sexta-feira, 14 de novembro de 2008



14 de novembro de 2008
N° 15789 - DAVID COIMBRA


O Velho Buk e os americanos

Lembro bem quando me caiu nas mãos o meu primeiro Bukowski.

Cartas na Rua.

Li aquilo e fiquei pensando: então alguém escreve assim! Alguém que faz a história escorrer página abaixo e faz com que ela penetre através dos poros dos dedos do leitor e logo a história já se lhe infiltra nas veias e lhe toma o corpo e a mente e o leitor é tomado, como se lhe atacasse a Bolha Assassina. Ah, o Velho Buk não era como aqueles estilistas nacionais, chatos para parecer profundos.

Como há desses por aqui, Deus! No colégio, uma vez eles me vieram com O Tronco do Ipê. Cara, foi uma dor ler O Tronco do Ipê. Todas aquelas mocinhas que enrubesciam ao ver os rapagões cofiando os bigodes.

Passei a odiar personagens que cofiam. Um personagem simplesmente não pode cofiar. Sobre o que se trata O Tronco do Ipê? Quem é mesmo o maldito autor de O Tronco do Ipê? Não faço idéia. Só sei que nunca mais quero ler O Tronco do Ipê, nem nada que seja remotamente parecido.

Mas o Velho Buk não tinha nada disso. O Velho Buk escrevia sobre pessoas de verdade, que não falam por mesóclise.

Bem. Tempos depois, alguém me disse, acho até que foi o meu amigo Sérgio Lüdtke:

– Todas as pessoas precisam ler o John Fante!

Uau! Era importante aquilo. Fui ler o John Fante.

Pergunte ao Pó.

Mal abri o livro, e com quem deparo na apresentação? Ele: o Velho Buk. E o Velho Buk dizia ali, sobre o John Fante, o que eu dizia sobre o Velho Buk: que John Fante escrevia com as entranhas.

Bukowski confessou ter se apaixonado de tal forma pelo personagem de Fante, um candidato a escritor chamado Arturo Bandini, que, certo dia, ao discutir com uma de suas ex-mulheres, bradou:

– Não me trate assim! Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini!

Eu sou Arturo Bandini. Gostaria de poder dizer isso. Porque Arturo Bandini era um homem de verdade, que cedia aos seus desejos, sem ceder a sua integridade. E é disso que o mundo precisa: de pessoas que saibam aproveitar a vida sem se aproveitar das outras pessoas.

Sugestão: nesta Feira do Livro, vá até a Praça e deixe que o Velho Buk ou que o grande John Fante tomem conta de você. Ou quem sabe outro mestre, Raymond Carver, ou Fitzgerald, ou Capote, ou Steinbeck, ou os noirs Raymond Chandler, Dashiell Hammett, David Goodis, Elmore Leonard... Os americanos, cara!

Os americanos com sua contemporaneidade selvagem, sua linguagem elegantemente crua, os americanos que são capazes de construir o novo capitalismo no século 19, abalá-lo no século 21 e possivelmente reconstruí-lo com um improvável presidente negro.

Os americanos inventores da democracia moderna, dos princípios morais da civilização, do jornalismo e do cinema. Viva os americanos, cara!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008


ELIANE CANTANHÊDE

Gato por lebre

BRASÍLIA - Numa solenidade para assinatura de contratos do PAC no Planalto, em 24 de junho, com Lula e Dilma Rousseff, dois aliados do governo foram destacados para falar em nome dos 27 governadores e dos milhares de prefeitos do país: o governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT, e o prefeito de Manaus, Serafim Corrêa, do PSB.

Quatro meses depois, foram encerradas as eleições municipais, nas quais os dois grandes vitoriosos foram os governadores e os prefeitos candidatos à reeleição. Mas Jaques e Serafim andaram na contramão.

Jaques perdeu em Salvador, e Serafim foi o único candidato à reeleição nas capitais a dar com os burros n'água. Não foi por acaso.

Na Bahia, Jaques vinha de uma espetacular e inesperada vitória para o governo em 2006 e se sentiu forte o suficiente para patrocinar um candidato próprio do PT contra o prefeito João Henrique, do PMDB. Trombou de frente com o trator Geddel Vieira Lima e perdeu.

Em Manaus, o PT e o PC do B passaram três anos aboletados na prefeitura, mas na eleição abandonaram o prefeito no sereno. O PT lançou um nome próprio, e o PC do B apoiou o candidato do governador Eduardo Braga.

Os dois perderam já no primeiro turno e enfraqueceram Serafim para o segundo. Isolaram Serafim, o aliado, e deram a vitória a Amazonino Mendes (PTB), o verdadeiro adversário.

Cumpre-se assim o que Zé Dirceu diz e tenta curar há muitos anos: a arrogância petista de considerar aliança o que é a favor dele, não o que é a favor do outro.

E isso deixa mágoas, carimbos e muitas vezes, como nos casos de Salvador e de Manaus, doídas derrotas.

A mágoa não é só contra o PT, mas contra o próprio Lula, que lavou as mãos, tirou foto com os adversários e ajudou a empurrar Serafim para o precipício.

E também não é só de Serafim, mas do PSB -um dos partidos mais afinados com o governo nessa base aliada que é um saco de gatos, e de gatos direitistas.

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Dinheiro, sim; controles, não

SÃO PAULO - O velho sábio que habitava esta Folha ficava indignado com os freqüentes pedidos de "papai, mande dinheiro", como ele designava os apelos do empresariado para que o governo os socorresse nos momentos de dificuldade (e, a bem da verdade, até nos momentos de facilidade).

Não tivesse morrido, estaria estupefato ante a quantidade de "filhos" que pedem dinheiro a "papai-Estado". E mais ainda ante a facilidade com que o Estado abre os cofres, de que dão prova, apenas a mais recente, os governadores José Serra e Aécio Neves.

O pior é que os "filhos" (no caso, os bancos) não se arrependem nem um tiquinho da overdose de ativos tóxicos que ingeriram e os levaram ao coma (e ao apelo a "papai").

Ao contrário. Comunicado do Instituto de Finanças Internacionais, que reúne cerca de 350 dos maiores bancos do mundo, louva os pacotes oficiais de auxílio ao setor , mas afirma, em seguida, que tais pacotes "não devem dar margem a um papel mais amplo e permanente do setor público no sistema financeiro internacional".

Tampouco querem uma regulação que lhes impeça de beber demais, porque "ameaçaria as perspectivas de reativar o crescimento da produção e dos empregos, ao estender ineficiências nos mercados globais".

É uma desfaçatez fora do normal, porque deixa de lado que foi o excesso de desregulação -e não o excesso de regulação- que causou a presente "ineficiência" (quase colapso) dos mercados globais.

A propósito, meu cardiologista -na verdade o médico da família, o napolitano Giuseppe Dioguardi- perguntava se depois de tanta doação de dinheiro público os governos ainda teriam coragem de negar dinheiro para a saúde, como fazem sistematicamente.

Ah, Beppe, santa ingenuidade. Esse "filho", a saúde, não financia campanhas eleitorais.

crossi@uol.com.br


VENDA DE DOAÇÕES

O grande pensador Jean-Jacques Rousseau era bom de frases. Um dia, saiu-se com esta: 'A gente sempre sabe o que se ganha com o progresso.

O problema é saber o que se perde'. Tradução: cuidado com a sacanagem! A modernidade é uma serpente especialista em autopromoção.

Essa imagem é de péssimo gosto. Assim como certas manobras para iludir a plebe. É costumeiro que, em nome do desenvolvimento e da criação de preciosos empregos, o Estado doe um terreno para que uma empresa privada se instale.

Passam-se os anos e a dita empresa entrega os pontos. Aí surge um novo e sensacional projeto para a mesma área e, embora contrariando interesses coletivos, defende-se o livre uso do espaço em questão por ser uma propriedade privada.

O ciclo é claro e recorrente: o público vira privado pelo bem comum. Depois, o bem comum deixa de ser atendido por ser considerado anacrônico colocar o interesse público acima do bem privado.

Recebi um número tão grande de e-mails sobre a questão do Pontal do Estaleiro que não pude sequer responder a cada remetente.

A leitora Néia Uzon, porém, enviou-me uma informação que precisa ser compartilhada, ainda mais que ela fala 'na condição de quem já coordenou a área de patrimônio do município de Porto Alegre'.

Os seus dados provam o funcionamento desse ciclo da serpente que privatiza pelo bem público: 'Toda a área da orla (da Ponta da Cadeia à Ponta do Melo e desta à Ponta do Dionísio) foi doada pelo Estado do RS ao município de Porto Alegre.

Na época, corriam tratativas para a doação desta área à empresa Estaleiro Só S/A por parte do Estado, e a orla veio ao domínio do município com a condição de essa doação ter continuidade.

A Procuradoria do município elaborou a minuta do projeto de lei autorizativa, bem como da escritura de doação ao Estaleiro Só S/A, com cláusula de reversão ao patrimônio público em caso de desvirtuamento das finalidades, doação ou falência da empresa. Sabe o que aconteceu?'.

Isto: 'Veio uma carta do então governador do Estado ao prefeito ordenando que a doação fosse feita sem qualquer cláusula de reversão (o que é de praxe, por motivos óbvios, em doações de áreas públicas) por ‘MOTIVOS DE SEGURANÇA NACIONAL’.

Eram os anos de chumbo, prefeito nomeado, mandava quem podia e obedecia quem precisava... E agora? Qual é a desculpa do prefeito para não ter invocado vício de iniciativa?

Se a moda pega, lá se vão os (poucos) limites que ainda mantêm um mínimo de moralidade na condução da questão urbana. Assim sendo, o município ou o Estado deveriam ter recomprado algo que era do povo desta cidade e que foi doado para ‘preservar a segurança nacional’, coisa que até hoje não consegui entender nem engolir.

Em que a privatização de parte da orla ao Estaleiro afetava positivamente a segurança do país? A administração pública é um troço kafkiano.

Agora só nos resta espernear. E vamos continuar esperneando até o fim porque até paciência de contribuinte (que parece não ter fim) tem limite! Obrigada pelos teus artigos!'.

A proverbial falta de memória dos brasileiros quase sempre ajuda a enterrar detalhes que atrapalham a 'marcha inexorável do progresso'.

Há sempre alguém, no entanto, para lembrar o que deveria ser esquecido pelo bem dos que adoram os bens públicos com tanto apego que os pegam para eles.

Será que recordações desse gênero incômodo não influenciam os votos dos vereadores de Porto Alegre?

juremir@correiodopovo.com.br


13 de novembro de 2008
N° 15788 - LETICIA WIERZCHOWSKI


Do nosso egoísmo

O homem é o câncer do planeta, li isso em algum lugar. Triste, mas justa afirmação – vide o fato de que nos espalhamos freneticamente pelo globo terrestre devastando tudo quanto encontramos pela frente. No entanto, agora a raça humana depara com um terrível dilema, o cansaço incontornável do planeta.

Centenas de anos de consumo dos bens renováveis e não-renováveis, uma orgia com os recursos terrestres, e agora, logo na nossa vez, a Terra dá visíveis sinais de que não agüenta mais o tranco.

Teria sido ótimo se a gente pudesse seguir vivendo doidamente, deixando nosso lixo como um testamento para as gerações futuras, e despejando dióxido de carbono à toa por aí. Mas a coisa ficou feia.

Ou reformamos nossos conceitos, nossas empresas e nossos hábitos cotidianos, ou vamos todos pro beleléu. É sabido que reformar é mais trabalhoso do que começar do zero, mas não tem jeito. Temos que pegar aquele hábito ano 2000 e reduzi-lo a um modelito anos 70 urgentemente.

Temos que fazer uso da nossa condição de consumidores de maneira consciente e política – produtos com embalagens recicláveis, empresas que protegem o meio ambiente: gaste seu dinheiro com eles.

E temos que desperdiçar menos água! Nem eu, nem você podemos colocar no mercado um carro a hidrogênio, mas podemos fechar a torneira ao escovar os dentes.

E podemos usar a vassoura. Isso mesmo, ao invés de limpar a calçada com uma mangueira, vamos a la Janio Quadros. Vassourinha nela! Aliás, lavar a calçada de mangueira deveria ser passível de multa.

Então, dia desses, estou num restaurante e vou ao banheiro. Em frente ao reservado, uma mulher mirava-se no espelho e aplicava batom nos lábios com a torneira aberta.

Isso mesmo: enquanto ela se enfeitava, a água corria pelo cano sem necessidade nenhuma. E a criatura lá, fazendo caras e bocas pra agradar o segundo marido ou sei lá quem era o coitado que a esperava na mesa.

E era uma mulher bem-vestida num restaurante da moda. Ou seja, ela pelo menos conhecia a moda, e deve ler umas revistinhas aqui e ali, nem que seja no cabeleireiro. Ela sabia que aquela água correndo era uma afronta à realidade.

Que metade das pessoas desse planeta já sofrem com a escassez de água potável. Mas e daí, se era domingo e ela tinha tomado umas tacinhas de champanhe?

Daí que o nosso egoísmo é que vai nos afundar. Ou nos afogar, se os oceanos subirem como previsto.

Mas tudo bem, desde que a gente ainda possa andar mais um tempo com o carro do ano, comprar todo o guarda-roupa do próximo inverno, e terminar aquela última garrafa de champanhe que ficou nos esperando ali na mesa do restaurante.


13 de novembro de 2008
N° 15788 - PAULO SANT’ANA


Duas visões sobre pedágio

Está na pauta gaúcha a renovação das concessões de pedágio no Estado.

Sempre fui contra os pedágios espoliadores, já escrevi inúmeras colunas contra as cobranças escorchantes de pedágios. As empresas concessionárias de pedágio no Rio Grande do Sul têm bem nítida a consciência de que em mim sempre encontraram um jornalista adversário dos seus interesses.

Dito isso, até mesmo para balizar posições, no entanto recebi um e-mail de um caminhoneiro que me deixou estonteado ontem.

O caminhoneiro se diz favorável aos pedágios: “Amigo Paulo Sant’Ana, sei que primas por salvar vidas, meu nome é (o nome dele estava escrito por extenso; ao lado, seu telefone celular), sou caminhoneiro, viajo numa carreta diariamente pelas estradas do RS e do Brasil, por isso apelo ao amigo que interceda pela prorrogação dos pedágios nas estradas do RS, pois só quem viaja por todas elas, pedagiadas ou não, sabe a necessidade da continuidade nas melhorias que necessitamos.

Está havendo uma politicagem de cada deputado por sua região eleitoral, esquecendo, na realidade, de quem viaja por todo o Estado a trabalho.

Estão comparando pedágios mais baratos no Brasil com os gaúchos, acontece que lá fora as estradas são construídas com o dinheiro público e entregues aos concessionários de pedágios, caso da Fernão Dias (SP) e da Régis Bittencourt (SP), que já estão duplicadas, cujas cobranças são de R$ 1, só que há trânsito 10 vezes maior nelas que nas rodovias do nosso Estado.

Esquecem que no Paraná, numa distância de 80 quilômetros, de Curitiba a Paranaguá, se pagam R$ 60 ou mais por caminhão só de ida, mais outro tanto de volta.

Por isso, peço ao amigo que se quiser me ligue, pois gostaria muito de convidá-lo para fazer uma viagem comigo como fez com um carroceiro para ver a realidade do que estou falando. Agradeço desde já sua atenção enviando um forte abraço colorado de um grande admirador seu”.

Fiquei estupefato. Porque todos os dias leio nos jornais que as entidades de transporte de cargas estão veementemente contrárias à renovação do contrato de pedágios no RS.

Como podia então um caminhoneiro ser a favor do pedágio?

Telefonei para ele, que me confirmou inteiramente o seu e-mail. Disse-me mais: que só quem viaja sabe como é tranqüilo pegar estradas pedagiadas. E acrescentou: “Estrada pedagiada é estrada boa, seu Sant’Ana”.

Foi aí que liguei para mais três caminhoneiros, que me transmitiram também a mesma sensação: todos favoráveis aos pedágios.

Caí duro para trás.

Só então fiquei sabendo de um fato muito importante dentro desta polêmica: os caminhoneiros saúdam os pedágios porque transitam por estradas boas, que tornam muito mais barata a manutenção de seus caminhões, além de viagens mais rápidas, o que lhes proporciona mais fretes.

Eles são autônomos. Assim, quem paga os pedágios não são eles. O dinheiro sai dos bolsos dos transportadores que os contratam para fazer o frete.

Mesmo sendo um antipedagista tradicional, no entanto, tenho a pretensão de ser justo e ético.

E nesse sentido informo à opinião pública gaúcha que os caminhoneiros adoram trafegar por estradas pedagiadas. Quem não gosta de pedágios são os transportadores que contratam os caminhoneiros.

Ou seja, quem usa as estradas pedagiadas não quer outra vida, está num paraíso. No caso, os caminhoneiros.

No entanto, quem paga o preço dos pedágios, no caso, as transportadoras, estas não querem ver as estradas pedagiadas nem vestidas de santos.


Informo isso aos leitores de minha coluna para que formem um juízo sobre a questão.

E o caminhoneiro que me escreveu me rogou insistentemente para que não publicasse seu nome e celular. Caso contrário, as transportadoras, que estão mobilizadas contra o pedágio, não lhe concederiam mais fretes.


13 de novembro de 2008
N° 15788 - LF VERISSIMO


Já bobeou, o cabeleira

Não me lembro bem como é a história. Um profeta, cabeludo como devem ser todos os profetas, fala para uma multidão, que aplaude suas palavras.

– Jesus voltará, e premiará todos os justos!

(Palmas. Vivas). – Os que hoje não têm nada um dia terão tudo! (“Muito bem!”. “É isso aí!” etc.)

– Os ímpios serão punidos e os puros prevalecerão! (“Oba!”, “Boa!”) – Não haverá mais pecados da carne, e toda bebida alcoólica virará pó!

Silêncio, enquanto a multidão pondera esta última previsão. Até que de dentro de um boteco ouve-se uma voz enrolada que comenta:

– Já bobeou, o cabeleira.

Não sei se quando isto for publicado o Barack Obama já terá escolhido seu secretário do Tesouro, mas entre os nomes sendo cogitados estava o de Lawrence Summers, aquele que na direção do Banco Mundial recomendou que indústrias poluidoras fossem recolocadas em países onde a mão-de-obra é mais barata, pois assim o custo social seria menor.

E depois, como presidente de Harvard, sugeriu que certas atividades estavam além da capacidade intelectual das mulheres. Dizem que ele é um crânio em matéria de economia e finanças. Se for o escolhido, que pelo menos seja amordaçado quando aparecer em público. De qualquer jeito, é a primeira bobeada do Baraca.

Mas a presença, na lista, do Summers, que foi secretário de Tesouro do Clinton, e de Robert Rubin, que também foi, só prova o que já se sabia, que Obama não vai divergir muito da ortodoxia corrente na sua política econômica, a não ser que seja forçado por um agravamento inédito da crise.

Durante a campanha, a Naomi Klein já notara que a equipe de conselheiros econômicos do candidato Obama incluía muita gente identificada com a escola de Chicago – não fosse o próprio Obama ligado à Universidade de Chicago, embora não ao seu departamento de economia, do topo do qual Milton Friedman pregou o evangelho neoliberal e fez a cabeça de uma geração.

Se a expectativa é de que o presidente eleito comande um segundo New Deal como o de Roosevelt para recuperar o país, não fica claro como fará isso sendo aconselhado por discípulos do cara que desmontou o New Deal e seu legado.

Mas não vamos prejulgar o Baraca. Todo homem tem direito a bobeadas, desde que não se tornem um hábito.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008



12 de novembro de 2008
N° 15787 - MARTHA MEDEIROS


Literatura menor

Um estudante de Letras me solicitou uma entrevista por e-mail que, prontamente, aceitei responder. A primeira pergunta: “A literatura de mercado é literatura mesmo?”.

Depois de 18 livros publicados, pela primeira vez entrei numa lista nacional de best-sellers. Se eu tivesse complexo de perseguição, poderia achar que fui escolhida para essa entrevista para que o garoto recebesse, direto da fonte, um panorama da pior literatura do mundo. Ainda bem que minha auto-estima está ok.

Imagino que “literatura de mercado” seja aquela que vende bem, ao contrário da literatura “artística”, que mofa nas estantes. Será? Até onde sei, toda literatura é de mercado, e dela fazem parte tanto os livros bem escritos quanto os mal escritos. Se vende, é ruim? Se não vende, é bom? Me parece um pouco simplista. Segunda pergunta:

“Qual a razão do sucesso desse tipo de literatura?”.

Creio que os leitores preferem ler algo que entendam e que seja de seu gosto, mas vá discutir gosto. O que é preciso lembrar é que um autor não produz esse tipo de literatura de caso pensado.

Alguns acreditam que basta escrever um texto fácil, de identificação imediata, e depois é só aguardar as moedas caindo na piscina, feito um tio Patinhas.

Fosse moleza assim, os “escritores artísticos” se valeriam do mesmo truque (criando um pseudônimo, lógico) e ficariam milionários da noite pro dia. Por que isso não acontece? Porque cada um escreve do jeito que sabe. Eu não sei escrever como Clarice Lispector.

Se soubesse, era o que estaria fazendo. Ninguém escreve fácil de propósito, só para estourar. Ou teríamos um Paulo Coelho em cada esquina. Quem não gostaria de possuir um apartamento em Paris onde é possível praticar arco e flecha no corredor?

Há os que exercem o dom da comunicabilidade sem abrir mão da sua honestidade artística. Não há nenhuma garantia de qualidade nisso, mas não se pode duvidar do caráter de quem vende direitinho.

“Acredita que a literatura de mercado tem como mérito a formação de novos leitores?” Sem dúvida. Eu, por exemplo, virei uma leitora através de Monteiro Lobato, que era muito popular quando eu era criança, o que o enquadraria em literatura de mercado, suponho.

“A literatura menor pode incentivar leituras de obras maiores?”

Sim, um leitor pode começar lendo a mim e chegar a García Márquez. Mas o que importa é que tenha prazer pela leitura, o que já é um avanço num país de iletrados, onde milhões de pessoas nunca seguraram um livro.

“A literatura séria está fadada ao desaparecimento?”

Vivemos na eterna expectativa do apocalipse. A humanidade é viciada em previsões catastróficas, sempre profetizando o fim do sublime.

Humildemente, acho que ninguém tem procuração para sacramentar o que é “sério” – e muito menos para tornar essa seriedade inquestionável. Já ouvi o genial Ferreira Gullar dizer que acha Beckett um chatonildo.

Ou seja, é importante estudar teoria da literatura, desde que ninguém seja catequizado. Opinião pessoal também conta.

Ótima quarta-feira - Aproveite o dia


12 de novembro de 2008
N° 15787 - DIANA CORSO


Comendo livros

Ainda guardo em mim alguns raciocínios infantis que me induzem a equívocos. Um deles é ler as coisas no seu sentido literal.

É esse tipo de pensamento que pode levar uma criança a pensar que todas receitas contém chá e sopa entre seus ingredientes, já que colheres disso são sempre mencionadas, e que sapatos de salto são para saltar. Foi por isso que li enviesado uma manchete da capa da revista Claudia que dizia: “A dieta dos best-sellers”.

Imaginei um grupo de pessoas gordas reunidas discutindo sobre livros ao invés de terem que comunicar umas às outras o que comeram e quantos quilos perderam.

Entre as histórias escolhidas, haveria também relatos de grandes comilanças, como A Festa de Babette, de Karen Blixen, mas esse é alimento que não engorda.

Minha fantasia foi longe: cada um poderia ser Sherazade por uma temporada, narrando seus livros de escolha alternadamente; ou talvez a cada semana um contasse aos outros partes do seu livro, assim todos acompanhariam vários livros ao mesmo tempo.

Mas no que isso as emagreceria? Provavelmente, em nada... Foi apenas um devaneio sobre uma sociedade mais sonhadora e menos voraz.

Comendo mais literatura talvez não ficássemos entregues a prazeres de tiro tão curto e, conseqüências nefastas, como os excessos de comida e álcool. Isso nos livraria principalmente do consumo de drogas, que prometem um sonho protético para os carentes de imaginação, ao preço de virar pesadelo.

Impossível não evocar aqui o saudoso Bode Orelhana, personagem dos quadrinhos de Henfil que, em plena ditadura, devorava tudo, inclusive livros e jornais. Esse regime lhe proporcionava momentos de sábia eloqüência, mas também grandes indigestões.

Era uma época de dieta forçada de idéias, onde precisávamos catar o que ler como famintos na caatinga. Sugiro que aproveitemos a fartura.

Falando em dieta e livros, é fato que grandes contos podem vir em poucas palavras, numa quase poesia, como este magnífico exemplo escrito por Sergio Napp:

“Estava abatida por todos os dias passados naquela cama de hospital. Ele apanhou o potinho com gelatina e a colher. Nunca se imaginara em tal situação: alimentando a morte da própria mãe”.

É um dos minicontos do último lançamento da Série Lilliput da Editora Casa Verde. O livro é Contos Comprimidos (org. Fernando Neubarth).

Deixo os livros dessa série na sala de espera do meu consultório, lá ninguém espera muito, mas sempre dá tempo de meus pacientes iniciarem a consulta com um trecho de ficção, que em certas ocasiões alimenta nosso trabalho.


12 de novembro de 2008
N° 15787 - PAULO SANT’ANA


Chorando os mortos

Uma carta de uma mulher dilacerada: “Prezado Sant’Ana. Sempre começo a ler a ZH de trás para frente, como muitos leitores, e também jamais imaginei que escreveria para a tua coluna.

Após ler a de ontem, cujo título era ‘Assaltos sem mortes’, que se referia a vários casos de homicídios ocorridos no Interior, tomei a liberdade para te escrever, pois minha indignação é tão grande, que tenho vontade de sair berrando ao mundo o que estão fazendo com nossos jovens.

Quinta-feira, dia 06/11/08, às 21h30min, o melhor amigo do meu filho foi baleado em um assalto no Cristal e faleceu poucas horas depois no HPS.

Ele era o melhor amigo do meu filho! Eles se conheceram na creche e esta amizade começou quando tinham apenas três anos. São 15 anos de convivência, de amizade, de irmandade. Estudaram juntos nas mesmas escolas.

Depois, tiveram que se separar, mas só um pouquinho, pois nas sextas, sábados e domingos, estavam juntos e mais as namoradas e mais toda a galera. A única coisa que realmente os separava era o futebol: ele era gremista e o meu filho, colorado.

Aliás, se meu filho não tivesse ido para Buenos Aires ver o Inter jogar, com certeza estaria junto com o amigo, como em tantas outras vezes em que foram assaltados. Sendo que num dos últimos assaltos, na Rua Getúlio Vargas, bateram no meu filho com uma barra de ferro e ele levou 11 pontos na cabeça.

O ‘cara’ ia partir o amigão ao meio – como meu filho me contou – e este empurrou o amigo e a barra pegou na sua cabeça. Conhecendo bem o filho que tenho, com certeza, ele também sairia ferido ou morto, porque eles eram assim: unidos, amigos, irmãos.

Será que a mãe dessa criatura que atirou num jovem para roubar um skate pode dizer que o conhece bem? Será que o valor de uma vida pode ser medido por um skate? Então, quanto vale a vida dessa criatura? O preço de um quilo de sal?

Infelizmente, para mim, hoje, agora, não vale nada. Pois ele não matou só o melhor amigo do meu filho. Ele matou o filho de uma mãe maravilhosa, de um pai trabalhador, tirou o irmão mais velho de uma menininha, terminou de forma brutal um namoro de três anos, o amigo zen de uma turma de mais ou menos 15 adolescentes, enfim, matou sonhos!

O que nós, pais, devemos fazer? Trancar nossos filhos, como se fossem marginais? Eles estão no auge da vida, querem viver, querem sonhar, querem andar por aí. Os que deveriam estar atrás de grades estão por aí, matando inocentes.

Esses é que deveriam estar presos e até mortos. Sabemos que esses tênis e esse skate foram trocados logo ali adiante por drogas – cocaína, crack... – e para essas pessoas a vida não vale nada. A vida deles é muito curta, porque logo vão encontrar algum desafeto e com certeza nesse encontro ou eles matam, ou eles morrem.

Para essas pessoas, depois que matam a primeira vez, matar mais um ou dois não faz a menor diferença. E a sorte deles é que este menino não pertencia a uma gangue rival ou a qualquer outro tipo de gangue, senão a esta hora já estariam mortos ou quem sabe algum familiar deles.

A sorte deles é que este pai e esta mãe vão esperar por justiça e não fazer justiça pelas próprias mãos. Pois nós fomos educados e educamos nossos filhos no sentido de que cabe à polícia, ao Estado punir esses marginais.

Tenho certeza de que falo por todos os pais da galerinha que freqüenta nossas casas: quisemos ter estes filhos.

Começamos torcendo para que o exame desse positivo, acariciávamos nossas barrigas – e ela ainda nem tinha tomado forma –, queríamos que o mundo soubesse que ali dentro estava nosso tesouro, carregamos, conversamos e cantamos para eles durante os nove meses. Depois, as famosas dores do parto.

A primeira mamada, a primeira troca de fralda, cólicas, noites maldormidas, febre, catapora, conjuntivite, mas bastava olhar para aquele serzinho e todo cansaço sumia, todo o sono desaparecia.

A primeira vez na escolinha. Me lembro que os meninos, no primeiro dia das mães, na creche, cantaram uma música do Skank que numa parte da letra pergunta: ‘Aonde você mora? Aonde você foi morar?’.

E da creche foram para a escola e foram crescendo, criando asas, chegando cada vez mais tarde, ou nem chegando, dormindo uns nas casas dos outros.

Meu filho me ligou na sexta-feira, de Rivera, me perguntando se tinha acontecido alguma coisa, pois os amigos não atendiam seus telefonemas e eu pensava como vou dizer ao meu filho que o melhor amigo dele morreu?

Ou que o futebol deles, a partir de agora, seria com um companheiro a menos?

E que não mais teria o amigo para virar a noite, aqui em casa, jogando videogame ou que o sabor dos próximos churrascos seria diferente? E me lembrei para onde o meu filho vai quando brigamos, pois ele arrumava a mochila e ia ‘embora’ de casa. Quando chegava no amigo, ligava e avisava que estava lá ou bastava eu ligar para saber que estava bem.

Ver aqueles jovens chorarem feito meninos no velório de seu amigo! Ou meu filho, após saber do ocorrido, ligar de cinco em cinco minutos, pedindo para que o celular ficasse ligado ao lado do amigo, pois ele ainda tinha muitas coisas a dizer.

Na hora do adeus, vê-los cantando o Hino Rio-Grandense, pois este menino tinha orgulho de ser gaúcho, foi uma emoção indescritível, pois, naquele momento, eles se tornaram adultos – pela dor da perda, pelo sofrimento, pela injustiça, pela violência.

Alguém, por favor, pode me explicar por que um menino de 18 anos foi morto naquela noite? Ou na segunda-feira passada ou na semana passada.

Quem está matando nossos filhos? Simplesmente não me conformo, não aceito. Quantos Rafaéis, Igors, Vicentes... terão que morrer para que algo seja feito?

Quando chegamos ao ponto de perder um filho por causa de um skate ou seja lá o que for, está na hora de pararmos e ver o que está acontecendo.

Pois não acredito que ‘quando chega a hora não se pode fazer nada’ ou que ‘basta estar vivo para morrer’ ou que foi ‘um sinal para os que ficaram’.

Mas, como meu filho menor, na inocência de seus nove anos, me disse, tentando me consolar: ‘Mãe, não te preocupes, pois agora temos mais uma estrela no céu para brilhar e nos cuidar’. (ass. ) Themis Krumenauer (tkrumenauer@hotmail. com)”.


12 de novembro de 2008
N° 15787 - DAVID COIMBRA


A influência da chicória na vida das pessoas

A vida é um campeonato de pontos corridos. Empreendi reflexão dolorosa até chegar a essa sentença filosófica.

Pontos corridos.

Quer ver? A gordura. Digamos que uma pessoa que não era gorda tenha se tornado gorda. Imagine uma linha do tempo: a pessoa não é gorda. Não é gorda, não é gorda, não é gorda. Aí fica gorda.

A condição dela muda, entende? De não-gorda para gorda. Há um momento em que isso acontece. Um traço na linha do tempo. Um dia e uma hora precisos. Um instante de passagem em que o não-gordo cruza a aduana, atravessa a fronteira, é alçado à situação gorda.

O que me interessa é o instante em que isso se dá. No caso da gordura, presenciamos esse momento decisivo, certa feita, eu e meus colegas de Zero Hora. Faz tempo, já. Era uma moça que não se tratava de moça gorda, em absoluto. Possante, talvez.

Bem fornida, certamente. Gorda, nunca. Mas uma tarde lá estava ela, encostada ao balcão do bar da Redação, olhando com concupiscência para as guloseimas da vitrine. Tomou a decisão, espetou o indicador no ar e ordenou ao atendente:

– Enroladinho de pizza! É isso que quero: enroladinho de pizza!

Foi na segunda dentada no enroladinho de pizza, abundantemente untado com mostarda e ketchup, quiçá maionese, que a transformação ocorreu.

As células de glicerídios ou lipídios ou ácidos graxos, sabe-se lá, borbulharam pelo seu corpo, glub, glub, e reuniram-se todas e escorreram-lhe pelas veias e acumularam-se exatamente na região fulcral, o setor que decide se uma mulher é gorda ou não, a grande área do corpo feminino, a zona do agrião.

Os flancos. Vulgarmente conhecidos como ancas. E ali, diante dos nossos olhos assombrados, a moça outrora apenas bem fornida tornou-se... gorda.

Foi um privilégio nosso testemunhar um fenômeno da natureza. A velhice também. Há um dia em que a pessoa se torna velha. Não era, até que acorda, sai para a rua e alguém aponta:

– Olha ali aquele velho.

Se tudo der certo, esse dia chegará para todos nós, inexoravelmente, a despeito de todos os cremes franceses e elixires amazônicos.

Semanas atrás, achei que o meu dia havia chegado. Fui ao lançamento dos livros do Faraco e, ao me ver, a Cacá, da L&PM, antes mesmo de dar boas noites, comentou:

– Tu estás abatido... Depois, fomos jantar em turma e, volta e meia, ela me olhava e repetia:

– Mas como tu estás abatido... Ao nos despedirmos, ela pegou nos meus ombros maternalmente e recomendou:

– Vê se dorme bem. Tu estás muito abatido... Cheguei em casa vergado pelo peso dos anos, sentindo-me... abatido.

Mas, na semana passada, fui à Feira do Livro de Passo Fundo, da qual sou patrono, o que muito me honra e orgulha. A primeira pessoa que me encontrou disse, surpresa:

– Como tu és jovem! Em seguida, um repórter de rádio foi me entrevistar e perguntou:

– Como tu te sentes como patrono, sendo assim tão jovem? E, na cerimônia de abertura da Feira, alguém, discursando, me citou:

– O nosso jovem patrono...

Ao voltar para o hotel, olhei-me no espelho e pensei: que belo dia, esse! Será que foi a chicória que comi no almoço?

Chicória tem esse poder rejuvenecedor, como se sabe.

Enfim, se não chegou ainda, meu dia chegará. Com boa sorte, sempre chega a qualquer um. Meu sonho seria deixar registrado na agenda: “22 de maio de 2062: às 14 horas, envelheci”

É como dizia a epígrafe de um livro do Hemingway:

“O discípulo pergunta: – Como você foi à bancarrota, mestre? O mestre:

– Primeiro foi aos poucos; depois foi de repente.”

Campeonato de pontos corridos. Cada pequena vitória, cada um a zero parece irrelevante quando acontece, mas, lá no fim, revela-se decisivo. Ah, se o Grêmio tivesse vencido o Goiás em casa; ah, se não tivesse empatado com o Figueirense; ah, se não fosse aquele quindim;

ah, as massas depois das dez da noite; ah, o sol tomado antes dos 30 anos... No fim, tudo parece fazer diferença. E, na verdade, não é nem exatamente uma coisa, nem exatamente outra. Nós é que fazemos a tabela.

Os times e as pessoas, digo. Vide o Grêmio: parecia moribundo; com uma remobilização, entrou de novo na disputa e tem boa chance de ser campeão. Vide eu em Passo Fundo: remoçado, cheio do viço da juventude. Foi a chicória, cara. Só pode ter sido a chicória.

terça-feira, 11 de novembro de 2008



Livros, leitores, leitura

Não faz muito tempo, o leitor tipo assim meio padrão, especialmente em noites frias e chuvosas de inverno, tomava um romanção tipo Ana Karenina, de Tolstoi, e uma bebida quente e, se possível, ficava perto do fogo de alguma velha lareira.

Aí se deixava transportar, em silêncio, ou ao som de Mozart, para outras pessoas e mundos. Naqueles tempos, as pessoas liam um livro de cada vez, mesmo que ele tivesse seiscentas páginas.

Hoje a maioria lê vários ao mesmo tempo, fica "trecheando", lê artigos, textos da internet ou livros "sobre" os livros, tudo isso misturado com os ruídos da tevê, do trânsito, dos bares e os muitos outros de nossa época barulhenta. Nas livrarias, dizem as pesquisas, uns dez por cento de leitores compram obras de poesia ou ficção, digamos, mais puramente literária.

A maior parte compra livros para aprender algo ou um ofício, tentar resolver algum problema, auto-ajudar-se , autoconhecer-se ou saber da vida de alguém ou de algum período histórico.

É mais divertido ler um romance histórico ou uma boa biografia do que livros de História para saber o que parece que aconteceu em outros tempos. A maior parte da produção editorial é de didáticos, de venda compulsória e para grande público.

Mas é sempre bom constatar que, mesmo com mudanças não necessariamente ruins, livros, leitores e leitura seguem sua trajetória secular e não dão sinais de morte. Morte próxima, pelo menos, não.

O livro impresso é um dos objetos de design mais criativos e confortáveis e segue como uma das grandes invenções da humanidade. Segue não enguiçando, como disse o Millôr, acho.

Sei que estou sendo meio óbvio, mas diante dessas novidades todas, inclusive e especialmente o e-book, e justamente em plena Feira do Livro, nunca é demais comemorar a perenidade desse objeto querido. Por mais livros que a gente leia e mesmo com essa mania atual de ler somente partes das obras, sempre tem o momento de dar de olhos como um legítimo vira-página.

Meu último turn-pager foi Moinhos de Vento - Histórias de Um Bairro de Porto Alegre, no qual o jornalista Carlos Augusto Bissón conta com habilidade e sedução a história do Moinhos e de boa parte da história gaúcha destes últimos cem anos.

Fez isso através das narrativas sobre as vidas dos personagens, dos acontecimentos sociais, econômicos, culturais, políticos e históricos e, especialmente, mediante ricas descrições das ruas, habitações, costumes e muita coisa mais. Leia! Mesmo que você ainda não tenha a felicidade de morar no Moinhos.

Jaime Cimenti

Ótima terça-feira a você - Aproveite o Dia

Jaime Cimenti

A crítica da crítica de arte

O enigma vazio - impasses da arte e da crítica, de Affonso Romano de Sant´Anna, mostra, inicialmente, que refletir sobre a arte, em especial sobre a contemporânea dos séculos XX e XXI, pode se tornar um exercício tão complexo quanto os próprios objetos da análise, no caso, os artistas e suas obras.

Affonso, experiente poeta, professor, jornalista e administrador cultural, já tinha publicado anteriormente Desconstruir Duchamp e A cegueira e saber e agora, com a publicação de novos ensaios,

aprofunda as questões que já examinou, aproveitando a oportunidade para passar um pente-fino nas análises de quadros feitas por Octavio Paz, Jacques Derrida, Michel Foucault, Roland Barthes, Jean Clair, Heidegger, Mayer Saphiro e Frederic Jameson.

Através da lingüística e da teoria do discurso, Romano de Sant´Anna analisa os principais sofismas em que se baseia a arte conceitual e propõe uma nova episteme para a reavaliação da arte do século XX.

O autor questiona os limites da arte contemporânea, uma arte conceitual, que, dando primazia ao pensamento, à idéia e à linguagem, deslocou o enfoque da obra para a proposta. Daí a importância do trabalho de Affonso, que acaba por fazer uma inteligente e instigante crítica da crítica.

O autor destaca que, se na arte conceitual o discurso e a palavra tomaram na tela o lugar da tinta, a crítica de arte fez algo semelhante e inverso: transformou seu texto em um quase-gênero artístico, numa espécie de reflexo distorcido da obra analisada, no que foi batizado de action writing, uma forma de pintar com palavras seus devaneios conceituais.

Em tal tipo de crítica, a obra de arte que iniciou a escrita é logo abandonada, num olhar narcisista e deslumbrado com as próprias idéias e construções.

O texto criou uma deformação, uma alucinação, uma especulação, fascinante em si, mas muito distante da obra original. Affonso fala do superdimensionamento da obra de Marcel Duchamp por nomes como Octavio Paz e Jean Clair, que teriam deixado a objetividade e a isenção de lado e levado a obra dele para um patamar que nem o próprio artista imaginara.

O enigma vazio aprofunda o discurso produzido pela arte e pela crítica de nosso tempo recorrendo à lingüística, à filosofia e à análise literária. O autor vai desmontando os famosos silogismos e sofismas repetidos durante anos por artistas e críticos.

Por fim, Affonso defende a leitura interdisciplinar - antropologia, sociologia, política, marketing, filosofia, lingüística - como a única capaz de enfrentar este enigma vazio que provocou tantas obras insignificantes e tantas alucinações críticas. 336 páginas, R$ 49,00. Editora Rocco, telefone 21-3525-2000.


11 de novembro de 2008
N° 15786 - PAULO SANT’ANA


Sinaleiras e cancelas

Nunca pensei que um dia poderia pedir a volta das crianças para pedir esmolas nas sinaleiras.

Mas é a intenção que me move neste instante.

Alguém um dia percebeu que o melhor lugar para pedir esmolas era a sinaleira. Decidiu e o exemplo foi copiado por toda parte.

Nas ruas de pedestres, as pessoas não param para dar esmolas. Seguem adiante.

Na sinaleira, no entanto, os motoristas são obrigados a parar. E como teoricamente são os motoristas pessoas de recursos, tanto que possuem carro, o lugar é fértil para a caridade.

Ali é o lugar para dar a bocada.

Depressa as mães pobres ou miseráveis designaram suas crianças para pedir esmolas nas sinaleiras.

Foi assim que se iniciou esse processo de abordagem que já dura muitos anos e parece que nunca vai acabar.

No entanto, com a evolução do expediente, houve um processo de seleção entre os solicitantes. Não aparecem mais as crianças pedintes nas sinaleiras.

Deram lugar a fornidos adultos, possantes adultos, que não raro pretendem tirar donativos dos motoristas tanto pela chateação insistente dos seus apelos quanto pela ameaça de ataques físicos que carregam conteúdo nitidamente intimidatório.

Estamos vivendo em Porto Alegre, no momento, a seguinte situação: tomaram conta de todos os pontos das sinaleiras rapazes fortes, de boa compleição, que absolutamente não inspiram piedade dos motoristas.

Imagino que eles se firmaram no ponto na marra, afugentando as crianças, as mães e os velhos que antes estabeleciam ali o lugar de seu peditório. Ganharam os pontos na marra.

Calculo que se trata de uma rapina bastante lucrativa. Se 10 mil motoristas por dia cedem à chantagem na Capital, cada um colaborando com R$ 1 a cada mordida, temos aí cerca de R$ 300 mil por mês.

Visivelmente, quase todos os motoristas, principalmente mulheres, que atendem à extorsão não o fazem por caridade, mas sim por medo.

Os motoristas homens resistem, baseados na sua teórica força física, a menos que cedam à insolência.

Mas o que se nota é as mulheres, submetidas à espera demorada das sinaleiras, cederem invariavelmente à pressão.

Então, calculo que era muito mais honesta a investida das crianças sobre os motoristas, desaparecida completamente das sinaleiras, em favor dos que impuseram sua força sobre as crianças e os velhos.

Cheguei a pensar em sugerir uma providência ao poder público municipal: que fossem cadastrados crianças e velhos realmente necessitados para atuar como pedintes nas sinaleiras.

Depois pensei melhor e fui ver que era uma loucura minha, até mesmo porque não deve haver na história brasileira qualquer episódio em que o governo credencie mendigos.

Mas comigo está acontecendo um fato inédito: estou com saudade das crianças pedintes nas sinaleiras.

Pelo menos não causavam a impressão de agora: a de que é uma espécie de assalto.

De assalto ou de pedágio, o que no nosso caso vem a ser a mesma coisa.

Embora no caso do pedágio, como se está vendo, o governo fixe em 15 anos o prazo da concessão para as paradas obrigatórias dos motoristas nas cancelas da rapinagem.


11 de novembro de 2008
N° 15786 - MOACYR SCLIAR


A glória do mix

Quero chamar a atenção de vocês para três recentes acontecimentos: o centenário da morte de Machado de Assis, a vitória de Barack Obama e a exposição que, inaugurada no Santander Cultural aqui em Porto Alegre, fala-nos da vida e da obra deste original pensador brasileiro que foi Gilberto Freyre, falecido há exatos 20 anos.

Aparentemente estes eventos, estas personalidades nada têm a ver entre si. Mas têm, sim, muita coisa em comum. Machado, como Obama, era mulato (“bronzatto”, para usar a horrorosa expressão do premiê italiano Berlusconi). Diferente de Obama, teve uma infância pobre, não freqüentou escola, começou a trabalhar muito cedo.

Mas, como Obama, perseguia um sonho, e para atingir este sonho ele fez o possível e o impossível, e tornou-se inclusive presidente da Academia Brasileira de Letras, o que, numa época de franco racismo no Brasil, parecia algo quase impossível.

Porque o racismo brasileiro à época tinha uma característica peculiar. O que incomodava estes racistas não era tanto a existência dos negros. Isto eles admitiam, e nem tinham como não admitir, cercados que estavam de escravos por todos os lados.

O que os perturbava, o que os enfurecia mesmo, era o mulato, que dava testemunho de uma afrontosa transgressão: branco com negro, mistura de raças, onde é que já se viu?

O resultado, diziam médicos da época (muitos dos quais, como na Bahia, faziam as vezes de antropólogos), era catastrófico. O mulato era um doente em potencial, sujeito à neurastenia, à “fraqueza dos nervos”, à tuberculose, ao alcoolismo – numa palavra, à degenerescência, uma situação que acabaria com o Brasil.

É então que entra Gilberto Freyre. Diferente de seus precursores, ele vai celebrar a miscigenação, vai defender a ligação, ainda que clandestina, entre casa-grande e senzala – aliás a obra de sua autoria, que leva exatamente este título, completa este ano 75 anos de publicação.

Nenhum motivo ideológico o movia, mesmo porque politicamente ele não era o bicho e até aderiu à ditadura em 1964. Mas a verdade é que estava certo, e o tempo comprovou-o dramaticamente. Naquela época o nazi-fascismo já estava em ascensão e as teorias raciais de Hitler fariam milhões de vítimas nos campos de concentração.

Pureza é uma palavra perigosa, que só deveria ser usada em química. Seres humanos tendem inexoravelmente para a mistura, coisa que, qualquer biólogo dirá, acaba aperfeiçoando nossa espécie. O mix é bom, o mix cria variedade, o mix cria possibilidades.

O mix criou Machado, o mix criou Obama. O mix nos aproxima mutuamente, o mix faz emergir o que temos de melhor. Uma lição que a humanidade custou a aprender, mas que, tendo aprendido, não deve esquecer.

Agradeço as mensagens de Neide La Salvia, fazendo boas considerações sobre reforma ortográfica; da farmacêutica Berenice Goulart Dallagnol, defendendo uma postura ética nas farmácias; de Helena Stumpf Morelli que, a propósito da chegada do verão e dos riscos dos raios solares, comenta:

“Fico pensando na sabedoria das japonesas e das damas antigas, que nunca saíam ao sol sem suas sombrinhas”.

A propósito da crônica “A conspiração dos objetos”, no Donna do último fim de semana, Maria Elizabeth Knopf Beth expressa sua aprovação, denunciando as tesouras como particularmente perversas e prontas a sumir.

E o dr. Sergio Celia e a professora Rosa Maria Pinheiro de Matos gostaram da crônica do Vida em que falei sobre a dificuldade de comunicação entre médicos e pacientes. E finalmente uma homenagem ao tradicional Hotel Laje de Pedra, que no dia 18 completa 30 anos. Vai durar muito, essa bela laje.

A gurizada do Bom Fim era irrequieta, barulhenta. Com uma exceção: Roberto Pecis, morador da Fernandes Vieira, desde menino um autêntico cavalheiro, fino, educado.

Com fineza, educação e generosidade, Beto conduziu sua vida até o último fim de semana. Deixou a vida. Deixou-nos uma lição de vida.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008



10 de novembro de 2008
N° 15785 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Da fama e do dinheiro

Success. É com essa brevíssima palavra que Somerset Maugham conta a si mesmo, em seu diário (A Writer’s Notebook), que se tornara rico e famoso do dia para a noite. Quatro de suas peças atraíam multidões aos teatros de Londres e lhe rendiam, há precisamente cem anos, 750 libras por semana, uma fortuna em qualquer moeda na época.

Eis aí um tema que sempre me despertou curiosidade. A trajetória de alguém deve ser medida por seu êxito e sua fortuna no caminho que escolheu? No caso do velho bruxo inglês não sucedeu exatamente assim.

Ganhou rios de dinheiro num gênero ao qual não atribuía grande importância: a dramaturgia. Era um romancista e – quilômetros além disso – um contista.

Os críticos jamais lhe perdoaram um deslize: converteu-se num milionário com o produto de seus livros. Ainda existe aliás uma bem orquestrada conspiração para sentenciá-lo ao posto de um escriba de terceira categoria.

Creio que Erico Verissimo e a Editora Globo foram dos raros a intuir, no Brasil da década de 30, que o autor de O Fio da Navalha e O Tesouro se alinhava à estirpe de um Fielding ou de um Maupassant.

Esses tempos, procurei visitar a Villa Mauresque, sua casa na Riviera Francesa. Dois obstáculos me impediram a entrada: os muros da mansão e um guia americano, cavalheiro que demonstrou tanto interesse pela literatura quanto eu tenho pela malacologia.

Mas aqui dou meia-volta e retomo o prumo destas poucas e maltraçadas. Não, não creio que o êxito e a riqueza devam ser norte e guia da jornada de um escritor. Maugham observou apenas a esse respeito que o dinheiro é o sexto sentido que nos permite desfrutar melhor dos outros cinco.

Acumular cabedais e aplausos é por vezes questão de sorte ou de berço. Bem mais raramente, o prêmio ao talento ou ao gênio.

William Somerset Maugham é hoje recordado por uma dezenas de criações imortais, a começar por Servidão Humana, não pelo requinte de Villa Mauresque, a tonelagem de seu iate ou o número de Rolls Royces estacionados em sua garagem.

Tenho visto velhos exemplares de suas obras nos balaios da Feira. Há sempre compradores para eles.

O que me leva a pensar que o destino é um deus caprichoso. Recompensa com a glória quem jamais sonhou com ela e trata a pão e água quem lhe vota a mais intensa paixão.

Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana.


10 de novembro de 2008
N° 15785 - PAULO SANT’ANA


Assaltos sem mortes

Ficamos todos alarmados com o assalto a duas agências de banco no centro de Farroupilha. Metem medo esses assaltos, porque os ladrões medem força com a polícia, por tanta audácia, que dão a impressão de que têm predomínio sobre as forças da ordem, podendo decidir a qualquer momento quando farão nova investida, aterrorizando outra comunidade.

Torce-se também para que ninguém morra nesses assaltos.

Foi isso que aconteceu em Farroupilha. Ninguém foi morto. Os cerca de oito reféns aprisionados e soltos pelos assaltantes saíram com vida. Não houve atos de perversidade dos ladrões contra as pessoas que tinham indefesas em seu poder.

Eu falo isso porque nos dias que cercaram esse grande assalto em Farroupilha aconteceram inúmeros homicídios em várias cidades do Estado.

Era um comerciante morrendo com tiro na nuca num terminal da Trensurb, dona de casa sendo baleada e morta enquanto estendia roupa no quintal de sua casa, um chefe de família que foi buscar sua filha na escola sendo assassinado na frente de sua casa, as mortes se sucedendo numa rotina horripilante.

Ou seja, as mentes dos cidadãos têm sido acometidas por tanto medo com essa criminalidade incessante e cada vez mais abrangente, que são capazes até de saudar os assaltos que não terminam em mortes.

De um lado, os assaltantes de bancos de Farroupilha pareceram até se esmerar para não causar mortes entre seus reféns. Equipadíssimos, treinadíssimos, mas não demonstrando qualquer perversidade.

Enquanto isso, o crime artesanal, esse que está espalhado no Estado, vai fazendo vítimas de morte por toda a parte.

São assaltantes sem preparo para sua atividade, que ao menor sinal de reação de suas vítimas disparam contra elas. Ou então, sentindo que podem ser apanhados, não titubeiam em matar as pessoas que são vítimas de seus assaltos, muitas vezes sequer tendo lucro em suas tentativas de roubos.

Grande parte das vítimas de assaltos tomba por inexperiência dos assaltantes.

O que não ocorreu em Farroupilha, onde os assaltantes das agências dos bancos revelaram preparo na ação e um certo cuidado com a vida dos reféns.

Em Farroupilha, houve um refém que saudou o fato de a polícia não ter chegado a tempo de conter os assaltantes na hora em que se preparavam para fugir.

O sargento da PM que mais tarde seria baleado declarou que antes teve um dos assaltantes na mira do seu revólver, mas resolveu não atirar para evitar outras mortes, previsíveis na provável reação dos criminosos.

Ou seja, é muito bom que tanto os policiais quanto os criminosos poupem vidas durante esses assaltos.

O difícil de suportar sem revolta e remorso são os crimes sem justificativa cometidos por bandidos contra suas vítimas, uns por despreparo dos assaltantes, outros por crueldade.

O melhor seria a ausência completa de assaltos. Mas, caso eles sejam inevitáveis, que se exaltem tanto policiais quanto assaltantes que se recusam a matar ou evitam de qualquer modo que as mortes aconteçam.


10 de novembro de 2008
N° 15785 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Autógrafos

O autógrafo num livro pressupõe dois verbos: “pedir” e “dar”. Pede-se o que não se tem; dá-se o que se tem.

O leitor, até agora desconhecido, pede que o autor escreva algo na página de abertura do livro, algo pessoal, mais pessoal do que um “abraço”, pois os abraços perderam seu sentido e seu drama;

hoje uma pessoa aperta nossa mão e diz ao mesmo tempo: “um abraço!”; um amigo vê-nos no supermercado e abana de longe, a dizer: “um abraço!” O abraço de autógrafo não é bastante. O leitor pede sinceridade a seu escritor, ainda que sinceridade de ficcionista.

Já o escritor dá o que tem de melhor: a sua palavra. Trata-se, no caso, de uma palavra ad hoc. O que lhe ocorre de imediato, desgraçada e fatalmente, é “abraço”. Com hesitação, ele a escreve, mesmo sabendo o atual vazio semântico dessa palavra maldita.

O escritor poderá, então, pospor o adjetivo “afetuoso”, na intenção de aproximar-se do leitor, um afeto de fantasia, mas suficiente para o instante. Assim, o autógrafo singulariza o livro; o livro torna-se único em meios às suas cópias.

Ele não é igual a nenhum outro exemplar. Nos sebos, um livro autografado vale mais. No autógrafo, tal como na fotografia, congela-se um instante, captura-se um momento de eternidade, lá onde houve um afeto, lá onde houve um abraço.

Segue-se uma assinatura e uma data. Na ocasião do autógrafo estabelece-se uma intimidade tão repentina quanto efêmera entre o leitor e seu escritor. Ambos sabem, contudo, que o momento é irrepetível: jamais aquele exemplar será de novo assinado, e o afeto e o abraço terão de ser renovados no próximo livro, no próximo ano, talvez nunca.

O escritor seguirá seu caminho, com o próximo livro, na sua busca irremediável do livro ideal, aquele que transformará a história da literatura; o leitor seguirá pedindo o autógrafo, na sua busca da confirmação daquele instante perdido no tempo.

Assim, leitor e escritor são cúmplices de um mesmo objetivo, o de eternizarem um momento.

Um pede, o outro dá: ambos sabem que existe, nisso, muito de teatro, mas ambos persistirão enquanto existir um escritor e alguém que o leia. E o “abraço afetuoso” selará essa amizade de papel, mas tão verdadeira quanto a verdadeira ficção.


10 de novembro de 2008
N° 15785 - LF VERISSIMO


Pivôs

O golfe, o tênis e as corridas de Fórmula-1 eram atividades típicas de brancos. Até pouco tempo não se concebia um negro num country club a não ser como carregador de tacos ou, com raras exceções (como Arthur Ashe há alguns anos), numa quadra de tênis a não ser como gandula, ou que nome tenha aquela garotada que junta as bolas.

E um negro chegar a campeão de Fórmula-1 era tão inimaginável como um dia um negro chegar a presidente dos Estados Unidos.

Hoje Tiger Woods é o melhor golfista do mundo e, dizem alguns, de todos os tempos, as irmãs Venus e Serena arrasam nas quadras de tênis e Lewis Hamilton acaba de ganhar o campeonato de Fórmula-1 do ano. Quer dizer – estava claro que ia dar Obama.

Já se disse que as eleições presidenciais americanas são tão importantes, que todo o mundo deveria votar nelas. Alguns foram mais longe e, depois da reeleição de Bush, disseram que todo o mundo deveria votar nas eleições presidenciais americanas menos os americanos.

Mas a eleição de Obama os redimiu. Ele certamente vai entrar na lista dos presidentes “pivotais” que nos últimos 80 anos redirecionaram a história dos Estados Unidos, nem sempre para o lado certo, pelas suas personalidades ou pelas suas ações.

A começar por Franklin Roosevelt, cuja situação ao tomar posse na presidência do país mergulhado numa crise econômica cujo epicentro também era Wall Street mais se parece com a de Obama, hoje, e que também inspirou a nação a mudar para se salvar.

Outro “pivô” histórico foi Kennedy, que tem em comum com Obama o fato de se destacar mais pelo impalpável – carisma, fotogenia etc – do que por competência provada, e por também ter vencido um preconceito supostamente irreversível contra uma minoria, no caso os católicos, para chegar aonde chegou.

De Kennedy hoje se diz que teve mais fulgor do que substância, ou que lhe faltou tempo para ser um presidente que correspondesse a sua imagem de juventude e novidade.

Mas, durante o pouco tempo que teve, a imagem eletrizou o país. Do mesmo jeito, a importância simbólica da eleição de Obama talvez seja a sua única importância, mas já é o suficiente para fazer história.

Outro “pivotal” foi Ronald Reagan, que se elegeu dizendo que o governo não era a solução, era parte do problema, a frase que inaugurou a era de desregulação e permissividade que deu na crise de agora, e que, com todo o mundo financeiro dependendo da ação de governos para solucionar seus problemas, ganhou uma ironia amarga.

Com este pivô, o Obama não tem nada a ver

domingo, 9 de novembro de 2008


FERREIRA GULLAR

Evocação do falado 56

Nós três pagávamos por vagas no que havia sido a sala de visitas e servia de quarto na pensão

A PENSÃO ficava à rua Buarque de Macedo, no Catete. Era uma casa antiga, de dois andares, onde morava gente que não tinha dinheiro para alugar apartamento nem pagar quarto de hotel.

De fato, mesmo ali, quase ninguém ocupava sozinho um quarto, mas vagas. Eu, Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira pagávamos por três vagas no que havia sido a sala de visitas e agora servia de quarto, dividido por um tabique.

No meu lado, mal cabia uma cama velha, cujo colchão era duro feito pedra; no lado deles, além de duas camas havia uma pia, que servia para tudo, tanto assim que, no poema que escrevi sobre "o falado 56", a ela me referia como "pia, oráculo e urinol".

Dos três, o único que tinha salário fixo era eu -extranumerário mensalista do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários-, enquanto eles dois se viravam publicando artigos em suplementos literários ou reportagens em alguma revista semanal.

Comíamos ali mesmo a comida barata que dona Hortência mandava servir a seus hóspedes na antiga sala de jantar agora ocupada por pequenas mesas e cadeiras. Mas às vezes matávamos a fome na Associação Cristã de Moços ou no restaurante de estudantes do Calabouço, com carteira falsa.

Enquanto isso, eu escrevia poemas, Bastos ensaios sobre literatura e Carlinhos um romance inspirado em Faulkner e de que só tínhamos notícia.

Um companheiro nosso, um pouco mais velho, era o romancista Lúcio Cardoso, que também "não trabalhava" na revista do IAPC e que nos arrastava para tomar chopes em botecos da Lapa.

Um dia o levamos para conhecer a pensão de dona Hortência e coincidiu que, naquela noite, morrera um hóspede do quarto que ficava acima do nosso. De farra, subimos até lá e, fingindo estarmos compungidos com sua morte, cumprimentamos a viúva. Foi quando, tomado de ímpeto incontrolável, debrucei-me sobre o cadáver e gritei: "Onde está o homem que estava aqui?".

Ficou todo mundo espantado e, nós quatro, contendo o riso, corremos para o nosso quarto onde explodimos em gargalhadas.
Naquela época, um dos pontos de encontro de intelectuais e artistas era o Vermelhinho, ali no centro da cidade, à rua Araújo Porto-Alegre, em frente à ABI.

Na quadra ao lado, ficava a Escola de Belas Artes, que ainda funcionava no prédio do Museu Nacional de Belas Artes; ao fim da tarde, professores e alunos da escola vinham tomar chope no Vermelhinho, onde se encontravam com escritores e críticos de arte, quase todos funcionários públicos que, àquela hora, também saíam do trabalho.

E por ali também andávamos nós, em começo de carreira, muitos vindos da província e entre eles, Wladimir Dias Pino, chegado de Mato Grosso, que inventou um jornal chamado "Japa".

Nesse jornal, publiquei um conto intitulado "Osíris Come Flores", que falava de uma família que vivia numa enorme árvore, como pássaros ou lagartixas. Herberto Salles gostou tanto do conto que me chamou para trabalhar na revista "O Cruzeiro", como revisor de textos.

Passei a ganhar um bom salário, a ponto de bancar a edição de meu livro "A Luta Corporal", impresso nas oficinas daquela revista.
Decidi também deixar a pensão de dona Hortência e mudar-me para um quarto mais confortável, no apartamento de uma jovem senhora, em Copacabana.

Mas morria de saudade do "falado 56" e, assim, certa manhã, ao passar pela praia do Flamengo, à altura da Buarque de Macedo, desci para visitar meus amigos. Foi uma alegria. Conversamos até a hora do almoço e, depois, rumamos juntos para o centro da cidade, onde, naquela tarde, inaugurava-se o Salão de Arte Moderna.

Fomos ao vernissage, armamos alguns pequenos escândalos e encerramos o dia numa mesa do Vermelhinho, onde conheci Thereza, com quem comecei a namorar ali mesmo e poucos meses depois me casava.

Bastos e Décio Victorio foram os padrinhos do casamento, para horror de dona Mayna, mãe da Thereza, que mal acreditava no que estava acontecendo. Quem eram aqueles dois pobres diabos, mal vestidos e mal barbeados, que vieram lhe pedir, em nome de outro maluco, a mão de sua filha?

A vida nos levou para longe da rua Buarque de Macedo. Bastos foi parar em Brasília, onde se tornou diretor de jornal, proprietário de uma mansão e criador de cavalos de raça; prometia escrever uma história crítica da poesia brasileira mas ficou devendo.

Carlinhos veio a se tornar destacado cronista da imprensa carioca. E o pequeno sobrado de dona Hortência, anos depois, foi posto abaixo, arrastando consigo o nosso quarto com a pia e tudo o mais que de nós ficara impregnado naquelas paredes.