terça-feira, 11 de novembro de 2008



Livros, leitores, leitura

Não faz muito tempo, o leitor tipo assim meio padrão, especialmente em noites frias e chuvosas de inverno, tomava um romanção tipo Ana Karenina, de Tolstoi, e uma bebida quente e, se possível, ficava perto do fogo de alguma velha lareira.

Aí se deixava transportar, em silêncio, ou ao som de Mozart, para outras pessoas e mundos. Naqueles tempos, as pessoas liam um livro de cada vez, mesmo que ele tivesse seiscentas páginas.

Hoje a maioria lê vários ao mesmo tempo, fica "trecheando", lê artigos, textos da internet ou livros "sobre" os livros, tudo isso misturado com os ruídos da tevê, do trânsito, dos bares e os muitos outros de nossa época barulhenta. Nas livrarias, dizem as pesquisas, uns dez por cento de leitores compram obras de poesia ou ficção, digamos, mais puramente literária.

A maior parte compra livros para aprender algo ou um ofício, tentar resolver algum problema, auto-ajudar-se , autoconhecer-se ou saber da vida de alguém ou de algum período histórico.

É mais divertido ler um romance histórico ou uma boa biografia do que livros de História para saber o que parece que aconteceu em outros tempos. A maior parte da produção editorial é de didáticos, de venda compulsória e para grande público.

Mas é sempre bom constatar que, mesmo com mudanças não necessariamente ruins, livros, leitores e leitura seguem sua trajetória secular e não dão sinais de morte. Morte próxima, pelo menos, não.

O livro impresso é um dos objetos de design mais criativos e confortáveis e segue como uma das grandes invenções da humanidade. Segue não enguiçando, como disse o Millôr, acho.

Sei que estou sendo meio óbvio, mas diante dessas novidades todas, inclusive e especialmente o e-book, e justamente em plena Feira do Livro, nunca é demais comemorar a perenidade desse objeto querido. Por mais livros que a gente leia e mesmo com essa mania atual de ler somente partes das obras, sempre tem o momento de dar de olhos como um legítimo vira-página.

Meu último turn-pager foi Moinhos de Vento - Histórias de Um Bairro de Porto Alegre, no qual o jornalista Carlos Augusto Bissón conta com habilidade e sedução a história do Moinhos e de boa parte da história gaúcha destes últimos cem anos.

Fez isso através das narrativas sobre as vidas dos personagens, dos acontecimentos sociais, econômicos, culturais, políticos e históricos e, especialmente, mediante ricas descrições das ruas, habitações, costumes e muita coisa mais. Leia! Mesmo que você ainda não tenha a felicidade de morar no Moinhos.

Jaime Cimenti

Ótima terça-feira a você - Aproveite o Dia

Jaime Cimenti

A crítica da crítica de arte

O enigma vazio - impasses da arte e da crítica, de Affonso Romano de Sant´Anna, mostra, inicialmente, que refletir sobre a arte, em especial sobre a contemporânea dos séculos XX e XXI, pode se tornar um exercício tão complexo quanto os próprios objetos da análise, no caso, os artistas e suas obras.

Affonso, experiente poeta, professor, jornalista e administrador cultural, já tinha publicado anteriormente Desconstruir Duchamp e A cegueira e saber e agora, com a publicação de novos ensaios,

aprofunda as questões que já examinou, aproveitando a oportunidade para passar um pente-fino nas análises de quadros feitas por Octavio Paz, Jacques Derrida, Michel Foucault, Roland Barthes, Jean Clair, Heidegger, Mayer Saphiro e Frederic Jameson.

Através da lingüística e da teoria do discurso, Romano de Sant´Anna analisa os principais sofismas em que se baseia a arte conceitual e propõe uma nova episteme para a reavaliação da arte do século XX.

O autor questiona os limites da arte contemporânea, uma arte conceitual, que, dando primazia ao pensamento, à idéia e à linguagem, deslocou o enfoque da obra para a proposta. Daí a importância do trabalho de Affonso, que acaba por fazer uma inteligente e instigante crítica da crítica.

O autor destaca que, se na arte conceitual o discurso e a palavra tomaram na tela o lugar da tinta, a crítica de arte fez algo semelhante e inverso: transformou seu texto em um quase-gênero artístico, numa espécie de reflexo distorcido da obra analisada, no que foi batizado de action writing, uma forma de pintar com palavras seus devaneios conceituais.

Em tal tipo de crítica, a obra de arte que iniciou a escrita é logo abandonada, num olhar narcisista e deslumbrado com as próprias idéias e construções.

O texto criou uma deformação, uma alucinação, uma especulação, fascinante em si, mas muito distante da obra original. Affonso fala do superdimensionamento da obra de Marcel Duchamp por nomes como Octavio Paz e Jean Clair, que teriam deixado a objetividade e a isenção de lado e levado a obra dele para um patamar que nem o próprio artista imaginara.

O enigma vazio aprofunda o discurso produzido pela arte e pela crítica de nosso tempo recorrendo à lingüística, à filosofia e à análise literária. O autor vai desmontando os famosos silogismos e sofismas repetidos durante anos por artistas e críticos.

Por fim, Affonso defende a leitura interdisciplinar - antropologia, sociologia, política, marketing, filosofia, lingüística - como a única capaz de enfrentar este enigma vazio que provocou tantas obras insignificantes e tantas alucinações críticas. 336 páginas, R$ 49,00. Editora Rocco, telefone 21-3525-2000.


11 de novembro de 2008
N° 15786 - PAULO SANT’ANA


Sinaleiras e cancelas

Nunca pensei que um dia poderia pedir a volta das crianças para pedir esmolas nas sinaleiras.

Mas é a intenção que me move neste instante.

Alguém um dia percebeu que o melhor lugar para pedir esmolas era a sinaleira. Decidiu e o exemplo foi copiado por toda parte.

Nas ruas de pedestres, as pessoas não param para dar esmolas. Seguem adiante.

Na sinaleira, no entanto, os motoristas são obrigados a parar. E como teoricamente são os motoristas pessoas de recursos, tanto que possuem carro, o lugar é fértil para a caridade.

Ali é o lugar para dar a bocada.

Depressa as mães pobres ou miseráveis designaram suas crianças para pedir esmolas nas sinaleiras.

Foi assim que se iniciou esse processo de abordagem que já dura muitos anos e parece que nunca vai acabar.

No entanto, com a evolução do expediente, houve um processo de seleção entre os solicitantes. Não aparecem mais as crianças pedintes nas sinaleiras.

Deram lugar a fornidos adultos, possantes adultos, que não raro pretendem tirar donativos dos motoristas tanto pela chateação insistente dos seus apelos quanto pela ameaça de ataques físicos que carregam conteúdo nitidamente intimidatório.

Estamos vivendo em Porto Alegre, no momento, a seguinte situação: tomaram conta de todos os pontos das sinaleiras rapazes fortes, de boa compleição, que absolutamente não inspiram piedade dos motoristas.

Imagino que eles se firmaram no ponto na marra, afugentando as crianças, as mães e os velhos que antes estabeleciam ali o lugar de seu peditório. Ganharam os pontos na marra.

Calculo que se trata de uma rapina bastante lucrativa. Se 10 mil motoristas por dia cedem à chantagem na Capital, cada um colaborando com R$ 1 a cada mordida, temos aí cerca de R$ 300 mil por mês.

Visivelmente, quase todos os motoristas, principalmente mulheres, que atendem à extorsão não o fazem por caridade, mas sim por medo.

Os motoristas homens resistem, baseados na sua teórica força física, a menos que cedam à insolência.

Mas o que se nota é as mulheres, submetidas à espera demorada das sinaleiras, cederem invariavelmente à pressão.

Então, calculo que era muito mais honesta a investida das crianças sobre os motoristas, desaparecida completamente das sinaleiras, em favor dos que impuseram sua força sobre as crianças e os velhos.

Cheguei a pensar em sugerir uma providência ao poder público municipal: que fossem cadastrados crianças e velhos realmente necessitados para atuar como pedintes nas sinaleiras.

Depois pensei melhor e fui ver que era uma loucura minha, até mesmo porque não deve haver na história brasileira qualquer episódio em que o governo credencie mendigos.

Mas comigo está acontecendo um fato inédito: estou com saudade das crianças pedintes nas sinaleiras.

Pelo menos não causavam a impressão de agora: a de que é uma espécie de assalto.

De assalto ou de pedágio, o que no nosso caso vem a ser a mesma coisa.

Embora no caso do pedágio, como se está vendo, o governo fixe em 15 anos o prazo da concessão para as paradas obrigatórias dos motoristas nas cancelas da rapinagem.


11 de novembro de 2008
N° 15786 - MOACYR SCLIAR


A glória do mix

Quero chamar a atenção de vocês para três recentes acontecimentos: o centenário da morte de Machado de Assis, a vitória de Barack Obama e a exposição que, inaugurada no Santander Cultural aqui em Porto Alegre, fala-nos da vida e da obra deste original pensador brasileiro que foi Gilberto Freyre, falecido há exatos 20 anos.

Aparentemente estes eventos, estas personalidades nada têm a ver entre si. Mas têm, sim, muita coisa em comum. Machado, como Obama, era mulato (“bronzatto”, para usar a horrorosa expressão do premiê italiano Berlusconi). Diferente de Obama, teve uma infância pobre, não freqüentou escola, começou a trabalhar muito cedo.

Mas, como Obama, perseguia um sonho, e para atingir este sonho ele fez o possível e o impossível, e tornou-se inclusive presidente da Academia Brasileira de Letras, o que, numa época de franco racismo no Brasil, parecia algo quase impossível.

Porque o racismo brasileiro à época tinha uma característica peculiar. O que incomodava estes racistas não era tanto a existência dos negros. Isto eles admitiam, e nem tinham como não admitir, cercados que estavam de escravos por todos os lados.

O que os perturbava, o que os enfurecia mesmo, era o mulato, que dava testemunho de uma afrontosa transgressão: branco com negro, mistura de raças, onde é que já se viu?

O resultado, diziam médicos da época (muitos dos quais, como na Bahia, faziam as vezes de antropólogos), era catastrófico. O mulato era um doente em potencial, sujeito à neurastenia, à “fraqueza dos nervos”, à tuberculose, ao alcoolismo – numa palavra, à degenerescência, uma situação que acabaria com o Brasil.

É então que entra Gilberto Freyre. Diferente de seus precursores, ele vai celebrar a miscigenação, vai defender a ligação, ainda que clandestina, entre casa-grande e senzala – aliás a obra de sua autoria, que leva exatamente este título, completa este ano 75 anos de publicação.

Nenhum motivo ideológico o movia, mesmo porque politicamente ele não era o bicho e até aderiu à ditadura em 1964. Mas a verdade é que estava certo, e o tempo comprovou-o dramaticamente. Naquela época o nazi-fascismo já estava em ascensão e as teorias raciais de Hitler fariam milhões de vítimas nos campos de concentração.

Pureza é uma palavra perigosa, que só deveria ser usada em química. Seres humanos tendem inexoravelmente para a mistura, coisa que, qualquer biólogo dirá, acaba aperfeiçoando nossa espécie. O mix é bom, o mix cria variedade, o mix cria possibilidades.

O mix criou Machado, o mix criou Obama. O mix nos aproxima mutuamente, o mix faz emergir o que temos de melhor. Uma lição que a humanidade custou a aprender, mas que, tendo aprendido, não deve esquecer.

Agradeço as mensagens de Neide La Salvia, fazendo boas considerações sobre reforma ortográfica; da farmacêutica Berenice Goulart Dallagnol, defendendo uma postura ética nas farmácias; de Helena Stumpf Morelli que, a propósito da chegada do verão e dos riscos dos raios solares, comenta:

“Fico pensando na sabedoria das japonesas e das damas antigas, que nunca saíam ao sol sem suas sombrinhas”.

A propósito da crônica “A conspiração dos objetos”, no Donna do último fim de semana, Maria Elizabeth Knopf Beth expressa sua aprovação, denunciando as tesouras como particularmente perversas e prontas a sumir.

E o dr. Sergio Celia e a professora Rosa Maria Pinheiro de Matos gostaram da crônica do Vida em que falei sobre a dificuldade de comunicação entre médicos e pacientes. E finalmente uma homenagem ao tradicional Hotel Laje de Pedra, que no dia 18 completa 30 anos. Vai durar muito, essa bela laje.

A gurizada do Bom Fim era irrequieta, barulhenta. Com uma exceção: Roberto Pecis, morador da Fernandes Vieira, desde menino um autêntico cavalheiro, fino, educado.

Com fineza, educação e generosidade, Beto conduziu sua vida até o último fim de semana. Deixou a vida. Deixou-nos uma lição de vida.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008



10 de novembro de 2008
N° 15785 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Da fama e do dinheiro

Success. É com essa brevíssima palavra que Somerset Maugham conta a si mesmo, em seu diário (A Writer’s Notebook), que se tornara rico e famoso do dia para a noite. Quatro de suas peças atraíam multidões aos teatros de Londres e lhe rendiam, há precisamente cem anos, 750 libras por semana, uma fortuna em qualquer moeda na época.

Eis aí um tema que sempre me despertou curiosidade. A trajetória de alguém deve ser medida por seu êxito e sua fortuna no caminho que escolheu? No caso do velho bruxo inglês não sucedeu exatamente assim.

Ganhou rios de dinheiro num gênero ao qual não atribuía grande importância: a dramaturgia. Era um romancista e – quilômetros além disso – um contista.

Os críticos jamais lhe perdoaram um deslize: converteu-se num milionário com o produto de seus livros. Ainda existe aliás uma bem orquestrada conspiração para sentenciá-lo ao posto de um escriba de terceira categoria.

Creio que Erico Verissimo e a Editora Globo foram dos raros a intuir, no Brasil da década de 30, que o autor de O Fio da Navalha e O Tesouro se alinhava à estirpe de um Fielding ou de um Maupassant.

Esses tempos, procurei visitar a Villa Mauresque, sua casa na Riviera Francesa. Dois obstáculos me impediram a entrada: os muros da mansão e um guia americano, cavalheiro que demonstrou tanto interesse pela literatura quanto eu tenho pela malacologia.

Mas aqui dou meia-volta e retomo o prumo destas poucas e maltraçadas. Não, não creio que o êxito e a riqueza devam ser norte e guia da jornada de um escritor. Maugham observou apenas a esse respeito que o dinheiro é o sexto sentido que nos permite desfrutar melhor dos outros cinco.

Acumular cabedais e aplausos é por vezes questão de sorte ou de berço. Bem mais raramente, o prêmio ao talento ou ao gênio.

William Somerset Maugham é hoje recordado por uma dezenas de criações imortais, a começar por Servidão Humana, não pelo requinte de Villa Mauresque, a tonelagem de seu iate ou o número de Rolls Royces estacionados em sua garagem.

Tenho visto velhos exemplares de suas obras nos balaios da Feira. Há sempre compradores para eles.

O que me leva a pensar que o destino é um deus caprichoso. Recompensa com a glória quem jamais sonhou com ela e trata a pão e água quem lhe vota a mais intensa paixão.

Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana.


10 de novembro de 2008
N° 15785 - PAULO SANT’ANA


Assaltos sem mortes

Ficamos todos alarmados com o assalto a duas agências de banco no centro de Farroupilha. Metem medo esses assaltos, porque os ladrões medem força com a polícia, por tanta audácia, que dão a impressão de que têm predomínio sobre as forças da ordem, podendo decidir a qualquer momento quando farão nova investida, aterrorizando outra comunidade.

Torce-se também para que ninguém morra nesses assaltos.

Foi isso que aconteceu em Farroupilha. Ninguém foi morto. Os cerca de oito reféns aprisionados e soltos pelos assaltantes saíram com vida. Não houve atos de perversidade dos ladrões contra as pessoas que tinham indefesas em seu poder.

Eu falo isso porque nos dias que cercaram esse grande assalto em Farroupilha aconteceram inúmeros homicídios em várias cidades do Estado.

Era um comerciante morrendo com tiro na nuca num terminal da Trensurb, dona de casa sendo baleada e morta enquanto estendia roupa no quintal de sua casa, um chefe de família que foi buscar sua filha na escola sendo assassinado na frente de sua casa, as mortes se sucedendo numa rotina horripilante.

Ou seja, as mentes dos cidadãos têm sido acometidas por tanto medo com essa criminalidade incessante e cada vez mais abrangente, que são capazes até de saudar os assaltos que não terminam em mortes.

De um lado, os assaltantes de bancos de Farroupilha pareceram até se esmerar para não causar mortes entre seus reféns. Equipadíssimos, treinadíssimos, mas não demonstrando qualquer perversidade.

Enquanto isso, o crime artesanal, esse que está espalhado no Estado, vai fazendo vítimas de morte por toda a parte.

São assaltantes sem preparo para sua atividade, que ao menor sinal de reação de suas vítimas disparam contra elas. Ou então, sentindo que podem ser apanhados, não titubeiam em matar as pessoas que são vítimas de seus assaltos, muitas vezes sequer tendo lucro em suas tentativas de roubos.

Grande parte das vítimas de assaltos tomba por inexperiência dos assaltantes.

O que não ocorreu em Farroupilha, onde os assaltantes das agências dos bancos revelaram preparo na ação e um certo cuidado com a vida dos reféns.

Em Farroupilha, houve um refém que saudou o fato de a polícia não ter chegado a tempo de conter os assaltantes na hora em que se preparavam para fugir.

O sargento da PM que mais tarde seria baleado declarou que antes teve um dos assaltantes na mira do seu revólver, mas resolveu não atirar para evitar outras mortes, previsíveis na provável reação dos criminosos.

Ou seja, é muito bom que tanto os policiais quanto os criminosos poupem vidas durante esses assaltos.

O difícil de suportar sem revolta e remorso são os crimes sem justificativa cometidos por bandidos contra suas vítimas, uns por despreparo dos assaltantes, outros por crueldade.

O melhor seria a ausência completa de assaltos. Mas, caso eles sejam inevitáveis, que se exaltem tanto policiais quanto assaltantes que se recusam a matar ou evitam de qualquer modo que as mortes aconteçam.


10 de novembro de 2008
N° 15785 - LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Autógrafos

O autógrafo num livro pressupõe dois verbos: “pedir” e “dar”. Pede-se o que não se tem; dá-se o que se tem.

O leitor, até agora desconhecido, pede que o autor escreva algo na página de abertura do livro, algo pessoal, mais pessoal do que um “abraço”, pois os abraços perderam seu sentido e seu drama;

hoje uma pessoa aperta nossa mão e diz ao mesmo tempo: “um abraço!”; um amigo vê-nos no supermercado e abana de longe, a dizer: “um abraço!” O abraço de autógrafo não é bastante. O leitor pede sinceridade a seu escritor, ainda que sinceridade de ficcionista.

Já o escritor dá o que tem de melhor: a sua palavra. Trata-se, no caso, de uma palavra ad hoc. O que lhe ocorre de imediato, desgraçada e fatalmente, é “abraço”. Com hesitação, ele a escreve, mesmo sabendo o atual vazio semântico dessa palavra maldita.

O escritor poderá, então, pospor o adjetivo “afetuoso”, na intenção de aproximar-se do leitor, um afeto de fantasia, mas suficiente para o instante. Assim, o autógrafo singulariza o livro; o livro torna-se único em meios às suas cópias.

Ele não é igual a nenhum outro exemplar. Nos sebos, um livro autografado vale mais. No autógrafo, tal como na fotografia, congela-se um instante, captura-se um momento de eternidade, lá onde houve um afeto, lá onde houve um abraço.

Segue-se uma assinatura e uma data. Na ocasião do autógrafo estabelece-se uma intimidade tão repentina quanto efêmera entre o leitor e seu escritor. Ambos sabem, contudo, que o momento é irrepetível: jamais aquele exemplar será de novo assinado, e o afeto e o abraço terão de ser renovados no próximo livro, no próximo ano, talvez nunca.

O escritor seguirá seu caminho, com o próximo livro, na sua busca irremediável do livro ideal, aquele que transformará a história da literatura; o leitor seguirá pedindo o autógrafo, na sua busca da confirmação daquele instante perdido no tempo.

Assim, leitor e escritor são cúmplices de um mesmo objetivo, o de eternizarem um momento.

Um pede, o outro dá: ambos sabem que existe, nisso, muito de teatro, mas ambos persistirão enquanto existir um escritor e alguém que o leia. E o “abraço afetuoso” selará essa amizade de papel, mas tão verdadeira quanto a verdadeira ficção.


10 de novembro de 2008
N° 15785 - LF VERISSIMO


Pivôs

O golfe, o tênis e as corridas de Fórmula-1 eram atividades típicas de brancos. Até pouco tempo não se concebia um negro num country club a não ser como carregador de tacos ou, com raras exceções (como Arthur Ashe há alguns anos), numa quadra de tênis a não ser como gandula, ou que nome tenha aquela garotada que junta as bolas.

E um negro chegar a campeão de Fórmula-1 era tão inimaginável como um dia um negro chegar a presidente dos Estados Unidos.

Hoje Tiger Woods é o melhor golfista do mundo e, dizem alguns, de todos os tempos, as irmãs Venus e Serena arrasam nas quadras de tênis e Lewis Hamilton acaba de ganhar o campeonato de Fórmula-1 do ano. Quer dizer – estava claro que ia dar Obama.

Já se disse que as eleições presidenciais americanas são tão importantes, que todo o mundo deveria votar nelas. Alguns foram mais longe e, depois da reeleição de Bush, disseram que todo o mundo deveria votar nas eleições presidenciais americanas menos os americanos.

Mas a eleição de Obama os redimiu. Ele certamente vai entrar na lista dos presidentes “pivotais” que nos últimos 80 anos redirecionaram a história dos Estados Unidos, nem sempre para o lado certo, pelas suas personalidades ou pelas suas ações.

A começar por Franklin Roosevelt, cuja situação ao tomar posse na presidência do país mergulhado numa crise econômica cujo epicentro também era Wall Street mais se parece com a de Obama, hoje, e que também inspirou a nação a mudar para se salvar.

Outro “pivô” histórico foi Kennedy, que tem em comum com Obama o fato de se destacar mais pelo impalpável – carisma, fotogenia etc – do que por competência provada, e por também ter vencido um preconceito supostamente irreversível contra uma minoria, no caso os católicos, para chegar aonde chegou.

De Kennedy hoje se diz que teve mais fulgor do que substância, ou que lhe faltou tempo para ser um presidente que correspondesse a sua imagem de juventude e novidade.

Mas, durante o pouco tempo que teve, a imagem eletrizou o país. Do mesmo jeito, a importância simbólica da eleição de Obama talvez seja a sua única importância, mas já é o suficiente para fazer história.

Outro “pivotal” foi Ronald Reagan, que se elegeu dizendo que o governo não era a solução, era parte do problema, a frase que inaugurou a era de desregulação e permissividade que deu na crise de agora, e que, com todo o mundo financeiro dependendo da ação de governos para solucionar seus problemas, ganhou uma ironia amarga.

Com este pivô, o Obama não tem nada a ver

domingo, 9 de novembro de 2008


FERREIRA GULLAR

Evocação do falado 56

Nós três pagávamos por vagas no que havia sido a sala de visitas e servia de quarto na pensão

A PENSÃO ficava à rua Buarque de Macedo, no Catete. Era uma casa antiga, de dois andares, onde morava gente que não tinha dinheiro para alugar apartamento nem pagar quarto de hotel.

De fato, mesmo ali, quase ninguém ocupava sozinho um quarto, mas vagas. Eu, Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira pagávamos por três vagas no que havia sido a sala de visitas e agora servia de quarto, dividido por um tabique.

No meu lado, mal cabia uma cama velha, cujo colchão era duro feito pedra; no lado deles, além de duas camas havia uma pia, que servia para tudo, tanto assim que, no poema que escrevi sobre "o falado 56", a ela me referia como "pia, oráculo e urinol".

Dos três, o único que tinha salário fixo era eu -extranumerário mensalista do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários-, enquanto eles dois se viravam publicando artigos em suplementos literários ou reportagens em alguma revista semanal.

Comíamos ali mesmo a comida barata que dona Hortência mandava servir a seus hóspedes na antiga sala de jantar agora ocupada por pequenas mesas e cadeiras. Mas às vezes matávamos a fome na Associação Cristã de Moços ou no restaurante de estudantes do Calabouço, com carteira falsa.

Enquanto isso, eu escrevia poemas, Bastos ensaios sobre literatura e Carlinhos um romance inspirado em Faulkner e de que só tínhamos notícia.

Um companheiro nosso, um pouco mais velho, era o romancista Lúcio Cardoso, que também "não trabalhava" na revista do IAPC e que nos arrastava para tomar chopes em botecos da Lapa.

Um dia o levamos para conhecer a pensão de dona Hortência e coincidiu que, naquela noite, morrera um hóspede do quarto que ficava acima do nosso. De farra, subimos até lá e, fingindo estarmos compungidos com sua morte, cumprimentamos a viúva. Foi quando, tomado de ímpeto incontrolável, debrucei-me sobre o cadáver e gritei: "Onde está o homem que estava aqui?".

Ficou todo mundo espantado e, nós quatro, contendo o riso, corremos para o nosso quarto onde explodimos em gargalhadas.
Naquela época, um dos pontos de encontro de intelectuais e artistas era o Vermelhinho, ali no centro da cidade, à rua Araújo Porto-Alegre, em frente à ABI.

Na quadra ao lado, ficava a Escola de Belas Artes, que ainda funcionava no prédio do Museu Nacional de Belas Artes; ao fim da tarde, professores e alunos da escola vinham tomar chope no Vermelhinho, onde se encontravam com escritores e críticos de arte, quase todos funcionários públicos que, àquela hora, também saíam do trabalho.

E por ali também andávamos nós, em começo de carreira, muitos vindos da província e entre eles, Wladimir Dias Pino, chegado de Mato Grosso, que inventou um jornal chamado "Japa".

Nesse jornal, publiquei um conto intitulado "Osíris Come Flores", que falava de uma família que vivia numa enorme árvore, como pássaros ou lagartixas. Herberto Salles gostou tanto do conto que me chamou para trabalhar na revista "O Cruzeiro", como revisor de textos.

Passei a ganhar um bom salário, a ponto de bancar a edição de meu livro "A Luta Corporal", impresso nas oficinas daquela revista.
Decidi também deixar a pensão de dona Hortência e mudar-me para um quarto mais confortável, no apartamento de uma jovem senhora, em Copacabana.

Mas morria de saudade do "falado 56" e, assim, certa manhã, ao passar pela praia do Flamengo, à altura da Buarque de Macedo, desci para visitar meus amigos. Foi uma alegria. Conversamos até a hora do almoço e, depois, rumamos juntos para o centro da cidade, onde, naquela tarde, inaugurava-se o Salão de Arte Moderna.

Fomos ao vernissage, armamos alguns pequenos escândalos e encerramos o dia numa mesa do Vermelhinho, onde conheci Thereza, com quem comecei a namorar ali mesmo e poucos meses depois me casava.

Bastos e Décio Victorio foram os padrinhos do casamento, para horror de dona Mayna, mãe da Thereza, que mal acreditava no que estava acontecendo. Quem eram aqueles dois pobres diabos, mal vestidos e mal barbeados, que vieram lhe pedir, em nome de outro maluco, a mão de sua filha?

A vida nos levou para longe da rua Buarque de Macedo. Bastos foi parar em Brasília, onde se tornou diretor de jornal, proprietário de uma mansão e criador de cavalos de raça; prometia escrever uma história crítica da poesia brasileira mas ficou devendo.

Carlinhos veio a se tornar destacado cronista da imprensa carioca. E o pequeno sobrado de dona Hortência, anos depois, foi posto abaixo, arrastando consigo o nosso quarto com a pia e tudo o mais que de nós ficara impregnado naquelas paredes.

DANUZA LEÃO

A crise, socorro

E meu dinheirinho aplicado, que está derretendo? E o que eu tenho a ver com hipotecas das casas americanas?

A CRISE: alguém entende o que está se passando? Eu, não.

Na minha total ignorância sobre economia, sempre achei que, se alguém perde de um lado, alguém ganha de outro. Só que, pelo que tenho entendido, desta vez todo mundo está perdendo; é como se tivessem feito uma fogueira com quase todo o dinheiro que existia no mundo e tudo virado fumaça. Alguém deve ser o culpado, mas quem?

Outro dia vi numa vitrine uma sandália bem bonitinha, que nem cara era, e entrei para comprar. Mas lembrei da crise e fui para casa sem.

É bem verdade que não precisava dela, mas eu tinha (tenho ainda, só não sei por quanto tempo) condições de me dar este presente. Mas com a crise, nem sandália nem chocolate, nem nada que não seja essencial.

Mas, pensei, se ninguém comprar, as lojas vão fechar e muita gente vai perder o emprego. Então, o que fazer? Os tempos mudaram mesmo. Lembrei de Chanel, que dizia que a única coisa indispensável na vida é o supérfluo.

Voltei para casa meio deprê, mas é mais fácil lidar com a depressão quando se conhece a sua origem -no caso, a crise-, do que quando não se entende o que está se passando. Mas a crise, para mim, não passa de uma palavra, e que me enche de medo.

Se as pessoas pararem de comprar, não haverá razão para anúncios nos jornais e revistas, sem anúncios a imprensa vai acabar, e se acabar, todos os jornalistas ficarão sem emprego, começando por mim, claro. Ok, tenho um apartamento que posso vender e ir morar num conjugado, mas com a crise, quem vai ter dinheiro para comprar o meu?

Eu, que sonhava em ter uma velhice tranqüila, vou morar debaixo da ponte, isso é mais do que evidente. Procuro desesperadamente uma alternativa para o futuro, mas não encontro nenhuma; meus amigos devem estar na mesma situação, não tenho um emprego público, daqueles que dão estabilidade, e não sou do PT. Estou perdida.

Além de não entender a crise, também não entendo a mecânica da eleição americana. Se a maioria dos eleitores não é o que importa para eleger o presidente, já que são os delegados do colégio eleitoral que decidem, então para que eleição?

E quem escolhe esses delegados? Vou deixar para pensar nisso quando for uma sem-teto e não tiver mesmo nada para fazer.

E a fusão dos bancos? Eu gostaria, só por curiosidade, de saber quem teve a idéia e telefonou para o outro dizendo "que tal uma fusão entre nossos bancos?"

Teria o outro respondido: "que ótima idéia, vamos tomar um chope e conversar sobre isso"? Será que foi assim? E será que com a fusão vou ficar menos tempo na fila do banco? Ah, por que não sou prima, mesmo longe, de um Moreira Salles ou de um Setubal?

Voltando à crise: tudo começou nos Estados Unidos, com a história das hipotecas; seria o caso do dólar ir para o ralo, mas não: o dólar subiu no mundo todo. Dá para entender?

E meu dinheirinho aplicado que está derretendo, de quem é a culpa? E algum dia eu vou ter ele de volta? E o que é que eu tenho a ver com as hipotecas das casas americanas?

Este mundo está muito complicado; vou botar um tênis e dar uma volta na Lagoa para esfriar a cabeça. Aliás, é a única coisa que posso fazer de graça.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 8 de novembro de 2008



09 de novembro de 2008
N° 15784 - MARTHA MEDEIROS


Caça às bruxas

É uma cena clássica: o homem vê um belo exemplar de fêmea caminhando pela calçada. Ela está de costas pra ele. Um corpo ótimo, cabeleira até a cintura. Uma gatinha. Então ele passa por ela, vira para ver o rosto e surpresa: não é uma gatinha, é uma mulher de mais de 40 anos. De corpo ótimo e cabeleira até a cintura, e daí?

Daí que essa cena me parece meio macabra. Um homem maduro não se importaria, mas um garoto de 17 se sente enganado, já que se convencionou que mulheres, depois de uma certa idade, precisam tomar juízo e aparar as melenas, caso contrário, correm o risco de receber uma vassoura e um caldeirão de presente.

Ainda assim, mesmo com toda a campanha para que os cabelos subam à medida que o corpo cai, é um sacrilégio pedir que as mulheres tosem os cabelos por força da “adeqüação”. Ora, que os cortem por causa da moda, da tendência, da renovação, mas não por imposição social.

Legislando em causa própria de novo?

Pois é. Nasci carequinha, e carequinha fiquei por anos, apenas com umas mechinhas ralas, pífias, com as quais eu nada podia fazer. Na adolescência, o cabelo não era lá muito farto também. Não crescia. Eu olhava para aquelas meninas de cabelão liso, escorrido, brilhoso, e pensava que Deus não era justo. Foi mais ou menos nessa época que abandonei a Igreja e comecei a rezar pelo Capilax.

Mais tarde, só bem mais tarde, é que meu cabelo cresceu e apareceu, e eu fiz as pazes com o Senhor. Finalmente longo, eu podia fazer o que bem quisesse com ele, de rabo-de-cavalo a coque, mas eu quase sempre o deixava solto, e solto ele seguiu comigo. Hoje, não chego a ser uma rapunzel, mas ainda o mantenho abaixo do ombro.

Cortar não precisaria ser uma idéia torturante. Bastaria a gente se inspirar no que acontece no outro lado do mundo. Na Europa, o cabelo comprido foi abolido das cabeças femininas. Em Londres, não há uma única mulher com fartura capilar. Nenhuma. Todas elas possuem um visual moderno, limpo e atualizado. Não se avista uma única Perla num raio de mil quilômetros.

Cabelão é coisa de peruana, mexicana, brasileira. Os homens gostam, dizem. E a gente se apega, faz trança, joga para um lado, puxa para trás: um exagero de cabelo, bem a nosso gosto latino. Pra quê? Não é para manter a juventude, já que cabelo curto é que remoça. Só pode ser por amor às tradições. Apego ao passado. Culto à Iracema. Uma alma ancestral.

Ou é por covardia, mesmo.

Com que idade você acha que uma mulher deve se livrar das suas melenas históricas? Se você responder que nunca, eu pego minha vassoura e vou aí agradecer pessoalmente.

Excelente domingo, especialmente a você


09 de novembro de 2008
N° 15784- DAVID COIMBRA


Os diamantes da cidade

Zanzava pelas ramblas de Barcelona, certa feita, e tanto zanzei que precisava tirar a poeira da garganta. Comecei a procurar um bar. Há muitos bares às margens e sobre as ilhas das ramblas. Vi um que me pareceu o tipo de bar em que se pode beber uma cerveja gelada e quem sabe um saboroso prato de tapas.

Entrei. Pedi a cerveja e, oh, eu estava certo. Como é bom engolir três doze avos de um copo de cerveja quando ela está realmente gelada e quando você realmente precisa tirar a poeira da garganta...

Aí vi uns alemães.

Sabia que eram alemães porque eram grandes e vermelhos e loiros e, bem, falavam alemão. Estavam sentados em volta da mesa ao lado e também bebiam cerveja, como devem fazer os alemães. Só que bebiam nos maiores copos que já vi. Copázios corpo 48, do tamanho de vasos de samambaias. Eles bebiam e cantavam em alemão e brindavam e vez em quando exclamavam wolfrembaer com toda a força de seus pulmões germânicos.

Então, um deles fez algo que jamais esquecerei.

Assestou a caneca no queixo e começou a beber. E bebeu e bebeu e bebeu... tudo! Quantos litros havia naquele copão? Muitos. Decerto mais de dois. Talvez três. Ou até quatro. E o alemão bebeu o conteúdo inteiro do coparrão, sem que uma gota lhe respingasse no peito. Ao cabo do que ele ergueu o caneco vazio para o alto, feito um troféu, e gritou:

– Barceloooonaaaa!

Só que com sotaque alemão.

Saí do bar pensando que Barcelona é isso mesmo, uma cidade feita para a festa. “Feita” de verdade. Barcelona foi desenhada para a alegria. Suas ramblas largas como um estádio de futebol, sua orla marítima pontilhada de restaurantes e bares e museus, tudo foi planejado para o encontro das pessoas, para que elas convivam e se divirtam juntas.

Paris também foi planejada para o prazer, mas com um toque menos mundano do que Barcelona. As luzes amareladas, a arquitetura neoclássica ou até gótica, como no caso da Notre-Dame, dão à cidade uma aragem sofisticada. Paris é champanhe; Barcelona é cerveja. E não por acaso, mas por obra do urbanismo. Essas cidades são o que são de caso pensado.

O que é Porto Alegre? Eis a pobreza: Porto Alegre é obra do acaso. Não é uma cidade pensada para se caminhar, como o Rio; nem para o automóvel, como São Paulo. Porto Alegre, há tempo que ninguém pensa em como ela poderia ser.

Há apenas duas obras porto-alegrenses que distinguem a cidade do resto do mundo. E não são obras de pedra. São a Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal. A Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal são o melhor de Porto Alegre. O porto-alegrense há de preservá-los.

A vida subterrânea

Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados, com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões.

Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas.

Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.

Uau! O parágrafo acima é uma espécie de declaração de princípios dele, o Velho Buk. Está na abertura do conto “Colhões”, um dos diamantes de “Ao Sul de Lugar Nenhum – histórias da vida subterrânea”, edição L&PM, livro que o degas aqui indica para você, inteligente leitor, nesta Feira do Livro.


09 de novembro de 2008
N° 15784- DAVID COIMBRA


Os diamantes da cidade

Zanzava pelas ramblas de Barcelona, certa feita, e tanto zanzei que precisava tirar a poeira da garganta. Comecei a procurar um bar. Há muitos bares às margens e sobre as ilhas das ramblas. Vi um que me pareceu o tipo de bar em que se pode beber uma cerveja gelada e quem sabe um saboroso prato de tapas.

Entrei. Pedi a cerveja e, oh, eu estava certo. Como é bom engolir três doze avos de um copo de cerveja quando ela está realmente gelada e quando você realmente precisa tirar a poeira da garganta...

Aí vi uns alemães.

Sabia que eram alemães porque eram grandes e vermelhos e loiros e, bem, falavam alemão. Estavam sentados em volta da mesa ao lado e também bebiam cerveja, como devem fazer os alemães. Só que bebiam nos maiores copos que já vi. Copázios corpo 48, do tamanho de vasos de samambaias. Eles bebiam e cantavam em alemão e brindavam e vez em quando exclamavam wolfrembaer com toda a força de seus pulmões germânicos.

Então, um deles fez algo que jamais esquecerei.

Assestou a caneca no queixo e começou a beber. E bebeu e bebeu e bebeu... tudo! Quantos litros havia naquele copão? Muitos. Decerto mais de dois. Talvez três. Ou até quatro. E o alemão bebeu o conteúdo inteiro do coparrão, sem que uma gota lhe respingasse no peito. Ao cabo do que ele ergueu o caneco vazio para o alto, feito um troféu, e gritou:

– Barceloooonaaaa!

Só que com sotaque alemão.

Saí do bar pensando que Barcelona é isso mesmo, uma cidade feita para a festa. “Feita” de verdade. Barcelona foi desenhada para a alegria. Suas ramblas largas como um estádio de futebol, sua orla marítima pontilhada de restaurantes e bares e museus, tudo foi planejado para o encontro das pessoas, para que elas convivam e se divirtam juntas.

Paris também foi planejada para o prazer, mas com um toque menos mundano do que Barcelona. As luzes amareladas, a arquitetura neoclássica ou até gótica, como no caso da Notre-Dame, dão à cidade uma aragem sofisticada. Paris é champanhe; Barcelona é cerveja. E não por acaso, mas por obra do urbanismo. Essas cidades são o que são de caso pensado.

O que é Porto Alegre? Eis a pobreza: Porto Alegre é obra do acaso. Não é uma cidade pensada para se caminhar, como o Rio; nem para o automóvel, como São Paulo. Porto Alegre, há tempo que ninguém pensa em como ela poderia ser.

Há apenas duas obras porto-alegrenses que distinguem a cidade do resto do mundo. E não são obras de pedra. São a Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal. A Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal são o melhor de Porto Alegre. O porto-alegrense há de preservá-los.

A vida subterrânea

Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados, com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões.

Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas.

Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.

Uau! O parágrafo acima é uma espécie de declaração de princípios dele, o Velho Buk. Está na abertura do conto “Colhões”, um dos diamantes de “Ao Sul de Lugar Nenhum – histórias da vida subterrânea”, edição L&PM, livro que o degas aqui indica para você, inteligente leitor, nesta Feira do Livro.


09 de novembro de 2008
N° 15784 - MOACYR SCLIAR


A conspiração dos objetos

Millôr Fernandes tem uma charge fantástica. Mostra um homem entrando em casa, e os objetos saudando-o: “Me liga”, diz a tevê, “Me acende”, diz o fogão, e assim por diante: uma alusão a um estilo de vida em que estamos rodeados de aparelhos, de dispositivos, de gadgets.

Na charge, a disposição dessas coisas é amável, ansiosa, até: querem ser postas a funcionar, portanto querem servir o seu dono. Infelizmente, porém, nem sempre é assim. Nem sempre os objetos que nos rodeiam mostram-se prestativos. Não raro a intenção deles é outra, e revela uma perversidade inimaginável.

Conspiram, os objetos. Comunicam-se entre si mediante imperceptíveis vibrações e é assim que tratam seus planos, sua estratégia para assumir o poder no domicílio. O elemento principal desta estratégia é a nossa desestabilização. Os objetos querem que percamos o controle emocional, que nos sintamos inseguros e, se possível, apavorados. E como é que eles fazem isso? Simples: eles se escondem de nós.

Os objetos tem esta extraordinária capacidade: eles somem. Não a tevê, claro, nem a geladeira, ou a cama; estes são prejudicados pelo tamanho. E talvez sintam também um pouco de afeto por nós. A cama, por exemplo, é testemunha de nossos sonhos, de nossos devaneios, de nossa paixão; a cama nos acolhe quando estamos cansados e quando estamos doentes. Compreensivelmente a cama hesita em nos sacanear.

Mas existem coisas que não têm para conosco a menor solidariedade. Objetos em geral pequenos. Quatro deles são particularmente sinistros, lembrando um pouco aquela Gangue dos Quatro que, numa época, dominou a China: chaves, caneta, óculos, tesoura.

As chaves são mestras em sumir. Mais: sabem sumir nas horas em que mais nos prejudicam. Se estamos com pressa, é certo que as chaves do carro darão um jeito de se tornarem invisíveis, e o mesmo se pode dizer das chaves da casa.

Caneta nem se fala, e isso nos obriga a ter várias delas. Os óculos mostram um pouco mais de respeito – afinal, estão ligados a atividades intelectuais – e se contentam em migrar para nossa testa. E as tesouras conseguem se introduzir nos lugares mais inesperados: debaixo de uma pilha de revistas, por exemplo.

O que fazer nessas situações? A primeira regra é: não perder a calma. Perder uma caneta pode ser um transtorno, mas perder a calma é um desastre. Canetas não são insubstituíveis. A segunda coisa é enfrentar. Querem guerra?

Terão guerra. Podemos recrutar colaboracionistas: outras chaves, outros óculos (tenho dezenas deles espalhados pela casa), outras canetas. Que, ao menos por algum tempo (até se contaminarem com o virus da revolta), estarão ao nosso lado.

Vamos para o combate, pois. Mesmo que nos derrotem, os objetos não nos subjugarão. Ao fim e ao cabo, podemos viver sem eles, como Adão e Eva no Paraíso. Aliás, eles ainda estariam lá – se não tivessem encontrado a árvore do fruto proibido.

Se esta árvore resolvesse sumir no meio das outras, o que bem poderia ter acontecido, os seres humanos ainda estariam no Jardim do Éden. Onde todo mundo andaria pelado e onde ninguém perderia nada.


09 de novembro de 2008
N° 15784 - PAULO SANT’ANA


O presságio da crise

Há no ar, entre as pessoas mais responsáveis, um mau presságio para 2009.

Será que a passagem do ano será marcada por nuvens sombrias a respeito da economia brasileira e mundial?

Estava tudo indo tão bem, agora mesmo se divulga que 2,4 milhões de gaúchos atingiram o número de trabalhadores com carteira assinada!

Apesar de um arrocho salarial nunca visto, em que centenas de milhares de servidores estaduais não têm reajuste em seus vencimentos – alguns, como na área da segurança pública, há 13 anos sem verem seus ganhos corrigidos –, o governo do Estado conseguiu a façanha de botar em dia as suas contas com os fornecedores.

E até parece que a governadora Yeda Crusius destinou R$ 200 milhões para pagar os abandonados precatórios!

Li que alguém importante perguntou como é que a governadora tinha obtido o milagre de tentar começar a pagar os precatórios.

Não é milagre: basta miserabilizar o funcionalismo público.

Não quero afirmar que a miserabilização dos funcionários estaduais é obra deste governo, todos sabemos que sucessivos governos estaduais jogaram o funcionalismo nesta situação de penúria e marginalização.

Mas não surpreende que haja até recursos para pagar precatórios, os governos perceberam que o segredo para manter um certo equilíbrio nas suas contas é esfolar o funcionalismo. O funcionalismo não tem mais voz e não tem mais reação.

Mas estávamos indo bem, todo mundo trabalhando, talvez não tendo ganhos animadores, mas dando para os gastos.

E de repente estourou esta crise financeira internacional que ameaça agora o Brasil.

Dizem que os efeitos espúrios dessa crise se derrubarão sobre a nossa economia nos próximos meses.

Mas como é injusta esta globalização! Nada fizemos como país e como cidadãos para pagar qualquer preço alto por esta crise.

E, no entanto, estamos todos ameaçados por ela.

Agora é que se vê que a par da competência do governo Lula, ele foi ajudado nos seis últimos anos pela serenidade dos mercados internacionais.

E, agora, inicialmente com otimismo por parte do governo no sentido de que a crise não atingiria o Brasil, vê-se, no entanto, que estamos na crista da onda dos problemas.

E vemos o nosso fim de ano, o nosso Natal e Ano-Novo assinalados pelos ruins presságios de que podemos ingressar num período de recessão e desemprego.

Se os Estados Unidos vão no rumo do fim de ano engolfados em grave e inédita crise econômica, imaginem nós, no Brasil!

Que coisa chata este presságio.

E só resta rezar para que ele não se materialize.


08 de novembro de 2008
N° 15783- NILSON SOUZA


Seu Quimbinha

O jardineiro do meu bairro é mais conhecido por sua capacidade de puxar conversa com qualquer pessoa que passe por perto do que propriamente pelo seu nome. Na verdade, pouca gente sabe como ele se chama. Mas não há quem não tenha ouvido por vários minutos suas histórias intermináveis. Ele adora falar. Se vê alguém passando do outro lado da rua, logo põe de lado a tesoura de podar e parte para o monólogo, pois nem dá tempo para o interlocutor responder.

O que ele quer – e talvez seja também o que a maioria de nós ambiciona – é ser ouvido. Na impossibilidade de sequer perguntar o nome do homem, meu sobrinho apelidou-o de Seu Quimbinha.

Sei lá de onde tirou o apelido, mas acredito que também essa reação vem de uma necessidade atávica que temos de dar nome às pessoas com as quais nos relacionamos e também às coisas que nos rodeiam. “Faça-se a luz” – disse o Deus bíblico. Mas a luz só se fez quando ele a chamou de Dia e às trevas de Noite. E assim ele foi criando e nomeando as coisas que criava, os animais, as plantas, o mar, a terra, as estrelas, as flores e os jardins, que Seu Quimbinha cuida com tanto carinho.

Temos necessidade de saber o nome das coisas para conviver melhor com elas. Quando não sabemos, inventamos. Somos especialistas, por exemplo, em apelidar nossos semelhantes. Mas também nomeamos objetos, situações e até mesmo as piores ações humanas, como as guerras.

Quem não lembra da Tempestade no Deserto? Ou do Dia D? Pois diante desta explosão de criatividade, soa meio como Polícia do Pensamento a tentativa do presidente do STF de boicotar os imaginativos nomes que a Polícia Federal dá às suas operações.

Tudo bem que ele condene excessos no uso de algemas ou de escutas telefônicas. Mas emitir uma sentença contra a criatividade é um pouquinho demais, mesmo para um ministro da Corte Suprema.

E os tituladores da PF têm se revelado mestres na arte de nomear suas operações. Só neste ano de 2008, já tivemos pérolas como Arco de Fogo, Desvio Químico, Integrada Afrodite, Telhado de Vidro, Pinóquio, Fariseu,

Pasárgada, Auxílio-Sufrágio, Neve no Cerrado, Serpente Negra, Bicho Mineiro, Psicose, Linha Cruzada, Arca de Noé, Data Venia, Estranho no Ninho, Alienígena e Cana Brava, entre dezenas de outras.

É matéria para as conversas de Seu Quimbinha, não para o Supremo.8


08 de novembro de 2008
N° 15783 - O PRAZER DAS PALAVRAS | CLÁUDIO MORENO


Veado

1. Na roda de chimarrão, alguém pergunta se a bomba de mate tem alguma relação com a bomba que manda tudo pelos ares. Pois não tem; bomba tem dois significados completamente diferentes, dependendo de sua origem, já que por trás desta forma, no Português, escondem-se dois vocábulos de som e grafia idênticos, mas com sentido e origem completamente diversos.

O primeiro, que designa um “artefato explosivo”, vem do latim bombus (“estouro, explosão”) e está presente em todas as língua modernas: bombe (fr.), bomba (it. e esp.), bomb (ing.); até o início do século 19, bombeiro era o soldado especialista em fazer e atirar bombas.

O segundo vem da raiz holandesa pompe, a mesma que aparece no inglês pump e no francês pompe, e significa “dispositivo para aspirar e expelir líquidos” – ou, como define o pitoresco Morais em seu dicionário (1813), “máquina que anda sobre rodas e tem grande canudos para se aguar algum lugar, de que se usa para apagar fogos”. Foi deste radical que derivou-se o atual bombeiro, tanto para designar o membro de um corpo organizado para o combate a incêndios, quanto o encanador, especializado em bombas e em encanamento.

2. Um amigo do peito me envia a cópia xerográfica de um artigo de etimologia que “prova” por A mais B que península vem de pênis. “Lê isso e vê se não é coisa de maluco!” – é o recado que vem na margem. Eu já tinha ouvido falar nessa etimologia de cacaracá, mas pensei que fosse piada! Desde quando todas as penínsulas têm a forma de um pênis? A da Flórida até pode ser, mas a da Itália, por exemplo, parece uma bota; a Ibérica, a pele de um urso...

Evidentemente, não é o radical de pênis que está aí, mas sim pen(e), um importante elemento latino, sempre anteposto, que significa “quase”. A península é quase uma ilha (insula, no Latim), da mesma forma que a penumbra é quase sombra (umbra) e o penúltimo é quase o último.

Se esse autor de meia-tigela, se esse etimologista de meia-pataca lesse mais o dicionário, acabaria encontrando penipotente (“que tem as penas ou as asas poderosas”) ou peniomania (“distúrbio psíquico em que a pessoa se julga reduzida à mais completa penúria”) – e lá viriam asneiras do mesmo quilate.

3. Finalmente, um leitor um tanto mal-humorado escreve para advertir que, ao contrário do que ando dizendo por aí (?), veado e viado são duas palavras diferentes, com origem e significado diverso.

Em tom professoral, este catedrático das nuvens começa por informar que veado é um mamífero da família dos cervídeos, que inclui também os cervos, os alces e as renas, enquanto viado é uma denominação pejorativa para o homossexual masculino, nascido do truncamento do adjetivo transviado. E conclui: “Como um viado não obedece os mesmos padrões comportamentais de um homem heterossexual, podemos realmente dizer que ele se transviou, fugiu de uma norma”.

Ora, ora, caro amigo, eu diria que estás equivocado. Eu vivi intensamente os anos 60 e o vocábulo transviado jamais – repito – jamais teve qualquer relação com o homossexualismo; a única relação que o termo teve com o sexo foi a idéia (em muitos casos, simples fantasia) de que os transviados viviam num eterno fórum sexual mundial, onde ninguém era de ninguém e o amor era livre e gratuito.

O “transviado” típico era baseado na figura de Marlon Brando do filme O Selvagem (The Wild One) e nos personagens do filme Os Trapaceiros (Les Tricheurs), de Marcel Carné: jaqueta de couro, motocicleta, óculos escuros, t-shirt, baseados de maconha, etc., aliados à rebeldia e à contestação dos costumes vigentes. No Brasil, o termo adquiriu uma carga quase criminosa, principalmente pelo famoso processo de Aida Cúri, a pobre moça que se atirou do alto de um edifício em São Paulo para evitar ser currada – outra palavra que passou a integrar o campo semântico dos “transviados”.

Para teres uma idéia, o filme de Nicholas Ray, Juventude Transviada, com James Dean, era rigorosamente proibido para menores de 18 anos por temerem, as autoridades, que o tal comportamento viesse a se disseminar entre os nossos jovens da classe média.

O teu maior equívoco foi interpretar um mero fato fonológico (a pronúncia /viado/ – a única, aliás, possível para veado, no Português Brasileiro) como um suposto truncamento do vocábulo transviado, que, como vimos acima, nunca se relacionou semanticamente com o homossexualismo.

Veado, com este sentido, aliás, vai se alinhar com certos animais femininos, a bicha, a paca e a marreca, usados depreciativamente para o mesmo fim.

Se insistires nesta tese – não por acaso, rejeitada por Aurélio e Houaiss –, vais ter de explicar por que, neste vocábulo específico, o truncamento eliminou o primeiro elemento (trans) e não o segundo, que é o mecanismo morfológico conhecido no Português: foto[grafia], moto[cicleta], micro[computador], cine[ma], bisa[vó], bici[cleta] e tantos outros. Vais ter um trabalho e tanto!


08 de novembro de 2008
N° 15783 - A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR


Queixas de médicos

Recebi, via internet (esta verdadeira caixa de ressonância da nossa cultura), um curioso texto intitulado “Como enlouquecer um médico em 12 lições”. Contém coisas do tipo: “Comece a consulta reclamando da demora, mesmo que tenha sido atendido rapidamente.

Depois, diga ao médico que ele é o 13º que você procura e que você só quer mais uma opinião, pois não confia muito em médico. Diga também aquela frase clássica: ‘Cada médico fala uma coisa’”. E: “Nunca responda diretamente às perguntas. Caso ele pergunte se você teve febre, diga que teve tosse.

Conte tudo detalhadamente, começando, se possível, desde quando você ainda era criança”. Ou ainda: “Leve sempre três crianças com você (nem precisam ser seus filhos), especialmente aquelas que mexem em tudo, sobem nos móveis, ficam fazendo perguntas no meio da consulta. Combine previamente com uma delas para quebrar o termômetro do médico”.

Querem mais? “Quando o médico estiver se despedindo de você, na sala de espera, diga bem alto, para outros ouvirem também: ‘Vamos ver se agora o senhor acerta!’” E, ao voltar: “Inicie com: ‘Estou pior do que antes’. Aproveite para incluir, no relato, novas queixas. Diga que você passou por um farmacêutico, muito antigo e muito conceituado no bairro onde sua tia mora, e ele resolveu trocar os remédios”.

Uma alternativa para o consultório: “Descubra onde seu médico dá plantão à noite, e só passe a procurá-lo lá. Dê preferência a hospitais públicos, onde ele não ganha por ficha de paciente”. O coroamento: “Diga que não concorda nem com o diagnóstico nem com os medicamentos que ele está indicando. E que você tem a sorte de ter um farmacêutico amigo”.

O texto, como muitos outros que circulam na rede, é anônimo. Mas certamente foi escrito por um médico ou por alguém que está muito familiarizado com a prática médica, porque se refere a situações reais, a problemas que provavelmente incomodam muitos profissionais. Mas a maneira como isto é feito preocupa. Porque sugere uma situação de latente hostilidade entre médicos e pacientes. E isto, numa situação em que todos os esforços devem convergir para um objetivo comum, é, para dizer o mínimo, preocupante.

O médico sabe como deve atender o paciente. Pelo menos é treinado para isso nas escolas de medicina. Pergunta: deveria ser o paciente também “treinado” para consultar o médico?

Indagação mais que pertinente: com as pessoas cada vez mais informadas (inclusive pela internet), não são poucos aqueles que vão ao consultório já com dúvidas e perguntas, às vezes escritas num pedaço de papel (era o famoso “malade au petit morceau de papier” dos clínicos franceses). Mas, a julgar pelo texto, providências, quando tomadas, mais atrapalham que ajudam. Que fazer, então?

Nenhum paciente precisa receber um curso sobre como consultar o médico. Mas seria muito útil se o paciente soubesse aquilo que o médico espera dele para ajudar no diagnóstico e no tratamento. Quem pode transmitir estas informações ao paciente?

Só o próprio médico. Não se trata de estabelecer regras, não se trata de 12 lições; trata-se apenas de informar, com franqueza, precisão e sobretudo afeto, aquilo que ajuda e aquilo que atrapalha. E aí certamente textos anônimos sobre o assunto não precisarão estar circulando por aí.


08 de novembro de 2008
N° 15783- PAULO SANT’ANA


Experiência própria

Uma negra me escreveu aproveitando-se da oportunidade da abordagem do assunto racismo em minhas colunas:

“Caro jornalista Paulo Sant’Ana. Quero agradecer pelas tuas crônicas sobre o racismo, veiculadas nesta semana no jornal Zero Hora. Envio-te um breve desabafo que procura analisar o assunto sob a ótica de alguém que sofre ‘na pele’ o mal do preconceito racial:

Não vou dizer que ser negra foi a razão para meus insucessos. Mas posso afirmar que contribuiu. Desde bebê, passei por situações que não teria passado se fosse branca. Resolvi tornar públicas minhas inquietações no exato momento em que um negro venceu o Campeonato de Fórmula-1 e outro foi eleito presidente dos Estados Unidos.

Artistas, atletas de outras modalidades que não o futebol e modelos venceram o preconceito, conseguindo sucesso na carreira. Porém, ainda há muito por fazer, ainda há muito chão para percorrer.

Hoje em dia é fácil encontrar uma revista ou um programa com negros. Mas quando eu era criança isso era raro. Cresci me achando feia, porque meu corpo não se enquadrava no padrão estético; este padrão era de pessoas brancas. Nos meios de comunicação, não apareciam negros; era como se nós não existíssemos.

Em menina, minha mãe mantinha meu indomável cabelo curtinho. Quando cresci, passei anos usando produtos para mantê-lo artificialmente liso. Uma tia prendia meu nariz com prendedor de roupa, para o afinar. Usei cores de maquiagem que não combinavam com o tom de minha pele, simplesmente porque não havia opções.

Além disso, tentava disfarçar minhas ancas largas e minhas nádegas protuberantes, próprias de mulheres negras, com blusas e calças largas. Enfim, eu tentava me embranquecer para ser aceita na sociedade. Por isso eu entendo o Michael Jackson e não o julgo.

Talvez, se eu tivesse seu poder aquisitivo, teria tentado modificar minha aparência; não para ficar mais bonita, mas para ser feliz. Como não tenho sua conta bancária, com o passar dos anos acabei me conformando.

A experiência me mostrou que ser negro não é só uma questão de cor da pele, mas de atitude; não adiantaria eu mudar por fora, se por dentro eu continuaria negra. Sim, porque ser negro não é só uma questão de melanina, mas de consciência. A gente passa por tanta coisa, que a cabeça fica diferente; eu posso afirmar isso por experiência própria, pois não sinto e vejo o mundo como uma pessoa branca. Simplesmente, não acontece. Grata pela atenção. (ass.) Maria José Silva Penny (http://penny-pennyblog.blogspot.com/)”.

Mais esta: chamaram-me a atenção para o fato de que nas invasões do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não figuram negros, nem nas fazendas invadidas, nem nos acampamentos.

Será que os negros não procuram o MST ou se sentem rejeitados em seu seio?

Ou simplesmente não é da tradição negra a agricultura?

Mas e os quilombolas?

Mas não me sai da cabeça o cirurgião plástico e negro Lindo Cristaldo. Este homem talvez tenha muita história para contar. Sua experiência para chegar à condição de médico e cirurgião plástico deve ter sido empolgante.

E está se formando também em cirurgia plástica a sua filha.

São uns heróis estes negros que se destacam. Mas o interessante é que a maioria deles afeta não haver preconceito racial no Brasil. E logo oferecem como exemplo as suas pessoas.

Compreensível.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008



NOVA BIBLIOTECA

Um texto sobre uma biblioteca, no meio da Feira do Livro, deve começar citando Borges: a biblioteca não é infinita.

Se realmente fosse, para que essa duplicação? Hoje, a PUCRS inaugura a sua nova biblioteca, 'a mais avançada da América do Sul'. Está maravilhosa. A velha biblioteca, duplicada, multiplicada, transfigurada, surge como uma nova e extraordinária biblioteca.

Não creio que tenha a ver com a descrição feita pelo grande escritor argentino da Biblioteca de Babel, 'um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais'. Tem a ver com uma concepção moderna de ocupação do espaço e de relacionamento entre o usuário e o acervo.

Em 21 mil metros quadrados e 14 pavimentos, repletos de tecnologia, o livro continua a ser rei, no seu espaço sagrado, onde, contudo, o leitor é convidado a ser soberano. Se a biblioteca não é materialmente infinita, o que obriga a ampliações recorrentes, deve ser ilimitada, pois, de certo modo, é um imaginário, o ponto de acesso ao infinito das idéias, das histórias e do conhecimento.

É maravilhoso constatar que na era do virtual ainda se erguem bibliotecas concretas. O acesso, porém, ao catálogo já pode ser realizado à distância.

A biblioteca do presente e do futuro alia o presencial e o virtual, o contato com o papel e a digitalização, as pessoas ocupando salas de convívio e, como internautas, navegando no imaterial em busca de idéias cujos suportes nunca pararam de variar e de perder peso. Borges referiu-se a uma teoria geral da biblioteca.

Citou uma região onde os bibliotecários recusariam a supersticiosa idéia de buscar sentido nos livros.

Quando uma biblioteca, como a da PUCRS, se espicha em busca de espaço e de conforto, abrigando obras raras e documentos preciosos, dotando-se de computadores e de motores de busca para que se possa localizar a informação tão procurada o mais rápido possível, renova-se o desejo de saber, do saber, do sabor.

Sim, uma biblioteca é um labirinto que começa em escadas, elevadores, corredores, passa por estantes e salas, entra nos livros e nunca mais termina. Esse é, certamente, o mistério da palavra escrita e dos livros.

Ao completar 60 anos, a PUCRS presenteia a sua comunidade com uma grande biblioteca.

Como professor da casa e freqüentador encantado dos vãos e desvãos cercados de livros da biblioteca, em busca do que sei e do que nunca saberei totalmente, sinto-me na obrigação de felicitar a universidade. A nova biblioteca está tão boa que chega a ser perigosa.

Cada vez que se entra lá, dá vontade de ficar, folheando um livro aqui, outro ali, vagando de um andar ao outro, pedindo documentos sobre nossa história, aprendendo sem nunca cansar.

De repente, pode acontecer um sumiço, como num conto de Borges, de todos os professores e alunos, abduzidos, não por discos voadores, mas por livros, um a um sumindo como Alice num país de maravilhas. As bibliotecas merecem veneração.

Borges termina a sua narrativa 'A Biblioteca de Babel' de uma maneira evocativa: 'A biblioteca é ilimitada e periódica.

Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem).

Minha solidão se alegra com essa elegante esperança'. A minha melancolia se alegra com a elegante esperança de freqüentar por muitos anos a nova biblioteca sabendo que um mesmo livro é sempre outro a cada vez que o abrimos.

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