quinta-feira, 20 de novembro de 2008



GREVE JUSTA

arte pedro dreher sobre fotos cp memória
O magistério estadual gaúcho entrou em greve. Mas o governo achou-se incompreendido. Dado que uma lei federal estabeleceu piso salarial, como salário inicial, no valor de R$ 950,00, as autoridades do Rio Grande do Sul trataram de interpretar de outra forma o espírito dessa medida, contrariando o bom senso e a língua portuguesa, para defender os interesses dos nossos professores.

Não entenderam? Acham que estou ficando louco? Explicarei.

O governo gaúcho ficou preocupado com a possibilidade de os professores começarem a ganhar um pouco mais. Nem se trata de ganhar bem, muito bem ou suficientemente. É bem mais simples. Ganhar a partir de R$ 950,00 complica.

Esmiuçarei o que parece serem as razões profundas, embora jamais reveladas, dos nossos representantes e gestores. As razões superficiais são conhecidas: falta de recursos, sistema inchado e necessidade de não abalar o ajuste fiscal em curso.

As razões que aqui chamo de profundas são mais interessantes. Se um professor em começo de carreira ganhar R$ 950,00, quanto receberá, acrescentando-se vantagens, um profissional com 20 anos de carreira?

Pode, quem sabe, chegar a R$ 2 mil. Já imaginaram? Aí se tornaria perigoso. Professor com salário razoável pode começar a fazer coisas impensadas, tomar atitudes impulsivas, agir de modo precipitado.

Entre as ações perigosas que podem resultar de uma elevação substancial de salário encontram-se ir ao cinema com mais freqüência (ou simplesmente ir ao cinema), comprar música e, pasmem, adquirir braçadas de obras na Feira do Livro.

Bem, braçadas mesmo, convenhamos, não daria, salvo em balaios, mas ainda assim haveria o risco de um aumento vertiginoso na aquisição de livros.

É sabido que professores com muita leitura causam problemas. Ficam sabichões, até arrogantes, ensinam melhor e podem até fazer com que os alunos de escolas públicas se tornem verdadeiros concorrentes de alunos de escolas privadas em vestibulares ou outros gêneros de concursos.

Ouvi dizer, embora sem confirmação, que já tinha professor pensando em viajar graças ao piso salarial (salário inicial). Não deve ser verdade. Livros e viagens já é demais!

Outro item contestado pelos nossos protetores diz respeito ao tempo necessário para atividades fora de sala de aula (preparação, correção de provas e outros passatempos levados para casa). Segundo o governo, isso exigiria contratar mais 27 mil professores. Não haveria dinheiro para isso.

Sugere-se, então, que o magistério continue a praticar uma tradição de sacrifício, trabalhando de graça no aconchego do lar pelo bem público e pelo sacerdócio do ensino. Afinal, ser professor deve ser padecer na sala de aula e ainda levar trabalho para casa. Claro que os governantes não se reconhecerão nestas linhas.

Mesmo assim, frios e estatísticos, pedirão como sempre cautela, pragmatismo e realismo a quem passa a vida esperando o famoso 'agora vai'. Aí, quando vai um pouquinho, inacreditavelmente, o governo não quer pagar.

A greve só podia ser justa. Mais do que isso, justíssima, legítima, além, claro, de ser legal. Em governo de intelectual, costuma ser assim: a educação fica em segundo lugar mesmo parecendo estar em primeiro. Foi assim com FHC.

As universidades públicas foram abandonadas. No Rio Grande do Sul, educação e cultura só têm levado tranco. Quando não tem outro jeito, é preciso meter o pé na porta. Piso é salário inicial.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite o dia - Uma ótima quinta-feira


20 de novembro de 2008
N° 15795A - RICARDO SILVESTRIN


Procedência

Ouvi duas vezes, em menos de uma semana, a música Querência Amada, do Teixeirinha. Uma vez foi na voz de um cantor na Feira do Livro de Porto Alegre. A interpretação era com violão e no ritmo e roupagem originais. A segunda, no CD Ninguém é Perfeito, do roqueiro Charles Master. Um arranjo com banda de rock e sotaque porto-alegrense.

Para ambos os cantores, de alguma forma, fez sentido dizer os versos “quem quiser saber quem sou / olha para o céu azul / e grita junto comigo / viva o Rio Grande do Sul / o lenço identifica / qual a minha procedência”.

E também “Deus é gaúcho / de espora e mango / foi maragato ou foi chimango / querência amada / meu céu de anil / este Rio Grande gigante / mais uma estrela brilhante / da bandeira do Brasil”.

É claro que o ruído entre o rock e o regional dá uma ambigüidade a mais para o texto. Soa como afirmação de uma “procedência” num ambiente de ampliação do regional para o mundo urbano, contracultural. Já no cantor da Feira, não havia dois mundos, duas leituras. Era o gaúcho que ama sua terra sem contradições.

Quanto a mim, nascido em Porto Alegre, nada identificado com a afirmação excessiva de um regionalismo, pois gosto do Brasil como um todo, sublinhei, enquanto ouvia na Feira, os versos em que a letra dizia “Oh! meu Rio Grande / de encantos mil / disposto a tudo / pelo Brasil” e também a imagem final de ser mais uma estrela brilhante na nossa bandeira.

Pensei em como o Teixeirinha valoriza o seu Estado natal sem cair num separatismo, numa hostilidade ao Brasil.

É claro que isso tudo tem raízes históricas e míticas. Está ligado à construção de uma identidade baseada tanto em acontecimentos reais quanto em construções de ideologia.

No futebol, várias vezes me pego querendo derrotar os paulistas e cariocas na base da raça, da bravura, desse nosso estilo portenho. Mas daí a querer desprezar o samba carioca, a inquietação estética dos paulistas, a sabedoria dos baianos, para mim é demais.

Sempre que viajo a vários lugares do Brasil, descubro mais gente legal. Manaus, Brasília, Curitiba, Floripa... Prefiro pensar como o Teixeirinha em conviver com todas as estrelas da bandeira.


20 de novembro de 2008
N° 15795 - PAULO SANT’ANA


Pontal e aposentados

O mais sensato no momento em que se discute se o prefeito José Fogaça deve sancionar ou vetar o projeto da construção de um complexo arquitetônico na Ponta do Melo, o chamado Pontal do Estaleiro, é que se devolva à Câmara de Vereadores a iniciativa, com o veto ao projeto, para que seja mais amplamente discutido pela sociedade organizada.

Parece ser muito convincente a tese levantada por alguns setores citadinos de que o Pontal do Estaleiro deva ser incluído num projeto amplo e abrangente sobre a real vocação da orla do Guaíba em vez de ser isoladamente instituído.

Em seguida, nos próximos dias, ingressará na Câmara de Vereadores um projeto arquitetônico análogo ao do Pontal do Estaleiro, pelo qual será proposta a construção de várias torres de prédios comerciais na orla do Guaíba, por parte do Sport Club Internacional, que pretende erguer esses edifícios em torno da área do seu estádio que se delimita com o Guaíba.

Parece claro que se deva juntar o Pontal do Estaleiro com o projeto do S.C. Internacional, quando toda a política de urbanização da orla do Guaíba deverá então ser fartamente discutida por todos os setores da sociedade, inclusive os ambientais, sem o emocionalismo desgastante das apreciações de cada projeto por vez, além da falta de sintonia entre um e outro, com o que proporciona o distúrbio dos interesses a granel.

Se assim a orla do Guaíba começa a ser atração para as construtoras, que as edificações futuras nelas inseridas sejam constantes de um projeto só, entrelaçado em ideologia arquitetônica única, sem os retalhos das polêmicas individualmente cansativas e ressentidas.

Além disso tudo, a melhor informação vinda ontem da prefeitura dava conta de que o prefeito não iria sancionar um projeto cuja aprovação está sob investigação do Ministério Público.

Não tem explicação que o presidente Lula da Silva sancione a cada ano que passa um reajuste dos aposentados do INSS em percentagem que significa apenas cerca da metade do reajuste dado ao salário mínimo.

Fica escandalosamente degradado desta forma o reajuste aos aposentados. Ano a ano se exaure o poder de compra dos aposentados.

De seis anos, tempo que Lula governa, até mais outros seis anos, aposentados que ganhavam o correspondente a 10 ou oito salários mínimos perceberão três a quatro salários mínimos.

E em 15 anos se chegará à brutalidade social de que todos os aposentados ganharão apenas um salário mínimo.

Como é que, sendo ex-trabalhador e atual aposentado, o presidente permite tal chacina nos proventos dos velhos que vão morrendo à míngua de reajustes.

Lula não poderia de forma alguma, como parece que se apresta a fazer, vetar os projetos do senador Paulo Paim que visam a reparar os danos sofridos pelos aposentados.


20 de novembro de 2008
N° 15795 - LF VERISSIMO


Quantum of confusion

Tiveram o bom senso de manter o título do original, Quantum of Solance, no Brasil. Ninguém sabe o que quer dizer mas é a melhor coisa do filme.

O título e a cara do Daniel Craig, o primeiro James Bond com remorso e sem piadas, dão uma falsa gravidade ao que é apenas outra exibição de competência técnica, com os efeitos especiais e a montagem frenética ajudando a disfarçar a incoerência do enredo. Ninguém vai ver um filme do James Bond esperando enredo verossímil, claro, quanto mais ponderações profundas sobre a alma humana, mas o título prometia pelo menos algo mais inteligente.

Não sei se foi meu fastio com efeitos técnicos e violência tão fragmentada que na metade do tempo não se sabe quem está fazendo que barbaridade a quem, mas confesso que não me esforcei muito para entender a trama.

Tudo tem a ver com um mar secreto na Bolívia que o bandido quer pra ele, é isso? Como a ação pula da Itália para o Haiti, daí para a Áustria e depois para a Bolívia num curto espaço de tempo, fiquei pensando que admirável mesmo não era o nosso amargo herói sobreviver aos tiros e às explosões com apenas alguns arranhões, era agüentar as constantes mudanças de fuso horário sem tontear.

E como é que ele passava por todos aqueles aeroportos sem ter sua artilharia detectada pelo raio X? Mesmo o mais inverossímil precisa se dar o respeito.

Uma curiosidade. O agente 007 começou sua carreira no serviço secreto inglês, na literatura e no cinema no auge da Guerra Fria. Sua missão principal era combater a ameaça comunista. Mas, que eu me lembre, só num dos seus filmes, ainda interpretado pelo Sean Connery, Bond enfrentou agentes da União Soviética.

Em todos os outros filmes da série, Connery e todos os outros Bonds salvaram a humanidade de supervilões sem ideologia, empenhados em chantagear as grandes potências por lucro ou por um delírio de poder.

Ou enfrentaram a “Spectre”, uma organização assassina a serviço de quem pagasse melhor, que substituiu a “Smersh” dos livros de Ian Fleming, esta, sim, uma agência de contra-espionagem soviética.

A razão da troca, supostamente, era não agravar as relações já perigosas do Ocidente com os russos.

Mas o mesmo escrúpulo não é mantido no Quantum of Solance, em que a CIA aparece apoiando o supervilão de praxe para desestabilizar o governo, supostamente popular da Bolívia – um pseudo Evo Morales nunca identificado – deter o avanço da esquerda e proteger os interesses americanos na região.

O que os filmes do 007 nunca disseram da KGB e da “Smersh” dizem claramente da CIA, que merece todo o desdém que a grande Judi Dench, como “M”, chefe dos Bonds, wconsegue transmitir com um leve sorriso invertido.

Aguarde o próximo filme da série: 007 salva a humanidade e seu dinheiro de supervilões de Wall Street.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008


SERGIO COSTA

No reino do faz-de-conta

RIO DE JANEIRO - Num fim de semana de sol, Julia, 2, foi apresentada de forma inusitada à realidade social e à violência da cidade em que vive.

Ela brincava, entretida com castelinhos de areia, dentro de uma casa de plástico, dessas que os "baixos bebês" espalham pela orla para a diversão de crianças pequenas, quando, de repente, começou a chorar bem alto.

Uma menina, um pouco mais velha, entrou intempestivamente na casa de brinquedo e passou a bater janelas e portas aos gritos: "Fecha tudo! Fecha tudo! É a polícia!". A pequenina se assustou.

A criança, Érica, 4, moradora de favela ali perto, brincava de reproduzir cena que deve fazer parte do seu cotidiano. E assim transformou o que parecia uma casa de bonecas em um barraco cercado por policiais com dedos nervosos. Um jogo cheio de tensão e nada lúdico.

Na semana passada, a poucas quadras da praia que juntou dois pequenos universos, a polícia matou três num galpão-escritório do PAC no Pavão-Pavãozinho. Tinha invadido a favela atrás de uma denúncia de desvio, para obras de melhoria em casas de traficantes, de material do programa do governo.

Anunciado como solução para a violência nas favelas, o PAC, a julgar pelo que aconteceu no morro, está acelerando, em paralelo, o crescimento do patrimônio e do poder de alguns bandidos.

Além de indicar a mão-de-obra nas favelas e estabelecer condições em que os trabalhos podem ser feitos, eles agora tiram proveito de cimento, tijolos e fiações destinados a melhorar a vida nas "comunidades".

Nesse ritmo, é mais fácil Julia parar de se assustar com o jogo do "barraco invadido" do que a pequena Érica ver transformada a triste realidade que é obrigada a testemunhar -e acaba por reproduzir no lugar das brincadeiras e fantasias infantis que lhe são negadas.

PAULO RABELLO DE CASTRO

Recessão, depressão ou deprimidos?

Ao lutar contra o ajuste sempre adiado, os atuais dirigentes encomendam mais recessão com inflação

MUITA GENTE boa acha que, sem medidas rápidas, o mundo pode cair numa depressão. O recém-agraciado Nobel em Economia, Paul Krugman, também acha. Em artigo, chama a situação atual de "economia da depressão". Seria aquela em que as medidas comuns de política econômica, como injetar liquidez nos mercados, para reanimar vendas, perderam eficácia.

A receita de Krugman é: o governo americano deve perder também o juízo e abrir o cofre, sem se preocupar com o déficit fiscal. E se a economia superaquecer em razão disso, então "o Fed poderá elevar as taxas de juros".

Qualquer um "é contra" a economia da depressão. E quem seria a favor? A questão, no entanto, se situa exatamente nesta dúvida: será que alcançaremos mais prosperidade apenas por adotar a negação do atual ajuste recessivo?

Mesmo sem admiti-lo, Krugman endossa a escola monetária de Alan Greenspan, que conseguiu aplainar quatro ajustes recessivos da economia americana durante sua longa gestão (1987-2005). No Fed, Greenspan convenceu seus pares a injetar uma quantidade trilionária de dólares "sem lastro" na economia. Minimizou os juros e endividou os pobres e a classe média nos EUA.

O resultado acumulado de tantas pedaladas macroeconômicas aí está: uma crise de dívida global sem precedentes, que vai dos EUA à China!

Krugman erra quando sugere a reincidência na liquidez exagerada e no rebaixamento de juros como fórmulas para sair da "economia da depressão". A economia mundial ainda está longe da deflação de preços dos anos 30.

A temida depressão poderá vir, sim, se as autoridades mundiais persistirem atuando contra o ajuste da economia real em vez de permitir as acomodações de valor dos ativos. Mesmo dolorosos, os ajustes de preços são essenciais.

Ben Bernanke e Henry Paulson, discípulos de Greenspan, e outros seguidores deste mundo afora não têm feito outra coisa senão injetar mais liquidez e baixar juros: no último mês, as operações de compra de títulos "micados" pelo Fed vêm ocorrendo ao ritmo alucinante de US$ 150 bilhões por semana.

Uma tragédia para a estabilidade monetária e fiscal dos EUA, na futura gestão Obama. A própria confiança no dólar está seriamente comprometida.

A onda a favor do dólar pode revirar amanhã, contra a moeda americana, sem aviso prévio. Geraria, então, a inflação "prevista" por Krugman. O Fed defenderia sua moeda com juros brutais. Aliás, o homem dos juros brutais -Paul Volcker- já está a postos...

Só que, distintamente do que afirma o Nobel em Economia, a inflação do dólar não viria em razão de qualquer "superaquecimento" da produção, mas por uma mistura cruel de estagnação da economia produtiva com inflação galopante.
Sabemos bem o que é isso.

A lição desta crise global é clara: ao lutar contra o ajuste sempre adiado, os atuais dirigentes políticos, aflitos e confusos, encomendam mais recessão com inflação, amanhã. Talvez até uma depressão esteja por vir, se a confiança nos regimes monetários finalmente se esgotar.

A crise da grande bolha de Wall Street diminuiu a estatura dos homens que a enfrentam. O generalismo e a falta de foco das propostas de combate à crise colecionadas pelo G20, na semana que passou, demonstram o grau de perplexidade, não só dos economistas, como das autoridades que se debruçam sobre a "genética" dessa doença.

Como areia movediça, quanto mais nos debatermos, mais rápido afundaremos.

PAULO RABELLO DE CASTRO, 59, doutor em economia pela Universidade de Chicago (Estados Unidos), é vice-presidente do Instituto Atlântico e chairman da SR Rating, classificadora de riscos.

Preside também a RC Consultores, consultoria econômica, e o Conselho de Planejamento Estratégico da Fecomercio-SP. Escreve às quartas-feiras, a cada 15 dias, nesta coluna.

paulo@rcconsultores.com.br


19 de novembro de 2008
N° 15794 - MARTHA MEDEIROS


Insatisfação crônica

Que sou caidíssima por Woody Allen, todos sabem, e que arrasto uma asa para Pedro Almodóvar, também não é segredo. Então pode-se imaginar o quanto saí satisfeita do cinema depois de assistir Vicky Cristina Barcelona. Satisfação, aliás, que os personagens do filme não parecem alcançar.

Pudera: Doug que amava Vicky que amava Juan Antonio que amava Maria Elena que amava Cristina que não amava ninguém. O happy end nunca passou tão longe de uma história.

Que história? Duas jovens americanas resolvem passar férias na Espanha. Uma está noiva de um homem padrão e não quer saber de aventuras, a outra está para o que der e vier, basta que surja um guapo bem disposto, e surge: um pintor que traz na bagagem uma separação mal resolvida com uma tresloucada e que resolve seduzir as duas turistas, mesmo com a ex-esposa na cola. Salve-se quem puder.

Mas não é um filme sobre desencontros. Ao contrário, é um filme sobre buscas. Dessa vez, Allen se permitiu ir além de si próprio: colocou pinceladas de uma ousadia almodovariana e, se eu não andei vendo coisas, há no roteiro algo de Truffaut também.

O resultado é um filme universal, como universal tem sido a nossa insaciedade.

Num tempo nem tão distante, você podia fantasiar o que bem entendesse, desde que seguisse o manual de instruções: casar e ter filhos. Se, mais tarde, acontecesse o imprevisto de uma frustração extrema, que se procurasse alguma saída, mas sem estardalhaço.

Essa é a situação da anfitriã das turistas no filme, uma senhora casada há uns bons 40 anos que, mesmo ainda amando o marido, sonha com uma grande paixão, mas declara-se impossibilitada de rescrever sua própria história - sente que o tempo dela passou.

Já Vicky e Cristina têm o tempo jogando a favor e vivem numa sociedade que não cessa de manter bem alto o nível de excitação geral. Internet, cinema, novelas, revistas, livros, música: tudo nos conduz a pensar que a vida não tem o menor sentido se a gente não sentir prazer 25 horas por dia.

E onde se esconde esse tal de prazer? Se você procurá-lo num casamento, estará renunciando às outras alternativas. Se, ao contrário, passar em revista todo homem ou mulher que lhe der um sorriso promissor, tampouco terá garantia de encontrar o que procura.

O que é que a gente procura? A tal festa no outro apartamento, a tal grama mais verde do vizinho, o tal êxtase que parece estar sempre na outra margem do rio.

Numa recente entrevista, Woody Allen disse que, de certa forma, tinha intenção de provocar tristeza com Vicky Cristina Barcelona.

Ainda que o filme tenha mesmo um toquezinho melancólico, Allen é elegante e engraçado em qualquer situação, e o que ele consegue, como sempre, é apenas (apenas?) nos mostrar como é megalômano o projeto de alcançar a plenitude dos sentidos. Mas a gente não aprende e vai morrer tentando.

Aproveite o dia - Uma ótima quarta-feira.


19 de novembro de 2008
N° 15794 - SERGIO FARACO


Autógrafos

Estou combinadíssimo com o editor: minha sessão de autógrafos na Feira do Livro foi a última. Mas olhem só: ao lhe comunicar minha decisão, fiquei sabendo que ele não tem tanta simpatia por sessões de autógrafos e só as organiza por considerar que é um desejo dos autores.

Como? Ouvi bem? Eu, que sempre admiti autografar meus livros em dadas ocasiões por pensar que assim o desejava o editor?

Cáspite, como dizia o outro.

O sobredito Ivan Pinheiro Machado e eu nos vemos assiduamente há 21 anos, estamos na antevéspera das Bodas de Prata, e nesses anos todos temos discutido muitas coisas, menos esta. Um silêncio obsequioso? É isso? Então nota 3 para os dois. Não aprendemos com Heráclito que a luz crua sempre é a melhor.

Minha resistência se justifica: constrangem-me essas liturgias mercadológicas. Não desgosto de autografar quando um leitor, ocasionalmente, sobretudo espontaneamente, vem ao meu encontro. Promoções para tal fim são outros quinhentos. A maioria das pessoas comparece porque, dir-se-ia, foi intimada.

E se a fila é lumbrical, lá está a vítima, ou o réu, a cumprir a pena que a editora e o autor lhe dão: duas horas de espera. Isso sem falar no que desembolsou, nem sempre de boa hora.

O editor, não sei, mas suspeito de que ele poderia lamentar, como Schopenhauer sobre a vida, que sessão de autógrafos é um negócio que não vale o investimento. Tem um lado bom e um lado ruim. O bom: dá no jornal que a obra já freqüenta as prateleiras comerciais.

O ruim: a casa gasta coxudos pilas na impressão de convites, gasta com envelopes, postagem, vinho, petiscos, sem contar as horas de trabalho de seus funcionários e a inquietude: será que vai dar certo?

O investimento dificilmente é compensado pelo número de exemplares vendidos, exceto nos casos em que a fila dobra a esquina.

E nem estou considerando que autografar livros em livrarias ou feiras é algo que se vulgarizou e perdeu o encanto. Em nossa feira, pasmem, tivemos 800 sessões de autógrafos, mais de 50 por dia.

Uma alternativa é o costume em voga no Uruguai. No lançamento do livro, o editor oferece um coquetel a jornalistas, críticos literários, livreiros, distribuidores. Alguém apresenta a obra, o autor responde às eventuais perguntas e... fim!

Se algum dos presentes quiser um autógrafo, que o peça. Assim não se constrange o autor, tampouco o convidado, e o editor, gastando menos, herda o único benefício do que hoje se faz de modo tão incivil: a atenção de quem conduz o livro até o leitor.


19 de novembro de 2008
N° 15794 - PAULO SANT’ANA


O contracheque de um PM

Sempre ouvi falar que a greve é o último recurso dos trabalhadores. O extremo recurso.

Depreendo que o último recurso que os professores estaduais tiveram para não ver seu piso salarial nacional, recentemente concedido pelo governo federal, se transformar em piso do total de ganhos, incluídas as vantagens, foi a decretação da greve.

Como a greve é o último recurso exercido pelo magistério estadual, não tendo sido minha coluna usada como penúltimo recurso dos professores, deixo de publicar o caudal enorme de correspondência que me chega provinda de muitos professores, solicitando-me que pressione o governo para que ceda às exigências dos grevistas.

Sinto que ficaria muito desigual para o governo, além da greve, ter de suportar a pressão da minha coluna.

Até mesmo porque tenho recebido também correspondência de pais de alunos revoltados com a greve, desfechada a pouco tempo do fim do ano letivo.

Então para ficar isento, respeitando o arrocho salarial que há tanto tempo se abate sobre os professores estaduais, prefiro publicar hoje em minha coluna um contracheque de um soldado PM que me pediu socorro, escrevendo-me pateticamente: “Não tenho mais como viver assim!”.

Até mesmo porque, no caso, a minha coluna é então, sim, ao contrário dos professores, o último recurso para os PMs: é que eles são proibidos de fazer greve.


19 de novembro de 2008
N° 15794 - DAVID COIMBRA


O sangue dos fuzilados

Cá entre nós já circulam os mexicanos. Erico Veríssimo escreveu um belo livro de viagem sobre o México. Recomendo. A folhas tantas, ele ingressa no Estado de Chihuahua, a bordo de um trem.

Erico tenta ler uma novela de Simenon durante o trajeto. Não consegue. A paisagem desértica e paupérrima puxa-lhe o olhar janela afora. Erico está impressionado com o que vê:

“Passamos agora por um velho muro onde escurejam manchas. Sangue dos fuzilados de antigas revoluções – penso. De vez em quando o vento ergue uma onda de poeira e eu como que sinto nos lábios e nos dentes a aspereza daquela areia. (...)

Algo começa a inquietar-me. Não vi ainda nesta paisagem nenhum rio, lagoa, cascata ou mesmo córrego. Duas coisas parecem estar ausentes deste mundo inóspito: água e sorrisos.

Faço esta observação a um homem taciturno com quem puxo conversa na plataforma do carro, numa das paradas, e ele me arrasa com estas palavras: ‘O senhor acredita que esses pobres índios têm algum motivo para sorrir?’”

Uau! “México”, intitula-se o livro de Erico. Nos melhores sebos da praça. Procure o Guilherme, ali na Beco dos Livros, ele haverá de encontrar algum exemplar seminovo.

Emiliano Zapata, como os índios de Erico, não sorria. Tenho alguns livros sobre Zapata em casa. É dos meus personagens preferidos da História da Humanidade. Um dos livros, publicado pelo Fondo de Cultura Econômica do México, é a sua iconografia. Ou seja: fotos e ilustrações de Zapata.

Em nenhuma ele aparece sorrindo. Vê-se sempre um homem de expressão grave, invariavelmente postado debaixo do enorme sombrero, atrás de frondosos bigodes estilo Rivellino, o peito cruzado pela cartucheira cheia, mirando a lente com olhos tão tristes quanto bondosos.

Olhos de sampaku – aqueles olhos em que o branco da esclerótica aparece sob as pupilas. Os japoneses acreditam que quem tem olhos de sampaku sofrerá morte violenta. De fato, Zapata morreu assassinado numa emboscada em 1919, em meio à consolidação da revolução mexicana.

Aliás, essa foi talvez a única revolução realmente popular da História. Não contou com lideranças intelectuais, como os Lenins e Trotskis da Revolução Russa ou os Marats e Dantons da Francesa. Foi promovida, toda ela, pelos camponeses mexicanos. Zapata marchava do Sul com os camponeses em andrajos gritando:

– Tierra! Tierra!

Pancho Villa vinha do Norte. Encontraram-se na Cidade do México e tomaram o poder. As fotos desse encontro são magníficas.

O grupo de revolucionários no palácio do governo, Villa sentado na cadeira presidencial, sorrindo, Zapata ao seu lado, fitando o observador com gravidade, o sombrero descansando no joelho. Um contraste, os dois líderes. Villa, um pândego; Zapata, um circunspecto. Na verdade, um fatalista. Afirmava:

– Para que triunfe nuestra revolución será necesario que yo perezca antes.

Ao perecer, tornou-se lenda. Ainda hoje há um verso popular mexicano que diz:

“Abril de mil novecientos
Diecinueve, en la memoria
Quedarás del campesino
Como una mancha en la historia
Campanas de Villa Ayala,
Por qué tocan tan dolientes?
– Es que ya murió Zapata
Y era Zapata um valiente”.

Emiliano Zapata, cara! Zapata derrubou o ditador Porfírio Diaz, um canalha, mas bom frasista. Cunhou uma das sentenças mais inteligentes sobre seu país:

– Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.

Os mexicanos têm espírito. E, ao contrário de Erico, só tenho visto mexicanos sorridentes. Num jogo contra o Brasil, na Copa América de 97, a pequena torcida que eles levaram para a Bolívia enfeitiçou o estádio.

Os mariachis cantavam e tocavam seus instrumentos, brincavam com os brasileiros e incentivavam seus jogadores sempre com bom humor. Quando o goleiro deles fazia uma defesa, ecoava o coro da arquibancada:

– Portero! Portero! Portero! Imagine o Victor fazendo uma grande defesa e a torcida do Grêmio:

– Goleiro! Goleiro! Goleiro!

Mas o que me encantou mesmo acerca dos mexicanos é o hábito que as emissoras de TV de lá têm de enviar belas repórteres para coberturas esportivas. Lembram da loira Inés Sainz, que cobriu a Copa da Alemanha? Essa Inés é uma celebridade no México. Tipo a Xuxa. Não a Xuxa de agora, a Xuxa em horário nobre.

Inés era o comentário da cobertura. Jogadores, jornalistas e torcedores só falavam nela.

Que Ronaldos, que nada: Inés! Vi alemães prostrados à passagem da mexicana pelas ruas. Imagino o que Erico Verissimo escreveria sobre ela. Estará por aí, cobrindo o Chivas, a espera do enfrentamento com o Inter? Se estiver, vai se decepcionar.

Concordo com o Guerrinha, meu colega de Bate Bola, na TVCOM: nem o espírito de Zapata, nem a presença radiante de Inés Sainz, nem tudo que há de imponderável no futebol tira a classificação do Inter nesta noite porto-alegrense.

terça-feira, 18 de novembro de 2008


MARCOS NOBRE

Reformas e embrulhos

HÁ JÁ ALGUM tempo, reforma é o nome do embrulho político brasileiro. O governo empacota todos os seus sonhos de transformação institucional e manda a encomenda ao Congresso.

No Congresso, entra uma reforma política e sai uma mera mudança em um dispositivo como o da fidelidade partidária. O embrulho serve apenas para justificar manobras de última hora e negociações de gabinete para aprovar pontos menores.

Ouve-se uma lamentação geral por não ter sido aprovada a grande reforma. E ninguém mais se preocupa se o que foi efetivamente aprovado tem a tal coerência de conjunto que tanto se exigia antes.

Exigir a coerência e a abrangência de uma reforma é deixar tudo como está. Mesmo porque muito raramente uma reforma aprovada tem essas características. Mudar alguma coisa depende de construir acordos sobre questões específicas.

Especialmente no que diz respeito aos temas da chamada reforma política. A reforma tributária, se chegar a ser votada, deve ser derrotada na Câmara ou receber uma gaveta de luxo no Senado.

Não há razão para paralisia. Sobre pontos que o Congresso não conseguir se entender, que a decisão seja deixada ao eleitorado. Seja diretamente, por referendo ou plebiscito, seja permitindo a convivência de alternativas no sistema político-eleitoral. Só o que não se pode aceitar são formulações esdrúxulas como a do referendo sobre o comércio de armas de 2005.

Parece haver acordo em torno da cláusula de desempenho de 1% e da proibição de coligações para eleições proporcionais. Mas, por boas razões, não há, por exemplo, acordo sobre o voto em lista fechada de candidatos elaborada pelo partido.

Uma solução seria fazer com que o atual voto em legenda fosse direcionado para uma lista fechada.

Respeitada a lógica do quociente eleitoral, as últimas cadeiras destinadas a um partido seriam preenchidas pela lista fechada, proporcionalmente ao número de votos em legenda. Os dois sistemas poderiam conviver até que fosse possível uma avaliação dos resultados.

Um outro caso difícil, mas não impossível, é o do voto facultativo.

Parece não haver quem não seja a favor em princípio. Os argumentos contrários são sempre relativos às conseqüências concretas da implantação: currais eleitorais serão mantidos ou mesmo recriados.

Mas, para saber se há mesmo conseqüências nefastas, não há outra prova senão experimentar. O mesmo se dá em relação ao financiamento público de campanhas. Nestes e em outros casos difíceis, só uma consulta clara e direta ao eleitorado desembrulha a reforma.

nobre.a2@uol.com.br

BENJAMIN STEINBRUCH

Olhar longe

Dispensar mão-de-obra talentosa é decisão que não pode ser impulsiva, tomada sob o alarido da crise global

A CHIADEIRA dos articulistas de economia, inclusive a minha, deve aborrecer o leitor nestes tempos de crise. Não se fala em outra coisa desde o fatídico 15 de setembro.

E há uma incrível convergência de opiniões sobre os remédios a serem receitados. Dos mais ortodoxos até os mais heterodoxos analistas, todos aprovam a aplicação maciça de recursos públicos para sanear o setor financeiro, para fornecer crédito ao consumo e até para socorrer empresas industriais.

Keynes está em alta, e as garras do Estado substituem por toda a parte a mão invisível do mercado, num tácito reconhecimento de que a crise é gravíssima, a pior desde os anos 30.

Apesar disso, recuso-me a cerrar fileiras na ala dos conformados.

Alguns países já entraram em recessão e muitos outros deverão entrar em 2009 -a queda de produção no bloco dos ricos é estimada em 0,3% pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Mas, por enquanto, vale lembrar que, embora as previsões venham sendo revisadas sempre para pior, nenhum analista projeta recessão para a economia brasileira no próximo ano ou em 2010.

Salvo acidentes de percurso, portanto, seria prudente que as empresas brasileiras deixassem de lado as lamentações monótonas dos analistas para olhar as atuais projeções de que o PIB poderá crescer ainda 2% a 3% em 2009. Isso significa que, a despeito da crise, haverá mercado interno em expansão moderada e campo para trabalhar.

Nesse cenário, decisões precipitadas, tomadas no embalo do noticiário assustador sobre a recessão em outros países, podem custar caro a empreendedores brasileiros. A dispensa de pessoal, por exemplo, exige obediência a critérios técnicos, nunca a impulsos. Dispensar talentos é a última coisa a fazer, dada a dificuldade que haverá para recrutá-los e treiná-los novamente depois, quando a economia retomar seu vigor.

Olhar longe é uma receita básica.

Exemplo nítido dessa atitude é dado pelas companhias petrolíferas multinacionais. Muitas empresas estão cortando custos e demitindo funcionários pelo mundo. Mas as de petróleo, como mostrou reportagem do "Wall Street Journal" na semana passada, continuam a recrutar pessoal especializado de forma agressiva, mesmo tendo o preço do petróleo caído abaixo de US$ 60 o barril.

Essas empresas cometeriam um erro estratégico grosseiro se, por medo da recessão, deixassem de lado projetos cuja maturidade virá em até dez anos, quando a realidade da economia mundial será completamente diferente.

Como as companhias petrolíferas, muitas outras, de vários setores, aproveitarão o momento para pescar no mercado mão-de-obra talentosa e treinada que até há pouco era escassa. É bom lembrar que, em momentos como este, os concorrentes que olham longe estarão à espreita para resgatar os talentos à deriva.

Cada empresa, seja ela pequena, média ou grande, tem a obrigação de analisar cuidadosamente os efeitos da crise em sua atividade. É bom levar em conta, porém, que o abandono de projetos em andamento e mesmo de alguns em planejamento pode ser um erro de conseqüências desastrosas no futuro imediato.

Abandonar projetos e dispensar mão-de-obra são decisões que não podem ser impulsivas, tomadas sob o alarido estridente da crise internacional.

Elas devem decorrer de dados técnicos que levem também em conta dois aspectos fundamentais: 1) o Brasil tem um mercado interno gigante; 2) esse mercado vai continuar em crescimento, ainda que mais modesto.

BENJAMIN STEINBRUCH, 55, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp.

CARLOS HEITOR CONY

A hipoteca social

RIO DE JANEIRO - No recente encontro de Lula com Bento 16, no Vaticano, o presidente brasileiro sugeriu que o papa, em suas mensagens públicas, fizesse algum comentário referente à crise econômica e financeira que o mundo atravessa. Ignoro o que Bento 16 respondeu. É possível que tenha agradecido a sugestão, dado o caráter cordial e protocolar da visita.

Até certo ponto, o conselho não deixa de ser ocioso. A Igreja Católica romana tem uma tradição formada há séculos, explicitada sobretudo nas encíclicas "Rerum novarum" (1891) e "Populorum progressio" (1967).

Para ser claro: sua estrutura temporal sempre foi capitalista, em alguns momentos chegou a ser imperialista, desde que, de certa forma, substituiu o Império Romano na esfera ocidental.

Mas, em seu conteúdo pastoral, sua mensagem foi bem sintetizada por João Paulo 2º, que, no início de seu pontificado, em Puebla, disse que "o capital tem uma hipoteca social". Está dito tudo neste simples enunciado.

O papa não condenou o capitalismo em si, mas lembrou que o capital existe, se forma e sobrevive à custa da sociedade que trabalha e nem sempre é recompensada pelos lucros que gera.

Não se trata de pregar a caridade, o assistencialismo que muitas vezes integra o programa dos governantes. A idéia da hipoteca social é um preço proporcional que o capital tem de pagar ao trabalho, como um dos fatores do próprio capital, sendo mesmo o principal elemento da concentração da riqueza em mãos do Estado ou das empresas.

A crise que agora preocupa o mundo é a manifestação do capital mal-organizado e mal-operado.

Erguido à categoria de arco e flecha do desenvolvimento humano, é um ídolo sem consistência desde que não pague a hipoteca que deu início a seu processo dentro da sociedade.

ELIANE CANTANHÊDE

Por que será?

BRASÍLIA - O ministro José Temporão (Saúde) e o senador Tião Viana (PT-AC) viraram saco de pancadas do PMDB -e não estão apanhando pelos defeitos, mas possivelmente pelas virtudes.

Temporão foi indicado para a Saúde pelo governador do Rio, Sérgio Cabral. Lula gostou, e ele acabou ficando, como se fosse "da cota" do PMDB.

É uma mentirinha que convém a Lula, a Temporão, a Cabral, ao partido e, quem sabe, também à própria Saúde.
Vira e mexe, o pacto da mentirinha é ameaçado por um dos muitos peemedebistas que meteram a colher e os afilhados no cargos da Saúde e esperam que eles lhes peçam a bênção, não a Temporão.

A coisa ficou feia porque o ministro disse em público o que qualquer um sabe: a Funasa (Fundação Nacional de Saúde) é um antro de corrupção.

Não bastasse o, digamos, constrangimento de desvios em área tão sensível, a queda-de-braço agora é em torno da saúde indígena (e suas verbas), que os líderes do PMDB puxam para dentro da Funasa, e Temporão empurra para fora. Por que será que o PMDB está tão sensível à causa indígena? Mistério!

Quanto a Tião: ele passou a ser o "candidato natural" à presidência do Senado quando o PT e o PMDB fizeram um acordo para eleger o peemedebista Michel Temer na Câmara. PMDB na Câmara corresponderia a PT no Senado, mas o PMDB é o maior partido das duas Casas e exige as duas presidências.

O que há por trás? A mágoa do senador Renan Calheiros, que acusa Tião Viana de ter dado uma mãozinha para derrubá-lo da presidência depois da história torpe da Monica Lewinski brasiliense.

São dois pequenos exemplos de como o PMDB, além de noiva cara e assanhada, é também insaciável e dada a chiliques.

Temporão e Tião têm que botar as barbas e sobretudo os cargos de molho, mas quem deve se preocupar são Lula e, logo, logo, Dilma Rousseff. Ela não sabe o que é bom para tosse.

elianec@uol.com.br


17 de novembro de 2008
N° 15792 - PAULO SANT’ANA


ABC da crise

Não tenho como fugir de um assunto que está em todas as mentes: a crise econômica.

O grosso do povo não se preocupa, mas as pessoas, digamos assim, mais responsáveis estão mergulhando em graves apreensões sobre o destino econômico e financeiro do Brasil e do mundo nos próximos meses.

Então o que se nota é um pavor no ar. Notícias vindas da Europa dão conta que por lá os empregos estão sendo extintos em 10 mil por dia.

Se continuarem a ser desempregadas 10 mil pessoas na Europa, em breve não haverá mais empregos por lá.

A palavra mais empregada para definir a crise que nos aguarda: recessão.

Recessão é a queda da atividade econômica (isto é, o declínio do crescimento), com desemprego etc.

Mas vou no dicionário e vejo que há algo mais sério que a recessão: a depressão.

A depressão, ainda segundo o dicionário, é o período de declínio acentuado no nível de atividade produtiva e do emprego.

São quase a mesma coisa a recessão e a depressão.

A diferença é que na recessão o declínio da atividade econômica e do desemprego não é acentuado.

Então lanço as mãos e os olhos para os céus e dou graças a Deus que nenhum jornal, nenhum diagnosticador ou prognosticador econômico usou até agora a palavra depressão para definir o que nos espera no ano que vem.

Pelo menos a palavra recessão é usada em todos os noticiários e admitida por todos os governos mundiais.

Dos males o menor, se o que nos aguarda é uma profunda crise econômica por recessão, pior se fosse por depressão.

Afinal, por quantas vezes, nós que somos antigos ou velhos, já vivemos períodos recessivos aqui no Brasil?

Dezenas de vezes. E a economia sempre se recuperou dos períodos recessivos.

Angustiado e instigado pelos presságios sinistros da extensão da crise, cogitei de qual seria a conseqüência direta (ou causa indireta) da crise. E fui ver que era a restrição do crédito.

Ou seja, os financiadores estão com pouco dinheiro e passam a fazer exigências penosas para conceder crédito.

Não existe circunstância mais grave.

Porque o crédito chega a ser, na minha modesta opinião, a essência, o sinônimo do capitalismo.

O capitalismo passou a existir no dia em que inventaram o crédito.

O crédito é com certeza a maior invenção homem.

Pelo crédito, por um estratagema milagroso do capitalismo, gasta-se, isto é, usufrui-se antes mesmo de ganhar-se, ou seja, antes de ser-se merecedor da condição. Por exemplo, pobre é quem não tem nada ou tem pouco e não tem crédito.

Quem não tem nada ou tem pouco, mas obtém crédito, não é pobre. Por isso é que esta crise anunciada é grave: ela atingiu a femoral do capitalismo, o crédito. Salve-nos, Deus.


17 de novembro de 2008
N° 15792 - LF VERISSIMO


Os Ungerers

Strasbourg é a capital da Alsácia, terra de chucrute e vinho branco. É uma bela cidade, com seus canais, seu centro histórico classificado pela Unesco como patrimônio da humanidade e sua impressionante catedral, a Notre Dame de Strasbourg, cuja torre já foi a construção mais alta do mundo, o primeiro arranha-céu.

Em comparação com a austera e elegantemente simétrica Notre Dame de Paris, a de Strasbourg só pode ser descrita com um neologismo arquitetônico: rocogótica.

Como está assentada numa praça desproporcional ao seu tamanho, como um pão-de-açúcar num pires, é difícil você recuar para acompanhar a vertiginosa fuga para o alto da sua única torre. Há pouco espaço para você se maravilhar. Ainda mais se você for eu, e não tiver mais a necessária flexibilidade dorsal.

Mas há uma nova atração em Strasbourg. O artista gráfico Tomi Ungerer, natural da cidade, doou seu acervo, incluindo desenhos, pinturas e uma grande coleção de brinquedos, à comunidade, que cedeu um antigo prédio municipal para recebê-lo.

O encanto do novo museu começa no contraste do velho casarão em estilo clássico com seu conteúdo, a obra de um dos artista mais modernos e anticonvencionais em atividade.

Tomi Ungerer pertence a uma linhagem que tem origens remotas no francês Daumier e no inglês Hogarth mas é um fenômeno do século 20: gente como Saul Steinberg, George Grosz, André François, Ronald Searle e poucos outros – entre os quais, sem dúvida, o nosso Millôr – que fizeram do cartum uma arte, e uma arma, superiores.

Tomi Ungerer talvez seja, de todos eles (com a possível exceção de Grosz, que flagrou a inevitabilidade do nazismo em ácidas caricaturas da alta burguesia alemã), o mais impiedoso na sua crítica social.

E na sua misantropia, embora o museu seja dedicado em grande parte às suas ilustrações para livros infantis, além dos brinquedos, e estivesse cheio de crianças no dia em que o visitamos.

Não há salas proibidas para menores no museu, mas notamos uma sutil interferência do pessoal da casa no trânsito das visitas para evitar que as crianças vissem outra parte importante da obra de Ungerer, seus desenhos eróticos, com uma certa ênfase em aparelhos sadomasoquistas.

Na catedral de Strasbourg há um famoso relógio astronômico, um mecanismo enorme que além das horas mostra os dias da semana, cada um com seu deus mitológico correspondente, o mês, os anos (inclusive os bissextos), o tempo solar, as fases da lua e seus ciclos de eclipses, e os signos do zodíaco.

Todos os dias, às 12h30min, o relógio dá um espetáculo: bonecos dos 12 apóstolos desfilam diante de uma imagem de Jesus Cristo, acompanhados de uma música de realejo. Li um pouco sobre o relógio e descobri que o atual é a sua terceira versão desde o século 14. E que os outros dois pararam de funcionar, misteriosamente, em épocas de crise do cristianismo.

E que na construção do atual relógio, no século 19, foi muito importante a contribuição de dois irmãos cujos descendentes cuidaram do seu funcionamento até há pouco tempo.

E cujo nome era Ungerer! Não pude deixar de pensar nos desenhos de sexo mecanizado do Tomi vistos na exposição. A família, aparentemente, tem um dom para engrenagens geniais.

E não pude deixar de pensar que, com a crise de agora, deve ter gente imaginando que a qualquer momento este relógio também desista e os apóstolos parem de passar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

A crise cambial de 2008

O Brasil fica em situação intermediária; sofreu uma crise cambial porque deixou que o câmbio se valorizasse

A FASE DE pânico foi superada, mas a crise financeira continua forte e está agora se transformando em crise do setor real da economia. Os governos procuram neutralizar seus efeitos mais negativos, mas estes serão tanto maiores quanto mais frágil financeiramente for a economia do país.

Nos países ricos a crise é bancária, e os mais atingidos serão os países que deixaram seus bancos menos regulados, como são os casos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

Já nos países em desenvolvimento a crise financeira é uma crise do balanço de pagamentos; não foram os bancos que emprestaram e especularam de forma irresponsável, mas foram os países que se fragilizaram internacionalmente ao permitir que sua taxa de câmbio se apreciasse e seu déficit em conta corrente alcançasse níveis elevados.

Estão nesse caso, entre outros, os países do Leste Europeu, o México e a África do Sul, cujas moedas sofreram forte depreciação.

Em contrapartida, os países asiáticos e a Argentina estão em condição mais confortável porque não permitiram a apreciação do seu câmbio; sofrerão também os efeitos da crise financeira, mas não são, eles próprios, fonte de crise porque não seguiram o conselho da ortodoxia convencional que aconselhava os países em desenvolvimento a "crescer com poupança externa".

O Brasil fica em uma situação intermediária. Sofreu também uma crise cambial porque deixou que sua taxa de câmbio se valorizasse.

A apreciação tinha, naturalmente, o apoio da ortodoxia convencional interna e externa que saudava a volta do Brasil à condição de déficit em conta corrente como a volta à "condição natural das coisas" para os países em desenvolvimento.

O déficit em conta corrente, porém, ainda não estava elevado, não havendo, portanto, um problema de dívida externa insustentável, mas isso não impediu que a crise cambial também se expressasse na depreciação violenta do real. Dada a sobreapreciação anterior do real, o déficit em conta corrente aumentava de forma explosiva.

O fato não passou despercebido pelo mercado financeiro internacional, que se deu conta que neste ano esse déficit chegaria perto de 3% e, em 2009, estaria próximo de 5% do PIB (Produto Interno Bruto).

O Brasil deixou, assim, de ser um mercado seguro para os aplicadores que não hesitaram em suspender a rolagem dos seus créditos. Ao contrário das crises de 1998 e de 2002, esta foi uma crise financeira "antecipada".

Ao contrário, também, das duas crises anteriores, o país contava com reservas internacionais elevadas, superiores a US$ 200 bilhões.

Esse fato, entretanto, não impediu que a crise se desencadeasse, porque essas reservas foram, no plano interno, construídas com base não em superávits em conta corrente, como é o caso, por exemplo, da China, mas com base em endividamento externo; e, no plano interno, não decorreram de superávit fiscal em reais, mas de endividamento público interno.

Entre 2001 e julho de 2008, as reservas internacionais do Brasil aumentaram em US$ 167,8 bilhões. Nesse período, porém, o saldo acumulado em transações correntes foi de apenas US$ 6,8 bilhões, de forma que 96,4% do aumento das reservas foi obtido pelo país com financiamento externo financeiro e patrimonial (investimentos diretos).

Como não houve superávit público, 100% desse aumento foi financiado com dívida interna. Não é surpreendente que essas reservas não fossem seguras.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

MOACYR SCLIAR

A vingança do Barney

O senhor Obama vai trazer um poodle; um bicho medroso, que vai se esconder debaixo da cama na primeira confusão

Barney, o cachorro do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, mordeu um repórter nos arredores da Casa Branca. O repórter da agência de notícias Reuters Jon Decker tentou acariciar a cabeça do cachorro quando foi mordido no dedo. Folha Online

Uma dentre várias promessas que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, fez foi comprar um cachorro para suas filhas. No início da campanha, prometeu que iria comprar um filhote, perdendo ou ganhando as eleições. Já eleito, ele anunciou que os EUA terão um novo "primeiro-cão" em janeiro, quando deve tomar posse.

Em recente pesquisa realizada pelo American Kennel Club, o clube de cães do país, a maioria dos cerca de 42 mil votantes disse que os Obama deveriam escolher um autêntico poodle. Lisa Paterson, porta-voz do AKC, disse que raças amigáveis com as crianças são as ideais para a família Obama porque têm pêlos antialérgico e um temperamento social estável.

"Quando os tempos ficam difíceis - durante um mau momento na economia ou quando as pressões presidenciais estão no topo- esses cães servem como companhias pessoais e proporcionam relaxamento e alegria para nosso líderes", completou a porta-voz.
Folha Online

"MEU NOME É BARNEY . Sou um cachorro, não sei falar a linguagem de vocês, humanos. Mas, se eu soubesse, teria muita coisa para dizer. Coisas das quais certamente muitos de vocês não iriam gostar.

Para começar, eu protestaria contra a maneira pela qual a opinião pública, e a mídia, sobretudo, trataram meu chefe, o presidente George W. Bush. Vocês simplesmente acabaram com a carreira política dele. Vocês não o apoiaram e o resultado é que ele teve essa baixíssima taxa de aprovação. Agora: do meu ponto de vista ele estava inteiramente certo.

Fez muito bem em invadir o Iraque, os caras estavam pedindo. Deveria até ter invadido mais países. Foi o que, através de meus latidos, sugeri muitas vezes.

Infelizmente não me compreendeu. Agora: que apoio ele teve? Nenhum. Foi por isso que eu mordi esse jornalista da Reuters.

Foi a forma de expressar o meu protesto diante dessa mídia ingrata. Eu sei que agora já não adianta muito, sei que em breve a Casa Branca terá um novo ocupante, esse senhor Barack Obama.

E já ouvi dizer -aqui se sabe de tudo- que ele trará um novo "primeiro-cão" para ocupar o meu lugar. Agora: que cão será esse? Um bicho valente como eu, capaz de agredir os inimigos do meu chefe? Não, o senhor Obama vai trazer, pelo que se conta por aí, um poodle.

Um poodle! Onde é que se viu? Um bicho medroso, um bicho que vai se esconder debaixo da cama na primeira confusão que houver.

Considero esse gesto uma ofensa. Uma ofensa a meu dono, e uma ofensa a mim, particularmente. Mas já aviso: essa coisa não ficará assim. Voltarei.

Nesses anos de Casa Branca descobri muitas passagens secretas, que, pelo menos a um cão permitem entrar. Quando menos esperarem, eu voltarei. E aí o poodle que se cuide. Ele verá que a nossa tradição guerreira está viva, e muito bem viva."

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

Editorial Correio do Povo.

UMA META PARA O MEIO AMBIENTE

Um documento elaborado pela Rede WWF, a publicação bianual Planeta Vivo, edição 2008, adverte para o caos que se aproxima caso o nível de degradação ambiental do planeta permaneça nos moldes atuais.

Se a situação atual de consumo e de agressão à natureza continuar como está, a partir de 2030 poderemos ter um colapso total, pois a demanda pelos recursos naturais estará no dobro do que a Terra pode ofertar.

Nessa medição sobre os níveis de uso dos recursos naturais por habitante, o relatório apontou que a média individual mundial está em 2,7 hectares por ano, sendo que o recomendado é de 2,1 hectares ao ano para que o meio ambiente consiga se manter sustentável.

De acordo com o documento, é preciso zerar urgentemente o desmatamento na Amazônia e usar seu ecossistema de maneira sustentável. Outro ponto preocupante é que a média brasileira de consumo individual dos recursos naturais está em 2,4 hectares por ano, acima dos índices recomendados pelo estudo.

Como alternativas, foram apontados o investimento maciço em energias renováveis, que poderiam ser otimizadas a ponto de fornecer a metade da eletricidade consumida no mundo, com a vantagem de minimizar o aquecimento global.

Essa diversificação da matriz energética, o aumento dos investimentos em infra-estrutura sustentável, o desenvolvimento dos meios de transporte coletivo, uma educação ambiental eficiente em relação ao uso da energia, da água e do solo, com uma legislação protetiva, além da preservação de áreas verdes nos grandes centros urbanos, poderiam ajudar a contornar uma crise anunciada.

É como se se dissesse que ainda há tempo de salvar o planeta de um apagão de grandes proporções.

Dentro dessa política de adoção de medidas urgentes, o pesquisador inglês Martin Parry, em seminário no Senado Federal, defendeu que o Brasil deve imediatamente aderir à meta de redução de 80% na emissão de gases poluentes.

Para ele, cabe ao país gestionar para que outras nações, como China e Estados Unidos, adiram a esse projeto, que deverá ser discutido pela Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas, em dezembro de 2009.

O meio ambiente está na ordem do dia. Urge a união de todas as nações do mundo para salvar o planeta.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana


UM POUCO DE METAFÍSICA

Deve acontecer com todo mundo. Semana passada, fiquei com aquela saudade de mim. Mas não uma saudade objetiva, de algum tempo ou de algum feito.

Não era, por exemplo, uma saudade de quando eu tinha 13 anos e o Inter brilhava nacionalmente. Não, com certeza não era uma saudade do Fogaça e do Falcão. Nada disso. Era uma saudade de mim sem mais nem menos. Não era uma saudade da juventude, da infância ou de algum momento feliz.

Não era uma saudade de Paris. Nem de Palomas. Muito menos de Paros. Era uma saudade dessas que fazem a gente mexer nos discos e ouvir o que parecia soterrado para sempre.

Quando sinto saudade de mim, algo que raramente acontece, eu começo ouvindo Beethoven, passo por Charles Trenet, Chico Buarque, Milton Nascimento, Vinícius, Janis Joplin, Nélson Gonçalves, Cartola, Edu Lobo, Belchior, Elis Regina e termino... Não vou dizer. Bom, bem pensado, cada um com seus gostos, termino na Jovem Guarda. Não só, porém, em Roberto Carlos e na sua turminha mais próxima.

Eu sou capaz de verdadeiros desatinos musicais. Deviam me prender quando estou com saudade de mim para evitar a exumação de cadáveres musicais. Julgo que eu seja exatamente como todo mundo.

Exceto as gerações educadas no rock. Essas só cometem desatinos musicais em inglês e com pretensões comportamentalmente renovadoras.

Já me peguei escutando, sem a menor sensação de ridículo e de porta aberta, 'parece que eu sabia/ que hoje era o dia/ de tudo terminar/ pois logo notei/ quando telefonei/ pelo seu jeito de falar'.

Normalmente a minha loucura se resume a ouvir José Mendes como trilha sonora para as minhas lembranças de guri da campanha. O engraçado desse tipo de saudade, que chamarei de metafísica, é que ela parece muito chata aos olhos e ouvidos dos outros.

Eu mesmo fujo quando alguém me fala que está melancólico, quer dizer, jururu, pois ninguém usa a palavra melancólico a não ser quando está com cólica, por uma necessidade de rima e um pudor anacrônico. Eu suspeito de quem não sente saudade de si.

A maioria, contudo, é mais tolerante com um sujeito com cólica do que com alguém saudoso de si. Certamente, isso tem a ver com a nossa tendência a crer mais no determinismo do que no livre arbítrio. Somos uma civilização que crê no determinismo por influência de certo positivismo científico e por interesse.

O determinismo nos isenta de certas responsabilidades. A cólica – que belo assunto para uma crônica inteira – seria o produto de uma necessidade natural, e não uma escolha individual.

Aí se vê a limitação filosófica das pessoas. A saudade de si também não é uma escolha. Ou, ao contrário, a cólica pode muito bem ser o resultado de uma série de escolhas inadequadas dos indivíduos.

Um ser humano com saudade de si, ou com cólica, pode gritar com Schopenhauer para o criador: 'Como ousaste interromper o repouso sagrado do nada para fazer surgir uma tal massa de desgraça e de angústia?'. Não sejamos tão dramáticos.

As mulheres, que sofrem com as cólicas menstruais, sabem que depois passa. A saudade de si é como certa dor provocada por uma batida no joelho: dá vontade de chorar e de rir ao mesmo tempo. É uma dor gostosa. Sem contar que torna útil aquela massa de discos armazenados.

Pois saudade de si, para a minha geração, só se cura ouvindo música bizarra em vinil. A coisa só se torna séria quando a pessoa resolve desencavar suas poesias de adolescência. Diante desse sintoma, melhor consultar um médico.

juremir@correiodopovo.com.br