terça-feira, 2 de dezembro de 2008



02 de dezembro de 2008
N° 15807 - MOACYR SCLIAR


O lado bom

Não é de admirar que Deus tenha recorrido ao dilúvio para castigar o mundo. Inundação é catástrofe, como até mesmo a chuva de ontem em Porto Alegre mostrou. Mas mesmo as catástrofes, como a de Santa Catarina, têm alguma coisa de positivo.

Para começar, a cobertura da mídia foi sóbria, mostrando cenas impressionantes, mas sem sensacionalismo, e despertando a consciência dos brasileiros para o problema. O resultado foi um notável movimento de solidariedade, com pessoas se voluntarizando para ajudar e fazendo donativos.

Um outro, e positivo, aspecto resulta da comparação com a tragédia do furacão Katrina, que, em 2005, atingiu com especial violência a cidade de New Orleans. Mais de 1 milhão de pessoas tiveram de ser evacuadas; os mortos chegaram a 1,3 mil. E, neste caso, tivemos um fiasco político.

George Bush mostrou mais uma vez sua incompetência. Numa região em que os furacões são freqüentes, o Katrina era uma tragédia anunciada, a respeito da qual Bush foi repetidamente, e até desesperadamente, avisado, sem tomar posição alguma (numa entrevista na véspera, sequer respondeu a perguntas a respeito).

Estava em viagem e, de fato, na manhã em que o Katrina varreu a cidade, uma foto mostrava-o em San Diego, tocando guitarra (o que lembra o imperador Nero dedilhando sua harpa enquanto Roma se incendiava). Só dias depois, o presidente foi a New Orleans.

A ajuda foi tardia e pequena, levantando a suspeita de que a população de New Orleans, em grande parte pobre e negra, não chegava a motivar a presidência americana. Agora: o George Bush que, em uniforme militar, e em postura altaneira, anunciou, do convés de um porta-aviões que a guerra contra o Iraque estava ganha, este sim, parecia motivado, e muito motivado.

Que coisas semelhantes não tenham aqui acontecido é um sinal da maturidade brasileira. Não vimos, por exemplo, aquela tradicional briga entre níveis de governo, autoridades municipais tentando passar a batata quente para o governo estadual e este botando a culpa na administração federal. Estava todo mundo junto, todo mundo – e esta imagem infelizmente é muito adequada – no mesmo barco.

O texto que aqui publiquei, na semana passada, sobre o suposto imperialismo brasileiro, suscitou vários, e brilhantes, comentários. Para começar, veio um e-mail do correspondente da revista Newsweek (ZH chega longe), Mac Margolis, autor do artigo sobre o suposto imperialismo brasileiro, que aqui comentei.

Aliás, devo uma desculpa ao Margolis. Da maneira como escrevi, dava a impressão de que ele endossava a expressão. De jeito nenhum, Margolis é muito crítico em relação a isso.

Também me escreveram o Prof. Duilio de Avila Bêrni, com uma lúcida análise, a Maria Morales H. Dias (“Não há um imperialismo brasileiro, mas pode-se falar num imperialismo à brasileira”), o Ivan Sanchez Bornes (“Hoje vemos o Brasil ‘colonizar’ outros países exportando multinacionais”), e o jornalista Ib Kern, lembrando que a questão é bem antiga, da década de 70:

“Da malograda Transamazônica, dizia-se ter como objetivo invadir o Equador, caso a crise petrolífera de então deixasse o Brasil sem combustível”.

Registro também as mensagens, sobre outros temas, de José Diogo Cyrillo da Silva, de Luciano Sheikk, de Marino Boeira, de Romeu Finato (que, adequadamente coloca junto ao nome, a ressalva “o vivo”), do dr. Fernando Luiz Brauner, e da enfermeira Suzane Silva.

O Jorge Ritter transcreve uma notícia do New York Times falando sobre um pequeno jornal da California que mandou embora seus colaboradores contratando, por salários bem inferiores, jornalistas hindus (isso mesmo, hindus) que escrevem desde a Índia coletando informações locais por e-mail e celular. Realmente, o mundo ficou globalizado, demasiadamente globalizado.

A professora. Maria Tereza Amodeo (PUCRS) gostou da crônica sobre a Era do Ego (Donna) e o jornalista Sérgio Dillemburg lembra os 90 anos da gripe espanhola de 1918 aqui no RS (vacinem-se, amigos).

Por último, uma homenagem a Olga Reverbel, pioneira do teatro infantil no RS e grande pessoa, ontem falecida e que deixou muitos, e bons, amigos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008


MOACYR SCLIAR

O futuro na geladeira

Um dia ela ainda ingressaria no curso de administração, um dia brindaria a seu futuro; era só questão de esperar

Amélia, 80, interrompe sonho de ter vaga na USP para comprar geladeira. Amélia Pires fará 80 anos em 6 de dezembro um pouco mais distante de seu sonho. Desde 2004, presta a Fuvest. Quer um diploma do curso de administração da USP.

Neste ano, porém, não esteve entre os 138.242 aspirantes a vaga na universidade. A geladeira estava imprestável, e o dinheiro da inscrição - ajuda de um sobrinho - foi usado para pagar a prestação de uma nova. Cotidiano, 24 de novembro de 2008

NÃO FOI UMA decisão fácil, como se pode imaginar. Curso de administração ou geladeira? A favor de ambas as coisas, o curso e a geladeira, havia argumentos. O curso era algo com que sonhava havia muito tempo, desde jovem, para dizer a verdade.

Primeiro, porque era uma fervorosa admiradora da atividade em si, da administração. Organizar as coisas, fazer com que funcionem, levar uma empresa ao sucesso, mesmo em épocas de crise, sobretudo em épocas de crise, parecia-lhe um objetivo verdadeiramente arrebatador.

Com o curso, ela poderia tornar-se, mesmo com idade avançada, numa daquelas dinâmicas executivas cuja foto via em jornais e em revistas.

Mas a geladeira... A verdade é que ela precisava de uma geladeira nova. A antiga estava estragada, e tão estragada que o homem do conserto aconselhara-a a esquecer "aquele traste" e partir para algo mais moderno.

E isso precisava ser feito com urgência: todos os dias estava jogando fora comida que estragara por causa do inconfiável eletrodoméstico.

Era o curso ou a geladeira. Era apostar no futuro ou resolver os problemas do presente. Ou se inscrevia na universidade ou pagava a prestação na loja: tinha de escolher. Dilema penoso. Durante duas noites não dormiu, fazendo a si própria cálculos e ponderações.

"Faça o curso", sussurava-lhe ao ouvido uma vozinha, "você será outra pessoa, uma pessoa com conhecimento, com dignidade, uma pessoa que todos respeitarão". E aí outra vozinha intervinha: "Deixe de bobagens, querida.

Geladeira é comida, e comida é o que importa. Como é que você vai se alimentar, se a comida continuar estragando desse jeito? Seja prática". Duas vozinhas. Anjinho e diabinho? Nesse caso, qual era a voz do anjinho, qual a do diabinho? Mistério.

Na manhã do terceiro dia sentiu um mau cheiro insuportável, vindo da cozinha. Foi até lá, abriu a geladeira e, claro, era a carne que simplesmente tinha apodrecido. Foi a gota d'água. Vestiu-se, foi até a loja, e comprou a geladeira nova.

Que lhe foi entregue naquele mesmo dia. Era uma bela geladeira, com muitos dispositivos que ela mal conhecia. "Vou ter de fazer um curso para aprender a operar essa coisa", disse ao homem da entrega.

Ele concordou: "Sempre é bom fazer cursos". Instalada a geladeira, ela tratou de colocar ali os alimentos e as bebidas. Foi então que encontrou a garrafa de champanhe.

O champanhe que tinha comprado para celebrar com os vizinhos a sua entrada na universidade. Suspirou. O que fazer com aquilo, agora? Dar de presente para o sobrinho que a ajudara com o dinheiro da inscrição? Resolveu guardar a garrafa.

Bem no fundo da geladeira. Um dia ela ainda ingressaria no curso de administração, um dia brindaria a seu futuro. Era só questão de esperar. Sem medo: uma boa geladeira conserva qualquer champanhe.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

MARCO AURÉLIO CANÔNICO - DA REPORTAGEM LOCAL

"Garfield é um sucesso porque ele só come e dorme"

Jim Davis, o criador do gato, afirma que a popularidade surgiu porque ele foge de comentários políticos e sociais

Personagem é tema de livro, de desenhos animados e estrelará longa que chega aos cinemas brasileiros em março do ano que vem

Ele é um fenômeno: gordo, preguiçoso, mal-humorado e cruel. Mesmo assim, freqüenta a casa de milhões de pessoas há 30 anos. Garfield, o gato marrento criado por Jim Davis em 1978, chega às três décadas com motivos para manter a empáfia: sua tira, publicada na Folha e em mais de 2.500 jornais, é das mais populares do mundo.

O personagem é uma máquina de dinheiro: está presente em 111 países e fatura globalmente, segundo seus administradores, quase US$ 5 bilhões por ano em produtos licenciados - 20% desse valor apenas no mercado brasileiro, onde estreou em outubro de 1985.

Para comemorar, ele ganha um livro, "Garfield - 30 Years of Laughs & Lasagna: The Life & Times of a Fat, Furry Legend!" ("30 anos de gargalhadas e lasanha", que está sendo negociado para publicação no Brasil), e uma série de desenhos animados, já comprada pelo Cartoon Network e pela Record e que deve estrear nos próximos meses.

Também terá um longa de animação, "A Festa do Garfield", que chega aos cinemas brasileiros em março.

A Folha conversou, por e-mail, com Jim Davis, 63, o homem que ainda cuida pessoalmente de cada tirinha do gato que criou inspirado em seu avô. Para ele, o sucesso do personagem é facilmente explicável: "Comer e dormir são coisas que todos fazem. Além disso, por ser um gato, ele pode ser de qualquer raça, etnia e religião".

FOLHA - Por que o sr. deu ao personagem o nome de seu avô?

JIM DAVIS - Tinha seis anos quando meu avô Davis morreu, mas minhas lembranças dele são vívidas. Ele era um homem grande, com um colo imenso.

Parecia ranzinza por fora, mas, por dentro, tinha um coração mole. Era assim que eu imaginava o Garfield. Ele é fanfarrão, mas, no fundo, é um bom gato.

FOLHA - Há muitos paralelos entre os personagens e as situações de "Garfield" e sua vida real? Sua personalidade entra na sua criação?

DAVIS - Eu me identifico particularmente com Jon Arbuckle, o dono do Garfield. Quando estou escrevendo [histórias] para Jon, tudo que preciso fazer é me lembrar de meus dias de namoro na época do colégio. Eu era o que mais levava foras!

Sempre esperava até o último minuto antes de chamar alguma garota para sair, não tinha dinheiro para bancar um encontro de verdade. Mas, tudo bem, não dá para não gostar do Jon, porque ele sempre olha o lado positivo das coisas.

FOLHA - Quais foram suas inspirações como artista?

DAVIS - Quando criança, adorava o "Steve Canyon", de Milton Caniff. Ele me abriu para mundos que eu não sabia que existiam. "Peanuts", do Charles Schulz, foi minha maior inspiração.

Amava seu humor sutil e seu traço simples. Schulz sabia ver o mundo com olhos de criança, ele me ensinou o incrível poder de tratar com leveza as coisas simples da vida.

FOLHA - Houve uma era de ouro do "Garfield"?

DAVIS - Honestamente, gostei de cada ano. Às vezes revejo algumas tiras e lembro, "este foi o ano em que fiz uma operação na coluna". Consigo rever minha vida olhando o que ocorreu nas tirinhas.

Espero que a era de ouro ainda esteja por vir, mas, em termos da existência da tira, o melhor dia foi aquele em que recebi telefonema do sindicato de HQs dizendo que tinham selecionado "Garfield".

FOLHA - O sr. pensou no que faria para a tira ser universal?

DAVIS - Mantive as tirinhas livres de comentários políticos ou sociais. Ela é impressa no mundo todo, quero que as pessoas se identifiquem com ela independentemente de seus ideais políticos, por isso me ative à comida e ao sono [como temas].

Todo mundo come, todo mundo dorme, mas nem todo mundo vai se interessar por minha visão de mundo. Só estou querendo entreter as pessoas.

FOLHA - Como Garfield envelheceu à medida que o sr. envelhecia?

DAVIS - Há muito mais piadas sobre idade na tirinha. Garfield se dá conta de sua idade uma vez por ano, em seu aniversário, em 19/6. Assim como eu, ele fica progressivamente mais resmungão cada vez que ganha mais um ano. Garfield se recusa a crescer, e minha mulher diria o mesmo de mim.

FOLHA - Garfield é famoso por ser comilão e gordo. Com a obesidade se transformando em um grave problema de saúde nos EUA, o sr. passou a receber muitas reclamações?

DAVIS - Algumas, mas a maioria das pessoas perdoa os maus hábitos de Garfield porque ele é um gato. Recebi um telefonema de alguém que achava que o Garfield deveria fazer um vídeo de exercícios para compensar os maus hábitos. Garfield e exercícios, é forçar a barra.

FOLHA - Com que freqüência o sr. desenha? Planeja se aposentar?

DAVIS - Uma vez por mês me reúno com dois assistentes e trocamos idéias, rimos. Nos concentramos nisso por três ou quatro dias. Ainda escrevo os roteiros, mas tenho ajuda para desenhar. Não planejo me aposentar por ora.

FOLHA - A tecnologia mudou a maneira como o sr. cria?

DAVIS - Mudou o modo como fazemos quase tudo, mas ainda começamos com um rascunho de lápis em papel, depois desenhamos em uma cartolina e aí recebe contorno de tinta e as letras. O computador só entra no processo quando ele é digitalizado, colorido e distribuído.

FOLHA - Que impacto a internet teve nos cartuns?

DAVIS - Um impacto imenso. Adoro jornais e ainda gosto de virar as páginas, mas muita gente procura por notícias e cartuns on-line.

Nos demos ao trabalho de criar um mecanismo de busca para as tiras do Garfield, para que fosse possível digitar a palavra "café", por exemplo, e achar inúmeras tirinhas que falam disso. Além disso, ela está disponível on-line em espanhol.

Um dia desses vai ser divertido animar cada tirinha. A outra coisa que a internet fez foi democratizar os cartuns. Qualquer um pode publicar sua tira.

FOLHA - Do que o sr. se lembra de suas visitas ao Brasil?

DAVIS - Estive aí duas vezes, tive um jantar memorável com Mauricio de Sousa. Recebo muita correspondência do Brasil, as pessoas parecem se identificar bastante com Garfield.


AMIZADE, BÊNÇÂO DIVINA

É um encontro com a Paz
É percorrer o tempo sem medo
É a doçura de se saber querida
É a pausa da vida

Para o descanso fraterno
É o consolo eterno
Sem ter medo de ser julgada
Mas, de ser ouvida

E acima de tudo, compreendida
É o ombro de Deus
Na forma de um humano
É tristeza dividida

Alegria repartida
Felcidade multiplicada
Sonhos e expectativas compartilhadas
É o diário carinho

Impresso em palavras amáveis
Criação de imagens sensíveis
Poema visual
Festa para os olhos e a mente

Um coração que nos entende
Com mágica confiança
Ao saber de nossos sonhos
Nos estimula, acende nossa esperança

Reforça o nosso ânimo, a nossa fé
Reenergisa a nossa alma
Está sempre em nossa lembrança
Faz parte de nossa felicidade

Presença da generosidade
É nosso elo com o Criador
Ser do cândido amor
É VOCÊ, Amigo Querido!

Vera linden

"Deus diz silenciosamente que somos grandes, maiores que os nossos problemas e podemos vencê-los mesmo que estejamos fracos...E Ele nos dá amigos...amigos especiais, que lançam sobre nós a fé e a esperança de voltar a viver, sempre que os nossos sonhos adormecem, e morrem dentro de nós "


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Janelas da alma

Tem agora um comercial na TV em que um cara, dirigindo um carrão, pára num sinal e recebe uma secada de uma mulher que atravessa a rua. Para deixar claro que aquilo não foi acidental, a dama dispara uma segunda secada, o que faz o sujeito mudar imediatamente o rumo de seu itinerário.

Aqui eu talvez deva fazer ponto-e-vírgula. Não existe a palavra secada no Dicionário Houaiss, o mais completo da língua portuguesa. Tem secador, que é aquilo que tira a umidade e se presta a variadas outras utilidades domésticas.

Razão bastante para que eu explique aqui, com elevado espírito didático e lexicográfico, o que, nestas paragens meridionais e meio esquecidas da nação, se entende por secar.

Era assim: você estava posto em sossego na reunião dançante de domingo à tarde no Grêmio Náutico Tamandaré, em Cachoeira, quando percebia que alguém o fitava, com graça e sedução. Você não apenas correspondia aos olhares, mas ia tirar a garota.

Você estava tranqüilo, num baile do Clube Comercial, da Sociedade Rio Branco, ou do Caiçara Piscina Tênis Clube, quando notava que um par de olhos azuis o mirava, com delicadeza e dissimulação. Você punha a cuba libre de lado e ia tirar a moça. E eram felizes para sempre, ou ao menos pelo espaço de sonho de uma noite de verão.

Os olhos são as janelas da alma, já dizia Machado, com toneladas de razão e bom senso. Eles estão, aliás, largamente presentes na literatura, a começar pela de Shakespeare, que citei antes sem nomear.

É este, a propósito, que pergunta se há no mundo escritor que nos ensine beleza como o olhar de uma mulher. E Elizabeth Browning é definitiva ao escrever que “ela não me deveria ter olhado muito, se pensava que eu não devia amá-la”.

Já se vê que os criadores do anúncio de que falei no começo destas linhas estão na melhor das companhias. A historinha contida nele não chega a um final, mas é de se acreditar que foi o mais inspirador possível.

Pois é esse o destino de uma secada: os olhos de um homem e uma mulher se cruzando, para que seus corpos e seus corações se encontrem.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana a você.


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - KLEDIR RAMIL


As mulheres de Pelotas

Kleiton e eu estamos gravando um novo CD/DVD que deverá ser lançado em março de 2009. É um disco de músicas inéditas e entre elas aparece Pelotas, uma homenagem à nossa terra natal.

Em um determinado trecho, a letra diz: “é muita guria linda / eu fico até espantado / nunca vi tanta beleza / por cada metro quadrado”.

Pelotas é famosa por seus doces, sua arquitetura, seu patrimônio cultural e por suas mulheres bonitas. Infelizmente, também é famosa pelas piadas que questionam a masculinidade de seus rapazes.

Pura inveja. Acontece que nós, os pelotenses, somos homens refinados. Exatamente o tipo de homem que faz sucesso hoje em dia. A mulher moderna não gosta de brutamontes, gosta de ter a seu lado um companheiro educado, sensível, delicado. Desde que, é claro, cumpra as suas funções.

Voltando à beleza da mulher pelotense. A primeira Miss Universo foi Yolanda Pereira, natural de Pelotas, que venceu o concurso em 1930, quando ele ainda se chamava “Concurso Internacional de Beleza”.

Segundo comentários da época, “o parecer da comissão julgadora levou em conta quesitos como beleza, graça, equilíbrio, proporção, formas e distinção. Os jurados também estiveram atentos à visão do conjunto”.

Depois de Yolanda Pereira, muitas outras pelotenses que tinham “graça”, “formas” e boa “visão de conjunto” fizeram sucesso nas passarelas, no teatro e no cinema.

Alguns dias atrás, minha mãe me ligou contando que “a neta da Diosma” ia aparecer no Fantástico. Liguei a TV e, para minha surpresa, a guria surgiu em Paris como vencedora do concurso “O bumbum mais bonito do mundo”.

“A neta da Diosma” se chama Melanie Nunes Fronckowiak, tem 20 anos e se você examinar bem vai notar que, além da bunda, o resto também é muito bonito: braços, pernas, rosto… E pelas entrevistas, parece uma guria bem inteligente.

Estou convencido de que se inventarem um concurso de joelhos, de mãos, de orelhas, de seja lá o que for, a gente ganha.

O sucesso de Melanie só reforça minha tese de que Pelotas é a terra das mulheres mais lindas do mundo. Sejam inteiras, ou aos pedaços.


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - PAULO SANT’ANA


Os dramas da enchente

São incontáveis os dramas humanos agudos que se desenrolaram em Santa Catarina durante a calamidade das chuvas.

Alguns deles foram retratados com muita eficiência e desvelo nas páginas de ontem de Zero Hora, quando os repórteres Carlos Etchichury e Itamar Melo trouxeram-nos relatos dramáticos das pessoas que perderam seus familiares, mortos na tragédia,

além do tremendo vazio existencial que se instala entre os desabrigados, farrapos humanos que ficaram sem suas casas, sem seus móveis, sem seus animais de criação, muitos deles até mesmo sem seus terrenos, outros sem seus empregos.

Ficaram sem nada, têm de reconstruir tudo. Uma desolação.

E como não foi a mão humana que deflagrou a calamidade, ao contrário das tragédias em que há culpados, a indignação deixa lugar só para a perplexidade.

E chega a dar orgulho em quem é gaúcho a forma como nosso Estado está se solidarizando material e moralmente com os irmãos catarinenses.

Ficou para a última rodada a decisão do campeonato nacional.

Mas a classificação do Grêmio para a Libertadores já se constituiu num grande alívio para a torcida gremista. Caso o São Paulo vença o Goiás no próximo domingo, restará o consolo para os gremistas de participar da Libertadores em 2009.

E num campeonato cuja fórmula se revelou desastrosa nas rodadas finais, com times jogando com reservas e outros, como o Botafogo, ontem, perdendo de propósito para o Figueirense para tentar rebaixar o Vasco, elogie-se o comportamento dos jogadores do Internacional que atuaram ontem e do técnico Tite:

eles tiveram alto grau de dignidade profissional e não se importaram que sua vitória sobre o Cruzeiro pudesse favorecer o Grêmio. Que belo exemplo de honradez e desportividade.

Não foi o Inter que classificou o Grêmio para a Libertadores. Mas o admirável é que o Inter, em campo, desconheceu que sua vitória pudesse favorecer o Grêmio. Parabéns.

O último esforço da direção do Grêmio terá de ser o envio para o Goiás de substancioso bicho extra visando à decisão, que foi transferida estranhamente para Brasília.

Sem grande bicho extra, qual será a motivação do Goiás?


01 de dezembro de 2008
N° 15806 - LF VERISSIMO


Müller e Anaïs

Estou me sentindo culpado. Nunca usei o trema. Desde que aprendi a escrever – sem piadas, por favor – ,ignorei o trema. Quando comecei a escrever, por assim dizer, em público, continuei a ignorá-lo.

Os revisores, se quisessem, que acrescentassem os tremas onde cabiam. Por vontade própria, nunca botei olhos de cobra em cima de nenhum “u”.

Nem mesmo quando o computador, com sua conhecida aversão à informalidade gramatical, sublinhava a palavra em vermelho para me avisar que estava faltando o trema, burro! Se dependesse de mim, o trema não existiria.

Mas com a nova reforma ortográfica, o trema vai desaparecer. E eu fiquei com remorso. Talvez tenha sido injusto com ele. O trema, afinal, tinha uma história. Tinha uma razão para existir, mesmo modesta. Tinha uma função, mesmo dispensável. E eu o desdenhara sem dó, coitadinho. Como me penitenciar?

Esta pode ser a última oportunidade que terei para usar o trema e compensar todas as vezes que o omiti por pura implicância. A reforma já está sendo implantada, os pontinhos marcham, dois a dois, para o esquecimento, tenho pouco tempo para me reabilitar. Mas como?

Quase todas as matérias que li sobre o fim do trema citavam que ele só continuará sendo usado em nomes estrangeiros como Müller e Anaïs. Müller e Anaïs! Uma história para Müller e Anaïs, rápido.

Uma história com seqüência, conseqüência, eloqüência...

Talvez uma história policial: a dupla Müller e Anaïs atrás de delinqüentes.

Ou uma história de excessos eqüestres levando ao uso freqüente de ungüentos.

Ou uma simples cena doméstica. Müller e Anaïs na cozinha do seu apartamento, eqüidistantes de um pingüim em cima da geladeira. Müller acaba de chegar da rua.

– Anaïs, esse pingüim...

– Quêqui tem?

– Eu não agüento esse pingüim, Anaïs.

– Ele está aí há cinqüenta anos e só agora você nota?

– Cinqüenta anos, Anaïs?

– Está bem, cinco. Um qüinqüênio.

– Um qüinqüênio?

– Um qüinqüênio. E vai ficar aí outro qüinqüênio.

– Não se usa mais pingüim em geladeira, Anaïs. É uma coisa do passado. Como a crase.

– Pois eu gosto e está acabado. Trouxe a lingüiça?

domingo, 30 de novembro de 2008


VINICIUS TORRES FREIRE

O maior banco do mundo

Mais incrível que a "ajuda a bancos" foi o Fed assumir a oferta de crédito cotidiana na economia dos Estados Unidos

O BC dos EUA tornou-se entidade estranha segundo o padrão das idéias econômicas. Apesar da crise braba, editoras de manuais de macroeconomia e economia monetária deverão ganhar um bom dinheiro com edições agora de fato revisadas de livros-texto.

O Fed entrou e vai navegar um tempão no mar da heterodoxia (nada a ver com o uso brasileiro do termo). O Estado comprou fatias de instituições financeiras (AIG etc.), deu crédito camarada a bancos, garantiu quem comprou banco quebrado (JPMorgan e Bear) e garantiu perdas de bancos semimortos (Citi).

Mas o Fed tem feito e vai fazer algo muito maior. Tornou-se um enorme banco de investimentos, não mais um "emprestador de última instância" (que tapa rombos emergenciais de uma instituição).

O Fed não trata mais apenas de um "problema de liquidez" (de oferta circunstancialmente restrita de dinheiro, quando bancos relutam emprestar até mesmo entre eles).

O Fed jorra dinheiro porque, mesmo a taxa "básica" efetiva de juros tendo caído abaixo da meta oficial de 1% (flutua em torno de 0,3%), o dinheiro não circula, a economia entrou em recessão e teme-se deflação.

Não há, na prática, mais diferença entre o objetivo maior da política monetária (inflação numa meta ou banda) e o de prover liquidez. O Fed parece fazer política monetária "quantitativa", de aumento de dinheiro na praça (em vez de se pautar pela meta de juros), coisa que se praticava há quase 30 anos.

Parece, pois o Fed não tem, claro, meta quantitativa, e a situação toda é heterodoxa.
O Fed vai comprar até US$ 540 bilhões de títulos de posse de fundos de investimento. Esses fundos obtêm seus rendimentos, e assim remuneram os aplicadores, de papéis comprados de bancos e empresas.

São fonte enorme de capital de giro. O Fed já tem na conta US$ 295 bilhões de "commercial papers" (notas promissórias, crédito de curto prazo), os papéis que financiam operações de empresas.Trata-se de 18% do total do valor desse tipo de papéis no mercado.

O Fed vai comprar US$ 200 bilhões de "recebíveis" de empréstimos para estudantes, para a compra de carros e para cartão de crédito. Isto é, vai comprar títulos lastreados nos pagamentos dessas dívidas. Enfim, vai rolar o crédito parado ou encarecido nesses setores.

O Fed vai ainda comprar até US$ 500 bilhões de títulos lastreados em pagamentos de prestações imobiliárias, hipotecas compradas e securitizadas pelas empresas privadas mas "paraestatais" Fannie Mae, Freddy Mac e Ginnie Mae. O valor no carrinho de compras do Fed deve equivaler ao do PIB brasileiro.

Isso não significa que o BC dos EUA está dando dinheiro. Significa que o mercado de securitização, o que faz o crédito rodar nos EUA, está ainda em coma.

Significa que o Fed assume ativos, coloca dinheiro fresco nas instituições financeiras, de modo que elas se animem a emprestar de novo -o que não está acontecendo, por medo ou falta de capital.

Caso estudantes, compradores de carro, de casas, empresas e bancos não paguem suas dívidas, o Fed perde.

Pode também recuperar o dinheiro público investido, mas isso não vai ser rápido, e nem o Fed vai conseguir vender tais títulos no mercado tão cedo -caso consiga.

vinit@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

Como num sonho

Vivia um momento definitivo: iria a lugares onde pulsavam afetos de passados instantes

ELE SABIA que o fato mais importante e definitivo de sua existência estava para acontecer. Não o sabia como se sabe que dia é hoje ou que, ao lado do escritório, está o quarto de dormir.

Sabia-o como nos sonhos. E assim, como nos sonhos, enxugou-se após o banho, trocou de roupas e decidiu sair de casa. Não sabia por que o fazia nem para onde iria.

Foi até a garagem, entrou no carro e saiu para a rua que, como nos sonhos, era fantasticamente a mesma, demasiado a mesma, com as fachadas de sempre, a banca de jornais, os carros estacionados no meio-fio.

Sem decidir tomou o rumo de Ipanema, pois intuía que era para lá que deveria ir, depois de tanto tempo sem andar por ali. É que, nesta tarde, vivia um momento diferente e definitivo: teria que ir para lugares onde continuavam pulsando afetos de passados instantes.

Mas não pensava nisso: apenas ia. Ligou o CD, pôs nele um disco de Nara. Como nos sonhos. E a voz dela incrivelmente verdadeira não parecia a voz de quem já não existe. É que ela ainda existe, de outro modo.

Ela cantava mas era como se conversasse com ele, dentro de seu carro, em certa noite de 1964, à porta do Teatro Opinião. Ali ficaram quase até amanhecer. Volta a ver seu rosto na penumbra, seu sorriso e aquele olhar de bichinho bom.

De repente, está rouca, na sala de sua casa, lhe diz que não voltaria ao show Opinião, ia sair em excursão pelo Nordeste e quer que ele a acompanhe. Já agora, muitos anos depois, ela o chama pelo telefone: "Só para você tenho coragem de contar isto: estou curada, o tumor desapareceu, estou curada!".

É pau, é pedra, é o fim do caminho... Sua voz se mistura à de Tom Jobim, cujo rosto sorridente aparece na vidraça do carro. Puxa uma baforada no charuto e some desfeito na fumaça. E as estrelas que esquecemos de contar...

Ao atravessar a avenida Graça Aranha, no centro do Rio, numa tarde de muito sol, alguém o chama pelo nome, ele se volta: é Tom, de paletó, segurando uma pasta, e que acena para ele, sorrindo, e some entre os transeuntes, poucas semanas antes de fazer sua última viagem. A onda que se ergueu no mar...

O carro chega quase ao fim da Barata Ribeiro. Àquela altura, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina de Francisco Sá, no Bar Bico, Otto, Fernando Sabino e Armando Nogueira conversam altas horas da noite.

O carro dobra pela rua Rainha Elizabeth e chega até a praia de Ipanema, deslumbrante ao sol. Não é domingo, mas a praia está cheia de gente, barracas, vendedores de sucos, picolé e sorvete. Ciclistas passam ao lado do carro.

Lá adiante, muito adiante, depois do Leblon, erguem-se o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea. Coisas eternas. Testemunhas de tantos domingos de sol, quando ali, em frente à Farme de Amoedo, ele e os amigos bebiam água de coco e discutiam política. Tudo como num sonho.

O carro continua mas as montanhas parecem se afastar, negras contra o azul-celeste. E ali estarão para sempre, porque não vivem; apenas são. Duram, duram, enquanto aqui embaixo as pessoas chegam e passam, como as ventanias. Observa as coisas com a surpresa de quem as vira antes.

A canção se repete na memória -a onda que se ergueu no mar- e, de repente, ele vê sobre areia vazia da praia, seus amigos ausentes brincando de dançar ciranda. O mais animado é o Vinicius. De mãos dadas, eles rodam e flutuam, alguns palmos acima da areia que esplende à luz da tarde.

Enquanto isso, o carro segue em direção às negras montanhas que se afastam. Sabia, este era o passeio que faltava fazer, antes do acontecimento definitivo.

O carro levantou vôo e avançou sobre as últimas casas do Leblon, planou sobre a encosta e prosseguiu até perder-se nas nuvens.

Mas agora ele sai do elevador, mete a chave na porta e defronta-se com a sua sala de jantar: a mesa, as cadeiras, a estante repleta de livros. Tudo ali, intacto, eterno. O fato extremo e definitivo não tardaria a ocorrer.

Atravessa a sala, caminha pelo corredor até o quarto de dormir. Observa o cenário: ali estão o pequeno armário, o cabide de pés, a cômoda e o guarda-roupas, em cujo espelho a obscuridade da ausência se reflete.

E então, todas as imagens, todas as lembranças, todas as vozes do mundo foram se apagando, e ele teve a vertiginosa certeza de que nunca mais as ouviria. Foi até a cama e nela se deitou. Nunca lhe parecera tão macia e acolhedora.

Em tempo: um leitor considerou simplista o que disse sobre as causas da esquizofrenia, na crônica anterior. Minha tese é que, parte de nosso organismo, o cérebro pode adoecer como o estômago ou os rins, e não obrigatoriamente por culpa da sociedade.

DANUZA LEÃO

Comporte-se, Lula

Como Obama é negro, nosso presidente deve pensar que os dois têm alguma coisa em comum porque "chegaram lá"

OUTRO DIA li uma declaração do prefeito Eduardo Paes que me estarreceu.

Era uma linha, dentro de uma matéria em "O Globo" do dia 26, em que ele, que qualquer mosquito da dengue sabe que é cria política de Cesar Maia, dizia, textualmente (e entre aspas): "Só ajudei na campanha de Cesar Maia de pena, pois achava que ele não ia ganhar". Que beleza.
Com todo o respeito, mas que grande cara-de-pau, esse Eduardo Paes.

Eu sei que não adianta chorar pelo leite derramado, mas a vontade que tenho é de chorar mesmo, quando me lembro que por meros 55.000 votos perdemos a chance de dar uma virada no nosso pobre Rio de Janeiro e ter, depois de anos, um prefeito honesto, correto, que não faz politicagem e que poderia mudar nossa cidade para muito melhor -estou falando de Gabeira, é claro; mas eis que ganha o herdeiro de Cesar Maia, que agora cospe no prato em que comeu. Isso é um pequeno exemplo do que nos espera.

Mudando de assunto: outro dia vi pela televisão uma reunião do presidente com seus 37 ministros -é, 37-, em volta daquela imensa mesa oval, para falar da crise -até parece que resolveriam alguma coisa.

Mas prestei atenção a um detalhe: todos estavam, como aliás deveriam mesmo estar, de gravata. Menos quem? Menos Lula, claro.

É claro que deve haver alguém que seja chefe do protocolo para explicar ao presidente que certas coisas não devem e não podem ser feitas.

Deve ser difícil exercer esse cargo, pois Lula dá a impressão de não ouvir ninguém, que ele sabe de tudo. Imagino sua frustração de não ter ainda tirado uma foto com o presidente Obama.

Mas ele pode ficar calmo, essa foto vai acontecer, mas é preciso que ele perceba que Obama não dá muita intimidade a ninguém, dá para ver. Nada de abraços efusivos, nada de mão passada pelo ombro (felizmente Obama é bem mais alto).

Outra coisa que nosso presidente precisaria ter aprendido é que não pode citar o presidente Evo Morales dizendo "aí eu falei com o Evo" etc. Isso ele faz com todos os presidentes, e não pega nada bem. Com o presidente Evo, presidente Lula, em sinal de respeito.

Vai haver a posse do presidente Obama, mas ninguém sabe ainda se haverá um grande banquete, uma grande festa, como vai ser.

Mas, imagina-se, todos os chefes de Estado serão convidados, e é bom que Lula fique bem discreto, não achando que é melhor do que os outros porque era torneiro mecânico e chegou à Presidência, essa história é velha, ninguém agüenta mais.

E como Obama é negro, nosso presidente deve pensar que os dois têm alguma coisa em comum porque "chegaram lá". Ah, Lula, por favor, não tem nada a ver, e por favor, comporte-se discretamente.

E outra coisa que me dá muito medo é como irá vestida dona Marisa, se ela também for. Convidada, ela vai, pois não vai perder essa.

Mas por favor, dona Marisa, nosso país é grande e importante, e não precisa de nenhuma garota-propaganda para divulgá-lo.

O verde de nossa bandeira simboliza nossas matas, o amarelo nosso ouro, o azul nosso céu, mas verde e amarelo num vestido, como a senhora tanto gosta, é simplesmente medonho.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 29 de novembro de 2008



30 de novembro de 2008
N° 15805 - MARTHA MEDEIROS


Capturados

Um dos DVDs mais legais a que assisti este ano foi A Vida por Trás das Lentes, documentário sobre a carreira da fotógrafa americana Annie Leibovitz.

Tive a oportunidade, também, de ver em Paris a exposição que registra todas as fases de sua trajetória, começando pelas fotos que fazia da família, passando pela fase roqueira (quando foi a principal fotógrafa da revista Rolling Stones), até a consagração na Vanity Fair.

Considero fotografia uma arte, pela capacidade que tem de capturar a alma do fotografado e revelar a nós algo que nosso olho não consegue enxergar.

Lembro que, na minha infância, meu pai não deixava passar um único evento sem fotos: Natal, aniversários, piqueniques na praia. Click, click, click.

Ficávamos um tempão parados, eu, meu irmão e minha mãe, três estátuas sorridentes, esperando o momento de ele encontrar o melhor ângulo, o melhor foco, a melhor luz, para então clicar. Máquina digital, naquela época, era coisa da família Jetson.

Também tirei muitas fotos de minhas filhas quando eram pequenas e guardo inúmeros registros de viagens e de alguns passeios, encontros, momentos que não acontecem todo dia. Até aí tudo dentro de uma certa normalidade, e sou tendenciosa como todos: a gente acha que só a maneira como vivemos é que é normal. Mas o normal evoluiu muito de uns tempos pra cá.

Hoje, com um celular na mão, você documenta partos, tsunâmis, incêndios, transas, shows e crimes cometidos bem na sua frente. Inclusive, algum crime por ventura cometido por você.

Me pergunto: se você não documentar suas experiências e emoções, elas deixam de existir? Você deixa de existir? Não deveria, mas dá a impressão que sim.

Num surto catastrofista, imagino que em breve deletaremos da nossa memória tudo aquilo que não estiver documentado. Se eu quiser lembrar de uma viagem ou de uma festa, não conseguirei, a não ser que a tenha fotografado e filmado.

O momento em que seu namorado lhe pediu em casamento, aquela caminhada que deu sozinha à beira-mar, o mergulho noturno, o café da manhã na cama enquanto viam um filme do Chaplin, a declaração de amor no meio da estrada – se você não fotografou nada disso, será que aconteceu mesmo? Você ainda consegue lembrar da vida sem a ajuda de aparelhos?

Minhas duas últimas viagens ao Exterior foram feitas sem máquina fotográfica ou celular na bagagem. Fui e voltei sem uma única foto, o que para muitos talvez signifique “ela não foi”. Mas fui. A vida também acontece sem provas documentais.

Ainda Annie Leibovitz: entre seus inúmeros flagrantes, constam os momentos finais de seu pai e da escritora Susan Sontag, as duas pessoas que ela mais amou. As fotos de ambos, cada um na sua hora, agonizando, estão na exposição e no DVD.

Annie Leibovitz é uma artista, e suas lentes são seus olhos, ela não dissocia vida e trabalho, mas admito que senti, mesmo havendo consentimento dos fotografados, uma invasão na intimidade mais secreta de cada um, que é a solidão.

Louvável como registro jornalístico, mas desnecessário como despedida pessoal.

Tudo isso para dizer que certas ocasiões ainda me parecem suficientemente fortes para resistirem intactas na nossa lembrança, e apenas nela.

Um ótimo domigo e um excelente início de semana.


30 de novembro de 2008
N° 15805 - DAVID COIMBRA


Pequenos ódios

O homem precisa de tempo para descobrir as coisas de que não gosta. Não é tão fácil. Normalmente, o sujeito se deixa levar pelos outros. Todo mundo gosta de algo, aí você pensa que gosta também. Não gosta, apenas não refletiu a respeito.

É o que já falei sobre a propaganda. Espanta-me o poder da propaganda. Porque a lógica por trás da propaganda é tão simples que chega a ser simplória. E ainda assim funciona.

É surpreendente. Alguém diretamente interessado em se promover, promove-se. Eu sou bom, eu sou bom, eu sou bom. Ora, qualquer pessoa mais ou menos racional deveria desacreditar desta opinião explicitamente suspeita. Só que não. As pessoas acreditam. Compram carros, votam, passam a fumar.

Por quê? Porque as pessoas têm necessidade de saber qual é a opinião dos outros sobre sua própria vida. As pessoas só acham que levam uma vida boa quando outras pessoas acham que ela uma vida boa.

Alguém diz que é ótimo, por exemplo... acampar. O cara fica repetindo que adora acampar, que acampar faz bem para a saúde, que é divertido acampar e tudo mais. Você ouve isso e vai acampar. Não gostou nem um pouco de acampar, dormiu naquela barraca apertada e abafada, foi picado por mosquitos, não havia banheiro por perto, um inferno. Mas saiu de lá jurando que adorou acampar.

Por quê? Porque você quer concordar com as outras pessoas. O ser humano passa a vida buscando a aprovação dos outros seres humanos. Quer fazer parte de um grupo, ainda que seja de um grupo de acampadores.

Eu mesmo, só há pouco concluí que odeio bar com música ao vivo. A não ser que vá ao bar exclusivamente para ouvir música. Mas não. Quase sempre vou a bares para conversar e, se o bar tem música ao vivo, a música não se torna música: torna-se barulho.

Estou lá sentado e sinto que algo está me irritando e não sei o que é. Aí descubro: é a maldita música ao vivo. Aquele cara com um violão, uivando Oswaldo Montenegro. Um tormento. Uma aflição. Uma dor. Mas por muitos anos as pessoas me convidavam:

– Que tal irmos a um bar com música ao vivo hoje? E eu:

– Música ao vivo! Que alegria!

Outra. Shows em estádios e ginásios. Já fui a shows em estádios que tinham de ser bons. Clássicos tipo Eric Clapton. Não foram. Foram chatos.

E nunca, nunca, jamais na minha vida, fiquei pulando em frente a um palco. Definitivamente, não sou homem de pular em frente a um palco.

Também concluí que tenho sérias restrições a certas atividades praianas. Gosto de ir à praia para:

1. Beliscar piriris e beber cerveja gelada.

2. Jogar bola ou frescobol.

3. Eventualmente caminhar ou nadar. Só.

Mas as pessoas gostam de ir à praia e ficar lá. Ficam e ficam e ficam na areia por horas, fazendo algo que odeio com todas as forças do meu ser: tomando banho de sol.

Elas tomam banho de sol nas costas por meia hora, viram-se e tomam banho de sol de frente por mais meia hora, aí dão meia-volta de novo para tomar mais banho de sol nas costas por nova metade de hora e giram novamente para tomar outro tanto de sol na parte dianteira por outro tanto de hora. Um galeto naquelas televisões de cachorro.

Agora os dias estão cada vez mais quentes. O verão se aproxima. Todos querem se mudar para a Orla. Até vou, desde que não permaneça sob o sol. Odeio banho de sol.

Mas tem o seguinte: topo ir à praia e ficar por horas estendido na areia como uma tatuíra, topo sentar num bar com música ao vivo e ouvir, cruzcredo, Djavan a noite inteira, vou a um estádio e fico de pé, na grama, assistindo à alguma cantora baiana, faço tudo isso, desde que não tenha que ouvir uma discussão entre um gremista e um colorado. Nenhuma discussão, nem em debate de rádio ou TV.

Não suporto mais bate-boca entre gremista e colorado, algo cada vez mais freqüente no Rio Grande do Sul, cada vez acirrado e cada vez mais maçante. São insuportáveis essas discussões.

Aceito outras chatices para me livrar delas. Agora, ir a um show do Oswaldo Montenegro, isso também não. Tudo tem seu limite.


30 de novembro de 2008
N° 15805 - MOACYR SCLIAR


A era do Ego

A historinha tem origem desconhecida, mas vale a pena contar.

Um escritor, vaidoso como costumam ser alguns escritores, está conversando com um amigo. Fala non-stop sobre seu tema preferido: ele próprio. Fala, fala, até que de repente dá-se conta de que aquilo não é justo.

– Só falamos de mim – diz – vamos falar um pouco de você. E pergunta:

– O que você acha da minha obra?

O anônimo escritor não é um caso isolado. O pronome “eu” está cada vez mais presente em livros, em blogs, em artigos. Na ficção, o tradicional narrador onisciente, que falava na terceira pessoa, foi para o espaço. Uma tendência que, é bom ressaltar, não vem de hoje. Ela faz parte da História, com H maiúsculo.

A modernidade vê o despertar do eu. A noção de indivíduo afirma-se cada vez mais e é reforçada por um sistema econômico que privilegia a iniciativa privada. Desse processo dá testemunho um objeto que então torna-se muito popular: o espelho. Todo mundo quer ter espelho; todo mundo cultiva a própria imagem. Desaparece o anonimato na arte, na literatura.

Autores de textos como o Antigo Testamento eram desconhecidos, e o mesmo sucedia com as obras de arte que figuravam nas igrejas. Agora, não. Agora os autores querem ser conhecidos, prestigiados, e, se possível, bem pagos.

Sigmund Freud, que adorava ficção, criou três míticos personagens para explicar o funcionamento de nosso psiquismo: o Id, que corresponde aos nossos instintos, o Ego, que somos nós mesmos ou a imagem que de nós fazemos, e o Superego, que corresponde aos dispositivos morais que nos guiam. Ao longo da história da humanidade, cada uma dessas figuras teve o seu período de predominância, a começar pelo Id, o troglodita.

O homem das cavernas era guiado pelos dois instintos básicos, o instinto de sobrevivência e o instinto da reprodução. Faria o que pudesse para conseguir comida e fêmeas; inclusive mataria seus competidores sem o menor problema.

Mas, à medida que a vida social foi se desenvolvendo, esse estilo de conseguir as coisas revelou-se contraproducente, quando não perigoso. Tornava-se necessário um jeito de conter a violência. É então que emerge o Superego.

A melhor representação do Superego é a divindade, sobretudo o Deus do monoteísmo, o Deus barbudo, poderoso, o Deus que vê tudo, que sabe tudo, que castiga o Mal e recompensa o Bem. É o Deus das três grandes religiões – judaísmo, cristianismo, islamismo – e consolidou-se na Idade Média.

Ego, Superego, Id. O cenário para a grande encenação de nossas vidas está armado e nele o Ego será o ator principal.

A irrupção do individualismo tem seu preço. O Ego triunfa, ocupa espaço; precisa, porém, civilizar-se. Exibir-se, sim, mas ao menos fingindo cortesia (“Vamos falar um pouco de você”). O Id, agora reprimido, protesta; o Superego, por sua vez, continua fazendo exigências religiosas, morais. Resultado: conflito, triste conflito.

Não por acaso a modernidade nasce melancólica, não por acaso a depressão é cada vez mais freqüente e, não por acaso, surge a psicanálise. O divã e o Prozac são as muletas terapêuticas do Ego. O mundo, às vezes, é pequeno para tanto Eu, para a epidemia de narcisismo.

E como é que a gente lida com essa situação? Devemos negar o nosso eu, devemos sumir no grupo, na comunidade, na multidão?

De jeito nenhum. A emergência do eu resultou da evolução da humanidade; é um sinal de progresso, e de progresso irresistível. Tudo o que a gente precisa fazer é modular o nosso eu, é sintonizá-lo com outros eus.

“Eu” tem de soar como “nós”. Se, ao falarmos de nós próprios, traduzimos sentimentos, idéias e emoções que podem ser partilhados pelos outros, estaremos nos valorizando sem desvalorizar nossos semelhantes.

Fácil de dizer, difícil de fazer, ponderarão vocês. Verdade. Mas com a prática a gente aprende. Como aprenderia o escritor de nossa historinha, se tivesse tempo e humildade suficientes.


30 de novembro de 2008
N° 15805 - VERISSIMO

Metamorfoses

Vladimir Nabokov era um lepidopterólogo, palavra que lembra uma borboleta passando.

Como romancista e crítico, também gostava de captar espécimes de escrita e alfinetar seu sentido exato, como insetos num estojo, para admirá-los.

As duas paixões o levaram a tentar identificar em que tipo de inseto Kafka tinha, afinal, transformado Gregor Samsa, em A Metamorfose. Na história do Kafka, um dia Gregor Samsa acorda de um sono inquietante e se vê transformado num monstruoso... o que, exatamente?

Convencionou-se que o desafortunado Gregor acordou transformado numa barata. Nabokov concluiu que o inseto era um grande besouro e estranhou que Kafka ignorasse que os besouros têm asas. Se o inseto do Kafka pudesse sair voando a história teria outro sentido. Ou mais um sentido, além de todas as outras interpretações dadas à obscura alegoria.

Nabokov dedica a sua conjetura sobre as asas (está na coleção de palestras sobre literatura que fez antes de ficar famoso com a publicação de Lolita) a todas as pessoas que têm asas, mas não sabem.

Entre as muitas interpretações de A Metamorfose, a que Nabokov rejeita com mais desdém é a freudiana, segundo a qual a origem da história é a relação difícil de Kafka com seu pai, e seu sentimento de culpa. Freud era uma das principais antipatias de Nabokov. E elas não eram poucas.

Metamorfoses atrás de interpretações, freudianas ou não, existem desde antes de Ovídio, na mitologia e na literatura. Num livro sobre o tema – chamado Fantastic Metamorphoses, Other Worlds, não sei se foi traduzido – Marina Warner descreve, por exemplo, a transformação sofrida pela palavra e o conceito de “zumbi” através dos anos.

Segundo Warner, “zombie” apareceu em inglês pela primeira vez numa História do Brasil em três volumes escrita por Robert Southey e publicada na Inglaterra entre 1810 e 1819. Southey relata a revolta de escravos e índios contra os colonizadores, liderados por “Zombi”, que identificam com um Deus angolano e que acaba barbaramente sacrificado no fim da revolta.

Depois da derrota do “Zombi” descrito por Southey, que inspirou protestos e poemas na Europa, ganhou corpo a versão oficial de que “Zumbi” era o nome do Diabo na língua dos africanos, o primeiro passo para transformar o mártir não em herói venerável mas em assombração.

De líder libertário de pessoas que preferiram morrer a ser escravos o nome foi lentamente se metamorfoseando até significar um corpo vazio, sem emoção ou discernimento, a carcaça do que fora um dia. O zumbi de agora é o zumbi de antes, vencido e eviscerado.

Na sua palestra sobre A Metamorfose do Kafka, Nabokov não propõe nenhuma interpretação, pelo menos nenhuma com uma inegável marca pessoal.

Nota certas reincidências no texto – como o número três (as três portas do quarto de Gregor, os três membros da família mais três empregados, os três hospedes com três barbas) – mas recomenda que não se dê muita importância à coincidência, que é mais técnica do que simbólica.

A fantasia de Kafka tinha sua lógica, e o que pode ser mais lógico do que o velho trio, tese, antítese e síntese? Acima de tudo se deveria evitar qualquer mito proposto por seguidores do “feiticeiro de Viena”, que era como ele chamava o Freud.

Para Nabokov, interpretações além da realidade do texto eram desnecessárias. Afinal, nós todos já tivemos a sensação de acordar estranhamente, como Gregor Samsa.

“Acordar como um inseto não é muito diferente do que acordar como Napoleão ou George Washington”, diz Nabokov. E conta: “Conheci um homem que acordou como o Imperador do Brasil”.

Diogo Mainardi

2 789 toques

"Para o colunista, o essencial é eliminar qualquer sombra de ambigüidade. Dou um jeito de solucionar a crise da economia mundial numa única coluna, com um único argumento. Paul Krugman também"

Paul Krugman, o Nobel de Economia, recomenda gastar alopradamente. Eu recomendo o oposto: cortar gastos alopradamente. Quem está certo? O Nobel de Economia ou o Jabuti de 1990?

Paul Krugman é colunista do New York Times. Eu sei o que acontece com ele, porque é o mesmo que acontece comigo. Uma coluna tem mecanismos próprios.

A gente aprende a esgotar todos os assuntos numa tacada só, limitando-os a um determinado número de toques. Meus pensamentos restringem-se a 2 789 toques. Menos do que isso, me embanano. Mais do que isso, eu murcho.

O assunto pode ser Aristóteles ou uma torneira gotejante na pia do banheiro: o que tenho a dizer sobre eles se encerra rigorosamente depois de 2.789 toques. Para o colunista, o essencial é eliminar qualquer sombra de ambigüidade. Dou um jeito de solucionar a crise da economia mundial numa única coluna, com um único argumento. Paul Krugman também.

Um colunista é um Cafuringa, que corre olhando para a bola até sair pela linha de fundo. Daí a receita peremptória do Nobel de Economia: gastar alopradamente. Daí a receita peremptória do gordinho indolente: cortar gastos alopradamente. Quem está certo? Nenhum dos dois. Um colunista nunca pode estar certo.

Em outubro, num artigo sobre o estado calamitoso da economia americana, Paul Krugman afirmou: "Somos todos brasileiros". Ele se referia ao fato de agora os Estados Unidos sofrerem o contágio dos mercados, como um país do Terceiro Mundo, como o Brasil.

Se os Estados Unidos real-mente se transformaram num Brasil, Paul Krugman, com seus planos espalhafatosos, é o Luiz Gonzaga Belluzzo deles. E os brasileiros sabem que um Luiz Gonzaga Belluzzo sempre acaba encontrando seu Dilson Funaro. O Dilson Funaro americano só pode ser Lawrence Summers, o principal conselheiro econômico de Barack Obama.

Ele concorda com Paul Krugman que a saída para a crise é inundar a economia com dinheiro público. Ele concorda igualmente que é melhor gastar de mais do que gastar de menos, sem dar a menor pelota para o rombo nas contas.

Assim como Paul Krugman, Lawrence Summers também se tornou um colunista.

No caso, do Financial Times. Nessa economia gerida por colunistas, aboliram-se todos os conceitos mais simples e, por isso mesmo, intelectualmente mais enfadonhos:

corte de gastos, disciplina fiscal e aumento de impostos, que implicam um período de ajuste, com arrocho salarial, desemprego em massa e quebradeira generalizada.

É complicado comparar um lugar ao outro. Os Estados Unidos tomam dinheiro emprestado com juros iguais a zero, o Brasil paga 15%. Eles planejam gastar em investimentos, a gente gasta com custeio.

Mas, se Paul Krugman está certo e os Estados Unidos de fato se transformaram num Brasil, o futuro da economia mundial está garantido: sairemos, com bola e tudo, pela linha de fundo.


Administradores de esquerda

"Em 500 anos de história, nunca tivemos equipes de administradores elaborando programas de governo"

Quando elogiei uma declaração de Dilma Rousseff, em VEJA de 21 de março de 2007, usei a expressão "administradores de esquerda", que intrigou muita gente.

Principalmente aqueles que pensam só existir administradores de direita. Achar que só existem administradores de direita no mundo é um preconceito e um insulto aos 2 milhões de administradores deste país. Para começar, administração é uma ciência neutra, como a engenharia e a medicina.

O que não impede que haja administradores de direita, de esquerda e de centro-esquerda, como de fato acontece. Em segundo lugar, há tempos existe no Brasil a carreira de administração pública, que de direita não tem nada.

De fato, administradores de direita são encontrados em empresas controladas por empresários de direita. Mas a maioria dos administradores é de centro e centro-esquerda, embora nem todos se definam assim.

São aqueles que administram empresas "sem dono", são aqueles que administram empresas de capital aberto e democrático, são os administradores socialmente responsáveis, que estão crescendo em número e poder. Foram eles que lutaram pela pulverização do capital, enfraquecendo assim o controlador capitalista, que foi a primeira ação da esquerda de fato vitoriosa.

Foram os primeiros a criar fundos de aposentadoria para trabalhadores, que hoje controlam 40% do capital americano. Foram os primeiros a criar planos de saúde aos trabalhadores. Foram os precursores do movimento de responsabilidade social das empresas brasileiras.

Ilustração Atômica Studio

No 3° Congresso Internacional de Responsabilidade Social de 1998, havia somente três administradores representando o Brasil.

Este seu colunista, o administrador Oded Grajew, criador do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, e Henrique Meirelles, mais um desses administradores (do Coppead, Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação em Administração de Empresas da Universidade Federal do Rio de Janeiro) injustamente tachados de ser de direita.

Se Meirelles fosse de direita, não aceitaria um cargo no governo do PT, muito menos seria precursor de um movimento de humanização das empresas como esse.

Um dos grandes erros da Revolução Socialista de 1917 foi que ela eliminou, destituiu e expulsou todos os administradores da União Soviética. Dizimaram o segundo escalão da nação. Machiavel recomendava eliminar somente o primeiro escalão.

"Em meados de abril de 1918 os administradores haviam sido totalmente eliminados", orgulha-se um historiador da revolução de 1917, já que eles eram considerados lacaios do capitalismo. Acabaram também com todos os gerentes, supervisores, chefes de seção, bem como contadores e auditores, considerados "espiões" do capitalismo. O restante fugiu a tempo.

Incentivaram a autogestão, o que supõe que administradores não acrescentam valor algum à sociedade. Destruíram os sistemas de avaliação de desempenho, e a produção despencou logo em seguida. Foi esse erro que deu início à desorganização e à corrupção que ainda persiste na Rússia.

O erro foi esquecer que o socialismo precisa ser tão bem administrado quanto o capitalismo, algo que muitos intelectuais brasileiros também esqueceram. Muitos nem sequer conhecem um único administrador.

Nos Estados Unidos, a esquerda americana encabeçada por Harvard fazia justamente o contrário. Criava uma escola de administração em 1908 para formar e apoiar o "administrador socialmente responsável". Incentivaram e deram prestígio àqueles que fariam a oposição ao empresariado capitalista da época.

Infelizmente, o Brasil seguiu a linha da esquerda soviética e não a da esquerda americana. Nossos intelectuais, em vez de apoiar, demonizam o administrador nos seus textos, na mídia, nas novelas, retratando-os como fordistas, desumanos e "lacaios do capitalismo".

Movimentos sociais que alijam administradores do seu seio estão fadados ao fracasso. Por incrível que pareça, nunca tivemos equipes de administradores elaborando programas de governo, em 500 anos de história.

A esquerda raramente coloca administradores de esquerda e centro-esquerda para ser ministros, para administrar este país. Algo que a esquerda brasileira, a mais moderna pelo menos, deveria seriamente repensar.

Stephen Kanitz é administrador - www.kanitz.com.br


"Quero fazer muito sexo”

Com esse anúncio, publicado num jornal, uma sexagenária atraiu 63 interessados – e realizou o desejo com quatro deles
Martha Mendonça

JANE

Hoje, com 75 anos, ela afirma que não precisa mais publicar anúncios para fazer sexo – mas diz ter se divertido muito com os parceiros que atenderam a seu apelo

A professora aposentada Jane Juska tinha 66 anos e um jejum sexual que durava três décadas quando decidiu publicar um anúncio incomum num jornal de literatura de Nova York: “Antes de completar 67 anos – no próximo mês de março –, eu gostaria de fazer muito sexo com um homem de quem eu goste”.

Jane, então divorciada e já com um filho adulto, imaginou que no máximo dois ou três homens dariam retorno. Mas sua caixa postal recebeu 63 respostas. Ela escolheu alguns dos candidatos e marcou encontros para conhecê-los pessoalmente.

Fez sexo com quatro deles (um de cada vez). O ato de coragem só não foi maior que, anos depois, contar suas aventuras no livro Uma Mulher de Vida Airada – Memórias de Amor e Sexo depois dos 60 (Editora Rocco), que chega ao Brasil nesta semana.

Jane afirma que antes de publicar o anúncio se perguntava se nunca mais teria um homem – e essa dúvida fez soar um alarme.

“A maioria das pessoas de idade, em especial as mulheres, têm medo de correr riscos”, diz. “Preferi agir a esperar que alguma coisa acontecesse”. Antes de publicar o anúncio, ela havia tentado outras formas de despertar o interesse em potenciais parceiros. Freqüentou bares e festas, em vão.

Quando percebeu que a idade não era sua aliada numa paquera, desistiu. Ela diz ter acreditado que era melhor o celibato que a humilhação. A ousadia de publicar o anúncio mudou sua vida.

Quando as respostas dos pretendentes começaram a chegar, Jane teve o luxo de poder escolher. Ela separou as cartas, como conta no livro, em montinhos de sim, não e talvez.

Escolheu os mais originais e equilibrados – já que sua caixa postal recebeu até mensagens pornográficas e fotografias de nu frontal.

Em pouco tempo, ela deixou de lado a educação vitoriana do Meio-Oeste americano, a dor dos fracassos amorosos, os problemas de excesso de peso e da queda pela bebida para seguir até o aeroporto onde esperaria o primeiro candidato.

“Foi o momento em que tive mais medo. Quase desmaiei quando vi que ele carregava uma caixa com objetos que faziam barulho. Pensei: ‘São brinquedos sadomasoquistas!’. Depois, descobri que eram garrafas de vinho”, diz.

O parceiro mais jovem que ela encontrou tinha 32 anos e era a cara de David Duchovny, de Arquivo X

Depois de Jonah, de 82 anos – o primeiro –, não parou mais com os encontros. Jane não mede palavras para relatá-los.

Um dos candidatos, mal se apresentaram, pegou em seu traseiro. Outro pediu que ela apoiasse seus seios na mesa do restaurante – e os apalpou. Houve até quem tenha roubado sua calcinha.

Ela também fala de masturbação e gosta de expor seu desejo pelo sexo masculino, fazendo referências ao corpo dos homens, em especial o traseiro.

A maioria deles beirava ou passava dos 60 anos. Mas houve Graham, de 32, segundo ela um sósia do galã David Duchovny, de Arquivo X, que depois se tornou um grande amigo.

“Eu me diverti muito”, afirma. No meio de tanta diversão, apaixonou-se. Robert, porém, tinha outro relacionamento – além de dores insuportáveis na coluna, o que tornava o sexo mais difícil.

Uma Mulher de Vida Airada não fala só dos encontros sexuais de Jane, mas de sua vida e escolhas.

Do relacionamento com os pais à paixão pela literatura, do divórcio às aulas de redação para presidiários, Jane dá o pano de fundo para a maior aventura de sua vida, mostrando que a terceira idade não precisa ser um tempo apenas de renúncias e lembranças.

Hoje, aos 75 anos e colhendo os frutos de seu livro, lançado no mundo inteiro, ela diz que continua em atividade. “Já não preciso mais de anúncios”, afirma.


ERROS CLÁSSICOS

Tenho espírito maligno. Adoro os erros dos outros. Especialmente os erros dos filósofos clássicos. Adoro lembrar detalhes sórdidos citados por um historiador secundário chamado Will Durant.

A humanidade, mesmo nos seus melhores momentos, foi terrível. Em Atenas, até hoje elogiada por sua democracia, de 400 mil habitantes, 250 mil eram escravos. Mulheres e estrangeiros também não contavam.

Aristóteles, o primeiro grande observador científico, achava que o homem possui oito costelas de cada lado. Já a mulher teria menos dentes que o homem. Talvez o homossexualismo dominante entre os gregos explique essas falhas de pesquisa de campo do gênio.

Spinoza, um dos filósofos mais em voga atualmente, via no medo e na esperança as explicações para as ações humanas. Era um determinista.

Apesar disso, considerava importante castigar os hereges, 'sem ódio', sendo importante, depois, perdoá-los por serem ignorantes. Meu filósofo predileto, o mal-humorado Schopenhauer, via as mulheres como seres de cabelos compridos e idéias curtas. O amor, segundo ele, é o resultado da ação dos instintos em busca do parceiro ideal para a reprodução.

Cada um procuraria no outro aquilo que não tem para legar ao rebento. As mulheres, tendo beleza, buscariam nos homens, mesmo feios, coragem, energia, determinação e atitude.

Schopenhauer não podia imaginar uma sociedade na qual o sexo, protegido por anticoncepcionais, não estivesse voltado para a reprodução.

Nos estudos sobre a metafísica do amor, o filósofo definiu que os homens preferem mulheres entre 18 e 28 anos, faixa ideal para ter filhos, com bom esqueleto, fundamental para carregar um filhote, mesmo com um rosto feio. Já as mulheres teriam predileção por homens de 35 anos, com uma boa situação financeira.

Pés pequenos e dentes fortes também contariam muito, pois os dentes, bem entendido, permitem uma boa alimentação.

Pobre filósofo, não podia prever a era das top models. Mulheres muito altas estavam para ele entre as menos admiradas pelos homens. Errou feio. Salvo se, como dizem as más línguas, a valorização das taquaras seja típica dos heterodoxos que mandam na moda.

Boa parte do que Schopenhauer escreveu não se aproveita. Basta pensar nesta pérola: 'Foi necessário que a inteligência do homem se achasse obscurecida pelo amor para que chamasse belo a esse sexo de pequena estatura, ombros estreitos, ancas largas e pernas curtas'.

Em contrapartida, afirmou que a vida de cada um oscila entre a dor e o tédio. O grande mal que tortura cada homem é o desejo. Só aquilo que não se tem alcança valor incontestável.

'Sentimos a dor, mas não a ausência da dor. Sentimos a inquietação, mas não a ausência da inquietação, o temor, mas não a segurança. Sentimos o desejo e o anelo como sentimos a fome e a sede.' Schopenhauer vai ao extremo: 'Se um Deus fez este mundo, eu não gostaria de ser esse Deus: a miséria do mundo me esfacelaria o coração'.

Garante que, se o criador fosse um demônio, não faltaria um acusador para dizer-lhe: 'Como ousaste interromper o repouso sagrado do nada para fazer surgir uma tal massa de desgraça e de angústias?'. Toda essa amargura é o resultado da falta de amor materno.

A mãe de Arthur só queria fazer festa. Schop não viu sereia alguma num doce balanço a caminho do mar. A simples vista de Gisele Bündchen teria mudado metade da sua filosofia. Mas acertou, como sabem os publicitários, no essencial: o ponto frágil da humanidade é o desejo.

juremir@correiodopovo.com.br

Um ótimo sábado e um excelente fm de semana - Gostei do texto endosso as palavras do Juremir


29 de novembro de 2008
N° 15804 - A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR


A história de um estigma

Porto Alegre sediou, nesta semana, um importante evento médico, o Congresso de Hansenologia. Congresso de quê? – estranharão vocês. Hansenologia é a parte da medicina que estuda a hanseníase, o termo científico para lepra.

Por disposição legal, no Brasil esta última palavra não pode ser usada em documentos oficiais. Isto reflete a existência de um dos mais antigos estigmas da história da humanidade.

O Antigo Testamento menciona uma doença conhecida como tzaraat, palavra em geral traduzida como lepra, ainda que outras doenças de pele pudessem estar incluídas neste rótulo.

O diagnóstico estava a cargo do sacerdote; médicos à época não eram figuras muito freqüentes e nem muito confiáveis. Além disso, o diagnóstico da lepra não era exatamente um procedimento médico; nenhum tratamento, mesmo tentativo, era instituído. O objetivo era rotular o paciente como “puro” ou “impuro”.

E, se se tratava de “impureza”, via-se nas lesões a evidência do castigo divino do qual a pele era um alvo habitual. Por que a pele? Em primeiro lugar, porque a pele é visível. Uma doença dos rins, por exemplo, dificilmente serviria como estigma. As lesões da hanseníase, às vezes deformantes, saltam aos olhos.

Além disso, trata-se de doença contagiosa (muito pouco contagiosa, mas contagiosa, de qualquer maneira) de modo que contrai-la levantava a suspeita de contato corporal – de sacanagem, em outras palavras.

Que o tabu funcionou, mostra-o o fato de que o cristianismo também o endossou.O modelo de diagnóstico era semelhante ao do Antigo Testamento, mas ficava a cargo de uma comissão, composta de um bispo, vários clérigos e também um leproso, considerado especialista na matéria.

Rotulado o examinando como leproso, procedia-se ao processo de exclusão: ele era envolto em uma mortalha, e rezava-se uma missa de réquiem; os presentes jogavam terra sobre o excluído que era conduzido a um dos muitos leprosários (quase 20 mil na Europa), administrados e cuidados por ordens religiosas.

O leprosário de Itapoã, aqui no RS, surgiu relativamente tarde, em 1940, e hoje está praticamente desativado.

Com o final da Idade Média, e por razões que não são bem claras, o problema da lepra diminuiu consideravelmente. No final do século 19 foi identificado, pelo cientista norueguês Gerhard Armaur Hansen (daí o nome hanseníase) o bacilo causador da doença; a partir daí desenvolveu-se um tratamento que, na imensa maioria dos casos, resulta em cura.

Mas o estigma persistiu por algum tempo e gerou a medida politicamente correta de evitar a palavra lepra. O que causou alguns problemas. Os pacientes não sabiam o que é hanseníase, e o médico tinha de traduzir: “É a antiga lepra”. Ou seja: de alguma forma a palavra era dita.

Estigmas vêm e vão, e disto temos vários exemplos. Num passado ainda recente, a palavra “colono” era depreciativa; hoje é motivo de orgulho. A eleição de Barack Obama pode ajudar a acabar com o tom pejorativo com o qual os racistas pronunciavam a palavra negro.

É uma lição que a história nos ensina: de alguma maneira, a humanidade avança. Avança graças à ciência, avança graças ao bom senso. Aos poucos, trocamos o estigma pela lógica. O que é um benefício para muita gente.