quinta-feira, 4 de dezembro de 2008



04 de dezembro de 2008
N° 15809 - LF VERISSIMO


Símbolos

Ninguém ainda disse que nas origens dessa crise, além da ganância descontrolada e das maracutaias de alto escalão, há um toque de generosidade. Tudo começou porque deram empréstimos imobiliários a quem não podia pagar, aos tais clientes “subprime” cujo calote era certo.

Não foi o bom coração dos banqueiros (um oxímoro) que decretou que mau pagador também merecia crédito e que caloteiro também merecia casa. Suas dívidas eram transformadas em títulos negociados em cadeia no grande troca-troca que sustentava o mercado de mentira, e tanto fazia os devedores serem “prime” ou “subprime”, de alto ou de baixo risco, o lucro das financeiras se multiplicava. Mas até a bolha arrebentar, mau pagador foi tratado sem preconceito, caloteiro não foi discriminado e tivemos um inspirador exemplo de capitalismo popular em ação.

O Baraca tanto prometeu mudanças, que acabou decepcionando boa parte dos seus eleitores antes mesmo de começar. Novos presidentes costumam ter uma lua-de-mel com o país nos primeiros dias do seu governo, um período de tolerância ou de amor sem perguntas enquanto toma pé ou acerta a mão.

Muita gente pergunta para que tipo de lua-de-mel o Baraca está convidando o país, com Lawrence Summers e o velho Paul Volcker pensando em maneiras novas de fazer o que já fizeram, e Hillary Clinton, que apoiou a invasão do Iraque, e Robert Gates, que como secretário da Defesa do Bush a comanda, combinando como agora vão ser contra, e todos na mesma cama. Obama, mais do que ninguém, deve saber que o valor simbólico de gestos e nomes muitas vezes é mais importante do que o fato.

A própria eleição de um negro para a presidência dos Estados Unidos tem um significado simbólico que se sobrepõe a qualquer outro, e será sempre maior do que qualquer fato do Baraca, mesmo seu centrismo decepcionante. Mas seu gabinete anunciado não simboliza as mudanças prometidas, simboliza a mesma coisa. Em alguns casos com a mesma cara.

A gente vive atrás de símbolos, e os mais procurados são os que marcam, convenientemente, o fim ou o começo de períodos históricos.

Gostamos de frases sintéticas tipo “o século 19 acabou mesmo com o naufrágio do Titanic” ou “a revolução sexual começou com a bunda de fora da Brigitte Bardot”.

A Ford está entre as montadoras americanas que nesta semana foram pedir ajuda ao Congresso americano para não naufragarem, e se há um fato que simbolizaria o fim de várias eras, idades, ciclos e mundos seria o anúncio do fim da Ford.

Foi a Ford – ou, no caso, o Ford, Henry, grande visionário, grande patife – que inventou a civilização em que vivemos, o carro massificado, o ar envenenado, a linha de montagem desumanizada, o operário consumidor, um verdadeiro capitalismo popular e um proletariado em grande parte politicamente neutralizado.

E mudou a face da Terra. Cair a Ford seria, sei lá, como cair o nariz de um daqueles rostos de presidentes americanos esculpidos na rocha.

Olga

A Olga Reverbel gostava do teatro, do Carlos e da vida, não necessariamente nesta ordem, e estava na lista de preferências afetivas de muita gente. Certamente na minha, que nunca conheci uma pessoa mais inteligente e divertida. Foi duro saber da sua morte, na segunda-feira passada, em Santa Maria.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008



O Desafio

Num belo dia, o diretor de uma grande empresa propôs um desafio interessante para dois dos seus colaboradores de maior confiança. Um chama-se José e outro Paulo.

- Amanhã pela manhã, Paulo e José, eu tenho um desafio para vocês. Estou passando 150 gramas de feijão cru e mais estas botas apertadas. Coloquem metade da porção de feijão em cada uma das botas. Vistam as botas e subam o nosso principal monte da cidade, com mais de 80 metros de altura. O prêmio será uma grande promoção.

- Espero vocês amanhã às 8 horas.

Paulo e José seguiram para casa. No dia seguinte encontraram o diretor e rumaram para o grande monte. Dada a largada, José logo assumiu a dianteira e chegou rapidamente ao cume do monte, enquanto Paulo ficava pelo caminho.

O chefe atônito seguiu na direção do José e perguntou.

- Como é que você conseguiu chegar ao cume do monte sem nenhuma dificuldade, já que a proposta do desafio era subir com as botas com 150 gramas de feijão dentro. Como estão seus pés?

- Estão bem, respondeu José.

- Como assim, indagou o chefe.

- Simples meu caro diretor, levei o feijão para casa e cozinhei por muito tempo. Aqui estão as 150 gramas de feijão bem cozidas.

Moral da estória – Seja criativo e escolha sempre a melhor estratégia para subir nos degraus da vida, rumo ao sucesso.

Autor desconhecido

GILBERTO DIMENSTEIN

Desejos de madeira

O Instituto Acaia é uma mistura de ateliê e escola, onde se oferece culinária, capoeira, música e marcenaria

A MARCENARIA da artista plástica Elisa Bracher se tornou um objeto de desejo de um punhado de crianças da favela da Linha, na Vila Leopoldina. Afinal, elas moravam em casas de madeira e seus pais trabalhavam na fabricação ou reciclagem das caixas do Ceagesp.

Aos poucos, sem perceber, a artista, cujas peças estão expostas em várias cidades do mundo, iria reencontrar seu objeto de desejo da juventude -hoje à noite, esse reencontro será apresentado por um comitê de urbanistas e arquitetos de diversos países, reunidos pela London School of Economics, como uma das melhores experiências comunitárias de São Paulo.

"Tudo foi acontecendo por acaso." Quando era adolescente, Elisa desejava cursar pedagogia e dar aula. "O curso me parecia muito fraco." Preferiu estudar artes plásticas na Faap e não via qualquer possibilidade de ensinar. Meteu-se no circuito das artes. Montou seu ateliê, ao lado de sua casa, no refinado bairro do Alto de Pinheiros.

Mas como trabalhava com gigantescas peças de madeiras e estava incomodando os vizinhos com o movimento dos guindastes e caminhões, mudou seu ateliê para um galpão na Vila Leopoldina, ao lado da favela. "Foram aparecendo devagarzinho os olhos das crianças seduzidas pela minha marcenaria."

Os barracos da favela entraram em sua vida, mesmo esteticamente, como as toras de madeira certificada que compõem suas esculturas -por acaso, acabaram numa exposição.

Os moradores de lá estavam ameaçados de despejo. Máquina em punho, Elisa fotografou as fachadas dos barracos para entregar ao juiz, alegando o direito de usucapião. "Tomei um susto quando vi as fotos, fiquei impressionada com as cores e as texturas que apareceram."

Além de uma defesa judicial, as imagens viraram uma exposição, intitulada "A Cidade e Suas Margens".

O relacionamento com as crianças no ateliê, onde estavam as máquinas para preparar as madeiras, ia deixando de ser esporádico. "Já não sabia o que fazer com tanta gente que chegava." E chegavam cheias de problemas.

A marcenaria ficou pequena para tanta curiosidade. Elisa alugou mais um galpão, grudado ao seu espaço. Batizado de Instituto Acaia, nascia um misto de ateliê, escola e parque de diversões, onde, além de uma marcenaria, se oferece culinária, capoeira, música, comunicação, dança e, claro, artes plásticas. "Tive de me reinventar." Na verdade, teve de fazer um curso de pedagogia prático.

A prova de que esse aprendizado prático está indo bem será visível hoje à noite, em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes. Como parte de seu seminário (Urban Age) sobre o futuro das metrópoles, sediado neste ano em São Paulo e organizado pela London School Economics, uma comissão escolheu 12 projetos que demonstrem inventividade -entre eles está a escola-ateliê de Elisa Bracher, com seus desejos de madeira.

CLÓVIS ROSSI

Éramos infelizes e não sabíamos

SÃO PAULO - Quer dizer, então, que os Estados Unidos estavam em recessão desde dezembro de 2007, mas só descobriram em dezembro de 2008? Não é sério. O pior é que todo mundo, inclusive os jornalistas, emprestamos ar de ciência a esse ritual de mandingas.

Recapitule comigo: o que se sabia, até anteontem, é que a economia norte-americana havia crescido até o fim do primeiro semestre, de acordo com os dados oficiais, o-f-i-c-i-a-i-s, repito. Mesmo nestes tempos de derivativos, o primeiro semestre de 2008 vem depois de dezembro de 2007.

Vinha, posto que agora aparece um tal de NBER (Escritório Nacional de Pesquisa Econômica) e jura que os Estados Unidos estão em recessão desde dezembro de 2007.

Da mesma forma que todo o mundo, inclusive os jornalistas, acreditamos que os EUA haviam crescido no primeiro semestre, agora acreditamos no NBER e anunciamos que os EUA não cresceram. Ao contrário, retrocederam.

Por que o NBER é mais oráculo oficial que os outros oráculos oficiais? Porque, dizem, leva em conta dados como desemprego, produção industrial, receita e vendas de indústria e comércio. Santo Deus, esses dados são todos públicos, qualquer um que saiba somar um mais um não precisa de um ano para determinar o estado de uma dada economia.

Posto de outra forma: é como encontrar um cidadão sangrando no asfalto um ano inteiro. Aí vem o tal NBER e diz "é, está sangrando". Só então o mundo vê a hemorragia?

Pior: o tal mercado usa a constatação "oficial" para sair vendendo ações e derrubando as Bolsas, conforme a "explicação" do dia para as quedas, apesar de a Bolsa ter subido uns dias antes, mesmo quando todos sabiam que o desemprego aumentara, a produção industrial caíra e indústria e comércio vendiam menos. Quiromantes fariam melhor.

crossi@uol.com.br


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - MARTHA MEDEIROS


Se “acham” e se perdem

Tem se falado muito em Woody Allen em função do sucesso que Vicky Cristina Barcelona tem feito, e também por causa do livro de entrevistas que acaba de ser lançado, em que o jornalista Eric Lax reúne, em quase 500 páginas, as diversas conversas que teve com o diretor desde que ele começou a dirigir seus primeiros filmes, há mais de 40 anos. Estou lendo o livro e percebe-se que Allen, nessa longa trajetória, mantém-se o mesmo sujeito desencanado.

Desencanado? Aquele paranóico?

Não estou falando das neuras, fobias e ansiedades que o diretor nunca escondeu de ninguém e nas quais se baseou para criar roteiros formidáveis. Estou falando sobre ser desencanado da fama.

Desencanado dessa necessidade que tantos artistas têm de se apresentar ao mundo como semideuses. Woody Allen só marcou presença na capa das revistas de fofoca uma vez: quando se separou da atriz Mia Farrow para se casar com a filha adotiva que essa teve com o primeiro marido.

A asiática Soon-Yi era uma adolescente, e o escândalo estava armado. Woody Allen foi tratado como pedófilo e apostava-se que a tara seria passageira, mas o casal segue junto até hoje e os ânimos se acalmaram: não era tara, era amor. Que decepção.

Afora esse episódio polêmico, Allen é notícia apenas pelos seus filmes. Não freqüenta baladas e não tem o ego inflado. Ao contrário: sua maior excentricidade é ser tímido e se espantar quando o chamam de gênio.

Cada vez me convenço mais de que aqueles que são gênios são os únicos que conseguem prescindir da autopromoção excessiva e manter-se com os dois pés fincados no solo. É por duvidarem de si mesmos que evoluem a cada dia.

Esse assunto me ocorreu porque, numa recente viagem a trabalho, passei 24 horas em companhia de uma produtora de eventos e ouvi histórias incríveis.

Soube de atrizes de terceiro escalão que cobram R$ 70 mil para fazer a apresentação de um seminário (um boa-tarde na entrada e um boa-noite na saída:

R$ 70 mil!), atores mal saídos das fraldas que exigem mordomias de veteranos, sem falar no que a gente sabe pelos jornais – atrizes histéricas pela falta de comida light no camarim e megastars exigindo que troquem todos os assentos dos vasos sanitários por onde irá passar com sua turnê – e nada de comida nativa, eca.

Podem? Claro. A graça da coisa talvez seja essa. Já que são perseguidos por paparazzi, já que têm sua vida íntima investigada, já que não podem caminhar num parque sossegados, compensam agindo como seres de outro planeta e tendo acessos risíveis de megalomania.

Mas eu ainda prefiro rir das piadas inteligentes que Woody Allen insere em seus filmes, aqueles que ele dirige entre um acesso de modéstia e outro.

Aproveite o dia - Tenhamos todos uma ótima quarta-feira


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - DAVID COIMBRA


A frase de Leonardo Astrada

Havia aqui no jornal um repórter chamado John Lennon. Apelidado, digo. Não era parecido com o John Lennon da Yoko, nem cantava, que eu soubesse. Mesmo assim, todos o chamavam de John Lennon por alguma razão. O Professor Ruy, de Djamm Lennammm.

John Lennon gostava muito de futebol. Um dos seus ídolos era Alfinete, que militou na lateral-direita do Grêmio nos anos 80. Curioso: foi a única pessoa que conheci que teve Alfinete como ídolo.

O John Lennon, de fato, nunca foi um sujeito convencional. Consagrou-se no Esporte da Zero como o autor de um dos lides imortais da história do jornal.

Lide, você sabe, é a primeira frase de um texto jornalístico, normalmente a mais importante, a que vai chamar a atenção do leitor para o resto da matéria. Esse lide do John Lennon ele o escreveu a respeito da situação do São José no Gauchão:

“As galinhas ciscavam pelo Estádio do Passo d´Areia, ontem pela manhã, sem se preocupar com a colocação do Zequinha no campeonato”.

As galinhas confiantes do Passo d´Areia tornaram-se célebres na Redação, e ainda hoje volta e meia há quem lembre delas.

Outro grande lide foi escrito pelo repórter Gilberto Jasper, então na Editoria de Geral. Ele foi fazer uma reportagem sobre apicultura e tascou:

“A abelha não faz mal. Faz mel”.

Geniel. Ops, genial.

Mas continuando com o nosso John Lennon. Quando o Grêmio contratou Leonardo Astrada do River Plate, ele foi designado para ir ao aeroporto a fim de colher a primeira entrevista do jogador. John Lennon adorava o futebol argentino, por isso saiu entusiasmado para fazer a matéria. Voltou mais entusiasmado ainda.

– Cara, tem que ver a primeira frase que o Astrada disse! – vibrou o John assim que chegou à Redação.

– O que ele disse, John? – perguntamos.

– A primeira frase, cara! A primeira em solo brasileiro! A primeiríssima!

– O que foi? O que foi?

Lembrei logo da primeira frase que Oberdan proferiu ao pisar no saguão do Salgado Filho em 1977:

– O Escurinho nunca mais vai cabecear na área do Grêmio!

Que frase! O homem chegou apresentando as credenciais. Astrada, argentino com alguma ilustração, devia ter dito algo do mesmo jaez. Assim, insistíamos:

– O que ele disse? O quê? O que, John???

E o John Lennon, empostando a voz:

– Ele chegou ao saguão. Olhou para mim. E falou: “Hola, que tal?” Não é uma maravilha? “Hola, que tal?” Sen-sa-cio-nal! Vou abrir minha matéria com isso. Hola, que tal...

Desta forma construiu-se mais um lide imortal.

Esse Leonardo Astrada, que ora retorna a Porto Alegre como técnico do Estudiantes, chegou à cidade trazendo no currículo vasto prestígio. Era chamado de El Jefe no River Plate. Lembro dele apresentando-se no Olímpico com a barba de três dias, os dedos dos pés emergindo sandálias afora e um olhar blasé de quem já tinha feito de tudo na vida. El Jefe.

Os gremistas queriam que ele chefiasse um time milionário, bancado pela ISL, onde despontariam Ronaldinho, Scheidt, Roger, entre outros. Foi uma decepção. El Jefe não chefiou nada, foi defenestrado para a reserva e, depois de várias tentativas malsucedidas, mandado de volta para a Argentina.

Estava curioso para ver Astrada como técnico, já que sua trajetória de jogador cheio de personalidade indicava que seria um bom comandante de vestiário.

No primeiro jogo contra o Inter, decepcionei-me de novo. Astrada fez seu time passar a noite inteira levantando a bola para a área do inimigo, um doce para o goleiro e os zagueiros adversários.

Verón, o maior astro do Estudiantes, esse então surpreendeu pela ingenuidade. Pegava a bola, levantava a cabeça e atirava-a na pequena área. Um jogador experiente, que já integrou a seleção argentina, não conseguiu flagrar-se do que acontecia no jogo.

Lógico, o Inter é bem melhor do que o Estudiantes, suponho que ganharia a partida de qualquer forma, mas a falta de perspicácia dos argentinos foi escandalosa.

Duvido que haja algo que Astrada ou Verón ou quem quer que seja do Estudiantes possa fazer nesta quarta-feira contra o futebol superior do Inter. Alex, D´Alessandro e Nilmar, sobretudo Nilmar, formam um tripé de ataque talvez único no Brasil.

Verdade que futebol, às vezes, é implausível. Mas ainda é mais verdade que só às vezes.


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - SERGIO FARACO


O Anjo da Morte

Naquela rua e quarteirões adjacentes o dentista Romildo Bello era o único morador com telefone, e então era comum que boas e más notícias de Porto Alegre viessem dar no Alegrete por seu aparelho, o 19.

Com o tempo e por algum motivo misterioso, ou nem tanto se figurada a catadura do doutor - olhinhos de rato, nariz de gancho e boca pequena, como desprovida de lábios -, o noticiário alvissareiro passou a eleger outros caminhos, e o fone 19 tornou-se exclusivo dos aziagos desenlaces.

Naqueles anos morria-se a miúdo, sem muita lengalenga, e o dr. Bello se desincumbia dos avisos como de um segundo ofício. Fez-se conhecido e temido. Se apontava na esquina, tremiam as famílias da rua, e na medida em que ultrapassava as portas sucediam-se suspiros num cortejo de alívios.

De repente parava, olhava para trás ainda a tempo de ver cabeças ansiosas se ocultando, e retesava-se. Hierático, levava o nó do dedo à fatídica porta. Três batidas, e os moradores, ah, eles já podiam ter certeza de que entre a parentalha havia um morto fresco. Bem, nem sempre alguém morrera.

Às vezes o aviso era de doença. Mas o dentista acrescentava: “Um caso perdido”. E não errava nunca. Era como se sua intermediação agravasse o estado do doente, abreviando-lhe os dias na parte de cima da terra.

Bem ou mal, dr. Bello continuava atendendo no consultório, e só o abandonou após um incidente que a todos surpreendeu: o Anjo da Morte arrastava uma asa pelos prazeres da vida, e não resistindo à juventude e à louçania de uma paciente, atirou-lhe um beijo à formosa boca.

A vítima pôs-se a gritar pelo nariz, e o dentista, grudado nela como uma ventosa, só desgrudou quando acudiu, em alvoroço, a freguesia do bolicho ao lado. Na mesma noite, o marido ofendido bateu à porta e lhe pespegou uma soberba tunda. Foi quanto bastou para a debandada das cáries.

Fechado o consultório, devotou-se aos avisos. Mas eram outros os tempos, já escasseavam as chamadas de Porto Alegre, já muitas famílias tinham telefone e já os moribundos, menos apressados, começavam a espernear.

E o ofício do doutor, como o dos seleiros, correeiros, tamanqueiros e encadernadores, encetava o mergulho no abismo em cujo fundo, com a dentama escancarada, espreitava-o a voragem do progresso.

Sem pacientes, mudo o fone 19 e sem vivalma que lhe nutrisse a fama ao passar desta para a pior, pôs-se a murchar, perdendo peso e estatura, e a andar sem rumo pelas ruas da cidade, do Hospital de Caridade ao Povo da Lata, da Ponte Seca ao Armazém da Portuguesa. Ainda vive em Alegrete.

E quando passa no quiosque da praça, arrastando seu desengrenado arcabouço, o populacho grita: “Sai, urubu”. E ele acelera o passo, o pobre, curvado ao peso da ingratidão citadina e de tantas e tantas mortes anunciadas.


03 de dezembro de 2008
N° 15808 - PAULO SANT’ANA


O sol saiu

Emocionante texto de um habitante de Itajaí, Santa Catarina: “Meus amigos. Hoje, 27 de novembro de 2008, o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar.

A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta ‘folga forçada’, a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própria tranqüilidade de ter onde ganhar o pão, mas também por ser um sinal de que a vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí.

Eu quero mesmo é falar sobre lições aprendidas. Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso, ainda é surpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorar no ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos mais primitivos.

As cenas e situações vividas neste final de semana prolongado em Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência. Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recuperá-la no seguinte.

Fizeram-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia, mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos.

Que aquela entidade superior em que cada um acredita (Deus, Alá, Buda, Gadu etc.) e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles:

– Que se aproveitaram da situação para fazer saques em supermercados, levando principalmente bebidas e cigarros;

– Que saquearam uma farmácia, levando medicamentos controlados, equipamentos e cofres e destruindo os produtos de primeira;

– Que pediam R$ 5 por um litro de água mineral;

– Que chegaram a pedir R$ 150 por um botijão de gás;

– Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vender nas áreas alagadas;

– Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendo suas casas atingidas;

– Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o que restava;

– Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seu coração;

– Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem em áreas secas.

Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe:

– Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingo no quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma;

– Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nos instruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver;

– A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim de semana, que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas e fizeram tanta diferença;

– A equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos de toda uma vida;

– Os soldados do Exército no Paraná e no Rio Grande do Sul;

– Os bravos gaúchos, tantas vezes vítimas de nossas brincadeiras, que trouxeram caminhões e caminhões de mantimentos;

– Os cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação se portaram com veteranos;

– Os bombeiros e policiais locais que resgataram, cuidaram , orientaram e auxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casas embaixo das águas;

– Os médicos voluntários;

– As enfermeiras voluntárias;

– Os bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos;

– Os helicópteros da Aeronáutica e Exército que fizeram os resgates nos locais de difícil acesso;

– Os incansáveis do Samu e das ambulâncias em geral, que não tiveram tempo nem pra respirar;

– O pessoal do helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrou que longo é o braço da solidariedade;

– O pessoal das rádios, que manteve a população informada e manteve a esperança de quem estava isolado em casa;

– Os estudantes, que emprestaram seus físicos para carregar e descarregar caminhões nos centros de triagem;

– As pessoas que cozinharam para milhares de estranhos;

– O empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex no centro de triagem;

– A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa;

– A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou;

– A todos que oraram por todos;

– Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas.

Que Deus abençoe a todos, até os que esqueci de citar.

(ass.) Luis Fernando Gigena, técnico educacional do Senac/Itajaí – SC”.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

Mulheres e cavalos

RIO DE JANEIRO - Acácio, o conselheiro, poderia dizer que o avião é necessário para se vencer longas distâncias. Incorporando o espírito de porco do personagem de Eça, eu diria que é perigoso também. Não pela hipótese de um acidente. Entendidos garantem que é o meio de transporte mais seguro do mundo.

O perigo é o sujeito que se senta ao lado. Contam por aí uma história envolvendo o finado cronista Antônio Maria e o cronista ainda sobrevivente que sou eu. Tudo se teria passado numa curta viagem entre Rio e São Paulo. No fundo, uma boa piada, digna do gordo autor de "Ninguém me quer".

Mas, na semana passada, enfrentei desafio pior. Depois de amarrado, o meu vizinho de banco cumprimentou-me efusivamente. Retribuí a amabilidade, agradecendo e procurando me acomodar para dormir durante a viagem.

Não deu jeito. Ele estava entusiasmado com um livro que lera há tempo e que, segundo sua próprias palavras, mudara a sua vida, sua visão de mundo.

O livro era "Não Verás País Nenhum", do Ignácio de Loyola Brandão. Custei a perceber o equívoco e, quando percebi, quis explicar que não era o autor do excelente romance, um dos melhores de nossa literatura moderna.

O sujeito não parava de louvar e comentar o livro que julgava de minha autoria. Com tal entusiasmo que eu me limitei a concordar com o meu silêncio, que ele tomou por modéstia.

Obrei bem permanecendo calado: além de imerecidos elogios, ouvi sugestões para uma dúzia de livros, que, infelizmente, não poderei escrever por falta de tempo e de talento.

Uma delas eu passo gostosamente ao Ignácio de Loyola: a do deputado gaúcho, mulherengo e viciado em corridas no Jóquei Clube, que atribuiu sua decadência pessoal, política e econômica às mulheres ariscas e aos cavalos lerdos.


HERÓIS ESQUECIDOS

Os professores da rede estadual do Rio Grande do Sul perderam mais uma batalha.

Ficaram sem receber pelos 16 dias de greve contra o projeto de lei do governo gaúcho com a finalidade de rejeitar o piso como vencimento inicial, a partir de 2010, fixado por legislação federal.

Foi o presente de Natal de Marisa Abreu e Yeda Crusius para o magistério. Presente grego, claro. Isso todo mundo já sabe. Os professores perderam um combate.

Ganharam outro. A urgência na votação do projeto governista foi retirada na Assembléia Legislativa. Pouco antes, os funcionários da Caixa Federal mantiveram uma greve de 24 dias. Não tiveram o ponto cortado e até agora nem horas extras fizeram para pagar o tempo não trabalhado.

Eu tenho toda a admiração do mundo por esses homens e mulheres que devem nos educar. Lembro-me dos meus professores em Palomas, dona Eulália, minha primeira paixão, ela com 19 anos, eu com 6, seu Modesto, dona Madalena, severa, rigorosa, durona, e seu Luis, que se chama Dartagnan, e me deu os primeiros livros a ler.

Ele caminhava cerca de 5 quilômetros, da atual BR 158 até a vila, para nos dar aula. Imagino a fortuna que ganhava. Esses heróis anônimos e esquecidos continuam maltratados.

Deles se espera o melhor. Que nos formem bem, com vocação missionária e conhecimentos seguros, para a profissão e a cidadania. Como eles são muitos, porém, a sociedade julga que não pode pagar-lhes bem.

Pede que se conformem. Quando reclamam, saturados de exploração, ainda ouvem de cínicos travestidos de pragmáticos que, se não estão contentes, mudem de atividade. A perversidade é gratuita.

Não pude dar respostas às centenas de e-mails que recebi nos últimos dias de professores contando as suas histórias de sacrifícios, baixos salários, altas cargas de trabalho, menosprezo das autoridades e paixão pelo ofício. As sociedades são como são e pouco podemos fazer contra os seus paradoxos.

Num mundo em que um técnico de futebol quase analfabeto pode ganhar R$ 500 mil por mês, sem qualquer compromisso com bons resultados, não há muito a esperar em educação.

Certamente não seria difícil mobilizar milhares ou milhões de pessoas para que fizessem doações destinadas a reter um craque no seu clube.

Mas seria impossível reunir contribuições para sustentar a greve dos professores até os governantes encontrarem soluções para o histórico problema dos baixos salários do magistério estadual.

A sociedade tem suas prioridades. Quer entretenimento e espetáculo. Aceita pagar mais por um gol, não por uma aula bem dada.

Sacrificados e desprezados, vítimas de todos os golpes possíveis, os professores ainda são acusados de vagabundagem e de ideologização. Esse ardiloso mecanismo de desqualificação se finge de não-ideológico.

Qualquer um sabe, no entanto, que isso é ideologia pura, reacionária, vil, selvagem e contraditória.

Bom mesmo é o Estado dar dinheiro para salvar bancos da falência. Na guerra dos clichês, sempre vence o lugar menos comum, aquele que encarna a posição dos donos do campinho. Enquanto isso, os professores, esquecidos do Estado, contam centavos.

juremir@correiodopovo.com.br


02 de dezembro de 2008
N° 15807 - CLÁUDIO MORENO


Só nós podemos entender

Os deuses do Olimpo são quase iguais aos humanos. Em tudo são parecidos conosco.

Como nós, eles também adoram reunir-se à volta de uma mesa para comer e beber com os amigos – não a carne, o pão e o vinho, rudes produtos da terra, mas a ambrosia e o néctar, alimentos divinos que o homem desconhece. A música também os encanta: vibram com a voz melodiosa das Musas e os sons da lira de Apolo.

Repousam como nós: a noite escura vai encontrá-los na paz de seu leito, e a Aurora dos dedos róseos faz romper a claridade da manhã para todos, deuses e homens, indistintamente. Quando choram, vertem lágrimas salgadas como as nossas; quando fazem amor, compartilham dos mesmos fluidos e das mesmas umidades.

Em contato com o ferro afiado, sua pele se rompe como a nossa, e a dor do ferimento é sentida com a mesma intensidade. Pois Homero não nos conta o quanto sofreu Afrodite ao ser ferida durante a guerra de Tróia?

Para salvar Enéias, seu filho, que estava prestes a ser abatido pelos gregos, ela tinha se aventurado no ponto mais aceso do combate; furioso por ver sua presa escapar, Diomedes não hesitou em atingir o delicado pulso da deusa com um pontaço de lança, fazendo-a desferir um grito lancinante.

Cega pela dor, Afrodite bateu em retirada; a pele alvíssima de seu braço começava a enegrecer em torno da chaga aberta, de onde jorrava não o sangue abundante dos mortais, mas o líquido claro e perfumado que corre nas veias dos deuses.

São quase idênticos a nós. Quase – não fossem duas diferenças essenciais. A primeira é sua perpétua juventude: eles nascem como qualquer um, crescem até uma determinada idade e estacionam ali, indefinidamente – Zeus será para sempre um homem adulto, na força da idade, enquanto Apolo nunca deixará de ser um jovem imberbe; no Olimpo, os dias não envelhecem.

A segunda, muito mais decisiva, é a imortalidade, porque os deuses, “os que nasceram para sempre”, são eternos como o Tempo. No mundo divino, a morte é desconhecida.

Por causa disso, um pensador antigo sugeriu que é natural que os deuses tenham, a respeito da morte, uma grande curiosidade – talvez até uma ponta de inveja.

Assim como água não tem muito sabor para quem não conhece a sede, assim os deuses, que não precisam morrer, não conseguem perceber o quanto a vida tem valor para quem sabe que vai perdê-la.

Nenhum dos imortais do Olimpo pode entender a sabedoria das palavras de Bobbio, quando define nossa humana condição: os que levam a morte a sério levam também a vida a sério – aquela vida, a minha vida, a única que tenho.

Aproveite o dia - Uma ótima terça-feira


02 de dezembro de 2008
N° 15807 - MOACYR SCLIAR


O lado bom

Não é de admirar que Deus tenha recorrido ao dilúvio para castigar o mundo. Inundação é catástrofe, como até mesmo a chuva de ontem em Porto Alegre mostrou. Mas mesmo as catástrofes, como a de Santa Catarina, têm alguma coisa de positivo.

Para começar, a cobertura da mídia foi sóbria, mostrando cenas impressionantes, mas sem sensacionalismo, e despertando a consciência dos brasileiros para o problema. O resultado foi um notável movimento de solidariedade, com pessoas se voluntarizando para ajudar e fazendo donativos.

Um outro, e positivo, aspecto resulta da comparação com a tragédia do furacão Katrina, que, em 2005, atingiu com especial violência a cidade de New Orleans. Mais de 1 milhão de pessoas tiveram de ser evacuadas; os mortos chegaram a 1,3 mil. E, neste caso, tivemos um fiasco político.

George Bush mostrou mais uma vez sua incompetência. Numa região em que os furacões são freqüentes, o Katrina era uma tragédia anunciada, a respeito da qual Bush foi repetidamente, e até desesperadamente, avisado, sem tomar posição alguma (numa entrevista na véspera, sequer respondeu a perguntas a respeito).

Estava em viagem e, de fato, na manhã em que o Katrina varreu a cidade, uma foto mostrava-o em San Diego, tocando guitarra (o que lembra o imperador Nero dedilhando sua harpa enquanto Roma se incendiava). Só dias depois, o presidente foi a New Orleans.

A ajuda foi tardia e pequena, levantando a suspeita de que a população de New Orleans, em grande parte pobre e negra, não chegava a motivar a presidência americana. Agora: o George Bush que, em uniforme militar, e em postura altaneira, anunciou, do convés de um porta-aviões que a guerra contra o Iraque estava ganha, este sim, parecia motivado, e muito motivado.

Que coisas semelhantes não tenham aqui acontecido é um sinal da maturidade brasileira. Não vimos, por exemplo, aquela tradicional briga entre níveis de governo, autoridades municipais tentando passar a batata quente para o governo estadual e este botando a culpa na administração federal. Estava todo mundo junto, todo mundo – e esta imagem infelizmente é muito adequada – no mesmo barco.

O texto que aqui publiquei, na semana passada, sobre o suposto imperialismo brasileiro, suscitou vários, e brilhantes, comentários. Para começar, veio um e-mail do correspondente da revista Newsweek (ZH chega longe), Mac Margolis, autor do artigo sobre o suposto imperialismo brasileiro, que aqui comentei.

Aliás, devo uma desculpa ao Margolis. Da maneira como escrevi, dava a impressão de que ele endossava a expressão. De jeito nenhum, Margolis é muito crítico em relação a isso.

Também me escreveram o Prof. Duilio de Avila Bêrni, com uma lúcida análise, a Maria Morales H. Dias (“Não há um imperialismo brasileiro, mas pode-se falar num imperialismo à brasileira”), o Ivan Sanchez Bornes (“Hoje vemos o Brasil ‘colonizar’ outros países exportando multinacionais”), e o jornalista Ib Kern, lembrando que a questão é bem antiga, da década de 70:

“Da malograda Transamazônica, dizia-se ter como objetivo invadir o Equador, caso a crise petrolífera de então deixasse o Brasil sem combustível”.

Registro também as mensagens, sobre outros temas, de José Diogo Cyrillo da Silva, de Luciano Sheikk, de Marino Boeira, de Romeu Finato (que, adequadamente coloca junto ao nome, a ressalva “o vivo”), do dr. Fernando Luiz Brauner, e da enfermeira Suzane Silva.

O Jorge Ritter transcreve uma notícia do New York Times falando sobre um pequeno jornal da California que mandou embora seus colaboradores contratando, por salários bem inferiores, jornalistas hindus (isso mesmo, hindus) que escrevem desde a Índia coletando informações locais por e-mail e celular. Realmente, o mundo ficou globalizado, demasiadamente globalizado.

A professora. Maria Tereza Amodeo (PUCRS) gostou da crônica sobre a Era do Ego (Donna) e o jornalista Sérgio Dillemburg lembra os 90 anos da gripe espanhola de 1918 aqui no RS (vacinem-se, amigos).

Por último, uma homenagem a Olga Reverbel, pioneira do teatro infantil no RS e grande pessoa, ontem falecida e que deixou muitos, e bons, amigos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008


MOACYR SCLIAR

O futuro na geladeira

Um dia ela ainda ingressaria no curso de administração, um dia brindaria a seu futuro; era só questão de esperar

Amélia, 80, interrompe sonho de ter vaga na USP para comprar geladeira. Amélia Pires fará 80 anos em 6 de dezembro um pouco mais distante de seu sonho. Desde 2004, presta a Fuvest. Quer um diploma do curso de administração da USP.

Neste ano, porém, não esteve entre os 138.242 aspirantes a vaga na universidade. A geladeira estava imprestável, e o dinheiro da inscrição - ajuda de um sobrinho - foi usado para pagar a prestação de uma nova. Cotidiano, 24 de novembro de 2008

NÃO FOI UMA decisão fácil, como se pode imaginar. Curso de administração ou geladeira? A favor de ambas as coisas, o curso e a geladeira, havia argumentos. O curso era algo com que sonhava havia muito tempo, desde jovem, para dizer a verdade.

Primeiro, porque era uma fervorosa admiradora da atividade em si, da administração. Organizar as coisas, fazer com que funcionem, levar uma empresa ao sucesso, mesmo em épocas de crise, sobretudo em épocas de crise, parecia-lhe um objetivo verdadeiramente arrebatador.

Com o curso, ela poderia tornar-se, mesmo com idade avançada, numa daquelas dinâmicas executivas cuja foto via em jornais e em revistas.

Mas a geladeira... A verdade é que ela precisava de uma geladeira nova. A antiga estava estragada, e tão estragada que o homem do conserto aconselhara-a a esquecer "aquele traste" e partir para algo mais moderno.

E isso precisava ser feito com urgência: todos os dias estava jogando fora comida que estragara por causa do inconfiável eletrodoméstico.

Era o curso ou a geladeira. Era apostar no futuro ou resolver os problemas do presente. Ou se inscrevia na universidade ou pagava a prestação na loja: tinha de escolher. Dilema penoso. Durante duas noites não dormiu, fazendo a si própria cálculos e ponderações.

"Faça o curso", sussurava-lhe ao ouvido uma vozinha, "você será outra pessoa, uma pessoa com conhecimento, com dignidade, uma pessoa que todos respeitarão". E aí outra vozinha intervinha: "Deixe de bobagens, querida.

Geladeira é comida, e comida é o que importa. Como é que você vai se alimentar, se a comida continuar estragando desse jeito? Seja prática". Duas vozinhas. Anjinho e diabinho? Nesse caso, qual era a voz do anjinho, qual a do diabinho? Mistério.

Na manhã do terceiro dia sentiu um mau cheiro insuportável, vindo da cozinha. Foi até lá, abriu a geladeira e, claro, era a carne que simplesmente tinha apodrecido. Foi a gota d'água. Vestiu-se, foi até a loja, e comprou a geladeira nova.

Que lhe foi entregue naquele mesmo dia. Era uma bela geladeira, com muitos dispositivos que ela mal conhecia. "Vou ter de fazer um curso para aprender a operar essa coisa", disse ao homem da entrega.

Ele concordou: "Sempre é bom fazer cursos". Instalada a geladeira, ela tratou de colocar ali os alimentos e as bebidas. Foi então que encontrou a garrafa de champanhe.

O champanhe que tinha comprado para celebrar com os vizinhos a sua entrada na universidade. Suspirou. O que fazer com aquilo, agora? Dar de presente para o sobrinho que a ajudara com o dinheiro da inscrição? Resolveu guardar a garrafa.

Bem no fundo da geladeira. Um dia ela ainda ingressaria no curso de administração, um dia brindaria a seu futuro. Era só questão de esperar. Sem medo: uma boa geladeira conserva qualquer champanhe.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

MARCO AURÉLIO CANÔNICO - DA REPORTAGEM LOCAL

"Garfield é um sucesso porque ele só come e dorme"

Jim Davis, o criador do gato, afirma que a popularidade surgiu porque ele foge de comentários políticos e sociais

Personagem é tema de livro, de desenhos animados e estrelará longa que chega aos cinemas brasileiros em março do ano que vem

Ele é um fenômeno: gordo, preguiçoso, mal-humorado e cruel. Mesmo assim, freqüenta a casa de milhões de pessoas há 30 anos. Garfield, o gato marrento criado por Jim Davis em 1978, chega às três décadas com motivos para manter a empáfia: sua tira, publicada na Folha e em mais de 2.500 jornais, é das mais populares do mundo.

O personagem é uma máquina de dinheiro: está presente em 111 países e fatura globalmente, segundo seus administradores, quase US$ 5 bilhões por ano em produtos licenciados - 20% desse valor apenas no mercado brasileiro, onde estreou em outubro de 1985.

Para comemorar, ele ganha um livro, "Garfield - 30 Years of Laughs & Lasagna: The Life & Times of a Fat, Furry Legend!" ("30 anos de gargalhadas e lasanha", que está sendo negociado para publicação no Brasil), e uma série de desenhos animados, já comprada pelo Cartoon Network e pela Record e que deve estrear nos próximos meses.

Também terá um longa de animação, "A Festa do Garfield", que chega aos cinemas brasileiros em março.

A Folha conversou, por e-mail, com Jim Davis, 63, o homem que ainda cuida pessoalmente de cada tirinha do gato que criou inspirado em seu avô. Para ele, o sucesso do personagem é facilmente explicável: "Comer e dormir são coisas que todos fazem. Além disso, por ser um gato, ele pode ser de qualquer raça, etnia e religião".

FOLHA - Por que o sr. deu ao personagem o nome de seu avô?

JIM DAVIS - Tinha seis anos quando meu avô Davis morreu, mas minhas lembranças dele são vívidas. Ele era um homem grande, com um colo imenso.

Parecia ranzinza por fora, mas, por dentro, tinha um coração mole. Era assim que eu imaginava o Garfield. Ele é fanfarrão, mas, no fundo, é um bom gato.

FOLHA - Há muitos paralelos entre os personagens e as situações de "Garfield" e sua vida real? Sua personalidade entra na sua criação?

DAVIS - Eu me identifico particularmente com Jon Arbuckle, o dono do Garfield. Quando estou escrevendo [histórias] para Jon, tudo que preciso fazer é me lembrar de meus dias de namoro na época do colégio. Eu era o que mais levava foras!

Sempre esperava até o último minuto antes de chamar alguma garota para sair, não tinha dinheiro para bancar um encontro de verdade. Mas, tudo bem, não dá para não gostar do Jon, porque ele sempre olha o lado positivo das coisas.

FOLHA - Quais foram suas inspirações como artista?

DAVIS - Quando criança, adorava o "Steve Canyon", de Milton Caniff. Ele me abriu para mundos que eu não sabia que existiam. "Peanuts", do Charles Schulz, foi minha maior inspiração.

Amava seu humor sutil e seu traço simples. Schulz sabia ver o mundo com olhos de criança, ele me ensinou o incrível poder de tratar com leveza as coisas simples da vida.

FOLHA - Houve uma era de ouro do "Garfield"?

DAVIS - Honestamente, gostei de cada ano. Às vezes revejo algumas tiras e lembro, "este foi o ano em que fiz uma operação na coluna". Consigo rever minha vida olhando o que ocorreu nas tirinhas.

Espero que a era de ouro ainda esteja por vir, mas, em termos da existência da tira, o melhor dia foi aquele em que recebi telefonema do sindicato de HQs dizendo que tinham selecionado "Garfield".

FOLHA - O sr. pensou no que faria para a tira ser universal?

DAVIS - Mantive as tirinhas livres de comentários políticos ou sociais. Ela é impressa no mundo todo, quero que as pessoas se identifiquem com ela independentemente de seus ideais políticos, por isso me ative à comida e ao sono [como temas].

Todo mundo come, todo mundo dorme, mas nem todo mundo vai se interessar por minha visão de mundo. Só estou querendo entreter as pessoas.

FOLHA - Como Garfield envelheceu à medida que o sr. envelhecia?

DAVIS - Há muito mais piadas sobre idade na tirinha. Garfield se dá conta de sua idade uma vez por ano, em seu aniversário, em 19/6. Assim como eu, ele fica progressivamente mais resmungão cada vez que ganha mais um ano. Garfield se recusa a crescer, e minha mulher diria o mesmo de mim.

FOLHA - Garfield é famoso por ser comilão e gordo. Com a obesidade se transformando em um grave problema de saúde nos EUA, o sr. passou a receber muitas reclamações?

DAVIS - Algumas, mas a maioria das pessoas perdoa os maus hábitos de Garfield porque ele é um gato. Recebi um telefonema de alguém que achava que o Garfield deveria fazer um vídeo de exercícios para compensar os maus hábitos. Garfield e exercícios, é forçar a barra.

FOLHA - Com que freqüência o sr. desenha? Planeja se aposentar?

DAVIS - Uma vez por mês me reúno com dois assistentes e trocamos idéias, rimos. Nos concentramos nisso por três ou quatro dias. Ainda escrevo os roteiros, mas tenho ajuda para desenhar. Não planejo me aposentar por ora.

FOLHA - A tecnologia mudou a maneira como o sr. cria?

DAVIS - Mudou o modo como fazemos quase tudo, mas ainda começamos com um rascunho de lápis em papel, depois desenhamos em uma cartolina e aí recebe contorno de tinta e as letras. O computador só entra no processo quando ele é digitalizado, colorido e distribuído.

FOLHA - Que impacto a internet teve nos cartuns?

DAVIS - Um impacto imenso. Adoro jornais e ainda gosto de virar as páginas, mas muita gente procura por notícias e cartuns on-line.

Nos demos ao trabalho de criar um mecanismo de busca para as tiras do Garfield, para que fosse possível digitar a palavra "café", por exemplo, e achar inúmeras tirinhas que falam disso. Além disso, ela está disponível on-line em espanhol.

Um dia desses vai ser divertido animar cada tirinha. A outra coisa que a internet fez foi democratizar os cartuns. Qualquer um pode publicar sua tira.

FOLHA - Do que o sr. se lembra de suas visitas ao Brasil?

DAVIS - Estive aí duas vezes, tive um jantar memorável com Mauricio de Sousa. Recebo muita correspondência do Brasil, as pessoas parecem se identificar bastante com Garfield.


AMIZADE, BÊNÇÂO DIVINA

É um encontro com a Paz
É percorrer o tempo sem medo
É a doçura de se saber querida
É a pausa da vida

Para o descanso fraterno
É o consolo eterno
Sem ter medo de ser julgada
Mas, de ser ouvida

E acima de tudo, compreendida
É o ombro de Deus
Na forma de um humano
É tristeza dividida

Alegria repartida
Felcidade multiplicada
Sonhos e expectativas compartilhadas
É o diário carinho

Impresso em palavras amáveis
Criação de imagens sensíveis
Poema visual
Festa para os olhos e a mente

Um coração que nos entende
Com mágica confiança
Ao saber de nossos sonhos
Nos estimula, acende nossa esperança

Reforça o nosso ânimo, a nossa fé
Reenergisa a nossa alma
Está sempre em nossa lembrança
Faz parte de nossa felicidade

Presença da generosidade
É nosso elo com o Criador
Ser do cândido amor
É VOCÊ, Amigo Querido!

Vera linden

"Deus diz silenciosamente que somos grandes, maiores que os nossos problemas e podemos vencê-los mesmo que estejamos fracos...E Ele nos dá amigos...amigos especiais, que lançam sobre nós a fé e a esperança de voltar a viver, sempre que os nossos sonhos adormecem, e morrem dentro de nós "


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Janelas da alma

Tem agora um comercial na TV em que um cara, dirigindo um carrão, pára num sinal e recebe uma secada de uma mulher que atravessa a rua. Para deixar claro que aquilo não foi acidental, a dama dispara uma segunda secada, o que faz o sujeito mudar imediatamente o rumo de seu itinerário.

Aqui eu talvez deva fazer ponto-e-vírgula. Não existe a palavra secada no Dicionário Houaiss, o mais completo da língua portuguesa. Tem secador, que é aquilo que tira a umidade e se presta a variadas outras utilidades domésticas.

Razão bastante para que eu explique aqui, com elevado espírito didático e lexicográfico, o que, nestas paragens meridionais e meio esquecidas da nação, se entende por secar.

Era assim: você estava posto em sossego na reunião dançante de domingo à tarde no Grêmio Náutico Tamandaré, em Cachoeira, quando percebia que alguém o fitava, com graça e sedução. Você não apenas correspondia aos olhares, mas ia tirar a garota.

Você estava tranqüilo, num baile do Clube Comercial, da Sociedade Rio Branco, ou do Caiçara Piscina Tênis Clube, quando notava que um par de olhos azuis o mirava, com delicadeza e dissimulação. Você punha a cuba libre de lado e ia tirar a moça. E eram felizes para sempre, ou ao menos pelo espaço de sonho de uma noite de verão.

Os olhos são as janelas da alma, já dizia Machado, com toneladas de razão e bom senso. Eles estão, aliás, largamente presentes na literatura, a começar pela de Shakespeare, que citei antes sem nomear.

É este, a propósito, que pergunta se há no mundo escritor que nos ensine beleza como o olhar de uma mulher. E Elizabeth Browning é definitiva ao escrever que “ela não me deveria ter olhado muito, se pensava que eu não devia amá-la”.

Já se vê que os criadores do anúncio de que falei no começo destas linhas estão na melhor das companhias. A historinha contida nele não chega a um final, mas é de se acreditar que foi o mais inspirador possível.

Pois é esse o destino de uma secada: os olhos de um homem e uma mulher se cruzando, para que seus corpos e seus corações se encontrem.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana a você.


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - KLEDIR RAMIL


As mulheres de Pelotas

Kleiton e eu estamos gravando um novo CD/DVD que deverá ser lançado em março de 2009. É um disco de músicas inéditas e entre elas aparece Pelotas, uma homenagem à nossa terra natal.

Em um determinado trecho, a letra diz: “é muita guria linda / eu fico até espantado / nunca vi tanta beleza / por cada metro quadrado”.

Pelotas é famosa por seus doces, sua arquitetura, seu patrimônio cultural e por suas mulheres bonitas. Infelizmente, também é famosa pelas piadas que questionam a masculinidade de seus rapazes.

Pura inveja. Acontece que nós, os pelotenses, somos homens refinados. Exatamente o tipo de homem que faz sucesso hoje em dia. A mulher moderna não gosta de brutamontes, gosta de ter a seu lado um companheiro educado, sensível, delicado. Desde que, é claro, cumpra as suas funções.

Voltando à beleza da mulher pelotense. A primeira Miss Universo foi Yolanda Pereira, natural de Pelotas, que venceu o concurso em 1930, quando ele ainda se chamava “Concurso Internacional de Beleza”.

Segundo comentários da época, “o parecer da comissão julgadora levou em conta quesitos como beleza, graça, equilíbrio, proporção, formas e distinção. Os jurados também estiveram atentos à visão do conjunto”.

Depois de Yolanda Pereira, muitas outras pelotenses que tinham “graça”, “formas” e boa “visão de conjunto” fizeram sucesso nas passarelas, no teatro e no cinema.

Alguns dias atrás, minha mãe me ligou contando que “a neta da Diosma” ia aparecer no Fantástico. Liguei a TV e, para minha surpresa, a guria surgiu em Paris como vencedora do concurso “O bumbum mais bonito do mundo”.

“A neta da Diosma” se chama Melanie Nunes Fronckowiak, tem 20 anos e se você examinar bem vai notar que, além da bunda, o resto também é muito bonito: braços, pernas, rosto… E pelas entrevistas, parece uma guria bem inteligente.

Estou convencido de que se inventarem um concurso de joelhos, de mãos, de orelhas, de seja lá o que for, a gente ganha.

O sucesso de Melanie só reforça minha tese de que Pelotas é a terra das mulheres mais lindas do mundo. Sejam inteiras, ou aos pedaços.


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - PAULO SANT’ANA


Os dramas da enchente

São incontáveis os dramas humanos agudos que se desenrolaram em Santa Catarina durante a calamidade das chuvas.

Alguns deles foram retratados com muita eficiência e desvelo nas páginas de ontem de Zero Hora, quando os repórteres Carlos Etchichury e Itamar Melo trouxeram-nos relatos dramáticos das pessoas que perderam seus familiares, mortos na tragédia,

além do tremendo vazio existencial que se instala entre os desabrigados, farrapos humanos que ficaram sem suas casas, sem seus móveis, sem seus animais de criação, muitos deles até mesmo sem seus terrenos, outros sem seus empregos.

Ficaram sem nada, têm de reconstruir tudo. Uma desolação.

E como não foi a mão humana que deflagrou a calamidade, ao contrário das tragédias em que há culpados, a indignação deixa lugar só para a perplexidade.

E chega a dar orgulho em quem é gaúcho a forma como nosso Estado está se solidarizando material e moralmente com os irmãos catarinenses.

Ficou para a última rodada a decisão do campeonato nacional.

Mas a classificação do Grêmio para a Libertadores já se constituiu num grande alívio para a torcida gremista. Caso o São Paulo vença o Goiás no próximo domingo, restará o consolo para os gremistas de participar da Libertadores em 2009.

E num campeonato cuja fórmula se revelou desastrosa nas rodadas finais, com times jogando com reservas e outros, como o Botafogo, ontem, perdendo de propósito para o Figueirense para tentar rebaixar o Vasco, elogie-se o comportamento dos jogadores do Internacional que atuaram ontem e do técnico Tite:

eles tiveram alto grau de dignidade profissional e não se importaram que sua vitória sobre o Cruzeiro pudesse favorecer o Grêmio. Que belo exemplo de honradez e desportividade.

Não foi o Inter que classificou o Grêmio para a Libertadores. Mas o admirável é que o Inter, em campo, desconheceu que sua vitória pudesse favorecer o Grêmio. Parabéns.

O último esforço da direção do Grêmio terá de ser o envio para o Goiás de substancioso bicho extra visando à decisão, que foi transferida estranhamente para Brasília.

Sem grande bicho extra, qual será a motivação do Goiás?


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - LF VERISSIMO


Müller e Anaïs

Estou me sentindo culpado. Nunca usei o trema. Desde que aprendi a escrever – sem piadas, por favor – ,ignorei o trema. Quando comecei a escrever, por assim dizer, em público, continuei a ignorá-lo.

Os revisores, se quisessem, que acrescentassem os tremas onde cabiam. Por vontade própria, nunca botei olhos de cobra em cima de nenhum “u”.

Nem mesmo quando o computador, com sua conhecida aversão à informalidade gramatical, sublinhava a palavra em vermelho para me avisar que estava faltando o trema, burro! Se dependesse de mim, o trema não existiria.

Mas com a nova reforma ortográfica, o trema vai desaparecer. E eu fiquei com remorso. Talvez tenha sido injusto com ele. O trema, afinal, tinha uma história. Tinha uma razão para existir, mesmo modesta. Tinha uma função, mesmo dispensável. E eu o desdenhara sem dó, coitadinho. Como me penitenciar?

Esta pode ser a última oportunidade que terei para usar o trema e compensar todas as vezes que o omiti por pura implicância. A reforma já está sendo implantada, os pontinhos marcham, dois a dois, para o esquecimento, tenho pouco tempo para me reabilitar. Mas como?

Quase todas as matérias que li sobre o fim do trema citavam que ele só continuará sendo usado em nomes estrangeiros como Müller e Anaïs. Müller e Anaïs! Uma história para Müller e Anaïs, rápido.

Uma história com seqüência, conseqüência, eloqüência...

Talvez uma história policial: a dupla Müller e Anaïs atrás de delinqüentes.

Ou uma história de excessos eqüestres levando ao uso freqüente de ungüentos.

Ou uma simples cena doméstica. Müller e Anaïs na cozinha do seu apartamento, eqüidistantes de um pingüim em cima da geladeira. Müller acaba de chegar da rua.

– Anaïs, esse pingüim...

– Quêqui tem?

– Eu não agüento esse pingüim, Anaïs.

– Ele está aí há cinqüenta anos e só agora você nota?

– Cinqüenta anos, Anaïs?

– Está bem, cinco. Um qüinqüênio.

– Um qüinqüênio?

– Um qüinqüênio. E vai ficar aí outro qüinqüênio.

– Não se usa mais pingüim em geladeira, Anaïs. É uma coisa do passado. Como a crase.

– Pois eu gosto e está acabado. Trouxe a lingüiça?

domingo, 30 de novembro de 2008


VINICIUS TORRES FREIRE

O maior banco do mundo

Mais incrível que a "ajuda a bancos" foi o Fed assumir a oferta de crédito cotidiana na economia dos Estados Unidos

O BC dos EUA tornou-se entidade estranha segundo o padrão das idéias econômicas. Apesar da crise braba, editoras de manuais de macroeconomia e economia monetária deverão ganhar um bom dinheiro com edições agora de fato revisadas de livros-texto.

O Fed entrou e vai navegar um tempão no mar da heterodoxia (nada a ver com o uso brasileiro do termo). O Estado comprou fatias de instituições financeiras (AIG etc.), deu crédito camarada a bancos, garantiu quem comprou banco quebrado (JPMorgan e Bear) e garantiu perdas de bancos semimortos (Citi).

Mas o Fed tem feito e vai fazer algo muito maior. Tornou-se um enorme banco de investimentos, não mais um "emprestador de última instância" (que tapa rombos emergenciais de uma instituição).

O Fed não trata mais apenas de um "problema de liquidez" (de oferta circunstancialmente restrita de dinheiro, quando bancos relutam emprestar até mesmo entre eles).

O Fed jorra dinheiro porque, mesmo a taxa "básica" efetiva de juros tendo caído abaixo da meta oficial de 1% (flutua em torno de 0,3%), o dinheiro não circula, a economia entrou em recessão e teme-se deflação.

Não há, na prática, mais diferença entre o objetivo maior da política monetária (inflação numa meta ou banda) e o de prover liquidez. O Fed parece fazer política monetária "quantitativa", de aumento de dinheiro na praça (em vez de se pautar pela meta de juros), coisa que se praticava há quase 30 anos.

Parece, pois o Fed não tem, claro, meta quantitativa, e a situação toda é heterodoxa.
O Fed vai comprar até US$ 540 bilhões de títulos de posse de fundos de investimento. Esses fundos obtêm seus rendimentos, e assim remuneram os aplicadores, de papéis comprados de bancos e empresas.

São fonte enorme de capital de giro. O Fed já tem na conta US$ 295 bilhões de "commercial papers" (notas promissórias, crédito de curto prazo), os papéis que financiam operações de empresas.Trata-se de 18% do total do valor desse tipo de papéis no mercado.

O Fed vai comprar US$ 200 bilhões de "recebíveis" de empréstimos para estudantes, para a compra de carros e para cartão de crédito. Isto é, vai comprar títulos lastreados nos pagamentos dessas dívidas. Enfim, vai rolar o crédito parado ou encarecido nesses setores.

O Fed vai ainda comprar até US$ 500 bilhões de títulos lastreados em pagamentos de prestações imobiliárias, hipotecas compradas e securitizadas pelas empresas privadas mas "paraestatais" Fannie Mae, Freddy Mac e Ginnie Mae. O valor no carrinho de compras do Fed deve equivaler ao do PIB brasileiro.

Isso não significa que o BC dos EUA está dando dinheiro. Significa que o mercado de securitização, o que faz o crédito rodar nos EUA, está ainda em coma.

Significa que o Fed assume ativos, coloca dinheiro fresco nas instituições financeiras, de modo que elas se animem a emprestar de novo -o que não está acontecendo, por medo ou falta de capital.

Caso estudantes, compradores de carro, de casas, empresas e bancos não paguem suas dívidas, o Fed perde.

Pode também recuperar o dinheiro público investido, mas isso não vai ser rápido, e nem o Fed vai conseguir vender tais títulos no mercado tão cedo -caso consiga.

vinit@uol.com.br