sexta-feira, 5 de dezembro de 2008



05 de dezembro de 2008
N° 15810 - PAULO SANT’ANA


Pressa suspeita

Nesta encrenca dos pedágios, o que não entendo é a pressa em aprovar a prorrogação das concessões, quando elas serão estendidas por mais 15 anos.

Para longos 15 anos de prorrogação, toque de caixa na aprovação. Por que a pressa? Ainda mais que só em 2013 vencerá o atual contrato?

Até agora, ninguém me explicou o mistério dessa pressa. Como alguém já disse, isso cheira mal.

Outra coisa: é fato notório que a cobrança de pedágios no Rio Grande do Sul é amaldiçoada, protestos chovem de todos os lados pelos preços das taxas exigidas.

Paira no ar sempre por parte do usuário uma sensação de que está sendo escorchado.

Não deveria ser assim. O certo é que as pessoas pagassem a taxa de pedágio com o prazer de que estavam sendo objetos de um serviço útil e adequado, que lhes estava livrando de uma estrada esburacada, sem sinalização e com outros defeitos.

Mas, não, as pessoas passam pelas cancelas com sentimento de revolta, achando que estão sendo exploradas e pagando um preço extorsivo.

Isto tem de mudar. Os preços têm de se tornar razoáveis. De forma a que as pessoas se sintam satisfeitas com a cobrança. Convictas de que o serviço é útil e o preço sensato.

É neste exato momento de insatisfação quase geral por parte de quem paga pedágio que o povo é chamado a renovar os contratos de concessão, representado pelos deputados estaduais.

É visível que a outra ponta do contrato, as concessionárias, deseja a prorrogação.

No mínimo, os usuários têm dúvidas quanto ao mérito dessa prorrogação. Temem ficar por mais 15 anos reféns dos concessionários, que cobram preços altos sem darem satisfação sobre seus serviços e sem prestação de contas satisfatória sobre o negócio.

Não poderia ter dúvida nenhuma. Os deputados estaduais tinham de autorizar a prorrogação dos contratos com a concordância cordial dos usuários das estradas pedagiadas.

Mas o que se vê é o açodamento e até uma atitude deplorável das forças governistas, que manifestam pressa em aprovar a prorrogação, sob a alegação de que, se o projeto for demoradamente analisado, acabará sendo desaprovado.

Quer dizer, então, que só com pressa, como enterro de pobre, pode-se chegar à aprovação?

Quer dizer que tem de ser agora ou nunca? Pois o povo gaúcho rejeita essa aprovação afobada.

Tem coelho neste mato. Ainda faltam cinco anos para vencer o contrato e o governo, sem explicar os motivos de tamanha pressa, mudo, silencioso, como um assaltante atrás da árvore armado de arcabuz, quer arrancar do Legislativo, onde tem maioria suspeita, a prorrogação.

Não pode ser assim. Esse contrato de prorrogação só pode ser aprovado se o povo gaúcho estiver bem ciente dos seus termos, da honestidade e equilíbrio social dos seus propósitos.

Não se pode prorrogar uma charada.

E repito: só se pode prorrogar um contato em que os usuários se sintam bem ao pagar as taxas de pedágio, sem a náusea das vítimas, sem a revolta dos espoliados.

Não pode ser celebrada uma prorrogação em que o povo reste com ódio das concessionárias e dos deputados que votarem a favor.


05 de dezembro de 2008
N° 15810 - DAVID COIMBRA


A voz de uma mãe do outro lado da linha

Quarta-feira passada eu estava na Feira do Livro de Osório e alguém me perguntou:

– O que mudou na tua vida com o nascimento do teu filho?

Tenho ouvido muito essa pergunta. É algo que desperta a curiosidade das pessoas, já percebi. Respondo sempre que minha rotina não mudou tanto.

A mudança foi mais sutil, e também mais profunda. Descobri em mim um sentimento que não tinha. Ou que achava que não tinha – o tal amor incondicional dos pais. É um sentimento que dispensa retribuição e, exatamente por isso, torna-se uma aflição e uma angústia.

Porque a minha serenidade depende do bem-estar do outro, não da reciprocidade do outro. Afinal, a estima de alguém é muito mais fácil de conquistar e de controlar do que a felicidade de alguém.

Nesta mesma quarta-feira, minutos antes de sair da Redação rumo a Osório, recebi a ligação de uma mãe angustiada. Ana Maria Villodre, mãe de Eduardo, torcedor do Grêmio acusado de ter se envolvido na briga que terminou em tiros depois de um jogo, dias atrás. Notei o desespero da mãe logo nas suas primeiras palavras. Ela começou se desculpando pela ligação.

Dizia que nem sabia exatamente por que ligava. Talvez por ser minha leitora e por não ver mais a quem apelar. Explicou que seu filho tem 28 anos, é gerente de um banco e mora com ela e o pai em Canoas. Como tenho acompanhado meio distraidamente esse noticiário, quis saber:

– Onde está o seu filho agora? Foi quando ela desabou.

– No presídio! – gritou, aos soluços. E prosseguiu num choro convulso: – No presídio! Meu filho está no presídio! Ah, meu Deus, ele mora comigo, ele tem residência fixa, ele trabalha num banco, por que tinham de levá-lo para o presídio?

E o que estão dizendo dele nas rádios e nos jornais? O meu filho não é racista. Eu também vou ao jogo nesta torcida, o pai dele e a namorada dele também. Eles não conhecem o meu filho! Ele é meu filho! E está no presídio!

Foi como se me tivessem dado uma facada no peito. Pensei no meu filhinho, sim, mas também pensei na minha mãe, e entendi o desespero da leitora que me ligava. Senti pena daquela mãe e, se pudesse, a ajudaria. Buscaria seu filho na cadeia e o devolveria aos seus braços.

Não sei se o filho dela é culpado ou inocente, não sei se deveria ou não estar preso, nem sei quem tem razão neste caso.

Mas sei que nada disso, a briga, os tiros, as prisões, e também o tanto de crueldade que há pelas ruas da cidade, nada disso aconteceria se as pessoas pensassem no sentimento que citei acima, no imenso e incondicional amor que um pai e uma mãe sentem por seus filhos.

Porque quem quer infligir dor no outro talvez hesite ao lembrar que pode infligir dor em terceiros.

Em uma mãe ou em um pai que são como a mãe e o pai que ele próprio tem. Porque o que nos falta, e cada vez nos falta mais, é precisamente isso: de vez em quando, olhar com os olhos do outro, sentir como se fosse o outro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Ai, ai, ai! Voltei de Dubai e da Tailândia!

Trezentos mil turistas presos no aeroporto? "Nhang pra tá", relaxa e goza em tailandês!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador Geral da República! Direto do país da piada pronta! Ai, ai, ai! Voltei de Dubai!

Dubai é o Salão do Automóvel de 2011! E eu estava na porta de um shopping quando uma mulher desceu de um Porsche 20022!

De burca toda bordada de pérolas e diamantes. Aí eu pensei: vou atrás dessa mulher; se ela deixar cair um diamante, eu pego, aí volto pro Brasil e compro um Porsche igual ao dela.

E aí fui pra Tailândia! Mas saí antes dos manifestantes fecharem os aeroportos! Corpo fechado! Trezentos mil turistas esperando vôo! Sabe o que eu falaria pra eles? Relaxa e goza! Rarará! E como é relaxa e goza em tailandês?

Nhang pra tá! Aí falei prum taxista em Bangcoc: "Somos do Brasil". E o taxista: "Donaldo! DONALDINHO! Cafú, Kaká. DO NALDINHO CHAMPION!"

E lá na Tailândia tem carambola, pitomba e jaca. Socuerro! Atravassei o mundo pra comer uma carambola!

E aí Camboja. Camboja, pra quem não sabe, é aquele país onde Angelina Jolie adotou um menino. É o ventre da Angelina Jolie. E uma menina bem pobre, no meio das ruínas, vendendo postal: "De onde vocês são?".

"Brasil". E a menina: "Brasil, capital Brasília". FOFA! Acho que é a única do mundo que sabe disso. Nem o Lula sabe. Vou trazer essa menina pro Brasil. Pra virar presidente. Rarará!

E, pra terminar essa redação "minhas férias", vou falar como aquela senhora baiana que rodou o mundo: "Foi tudo maravilhoso, foi tudo fantástico, MAS COMO A TERRINHA NÃO HÁ!". E aí voltei pra terrinha! Pro país da piada pronta!

"Dantas condenado a dez anos de prisão." Só se for prisão de ventre. Só se for condenado a dez minutos de prisão. E outra piada pronta: "Primo de Sadam Hussein condenado à morte pela segunda vez". Rarará!

Depois dessa, ele pode andar pela Linha Vermelha, andar com o vidro do carro aberto em São Paulo! E sabe como se chamam os irmãos do Sadam? Kuday e Foday! É verdade! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado. É que em Piracicaba tem a fábrica de urnas mortuárias CAPELETE! Deve ser uma quentinha. Mais direto, impossível!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Escotismo": ciência que estuda o scotch! Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. O já famoso Estoura Brasil!

simao@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Cadê a blindagem que estava aqui?

SÃO PAULO - Era uma vez um tempo em que o Brasil estava blindado contra a crise externa. No máximo, haveria por aqui uma "marolinha", lembra-se? Agora, já são duas as consultorias (Morgan Stanley, norte-americana, e LCA, brasileira) falando não mais em desaceleração, mas em recessão -os tais dois trimestres consecutivos de retração da economia.

Não sei se vem "marolinha" ou recessão por aí. Mas sei que foram pouquíssimos os economistas/consultorias que não falaram em blindagem.

Ou pelas formidáveis reservas, ou pelo formidável mercado interno, ou porque os emergentes salvariam o mundo, ou por qualquer outra tese que, agora, se desmancha no ar cada vez que sai um novo dado da vida real.

O que acho, honestamente, é que a Folha, para não dizer todo o jornalismo brasileiro, deveria adotar como regras pétreas de seu "Manual da Redação" os seguintes elementos: 1 - Todo economista/consultoria que errar por mais de 5% suas previsões sobre PIB, câmbio, juros etc.

fica definitivamente riscado da agenda de fontes. Nunca mais será ouvido.

Vinicius Torres Freire, esse excelente colunista, me diz que, se aplicada, a regra nos deixaria com zero fontes. Ótimo. Cometeríamos nossos próprios erros em vez de sermos cúmplices de erros alheios.

2 - Toda vez que se publicar palpite de economista/consultoria, seria obrigatório mencionar quais interesses estão em jogo, se ele tem ou recomenda aplicações no dólar ou contra o dólar, nos juros altos ou baixos, e assim por diante.

O leitor teria pelo menos um elemento para julgar se o palpite vem do cérebro do consultado ou do bolso. 3 - No fim de cada ano ou trimestre, seria publicada a lista completa de palpites dessa turma toda, ao lado dos dados da realidade, para que o leitor possa saber quem chuta bem e quem chuta mal.

crossi@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Tudo muito feio

BRASÍLIA - Em uma semana, o que era feio ficou mais feio, e o governador Cássio Cunha Lima, da Paraíba, e o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força Sindical, entraram e saíram da linha de fogo. Ilesos.

O mesmo TSE que decidiu cassar os mandatos de Cunha Lima (PSDB) e de seu vice, José Lacerda (DEM), recuou e lhes devolveu o governo paraibano, apesar da acusação de distribuição irregular de recursos de... programas sociais.

Na Câmara, o Conselho de Ética atendeu às pressões para livrar a cara do sindicalista Paulinho e jogou fora o parecer do relator, que pedia a cassação do deputado Paulo.

No fim, os dois, o Paulo e o Paulinho, são uma pessoa só, enrolada com desvio de verbas do BNDES e assombrada por cursos e alunos fantasmas que receberam verbas do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). E essa pessoa vira a cara da Câmara, do Congresso.

Só falta agora o ministro Paulo Medina, do Superior Tribunal de Justiça, sair "limpinho da Silva" da ação aberta contra ele pelo Supremo por "indícios suficientes" de envolvimento com a chamada "máfia dos caça-níqueis", que vendia sentenças judiciais para bicheiros e donos de bingos.

Para contrabalançar, o juiz Fausto De Sanctis condenou o banqueiro Daniel Dantas a dez anos de prisão, mais multa pesada, por corrupção ativa -ou, para ficar mais claro, por tentativa de subornar policiais da Operação Satiagraha que investigavam as suas estripulias. Até quando vai durar a condenação? Sabe-se lá...

A Justiça tem tantos meandros, jeitinhos e habeas corpus que é possível empurrar decisões indefinidamente com a barriga.

O caso vai subindo de uma instância para outra, e os réus, seguros de si e de seus advogados, podem sempre recorrer ao velho e bom mandato. Qualquer problema, o TSE segura, o Conselho de Ética garante. Vem aí o deputado Daniel Dantas?

elianec@uol.com.br


A VERDADEIRA ALMA

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juremir@correiodopovo.com.br

Essa é a homanagem aos colorados leitores deste blogger, com os parabéns devidos - Aproveite o dia - Tenhamos todos uma excelente quinta-feira


04 de dezembro de 2008
N° 15809 - RICARDO SILVESTRIN


Livros para as pessoas

Sérgio Vaz, poeta da periferia de São Paulo, ligou para um órgão do governo pedindo livros. Ele queria distribuir para quem fosse ao Sarau da Cooperifa, que acontece toda quarta-feira no Bar Zé Batidão, na periferia.

O funcionário de uma espécie de Instituto Estadual do Livro paulista perguntou para que Sérgio estava pedindo os cerca de 300 livros. O poeta respondeu que era para dar às pessoas. O funcionário disse que não poderiam atender ao pedido, pois só podiam dar livros para instituições, não para pessoas. Sérgio insistiu.

Após uma série de ponderações e consultas aos chefes, concederam entregar os livros, pagos com dinheiro público, para as pessoas, em vez de deixá-los nas prateleiras de um órgão da cultura.

O que as pessoas iriam fazer com os livros, chegaram a perguntar. Sérgio disse que cada um faria o que bem entendesse, desde ler a jogar fora. Isso era com elas. O importante era que o livro chegasse até suas mãos.

Essa personalidade rara, dotada de uma enorme clareza e de uma capacidade de realização como poucos, vem fazendo um importante trabalho hoje na sua região.

Fui, a convite do escritor pernambucano Marcelino Freire, participar do Sarau da Cooperifa. Num botecão de bairro lotado, 70 poetas, entre rappers, pessoas de várias idades, gente com livro, com papel escrito a caneta, todos leram para a platéia que escutava na mais absoluta concentração.

No início, Sérgio vai ao microfone e explica que, a partir daquele momento, era preciso fazer silêncio para ouvir todos que iriam se apresentar.

Após dizer o bordão “O silêncio é uma prece”, situou o evento, falando que aquilo não era um pagode, nem escola de samba, nem show de rock. Era um espetáculo de poesia. Portanto, seria chato.

Já estavam todos avisados. Depois, não adiantaria sair falando “pô, foi chato”. Já sabiam desde o princípio.

Quem quisesse ficar que ficasse. Mas teria que fazer silêncio. Quem não quisesse que fosse pra casa, pois passaria o jogo do Brasil na tevê, que é muito mais divertido.

Com essa ironia refinada e essa profunda sabedoria, Sérgio ganha a atenção e o respeito de todos. Falei dois poemas meus. Aplausos empolgados. Não deve ter sido muito chato.


04 de dezembro de 2008
N° 15809 - PAULO SANT’ANA


Pena mata um, premia outro

Nunca vou me conformar que o jogo entre o Goiás e o São Paulo vá ser disputado em Brasília no próximo domingo.

O jogo saiu da casa do Goiás, em Goiânia, foi parar em Brasília.

Por quê? Tratou-se de uma pena aplicada ao Goiás por desordens em seu estádio.

O Goiás, portanto, foi penalizado. Com uma pena.

Ora, um dos princípios basilares do Direito Penal (pena) é o de que a pena não pode exceder a pessoa do réu.

Ou seja, não se pode apenar ninguém mais num processo penal senão o autor do crime ou no máximo a quem de qualquer forma concorreu para a consumação do crime.

Uma pessoa comete um crime e não se pode condenar por ele a sua família, o seu amigo, o seu vizinho. Só o autor do crime pode ser penalizado.

O Goiás foi penalizado porque houve brigas e agressões em outro jogo no seu estádio.

Tinha de ser penalizado só o Goiás com a troca do mando de campo, do seu estádio para Brasília.

Mas, no caso, incrivelmente, para o que interessa, que é a disputa do título ou de classificação para a Libertadores ou para efeito de rebaixamento, em realidade não há nenhuma pena sobre o Goiás: ele não disputa mais nada no campeonato, o resultado do jogo não mexerá uma palha no Goiás.

Vemos, então, que o Goiás não foi penalizado em nada.

Mas o Grêmio acabou penalizado brutalmente. Porque ao tirar do Grêmio a possibilidade de ver o Goiás enfrentar o São Paulo no Serra Dourada, o tribunal esportivo prejudicou violentamente o Grêmio, desequilibrando completamente a decisão do campeonato.

Já temos, então, um Goiás que não podia sofrer pena nenhuma por nada mais ambicionar no campeonato, e o Grêmio, que foi atingido pela pena supostamente infligida ao Goiás, concretamente desfavorecido.

Além disso, a outra parte, o São Paulo, que luta pelo título contra o Grêmio, foi exemplarmente favorecido com a pena infligida ao Goiás.

Livrou-se o São Paulo de jogar na casa do Goiás, onde 90% da torcida seria a favor do dono da casa.

E enviou-se o São Paulo para jogar em Brasília, onde 90% da torcida será favorável ao São Paulo.

Que pena é esta que não pode exceder a pessoa do faltoso e que penaliza um terceiro, o Grêmio, além de beneficiar um segundo (o São Paulo)?

Que pena é esta? Que esdrúxula pena é esta que castiga um inocente, beneficia um outro que nada fez para obter a benesse e, afinal, não castiga o réu?

Que pena é esta? Pena injusta e desmoralizadora da lisura do campeonato.

O apanágio do campeonato de pontos corridos não é o de que cada time deva jogar 19 partidas em sua casa e 19 partidas fora?

Como podem aplicar pena de perda de mando de campo num campeonato de pontos corridos? Não tem sentido, porque desequilibra tecnicamente o campeonato, favorecendo alguns segundos e prejudicando outros terceiros.

Eu não me conformo com o jogo em Brasília. E não entendo por que o Grêmio desistiu de explicar isso ao tribunal para tentar desfazer essa iniqüidade, essa bárbara desigualdade, esta afronta ao equilíbrio técnico da disputa.

O campeonato fica manchado por este atentado à justiça.


04 de dezembro de 2008
N° 15809 - LF VERISSIMO


Símbolos

Ninguém ainda disse que nas origens dessa crise, além da ganância descontrolada e das maracutaias de alto escalão, há um toque de generosidade. Tudo começou porque deram empréstimos imobiliários a quem não podia pagar, aos tais clientes “subprime” cujo calote era certo.

Não foi o bom coração dos banqueiros (um oxímoro) que decretou que mau pagador também merecia crédito e que caloteiro também merecia casa. Suas dívidas eram transformadas em títulos negociados em cadeia no grande troca-troca que sustentava o mercado de mentira, e tanto fazia os devedores serem “prime” ou “subprime”, de alto ou de baixo risco, o lucro das financeiras se multiplicava. Mas até a bolha arrebentar, mau pagador foi tratado sem preconceito, caloteiro não foi discriminado e tivemos um inspirador exemplo de capitalismo popular em ação.

O Baraca tanto prometeu mudanças, que acabou decepcionando boa parte dos seus eleitores antes mesmo de começar. Novos presidentes costumam ter uma lua-de-mel com o país nos primeiros dias do seu governo, um período de tolerância ou de amor sem perguntas enquanto toma pé ou acerta a mão.

Muita gente pergunta para que tipo de lua-de-mel o Baraca está convidando o país, com Lawrence Summers e o velho Paul Volcker pensando em maneiras novas de fazer o que já fizeram, e Hillary Clinton, que apoiou a invasão do Iraque, e Robert Gates, que como secretário da Defesa do Bush a comanda, combinando como agora vão ser contra, e todos na mesma cama. Obama, mais do que ninguém, deve saber que o valor simbólico de gestos e nomes muitas vezes é mais importante do que o fato.

A própria eleição de um negro para a presidência dos Estados Unidos tem um significado simbólico que se sobrepõe a qualquer outro, e será sempre maior do que qualquer fato do Baraca, mesmo seu centrismo decepcionante. Mas seu gabinete anunciado não simboliza as mudanças prometidas, simboliza a mesma coisa. Em alguns casos com a mesma cara.

A gente vive atrás de símbolos, e os mais procurados são os que marcam, convenientemente, o fim ou o começo de períodos históricos.

Gostamos de frases sintéticas tipo “o século 19 acabou mesmo com o naufrágio do Titanic” ou “a revolução sexual começou com a bunda de fora da Brigitte Bardot”.

A Ford está entre as montadoras americanas que nesta semana foram pedir ajuda ao Congresso americano para não naufragarem, e se há um fato que simbolizaria o fim de várias eras, idades, ciclos e mundos seria o anúncio do fim da Ford.

Foi a Ford – ou, no caso, o Ford, Henry, grande visionário, grande patife – que inventou a civilização em que vivemos, o carro massificado, o ar envenenado, a linha de montagem desumanizada, o operário consumidor, um verdadeiro capitalismo popular e um proletariado em grande parte politicamente neutralizado.

E mudou a face da Terra. Cair a Ford seria, sei lá, como cair o nariz de um daqueles rostos de presidentes americanos esculpidos na rocha.

Olga

A Olga Reverbel gostava do teatro, do Carlos e da vida, não necessariamente nesta ordem, e estava na lista de preferências afetivas de muita gente. Certamente na minha, que nunca conheci uma pessoa mais inteligente e divertida. Foi duro saber da sua morte, na segunda-feira passada, em Santa Maria.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008



O Desafio

Num belo dia, o diretor de uma grande empresa propôs um desafio interessante para dois dos seus colaboradores de maior confiança. Um chama-se José e outro Paulo.

- Amanhã pela manhã, Paulo e José, eu tenho um desafio para vocês. Estou passando 150 gramas de feijão cru e mais estas botas apertadas. Coloquem metade da porção de feijão em cada uma das botas. Vistam as botas e subam o nosso principal monte da cidade, com mais de 80 metros de altura. O prêmio será uma grande promoção.

- Espero vocês amanhã às 8 horas.

Paulo e José seguiram para casa. No dia seguinte encontraram o diretor e rumaram para o grande monte. Dada a largada, José logo assumiu a dianteira e chegou rapidamente ao cume do monte, enquanto Paulo ficava pelo caminho.

O chefe atônito seguiu na direção do José e perguntou.

- Como é que você conseguiu chegar ao cume do monte sem nenhuma dificuldade, já que a proposta do desafio era subir com as botas com 150 gramas de feijão dentro. Como estão seus pés?

- Estão bem, respondeu José.

- Como assim, indagou o chefe.

- Simples meu caro diretor, levei o feijão para casa e cozinhei por muito tempo. Aqui estão as 150 gramas de feijão bem cozidas.

Moral da estória – Seja criativo e escolha sempre a melhor estratégia para subir nos degraus da vida, rumo ao sucesso.

Autor desconhecido

GILBERTO DIMENSTEIN

Desejos de madeira

O Instituto Acaia é uma mistura de ateliê e escola, onde se oferece culinária, capoeira, música e marcenaria

A MARCENARIA da artista plástica Elisa Bracher se tornou um objeto de desejo de um punhado de crianças da favela da Linha, na Vila Leopoldina. Afinal, elas moravam em casas de madeira e seus pais trabalhavam na fabricação ou reciclagem das caixas do Ceagesp.

Aos poucos, sem perceber, a artista, cujas peças estão expostas em várias cidades do mundo, iria reencontrar seu objeto de desejo da juventude -hoje à noite, esse reencontro será apresentado por um comitê de urbanistas e arquitetos de diversos países, reunidos pela London School of Economics, como uma das melhores experiências comunitárias de São Paulo.

"Tudo foi acontecendo por acaso." Quando era adolescente, Elisa desejava cursar pedagogia e dar aula. "O curso me parecia muito fraco." Preferiu estudar artes plásticas na Faap e não via qualquer possibilidade de ensinar. Meteu-se no circuito das artes. Montou seu ateliê, ao lado de sua casa, no refinado bairro do Alto de Pinheiros.

Mas como trabalhava com gigantescas peças de madeiras e estava incomodando os vizinhos com o movimento dos guindastes e caminhões, mudou seu ateliê para um galpão na Vila Leopoldina, ao lado da favela. "Foram aparecendo devagarzinho os olhos das crianças seduzidas pela minha marcenaria."

Os barracos da favela entraram em sua vida, mesmo esteticamente, como as toras de madeira certificada que compõem suas esculturas -por acaso, acabaram numa exposição.

Os moradores de lá estavam ameaçados de despejo. Máquina em punho, Elisa fotografou as fachadas dos barracos para entregar ao juiz, alegando o direito de usucapião. "Tomei um susto quando vi as fotos, fiquei impressionada com as cores e as texturas que apareceram."

Além de uma defesa judicial, as imagens viraram uma exposição, intitulada "A Cidade e Suas Margens".

O relacionamento com as crianças no ateliê, onde estavam as máquinas para preparar as madeiras, ia deixando de ser esporádico. "Já não sabia o que fazer com tanta gente que chegava." E chegavam cheias de problemas.

A marcenaria ficou pequena para tanta curiosidade. Elisa alugou mais um galpão, grudado ao seu espaço. Batizado de Instituto Acaia, nascia um misto de ateliê, escola e parque de diversões, onde, além de uma marcenaria, se oferece culinária, capoeira, música, comunicação, dança e, claro, artes plásticas. "Tive de me reinventar." Na verdade, teve de fazer um curso de pedagogia prático.

A prova de que esse aprendizado prático está indo bem será visível hoje à noite, em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes. Como parte de seu seminário (Urban Age) sobre o futuro das metrópoles, sediado neste ano em São Paulo e organizado pela London School Economics, uma comissão escolheu 12 projetos que demonstrem inventividade -entre eles está a escola-ateliê de Elisa Bracher, com seus desejos de madeira.

CLÓVIS ROSSI

Éramos infelizes e não sabíamos

SÃO PAULO - Quer dizer, então, que os Estados Unidos estavam em recessão desde dezembro de 2007, mas só descobriram em dezembro de 2008? Não é sério. O pior é que todo mundo, inclusive os jornalistas, emprestamos ar de ciência a esse ritual de mandingas.

Recapitule comigo: o que se sabia, até anteontem, é que a economia norte-americana havia crescido até o fim do primeiro semestre, de acordo com os dados oficiais, o-f-i-c-i-a-i-s, repito. Mesmo nestes tempos de derivativos, o primeiro semestre de 2008 vem depois de dezembro de 2007.

Vinha, posto que agora aparece um tal de NBER (Escritório Nacional de Pesquisa Econômica) e jura que os Estados Unidos estão em recessão desde dezembro de 2007.

Da mesma forma que todo o mundo, inclusive os jornalistas, acreditamos que os EUA haviam crescido no primeiro semestre, agora acreditamos no NBER e anunciamos que os EUA não cresceram. Ao contrário, retrocederam.

Por que o NBER é mais oráculo oficial que os outros oráculos oficiais? Porque, dizem, leva em conta dados como desemprego, produção industrial, receita e vendas de indústria e comércio. Santo Deus, esses dados são todos públicos, qualquer um que saiba somar um mais um não precisa de um ano para determinar o estado de uma dada economia.

Posto de outra forma: é como encontrar um cidadão sangrando no asfalto um ano inteiro. Aí vem o tal NBER e diz "é, está sangrando". Só então o mundo vê a hemorragia?

Pior: o tal mercado usa a constatação "oficial" para sair vendendo ações e derrubando as Bolsas, conforme a "explicação" do dia para as quedas, apesar de a Bolsa ter subido uns dias antes, mesmo quando todos sabiam que o desemprego aumentara, a produção industrial caíra e indústria e comércio vendiam menos. Quiromantes fariam melhor.

crossi@uol.com.br


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - MARTHA MEDEIROS


Se “acham” e se perdem

Tem se falado muito em Woody Allen em função do sucesso que Vicky Cristina Barcelona tem feito, e também por causa do livro de entrevistas que acaba de ser lançado, em que o jornalista Eric Lax reúne, em quase 500 páginas, as diversas conversas que teve com o diretor desde que ele começou a dirigir seus primeiros filmes, há mais de 40 anos. Estou lendo o livro e percebe-se que Allen, nessa longa trajetória, mantém-se o mesmo sujeito desencanado.

Desencanado? Aquele paranóico?

Não estou falando das neuras, fobias e ansiedades que o diretor nunca escondeu de ninguém e nas quais se baseou para criar roteiros formidáveis. Estou falando sobre ser desencanado da fama.

Desencanado dessa necessidade que tantos artistas têm de se apresentar ao mundo como semideuses. Woody Allen só marcou presença na capa das revistas de fofoca uma vez: quando se separou da atriz Mia Farrow para se casar com a filha adotiva que essa teve com o primeiro marido.

A asiática Soon-Yi era uma adolescente, e o escândalo estava armado. Woody Allen foi tratado como pedófilo e apostava-se que a tara seria passageira, mas o casal segue junto até hoje e os ânimos se acalmaram: não era tara, era amor. Que decepção.

Afora esse episódio polêmico, Allen é notícia apenas pelos seus filmes. Não freqüenta baladas e não tem o ego inflado. Ao contrário: sua maior excentricidade é ser tímido e se espantar quando o chamam de gênio.

Cada vez me convenço mais de que aqueles que são gênios são os únicos que conseguem prescindir da autopromoção excessiva e manter-se com os dois pés fincados no solo. É por duvidarem de si mesmos que evoluem a cada dia.

Esse assunto me ocorreu porque, numa recente viagem a trabalho, passei 24 horas em companhia de uma produtora de eventos e ouvi histórias incríveis.

Soube de atrizes de terceiro escalão que cobram R$ 70 mil para fazer a apresentação de um seminário (um boa-tarde na entrada e um boa-noite na saída:

R$ 70 mil!), atores mal saídos das fraldas que exigem mordomias de veteranos, sem falar no que a gente sabe pelos jornais – atrizes histéricas pela falta de comida light no camarim e megastars exigindo que troquem todos os assentos dos vasos sanitários por onde irá passar com sua turnê – e nada de comida nativa, eca.

Podem? Claro. A graça da coisa talvez seja essa. Já que são perseguidos por paparazzi, já que têm sua vida íntima investigada, já que não podem caminhar num parque sossegados, compensam agindo como seres de outro planeta e tendo acessos risíveis de megalomania.

Mas eu ainda prefiro rir das piadas inteligentes que Woody Allen insere em seus filmes, aqueles que ele dirige entre um acesso de modéstia e outro.

Aproveite o dia - Tenhamos todos uma ótima quarta-feira


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - DAVID COIMBRA


A frase de Leonardo Astrada

Havia aqui no jornal um repórter chamado John Lennon. Apelidado, digo. Não era parecido com o John Lennon da Yoko, nem cantava, que eu soubesse. Mesmo assim, todos o chamavam de John Lennon por alguma razão. O Professor Ruy, de Djamm Lennammm.

John Lennon gostava muito de futebol. Um dos seus ídolos era Alfinete, que militou na lateral-direita do Grêmio nos anos 80. Curioso: foi a única pessoa que conheci que teve Alfinete como ídolo.

O John Lennon, de fato, nunca foi um sujeito convencional. Consagrou-se no Esporte da Zero como o autor de um dos lides imortais da história do jornal.

Lide, você sabe, é a primeira frase de um texto jornalístico, normalmente a mais importante, a que vai chamar a atenção do leitor para o resto da matéria. Esse lide do John Lennon ele o escreveu a respeito da situação do São José no Gauchão:

“As galinhas ciscavam pelo Estádio do Passo d´Areia, ontem pela manhã, sem se preocupar com a colocação do Zequinha no campeonato”.

As galinhas confiantes do Passo d´Areia tornaram-se célebres na Redação, e ainda hoje volta e meia há quem lembre delas.

Outro grande lide foi escrito pelo repórter Gilberto Jasper, então na Editoria de Geral. Ele foi fazer uma reportagem sobre apicultura e tascou:

“A abelha não faz mal. Faz mel”.

Geniel. Ops, genial.

Mas continuando com o nosso John Lennon. Quando o Grêmio contratou Leonardo Astrada do River Plate, ele foi designado para ir ao aeroporto a fim de colher a primeira entrevista do jogador. John Lennon adorava o futebol argentino, por isso saiu entusiasmado para fazer a matéria. Voltou mais entusiasmado ainda.

– Cara, tem que ver a primeira frase que o Astrada disse! – vibrou o John assim que chegou à Redação.

– O que ele disse, John? – perguntamos.

– A primeira frase, cara! A primeira em solo brasileiro! A primeiríssima!

– O que foi? O que foi?

Lembrei logo da primeira frase que Oberdan proferiu ao pisar no saguão do Salgado Filho em 1977:

– O Escurinho nunca mais vai cabecear na área do Grêmio!

Que frase! O homem chegou apresentando as credenciais. Astrada, argentino com alguma ilustração, devia ter dito algo do mesmo jaez. Assim, insistíamos:

– O que ele disse? O quê? O que, John???

E o John Lennon, empostando a voz:

– Ele chegou ao saguão. Olhou para mim. E falou: “Hola, que tal?” Não é uma maravilha? “Hola, que tal?” Sen-sa-cio-nal! Vou abrir minha matéria com isso. Hola, que tal...

Desta forma construiu-se mais um lide imortal.

Esse Leonardo Astrada, que ora retorna a Porto Alegre como técnico do Estudiantes, chegou à cidade trazendo no currículo vasto prestígio. Era chamado de El Jefe no River Plate. Lembro dele apresentando-se no Olímpico com a barba de três dias, os dedos dos pés emergindo sandálias afora e um olhar blasé de quem já tinha feito de tudo na vida. El Jefe.

Os gremistas queriam que ele chefiasse um time milionário, bancado pela ISL, onde despontariam Ronaldinho, Scheidt, Roger, entre outros. Foi uma decepção. El Jefe não chefiou nada, foi defenestrado para a reserva e, depois de várias tentativas malsucedidas, mandado de volta para a Argentina.

Estava curioso para ver Astrada como técnico, já que sua trajetória de jogador cheio de personalidade indicava que seria um bom comandante de vestiário.

No primeiro jogo contra o Inter, decepcionei-me de novo. Astrada fez seu time passar a noite inteira levantando a bola para a área do inimigo, um doce para o goleiro e os zagueiros adversários.

Verón, o maior astro do Estudiantes, esse então surpreendeu pela ingenuidade. Pegava a bola, levantava a cabeça e atirava-a na pequena área. Um jogador experiente, que já integrou a seleção argentina, não conseguiu flagrar-se do que acontecia no jogo.

Lógico, o Inter é bem melhor do que o Estudiantes, suponho que ganharia a partida de qualquer forma, mas a falta de perspicácia dos argentinos foi escandalosa.

Duvido que haja algo que Astrada ou Verón ou quem quer que seja do Estudiantes possa fazer nesta quarta-feira contra o futebol superior do Inter. Alex, D´Alessandro e Nilmar, sobretudo Nilmar, formam um tripé de ataque talvez único no Brasil.

Verdade que futebol, às vezes, é implausível. Mas ainda é mais verdade que só às vezes.


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - SERGIO FARACO


O Anjo da Morte

Naquela rua e quarteirões adjacentes o dentista Romildo Bello era o único morador com telefone, e então era comum que boas e más notícias de Porto Alegre viessem dar no Alegrete por seu aparelho, o 19.

Com o tempo e por algum motivo misterioso, ou nem tanto se figurada a catadura do doutor - olhinhos de rato, nariz de gancho e boca pequena, como desprovida de lábios -, o noticiário alvissareiro passou a eleger outros caminhos, e o fone 19 tornou-se exclusivo dos aziagos desenlaces.

Naqueles anos morria-se a miúdo, sem muita lengalenga, e o dr. Bello se desincumbia dos avisos como de um segundo ofício. Fez-se conhecido e temido. Se apontava na esquina, tremiam as famílias da rua, e na medida em que ultrapassava as portas sucediam-se suspiros num cortejo de alívios.

De repente parava, olhava para trás ainda a tempo de ver cabeças ansiosas se ocultando, e retesava-se. Hierático, levava o nó do dedo à fatídica porta. Três batidas, e os moradores, ah, eles já podiam ter certeza de que entre a parentalha havia um morto fresco. Bem, nem sempre alguém morrera.

Às vezes o aviso era de doença. Mas o dentista acrescentava: “Um caso perdido”. E não errava nunca. Era como se sua intermediação agravasse o estado do doente, abreviando-lhe os dias na parte de cima da terra.

Bem ou mal, dr. Bello continuava atendendo no consultório, e só o abandonou após um incidente que a todos surpreendeu: o Anjo da Morte arrastava uma asa pelos prazeres da vida, e não resistindo à juventude e à louçania de uma paciente, atirou-lhe um beijo à formosa boca.

A vítima pôs-se a gritar pelo nariz, e o dentista, grudado nela como uma ventosa, só desgrudou quando acudiu, em alvoroço, a freguesia do bolicho ao lado. Na mesma noite, o marido ofendido bateu à porta e lhe pespegou uma soberba tunda. Foi quanto bastou para a debandada das cáries.

Fechado o consultório, devotou-se aos avisos. Mas eram outros os tempos, já escasseavam as chamadas de Porto Alegre, já muitas famílias tinham telefone e já os moribundos, menos apressados, começavam a espernear.

E o ofício do doutor, como o dos seleiros, correeiros, tamanqueiros e encadernadores, encetava o mergulho no abismo em cujo fundo, com a dentama escancarada, espreitava-o a voragem do progresso.

Sem pacientes, mudo o fone 19 e sem vivalma que lhe nutrisse a fama ao passar desta para a pior, pôs-se a murchar, perdendo peso e estatura, e a andar sem rumo pelas ruas da cidade, do Hospital de Caridade ao Povo da Lata, da Ponte Seca ao Armazém da Portuguesa. Ainda vive em Alegrete.

E quando passa no quiosque da praça, arrastando seu desengrenado arcabouço, o populacho grita: “Sai, urubu”. E ele acelera o passo, o pobre, curvado ao peso da ingratidão citadina e de tantas e tantas mortes anunciadas.


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - PAULO SANT’ANA


O sol saiu

Emocionante texto de um habitante de Itajaí, Santa Catarina: “Meus amigos. Hoje, 27 de novembro de 2008, o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar.

A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta ‘folga forçada’, a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própria tranqüilidade de ter onde ganhar o pão, mas também por ser um sinal de que a vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí.

Eu quero mesmo é falar sobre lições aprendidas. Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso, ainda é surpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorar no ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos mais primitivos.

As cenas e situações vividas neste final de semana prolongado em Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência. Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recuperá-la no seguinte.

Fizeram-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia, mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos.

Que aquela entidade superior em que cada um acredita (Deus, Alá, Buda, Gadu etc.) e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles:

– Que se aproveitaram da situação para fazer saques em supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros;

– Que saquearam uma farmácia, levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres e destruindo os produtos de primeira;

– Que pediam R$ 5 por um litro de água mineral;

– Que chegaram a pedir R$ 150 por um botijão de gás;

– Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vender nas áreas alagadas;

– Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendo suas casas atingidas;

– Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o que restava;

– Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seu coração;

– Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas.

Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe:

– Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingo no quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma;

– Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nos instruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver;

– A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim de semana, que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas e fizeram tanta diferença;

– A equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos de toda uma vida;

– Os soldados do Exército no Paraná e no Rio Grande do Sul;

– Os bravos gaúchos, tantas vezes vítimas de nossas brincadeiras, que trouxeram caminhões e caminhões de mantimentos;

– Os cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação se portaram com veteranos;

– Os bombeiros e policiais locais que resgataram, cuidaram , orientaram e auxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casas embaixo das águas;

– Os médicos voluntários;

– As enfermeiras voluntárias;

– Os bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos;

– Os helicópteros da Aeronáutica e Exército que fizeram os resgates nos locais de difícil acesso;

– Os incansáveis do Samu e das ambulâncias em geral, que não tiveram tempo nem pra respirar;

– O pessoal do helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrou que longo é o braço da solidariedade;

– O pessoal das rádios, que manteve a população informada e manteve a esperança de quem estava isolado em casa;

– Os estudantes, que emprestaram seus físicos para carregar e descarregar caminhões nos centros de triagem;

– As pessoas que cozinharam para milhares de estranhos;

– O empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex no centro de triagem;

– A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa;

– A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou;

– A todos que oraram por todos;

– Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas.

Que Deus abençoe a todos, até os que esqueci de citar.

(ass.) Luis Fernando Gigena, técnico educacional do Senac/Itajaí – SC”.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

Mulheres e cavalos

RIO DE JANEIRO - Acácio, o conselheiro, poderia dizer que o avião é necessário para se vencer longas distâncias. Incorporando o espírito de porco do personagem de Eça, eu diria que é perigoso também. Não pela hipótese de um acidente. Entendidos garantem que é o meio de transporte mais seguro do mundo.

O perigo é o sujeito que se senta ao lado. Contam por aí uma história envolvendo o finado cronista Antônio Maria e o cronista ainda sobrevivente que sou eu. Tudo se teria passado numa curta viagem entre Rio e São Paulo. No fundo, uma boa piada, digna do gordo autor de "Ninguém me quer".

Mas, na semana passada, enfrentei desafio pior. Depois de amarrado, o meu vizinho de banco cumprimentou-me efusivamente. Retribuí a amabilidade, agradecendo e procurando me acomodar para dormir durante a viagem.

Não deu jeito. Ele estava entusiasmado com um livro que lera há tempo e que, segundo sua próprias palavras, mudara a sua vida, sua visão de mundo.

O livro era "Não Verás País Nenhum", do Ignácio de Loyola Brandão. Custei a perceber o equívoco e, quando percebi, quis explicar que não era o autor do excelente romance, um dos melhores de nossa literatura moderna.

O sujeito não parava de louvar e comentar o livro que julgava de minha autoria. Com tal entusiasmo que eu me limitei a concordar com o meu silêncio, que ele tomou por modéstia.

Obrei bem permanecendo calado: além de imerecidos elogios, ouvi sugestões para uma dúzia de livros, que, infelizmente, não poderei escrever por falta de tempo e de talento.

Uma delas eu passo gostosamente ao Ignácio de Loyola: a do deputado gaúcho, mulherengo e viciado em corridas no Jóquei Clube, que atribuiu sua decadência pessoal, política e econômica às mulheres ariscas e aos cavalos lerdos.


HERÓIS ESQUECIDOS

Os professores da rede estadual do Rio Grande do Sul perderam mais uma batalha.

Ficaram sem receber pelos 16 dias de greve contra o projeto de lei do governo gaúcho com a finalidade de rejeitar o piso como vencimento inicial, a partir de 2010, fixado por legislação federal.

Foi o presente de Natal de Marisa Abreu e Yeda Crusius para o magistério. Presente grego, claro. Isso todo mundo já sabe. Os professores perderam um combate.

Ganharam outro. A urgência na votação do projeto governista foi retirada na Assembléia Legislativa. Pouco antes, os funcionários da Caixa Federal mantiveram uma greve de 24 dias. Não tiveram o ponto cortado e até agora nem horas extras fizeram para pagar o tempo não trabalhado.

Eu tenho toda a admiração do mundo por esses homens e mulheres que devem nos educar. Lembro-me dos meus professores em Palomas, dona Eulália, minha primeira paixão, ela com 19 anos, eu com 6, seu Modesto, dona Madalena, severa, rigorosa, durona, e seu Luis, que se chama Dartagnan, e me deu os primeiros livros a ler.

Ele caminhava cerca de 5 quilômetros, da atual BR 158 até a vila, para nos dar aula. Imagino a fortuna que ganhava. Esses heróis anônimos e esquecidos continuam maltratados.

Deles se espera o melhor. Que nos formem bem, com vocação missionária e conhecimentos seguros, para a profissão e a cidadania. Como eles são muitos, porém, a sociedade julga que não pode pagar-lhes bem.

Pede que se conformem. Quando reclamam, saturados de exploração, ainda ouvem de cínicos travestidos de pragmáticos que, se não estão contentes, mudem de atividade. A perversidade é gratuita.

Não pude dar respostas às centenas de e-mails que recebi nos últimos dias de professores contando as suas histórias de sacrifícios, baixos salários, altas cargas de trabalho, menosprezo das autoridades e paixão pelo ofício. As sociedades são como são e pouco podemos fazer contra os seus paradoxos.

Num mundo em que um técnico de futebol quase analfabeto pode ganhar R$ 500 mil por mês, sem qualquer compromisso com bons resultados, não há muito a esperar em educação.

Certamente não seria difícil mobilizar milhares ou milhões de pessoas para que fizessem doações destinadas a reter um craque no seu clube.

Mas seria impossível reunir contribuições para sustentar a greve dos professores até os governantes encontrarem soluções para o histórico problema dos baixos salários do magistério estadual.

A sociedade tem suas prioridades. Quer entretenimento e espetáculo. Aceita pagar mais por um gol, não por uma aula bem dada.

Sacrificados e desprezados, vítimas de todos os golpes possíveis, os professores ainda são acusados de vagabundagem e de ideologização. Esse ardiloso mecanismo de desqualificação se finge de não-ideológico.

Qualquer um sabe, no entanto, que isso é ideologia pura, reacionária, vil, selvagem e contraditória.

Bom mesmo é o Estado dar dinheiro para salvar bancos da falência. Na guerra dos clichês, sempre vence o lugar menos comum, aquele que encarna a posição dos donos do campinho. Enquanto isso, os professores, esquecidos do Estado, contam centavos.

juremir@correiodopovo.com.br


02 de dezembro de 2008
N° 15807 - CLÁUDIO MORENO


Só nós podemos entender

Os deuses do Olimpo são quase iguais aos humanos. Em tudo são parecidos conosco.

Como nós, eles também adoram reunir-se à volta de uma mesa para comer e beber com os amigos – não a carne, o pão e o vinho, rudes produtos da terra, mas a ambrosia e o néctar, alimentos divinos que o homem desconhece. A música também os encanta: vibram com a voz melodiosa das Musas e os sons da lira de Apolo.

Repousam como nós: a noite escura vai encontrá-los na paz de seu leito, e a Aurora dos dedos róseos faz romper a claridade da manhã para todos, deuses e homens, indistintamente. Quando choram, vertem lágrimas salgadas como as nossas; quando fazem amor, compartilham dos mesmos fluidos e das mesmas umidades.

Em contato com o ferro afiado, sua pele se rompe como a nossa, e a dor do ferimento é sentida com a mesma intensidade. Pois Homero não nos conta o quanto sofreu Afrodite ao ser ferida durante a guerra de Tróia?

Para salvar Enéias, seu filho, que estava prestes a ser abatido pelos gregos, ela tinha se aventurado no ponto mais aceso do combate; furioso por ver sua presa escapar, Diomedes não hesitou em atingir o delicado pulso da deusa com um pontaço de lança, fazendo-a desferir um grito lancinante.

Cega pela dor, Afrodite bateu em retirada; a pele alvíssima de seu braço começava a enegrecer em torno da chaga aberta, de onde jorrava não o sangue abundante dos mortais, mas o líquido claro e perfumado que corre nas veias dos deuses.

São quase idênticos a nós. Quase – não fossem duas diferenças essenciais. A primeira é sua perpétua juventude: eles nascem como qualquer um, crescem até uma determinada idade e estacionam ali, indefinidamente – Zeus será para sempre um homem adulto, na força da idade, enquanto Apolo nunca deixará de ser um jovem imberbe; no Olimpo, os dias não envelhecem.

A segunda, muito mais decisiva, é a imortalidade, porque os deuses, “os que nasceram para sempre”, são eternos como o Tempo. No mundo divino, a morte é desconhecida.

Por causa disso, um pensador antigo sugeriu que é natural que os deuses tenham, a respeito da morte, uma grande curiosidade – talvez até uma ponta de inveja.

Assim como água não tem muito sabor para quem não conhece a sede, assim os deuses, que não precisam morrer, não conseguem perceber o quanto a vida tem valor para quem sabe que vai perdê-la.

Nenhum dos imortais do Olimpo pode entender a sabedoria das palavras de Bobbio, quando define nossa humana condição: os que levam a morte a sério levam também a vida a sério – aquela vida, a minha vida, a única que tenho.

Aproveite o dia - Uma ótima terça-feira


02 de dezembro de 2008
N° 15807 - MOACYR SCLIAR


O lado bom

Não é de admirar que Deus tenha recorrido ao dilúvio para castigar o mundo. Inundação é catástrofe, como até mesmo a chuva de ontem em Porto Alegre mostrou. Mas mesmo as catástrofes, como a de Santa Catarina, têm alguma coisa de positivo.

Para começar, a cobertura da mídia foi sóbria, mostrando cenas impressionantes, mas sem sensacionalismo, e despertando a consciência dos brasileiros para o problema. O resultado foi um notável movimento de solidariedade, com pessoas se voluntarizando para ajudar e fazendo donativos.

Um outro, e positivo, aspecto resulta da comparação com a tragédia do furacão Katrina, que, em 2005, atingiu com especial violência a cidade de New Orleans. Mais de 1 milhão de pessoas tiveram de ser evacuadas; os mortos chegaram a 1,3 mil. E, neste caso, tivemos um fiasco político.

George Bush mostrou mais uma vez sua incompetência. Numa região em que os furacões são freqüentes, o Katrina era uma tragédia anunciada, a respeito da qual Bush foi repetidamente, e até desesperadamente, avisado, sem tomar posição alguma (numa entrevista na véspera, sequer respondeu a perguntas a respeito).

Estava em viagem e, de fato, na manhã em que o Katrina varreu a cidade, uma foto mostrava-o em San Diego, tocando guitarra (o que lembra o imperador Nero dedilhando sua harpa enquanto Roma se incendiava). Só dias depois, o presidente foi a New Orleans.

A ajuda foi tardia e pequena, levantando a suspeita de que a população de New Orleans, em grande parte pobre e negra, não chegava a motivar a presidência americana. Agora: o George Bush que, em uniforme militar, e em postura altaneira, anunciou, do convés de um porta-aviões que a guerra contra o Iraque estava ganha, este sim, parecia motivado, e muito motivado.

Que coisas semelhantes não tenham aqui acontecido é um sinal da maturidade brasileira. Não vimos, por exemplo, aquela tradicional briga entre níveis de governo, autoridades municipais tentando passar a batata quente para o governo estadual e este botando a culpa na administração federal. Estava todo mundo junto, todo mundo – e esta imagem infelizmente é muito adequada – no mesmo barco.

O texto que aqui publiquei, na semana passada, sobre o suposto imperialismo brasileiro, suscitou vários, e brilhantes, comentários. Para começar, veio um e-mail do correspondente da revista Newsweek (ZH chega longe), Mac Margolis, autor do artigo sobre o suposto imperialismo brasileiro, que aqui comentei.

Aliás, devo uma desculpa ao Margolis. Da maneira como escrevi, dava a impressão de que ele endossava a expressão. De jeito nenhum, Margolis é muito crítico em relação a isso.

Também me escreveram o Prof. Duilio de Avila Bêrni, com uma lúcida análise, a Maria Morales H. Dias (“Não há um imperialismo brasileiro, mas pode-se falar num imperialismo à brasileira”), o Ivan Sanchez Bornes (“Hoje vemos o Brasil ‘colonizar’ outros países exportando multinacionais”), e o jornalista Ib Kern, lembrando que a questão é bem antiga, da década de 70:

“Da malograda Transamazônica, dizia-se ter como objetivo invadir o Equador, caso a crise petrolífera de então deixasse o Brasil sem combustível”.

Registro também as mensagens, sobre outros temas, de José Diogo Cyrillo da Silva, de Luciano Sheikk, de Marino Boeira, de Romeu Finato (que, adequadamente coloca junto ao nome, a ressalva “o vivo”), do dr. Fernando Luiz Brauner, e da enfermeira Suzane Silva.

O Jorge Ritter transcreve uma notícia do New York Times falando sobre um pequeno jornal da California que mandou embora seus colaboradores contratando, por salários bem inferiores, jornalistas hindus (isso mesmo, hindus) que escrevem desde a Índia coletando informações locais por e-mail e celular. Realmente, o mundo ficou globalizado, demasiadamente globalizado.

A professora. Maria Tereza Amodeo (PUCRS) gostou da crônica sobre a Era do Ego (Donna) e o jornalista Sérgio Dillemburg lembra os 90 anos da gripe espanhola de 1918 aqui no RS (vacinem-se, amigos).

Por último, uma homenagem a Olga Reverbel, pioneira do teatro infantil no RS e grande pessoa, ontem falecida e que deixou muitos, e bons, amigos.