segunda-feira, 17 de novembro de 2008



17 de novembro de 2008
N° 15792 - PAULO SANT’ANA


ABC da crise

Não tenho como fugir de um assunto que está em todas as mentes: a crise econômica.

O grosso do povo não se preocupa, mas as pessoas, digamos assim, mais responsáveis estão mergulhando em graves apreensões sobre o destino econômico e financeiro do Brasil e do mundo nos próximos meses.

Então o que se nota é um pavor no ar. Notícias vindas da Europa dão conta que por lá os empregos estão sendo extintos em 10 mil por dia.

Se continuarem a ser desempregadas 10 mil pessoas na Europa, em breve não haverá mais empregos por lá. A palavra mais empregada para definir a crise que nos aguarda: recessão.

Recessão é a queda da atividade econômica (isto é, o declínio do crescimento), com desemprego etc.

Mas vou no dicionário e vejo que há algo mais sério que a recessão: a depressão.

A depressão, ainda segundo o dicionário, é o período de declínio acentuado no nível de atividade produtiva e do emprego.

São quase a mesma coisa a recessão e a depressão. A diferença é que na recessão o declínio da atividade econômica e do desemprego não é acentuado.

Então lanço as mãos e os olhos para os céus e dou graças a Deus que nenhum jornal, nenhum diagnosticador ou prognosticador econômico usou até agora a palavra depressão para definir o que nos espera no ano que vem.

Pelo menos a palavra recessão é usada em todos os noticiários e admitida por todos os governos mundiais. Dos males o menor, se o que nos aguarda é uma profunda crise econômica por recessão, pior se fosse por depressão.

Afinal, por quantas vezes, nós que somos antigos ou velhos, já vivemos períodos recessivos aqui no Brasil?

Dezenas de vezes. E a economia sempre se recuperou dos períodos recessivos.

Angustiado e instigado pelos presságios sinistros da extensão da crise, cogitei de qual seria a conseqüência direta (ou causa indireta) da crise. E fui ver que era a restrição do crédito.

Ou seja, os financiadores estão com pouco dinheiro e passam a fazer exigências penosas para conceder crédito.

Não existe circunstância mais grave. Porque o crédito chega a ser, na minha modesta opinião, a essência, o sinônimo do capitalismo.

O capitalismo passou a existir no dia em que inventaram o crédito. O crédito é com certeza a maior invenção homem.

Pelo crédito, por um estratagema milagroso do capitalismo, gasta-se, isto é, usufrui-se antes mesmo de ganhar-se, ou seja, antes de ser-se merecedor da condição.

Por exemplo, pobre é quem não tem nada ou tem pouco e não tem crédito. Quem não tem nada ou tem pouco, mas obtém crédito, não é pobre.

Por isso é que esta crise anunciada é grave: ela atingiu a femoral do capitalismo, o crédito. Salve-nos, Deus.


17 de novembro de 2008
N° 15792 - LF VERISSIMO


Os Ungerers

Strasbourg é a capital da Alsácia, terra de chucrute e vinho branco. É uma bela cidade, com seus canais, seu centro histórico classificado pela Unesco como patrimônio da humanidade e sua impressionante catedral, a Notre Dame de Strasbourg, cuja torre já foi a construção mais alta do mundo, o primeiro arranha-céu.

Em comparação com a austera e elegantemente simétrica Notre Dame de Paris, a de Strasbourg só pode ser descrita com um neologismo arquitetônico: rocogótica.

Como está assentada numa praça desproporcional ao seu tamanho, como um pão-de-açúcar num pires, é difícil você recuar para acompanhar a vertiginosa fuga para o alto da sua única torre. Há pouco espaço para você se maravilhar. Ainda mais se você for eu, e não tiver mais a necessária flexibilidade dorsal.

Mas há uma nova atração em Strasbourg. O artista gráfico Tomi Ungerer, natural da cidade, doou seu acervo, incluindo desenhos, pinturas e uma grande coleção de brinquedos, à comunidade, que cedeu um antigo prédio municipal para recebê-lo.

O encanto do novo museu começa no contraste do velho casarão em estilo clássico com seu conteúdo, a obra de um dos artista mais modernos e anticonvencionais em atividade.

Tomi Ungerer pertence a uma linhagem que tem origens remotas no francês Daumier e no inglês Hogarth mas é um fenômeno do século 20: gente como Saul Steinberg, George Grosz, André François, Ronald Searle e poucos outros – entre os quais, sem dúvida, o nosso Millôr – que fizeram do cartum uma arte, e uma arma, superiores.

Tomi Ungerer talvez seja, de todos eles (com a possível exceção de Grosz, que flagrou a inevitabilidade do nazismo em ácidas caricaturas da alta burguesia alemã), o mais impiedoso na sua crítica social.

E na sua misantropia, embora o museu seja dedicado em grande parte às suas ilustrações para livros infantis, além dos brinquedos, e estivesse cheio de crianças no dia em que o visitamos.

Não há salas proibidas para menores no museu, mas notamos uma sutil interferência do pessoal da casa no trânsito das visitas para evitar que as crianças vissem outra parte importante da obra de Ungerer, seus desenhos eróticos, com uma certa ênfase em aparelhos sadomasoquistas.

Na catedral de Strasbourg há um famoso relógio astronômico, um mecanismo enorme que além das horas mostra os dias da semana, cada um com seu deus mitológico correspondente, o mês, os anos (inclusive os bissextos), o tempo solar, as fases da lua e seus ciclos de eclipses, e os signos do zodíaco.

Todos os dias, às 12h30min, o relógio dá um espetáculo: bonecos dos 12 apóstolos desfilam diante de uma imagem de Jesus Cristo, acompanhados de uma música de realejo. Li um pouco sobre o relógio e descobri que o atual é a sua terceira versão desde o século 14.

E que os outros dois pararam de funcionar, misteriosamente, em épocas de crise do cristianismo. E que na construção do atual relógio, no século 19, foi muito importante a contribuição de dois irmãos cujos descendentes cuidaram do seu funcionamento até há pouco tempo.

E cujo nome era Ungerer! Não pude deixar de pensar nos desenhos de sexo mecanizado do Tomi vistos na exposição. A família, aparentemente, tem um dom para engrenagens geniais.

E não pude deixar de pensar que, com a crise de agora, deve ter gente imaginando que a qualquer momento este relógio também desista e os apóstolos parem de passar.

domingo, 16 de novembro de 2008



DEIXE AFLORAR TODA A SUA DOÇURA!
Rosana Braga

Às vezes, fico me perguntando porque é tão difícil ser transparente... Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros. Mas ser transparente é muito mais do que isso.

É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente... Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que insistimos tanto em nos empenhar para levantar...
Ser transparente é permitir que toda a nossa doçura aflore, desabroche, transborde!

Mas infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco. Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia toda a fragilidade humana.

Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nosso ser...

Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas a simplesmente nos entregar e admitir que não sabemos, que temos medo!

Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção...

E assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos... Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado...

Com o passar dos meses, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar... doçura, compaixão...

a compreensão de que todos nós sofremos, nos sentimos sós, imensamente tristes e choramos baixinho antes de dormir, num silêncio que nos remete a uma saudade desesperada de nós mesmos...

daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar àqueles que mais amamos!

Porque, infelizmente, aprendemos que é melhor revidar, descontar, agredir, acusar, criticar e julgar do que simplesmente dizer: "você está me machucando... pode parar, por favor!". Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro.

Quando, na verdade, se agíssemos com o coração, poderíamos evitar tanta dor, tanto sofrimento...

Sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura! Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencíveis...

Que consigamos não tentar controlar tanto, responder tanto, competir tanto... Que consigamos docemente viver... sentir, amar...

E que Novembro que está quase no finzinho seja todo coração, muito mais sentimento, inundado de um amor transparente, apesar de todo o risco que isso possa significar...

DANUZA LEÃO

A cigarra, a formiga e a monotonia

Cantaram a vida inteira e só têm uma pessoa para quem apelar: a formiga -aquela de quem sempre falaram mal

AS PESSOAS nascem cigarra ou formiga, e nunca vão mudar, até o último dia de vida. As cigarras são simpáticas, alegres, adoráveis, generosas, e que ninguém pense em dividir uma conta de bar quando estão numa mesa. Nem por hipótese uma cigarra vai deixar de pagar a despesa -é mais forte que elas.

Coisa boa é viajar em companhia de uma cigarra. Além de esbanjarem em compras e presentes -régios- para os amigos, as notas de cem dólares parece que se multiplicam em suas mãos. Elas usam e abusam dos cartões de crédito, e com tal displicência que se tem -aliás, elas têm- a impressão de que a conta nunca vai chegar.

Detalhe: se você tiver esquecido a carteira no hotel, a cigarra te empresta 300 dólares, e nunca vai se lembrar de cobrar. Mas quando precisar pedir algum dinheiro a você, que seja cem ou 10 mil, vai se esquecer de pagar -faz parte do personagem.

Ser cigarra na vida não tem nada a ver com ser rico ou pobre; é um estado de espírito, uma atitude, e o prazer de gastar o dinheiro -que tem ou não- até o último centavo. Como são encantadoras as cigarras.

Tudo para elas é fácil; dão um pré-datado sem pensar duas vezes -aliás, nem duas nem uma- e têm essa qualidade deliciosa, que é a ausência total de preocupação. Nunca falam de dinheiro e são convictas de que ele sempre pinta.

Não existe nada mais agradável do que conviver com as cigarras. Elas são leves, bem-humoradas, alegres, otimistas e acham que no fim tudo dá certo.

Quando você entrar numa sala e quiser saber quem é cigarra e quem é formiga, basta procurar quem tem o vinco entre as sobrancelhas. Cigarras não franzem a testa jamais.

Já as formigas passam a vida pensando no futuro; se vão ter um teto para morar quando ficarem velhas, de que vão viver, e por aí vai. O grande sonho de uma formiga é o da casa própria, e uma vez o teto comprado -e integralmente pago-, começa a pensar no dos outros: o dos filhos, o dos netos, o dos amigos.

Uma formiga não joga nada fora, nem comida ela deixa no prato -não pode, com tanta gente passando fome no mundo. Mesmo tendo dinheiro no banco, nunca tem nenhum no bolso -para não cair na tentação de tomar um sorvete ou uma água de coco sem sede, só pelo prazer -como se uma formiga pudesse correr esse risco.

No restaurante, na hora de escolher, as formigas olham primeiro para os preços, sugerem dividir o prato, já que nunca estão com fome -quando estão pagando- e nunca pedem o mais caro.

As cigarras riem das formigas: que são avaras, seguras, que dinheiro para elas é mais importante do que os afetos, as amizades, o amor -o que nem sempre é verdade.

São injustas, as cigarras. Mas como já dizia La Fontaine, um dia elas precisam de ajuda. Cantaram a vida inteira, o inverno chegou rigoroso, e só têm uma pessoa para quem apelar: a formiga -aquela de quem falaram mal a vida inteira. Quem não viu esse filme?

Quem não tem um amigo cigarra ou formiga? E você, é o quê? Moral da história: tudo o que acontece é uma tal repetição de coisas faladas, escritas e vividas que o mundo chega a ser monótono de tão previsível.

danuza.leao@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

Um lance de dados

Surgiria um outro mulato inteligente, carismático para vencer as eleições de 2008? Dificilmente

QUANDO DIGO que a vida não é newtoniana e, sim, quântica, sei que não estou fazendo uma afirmação científica, mas, como poeta que às vezes sou, valho-me de uma metáfora para baratinar a cabecinha do próximo e fazê-lo se dar conta de que, muitas vezes, dois mais dois são cinco.

Por exemplo, a eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos. Isso tem lógica? Está dentro do previsível?

Agora, depois que aconteceu, parece ter lógica e deve ter, já que aconteceu, mas não a lógica do dois-mais-dois quatro.
Assim que ele se lançou candidato e lhe vi o rosto, achei que não ia dar.

Não apenas porque ele fosse mulato mas porque me parecia frágil, sem aquele maxilar de macho: uma aparência de intelectual recém-saído da adolescência. E disse a mim mesmo: "Os americanos não vão entregar o país a esse rapaz".

Isso sem contar que ele se chamava Barack Hussein Obama. No entanto, ele derrotou Hillary Clinton e, finalmente, John McCain. Vai governar a maior potência econômica e política do planeta.

A impressão que se tem é de que o mundo está contente com a vitória dele. E otimista. Todos esperamos que algum milagre aconteça, que esse jovem mulato, inteligente, informado, brilhante e objetivo faça o mundo mudar para melhor. É esperar muito? Certamente, mas sem esperança não se suporta viver.

Tudo bem, aconteceu, o improvável aconteceu. Mas, se aconteceu, foi porque era possível acontecer, e quem, como eu, temia não ser possível equivocou-se. É que a vida é quântica: a simples lógica não dá conta dela.

Será possível, agora, saber quando tudo começou? Foi com os discursos de Martin Luther King, a afirmar que tinha um sonho e que esse sonho era de uma pátria fraterna, sem discriminação racial? Foi durante a luta dos anos 60 pelo Poder Negro?

Esses fatos, certamente, influíram, mas é impossível determinar, na natureza e na história, quando exatamente as coisas começam, mesmo porque o curso da existência, por serem tantos os fatores que sobre ele atuam, resulta produto tanto da necessidade quanto do acaso.

A verdade, porém, é que, se Barack Obama não tivesse nascido, isso não teria acontecido. Surgiria um outro mulato inteligente, orador brilhante, carismático para vencer as eleições norte-americanas de 2008? Dificilmente.

E o próprio Obama teria ganhado esse pleito, se ele não tivesse ocorrido depois dos dois desastrosos governos de George W. Bush?

Há quem diga que não, não teria, e, se isso for verdade, devemos concluir que Bush, com suas guerras e mentiras, também concorreu para a vitória de Obama. E a crise financeira que se deflagrou no planeta em plena campanha eleitoral não contribui para a vitória do democrata?

Como se vê, a história não está predeterminada. A não ser para aqueles que acreditam no destino -como os gregos acreditavam-, o fortuito também influi nos acontecimentos mais relevantes.

Por isso, vale a hipótese de que, se Obama não tivesse nascido, a história que o mundo iria viver daqui para a frente seria outra. Isso não significa que ele seja um predestinado, que nasceu para salvar o mundo.

Nem sei se o governo dele vai ser tão bom quanto todos nós desejamos. Pode ser, pode não ser. Mas, se ele não tivesse nascido de um negro queniano e uma branca norte-americana do Kansas, com esse charme todo, não teríamos agora um presidente mulato na Casa Branca. Isso significa que nenhum outro negro chegaria a governar os Estados Unidos? Não, mas talvez não acontecesse tão cedo.

Porque assim é a história humana: o que acontece poderia não acontecer. Não pretendo dizer que tudo seja mero produto do acaso, e, sim, que a necessidade tem incontáveis modos de realizar-se.

E que, por isso mesmo, as pessoas, por sua capacidade de ação e inteligência, podem influir decisivamente no destino da humanidade.

O certo é que, durante décadas e décadas, naquele fervilhar de gente que é seu país -pessoas que se amam e se odeiam, ambições e traições, filhos que nascem e viram bandidos ou artistas de cinema, poetas ou campeões de golfe-, essa vitória surpreendente era gestada, sem que ninguém se desse conta.

E assim como numa mesa de sinuca, onde se movessem milhões de bolas (desde a queda das Torres Gêmeas, o escândalo Clinton, as mentiras de Bush e a guerra do Iraque), preparava-se a ascensão de um jovem mulato ao mais alto posto a que um norte-americano pode chegar. E chegou. Agora, les jeux sont faits, os dados foram lançados.

sábado, 15 de novembro de 2008



16 de novembro de 2008
N° 15791 - MARTHA MEDEIROS


O mundo dos vivos

Quando alguém morre, costuma-se dizer que não faz mais parte do mundo dos vivos. Me pergunto: é preciso morrer pra deixar de fazer parte do mundo dos vivos? Não são poucos os zumbis que andam por aí. Quantos de nós, que nos autoproclamamos vivos pelo simples fato de ainda estarmos respirando, realmente honramos o verbo viver?

Nem todos mantêm residência no mundo dos vivos. E não sabem o que estão perdendo.

No mundo dos vivos todos sentem alguma coisa. Uns sentem uma felicidade transbordante, outros estão sofrendo por amor, alguns ficam indignados, outros não conseguem conter o entusiasmo, há os que têm medo da estagnação e há aqueles que venceram esse medo e enfrentaram seus demônios.

No mundo dos vivos, não há um único habitante que diga para si mesmo: não estou sentindo nada. Se não está sentindo nada, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos todos pensam por conta própria. Para isso, cultivam um hábito elementar: lêem. E não lêem qualquer coisa só por passatempo.

Lêem livros que abrem suas mentes, livros que estimulam sua imaginação, que os fazem rir e que os fazem ficar chocados, que os ajudam a reconhecer em si o que estava escondido, livros que provocam, livros que ousam, livros que lêem os leitores por dentro.

No mundo dos vivos, não há um único habitante que despreze o conhecimento e o acesso a novas percepções. Se despreza, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos, além de se ler muito, reverencia-se a arte em todas as suas manifestações. As pessoas compreendem que arte é a prática do desrespeito, ótima definição que li num livro de Mario Sergio Cortella.

Respeitam-se as leis, mas aplaude-se a transgressão, o questionamento incessante, a inovação, a diferença, o inusitado. No mundo dos vivos não há um único habitante que não se sinta estimulado por aquilo que lhe inquieta. Se não se estimula, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos, o tédio não é aceito como algo normal e inevitável. A repetição de atitudes não é considerada uma proteção, e sim um mau sintoma. Os preconceitos não são encorajados.

Do mesmo modo que há problemas, sabe-se que há soluções. No mundos dos vivos, cada dia é um presente a ser aproveitado. O que passa na tevê é entretenimento barato, o luxo está na realidade, qualquer uma que tenhamos criado com autenticidade e coragem.

No mundo dos vivos, há mais perguntas que respostas, mais audácia que conformismo, engata-se mais a primeira do que a ré. Não há um único habitante que consola-se com a própria incapacidade, ao contrário: estudar, aprender e tentar são sinônimos de viver.

Os zumbis habitam outro mundo, e não vivem: vagam.

Aproveite o domingo - Uma ótima semana


16 de novembro de 2008
N° 15791 - MOACYR SCLIAR


O baile e a vida

No fantástico filme de Ettore Scola O Baile, quase meio século da ainda recente história européia é reproduzida no mais improvável dos cenários, um salão de danças em Paris, freqüentado por solteirões e solteironas que dançam, flertam, brigam, reconciliam-se, mas sempre saem sozinhos.

Os anos vão passando: os anos da ascensão dos partidos de esquerda, os anos da ocupação nazista, a Libertação, maio de 1968... Detalhe: nenhum dos magníficos atores e atrizes diz sequer uma palavra.

O filme é completamente mudo, governado inteiramente pela música e pelos gestos dos personagens. Terminamos de vê-lo, maravilhados, e concluímos: o baile é a vida. E isto explica o papel que os bailes e as reuniões dançantes desempenharam em nossa própria existência.

E por que o baile é a vida? Porque ela é uma ritualizada e aceita forma de aproximação entre os sexos. O baile é a música e a dança, duas coisas que permitem a liberação de nossas emoções, mas de uma forma que, ao menos no baile clássico – estou pensando no bailes da Reitoria, que, animados pela orquestra Norberto Baldauf, eram parte da tradição porto-alegrense – foram responsáveis por dezenas de casamentos em Porto Alegre.

O mesmo se pode dizer dos bailes do Leopoldina Juvenil, e da Sogipa, e do Petrópole, e do Clube do Comércio, e do Círculo Social Israelita, e os bailes de debutantes... A lista é imensa, e vocês podem aumentá-la à vontade e suspirando bastante.

O baile, sempre aos sábados, e sempre começando por volta das 23h, era aguardado com a maior ansiedade por moças e rapazes.

A ansiedade não impedia, contudo, que rígidas convenções fossem seguidas. O “carnet du bal”, na qual as moças francesas anotavam os nomes dos candidatos a uma dança, com o tempo foi extinto, mas outras regras eram seguidas.

O rapaz podia tirar a moça para dançar, mas isso não garantiria que ela se tornasse seu par a noite inteira; aliás isso seria visto como conduta imoral. E havia coisas ainda mais alarmantes, tais como colar o rosto. Deus, colar o rosto, aquilo era pior que uma relação sexual aberta! Mas, para o felizardo que o conseguia, equivalia a um troféu.

Lembro um amigo, dizendo radiante depois de ter dançado um bolero de rosto colado com uma garota: “Bota a mão aqui na minha bochecha, vê como ainda está quente”. A bochecha era a zona erógena mais importante da época.

Esses atrevimentos explicavam a constante presença das mães das meninas, sempre vigilantes, e dos pais que, coitados, lutavam por não adormecer.

A tradição resistiu ao tempo, como o mostram os bailes da terceira idade, dominados naturalmente pelas mulheres, que sobrevivem melhor aos agravos da vida; muitas vezes, e dada a carência de homens, elas têm de dançar entre si.

O que em nada prejudica a animação. O baile mobiliza o que temos de mais vital em nós. E o baile nos ensina uma lição: dançar é muito bom, dançar é uma coisa vital.

Ettore Scola tinha razão: a história da humanidade poderia ser retratada num gigantesco baile, de preferência à fantasia, inagurado por Adão e Eva.

Aliás um baile no Jardim do Éden bem poderia ter evitado o pecado original. Desde que Adão não tentasse, claro, colar o rosto na bela face de Eva.


16 de novembro de 2008
N° 15791 - PAULO SANT’ANA


Vida vivida

Benditos os que podem viver hoje para recordar amanhã.

Se eu tivesse que aconselhar os jovens, iria impeli-los a viver tudo o que podem, a amar, a divertir-se, a entreter-se em camaradagens, a impregnarem-se de aspirações, a sorver dia a dia, quanto mais o consigam, a vida em todas as suas delícias, senão pelo gozo do usufruto, quanto mais para que desfrutem mais tarde da riqueza das recordações.


***

O melhor da vida são os restos de amores, as cinzas das paixões catadas nas reminiscências.

Se eu tivesse de escolher os meus melhores momentos, eles se localizariam sem dúvida naqueles fins de tarde empolgantes em que começava a me preparar pelo banho e pela escolha da melhor roupa para aqueles encontros dançantes da juventude, onde iriam se decidir os melhores embates amorosos.

Ah, o amor. Quanto eu teimava em amá-lo como o fazem os jovens hoje quando se reúnem e embaralham seus sonhos com as paixões descompromissadas.

A juventude é o tempo feliz da vida pela ausência do compromisso.

A juventude é o tempo feliz da vida, embora o desconheçam isso os jovens, pelo exercício da liberdade.

E o que incrivelmente arrebata os jovens é que eles se atiram loucamente à perda da liberdade, ao compromisso.

O segredo da felicidade está em não conhecer-se o futuro, daí esse contentamento mágico das crianças.

Quando as pessoas passam a conhecer o seu futuro, a vida perde quase todo o encantamento.

Só se pode ser feliz quando se é dominado pela incerteza. A incerteza é o móvel da vida, a amiga da esperança, a tocha acesa do ideal.

Nunca mais voltarão os esperançados fins de tarde de sábado, quando tudo até a madrugada poderia acontecer.

Só pode ser feliz quem tiver aptidão para tal. Os jovens por exemplo, mas só enquanto forem aptos. Depois que realizarem seu sonho, tendem a ser menos felizes e mais incompletos.

O que é imprescindível é que nunca se deixe de ter ânsias.

A tolice consiste em saciar-se dos desejos e dos sonhos, daí que perde o sentido a vida quando a gente se encontra com o futuro.

Por isso é que, quando a vida se oferece inteira para nós, temos de vivê-la de maneira a que nunca nos esqueçamos do que estamos fazendo com ela.

É preciso que se viva de modo que tenhamos orgulho bem mais tarde do jeito que vivemos.


16 de novembro de 2008
N° 15791 - DAVID COIMBRA


Foi-se a virgindade do Careca

O Careca perdeu a virgindade na praia. Capão da Canoa. Um amigo havia cometido a temeridade de nos emprestar a casa dos pais dele e de repente alguém apareceu com um cardume de meninas conhecidas de Porto Alegre e em meia hora estávamos todos bebendo e dançando e cantando, a vida é boa.

Uma das meninas era uma morena pequena, mas de corpo bem esculpido, bons seios, boas pernas. Definitivamente boas pernas. O cabelo dela era preto e cortado curto e ela usava um shortinho.

O Plisnou já tinha meio que se embretado com aquela mina antes, que sei. E o Sérgio Anão também. E, se não me engano, o Amilton Cavalo. Talvez até o Jorge Barnabé. Enfim. Tratava-se de uma moça experiente, ao contrário do nosso amigo.

Bem. Lá estava ela, sentada no braço de um sofá, as pernas reluzentes cruzadas com indolência, o pé número 35 balançando com a Hawaiana pendurada na ponta do dedo. A folhas tantas, a festa, por algum motivo, amainou. Criou-se uma brecha de silêncio, ficamos parados, quietos. Aí aconteceu.

O Careca, numa ponta da sala, olhou para a morena na outra ponta. Ela olhou para ele. Todos acompanhamos a cena. Eles se olhavam e se olhavam, tanto e tão intensamente, que se instaurou certa tensão no ambiente. Algo ia acontecer, era certo.

Então ela se levantou. Ante nossos olhos atônitos, ondulou sem pressa e sem hesitação diretamente para o Careca. O recheio daquele shortinho dela ia para lá e para cá, para lá e para cá, e a malícia lhe molhava o olhar.

O Careca esperava, paralisado, a ponta da língua surgindo rosada entre os dentes. A morena chegou perto dele e, sem nada dizer, tomou-lhe a mão e conduziu-o em silêncio pelo corredor, casa adentro, reto para o quarto de casal. Trancaram-se lá e lá permaneceram por dois dias inteiros.

Durante esse tempo, nós jogamos bola, fomos à praia, saímos, fizemos de tudo, sem nunca esquecer o caso do Careca, sempre nos perguntando o que estaria acontecendo dentro do quarto. Afinal, o Careca era virgem como uma bandeirante. Como estaria se saindo com aquela devoradora de homens?

Quando ele finalmente emergiu da alcova, corremos a interrogá-lo. E aí? Como foi? O Careca sorriu de lado, cheio de confiança.

– Dei um show – disse. – Graças a uma técnica que usei...

Show? Técnica? Não era possível aquilo de o Careca dar shows com técnicas.

– Que técnica, Careca? – perguntei.

Ele explicou, e o que disse é o que me levou a contar essa história:

– Trabalhei o umbigo dela durante quarenta minutos. Alisei, lambi, mordi, suguei e soprei o umbigo dela por quarenta minutos sem parar. Ela enlouqueceu.

Não acreditei. Não acredito. Porque um umbigo não tem tanta sensibilidade. O umbigo é um nó, entende? A criança nasce e o médico vai lá, corta o umbigo, dá um nó na ponta restante e coloca para dentro da barriga. Pronto.

Um nó, tão-somente. E o fato de ser um nó deveria servir-nos de alerta eterno. Porque nós desatam! O que aconteceria se o nó do umbigo desatasse? As entranhas borbulhariam barriga afora!

Meu amigo Careca correu tal risco, manipulando o umbigo da moreninha por tanto tempo. Quarenta minutos mexendo num umbigo, francamente.

O umbigo, com seu frágil nó, existe para que sejamos humildes, para que não nos alcemos, por exemplo, à arrogância de achar que as vitórias estão asseguradas antes das partidas, o que poderia ser um aviso à Dupla Gre-Nal neste fim de ano.

O umbigo é perigoso porque pode ser desamarrado. Qualquer nó pode. Assim como qualquer time pode ser derrotado para qualquer adversário.

Mas, se o umbigo não servir de advertência, pense nas outras ameaças. Há ameaças a mancheias. Como as tampas dos bueiros – um dia elas cairão. E alguém estará em cima, e não serei eu, que não piso em tampas de bueiros cadentes.

Há também os ventiladores de teto. Como pode alguém dormir tranqüilo com aquelas pás afiadas rodando sobre sua cabeça? Há os hackers que entram na nossa conta bancária pelo computador e nos roubam o salário. E há o pior deles: o espirro.

Porque li em algum lugar que a propulsão do espirro é tamanha que, se não fechássemos as pálpebras ao espirrar, os olhos saltariam para fora das órbitas!

Já imaginou você espirrando e os olhos rolando pelo chão??? O mundo é um perigo. É preciso estar sempre atento.

Carlos Giffoni

Quer ficar assim?

Desista. Para isso tem de contratar a personal trainer de Madonna e fazer ginástica extenuante e regime de fome

PEQUENA MESTRA

Tracy, em pose de artista: "Não trabalho com gente preguiçosa"

Quando desembarcar no Brasil em dezembro, para shows no Rio de Janeiro e em São Paulo, Madonna poderá até aproveitar a solteirice recém-adquirida, mas a companhia mais consistente (na verdade, músculo puro) será Tracy Anderson, a personal trainer de quem não desgruda, sobretudo durante as turnês.

Como exige seu ofício, Tracy, 33 anos, é uma propaganda ambulante de si mesma. Baixinha, parece insignificante na foto abaixo. Mas, mostrada em ação como na foto maior, a ex-bailarina de 1,52 metro e 44 quilos vira um fenômeno de pernas poderosas, braços esculpidos e barriga tão negativa que parece que vai encostar na coluna vertebral.

Tracy assumiu o treinamento de Madonna há dois anos e fez o impossível: esmerilhou ainda mais o corpo de uma bailarina e malhadora compulsiva que tem o compromisso perante o palco mundial de sempre fazer mais e melhor.

Chegou até a cantora por meio de uma amiga a quem prestava serviço, a atriz Gwyneth Paltrow, outro inacreditável caso de evolução estética. Por intermédio das duas clientes famosas, encarou um terceiro e bem maior desafio, o representado pela estilista Stella McCartney, cuja silhueta mais cheia já conseguiu afinar consideravelmente.

O que faz de Tracy uma instrutora tão especial? Um método de exercícios (e dieta, se precisar) que reúne intensidade brutal e muita variedade de movimentos, trabalhando em particular a musculatura periférica, de forma a deixar o corpo feminino esculpido com precisão, mas sem o jeitão pesado de quem malha demais.


"Eu tenho a sorte de conhecer dança e coreografia. Apoiada nesse conhecimento, e também em pesquisas e estudos, sou capaz de inventar equipamentos e movimentos que vão formar o corpo que a cliente quer", afirmou a VEJA, com modéstia inversamente proporcional à altura.

"Consigo olhar para uma pessoa e saber exatamente do que ela precisa. Exijo o compromisso de treinar seis dias por semana, umas duas horas por dia. Se esse esquema for seguido, os resultados são imediatos. Reduzo qualquer manequim 44 para 36."

Tracy é dona de uma academia de ginástica em Los Angeles desde 2004 (pretende abrir outra em Nova York em 2009).

Chama-a pelo nome mais chique de "estúdio" e resume em poucas palavras o que atraiu a clientela famosa: "Todo mundo começou a ver resultados incríveis". Inclusive Gwyneth, que em 2006, com 9 irremovíveis quilos a mais decorrentes da gravidez do segundo filho, recorreu a seus préstimos, gostou, indicou para as amigas e mudou a vida da treinadora.

No estúdio, os alunos têm aulas particulares – mensalidade de 575 dólares, ou 1 300 reais – num aparelho cheio de molas e cordas chamado Hybrid Body Reformer, que Tracy projetou e para o qual criou cerca de 3.000 movimentos.

Um dos talentos dela é justamente inventar exercícios, quase todos baseados em seus tempos de balé, e depois adaptá-los à esteira, aos levantamentos de peso, aos abdominais e às frenéticas coreografias que preconiza. Nascida em Indiana, Tracy foi à meca dos aspirantes a artista, Nova York, decidida a fazer carreira na dança.

O sonho gorou quando engordou 15 quilos. Na busca de meios de voltar à forma ("Nada que existia no mundo funcionava comigo"), pesquisou durante dez anos, desenvolveu seu próprio método e mudou-se para o mundo da educação física.

Sempre por perto das três meninas poderosas, Madonna, Gwyneth e Stella, Tracy está solteira e tem um filho de 10 anos. Não se mete de jeito nenhum no divórcio da cantora, cercado de boatos de que a dedicação dela à malhação era tamanha que não abria espaço às obrigações conjugais com o ex, Guy Ritchie.

Mas, de forma geral, o que Tracy acha melhor, sexo ou ginástica? "No momento, ginástica", responde. Jura que adora comer, embora o cardápio seja desanimador.

"Barrinhas de cereal, que, além de gostosas, são muito nutritivas"; sucos verdes "com muita cenoura, espinafre e repolho"; bebidas energéticas ("Sou viciada"); e à noite pratos leves, "como uma salada com salmão ou frango".

Passa a maior parte do tempo em Nova York e Londres, cuidando das clientes famosas, mas agora o mundo dela gira inteiramente em torno de Madonna.

Seu dia começa às 7 horas e acaba por volta de meia-noite, dividido entre a manhã com o filho, depois treino pessoal e, por fim, a ocupação principal – Madonna, Madonna e Madonna.

"Tenho de exercitá-la e cuidar da preparação para suas apresentações quase toda noite", diz.

Para a cliente de 50 anos com corpinho fenomenalmente esculpido de 30, só tem elogios: "Ela é extremamente talentosa e dedicada. Eu não trabalho com gente preguiçosa". Dá para perceber.

Claudio de Moura Castro

Ônibus é educação?

"A globalização é vista como ameaça. Mas aprender com o que deu certo em outras partes também é globalização"

Um prefeito do Vale do Jequitinhonha fez questão de me mostrar seus dois ônibus escolares, recém-importados dos Estados Unidos. Com eles, eliminava as escolas rurais de classes multisseriadas.

Ou seja, escolas com apenas uma sala de aula reunindo alunos de várias séries no mesmo espaço. Pior, obrigando a única professora a lidar ao mesmo tempo com alunos de diferentes níveis de conhecimento.

Faz mais de um século que as escolas começaram a separar os alunos de acordo com o ano em que ingressaram. Isso permitiu ensinar a cada grupo o que corresponde ao seu nível de avanço. É a escola que conhecemos. O que hoje parece uma invenção trivial trouxe uma pequena revolução.

A Unesco e o Banco Mundial revisaram as pesquisas sobre o desempenho das escolas multisseriadas na África, na Ásia e em outras regiões pobres. Quase sempre os resultados obtidos nessas escolas são amplamente inferiores aos das seriadas. Portanto, devemos louvar o prefeito, por haver comprado seus ônibus.

Será? Em conversa com Thorsten Husen, considerado o decano dos educadores europeus, perguntei-lhe o que achava das escolas multisseriadas. Ele me ofereceu dois comentários.

O primeiro é que havia estudado em uma, na zona rural da Suécia. O segundo é que não se sentia absolutamente prejudicado por haver freqüentado tal escola. O ensino era, pelo menos, tão bom como o das outras.

Ilustração Atômica Studio

Ainda hoje, sem exceções, todos os países europeus adotam essas escolas. Seu número é significativo. Os Estados Unidos e o Canadá também. Há muitas escolas assim, e elas voltaram a se expandir nas últimas duas décadas. No mundo, cerca de 30% das escolas têm três salas ou menos.

No Canadá, 16% dos alunos estudam em classes multisseriadas. Ainda mais relevante, nos países mais ricos, as avaliações revelam resultados obtidos nessas escolas em nada inferiores aos das outras, como já havia indicado Husen.

Podem até ser melhores. E são respeitadas. Não sofrem preconceitos, como aqui. Aliás, entre nós, são preconceitos quase sempre justificados, pois apresentam pior desempenho.

Perpetuou-se nos países mais pobres a idéia de que a escola multisseriada é um ícone do atraso educativo. Só se justifica quando não há densidade demográfica para preencher várias salas nem recursos para os ônibus. Mas não serão os ônibus um grande equívoco? O prefeito gastou um dinheiro que não precisava?

Milhares de outros prefeitos oneram as despesas da educação rural com transporte. Os ônibus, freqüentemente, dobram os custos por aluno.

Curiosa situação: os europeus, ricos e gastadores com o ensino, adotam escolas com apenas uma sala, misturando todas as séries. Nós, pobretões, desdenhamos essas escolas e corremos a comprar os ônibus que permitem recolher a meninada toda e juntá-la em uma unidade maior, com a seriação convencional.

O enigma é de simples solução. Faz mais de 100 anos que estamos lidando com escolas em que, para cada série, há uma sala. Com a experiência, já secular, aprendemos a lidar com elas. Em contraste, rigorosamente nada conhecemos das técnicas de manejo de escolas multisseriadas. Não é surpresa que a improvisação inevitável dê maus resultados.

Os professores não têm idéia do que fazer. Os países bem-sucedidos com essas escolas desenvolveram soluções eficientes que permitem manejar as turmas com pleno sucesso. E essas técnicas são tradicionalmente ensinadas nos cursos de formação de professores.

Complicadas demais? Vejam as áreas rurais da Colômbia, onde nasceu a Escuela Nueva, programa para escolas multisseriadas. Lá foi feito substancial investimento para desenhar os métodos e técnicas apropriados.

E valeu a pena, pois o rendimento dos alunos é superior ao apresentado pelos que estudam em escolas urbanas. Deu tão certo que a Escuela Nueva está sendo adotada na zona urbana.

E, se consegue sucesso nas montanhas de Cali, teria de funcionar no Brasil. Já há algumas réplicas, nos estados do Norte e Nordeste.

E em vários casos elas funcionam muito bem. A globalização é vista como ameaça. Mas aprender com o que deu certo alhures também é globalização.

Claudio de Moura Castro é economista

Rodrigo Cardoso e Carina Rabelo

Elas estão traindo mais

Na geração até 25 anos, metade das mulheres assume que já foi infiel e o ambiente de trabalho é o local que mais favorece as escapadas

INSATISFEITA CARLA TRAIU O MARIDO PORQUE ESTAVA INFELIZ COM SUA VIDA SEXUAL

Fim do expediente. Ela recolhe a papelada da mesa, desliga o computador e sai com a nécessaire a tiracolo em direção ao banheiro. Lá, do alto de seu 1,78 metro, ajeita a meiacalça antes de caminhar sem pressa para a frente do espelho.

De olhos bem abertos, começa conferindo um tom mais vivo às bochechas alvas e termina escovando os cabelos castanho-claros até quase a cintura. Faltava apenas o batom, que ela sacou da bolsa e calmamente deslizou apenas no lábio inferior, que, por compressão, tingiu o superior.

Do lado de fora da empresa, o rapaz que a aguarda dentro do carro vê a hora no relógio e examina o movimento ao redor antes de checar o penteado no retrovisor. Tudo pronto, ela dá o passo final com uma mensagem enviada pelo celular, enquanto desce as escadas: "Oi, amor, vou entrar em uma reunião aqui no trabalho e chegarei mais tarde em casa."

O que há de novo no comportamento feminino descrito acima? Não é a mulher protagonizar uma história de infidelidade. Clássicos da literatura, como Anna Karenina, de Tolstoi, e Madame Bovary, de Flaubert, provam que o comportamento é antigo.

A novidade, segundo especialistas, é o fato de a traição praticada por elas estar cada vez mais freqüente - e não se revelar apenas no divã do terapeuta. Dados inéditos do estudo Mosaico Brasil 2008, coordenado pela psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade (ProSex) da USP, revelam que cada vez mais as brasileiras pulam a cerca.

Foram ouvidas 8.200 pessoas em dez capitais (leia quadro à pág. 70). Basta um olhar sobre três gerações para ficar claro que o padrão de infidelidade delas vem se modificando. Das entrevistadas acima de 70 anos, apenas 22% confessaram ter tido alguma relação extraconjugal.

O índice sobe para 34,7% para as mulheres entre 41 e 50 anos e atinge o pico de 49,5% entre as de 18 a 25 anos. "A traição masculina ainda é maior, mas está estável. Já a praticada pela mulher tem crescido", afirma Carmita, autora de Descobrimento sexual do Brasil. Nos consultórios, a sensação é a mesma.

Especialista em relacionamento amoroso, o psicólogo Aílton Amélio da Silva, da USP, vai ainda mais longe. Para ele, a brasileira trai pouco. "As oportunidades aparecem diariamente e encontram- se pessoas bonitas o tempo inteiro", diz ele, autor do livro Para viver um grande amor. "Mas, se antigamente havia uma agulha no palheiro, hoje, com certeza, há três."

Não é à toa que o jardim do vizinho tem parecido mais interessante aos olhos do sexo feminino. O cenário atual é amplamente favorável e a liberação sexual atingiu um patamar único na história, com maridos apavorados queixando-se para o terapeuta que a esposa quer manter relações sexuais todo dia.

"Eu não tinha mais sexo em casa. Meu marido não dava conta", diz a gerente de banco paulista Carla* (*nomes fictícios), de 27 anos, que foi casada por cinco anos.

Ela trocou o marido pelo amante depois de passar dois anos mantendo um relacionamento extraconjugal. "Fiquei carente e com quem vou conversar? Com o cara que eu via todo dia: passei a me relacionar com o dono do restaurante onde eu almoçava", conta.

Especialistas no assunto afirmam que, à luz da percepção social, compreendem-se mais as escapadas femininas, apesar de o machismo ainda imperar. Não são poucos os casos em que a Justiça brasileira determinou o pagamento de uma quantia em dinheiro, como dano moral, para homens que provam ter sido traídos.

"As pessoas estão mais corajosas para tomar atitudes. A separação é uma penalidade do adultério. O dano moral é quando o adultério expõe o outro ao vexame, à hostilidade pública e ao desrespeito", explica a advogada carioca Tânia Pereira da Silva, professora da Uerj e membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família (Ibdfam).

Há uma reviravolta histórica a se considerar também. Se antes à mulher cabia o dever de se entregar a um único homem e passar o tempo cuidando dos filhos e do lar, hoje o quadro é outro.

Houve uma queda significativa da taxa de natalidade, conquistada principalmente com a chegada dos anticoncepcionais, e a mulher, livre das amarras domésticas, optou por passar mais tempo nos escritórios e em viagens de trabalho ao lado de outros homens.

Estar em contato com o sexo oposto a maior parte do dia pode ser como riscar um fósforo ao lado de uma bomba de gasolina. É o que mostra uma pesquisa feita pela sexóloga americana Shere Hite. Segundo ela, 60% das pessoas que trabalham juntas já tiveram um envolvimento amoroso entre si.

Foi assim que a diretora de mar keting carioca Amanda* traiu o marido. "Fiquei com um amigo que trabalhava comigo na festa de final de ano da empresa, em uma boate. Cheguei em casa e meu marido estava dormindo. Deitei ao seu lado e ele nunca desconfiou", diz ela.

Com oito anos de relacionamento - metade deles casada -, a diretora de marketing pediu a separação poucos meses depois de ir para a cama com o colega de trabalho.

Antes do rompimento, encarava cada vez mais horas extras e saía com amigas com freqüência para não ter de voltar logo para casa. "Meu casamento já não tinha mais sentido", justifica Amanda, hoje, aos 39 anos.


15 de novembro de 2008
N° 15790 - NILSON SOUZA


Instantes

Nenhuma música é tão doce quanto o riso de uma criança.

Dia desses, passeava pelo centro de Porto Alegre quando vi uma mãe retirando os sapatos do seu menino para que ele caminhasse na praça colorida pelas pétalas dos jacarandás e guapuruvus. O piá pisou nas flores despedaçadas e riu um imenso riso, solto e cristalino, como se sentisse a mais prazerosa das cócegas.

Foi só um instante de magia, mas alegrou o meu dia. E me fez lembrar um trecho do célebre poema da norte-americana Nadine Stair, equivocadamente atribuído ao argentino Borges: “Se pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono...”

Há quem torça o nariz para a singeleza do texto, mas não havia legenda mais adequada para aquela cena matinal: o pequeno príncipe do cotidiano, com o seu riso de fonte, contagiava quem estivesse por perto.

Cheguei de alma leve ao trabalho e testemunhei outro momento especial no elevador. O sujeito que entrou atrás de mim segurou a porta aberta para dar passagem a um casal de jovens, ele e ela carregando pesados pacotes de jornais. Como os passageiros não podiam usar as mãos para pressionar o botão do andar desejado, o homem perguntou com um vozeirão de locutor esportivo:

– Para onde, mulato?

Quando o rapaz disse que iriam “para o quarto”, o cidadão desatou num riso malicioso que encheu o elevador e espalhou-se pelo corredor no momento em que os dois jovens desembarcaram constrangidos.

O terceiro instante diferenciado daquele dia ocorreu num lugar ainda mais inusitado, o banheiro do prédio. O rapaz que limpava pias e sanitários assobiava o hino de seu clube preferido.

E trabalhava com entusiasmo, embalado pelo som do próprio sopro, talvez imaginando-se no estádio que nunca freqüentou, vassoura-bandeira nas mãos, a bola-balde rolando na direção do gol adversário e ele dançando na imaginária arquibancada a solitária dança dos vencedores.

Ninguém é feliz o tempo inteiro, sei disso. Mas a vida também não precisa ser um vale de lágrimas. Ao observar três personagens comuns de um dia absolutamente rotineiro, renovei minha certeza de que a verdadeira felicidade consiste em saborear pequenos momentos, em compartilhar os breves risos dos nossos semelhantes ou mesmo em acompanhar os primeiros passos de um menino descalço sobre um tapete de flores.


15 de novembro de 2008
N° 15790 - MOACYR SCLIAR


Quem é, mesmo, o inimigo?

Durante muito tempo as doenças infecciosas, aquelas causadas por micróbios, foram a principal causa de morte não só no Brasil como em outros países.

Uma simples gripe poderia matar, e matou, milhões de indígenas em países da América do Sul. Ainda em 1930 as doenças infecciosas eram responsáveis por cerca da metade dos óbitos nas capitais brasileiras.

Aos poucos esta situação foi mudando graças às vacinas, aos antibióticos e também a medidas que impedem ou dificultam a disseminação dos germes, como o tratamento da água para beber e o esgoto sanitário.

Mas de alguma coisa os seres humanos têm de morrer, e outras doenças assumiram papel de destaque no ranking da mortalidade, como mostram os dados recentemente divulgados pelo Ministério da Saúde.

As principais causas de óbito no país são as doenças do aparelho circulatório, o câncer, os homicídios e acidentes de trânsito, as doenças do aparelho respiratório e as doenças endócrinas (como o diabetes) e nutricionais. Doenças infecciosas continuam sendo um problema, especialmente a gripe e a pneumonia, sem falar na aids, mas a situação mudou drasticamente.

E mudou do ponto de vista psicológico também. Afinal, em relação ao nosso corpo, os micróbios eram por nós considerados alienígenas, diabinhos que invadiam o nosso organismo para nos liquidar.

Ou seja, a culpa de nossos problemas aparentemente e com exceção de situações óbvias, como a das doenças sexualmente transmissíveis, não estava em nós. Engano, como o tempo tem demonstrado sem cessar.

Doenças cardiovasculares, câncer, acidentes são situações que têm muito a ver com o estilo de vida. Pagamos o preço do sedentarismo, de hábitos nocivos como fumo e álcool, de uma dieta com excesso de açúcar e de gorduras. Os micróbios não têm culpa disso.

Durante muito tempo foi popular nos Estados Unidos e no Brasil um personagem de histórias em quadrinhos chamado Pogo, criação do grande cartunista Walt Kelly. Lá pelas tantas, numa tira, Pogo diz ao filho uma frase que ficou famosa: “Nós encontramos o inimigo e ele é nós” (“We have met the enemy and he is us”).

Kelly estava aludindo aos danos ambientais causados pela espécie humana, mas as doenças resultantes do estilo de vida são exatamente isso:

nós nos tornamos inimigos de nós próprios, de nosso organismo. Não dá para culpar os micróbios. Que aliás devem estar rindo às gargalhadas.


15 de novembro de 2008
N° 15790 - PAULO SANT’ANA


Discutindo o pedágio

Ontem foi a posição da oposição aos pedágios, hoje é a visão de um deputado governista: “Caro Paulo Sant’Ana. O Rio Grande do Sul sempre pode contar que tem no mínimo dois importantes personagens que não falham:

esse bravo colunista, sempre atento a temas que interessam aos gaúchos e que proporciona, democraticamente, o livre trânsito das idéias; e o deputado estadual Elvino Bohn Gass, dotado de permanente disposição de desqualificar idéias diferentes das suas e decidida intenção de corromper o debate democrático.

Fico imaginando, caro Sant’Ana, qual seria o voto do deputado Bohn Gass se o atual governo estadual tivesse proposto à Assembléia o seguinte: a) manutenção dos contratos de concessão rodoviária; b) aumento de 36% em todas as tarifas de pedágio; c) redução da exigência de qualidade das estradas; d) reconhecimento de dívida para com as concessionárias (as credoras calculam que o valor atual ultrapasse R$ 1 bilhão);

e) dispensa de investimento em melhorias e ampliações; e, também importante: f) apenas oito dias para debater e votar proposições. E ainda fazendo com que usuários passassem a pagar parte do pedágio das empresas transportadoras.

Pois veja só, Sant’Ana, como são as coisas: exatamente esse total absurdo foi proposto em 2000 pelo governo petista, com apenas oito dias (14 a 21 de novembro) para debate. E o deputado Bohn Gass, muito satisfeito da vida, achou tão bom, que votou favoravelmente para que fosse tudo aprovado.

Mas a dívida, reconhecida por lei, não foi paga pela administração Olívio Dutra. O governo atual pensa diferente. A gestão da governadora Yeda Crusius quer que o Rio Grande cresça e se desenvolva. Isso não ocorrerá sem boas rodovias, tarifas razoáveis e estradas seguras, o que não se conseguirá sem novas e volumosas obras.

Ora, para cumprir isso, tem de zerar o passivo com concessionárias, elevar a exigência de qualidade das rodovias reduzindo o índice de irregularidade (IRI) de atuais 4,5 (o pior do Brasil) para 2,5 (o melhor do Brasil), investir em ampliações e melhorias em R$ 1 bilhão, garantir participação da comunidade com criação de conselhos de usuários, e, finalmente, fazer algo realmente novo: reduzir tarifas.

Caro Sant’Ana, ao contrário do governo do deputado Bohn Gass, o atual governo propõe com total clareza exatamente o que está exposto acima. Todos os deputados gaúchos receberam kits com totalidade de informações sobre o que está sendo proposto.

Hoje, o parlamento rio-grandense está suficientemente preparado para discutir o projeto, pois nos últimos 20 meses os deputados se ocuparam com debates na CPI dos Pedágios e na Comissão de Representação Externa para tratar das Estradas Gaúchas, suas Concessões e da Malha Rodoviária.

A repactuação de contratos é a forma responsável encontrada para desenvolver tudo isso e para que o Tesouro do Estado possa destinar recursos para outros investimentos, inclusive estradas, como, aliás, está devidamente registrado na proposta orçamentária remetida à Assembléia Legislativa.

E o deputado Bohn Gass vem aqui na tua coluna e não apenas diz que vai votar contra o projeto do governo como afirma, maliciosamente, que a proposta é ‘misteriosa’? Misteriosa é a intenção de quem aprovou pedágios mais caros e estradas piores e não quer que isso se modifique.

Na verdade, o deputado Bohn Gass, para derrotar o governo, está disposto a prejudicar a sociedade gaúcha. Grato, Sant’Ana e, também, a seus fiéis leitores, (ass.) deputado estadual Adilson Troca, PSDB”.

“Paulo Sant’Ana, gostaria que comentasse essa minha opinião sobre os pedágios. Por mais que já pagamos o IPVA e outros impostos incluídos nos combustíveis, é inadmissível hoje pensarmos em rodovias sem pedágios tendo em vista a crise financeira do Estado.

Contudo, gostaria que ligasse a este caminhoneiro que figurou em sua coluna e perguntasse se ele conhece o Pedágio Comunitário de Portão... com certeza não, pois esse realmente é viável a todos na medida que mantém a estrada, duplica a estrada, constrói trevos, rótulas, viadutos e ainda abastece o caixa único do Estado.

Eu inclusive estou disposto a começar um movimento aqui em Ipê para nos anteciparmos aos problemas, ou seja, nos organizarmos para instalarmos um pedágio comunitário junto à RS-122 entre o Trevo de Acesso a Antônio Prado e a BR-116 em Vacaria.

Este trecho está muito precário apesar de ter sido concluído em 2000. Na atual situação de nosso Estado é bem provável que os usuários irão clamar por melhoras e a única saída do governo Yeda será privatizar este trecho, por isso devemos nos antecipar para implantarmos um pedágio comunitário pois desta forma, em audiências públicas e com estudos preliminares juntamente com o Corede, definiremos localização, tarifas, metas de investimentos, etc.

Não sou a favor de cobrar novos impostos, taxas, tarifas, entretanto sou realista e corajoso o suficiente para encarar essa realidade que nos é imposta.

O que não podemos é nos acomodar e aguardar soluções interesseiras. Grato! (ass.)Flávio Pauletti, secretário municipal de Administração e Fazenda, prefeitura municipal de Ipê-RS”.


15 de novembro de 2008
N° 15790 - CLÁUDIA LAITANO


Troféus

Poucas semanas depois de receber dos médicos o diagnóstico de um tipo especialmente letal de leucemia, a ensaísta Susan Sontag (1933 – 2004) estava de volta ao combate. Reconhecida como uma das intelectuais americanas mais influentes do século 20, Susan já havia desafiado o pessimismo médico em duas ocasiões anteriores e parecia determinada a driblar a morte ainda uma terceira vez.

O tema que a trouxe de volta à arena pública, a divulgação das fotos de tortura e humilhação na prisão iraquiana de Abu Ghraib, era urgente e inescapável para a autora de tantos artigos sobre a força simbólica da fotografia e o impacto das imagens de guerra divulgadas pelos meios de comunicação.

Publicado em maio de 2004, oito meses antes da morte da autora, o brilhante ensaio Regarding the Torture of Others (Diante da Tortura dos Outros) é uma análise contundente não só do contexto político que envolvia a atrapalhada ação do exército americano no Iraque, mas também uma reflexão profunda sobre o imaginário na era da fotografia e do vídeo digital.

Fotografar, filmar, mandar para os amigos, postar na internet, registrar cada momento do dia-a-dia, dos mais banais aos mais espantosos, virou uma espécie de vida paralela nos dias de hoje: “Viver é ser fotografado”, anotou Susan Sontag.

Os soldados que criaram as provas para a própria condenação, acionando suas câmeras digitais diante de cenas de tortura e abuso sexual, estavam apenas reproduzindo um gesto que se tornou universal: usar imagens como troféus, como uma espécie de atestado em pixels de que o sujeito não só viveu, mas viveu intensamente – ou assim gostaria de fazer acreditar.

Em cartaz desde ontem em Porto Alegre, o filme Procedimento Operacional Padrão, do premiado documentarista Errol Morris, nos leva para os bastidores de algumas das cenas que chocaram o mundo quando as fotografias de Abu Ghraib começaram a vazar na internet.

Por meio dos relatos de militares que estiveram, direta ou indiretamente, envolvidos com o caso, ficamos sabendo como cada um dos flagrantes captados pelas câmeras digitais foi montado e registrado para a posteridade.

Pode-se, evidentemente,ver o filme como uma grande crítica ao governo Bush e ao seu inédito talento para arruinar a imagem dos Estados Unidos no resto do mundo – e essa talvez seja a leitura mais óbvia e imediata.

Mas o documentário se torna ainda mais perturbador quando abstraímos os aspectos políticos do episódio, quando esquecemos a guerra, a prisão, os soldados, George Bush e tudo que, de alguma forma, transporta a crueldade daquelas cenas para algum cenário remoto que não nos diz respeito – a não ser como leitores indignados das notícias da seção internacional do jornal.

Não é difícil constatar que esse estranho tipo de perversão, a que não se satisfaz apenas com a violência mas parece necessitar do registro digital para se completar, está cada vez mais perto de nós.

O Iraque fica do outro lado do mundo, a guerra é quase uma abstração, mas Santa Catarina é logo ali na esquina.

Foi lá que um universitário e dois alunos de escolas particulares foram presos esta semana suspeitos de estuprar uma menina de 15 anos durante uma festa – crime devidamente registrado em vídeo e colocado na internet como troféu de caça e abate.

Como os jovens soldados de Abu Ghraib, os meninos catarinenses também foram responsáveis pelas principais provas contra eles mesmos.

Mas isso talvez seja apenas o toque contemporâneo em algo que não tem época, nacionalidade ou classe social, um desvio da espécie que nem a história, a medicina, a psicologia ou qualquer outra ciência foi capaz de explicar: a espantosa capacidade do ser humano para deixar de ser humano.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Barcelona 40ºC


Nova comédia de Woody Allen, que estréia hoje no país, trata de um triângulo amoroso durante férias de verão na cidade catalã

SILVANA ARANTES
DA REPORTAGEM LOCAL


Em seu quarto filme consecutivo rodado na Europa, "Vicky Cristina Barcelona", que estréia hoje no Brasil, o diretor nova-iorquino Woody Allen constrói um ménage à trois em paisagem espanhola.

As peças do triângulo são Cristina (Scarlett Johansson), Maria Elena (Penélope Cruz) e Juan Antonio (Javier Bardem).
"Já é bastante difícil conseguir viver com uma pessoa.

Com duas, tende a ser mais complicado. Na vida real, a maioria das pessoas não pode conviver com essa situação. Mas, no cinema, dá para fazer isso", disse Allen, após a pré-estréia do filme, em maio passado, no Festival de Cannes.

Maria Elena é a passional ex-mulher do pintor Juan Antonio, que conhece Cristina quando ela e Vicky (Rebecca Hall), turistas americanas, vão a Barcelona de férias.

Ele aborda as duas com a proposta clara de passarem um fim de semana dedicado aos prazeres da mesa e do sexo.
Antes de dividir o teto com Cristina e Maria Elena, o pintor tem um affair com Vicky, o que também configura uma relação de três pontas, já que ela é noiva de Doug (Chris Messina).

Sem subterfúgios

Para Allen, o personagem de Bardem é "uma pessoa decente, um cara que joga aberto com as mulheres, que não usa subterfúgios para atraí-las".

O diretor escreveu o roteiro a convite de investidores catalães interessados em ter um filme com a assinatura de Allen rodado em Barcelona.

"Minha mulher e meus filhos adoram a cidade. Passar o verão lá foi ótimo. Não sei se aceitaria tão rápido se recebesse um telefonema assim de Estocolmo", disse Allen.

A mulher do diretor é a coreana Soon-Yi Previn, com quem tem dois filhos. Quando se envolveram, ele estava com Mia Farrow, que adotara Soon-Yi em sua união anterior, com o músico André Previn.

Ao lado do cineasta em Cannes, a atriz Penélope Cruz contou que riu muito ao ler o roteiro. "Mas, quando comecei a me preparar para o papel, vi o drama da personagem. Nas filmagens, fiquei profundamente envolvida com isso e até me esqueci de que havia achado as cenas engraçadas", disse.

Maria Elena, a personagem de Penélope, é perseguida pela idéia de estar sendo traída e não consegue levar adiante a relação com o homem que ama -e que a ama também.

O apego de Penélope à personagem fez com que ela anotasse idéias que lhe ocorriam sobre as motivações de Maria Elena e as dúvidas quanto ao seu passado. Numa manhã, antes das filmagens, a atriz tentou discutir esses aspectos com Allen.

"Ele falou que respeitava muito os diferentes métodos que os atores usam para se preparar, mas que eu realmente não precisava saber disso e concluiu: "Acredite: conheço pessoas assim. Elas existem"."

A despeito da intensidade dramática dos sentimentos de Maria Elena, as cenas em que ela e Juan Antonio brigam exaltados são das mais engraçadas do filme. Os diálogos oscilam entre o inglês e o espanhol, o que acentua seu efeito cômico.

"Adorei que Woody tenha nos dado essa liberdade de ir e voltar ao inglês e improvisar. Mas eu tinha muito medo, porque você não muda uma frase de Woody Allen!", disse a atriz.

Na onda do filme, também chega às livrarias brasileiras "Conversas com Woody Allen", livro de entrevistas de autoria de Eric Lax.


MIRANDA, O POETA

Poeta tem de ser maldito. Poeta só é bom se alguém fala mal dele.

Precisa gerar algum tipo de ruptura ou de choque perceptivo. Jean-Arthur Rimbaud revolucionou a poesia mundial com 18 anos de idade e abandonou a literatura. Foi ser traficante de armas na África.

Eu adoraria ser comerciante de camelos no Saara. Charles Baudelaire passou a vida nos bordéis. Poeta é assim. Não segue as convenções sociais. Larga tudo pela poesia.

No Rio Grande do Sul, poeta é Luiz de Miranda. Podia ser um publicitário ou um jornalista bem-sucedido. Não quis. Caiu fora. Decidiu viver para a sua poesia. Tem gente que não gosta do Miranda. Eu gosto. Ele sabe conversar. Temos a nossa medida. Não muito. Vez ou outra, quando ele me telefona. É o suficiente. Mas é sempre instrutivo.

Miranda é um dos poucos poetas que podem ser chamados de poeta. Daqueles que podem escrever na carteira de trabalho: poeta. Deve dar justamente um trabalho danado.

Poesia não é o melhor negócio para se ganhar dinheiro. Há muitos anos que Luiz de Miranda é o meu candidato a patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Não que os outros tenham sido mal escolhidos. Charles Kiefer, como seus antecessores, merecia essa homenagem.

Miranda também. Ele é um personagem da cultura gaúcha. Para mim, Miranda faz parte de Porto Alegre como o Beira-Rio, o Guaíba, o Correio do Povo e, especialmente, a Praça da Alfândega. Impossível imaginar uma mesa de bar de escritores sem ele.

Não posso deixar de admirar profundamente um homem que, quando conta uma história, refere-se a si como 'poeta'. Não sei como é a vida cotidiana de Miranda. Nem pretendo perguntar. Imagino-o como uma espécie de Charles Bukowski perambulando pela Cidade Baixa.

Um velho safado? Um bêbado com ar de sátiro? Não. Vejo-o como um boêmio vivendo histórias radicais ou rocambolescas para alimentar os seus poemas feitos de sangue, fantasias, suor, afetos e sêmen.

Poesia dificilmente produz consenso. Há quem não suporte Pablo Neruda. Já ouvi um crítico acusar Neruda de ser fácil, esparramado e pomposo. Eu acho o Neruda de 'Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada' genial. Vai direto ao coração. Fala a linguagem da vida. Poesia, em geral, não se faz com bons sentimentos nem com uma vida regrada.

Poeta é que nem jogador de futebol. Não precisa servir para ser genro do leitor, do torcedor ou do treinador. Sem algum grau de escândalo, a poesia fica fria. Sei, vão me citar Drummond e João Cabral. Ou tantos outros. Pode ser.

Contra-atacarei com Vinícius e, mais uma vez, Baudelaire e Rimbaud. Sei, vão dizer que tenho uma visão romântica e anacrônica da poesia. É isso mesmo. Quanto à forma, o romantismo já era. Como experiência de vida para instruir o poeta, continua sendo interessante.

A literatura brasileira anda certinha demais. Para emplacar, o escritor precisa ser bonitinho, engomadinho, mauricinho de segundo caderno. A literatura virou um departamento do marketing.

O resultado é uma ficção com cara de patricinha ordinária exibindo a marca da editora.

Talvez por isso eu me encante mais ainda com os marginais. Sim, no sentido mais nobre dessa palavra, Miranda é um marginal. Vive à margem das instituições e das suas normas sufocantes e chatas.

Escreve nas bordas do imaginário dominante e segue em frente. Encarna a poesia que escreve. Espero que Luiz de Miranda seja o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2009.

juremir@correiodopovo.com.br


14 de novembro de 2008
N° 15789 - PAULO SANT’ANA


Pedágio em debate

Recebo do vice-líder do Partido dos Trabalhadores na Assembléia Legislativa: “Sant’Ana, impossível não comentar o tema ‘pedágio’...

O que temos hoje? Contratos draconianos assinados lá no governo Britto e cujo prazo se encerra somente em 2013. Diga-se que são contratos juridicamente perfeitos, mas absolutamente pérfidos, porque impuseram aos usuários um preço altíssimo de tarifas, muito acima dos praticados pelo mercado (veja o exemplo das últimas licitações nacionais), e, ainda, praticamente manietaram a parte concedente (leia-se o Estado), de modo a fazê-la quase refém de suas cláusulas.

Mesmo a justa discussão dos reajustes dos preços, a lógica cobrança de melhorias nas estradas concedidas ou a sua manutenção, são itens que impõem, sempre, novas contrapartidas financeiras muito dolorosas ao Estado.

Não tenho dúvida, e a população gaúcha também não (pesquisas recentíssimas o provam), de que os contratos originais foram um péssimo negócio.

Buenas, mas no raciocínio dos caminhoneiros com quem conversaste... Será que estão totalmente enganados ou a serviço de algum interesse? Não creio. Afinal, benefícios por certo há.

A questão é saber se esses benefícios se dão ou têm se dado na proporção devida. Isto, definitivamente, não sabemos, porque até hoje, mesmo com uma CPI na Assembléia Legislativa, não conseguimos desvendar a caixa-preta das concessões.

Quero dizer com isso, caríssimo, que os consórcios a quem o Estado concedeu a exploração das praças são formados, em sua grande maioria, por empresas que... prestam serviços a esses consórcios.

Ou seja, não há possibilidade de avaliação isenta quando uma fatura de determinado serviço de melhoria, por exemplo, é emitida por pessoas jurídicas do mesmo grupo econômico que deve pagar por ela. Assim, o que as concessionárias apresentam como despesa para justificar eventuais reajustes estará sempre sob suspeita, compreendes?

Então, fica óbvio que uma nova licitação garantiria muito mais benefícios para os usuários. E não é demais lembrar que o compromisso com a transparência dos contratos é um princípio do qual um governo democrático não pode abrir mão.

O governo Yeda, entretanto, quer que nós, deputados, renovemos por mais 15 anos estes mesmos contratos. Viveremos então, não 15, mas 30 anos como reféns das concessionárias.

De outra parte, o que o governo está fazendo com os parlamentares não tem outro nome: é chantagem! Explico: na tentativa (apressada, extemporânea e, portanto, suspeitíssima) de renovar os contratos, o governo condiciona a realização de obras asfálticas (estradas, acessos, trevos, pontes...), há muito reivindicadas por várias comunidades regionais.

Pela tese extorsiva do governo, se rejeitarem a renovação dos contratos, os parlamentares serão responsáveis pela continuidade do mau estado das estradas.

Mas se votarem sim, os mesmos deputados devem assumir o ônus pela manutenção de contratos cheios de cláusulas leoninas que a experiência já provou serem lesivos aos cofres públicos e ao povo gaúcho.

Por fim, Sant’Ana, peço que voltes sempre a este tema. O debate contínuo, bem-intencionado, franco de tua coluna, pelo prestígio, é um canal eficientíssimo para tanto – é a única forma de tornar absolutamente transparente esta negociação.

Neste debate pode-se, por exemplo, incluir as vantagens dos pedágios comunitários, cujas virtudes têm sido decantadas por usuários, comunidades, prefeitos e pelo próprio Daer e que, no entanto, no projeto do governo são olimpicamente desconsiderados.

Sant’Ana, vou votar contra a renovação não apenas porque tenho convicção de que ela seria ruim para o povo gaúcho, mas também por saber que, neste tema, há mais mistérios do que quer nos fazer supor a vã argumentação do governo Yeda. Fraternalmente, (ass.) deputado Elvino Bohn Gass, vice-líder da bancada do PT na Assembléia Legislativa”.

“Sant’Ana, este caminhoneiro que na tua coluna de hoje te disse ser favorável aos pedágios não deve estar trafegando no trecho da RS-135, Passo Fundo- Erechim (único pedágio do governo estadual).

Aquilo ali está intransitável, principalmente entre Getúlio Vargas e Erechim. Eu também sou a favor de boas estradas mesmo com pedágio, mas pagar pedágio na RS-135 é uma vergonha.

Caro Sant’Ana, talvez você possa informar todos os seus leitores em que é usado o dinheiro arrecadado com o IPVA e multas de trânsito? Meu nome é Jorge Barfknecht, trabalho com vendas e manutenção de compressores de ar, meu telefone é (54) 9981-8775”.


14 de novembro de 2008
N° 15789 - DAVID COIMBRA


O Velho Buk e os americanos

Lembro bem quando me caiu nas mãos o meu primeiro Bukowski.

Cartas na Rua.

Li aquilo e fiquei pensando: então alguém escreve assim! Alguém que faz a história escorrer página abaixo e faz com que ela penetre através dos poros dos dedos do leitor e logo a história já se lhe infiltra nas veias e lhe toma o corpo e a mente e o leitor é tomado, como se lhe atacasse a Bolha Assassina. Ah, o Velho Buk não era como aqueles estilistas nacionais, chatos para parecer profundos.

Como há desses por aqui, Deus! No colégio, uma vez eles me vieram com O Tronco do Ipê. Cara, foi uma dor ler O Tronco do Ipê. Todas aquelas mocinhas que enrubesciam ao ver os rapagões cofiando os bigodes.

Passei a odiar personagens que cofiam. Um personagem simplesmente não pode cofiar. Sobre o que se trata O Tronco do Ipê? Quem é mesmo o maldito autor de O Tronco do Ipê? Não faço idéia. Só sei que nunca mais quero ler O Tronco do Ipê, nem nada que seja remotamente parecido.

Mas o Velho Buk não tinha nada disso. O Velho Buk escrevia sobre pessoas de verdade, que não falam por mesóclise.

Bem. Tempos depois, alguém me disse, acho até que foi o meu amigo Sérgio Lüdtke:

– Todas as pessoas precisam ler o John Fante!

Uau! Era importante aquilo. Fui ler o John Fante.

Pergunte ao Pó.

Mal abri o livro, e com quem deparo na apresentação? Ele: o Velho Buk. E o Velho Buk dizia ali, sobre o John Fante, o que eu dizia sobre o Velho Buk: que John Fante escrevia com as entranhas.

Bukowski confessou ter se apaixonado de tal forma pelo personagem de Fante, um candidato a escritor chamado Arturo Bandini, que, certo dia, ao discutir com uma de suas ex-mulheres, bradou:

– Não me trate assim! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini!

Eu sou Arturo Bandini. Gostaria de poder dizer isso. Porque Arturo Bandini era um homem de verdade, que cedia aos seus desejos, sem ceder a sua integridade. E é disso que o mundo precisa: de pessoas que saibam aproveitar a vida sem se aproveitar das outras pessoas.

Sugestão: nesta Feira do Livro, vá até a Praça e deixe que o Velho Buk ou que o grande John Fante tomem conta de você. Ou quem sabe outro mestre, Raymond Carver, ou Fitzgerald, ou Capote, ou Steinbeck, ou os noirs Raymond Chandler, Dashiell Hammett, David Goodis, Elmore Leonard... Os americanos, cara!

Os americanos com sua contemporaneidade selvagem, sua linguagem elegantemente crua, os americanos que são capazes de construir o novo capitalismo no século 19, abalá-lo no século 21 e possivelmente reconstruí-lo com um improvável presidente negro.

Os americanos inventores da democracia moderna, dos princípios morais da civilização, do jornalismo e do cinema. Viva os americanos, cara!