domingo, 9 de novembro de 2008


FERREIRA GULLAR

Evocação do falado 56

Nós três pagávamos por vagas no que havia sido a sala de visitas e servia de quarto na pensão

A PENSÃO ficava à rua Buarque de Macedo, no Catete. Era uma casa antiga, de dois andares, onde morava gente que não tinha dinheiro para alugar apartamento nem pagar quarto de hotel.

De fato, mesmo ali, quase ninguém ocupava sozinho um quarto, mas vagas. Eu, Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira pagávamos por três vagas no que havia sido a sala de visitas e agora servia de quarto, dividido por um tabique.

No meu lado, mal cabia uma cama velha, cujo colchão era duro feito pedra; no lado deles, além de duas camas havia uma pia, que servia para tudo, tanto assim que, no poema que escrevi sobre "o falado 56", a ela me referia como "pia, oráculo e urinol".

Dos três, o único que tinha salário fixo era eu -extranumerário mensalista do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários-, enquanto eles dois se viravam publicando artigos em suplementos literários ou reportagens em alguma revista semanal.

Comíamos ali mesmo a comida barata que dona Hortência mandava servir a seus hóspedes na antiga sala de jantar agora ocupada por pequenas mesas e cadeiras. Mas às vezes matávamos a fome na Associação Cristã de Moços ou no restaurante de estudantes do Calabouço, com carteira falsa.

Enquanto isso, eu escrevia poemas, Bastos ensaios sobre literatura e Carlinhos um romance inspirado em Faulkner e de que só tínhamos notícia.

Um companheiro nosso, um pouco mais velho, era o romancista Lúcio Cardoso, que também "não trabalhava" na revista do IAPC e que nos arrastava para tomar chopes em botecos da Lapa.

Um dia o levamos para conhecer a pensão de dona Hortência e coincidiu que, naquela noite, morrera um hóspede do quarto que ficava acima do nosso. De farra, subimos até lá e, fingindo estarmos compungidos com sua morte, cumprimentamos a viúva. Foi quando, tomado de ímpeto incontrolável, debrucei-me sobre o cadáver e gritei: "Onde está o homem que estava aqui?".

Ficou todo mundo espantado e, nós quatro, contendo o riso, corremos para o nosso quarto onde explodimos em gargalhadas.
Naquela época, um dos pontos de encontro de intelectuais e artistas era o Vermelhinho, ali no centro da cidade, à rua Araújo Porto-Alegre, em frente à ABI.

Na quadra ao lado, ficava a Escola de Belas Artes, que ainda funcionava no prédio do Museu Nacional de Belas Artes; ao fim da tarde, professores e alunos da escola vinham tomar chope no Vermelhinho, onde se encontravam com escritores e críticos de arte, quase todos funcionários públicos que, àquela hora, também saíam do trabalho.

E por ali também andávamos nós, em começo de carreira, muitos vindos da província e entre eles, Wladimir Dias Pino, chegado de Mato Grosso, que inventou um jornal chamado "Japa".

Nesse jornal, publiquei um conto intitulado "Osíris Come Flores", que falava de uma família que vivia numa enorme árvore, como pássaros ou lagartixas. Herberto Salles gostou tanto do conto que me chamou para trabalhar na revista "O Cruzeiro", como revisor de textos.

Passei a ganhar um bom salário, a ponto de bancar a edição de meu livro "A Luta Corporal", impresso nas oficinas daquela revista.
Decidi também deixar a pensão de dona Hortência e mudar-me para um quarto mais confortável, no apartamento de uma jovem senhora, em Copacabana.

Mas morria de saudade do "falado 56" e, assim, certa manhã, ao passar pela praia do Flamengo, à altura da Buarque de Macedo, desci para visitar meus amigos. Foi uma alegria. Conversamos até a hora do almoço e, depois, rumamos juntos para o centro da cidade, onde, naquela tarde, inaugurava-se o Salão de Arte Moderna.

Fomos ao vernissage, armamos alguns pequenos escândalos e encerramos o dia numa mesa do Vermelhinho, onde conheci Thereza, com quem comecei a namorar ali mesmo e poucos meses depois me casava.

Bastos e Décio Victorio foram os padrinhos do casamento, para horror de dona Mayna, mãe da Thereza, que mal acreditava no que estava acontecendo. Quem eram aqueles dois pobres diabos, mal vestidos e mal barbeados, que vieram lhe pedir, em nome de outro maluco, a mão de sua filha?

A vida nos levou para longe da rua Buarque de Macedo. Bastos foi parar em Brasília, onde se tornou diretor de jornal, proprietário de uma mansão e criador de cavalos de raça; prometia escrever uma história crítica da poesia brasileira mas ficou devendo.

Carlinhos veio a se tornar destacado cronista da imprensa carioca. E o pequeno sobrado de dona Hortência, anos depois, foi posto abaixo, arrastando consigo o nosso quarto com a pia e tudo o mais que de nós ficara impregnado naquelas paredes.

DANUZA LEÃO

A crise, socorro

E meu dinheirinho aplicado, que está derretendo? E o que eu tenho a ver com hipotecas das casas americanas?

A CRISE: alguém entende o que está se passando? Eu, não.

Na minha total ignorância sobre economia, sempre achei que, se alguém perde de um lado, alguém ganha de outro. Só que, pelo que tenho entendido, desta vez todo mundo está perdendo; é como se tivessem feito uma fogueira com quase todo o dinheiro que existia no mundo e tudo virado fumaça. Alguém deve ser o culpado, mas quem?

Outro dia vi numa vitrine uma sandália bem bonitinha, que nem cara era, e entrei para comprar. Mas lembrei da crise e fui para casa sem.

É bem verdade que não precisava dela, mas eu tinha (tenho ainda, só não sei por quanto tempo) condições de me dar este presente. Mas com a crise, nem sandália nem chocolate, nem nada que não seja essencial.

Mas, pensei, se ninguém comprar, as lojas vão fechar e muita gente vai perder o emprego. Então, o que fazer? Os tempos mudaram mesmo. Lembrei de Chanel, que dizia que a única coisa indispensável na vida é o supérfluo.

Voltei para casa meio deprê, mas é mais fácil lidar com a depressão quando se conhece a sua origem -no caso, a crise-, do que quando não se entende o que está se passando. Mas a crise, para mim, não passa de uma palavra, e que me enche de medo.

Se as pessoas pararem de comprar, não haverá razão para anúncios nos jornais e revistas, sem anúncios a imprensa vai acabar, e se acabar, todos os jornalistas ficarão sem emprego, começando por mim, claro. Ok, tenho um apartamento que posso vender e ir morar num conjugado, mas com a crise, quem vai ter dinheiro para comprar o meu?

Eu, que sonhava em ter uma velhice tranqüila, vou morar debaixo da ponte, isso é mais do que evidente. Procuro desesperadamente uma alternativa para o futuro, mas não encontro nenhuma; meus amigos devem estar na mesma situação, não tenho um emprego público, daqueles que dão estabilidade, e não sou do PT. Estou perdida.

Além de não entender a crise, também não entendo a mecânica da eleição americana. Se a maioria dos eleitores não é o que importa para eleger o presidente, já que são os delegados do colégio eleitoral que decidem, então para que eleição?

E quem escolhe esses delegados? Vou deixar para pensar nisso quando for uma sem-teto e não tiver mesmo nada para fazer.

E a fusão dos bancos? Eu gostaria, só por curiosidade, de saber quem teve a idéia e telefonou para o outro dizendo "que tal uma fusão entre nossos bancos?"

Teria o outro respondido: "que ótima idéia, vamos tomar um chope e conversar sobre isso"? Será que foi assim? E será que com a fusão vou ficar menos tempo na fila do banco? Ah, por que não sou prima, mesmo longe, de um Moreira Salles ou de um Setubal?

Voltando à crise: tudo começou nos Estados Unidos, com a história das hipotecas; seria o caso do dólar ir para o ralo, mas não: o dólar subiu no mundo todo. Dá para entender?

E meu dinheirinho aplicado que está derretendo, de quem é a culpa? E algum dia eu vou ter ele de volta? E o que é que eu tenho a ver com as hipotecas das casas americanas?

Este mundo está muito complicado; vou botar um tênis e dar uma volta na Lagoa para esfriar a cabeça. Aliás, é a única coisa que posso fazer de graça.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 8 de novembro de 2008



09 de novembro de 2008
N° 15784 - MARTHA MEDEIROS


Caça às bruxas

É uma cena clássica: o homem vê um belo exemplar de fêmea caminhando pela calçada. Ela está de costas pra ele. Um corpo ótimo, cabeleira até a cintura. Uma gatinha. Então ele passa por ela, vira para ver o rosto e surpresa: não é uma gatinha, é uma mulher de mais de 40 anos. De corpo ótimo e cabeleira até a cintura, e daí?

Daí que essa cena me parece meio macabra. Um homem maduro não se importaria, mas um garoto de 17 se sente enganado, já que se convencionou que mulheres, depois de uma certa idade, precisam tomar juízo e aparar as melenas, caso contrário, correm o risco de receber uma vassoura e um caldeirão de presente.

Ainda assim, mesmo com toda a campanha para que os cabelos subam à medida que o corpo cai, é um sacrilégio pedir que as mulheres tosem os cabelos por força da “adeqüação”. Ora, que os cortem por causa da moda, da tendência, da renovação, mas não por imposição social.

Legislando em causa própria de novo?

Pois é. Nasci carequinha, e carequinha fiquei por anos, apenas com umas mechinhas ralas, pífias, com as quais eu nada podia fazer. Na adolescência, o cabelo não era lá muito farto também. Não crescia. Eu olhava para aquelas meninas de cabelão liso, escorrido, brilhoso, e pensava que Deus não era justo. Foi mais ou menos nessa época que abandonei a Igreja e comecei a rezar pelo Capilax.

Mais tarde, só bem mais tarde, é que meu cabelo cresceu e apareceu, e eu fiz as pazes com o Senhor. Finalmente longo, eu podia fazer o que bem quisesse com ele, de rabo-de-cavalo a coque, mas eu quase sempre o deixava solto, e solto ele seguiu comigo. Hoje, não chego a ser uma rapunzel, mas ainda o mantenho abaixo do ombro.

Cortar não precisaria ser uma idéia torturante. Bastaria a gente se inspirar no que acontece no outro lado do mundo. Na Europa, o cabelo comprido foi abolido das cabeças femininas. Em Londres, não há uma única mulher com fartura capilar. Nenhuma. Todas elas possuem um visual moderno, limpo e atualizado. Não se avista uma única Perla num raio de mil quilômetros.

Cabelão é coisa de peruana, mexicana, brasileira. Os homens gostam, dizem. E a gente se apega, faz trança, joga para um lado, puxa para trás: um exagero de cabelo, bem a nosso gosto latino. Pra quê? Não é para manter a juventude, já que cabelo curto é que remoça. Só pode ser por amor às tradições. Apego ao passado. Culto à Iracema. Uma alma ancestral.

Ou é por covardia, mesmo.

Com que idade você acha que uma mulher deve se livrar das suas melenas históricas? Se você responder que nunca, eu pego minha vassoura e vou aí agradecer pessoalmente.

Excelente domingo, especialmente a você


09 de novembro de 2008
N° 15784- DAVID COIMBRA


Os diamantes da cidade

Zanzava pelas ramblas de Barcelona, certa feita, e tanto zanzei que precisava tirar a poeira da garganta. Comecei a procurar um bar. Há muitos bares às margens e sobre as ilhas das ramblas. Vi um que me pareceu o tipo de bar em que se pode beber uma cerveja gelada e quem sabe um saboroso prato de tapas.

Entrei. Pedi a cerveja e, oh, eu estava certo. Como é bom engolir três doze avos de um copo de cerveja quando ela está realmente gelada e quando você realmente precisa tirar a poeira da garganta...

Aí vi uns alemães.

Sabia que eram alemães porque eram grandes e vermelhos e loiros e, bem, falavam alemão. Estavam sentados em volta da mesa ao lado e também bebiam cerveja, como devem fazer os alemães. Só que bebiam nos maiores copos que já vi. Copázios corpo 48, do tamanho de vasos de samambaias. Eles bebiam e cantavam em alemão e brindavam e vez em quando exclamavam wolfrembaer com toda a força de seus pulmões germânicos.

Então, um deles fez algo que jamais esquecerei.

Assestou a caneca no queixo e começou a beber. E bebeu e bebeu e bebeu... tudo! Quantos litros havia naquele copão? Muitos. Decerto mais de dois. Talvez três. Ou até quatro. E o alemão bebeu o conteúdo inteiro do coparrão, sem que uma gota lhe respingasse no peito. Ao cabo do que ele ergueu o caneco vazio para o alto, feito um troféu, e gritou:

– Barceloooonaaaa!

Só que com sotaque alemão.

Saí do bar pensando que Barcelona é isso mesmo, uma cidade feita para a festa. “Feita” de verdade. Barcelona foi desenhada para a alegria. Suas ramblas largas como um estádio de futebol, sua orla marítima pontilhada de restaurantes e bares e museus, tudo foi planejado para o encontro das pessoas, para que elas convivam e se divirtam juntas.

Paris também foi planejada para o prazer, mas com um toque menos mundano do que Barcelona. As luzes amareladas, a arquitetura neoclássica ou até gótica, como no caso da Notre-Dame, dão à cidade uma aragem sofisticada. Paris é champanhe; Barcelona é cerveja. E não por acaso, mas por obra do urbanismo. Essas cidades são o que são de caso pensado.

O que é Porto Alegre? Eis a pobreza: Porto Alegre é obra do acaso. Não é uma cidade pensada para se caminhar, como o Rio; nem para o automóvel, como São Paulo. Porto Alegre, há tempo que ninguém pensa em como ela poderia ser.

Há apenas duas obras porto-alegrenses que distinguem a cidade do resto do mundo. E não são obras de pedra. São a Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal. A Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal são o melhor de Porto Alegre. O porto-alegrense há de preservá-los.

A vida subterrânea

Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados, com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões.

Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas.

Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.

Uau! O parágrafo acima é uma espécie de declaração de princípios dele, o Velho Buk. Está na abertura do conto “Colhões”, um dos diamantes de “Ao Sul de Lugar Nenhum – histórias da vida subterrânea”, edição L&PM, livro que o degas aqui indica para você, inteligente leitor, nesta Feira do Livro.


09 de novembro de 2008
N° 15784- DAVID COIMBRA


Os diamantes da cidade

Zanzava pelas ramblas de Barcelona, certa feita, e tanto zanzei que precisava tirar a poeira da garganta. Comecei a procurar um bar. Há muitos bares às margens e sobre as ilhas das ramblas. Vi um que me pareceu o tipo de bar em que se pode beber uma cerveja gelada e quem sabe um saboroso prato de tapas.

Entrei. Pedi a cerveja e, oh, eu estava certo. Como é bom engolir três doze avos de um copo de cerveja quando ela está realmente gelada e quando você realmente precisa tirar a poeira da garganta...

Aí vi uns alemães.

Sabia que eram alemães porque eram grandes e vermelhos e loiros e, bem, falavam alemão. Estavam sentados em volta da mesa ao lado e também bebiam cerveja, como devem fazer os alemães. Só que bebiam nos maiores copos que já vi. Copázios corpo 48, do tamanho de vasos de samambaias. Eles bebiam e cantavam em alemão e brindavam e vez em quando exclamavam wolfrembaer com toda a força de seus pulmões germânicos.

Então, um deles fez algo que jamais esquecerei.

Assestou a caneca no queixo e começou a beber. E bebeu e bebeu e bebeu... tudo! Quantos litros havia naquele copão? Muitos. Decerto mais de dois. Talvez três. Ou até quatro. E o alemão bebeu o conteúdo inteiro do coparrão, sem que uma gota lhe respingasse no peito. Ao cabo do que ele ergueu o caneco vazio para o alto, feito um troféu, e gritou:

– Barceloooonaaaa!

Só que com sotaque alemão.

Saí do bar pensando que Barcelona é isso mesmo, uma cidade feita para a festa. “Feita” de verdade. Barcelona foi desenhada para a alegria. Suas ramblas largas como um estádio de futebol, sua orla marítima pontilhada de restaurantes e bares e museus, tudo foi planejado para o encontro das pessoas, para que elas convivam e se divirtam juntas.

Paris também foi planejada para o prazer, mas com um toque menos mundano do que Barcelona. As luzes amareladas, a arquitetura neoclássica ou até gótica, como no caso da Notre-Dame, dão à cidade uma aragem sofisticada. Paris é champanhe; Barcelona é cerveja. E não por acaso, mas por obra do urbanismo. Essas cidades são o que são de caso pensado.

O que é Porto Alegre? Eis a pobreza: Porto Alegre é obra do acaso. Não é uma cidade pensada para se caminhar, como o Rio; nem para o automóvel, como São Paulo. Porto Alegre, há tempo que ninguém pensa em como ela poderia ser.

Há apenas duas obras porto-alegrenses que distinguem a cidade do resto do mundo. E não são obras de pedra. São a Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal. A Feira do Livro e a Dupla Gre-Nal são o melhor de Porto Alegre. O porto-alegrense há de preservá-los.

A vida subterrânea

Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados, com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões.

Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas.

Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.

Uau! O parágrafo acima é uma espécie de declaração de princípios dele, o Velho Buk. Está na abertura do conto “Colhões”, um dos diamantes de “Ao Sul de Lugar Nenhum – histórias da vida subterrânea”, edição L&PM, livro que o degas aqui indica para você, inteligente leitor, nesta Feira do Livro.


09 de novembro de 2008
N° 15784 - MOACYR SCLIAR


A conspiração dos objetos

Millôr Fernandes tem uma charge fantástica. Mostra um homem entrando em casa, e os objetos saudando-o: “Me liga”, diz a tevê, “Me acende”, diz o fogão, e assim por diante: uma alusão a um estilo de vida em que estamos rodeados de aparelhos, de dispositivos, de gadgets.

Na charge, a disposição dessas coisas é amável, ansiosa, até: querem ser postas a funcionar, portanto querem servir o seu dono. Infelizmente, porém, nem sempre é assim. Nem sempre os objetos que nos rodeiam mostram-se prestativos. Não raro a intenção deles é outra, e revela uma perversidade inimaginável.

Conspiram, os objetos. Comunicam-se entre si mediante imperceptíveis vibrações e é assim que tratam seus planos, sua estratégia para assumir o poder no domicílio. O elemento principal desta estratégia é a nossa desestabilização. Os objetos querem que percamos o controle emocional, que nos sintamos inseguros e, se possível, apavorados. E como é que eles fazem isso? Simples: eles se escondem de nós.

Os objetos tem esta extraordinária capacidade: eles somem. Não a tevê, claro, nem a geladeira, ou a cama; estes são prejudicados pelo tamanho. E talvez sintam também um pouco de afeto por nós. A cama, por exemplo, é testemunha de nossos sonhos, de nossos devaneios, de nossa paixão; a cama nos acolhe quando estamos cansados e quando estamos doentes. Compreensivelmente a cama hesita em nos sacanear.

Mas existem coisas que não têm para conosco a menor solidariedade. Objetos em geral pequenos. Quatro deles são particularmente sinistros, lembrando um pouco aquela Gangue dos Quatro que, numa época, dominou a China: chaves, caneta, óculos, tesoura.

As chaves são mestras em sumir. Mais: sabem sumir nas horas em que mais nos prejudicam. Se estamos com pressa, é certo que as chaves do carro darão um jeito de se tornarem invisíveis, e o mesmo se pode dizer das chaves da casa.

Caneta nem se fala, e isso nos obriga a ter várias delas. Os óculos mostram um pouco mais de respeito – afinal, estão ligados a atividades intelectuais – e se contentam em migrar para nossa testa. E as tesouras conseguem se introduzir nos lugares mais inesperados: debaixo de uma pilha de revistas, por exemplo.

O que fazer nessas situações? A primeira regra é: não perder a calma. Perder uma caneta pode ser um transtorno, mas perder a calma é um desastre. Canetas não são insubstituíveis. A segunda coisa é enfrentar. Querem guerra?

Terão guerra. Podemos recrutar colaboracionistas: outras chaves, outros óculos (tenho dezenas deles espalhados pela casa), outras canetas. Que, ao menos por algum tempo (até se contaminarem com o virus da revolta), estarão ao nosso lado.

Vamos para o combate, pois. Mesmo que nos derrotem, os objetos não nos subjugarão. Ao fim e ao cabo, podemos viver sem eles, como Adão e Eva no Paraíso. Aliás, eles ainda estariam lá – se não tivessem encontrado a árvore do fruto proibido.

Se esta árvore resolvesse sumir no meio das outras, o que bem poderia ter acontecido, os seres humanos ainda estariam no Jardim do Éden. Onde todo mundo andaria pelado e onde ninguém perderia nada.


09 de novembro de 2008
N° 15784 - PAULO SANT’ANA


O presságio da crise

Há no ar, entre as pessoas mais responsáveis, um mau presságio para 2009.

Será que a passagem do ano será marcada por nuvens sombrias a respeito da economia brasileira e mundial?

Estava tudo indo tão bem, agora mesmo se divulga que 2,4 milhões de gaúchos atingiram o número de trabalhadores com carteira assinada!

Apesar de um arrocho salarial nunca visto, em que centenas de milhares de servidores estaduais não têm reajuste em seus vencimentos – alguns, como na área da segurança pública, há 13 anos sem verem seus ganhos corrigidos –, o governo do Estado conseguiu a façanha de botar em dia as suas contas com os fornecedores.

E até parece que a governadora Yeda Crusius destinou R$ 200 milhões para pagar os abandonados precatórios!

Li que alguém importante perguntou como é que a governadora tinha obtido o milagre de tentar começar a pagar os precatórios.

Não é milagre: basta miserabilizar o funcionalismo público.

Não quero afirmar que a miserabilização dos funcionários estaduais é obra deste governo, todos sabemos que sucessivos governos estaduais jogaram o funcionalismo nesta situação de penúria e marginalização.

Mas não surpreende que haja até recursos para pagar precatórios, os governos perceberam que o segredo para manter um certo equilíbrio nas suas contas é esfolar o funcionalismo. O funcionalismo não tem mais voz e não tem mais reação.

Mas estávamos indo bem, todo mundo trabalhando, talvez não tendo ganhos animadores, mas dando para os gastos.

E de repente estourou esta crise financeira internacional que ameaça agora o Brasil.

Dizem que os efeitos espúrios dessa crise se derrubarão sobre a nossa economia nos próximos meses.

Mas como é injusta esta globalização! Nada fizemos como país e como cidadãos para pagar qualquer preço alto por esta crise.

E, no entanto, estamos todos ameaçados por ela.

Agora é que se vê que a par da competência do governo Lula, ele foi ajudado nos seis últimos anos pela serenidade dos mercados internacionais.

E, agora, inicialmente com otimismo por parte do governo no sentido de que a crise não atingiria o Brasil, vê-se, no entanto, que estamos na crista da onda dos problemas.

E vemos o nosso fim de ano, o nosso Natal e Ano-Novo assinalados pelos ruins presságios de que podemos ingressar num período de recessão e desemprego.

Se os Estados Unidos vão no rumo do fim de ano engolfados em grave e inédita crise econômica, imaginem nós, no Brasil!

Que coisa chata este presságio.

E só resta rezar para que ele não se materialize.


08 de novembro de 2008
N° 15783- NILSON SOUZA


Seu Quimbinha

O jardineiro do meu bairro é mais conhecido por sua capacidade de puxar conversa com qualquer pessoa que passe por perto do que propriamente pelo seu nome. Na verdade, pouca gente sabe como ele se chama. Mas não há quem não tenha ouvido por vários minutos suas histórias intermináveis. Ele adora falar. Se vê alguém passando do outro lado da rua, logo põe de lado a tesoura de podar e parte para o monólogo, pois nem dá tempo para o interlocutor responder.

O que ele quer – e talvez seja também o que a maioria de nós ambiciona – é ser ouvido. Na impossibilidade de sequer perguntar o nome do homem, meu sobrinho apelidou-o de Seu Quimbinha.

Sei lá de onde tirou o apelido, mas acredito que também essa reação vem de uma necessidade atávica que temos de dar nome às pessoas com as quais nos relacionamos e também às coisas que nos rodeiam. “Faça-se a luz” – disse o Deus bíblico. Mas a luz só se fez quando ele a chamou de Dia e às trevas de Noite. E assim ele foi criando e nomeando as coisas que criava, os animais, as plantas, o mar, a terra, as estrelas, as flores e os jardins, que Seu Quimbinha cuida com tanto carinho.

Temos necessidade de saber o nome das coisas para conviver melhor com elas. Quando não sabemos, inventamos. Somos especialistas, por exemplo, em apelidar nossos semelhantes. Mas também nomeamos objetos, situações e até mesmo as piores ações humanas, como as guerras.

Quem não lembra da Tempestade no Deserto? Ou do Dia D? Pois diante desta explosão de criatividade, soa meio como Polícia do Pensamento a tentativa do presidente do STF de boicotar os imaginativos nomes que a Polícia Federal dá às suas operações.

Tudo bem que ele condene excessos no uso de algemas ou de escutas telefônicas. Mas emitir uma sentença contra a criatividade é um pouquinho demais, mesmo para um ministro da Corte Suprema.

E os tituladores da PF têm se revelado mestres na arte de nomear suas operações. Só neste ano de 2008, já tivemos pérolas como Arco de Fogo, Desvio Químico, Integrada Afrodite, Telhado de Vidro, Pinóquio, Fariseu,

Pasárgada, Auxílio-Sufrágio, Neve no Cerrado, Serpente Negra, Bicho Mineiro, Psicose, Linha Cruzada, Arca de Noé, Data Venia, Estranho no Ninho, Alienígena e Cana Brava, entre dezenas de outras.

É matéria para as conversas de Seu Quimbinha, não para o Supremo.8


08 de novembro de 2008
N° 15783 - O PRAZER DAS PALAVRAS | CLÁUDIO MORENO


Veado

1. Na roda de chimarrão, alguém pergunta se a bomba de mate tem alguma relação com a bomba que manda tudo pelos ares. Pois não tem; bomba tem dois significados completamente diferentes, dependendo de sua origem, já que por trás desta forma, no Português, escondem-se dois vocábulos de som e grafia idênticos, mas com sentido e origem completamente diversos.

O primeiro, que designa um “artefato explosivo”, vem do latim bombus (“estouro, explosão”) e está presente em todas as língua modernas: bombe (fr.), bomba (it. e esp.), bomb (ing.); até o início do século 19, bombeiro era o soldado especialista em fazer e atirar bombas.

O segundo vem da raiz holandesa pompe, a mesma que aparece no inglês pump e no francês pompe, e significa “dispositivo para aspirar e expelir líquidos” – ou, como define o pitoresco Morais em seu dicionário (1813), “máquina que anda sobre rodas e tem grande canudos para se aguar algum lugar, de que se usa para apagar fogos”. Foi deste radical que derivou-se o atual bombeiro, tanto para designar o membro de um corpo organizado para o combate a incêndios, quanto o encanador, especializado em bombas e em encanamento.

2. Um amigo do peito me envia a cópia xerográfica de um artigo de etimologia que “prova” por A mais B que península vem de pênis. “Lê isso e vê se não é coisa de maluco!” – é o recado que vem na margem. Eu já tinha ouvido falar nessa etimologia de cacaracá, mas pensei que fosse piada! Desde quando todas as penínsulas têm a forma de um pênis? A da Flórida até pode ser, mas a da Itália, por exemplo, parece uma bota; a Ibérica, a pele de um urso...

Evidentemente, não é o radical de pênis que está aí, mas sim pen(e), um importante elemento latino, sempre anteposto, que significa “quase”. A península é quase uma ilha (insula, no Latim), da mesma forma que a penumbra é quase sombra (umbra) e o penúltimo é quase o último.

Se esse autor de meia-tigela, se esse etimologista de meia-pataca lesse mais o dicionário, acabaria encontrando penipotente (“que tem as penas ou as asas poderosas”) ou peniomania (“distúrbio psíquico em que a pessoa se julga reduzida à mais completa penúria”) – e lá viriam asneiras do mesmo quilate.

3. Finalmente, um leitor um tanto mal-humorado escreve para advertir que, ao contrário do que ando dizendo por aí (?), veado e viado são duas palavras diferentes, com origem e significado diverso.

Em tom professoral, este catedrático das nuvens começa por informar que veado é um mamífero da família dos cervídeos, que inclui também os cervos, os alces e as renas, enquanto viado é uma denominação pejorativa para o homossexual masculino, nascido do truncamento do adjetivo transviado. E conclui: “Como um viado não obedece os mesmos padrões comportamentais de um homem heterossexual, podemos realmente dizer que ele se transviou, fugiu de uma norma”.

Ora, ora, caro amigo, eu diria que estás equivocado. Eu vivi intensamente os anos 60 e o vocábulo transviado jamais – repito – jamais teve qualquer relação com o homossexualismo; a única relação que o termo teve com o sexo foi a idéia (em muitos casos, simples fantasia) de que os transviados viviam num eterno fórum sexual mundial, onde ninguém era de ninguém e o amor era livre e gratuito.

O “transviado” típico era baseado na figura de Marlon Brando do filme O Selvagem (The Wild One) e nos personagens do filme Os Trapaceiros (Les Tricheurs), de Marcel Carné: jaqueta de couro, motocicleta, óculos escuros, t-shirt, baseados de maconha, etc., aliados à rebeldia e à contestação dos costumes vigentes. No Brasil, o termo adquiriu uma carga quase criminosa, principalmente pelo famoso processo de Aida Cúri, a pobre moça que se atirou do alto de um edifício em São Paulo para evitar ser currada – outra palavra que passou a integrar o campo semântico dos “transviados”.

Para teres uma idéia, o filme de Nicholas Ray, Juventude Transviada, com James Dean, era rigorosamente proibido para menores de 18 anos por temerem, as autoridades, que o tal comportamento viesse a se disseminar entre os nossos jovens da classe média.

O teu maior equívoco foi interpretar um mero fato fonológico (a pronúncia /viado/ – a única, aliás, possível para veado, no Português Brasileiro) como um suposto truncamento do vocábulo transviado, que, como vimos acima, nunca se relacionou semanticamente com o homossexualismo.

Veado, com este sentido, aliás, vai se alinhar com certos animais femininos, a bicha, a paca e a marreca, usados depreciativamente para o mesmo fim.

Se insistires nesta tese – não por acaso, rejeitada por Aurélio e Houaiss –, vais ter de explicar por que, neste vocábulo específico, o truncamento eliminou o primeiro elemento (trans) e não o segundo, que é o mecanismo morfológico conhecido no Português: foto[grafia], moto[cicleta], micro[computador], cine[ma], bisa[vó], bici[cleta] e tantos outros. Vais ter um trabalho e tanto!


08 de novembro de 2008
N° 15783 - A CENA MÉDICA | MOACYR SCLIAR


Queixas de médicos

Recebi, via internet (esta verdadeira caixa de ressonância da nossa cultura), um curioso texto intitulado “Como enlouquecer um médico em 12 lições”. Contém coisas do tipo: “Comece a consulta reclamando da demora, mesmo que tenha sido atendido rapidamente.

Depois, diga ao médico que ele é o 13º que você procura e que você só quer mais uma opinião, pois não confia muito em médico. Diga também aquela frase clássica: ‘Cada médico fala uma coisa’”. E: “Nunca responda diretamente às perguntas. Caso ele pergunte se você teve febre, diga que teve tosse.

Conte tudo detalhadamente, começando, se possível, desde quando você ainda era criança”. Ou ainda: “Leve sempre três crianças com você (nem precisam ser seus filhos), especialmente aquelas que mexem em tudo, sobem nos móveis, ficam fazendo perguntas no meio da consulta. Combine previamente com uma delas para quebrar o termômetro do médico”.

Querem mais? “Quando o médico estiver se despedindo de você, na sala de espera, diga bem alto, para outros ouvirem também: ‘Vamos ver se agora o senhor acerta!’” E, ao voltar: “Inicie com: ‘Estou pior do que antes’. Aproveite para incluir, no relato, novas queixas. Diga que você passou por um farmacêutico, muito antigo e muito conceituado no bairro onde sua tia mora, e ele resolveu trocar os remédios”.

Uma alternativa para o consultório: “Descubra onde seu médico dá plantão à noite, e só passe a procurá-lo lá. Dê preferência a hospitais públicos, onde ele não ganha por ficha de paciente”. O coroamento: “Diga que não concorda nem com o diagnóstico nem com os medicamentos que ele está indicando. E que você tem a sorte de ter um farmacêutico amigo”.

O texto, como muitos outros que circulam na rede, é anônimo. Mas certamente foi escrito por um médico ou por alguém que está muito familiarizado com a prática médica, porque se refere a situações reais, a problemas que provavelmente incomodam muitos profissionais. Mas a maneira como isto é feito preocupa. Porque sugere uma situação de latente hostilidade entre médicos e pacientes. E isto, numa situação em que todos os esforços devem convergir para um objetivo comum, é, para dizer o mínimo, preocupante.

O médico sabe como deve atender o paciente. Pelo menos é treinado para isso nas escolas de medicina. Pergunta: deveria ser o paciente também “treinado” para consultar o médico?

Indagação mais que pertinente: com as pessoas cada vez mais informadas (inclusive pela internet), não são poucos aqueles que vão ao consultório já com dúvidas e perguntas, às vezes escritas num pedaço de papel (era o famoso “malade au petit morceau de papier” dos clínicos franceses). Mas, a julgar pelo texto, providências, quando tomadas, mais atrapalham que ajudam. Que fazer, então?

Nenhum paciente precisa receber um curso sobre como consultar o médico. Mas seria muito útil se o paciente soubesse aquilo que o médico espera dele para ajudar no diagnóstico e no tratamento. Quem pode transmitir estas informações ao paciente?

Só o próprio médico. Não se trata de estabelecer regras, não se trata de 12 lições; trata-se apenas de informar, com franqueza, precisão e sobretudo afeto, aquilo que ajuda e aquilo que atrapalha. E aí certamente textos anônimos sobre o assunto não precisarão estar circulando por aí.


08 de novembro de 2008
N° 15783- PAULO SANT’ANA


Experiência própria

Uma negra me escreveu aproveitando-se da oportunidade da abordagem do assunto racismo em minhas colunas:

“Caro jornalista Paulo Sant’Ana. Quero agradecer pelas tuas crônicas sobre o racismo, veiculadas nesta semana no jornal Zero Hora. Envio-te um breve desabafo que procura analisar o assunto sob a ótica de alguém que sofre ‘na pele’ o mal do preconceito racial:

Não vou dizer que ser negra foi a razão para meus insucessos. Mas posso afirmar que contribuiu. Desde bebê, passei por situações que não teria passado se fosse branca. Resolvi tornar públicas minhas inquietações no exato momento em que um negro venceu o Campeonato de Fórmula-1 e outro foi eleito presidente dos Estados Unidos.

Artistas, atletas de outras modalidades que não o futebol e modelos venceram o preconceito, conseguindo sucesso na carreira. Porém, ainda há muito por fazer, ainda há muito chão para percorrer.

Hoje em dia é fácil encontrar uma revista ou um programa com negros. Mas quando eu era criança isso era raro. Cresci me achando feia, porque meu corpo não se enquadrava no padrão estético; este padrão era de pessoas brancas. Nos meios de comunicação, não apareciam negros; era como se nós não existíssemos.

Em menina, minha mãe mantinha meu indomável cabelo curtinho. Quando cresci, passei anos usando produtos para mantê-lo artificialmente liso. Uma tia prendia meu nariz com prendedor de roupa, para o afinar. Usei cores de maquiagem que não combinavam com o tom de minha pele, simplesmente porque não havia opções.

Além disso, tentava disfarçar minhas ancas largas e minhas nádegas protuberantes, próprias de mulheres negras, com blusas e calças largas. Enfim, eu tentava me embranquecer para ser aceita na sociedade. Por isso eu entendo o Michael Jackson e não o julgo.

Talvez, se eu tivesse seu poder aquisitivo, teria tentado modificar minha aparência; não para ficar mais bonita, mas para ser feliz. Como não tenho sua conta bancária, com o passar dos anos acabei me conformando.

A experiência me mostrou que ser negro não é só uma questão de cor da pele, mas de atitude; não adiantaria eu mudar por fora, se por dentro eu continuaria negra. Sim, porque ser negro não é só uma questão de melanina, mas de consciência. A gente passa por tanta coisa, que a cabeça fica diferente; eu posso afirmar isso por experiência própria, pois não sinto e vejo o mundo como uma pessoa branca. Simplesmente, não acontece. Grata pela atenção. (ass.) Maria José Silva Penny (http://penny-pennyblog.blogspot.com/)”.

Mais esta: chamaram-me a atenção para o fato de que nas invasões do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não figuram negros, nem nas fazendas invadidas, nem nos acampamentos.

Será que os negros não procuram o MST ou se sentem rejeitados em seu seio?

Ou simplesmente não é da tradição negra a agricultura?

Mas e os quilombolas?

Mas não me sai da cabeça o cirurgião plástico e negro Lindo Cristaldo. Este homem talvez tenha muita história para contar. Sua experiência para chegar à condição de médico e cirurgião plástico deve ter sido empolgante.

E está se formando também em cirurgia plástica a sua filha.

São uns heróis estes negros que se destacam. Mas o interessante é que a maioria deles afeta não haver preconceito racial no Brasil. E logo oferecem como exemplo as suas pessoas.

Compreensível.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008



NOVA BIBLIOTECA

Um texto sobre uma biblioteca, no meio da Feira do Livro, deve começar citando Borges: a biblioteca não é infinita.

Se realmente fosse, para que essa duplicação? Hoje, a PUCRS inaugura a sua nova biblioteca, 'a mais avançada da América do Sul'. Está maravilhosa. A velha biblioteca, duplicada, multiplicada, transfigurada, surge como uma nova e extraordinária biblioteca.

Não creio que tenha a ver com a descrição feita pelo grande escritor argentino da Biblioteca de Babel, 'um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais'. Tem a ver com uma concepção moderna de ocupação do espaço e de relacionamento entre o usuário e o acervo.

Em 21 mil metros quadrados e 14 pavimentos, repletos de tecnologia, o livro continua a ser rei, no seu espaço sagrado, onde, contudo, o leitor é convidado a ser soberano. Se a biblioteca não é materialmente infinita, o que obriga a ampliações recorrentes, deve ser ilimitada, pois, de certo modo, é um imaginário, o ponto de acesso ao infinito das idéias, das histórias e do conhecimento.

É maravilhoso constatar que na era do virtual ainda se erguem bibliotecas concretas. O acesso, porém, ao catálogo já pode ser realizado à distância.

A biblioteca do presente e do futuro alia o presencial e o virtual, o contato com o papel e a digitalização, as pessoas ocupando salas de convívio e, como internautas, navegando no imaterial em busca de idéias cujos suportes nunca pararam de variar e de perder peso. Borges referiu-se a uma teoria geral da biblioteca.

Citou uma região onde os bibliotecários recusariam a supersticiosa idéia de buscar sentido nos livros.

Quando uma biblioteca, como a da PUCRS, se espicha em busca de espaço e de conforto, abrigando obras raras e documentos preciosos, dotando-se de computadores e de motores de busca para que se possa localizar a informação tão procurada o mais rápido possível, renova-se o desejo de saber, do saber, do sabor.

Sim, uma biblioteca é um labirinto que começa em escadas, elevadores, corredores, passa por estantes e salas, entra nos livros e nunca mais termina. Esse é, certamente, o mistério da palavra escrita e dos livros.

Ao completar 60 anos, a PUCRS presenteia a sua comunidade com uma grande biblioteca.

Como professor da casa e freqüentador encantado dos vãos e desvãos cercados de livros da biblioteca, em busca do que sei e do que nunca saberei totalmente, sinto-me na obrigação de felicitar a universidade. A nova biblioteca está tão boa que chega a ser perigosa.

Cada vez que se entra lá, dá vontade de ficar, folheando um livro aqui, outro ali, vagando de um andar ao outro, pedindo documentos sobre nossa história, aprendendo sem nunca cansar.

De repente, pode acontecer um sumiço, como num conto de Borges, de todos os professores e alunos, abduzidos, não por discos voadores, mas por livros, um a um sumindo como Alice num país de maravilhas. As bibliotecas merecem veneração.

Borges termina a sua narrativa 'A Biblioteca de Babel' de uma maneira evocativa: 'A biblioteca é ilimitada e periódica.

Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem).

Minha solidão se alegra com essa elegante esperança'. A minha melancolia se alegra com a elegante esperança de freqüentar por muitos anos a nova biblioteca sabendo que um mesmo livro é sempre outro a cada vez que o abrimos.

juremir@correiodopovo.com.br

Editorial - Cpovo

A MELHORIA DO AR NO BRASIL

O país, mesmo contabilizando algumas boas iniciativas ambientais, precisa reduzir urgentemente os índices de poluição do ar disponível para a população das grandes cidades.

A declaração é do médico e coordenador do Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Carlos Dora, participante do Seminário Internacional Políticas Públicas e Padrões de Qualidade do Ar na Macrometrópole Paulista, que ocorre em São Paulo.

Para o especialista, isso poderá ser feito melhorando-se a qualidade do sistema de transporte público, o qual poderá contribuir decisivamente para as quedas dos níveis de degradação do ar e do meio ambiente. Na palestra, citou a cidade de Bogotá, que implementou um sistema com ônibus de alta capacidade circulando em corredores exclusivos.

Aliás, esses corredores há muito já são utilizados na capital gaúcha, mas tal iniciativa não é regra em grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde os engarrafamentos são constantes e quilométricos.

O palestrante alertou também para a estreita ligação que existe entre doenças e poluição do meio ambiente, que acabam levando a um desequilíbrio no sistema público de saúde.

Muitas dessas patologias poderiam ser evitadas apenas com medidas preventivas de caráter ambiental. O homem é produto do meio e, se o meio estiver debilitado, o ser humano também sentirá os reflexos dessa equação mal resolvida, somatizando moléstias.

Para a OMS, o ar considerado limpo é aquele que pode conter até 20 microgramas (mcg) de poeira dispersa no ar por metro cúbico.

A região Metropolitana de São Paulo apresenta números de 50 mcg por metro cúbico, mais que o dobro do recomendável.
Outros setores, além do transporte, devem ser incentivados a participar desse esforço em prol da melhoria das condições atmosféricas nos grandes conglomerados urbanos.

Entre eles, estão a construção civil e a indústria. Seria aconselhável que essas áreas pudessem receber financiamentos de instituições oficiais para atualizar sua logística e equipamentos.

Estatísticas dão conta de que 1 milhão de pessoas morrem por ano no mundo em razão da poluição. Reduzir essas mortes também no Brasil é uma tarefa inadiável.

Aproveite a sexta-feira e um excelente fim de semana para todos nós.


07 de novembro de 2008
N° 15782 - PAULO SANT’ANA


Um só, em Viamão!

Evidentemente que iriam aparecer cirurgiões plásticos negros e síndicos negros, depois que escrevi ontem que eles não existem ou são raros.

Apareceram dois, um síndico negro; um outro cirurgião plástico negro. E me mandaram notícias sobre a existência deles:

“Professor Paulo Sant’Ana. Ao adentrar no edifício onde resido, fui alertado pelo porteiro (senhor Jorge) de que lera em sua coluna na Zero Hora que você dará um presente para quem apontar o condomínio que tiver um negro como síndico. Acontece que no meu edifício o síndico é negro, bancário e torcedor.

O edifício localiza-se na Avenida Princesa Isabel, 57, Bairro Azenha, prédio onde o seu contador Moresco tinha escritório. Fone do porteiro 3219-9570. Abraços, (ass.) Ribeiro”.

E o próprio cirurgião plástico: “Paulo Sant’Ana. Fiquei surpreso ao ler sua coluna da Zero Hora do dia 6 de novembro de 2008 sobre racismo.

Venho informá-lo de que médicos negros existem, sim! São poucos, mas felizmente não são inexistentes como afirmaste.

E sua frase: ‘Cirurgião plástico negro, nunca haverá no Brasil’. Sou negro, médico cirurgião plástico há 20 anos em Porto Alegre. Meu consultório fica no Centro Clínico da PUC, no mesmo prédio, inclusive, onde o senhor consulta.

Tenho uma clínica de cirurgia plástica nesta cidade, sou vereador em Viamão com dois mandatos, presidente da Comissão de Saúde e vice-presidente da Câmara Municipal de Viamão.

Minha filha, doutora Karina Cristaldo, também negra, é médica e está fazendo residência em cirurgia plástica no Hospital da PUC.

Sou leitor assíduo da sua coluna e fui procurado por pacientes, colegas, amigos, parentes e funcionários, então lhe escrevo para esclarecer e peço que, na condição de formador de opinião, repasse esta informação aos seus leitores. Atenciosamente, (ass.) doutor Lindo Cristaldo, CRM 11801, cirurgião plástico e gremista de coração”.

Passo agora a responder ao cirurgião plástico Lindo Cristaldo, negro e gremista. Doutor, eu não escrevi que não existiam médicos negros. Eu escrevi que eram raros. Tenho até um amigo de infância, o Francisco Teles, que é médico e negro, grande figura, o Chiquinho. Mas veja o seguinte.

Por sinal, seu nome, Lindo Cristaldo, cirurgião plástico, vai pra coleção do Moacyr Scliar de nomes que condicionam profissões.

Ocorre, no entanto, doutor Lindo Cristaldo, que a sua digna e operosa existência não desmente minha coluna de ontem. Eu escrevi que não havia cirurgiões plásticos negros. E não há cirurgiões plástico negros.

Há um só cirurgião plástico negro. Um só. Isso consagra a minha coluna de ontem. Porque eu queria que houvesse mil cirurgiões plásticos negros, assim como os há, aos milhares, brancos.

Mas existe um. Pelo menos um, o senhor. Não é pouco, doutor Lindo Cristaldo? Não, não é pouco. O senhor é o bastante. Mas só que pra minha tese e afirmação é pouco.

Síndico negro também apareceu um. Eu escrevi que quase não havia. E havia um. É muito pouco.

Foi isso que quis dizer, que eram poucos.

O senhor sabe que não apareceram os psicanalistas negros. Eu escrevi que não havia. Mas devem existir. Bem como eu escrevi, poucos, um aqui, outro ali.

O senhor achou que porque existe um cirurgião plástico negro a minha tese estava desmoralizada? Não, doutor, a minha tese ficou consagrada.

Eu queria ver cirurgiões plásticos negros às pamparras, jornalistas negros às mancheias, síndicos negros de montão.

E existe apenas meia dúzia de gatos pingados.

O senhor, doutor Lindo Cristaldo, elevado exemplo, é o meu exemplo.

Que coisa boa que o senhor existe, doutor Lindo. E que má coisa que não existam outros, centenas de outros como o senhor.

Apareceu um! Que milagre! Em Viamão!

Mas que coisa aconteceu na manhã de ontem em Farroupilha. Dois assaltos a banco. Uma quadrilha armada até os dentes e mascarada transformou o centro de Farroupilha em praça de guerra, com uma fuzilaria espantosa, fuga, reféns, a polícia enfrentada à bala pelos assaltantes!

Onde é que estamos? Onde é que estamos?


07 de novembro de 2008
N° 15782 - DAVID COIMBRA


O lema de Fogaça

Fogaça reelegeu-se prefeito de Porto Alegre com um lema absurdo, do ponto de vista da lógica:

A mudança tem que continuar. Ora, mudança e continuidade são conceitos antônimos. Ou algo bem muda, ou bem continua.

Fogaça era candidato da situação. Logo, defendia a continuidade. Ele queria continuar prefeito. Mas seus marqueteiros sabiam de sobejo que, no Brasil, qualquer candidato a qualquer cargo tem que se apresentar como agente da mudança, ou não se elege.

Como destrinçar esse novelo eleitoral? Os tais marqueteiros, com boa competência, resolveram o problema cometendo um contorcionismo no verbo: prometendo que tudo seria diferente, se ficasse igual.

Agora, justiça se faça: a ânsia pela novidade não é só brasileira. Nos Estados Unidos, Barack Obama elegeu-se presidente debaixo do slogan “sim, nós podemos mudar”.

E o tão citado “desejo de mudança” identificado pelos publicitários não palpita só na política. Já ouvi consultores paulistas ensinando que uma pessoa, quando está há muito tempo exercendo a mesma função em uma empresa, tem de ser incentivada a mudar, ou ser despedida, ainda que se trate de excelente funcionário.

É para dizer essas coisas que os consultores paulistas ganham milhares de dólares dos empresários provinciais.

As mulheres também. Volta e meia elas miam:

– Aaai, minha vida está tão iguaaal... Tudo tão chato... Preciso de uma mudança...

O próximo passo é ela pintar ou cortar radicalmente o cabelo. Em seguida, passará a arder-lhe no peito arfante o fogo da infidelidade.

Mudança. As pessoas clamam o tempo todo por mudança. Nem sempre foi assim. A aflição pela novidade é um sentimento criado pelo capitalismo em meio ao século 19. Conheço mulheres que têm mais de cem pares de sapatos.

Conheço homens que trocam de celular a cada seis meses e de carro a cada ano. Precisa? Eles acham que sim. Por quê? Porque alguém disse a eles que sim. Quem? Marqueteiros do quilate dos assessores de Fogaça.

Esta semana mesmo, para que a roda do capitalismo brasileiro continue girando, Lula anunciou R$ 4 bilhões aos bancos das montadoras de carros. O problema é que não existe mais lugar nas cidades para tanto carro.

E o consumo é tamanho, de tudo que há, que os recursos do planeta estão se extinguindo. O capitalismo está chegando ao seu limite – algum dia haveria de chegar.

Em pouco tempo, o mundo inteiro terá de adotar o slogan de Fogaça, só que invertido: a mudança será a não-mudança. As pessoas terão de mudar, transformando-se em conservadoras. Terão de manter-se como estão, repetir-se, não fazer. Repelir o novo, enfim. Será difícil. Mas também será irrevogável.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008



O QUE É AMAR ???

Você já percebeu que quando nos APAIXONAMOS por algo nesta vida, o nosso sentido de viver opera milhões de transformações na gente.

Como é bom se APAIXONAR pelo trabalho, pelas novas conquistas, pelos amigos, pelos nossos irmãos, pela nossa amada, pelos nossos pais, pelos nossos sonhos de felicidade, pelos nossos filhos, enfim, por tudo...

Quando abrimos o coração para o mundo que está em nossa volta, perpetuamos o que há de mais valoroso existe neste universo. O NOSSO AMOR. Aproveite o dia hoje para se apaixonar por algo novo e vibrante.

No final do dia você verá que teve a oportunidade de ser uma grande pintora, pois uma aquarela de tintas foi colocada em suas mãos e você soube muito bem aproveitar.Vá em frente nesta semana!

Amar é alguma coisa que cresce dentro da gente, aos pouquinhos, sem que a gente consiga entender ou explicar.

É um sentimento que faz com que o coração da gente bate mais forte , bata diferente quando se está com determinada pessoa. Alguma coisa que faz com que a gente esqueça do resto e queira ficar mais perto e sempre só com ela.

E a gente percebe que essa pessoa é a mais importante de todas e se vê pensando nela muitas vezes..Ah doce e inesquecível amiga. Surge uma mistura de carinho, amizade, tesão, confiança, respeito. É acreditar que a gente é única pra essa pessoa e saber que ela acredita que é única pra gente.

É confiar que essa pessoa não vai nos trair. É sentir que alguém compartilha da vida da gente, que se importa com o que a gente faz e que gosta que a gente também se importe com o que ela faz.

Algumas vezes isso até pode ser confundido com cobrança. mas não existem cobranças quando duas pessoas compartilham um momento, uma alegria, uma vida

É um sentimento de orgulho e respeito por aquilo que a outra pessoa faz, pelo que ela é como gente. É ser capaz de enfrentar um mundo em defesa dessa pessoa, mesmo que pra outras ela pareça não ser aquilo que você acredita que ela seja.

Algumas vezes pode acontecer que a gente enxergue a pessoa da forma que a gente quisesse que ela fosse e transforme a realidade numa realidade nossa, talvez pelo amor que se tem por ela.

Amar não é apenas ter desejo sexual, que embora exista, não é a única coisa mais importante. Mas há que haver tesão e uma vontade enorme de estar um nos braços do outro, o bastante e o suficiente pra que não se sinta vontade de estar nos braços de outro alguém.

Amor sem tesão é uma grande amizade, apenas isso. E quando há apenas tesão, se dilui rapidamente por não haver cumplicidade e sentimentos envolvidos.

Amor é aceitação, mas não submissão. Se existe submissão não pode haver amor, cada pessoa mesmo extremamente apaixonada deve ter sua própria vontade, seus próprios desejos que são aceitos e se amoldam a alguém que ama.

Amar faz com que a gente esqueça tudo que já passou e tenha vontade de enfrentar qualquer coisa, é uma entrega, um desvendar de mistérios que parece nunca ter fim. É não ter medo, nem receio de que nada não vá dar certo.

É se sentir homem, criança, gente importante quando está com a outra pessoa e ter certeza que a outra se sente assim perto da gente.

É ter vontade de rir de repente, sem muito motivo às vezes, e de chorar de um sentir repentino, é não ter vergonha do que se é, nem de como se é porque se sabe que isso não é tudo para outra pessoa.

Amar nem sempre significa que é um sentimento que exista na pessoa que o coração da gente escolheu.

E quando se sente isso, tenta-se lutar da forma que se sabe querendo conquistar o outro coração, com receios, medos, incertezas ... É um amor que dói dentro da gente, e a gente se apega a um minuto de felicidade para ter forças para não desistir.

Nem sempre é um amor possível por circunstâncias da vida talvez, por dificuldades difíceis de se superar, e quando se sabe disso é um sentimento angustiante.

Sofrido, por não se saber como arrancar de dentro da gente aquilo que se enraizou e teima em não sair de lá, embora não se ache caminhos nem soluções. Ah que fadiga e que estresse isso proporciona.

Existe um outro amor, um sentimento de amor não conhecido antes da era do computador, o amor virtual.

Algumas vezes tão ou mais forte que um amor real e não menos real porque envolve pessoas que são gente e através do seu computador se apaixonam por alguém.

É alguma coisa diferente que faz com que pessoas que algumas vezes nunca se tocaram tenham sensações reais e sintam falta da outra pessoa e inexplicavelmente um amar surge do nada e mexe com o coração da gente e faz a gente pensar: o que é o amor afinal?? O QUE É AMAR??

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Caixa lucra R$ 723 milhões no 3º trimestre

Valor é dez vezes maior que o de igual período de 2007, quando cresceu inadimplência na carteira de crédito

A Caixa Econômica Federal lucrou R$ 723 milhões no terceiro trimestre do ano, valor dez vezes maior do que o apurado no mesmo período de 2007.

Mesmo com o crescimento, o resultado ainda fica distante dos números alcançados pelos principais bancos privados do país -Itaú e Bradesco tiveram, respectivamente, ganhos de R$ 1,848 bilhão e R$ 1,910 bilhão no trimestre passado.

A forte variação ocorrida em relação ao lucro de 2007 é explicada pelas perdas que a Caixa teve no ano passado com o aumento da inadimplência de sua carteira de crédito, especialmente nos empréstimos para micro e pequenas empresas.

O atraso nos pagamentos chegou a atingir 7,6% dos financiamentos a pessoas jurídicas no ano passado, mas em outubro essa proporção havia recuado para 2,8%.

Entre janeiro e setembro, a Caixa lucrou R$ 3,266 bilhões -mais 90% em relação ao ano passado. Esse resultado, porém, se deve a fatores isolados ocorridos no primeiro semestre deste ano, como a utilização de R$ 820 milhões em crédito tributário, que inflou o lucro do segundo trimestre na mesma proporção.

Se fosse descontado esse artifício contábil, o lucro da Caixa teria crescido 30% entre janeiro e setembro deste ano. Para a presidente da instituição, Maria Fernanda Ramos Coelho, os números foram positivos e refletem, principalmente, o crescimento da carteira de crédito do banco.

Mais crédito

No terceiro trimestre deste ano, o saldo de empréstimos concedidos pela Caixa subiu 8,8% em relação ao trimestre imediatamente anterior, elevando o volume liberado para R$ 69,2 bilhões.

Desse total, R$ 40,9 bilhões correspondem a operações de financiamento habitacional, que tiveram crescimento de 4,6% no trimestre.

O vice-presidente de Controle da Caixa, Marcos Vasconcelos, diz que a expansão de crédito do banco é conseqüência de um esforço maior em aumentar os negócios com grandes empresas.

Em meio à crise de escassez de crédito, o executivo divulgou números de outubro para tentar mostrar que, na Caixa, a liberação dos recursos continua normal.

No mês passado, segundo Vasconcelos, a Caixa liberou cerca de R$ 4,5 bilhões em financiamentos a empresas, maior valor já alcançado pelo banco em um único mês e aumento de 80% em relação à média mensal, de R$ 2,5 bilhões, observada entre janeiro e setembro deste ano.

As receitas obtidas com a cobrança de tarifas também se mantiveram em alta. Entre julho e setembro, a Caixa faturou R$ 5,519 bilhões com a prestação de serviços bancários, 4,3% a mais do que no trimestre anterior.

Aquisições

Dias depois de anunciada a fusão entre Itaú e Unibanco, o vice-presidente de Finanças da Caixa, Marcos Percival, disse ontem que o banco estatal pretende usar a permissão concedida por medida provisória editada pelo governo no mês passado para comprar outras instituições financeiras, mas não quis revelar nomes de possíveis bancos que interessariam à Caixa.

"No Brasil, vai haver um processo de concentração semelhante ao que está acontecendo lá fora. Todos os bancos vão ter de se preparar para essa maior concorrência, e com os bancos públicos não vai ser diferente", afirmou.

Ele também disse que, desde o mês passado, a Caixa já fechou a aquisição de cerca de R$ 2,2 bilhões em carteiras de empréstimos mantidas por outros oito bancos, numa ação que tem sido estimulada pelo Banco Central para que as instituições de maior porte injetem recursos em seus concorrentes pequenos e médios.

ELIANE CANTANHÊDE

Salvador do mundo?

BRASÍLIA - Planalto e Itamaraty estavam tão eufóricos com a vitória espetacular de Barack Obama que nem se preocuparam com uma praxe: elogiar o presidente que sai. Ninguém tocou no nome de Bush.

O que houve foi uma enxurrada de adjetivos para enaltecer a chegada de um negro à Presidência da maior potência do mundo, com uma bela biografia, um bom currículo escolar e cheio de boas intenções.

A principal delas não é modesta: criar uma nova ordem internacional, com menos arrogância e mais parcerias. Isso interessa ao Brasil, emergente que se auto-intitula líder da América Latina.

Obama é eleito lá e já apresentamos cá uma extensa pauta para ele: reatamento com Cuba, solução para o Oriente Médio, maior presença na África, fortalecimento da ONU, maior relação com a América Latina, retomada da agenda do clima, reativação da Rodada Doha de comércio... Ops! Antes de salvador da humanidade, Obama precisa ser salvador da pátria.

Ao assumir, em janeiro, vai dar de cara com uma crise gigantesca e com os indicadores norte-americanos destrambelhados na área fiscal e início de recessão. Vai ter muito trabalho para arrumar a própria casa antes de pensar no mundo.

Para isso, conta com fatores objetivos e subjetivos. Obama assume em 20 de janeiro com uma votação extraordinária (contrariando a tradição de eleições apertadas, vide Bush), com ampla maioria democrata no Senado e na Câmara (contrariando o pêndulo Democrata-Republicano na Casa Branca e no Congresso) e com enorme boa vontade internacional. Isso ajuda principalmente na hora de pedir "sacrifício", como já pediu.

As condições objetivas, portanto, são favoráveis. E há o fator subjetivo: a sorte. A própria crise, aguda na campanha, tende a amenizar até a posse.

Só falta agora o mito da campanha estar à altura de ser presidente da maior potência -e com a economia de pernas para o ar.

elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Banco imobiliário

RIO DE JANEIRO - Não sei se ainda existe, mas sou do tempo em que havia um joguinho de dados chamado Banco Imobiliário.

Distribuíam-se notas simbólicas de dinheiro entre cinco ou seis participantes e cada um ia atirando os dados num tabuleiro onde estavam marcados os hospitais, escolas, hotéis, restaurantes, usinas, ferrovias, aeroportos, navios, minas disso e daquilo etc.
À medida que cada jogador atingia uma casa, ficava dono do negócio respectivo.

Quem depois caísse numa dessas empresas, pagava alguma coisa ao proprietário. Com a continuação dos lances, depois de muitas rodadas, um dos jogadores ficava dono de tudo e de todo o dinheiro circulante.

No sistema do capitalismo globalizado, a tendência é repetir o mesmo jogo. Não se trata de simples ganância, mas de sobrevivência empresarial.

Não se pode prever, mas, sem mudança nas regras do jogo, fatalmente um determinado grupo ou mesmo um determinado indivíduo poderá ficar dono de todas as fontes de produção e riqueza.

As fusões, nacionais ou internacionais, são etapas deste processo. Não adianta louvá-las nem satanizá-las. São e serão necessárias para garantir a normalidade do capitalismo liberal, a menos que o capitalismo estatal intervenha violentamente e interrompa a cadeia.

A recente fusão de dois grandes bancos brasileiros criou um gigante. Tanto o Itaú como o Unibanco têm tradição no mercado cultural, mantendo entidades que se destacam na promoção das artes e patrocínios.

O Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles criaram uma tradição e uma rotina que certamente serão ampliadas.

É bem verdade que, no dia-a-dia do cidadão comum, ao pagar suas contas e taxas, o sistema bancário continuará sendo a expressão mais truculenta do capitalismo que alguns chamam de selvagem.


O PREÇO DA EDUCAÇÃO

A leitora Teresinha M. Savian me mandou em e-mail cuja transcrição, em meio à Feira do Livro de Porto Alegre, parece-me obrigatória. Questão de cultura. Parece um texto de Ionesco sobre o absurdo morno do cotidiano. Se um autor de ficção quisesse ser tão verossímil sobre o assunto abordado, algo que sempre se busca em literatura, dificilmente conseguiria.

Há um requinte ao mesmo tempo folhetinesco e discreto nesta história em que uma pessoa, por más razões e em seu prejuízo, ocupa a própria vaga que deveria preencher por boas razões e em seu benefício.

É extremamente pedagógico sobre as disfunções do Estado na educação. Não fosse tristemente verdadeiro, seria o melhor miniconto realista que eu li em 2008. Não há, porém, ironia. Somente um realismo cru e frontal. Salvar a educação é menos urgente que salvar bancos. Obviamente.

'Prezado jornalista: quando li sua coluna no Correio do Povo do último dia 23 de outubro, sobre o professor de História Rodrigo de Azevedo Weimer, contratado pelo Estado do Rio Grande do Sul para dar aulas, associei a história desse colega à minha, pois são muito semelhantes.

Sou professora nomeada 20 horas pelo Estado há oito anos. No último concurso para professor em 2005, realizei-o com a finalidade de ser nomeada para mais 20 horas, pois tenho habilitação, disponibilidade e muita vontade de trabalhar.

Fui classificada em primeiro lugar na lista de professores para a disciplina de História da minha região. Fiquei muito feliz e, se me dissessem naquele ano que eu jamais seria nomeada, eu não acreditaria, pois na CRE da minha região faltava profissional nomeado nesta área.

Porém, passaram-se os dois anos e o prazo de validade do concurso terminou em setembro do ano passado, e não fui nomeada. Antes do prazo de validade do concurso terminar, fui várias vezes à Coordenadoria pedir pela minha nomeação, já que eu estava, e ainda estou, ocupando minha própria vaga dando aulas de História.

O melhor, ou o pior, vem agora: 'As explicações que me davam eram sempre as mesmas: ‘A SEC só irá nomear se houver muita necessidade, pois estamos em contenção de despesas’.

A última vez que fui à Coordenadoria, senti-me a pior de todas as criaturas do mundo, pois ouvi da própria coordenadora que ‘a SEC não tem interesse em nomear professores, pois um nomeado significa 70 anos de gasto para o Estado’.

Se o governo entende que educação é gasto, então estamos perdidos, ou devemos fazer uma profunda mudança no conceito de educação.

Neste ano de 2008, a partir de julho, fui convocada pela CRE para assumir as aulas de História do ensino médio numa escola estadual de um município vizinho ao meu, onde descobri que não há professor nomeado pelo Estado para esta disciplina e onde também descobri outros professores, de outras disciplinas, ocupando suas próprias vagas e esperando pela nomeação, que jamais sairá.

Faço questão de afirmar que amo muito minha profissão, tenho paixão pelo meu trabalho e planejo minhas aulas com muito prazer.

Não me queixo jamais da responsabilidade que assumi, mas sim da humilhação que passei e pela desvalorização, minha e de meus colegas, como profissionais.

Não consigo entender a política educacional deste governo, pois não acredito em educação construída desta forma. Deixo aqui o meu protesto pelo descaso com que a educação no Estado vem sendo tratada'.

juremir@correiodopovo.com.br

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