Vemos, então, que o Goiás não foi penalizado em nada.

Mas o Grêmio acabou penalizado brutalmente. Porque ao tirar do Grêmio a possibilidade de ver o Goiás enfrentar o São Paulo no Serra Dourada, o tribunal esportivo prejudicou violentamente o Grêmio, desequilibrando completamente a decisão do campeonato.

Já temos, então, um Goiás que não podia sofrer pena nenhuma por nada mais ambicionar no campeonato, e o Grêmio, que foi atingido pela pena supostamente infligida ao Goiás, concretamente desfavorecido.

Além disso, a outra parte, o São Paulo, que luta pelo título contra o Grêmio, foi exemplarmente favorecido com a pena infligida ao Goiás.

Livrou-se o São Paulo de jogar na casa do Goiás, onde 90% da torcida seria a favor do dono da casa.

E enviou-se o São Paulo para jogar em Brasília, onde 90% da torcida será favorável ao São Paulo.

Que pena é esta que não pode exceder a pessoa do faltoso e que penaliza um terceiro, o Grêmio, além de beneficiar um segundo (o São Paulo)?

Que pena é esta? Que esdrúxula pena é esta que castiga um inocente, beneficia um outro que nada fez para obter a benesse e, afinal, não castiga o réu?

Que pena é esta? Pena injusta e desmoralizadora da lisura do campeonato.

O apanágio do campeonato de pontos corridos não é o de que cada time deva jogar 19 partidas em sua casa e 19 partidas fora?

Como podem aplicar pena de perda de mando de campo num campeonato de pontos corridos? Não tem sentido, porque desequilibra tecnicamente o campeonato, favorecendo alguns segundos e prejudicando outros terceiros.

Eu não me conformo com o jogo em Brasília. E não entendo por que o Grêmio desistiu de explicar isso ao tribunal para tentar desfazer essa iniqüidade, essa bárbara desigualdade, esta afronta ao equilíbrio técnico da disputa.

O campeonato fica manchado por este atentado à justiça.