sexta-feira, 7 de novembro de 2008



NOVA BIBLIOTECA

Um texto sobre uma biblioteca, no meio da Feira do Livro, deve começar citando Borges: a biblioteca não é infinita.

Se realmente fosse, para que essa duplicação? Hoje, a PUCRS inaugura a sua nova biblioteca, 'a mais avançada da América do Sul'. Está maravilhosa. A velha biblioteca, duplicada, multiplicada, transfigurada, surge como uma nova e extraordinária biblioteca.

Não creio que tenha a ver com a descrição feita pelo grande escritor argentino da Biblioteca de Babel, 'um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais'. Tem a ver com uma concepção moderna de ocupação do espaço e de relacionamento entre o usuário e o acervo.

Em 21 mil metros quadrados e 14 pavimentos, repletos de tecnologia, o livro continua a ser rei, no seu espaço sagrado, onde, contudo, o leitor é convidado a ser soberano. Se a biblioteca não é materialmente infinita, o que obriga a ampliações recorrentes, deve ser ilimitada, pois, de certo modo, é um imaginário, o ponto de acesso ao infinito das idéias, das histórias e do conhecimento.

É maravilhoso constatar que na era do virtual ainda se erguem bibliotecas concretas. O acesso, porém, ao catálogo já pode ser realizado à distância.

A biblioteca do presente e do futuro alia o presencial e o virtual, o contato com o papel e a digitalização, as pessoas ocupando salas de convívio e, como internautas, navegando no imaterial em busca de idéias cujos suportes nunca pararam de variar e de perder peso. Borges referiu-se a uma teoria geral da biblioteca.

Citou uma região onde os bibliotecários recusariam a supersticiosa idéia de buscar sentido nos livros.

Quando uma biblioteca, como a da PUCRS, se espicha em busca de espaço e de conforto, abrigando obras raras e documentos preciosos, dotando-se de computadores e de motores de busca para que se possa localizar a informação tão procurada o mais rápido possível, renova-se o desejo de saber, do saber, do sabor.

Sim, uma biblioteca é um labirinto que começa em escadas, elevadores, corredores, passa por estantes e salas, entra nos livros e nunca mais termina. Esse é, certamente, o mistério da palavra escrita e dos livros.

Ao completar 60 anos, a PUCRS presenteia a sua comunidade com uma grande biblioteca.

Como professor da casa e freqüentador encantado dos vãos e desvãos cercados de livros da biblioteca, em busca do que sei e do que nunca saberei totalmente, sinto-me na obrigação de felicitar a universidade. A nova biblioteca está tão boa que chega a ser perigosa.

Cada vez que se entra lá, dá vontade de ficar, folheando um livro aqui, outro ali, vagando de um andar ao outro, pedindo documentos sobre nossa história, aprendendo sem nunca cansar.

De repente, pode acontecer um sumiço, como num conto de Borges, de todos os professores e alunos, abduzidos, não por discos voadores, mas por livros, um a um sumindo como Alice num país de maravilhas. As bibliotecas merecem veneração.

Borges termina a sua narrativa 'A Biblioteca de Babel' de uma maneira evocativa: 'A biblioteca é ilimitada e periódica.

Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem).

Minha solidão se alegra com essa elegante esperança'. A minha melancolia se alegra com a elegante esperança de freqüentar por muitos anos a nova biblioteca sabendo que um mesmo livro é sempre outro a cada vez que o abrimos.

juremir@correiodopovo.com.br

Editorial - Cpovo

A MELHORIA DO AR NO BRASIL

O país, mesmo contabilizando algumas boas iniciativas ambientais, precisa reduzir urgentemente os índices de poluição do ar disponível para a população das grandes cidades.

A declaração é do médico e coordenador do Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Carlos Dora, participante do Seminário Internacional Políticas Públicas e Padrões de Qualidade do Ar na Macrometrópole Paulista, que ocorre em São Paulo.

Para o especialista, isso poderá ser feito melhorando-se a qualidade do sistema de transporte público, o qual poderá contribuir decisivamente para as quedas dos níveis de degradação do ar e do meio ambiente. Na palestra, citou a cidade de Bogotá, que implementou um sistema com ônibus de alta capacidade circulando em corredores exclusivos.

Aliás, esses corredores há muito já são utilizados na capital gaúcha, mas tal iniciativa não é regra em grandes metrópoles brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde os engarrafamentos são constantes e quilométricos.

O palestrante alertou também para a estreita ligação que existe entre doenças e poluição do meio ambiente, que acabam levando a um desequilíbrio no sistema público de saúde.

Muitas dessas patologias poderiam ser evitadas apenas com medidas preventivas de caráter ambiental. O homem é produto do meio e, se o meio estiver debilitado, o ser humano também sentirá os reflexos dessa equação mal resolvida, somatizando moléstias.

Para a OMS, o ar considerado limpo é aquele que pode conter até 20 microgramas (mcg) de poeira dispersa no ar por metro cúbico.

A região Metropolitana de São Paulo apresenta números de 50 mcg por metro cúbico, mais que o dobro do recomendável.
Outros setores, além do transporte, devem ser incentivados a participar desse esforço em prol da melhoria das condições atmosféricas nos grandes conglomerados urbanos.

Entre eles, estão a construção civil e a indústria. Seria aconselhável que essas áreas pudessem receber financiamentos de instituições oficiais para atualizar sua logística e equipamentos.

Estatísticas dão conta de que 1 milhão de pessoas morrem por ano no mundo em razão da poluição. Reduzir essas mortes também no Brasil é uma tarefa inadiável.

Aproveite a sexta-feira e um excelente fim de semana para todos nós.


07 de novembro de 2008
N° 15782 - PAULO SANT’ANA


Um só, em Viamão!

Evidentemente que iriam aparecer cirurgiões plásticos negros e síndicos negros, depois que escrevi ontem que eles não existem ou são raros.

Apareceram dois, um síndico negro; um outro cirurgião plástico negro. E me mandaram notícias sobre a existência deles:

“Professor Paulo Sant’Ana. Ao adentrar no edifício onde resido, fui alertado pelo porteiro (senhor Jorge) de que lera em sua coluna na Zero Hora que você dará um presente para quem apontar o condomínio que tiver um negro como síndico. Acontece que no meu edifício o síndico é negro, bancário e torcedor.

O edifício localiza-se na Avenida Princesa Isabel, 57, Bairro Azenha, prédio onde o seu contador Moresco tinha escritório. Fone do porteiro 3219-9570. Abraços, (ass.) Ribeiro”.

E o próprio cirurgião plástico: “Paulo Sant’Ana. Fiquei surpreso ao ler sua coluna da Zero Hora do dia 6 de novembro de 2008 sobre racismo.

Venho informá-lo de que médicos negros existem, sim! São poucos, mas felizmente não são inexistentes como afirmaste.

E sua frase: ‘Cirurgião plástico negro, nunca haverá no Brasil’. Sou negro, médico cirurgião plástico há 20 anos em Porto Alegre. Meu consultório fica no Centro Clínico da PUC, no mesmo prédio, inclusive, onde o senhor consulta.

Tenho uma clínica de cirurgia plástica nesta cidade, sou vereador em Viamão com dois mandatos, presidente da Comissão de Saúde e vice-presidente da Câmara Municipal de Viamão.

Minha filha, doutora Karina Cristaldo, também negra, é médica e está fazendo residência em cirurgia plástica no Hospital da PUC.

Sou leitor assíduo da sua coluna e fui procurado por pacientes, colegas, amigos, parentes e funcionários, então lhe escrevo para esclarecer e peço que, na condição de formador de opinião, repasse esta informação aos seus leitores. Atenciosamente, (ass.) doutor Lindo Cristaldo, CRM 11801, cirurgião plástico e gremista de coração”.

Passo agora a responder ao cirurgião plástico Lindo Cristaldo, negro e gremista. Doutor, eu não escrevi que não existiam médicos negros. Eu escrevi que eram raros. Tenho até um amigo de infância, o Francisco Teles, que é médico e negro, grande figura, o Chiquinho. Mas veja o seguinte.

Por sinal, seu nome, Lindo Cristaldo, cirurgião plástico, vai pra coleção do Moacyr Scliar de nomes que condicionam profissões.

Ocorre, no entanto, doutor Lindo Cristaldo, que a sua digna e operosa existência não desmente minha coluna de ontem. Eu escrevi que não havia cirurgiões plásticos negros. E não há cirurgiões plástico negros.

Há um só cirurgião plástico negro. Um só. Isso consagra a minha coluna de ontem. Porque eu queria que houvesse mil cirurgiões plásticos negros, assim como os há, aos milhares, brancos.

Mas existe um. Pelo menos um, o senhor. Não é pouco, doutor Lindo Cristaldo? Não, não é pouco. O senhor é o bastante. Mas só que pra minha tese e afirmação é pouco.

Síndico negro também apareceu um. Eu escrevi que quase não havia. E havia um. É muito pouco.

Foi isso que quis dizer, que eram poucos.

O senhor sabe que não apareceram os psicanalistas negros. Eu escrevi que não havia. Mas devem existir. Bem como eu escrevi, poucos, um aqui, outro ali.

O senhor achou que porque existe um cirurgião plástico negro a minha tese estava desmoralizada? Não, doutor, a minha tese ficou consagrada.

Eu queria ver cirurgiões plásticos negros às pamparras, jornalistas negros às mancheias, síndicos negros de montão.

E existe apenas meia dúzia de gatos pingados.

O senhor, doutor Lindo Cristaldo, elevado exemplo, é o meu exemplo.

Que coisa boa que o senhor existe, doutor Lindo. E que má coisa que não existam outros, centenas de outros como o senhor.

Apareceu um! Que milagre! Em Viamão!

Mas que coisa aconteceu na manhã de ontem em Farroupilha. Dois assaltos a banco. Uma quadrilha armada até os dentes e mascarada transformou o centro de Farroupilha em praça de guerra, com uma fuzilaria espantosa, fuga, reféns, a polícia enfrentada à bala pelos assaltantes!

Onde é que estamos? Onde é que estamos?


07 de novembro de 2008
N° 15782 - DAVID COIMBRA


O lema de Fogaça

Fogaça reelegeu-se prefeito de Porto Alegre com um lema absurdo, do ponto de vista da lógica:

A mudança tem que continuar. Ora, mudança e continuidade são conceitos antônimos. Ou algo bem muda, ou bem continua.

Fogaça era candidato da situação. Logo, defendia a continuidade. Ele queria continuar prefeito. Mas seus marqueteiros sabiam de sobejo que, no Brasil, qualquer candidato a qualquer cargo tem que se apresentar como agente da mudança, ou não se elege.

Como destrinçar esse novelo eleitoral? Os tais marqueteiros, com boa competência, resolveram o problema cometendo um contorcionismo no verbo: prometendo que tudo seria diferente, se ficasse igual.

Agora, justiça se faça: a ânsia pela novidade não é só brasileira. Nos Estados Unidos, Barack Obama elegeu-se presidente debaixo do slogan “sim, nós podemos mudar”.

E o tão citado “desejo de mudança” identificado pelos publicitários não palpita só na política. Já ouvi consultores paulistas ensinando que uma pessoa, quando está há muito tempo exercendo a mesma função em uma empresa, tem de ser incentivada a mudar, ou ser despedida, ainda que se trate de excelente funcionário.

É para dizer essas coisas que os consultores paulistas ganham milhares de dólares dos empresários provinciais.

As mulheres também. Volta e meia elas miam:

– Aaai, minha vida está tão iguaaal... Tudo tão chato... Preciso de uma mudança...

O próximo passo é ela pintar ou cortar radicalmente o cabelo. Em seguida, passará a arder-lhe no peito arfante o fogo da infidelidade.

Mudança. As pessoas clamam o tempo todo por mudança. Nem sempre foi assim. A aflição pela novidade é um sentimento criado pelo capitalismo em meio ao século 19. Conheço mulheres que têm mais de cem pares de sapatos.

Conheço homens que trocam de celular a cada seis meses e de carro a cada ano. Precisa? Eles acham que sim. Por quê? Porque alguém disse a eles que sim. Quem? Marqueteiros do quilate dos assessores de Fogaça.

Esta semana mesmo, para que a roda do capitalismo brasileiro continue girando, Lula anunciou R$ 4 bilhões aos bancos das montadoras de carros. O problema é que não existe mais lugar nas cidades para tanto carro.

E o consumo é tamanho, de tudo que há, que os recursos do planeta estão se extinguindo. O capitalismo está chegando ao seu limite – algum dia haveria de chegar.

Em pouco tempo, o mundo inteiro terá de adotar o slogan de Fogaça, só que invertido: a mudança será a não-mudança. As pessoas terão de mudar, transformando-se em conservadoras. Terão de manter-se como estão, repetir-se, não fazer. Repelir o novo, enfim. Será difícil. Mas também será irrevogável.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008



O QUE É AMAR ???

Você já percebeu que quando nos APAIXONAMOS por algo nesta vida, o nosso sentido de viver opera milhões de transformações na gente.

Como é bom se APAIXONAR pelo trabalho, pelas novas conquistas, pelos amigos, pelos nossos irmãos, pela nossa amada, pelos nossos pais, pelos nossos sonhos de felicidade, pelos nossos filhos, enfim, por tudo...

Quando abrimos o coração para o mundo que está em nossa volta, perpetuamos o que há de mais valoroso existe neste universo. O NOSSO AMOR. Aproveite o dia hoje para se apaixonar por algo novo e vibrante.

No final do dia você verá que teve a oportunidade de ser uma grande pintora, pois uma aquarela de tintas foi colocada em suas mãos e você soube muito bem aproveitar.Vá em frente nesta semana!

Amar é alguma coisa que cresce dentro da gente, aos pouquinhos, sem que a gente consiga entender ou explicar.

É um sentimento que faz com que o coração da gente bate mais forte , bata diferente quando se está com determinada pessoa. Alguma coisa que faz com que a gente esqueça do resto e queira ficar mais perto e sempre só com ela.

E a gente percebe que essa pessoa é a mais importante de todas e se vê pensando nela muitas vezes..Ah doce e inesquecível amiga. Surge uma mistura de carinho, amizade, tesão, confiança, respeito. É acreditar que a gente é única pra essa pessoa e saber que ela acredita que é única pra gente.

É confiar que essa pessoa não vai nos trair. É sentir que alguém compartilha da vida da gente, que se importa com o que a gente faz e que gosta que a gente também se importe com o que ela faz.

Algumas vezes isso até pode ser confundido com cobrança. mas não existem cobranças quando duas pessoas compartilham um momento, uma alegria, uma vida

É um sentimento de orgulho e respeito por aquilo que a outra pessoa faz, pelo que ela é como gente. É ser capaz de enfrentar um mundo em defesa dessa pessoa, mesmo que pra outras ela pareça não ser aquilo que você acredita que ela seja.

Algumas vezes pode acontecer que a gente enxergue a pessoa da forma que a gente quisesse que ela fosse e transforme a realidade numa realidade nossa, talvez pelo amor que se tem por ela.

Amar não é apenas ter desejo sexual, que embora exista, não é a única coisa mais importante. Mas há que haver tesão e uma vontade enorme de estar um nos braços do outro, o bastante e o suficiente pra que não se sinta vontade de estar nos braços de outro alguém.

Amor sem tesão é uma grande amizade, apenas isso. E quando há apenas tesão, se dilui rapidamente por não haver cumplicidade e sentimentos envolvidos.

Amor é aceitação, mas não submissão. Se existe submissão não pode haver amor, cada pessoa mesmo extremamente apaixonada deve ter sua própria vontade, seus próprios desejos que são aceitos e se amoldam a alguém que ama.

Amar faz com que a gente esqueça tudo que já passou e tenha vontade de enfrentar qualquer coisa, é uma entrega, um desvendar de mistérios que parece nunca ter fim. É não ter medo, nem receio de que nada não vá dar certo.

É se sentir homem, criança, gente importante quando está com a outra pessoa e ter certeza que a outra se sente assim perto da gente.

É ter vontade de rir de repente, sem muito motivo às vezes, e de chorar de um sentir repentino, é não ter vergonha do que se é, nem de como se é porque se sabe que isso não é tudo para outra pessoa.

Amar nem sempre significa que é um sentimento que exista na pessoa que o coração da gente escolheu.

E quando se sente isso, tenta-se lutar da forma que se sabe querendo conquistar o outro coração, com receios, medos, incertezas ... É um amor que dói dentro da gente, e a gente se apega a um minuto de felicidade para ter forças para não desistir.

Nem sempre é um amor possível por circunstâncias da vida talvez, por dificuldades difíceis de se superar, e quando se sabe disso é um sentimento angustiante.

Sofrido, por não se saber como arrancar de dentro da gente aquilo que se enraizou e teima em não sair de lá, embora não se ache caminhos nem soluções. Ah que fadiga e que estresse isso proporciona.

Existe um outro amor, um sentimento de amor não conhecido antes da era do computador, o amor virtual.

Algumas vezes tão ou mais forte que um amor real e não menos real porque envolve pessoas que são gente e através do seu computador se apaixonam por alguém.

É alguma coisa diferente que faz com que pessoas que algumas vezes nunca se tocaram tenham sensações reais e sintam falta da outra pessoa e inexplicavelmente um amar surge do nada e mexe com o coração da gente e faz a gente pensar: o que é o amor afinal?? O QUE É AMAR??

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Caixa lucra R$ 723 milhões no 3º trimestre

Valor é dez vezes maior que o de igual período de 2007, quando cresceu inadimplência na carteira de crédito

A Caixa Econômica Federal lucrou R$ 723 milhões no terceiro trimestre do ano, valor dez vezes maior do que o apurado no mesmo período de 2007.

Mesmo com o crescimento, o resultado ainda fica distante dos números alcançados pelos principais bancos privados do país -Itaú e Bradesco tiveram, respectivamente, ganhos de R$ 1,848 bilhão e R$ 1,910 bilhão no trimestre passado.

A forte variação ocorrida em relação ao lucro de 2007 é explicada pelas perdas que a Caixa teve no ano passado com o aumento da inadimplência de sua carteira de crédito, especialmente nos empréstimos para micro e pequenas empresas.

O atraso nos pagamentos chegou a atingir 7,6% dos financiamentos a pessoas jurídicas no ano passado, mas em outubro essa proporção havia recuado para 2,8%.

Entre janeiro e setembro, a Caixa lucrou R$ 3,266 bilhões -mais 90% em relação ao ano passado. Esse resultado, porém, se deve a fatores isolados ocorridos no primeiro semestre deste ano, como a utilização de R$ 820 milhões em crédito tributário, que inflou o lucro do segundo trimestre na mesma proporção.

Se fosse descontado esse artifício contábil, o lucro da Caixa teria crescido 30% entre janeiro e setembro deste ano. Para a presidente da instituição, Maria Fernanda Ramos Coelho, os números foram positivos e refletem, principalmente, o crescimento da carteira de crédito do banco.

Mais crédito

No terceiro trimestre deste ano, o saldo de empréstimos concedidos pela Caixa subiu 8,8% em relação ao trimestre imediatamente anterior, elevando o volume liberado para R$ 69,2 bilhões.

Desse total, R$ 40,9 bilhões correspondem a operações de financiamento habitacional, que tiveram crescimento de 4,6% no trimestre.

O vice-presidente de Controle da Caixa, Marcos Vasconcelos, diz que a expansão de crédito do banco é conseqüência de um esforço maior em aumentar os negócios com grandes empresas.

Em meio à crise de escassez de crédito, o executivo divulgou números de outubro para tentar mostrar que, na Caixa, a liberação dos recursos continua normal.

No mês passado, segundo Vasconcelos, a Caixa liberou cerca de R$ 4,5 bilhões em financiamentos a empresas, maior valor já alcançado pelo banco em um único mês e aumento de 80% em relação à média mensal, de R$ 2,5 bilhões, observada entre janeiro e setembro deste ano.

As receitas obtidas com a cobrança de tarifas também se mantiveram em alta. Entre julho e setembro, a Caixa faturou R$ 5,519 bilhões com a prestação de serviços bancários, 4,3% a mais do que no trimestre anterior.

Aquisições

Dias depois de anunciada a fusão entre Itaú e Unibanco, o vice-presidente de Finanças da Caixa, Marcos Percival, disse ontem que o banco estatal pretende usar a permissão concedida por medida provisória editada pelo governo no mês passado para comprar outras instituições financeiras, mas não quis revelar nomes de possíveis bancos que interessariam à Caixa.

"No Brasil, vai haver um processo de concentração semelhante ao que está acontecendo lá fora. Todos os bancos vão ter de se preparar para essa maior concorrência, e com os bancos públicos não vai ser diferente", afirmou.

Ele também disse que, desde o mês passado, a Caixa já fechou a aquisição de cerca de R$ 2,2 bilhões em carteiras de empréstimos mantidas por outros oito bancos, numa ação que tem sido estimulada pelo Banco Central para que as instituições de maior porte injetem recursos em seus concorrentes pequenos e médios.

ELIANE CANTANHÊDE

Salvador do mundo?

BRASÍLIA - Planalto e Itamaraty estavam tão eufóricos com a vitória espetacular de Barack Obama que nem se preocuparam com uma praxe: elogiar o presidente que sai. Ninguém tocou no nome de Bush.

O que houve foi uma enxurrada de adjetivos para enaltecer a chegada de um negro à Presidência da maior potência do mundo, com uma bela biografia, um bom currículo escolar e cheio de boas intenções.

A principal delas não é modesta: criar uma nova ordem internacional, com menos arrogância e mais parcerias. Isso interessa ao Brasil, emergente que se auto-intitula líder da América Latina.

Obama é eleito lá e já apresentamos cá uma extensa pauta para ele: reatamento com Cuba, solução para o Oriente Médio, maior presença na África, fortalecimento da ONU, maior relação com a América Latina, retomada da agenda do clima, reativação da Rodada Doha de comércio... Ops! Antes de salvador da humanidade, Obama precisa ser salvador da pátria.

Ao assumir, em janeiro, vai dar de cara com uma crise gigantesca e com os indicadores norte-americanos destrambelhados na área fiscal e início de recessão. Vai ter muito trabalho para arrumar a própria casa antes de pensar no mundo.

Para isso, conta com fatores objetivos e subjetivos. Obama assume em 20 de janeiro com uma votação extraordinária (contrariando a tradição de eleições apertadas, vide Bush), com ampla maioria democrata no Senado e na Câmara (contrariando o pêndulo Democrata-Republicano na Casa Branca e no Congresso) e com enorme boa vontade internacional. Isso ajuda principalmente na hora de pedir "sacrifício", como já pediu.

As condições objetivas, portanto, são favoráveis. E há o fator subjetivo: a sorte. A própria crise, aguda na campanha, tende a amenizar até a posse.

Só falta agora o mito da campanha estar à altura de ser presidente da maior potência -e com a economia de pernas para o ar.

elianec@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Banco imobiliário

RIO DE JANEIRO - Não sei se ainda existe, mas sou do tempo em que havia um joguinho de dados chamado Banco Imobiliário.

Distribuíam-se notas simbólicas de dinheiro entre cinco ou seis participantes e cada um ia atirando os dados num tabuleiro onde estavam marcados os hospitais, escolas, hotéis, restaurantes, usinas, ferrovias, aeroportos, navios, minas disso e daquilo etc.
À medida que cada jogador atingia uma casa, ficava dono do negócio respectivo.

Quem depois caísse numa dessas empresas, pagava alguma coisa ao proprietário. Com a continuação dos lances, depois de muitas rodadas, um dos jogadores ficava dono de tudo e de todo o dinheiro circulante.

No sistema do capitalismo globalizado, a tendência é repetir o mesmo jogo. Não se trata de simples ganância, mas de sobrevivência empresarial.

Não se pode prever, mas, sem mudança nas regras do jogo, fatalmente um determinado grupo ou mesmo um determinado indivíduo poderá ficar dono de todas as fontes de produção e riqueza.

As fusões, nacionais ou internacionais, são etapas deste processo. Não adianta louvá-las nem satanizá-las. São e serão necessárias para garantir a normalidade do capitalismo liberal, a menos que o capitalismo estatal intervenha violentamente e interrompa a cadeia.

A recente fusão de dois grandes bancos brasileiros criou um gigante. Tanto o Itaú como o Unibanco têm tradição no mercado cultural, mantendo entidades que se destacam na promoção das artes e patrocínios.

O Itaú Cultural e o Instituto Moreira Salles criaram uma tradição e uma rotina que certamente serão ampliadas.

É bem verdade que, no dia-a-dia do cidadão comum, ao pagar suas contas e taxas, o sistema bancário continuará sendo a expressão mais truculenta do capitalismo que alguns chamam de selvagem.


O PREÇO DA EDUCAÇÃO

A leitora Teresinha M. Savian me mandou em e-mail cuja transcrição, em meio à Feira do Livro de Porto Alegre, parece-me obrigatória. Questão de cultura. Parece um texto de Ionesco sobre o absurdo morno do cotidiano. Se um autor de ficção quisesse ser tão verossímil sobre o assunto abordado, algo que sempre se busca em literatura, dificilmente conseguiria.

Há um requinte ao mesmo tempo folhetinesco e discreto nesta história em que uma pessoa, por más razões e em seu prejuízo, ocupa a própria vaga que deveria preencher por boas razões e em seu benefício.

É extremamente pedagógico sobre as disfunções do Estado na educação. Não fosse tristemente verdadeiro, seria o melhor miniconto realista que eu li em 2008. Não há, porém, ironia. Somente um realismo cru e frontal. Salvar a educação é menos urgente que salvar bancos. Obviamente.

'Prezado jornalista: quando li sua coluna no Correio do Povo do último dia 23 de outubro, sobre o professor de História Rodrigo de Azevedo Weimer, contratado pelo Estado do Rio Grande do Sul para dar aulas, associei a história desse colega à minha, pois são muito semelhantes.

Sou professora nomeada 20 horas pelo Estado há oito anos. No último concurso para professor em 2005, realizei-o com a finalidade de ser nomeada para mais 20 horas, pois tenho habilitação, disponibilidade e muita vontade de trabalhar.

Fui classificada em primeiro lugar na lista de professores para a disciplina de História da minha região. Fiquei muito feliz e, se me dissessem naquele ano que eu jamais seria nomeada, eu não acreditaria, pois na CRE da minha região faltava profissional nomeado nesta área.

Porém, passaram-se os dois anos e o prazo de validade do concurso terminou em setembro do ano passado, e não fui nomeada. Antes do prazo de validade do concurso terminar, fui várias vezes à Coordenadoria pedir pela minha nomeação, já que eu estava, e ainda estou, ocupando minha própria vaga dando aulas de História.

O melhor, ou o pior, vem agora: 'As explicações que me davam eram sempre as mesmas: ‘A SEC só irá nomear se houver muita necessidade, pois estamos em contenção de despesas’.

A última vez que fui à Coordenadoria, senti-me a pior de todas as criaturas do mundo, pois ouvi da própria coordenadora que ‘a SEC não tem interesse em nomear professores, pois um nomeado significa 70 anos de gasto para o Estado’.

Se o governo entende que educação é gasto, então estamos perdidos, ou devemos fazer uma profunda mudança no conceito de educação.

Neste ano de 2008, a partir de julho, fui convocada pela CRE para assumir as aulas de História do ensino médio numa escola estadual de um município vizinho ao meu, onde descobri que não há professor nomeado pelo Estado para esta disciplina e onde também descobri outros professores, de outras disciplinas, ocupando suas próprias vagas e esperando pela nomeação, que jamais sairá.

Faço questão de afirmar que amo muito minha profissão, tenho paixão pelo meu trabalho e planejo minhas aulas com muito prazer.

Não me queixo jamais da responsabilidade que assumi, mas sim da humilhação que passei e pela desvalorização, minha e de meus colegas, como profissionais.

Não consigo entender a política educacional deste governo, pois não acredito em educação construída desta forma. Deixo aqui o meu protesto pelo descaso com que a educação no Estado vem sendo tratada'.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite sua quinta-feira - Um ótimo dia para todos nós


06 de novembro de 2008
N° 15781 - RICARDO SILVESTRIN


A foto

Estávamos eu, Ziraldo e Fausto Wolf no último Fórum Social Mundial em Porto Alegre, três anos atrás. Começaria dali a pouco a abertura, com palestra do lingüista e pensador americano Noam Chomsky.

Fausto chamou Ziraldo e disse-lhe que tinha sido o tradutor do último livro do Chomsky no Brasil. Estava por dentro de tudo o que o americano andava pensando.

Propôs que tentassem entrevistá-lo para colocar na próxima edição do Pasquim 21. Se não conseguissem, o mais importante era tirar uma foto com Chomsky, pois a matéria Fausto faria.

Subi com os dois até o salão onde ocorreria a abertura do Fórum Social Mundial. Chegando lá, conseguiram entrar e me botar pra dentro junto, driblando a obrigatoriedade de crachás e outras formalidades. Afinal, éramos da imprensa.

Infiltraram-se na fileira da frente, das autoridades. Quem iria barrar o Ziraldo, o Fausto Wolf e... eu? Bem, eu estava junto... Cumprimentaram o governador, o prefeito e sentaram ao lado do Chomsky.

Fausto se apresentou, disse que era o tradutor do livro dele no Brasil. Pediu se poderiam fazer uma foto. Ziraldo lembrou que não tinham máquina. Pediu para uma pessoa que estava por ali para tirar e depois mandar por e-mail.

Após a foto, Fausto falou que seria mais legal ainda se Chomsky estivesse segurando um exemplar do Pasquim. Ziraldo, com seus 70 anos e disposição de guri, desceu os três andares do prédio da PUC e, rapidamente, voltou com o Pasquim. Retornaram à fila das autoridades, falaram novamente com o lingüista, pediram para o fotógrafo fazer o favor de clicá-los novamente.

Duas semanas depois, estavam com a foto na capa do Pasquim 21 e uma excelente matéria. Ainda nesse dia, numa rápida conversa, Fausto Wolf me disse que o fundamental no jornalismo é saber falar do que realmente interessa. Essa foi praticamente toda a minha convivência com ele.

Esse espírito de rebeldia, de não se tolher perante as formalidades, vivenciado na prática junto com Wolf e com Ziraldo, foi para mim uma experiência rara e inspiradora.

Fausto Wolf morreu há pouco. Mas viveu de verdade.


06 de novembro de 2008
N° 15781 - PAULO SANT’ANA


O racismo é aqui

Eleger-se um presidente negro nos Estados Unidos é fácil. Eu quero ver é eleger-se um presidente negro no S. C. Internacional, onde não há conselheiros negros.

Ou no Grêmio, onde também não há conselheiros negros.

Se existirem negros nos Conselhos Deliberativos do Internacional e do Grêmio, são menos de três.

Isso dá razão a alguns sociólogos que sempre insistiram em que o Brasil é muito mais racista que os Estados Unidos.

Pelo seguinte fato: admite-se que haja racismo nos Estados Unidos. Já aqui no Brasil, ninguém admite que haja racismo.

E no entanto nunca se ouviu falar de um almirante ou de um brigadeiro negro no Brasil. General deve haver raros.

Esses dias apareceu um ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro negro. Mas também é muito raro.

Eu dou um prêmio para quem me trouxer aqui no jornal um síndico de edifício negro. Deve haver, se se for catar bem, mas é muito raro.

Caixa de banco negro também é muito raro.

Juízes e promotores negros são muito raros. Corretores de imóveis negros são raríssimos.

Eu nunca vi na minha vida um agente funerário negro. No entanto, entre os coveiros dos cemitérios se vêem muitos negros.

Médicos negros são praticamente inexistentes. Aqui e ali, um que um. Cirurgião plástico negro, nunca haverá no Brasil.

Alguém já viu, por exemplo, um psicanalista negro? Eu nunca vi sequer psiquiatra negro.

E para que não me acusem de corporativista, um dos setores mais racistas da sociedade brasileira é o jornalismo: entre em qualquer redação de jornal e há em atividade 200 brancos para um negro.

O negro em jornalismo é só contratado para disfarçar.

Nós não gostamos que se diga que o Brasil é um dos países mais racistas do mundo. Mas é.

E o Rio Grande do Sul é o Estado mais racista do Brasil.

Tanto que o primeiro governador negro gaúcho não foi Alceu Collares, foi o deputado Carlos Santos, que era presidente da Assembléia Legislativa gaúcha.

E ele assumia o governo do Estado sempre que os governadores viajavam.

Um dia, de madrugada, ele morava aqui na Azenha e o telefone de sua casa estragou.

Ele saiu de pijama e foi tentar telefonar na 2ª Delegacia de Polícia.

Quando dois policiais fardados que estavam na porta o viram, reconheceram-no e foram levá-lo com gentileza até o delegado.

O delegado, se espreguiçando, viu o deputado Carlos Santos entrando de pijama na sua sala, custodiado por dois policiais, e perguntou: – O que é que tu já andaste aprontando por aí, negrão?


06 de novembro de 2008
N° 15781 - LF VERISSIMO


Diferenças

Ben Bernanke, dirigente do Federal Reserve, o banco central americano, é um estudioso da Grande Depressão de 1929. Especializou-se na matéria e escreveu mais de um livro a respeito. Deve estar sentindo o mesmo que sentiria um medievalista que um dia acordasse na Idade Média, um misto de euforia intelectual e pavor.

Vai poder reviver – in loco, por assim dizer – o período que o fascina e testar suas teses a respeito, mas sem saber se sua informação privilegiada sobre as causas do desastre ajudará a impedir a repetição das conseqüências.

Outros estudiosos do passado com a mesma chance adorariam poder chegar no ouvido de César e sugerir “Não vá ao Senado hoje” para evitar seu assassinato, ou corrigir decisões erradas e escolhas fatais que determinaram o curso da História. Já Ben Bernanke lembra mais um especialista no naufrágio do Titanic que um dia acorda no passado – a bordo do Titanic indo a pique!

Dizem que tem gente em Wall Street agarrada ao parapeito só esperando uma definição semântica para decidir se pula ou não pula: afinal, isto é uma depressão ou uma recessão? Mas uma das diferenças entre 29 e hoje é que não se tem notícia de gente pendurada em parapeitos em Wall Street.

Ou a situação não é tão grave, ou há a convicção generalizada – que não existia no auge do “laisser-faire” em 29 – de que, aconteça o que acontecer, o setor financeiro será socorrido, como foi em todas as crises do capitalismo desde então. E que ninguém precisa se esborrachar na calçada ou praticar haraquiri, se não for japonês.

Há outras diferenças óbvias. Em 29, o fascismo crescia na Europa, em grande parte como reação à ameaça que vinha da União Soviética e de movimentos esquerdistas em várias partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos.

Historiadores da época concordam que a tolerância inicial com o histriônico fascismo italiano e com os primeiros avanços de Hitler sobre a vizinhança, no que viria a ser chamada de “a guerra de mentira”, se deu porque Mussolini e o “socialismo” nazista tinham se adiantado ao comunismo e encampado a insatisfação popular provocada pela crise européia.

Depois de 29, veio Hitler, veio o governo intervencionista de Roosevelt para salvar o capitalismo americano de si mesmo e veio a II Guerra Mundial, que apesar dos seus horrores também contribuiu para apagar as seqüelas da Grande Depressão.

Não há nada parecido com nada disso no horizonte desta crise que nem sabe dizer seu nome exato. Suas conseqüências nem o Ben Bernanke pode adivinhar, mas o mundo é decididamente outro.

Sem querer, claro, parecer o construtor do Titanic, para quem seu navio era a prova de qualquer tipo de desastre já conhecido.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008


ANTONIO DELFIM NETTO

As crises

HÁ PELO MENOS dois fatos empiricamente verificáveis que não podem (ou não deveriam) ser esquecidos neste momento de crise:

1º) as vantagens insuperáveis da organização da atividade econômica através dos mercados (cujo bom funcionamento depende de instituições garantidas pelo Estado), à qual se dá o nome impreciso de "capitalismo".

Permitindo aos homens apropriaram-se dos benefícios de sua liberdade de iniciativa e criatividade na ciência e na tecnologia, ele, nos últimos 250 anos (depois de quase dez séculos de prática estagnação), permitiu que a população mundial se multiplicasse por seis, acompanhada de um enorme aumento de seu bem-estar material, cujo indicador definitivo foi a duplicação de sua expectativa de vida ao nascer (de 30 para 60 anos) e

2º) que nestes 250 anos todas as organizações alternativas inventadas por cérebros peregrinos revelaram-se tragicamente ineficientes do ponto de vista econômico e supressoras da liberdade individual sem a qual o homem não realiza o seu potencial.

A organização de atividade econômica pelos mercados tem também seus defeitos. Eles precisam ser mitigados para acomodar outras necessidades do homem: 1º) seu desejo de relativa igualdade e 2º) sua busca incessante de um mínimo de segurança.

Os mercados criam um ambiente de intensa competição entre os homens, cujo resultado final depende, obviamente, do ponto de partida de cada um (do lar em que nasceu, das oportunidades de manter sua higidez física e de apropriar-se do conhecimento etc.).

A experiência histórica mostra que, deixada a si mesma, ela tende a produzir uma desigualdade econômica moralmente inaceitável. Nos regimes politicamente abertos, a cidadania tenta corrigi-la pelas urnas.

É preciso ter presente, portanto, que a busca da estrita eficiência produtiva que não leva em conta as desigualdades dela resultantes não sobrevive ao sufrágio universal livre.

Outro fato historicamente verificável é que, mesmo quando a ação do Estado corrige parte das desigualdades, a organização econômica pelos mercados deixada a si mesma produz uma variação das atividades (do nível de emprego) que gera uma insegurança custosa em termos do bem-estar dos cidadãos.

Nos últimos 250 anos, o crescimento do PIB per capita se fez em torno de uma tendência exponencial com 46 ciclos irregulares de flutuação, o último dos quais estamos vivendo.

É por isso que, muito mais do que tentar "refundar o capitalismo" em resposta à crise, é melhor continuar a aperfeiçoá-lo para que a próxima crise tenha menos virulência que a atual...

contatodelfimnetto@uol.com.br

RUY CASTRO

Paixão pela rebimboca

RIO DE JANEIRO - O presidente Lula disse há tempos que o carro é a "paixão nacional". Palpite infeliz e, no que me concerne, errado. Sou tão brasileiro quanto ele e não tenho nenhuma paixão por carros.

Sempre achei o automóvel uma das desgraças modernas, juntamente com a droga, a televisão, a música alta e o lixo urbano, sendo a violência mero sucedâneo.
Nunca me interessei em aprender a guiar e não acho que tal lacuna me tenha atrapalhado nem por um instante.

Outros não-motoristas que conheço, como Carlinhos Lyra, Aldir Blanc, Elton Medeiros, Sérgio Augusto, João Máximo, ou que conheci, como os falecidos Nelson Rodrigues, Paulo Francis e José Lino Grünewald, também não saberiam distinguir um pára-choque de uma rebimboca da parafuseta. Nem por isso deixaram de construir suas carreiras e seguir em frente.

Por não dirigir, passo a vida em táxis, ônibus, bondes, metrôs, a pé ou no banco do carona -neste último caso, cumprindo as funções de co-piloto.

Do meu ponto de vista, à direita do chofer, tenho observado o crescente estrangulamento das ruas, o mau humor dos motoristas, a ferocidade homicida dos ônibus, a intrepidez suicida dos motoqueiros e a incompreensível indisciplina dos pedestres.

E tudo porque, à nova média de um carro para dois habitantes, nossas cidades estão se tornando intransitáveis. Não era tão ruim há dez anos.

Nem há cinco. Nem há dois. Piorou muito desde que ficou possível a qualquer pessoa comprar um carro de que talvez não precise e pagá-lo em 72 meses -seis anos!-, ao fim dos quais o dito carro já se tornou uma furreca ou foi até passado adiante.

Resta ver, a exemplo dos EUA, como será a quebradeira por aqui quando faltar dinheiro para pagar a "paixão nacional" que milhões de brasileiros compraram a prestação.
Filme expõe encantos de Martha Argerich
ARTHUR NESTROVSKI
ARTICULISTA DA FOLHA


Uma das cenas mais incríveis acontece logo no começo do filme e leva pouco mais que alguns segundos. Filmada de costas, Martha Argerich se aproxima de um piano, numa sala de ensaio.

Sem se sentar, desfere uma sucessão de escalas cromáticas com a mão direita, para cima e para baixo, com velocidade e fluência características, como se não fosse nada. Depois dá um sorriso e se afasta.

É bom rever a cena, depois, com a lembrança de um comentário feito ao final do documentário. Na música, é preciso se preparar 150%, diz ela, para chegar a um resultado de 60%. E o que mais vier é fruto do instante.

Vale dizer que aqui, também, neste filme de pouco mais de 60 minutos, dirigido por Georges Cachot em 2002 e agora lançado no Brasil (Biscoito Fino), muito do que passa por espontâneo terá tido 150% de preparação da pianista -seja pela circunstância específica, seja por uma vida inteira de dedicação.

Sedução

Que ela é uma das artistas mais carismáticas que já se viu não é qualquer novidade; mas o filme deixa à mostra um carisma de outra ordem, mais íntima, à medida em que se vai vendo e ouvindo essa argentina tão sedutora aos 62 anos de idade (hoje 67), falando à meia voz e olhando meio de lado para a câmera, envolta no seu manto preto Miyake e ladeada por jovens músicos de aparência levemente exótica e sugestivamente boêmia.

Outra cena: um bis em Zurique (Suíça), em 2001. Martha ataca a "Sonata" K. 141, de Scarlatti (1685-1757), um virtuosístico exercício de notas repetidas, no pulso mais rápido que jamais se imaginou. Com ela, não parece só o mais rápido, mas o mais certo e o mais natural.

É um dos raros momentos em que a dificuldade técnica transparece no rosto da pianista. Mas transparece do modo mais delicado e bem-humorado: num biquinho que ela faz com a boca, além de cantarolar as melodias.

Humor, aliás, é uma das qualidades que ela mais admira, inclusive na música: em mestres do período clássico como Beethoven e Haydn, assim como nos modernos Prokofiev e Shostakovich.

Suas risadas são irresistíveis. Parece servir de lastro para a loucura de uma vida exposta a platéia atrás de platéia, sob o risco permanente do desastre.

Mergulhar

"Se errar uma nota, eu morro", lembra de ter dito a si mesma, ajoelhada no banheiro de um teatro, aos nove anos de idade, antecipando uma lição do seu maior mestre, Friedrich Gulda (1930-2000). "Não vou errar", resolveu -e nunca mais errou. Sabe que não vai errar, por isso não erra.

Ao mesmo tempo, sente-se à beira do nada, a cada vez. "I have to... plonger" -"tenho de... mergulhar"-, comenta, misturando línguas. Só quando começa a tocar, está de novo em controle, a ponto de se deixar vulnerável, "porque é quando se está vulnerável que as coisas acontecem".

Um ensaio do "Concerto" de Schumann (1810-1856) é outro ponto alto do filme, que tem a virtude de exibir longos planos-seqüência, sem malabarismos.

Um segundo antes de começar, Martha olha para o alto, bufa, faz um espalhafato no teclado. Um segundo depois, concentra-se e ataca a música que ela toca como ninguém.

Mergulhada em Schumann, ela nos leva de roldão. Ninguém resiste a seus encantamentos. O filme é um filme é um filme, mas Martha é Martha é Martha e sai da tela para preencher nossa vida, com as paixões da música e da personalidade.

DVD - CONVERSA NOTURNA - MARTHA ARGERICH
Gravadora: Biscoito Fino
Direção: Georges Cachot
Quanto: R$ 42,90, em média
Avaliação: ótimo


05 de novembro de 2008
N° 15780 - MARTHA MEDEIROS


O isopor e a neve

Aconteceu comigo. Eu, que trabalho em casa, senti uma necessidade súbita de sair, atravessar paredes, ganhar as ruas por alguns minutos, a fim de renovar o fôlego para continuar a escrever.

Precisava enviar uma correspondência e resolvi: vou a pé até uma agência dos Correios, tem uma a cinco quadras de onde moro. Fui.

Cheguei lá, não sem antes ter sido quase atropelada, foi por um triz. Despachei a carta, saí da agência e foi então que eu vi: um caminhão havia deixado cair no meio da rua um saco enorme cheio de isopor. O caminhão seguiu seu rumo sem perceber o rastro que ficou pra trás.

Em segundos, aquele isopor em lâminas foi se transformando em pedaços miúdos. Os carros passavam por cima e o isopor se desintegrava em partículas que se movimentavam para cima e para os lados em câmera lenta, de tão leves.

Parei, porque se eu atravessasse a rua de novo, não haveria uma segunda chance: seria atropelada de fato. Eu não estava mais em mim. Via nevar em Porto Alegre no meio de uma tarde de novembro. Neve de isopor.

Qualquer semelhança com Beleza Americana é, sim, uma feliz coincidência. Se você viu o filme, não pode ter esquecido aquela cena. Um saco plástico vazio sendo movimentado pelo vento durante alguns minutos.

Apenas a câmera e o saco plástico dançando em slow motion diante dos nossos olhos. Certamente, uma das cenas mais bonitas e poéticas que já vi no cinema.

Foi bem assim. Pedacinhos de isopor que pareciam flocos de neve dançavam sobre o asfalto numa tarde abafada de Porto Alegre. Carros velozes passavam por cima, e os isopores ali, flutuando lentamente, alheios à pressa urbana. O que significava aquilo?

Nada.

Por isso o estranhamento. Por isso a singeleza. As coisas sem significado são tão raras, acontecimentos gratuitos costumam ser tão despercebidos, que, se você percebe, ganha o dia.

Foi uma cena real, não de cinema, e por isso não teve trilha sonora, os motores dos automóveis violavam o silêncio, mas dentro da minha cabeça ouvi música clássica por alguns segundos, encantada com a neve no asfalto.

Aí o isopor foi se dispersando, se dispersando, e eu comecei a me sentir uma idiota parada no meio da calçada, inerte, como se tivesse testemunhado um atropelamento. Metaforicamente, é o que havia acontecido. Eu havia sido atropelada.

Não um atropelamento como quase havia ocorrido minutos antes, quando um carro tirou um fininho de mim em plena faixa de segurança, mas foi outro tipo de atropelo:

fiquei paralisada por ter sido platéia de um pouco de poesia no meio de uma tarde de um dia útil, que se mostrou útil justamente quando parei de trabalhar.

Voltei pra casa e escrevi este texto sem propósito, em homenagem à neve que também não era neve.

Você tem todos os motivos pra duvidar, mas meu livro Doidas e Santas reúne crônicas bem mais inspiradas que esta. Estarei autografando amanhã na Feira do Livro, às 18h30min. Apareça.

Ótima quarta-feira - Aproveite, ame, namore - Tenhamos todos um ótimo dia.


05 de novembro de 2008
N° 15780 - DAVID COIMBRA


Uma noite de guerra

Não se vê um negro em Buenos Aires. Nem lembro de algum dia um negro ter jogado na seleção argentina. Poderia parecer prova de humanidade dos hermanos – alguém há de achar que por lá não ocorreu a importação de escravos africanos.

Ocorreu.

Até o século 19, havia negros a mancheias na Argentina, tantos que seu número chegava a um terço da população de algumas províncias. Mas eles foram dizimados. Se foi um genocídio sistemático ou não, eis algo que até hoje se discute por lá. O fato é que os negros praticamente desapareceram do país. Como?

Assim:

Na Guerra do Paraguai, o governo argentino promoveu o envio maciço de pelotões de negros para lutar contra o bem treinado exército paraguaio. Nada muito diferente do que fez o Brasil, bem entendido.

Aqui os negros também foram usados como bucha de canhão, e não apenas na Guerra do Paraguai. Mas, na Argentina, logo depois da guerra uma epidemia de febre amarela assolou Buenos Aires.

A população negra sobrevivente, que residia nos bairros de San Telmo e La Boca, ficou confinada nestes locais tornados insalubres pela peste. Os negros argentinos contaminavam-se uns aos outros e morriam feito vermes. Os que conseguiram evadir-se dos guetos homiziaram-se, quase todos, no Uruguai.

Além disso, a Argentina aboliu a escravatura quase meio século antes do Brasil, um ponto a favor dos hermanos. E a imigração européia igualmente começou bem antes, no início dos anos 50 do século 19, eliminando a mão-de-obra escrava. Dois a zero para eles. Desta forma, os negros sumiram de Buenos Aires.

Há uns dois anos, os argentinos realizaram um censo para descobrir qual era o tamanho da população descendente de africanos na capital. Concluíram ser de menos de 5%, a maioria ainda morando nos velhos bairros negros.

Esses bairros continuam reservados à população pobre da cidade, ainda mais empobrecida pelas crises econômicas do século 20. Assim, as ruas de La Boca são estreitas, os prédios velhos e mal-conservados, as pinturas das paredes descascadas. Típico bairro operário decadente.

No coração deste bairro pulsa a Bombonera.

No ano passado, era lá que eu estava, a fim de cobrir a primeira partida da final da Libertadores, entre Grêmio e Boca Juniors. Minha tarefa era acompanhar os torcedores gremistas. No deslocamento do aeroporto para o estádio e durante o jogo foi tudo bem, sem percalços.

Foi na volta que tudo aconteceu.

Terminado o jogo, enviei o material para Porto Alegre e comecei a descer as escadarias de pedra da Bombonera para ir embora. Tinha de encontrar os ônibus dos torcedores. Quando pus o pé no lado de fora do estádio, espantei-me.

O clima de belicosidade eletrizava a noite. Soldados da polícia militar argentina, vestidos de preto, as cabeças cobertas por capacetes, armados de pistolas, cacetetes e metralhadoras, protegidos por escudos, esses soldados formavam pelotões cerrados, fechavam ruas, tentavam dispersar os grupos de torcedores.

O aparato não intimidava os boquenses. Eles formavam bandos, atiravam pedras e garrafas nos policiais, e vez em quando ouvia-se o aterrador estouro de tiros. Estavam atrás dos torcedores do Grêmio e não pareciam dispostos a desistir, mesmo com a firme repressão policial.

Caminhava em meio àquelas ruas conflagradas temendo sobretudo que me atacassem e levassem o laptop do jornal, que carregava às costas, na mochila. Não achava os ônibus.

Perguntava aos policiais, e eles não sabiam dizer de onde partiriam os brasileiros. De vez em quando, a turbamulta assomava de uma ruela num vozerio agressivo, ameaçadores, furiosos, querendo a tudo romper e derrubar.

Quando enfim encontrei os ônibus, encontrei também notícias alarmantes: um grupo de brasileiros havia sido assaltado e espancado. O amigo de alguém tivera a perna quebrada e fora hospitalizado. Um ônibus fora atacado a tiros. Os policiais argentinos informaram que iam nos escoltar até a saída do bairro:

- Fechem as cortinas das janelas! Permaneçam todos agachados nos bancos!

Foi assim que o ônibus partiu, com as luzes apagadas, vagarosa e cautelosamente. Os passageiros todos em silêncio, abaixados, as cabeças entre os joelhos. Lá fora continuavam o som de tiroteio, os gritos e o estouro de pedradas e pauladas. Não resisti.

Abri a cortininha da janela e espiei. As ruas do bairro estavam desertas, mas vez ou outra alguém surgia no topo de um prédio e apontava para o ônibus, ou a janela de um apartamento se abria e eu supunha divisar o cano de uma arma.

A saída de La Boca foi uma operação militar. Ao chegar ao aeroporto de Ezeiza, tentei compreender o que acontecera. Porque, afinal, não havia motivo aparente para todo aquele conflito.

O Boca vencera o jogo e, ao que eu soubesse, não tinha ocorrido nenhuma confusão significativa entre as torcidas ou entre os jogadores. Por que, então, toda aquela loucura?

Assim é a Bombonera. Não acredito que algo semelhante esteja a espera do Inter ou de seus torcedores nesta quarta-feira, mas, tratando-se de La Boca e da Bombonera, é sempre bom se precaver.


05 de novembro de 2008
N° 15780 - PAULO SANT’ANA


Olhos nos olhos

Li há alguns dias que o Supremo Tribunal Federal anulou a sentença de sete anos de prisão contra um réu, pelo crime de roubo, pronunciada por um juiz singular.

A anulação do processo e da sentença deu-se por ter sido o réu julgado depois que se submeteu perante o juiz a um interrogatório por videoconferência.

Muito bem fez o Supremo em anular esse processo, declarando inconstitucional a lei vigente no Estado de São Paulo que instituiu a videoconferência em interrogatórios de processos penais nos casos de réus perigosos.

Um juiz condenar uma pessoa ouvindo-a em uma videoconferência é o mesmo que alguém ter um título protestado sem ter sido notificado do protesto.

A respeito disso, li anteontem um parágrafo constante do livro de um famoso editor, Gay Talese, sobre a história do jornal New York Times: “Não fazemos matéria jornalística direito porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones e gravações. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas”.

Ora, se jornalismo não se faz sem os repórteres olharem para os rostos dos entrevistados e das fontes de informação, como se fará justiça sem os juízes olharem para os rostos dos réus, das vítimas, dos autores e dos demandados em ações?

Os réus têm o direito sagrado de olhar nos olhos do juiz que vai condená-los ou absolvê-los.

E os juízes têm o dever de olhar nos olhos dos réus a quem vão condenar ou absolver.

Caso contrário, ficam muito impessoais, muito distantes, muito remotos os processos e as respectivas sentenças.

O mínimo que se exige num processo, principalmente o que culmina com condenação, ainda mais penal, ainda que possa ser também cível, é que o juiz tenha conhecido o réu, tenha presenciado sua qualificação, tenha-o interrogado pessoalmente.

Ou seja, tenha sentido e perscrutado por controle sensorial a pessoa do réu, seu tom de voz, seus gestos, suas reações.

E por controle sensorial advindo também da confrontação ambiental entre juiz e réu, só assim se pronuncie a sentença, que não será produzida por este contacto, mas será inválida, estéril e indevida se não se cumprir esta formalidade.

É muito injusto que um juiz condene alguém sem tê-lo conhecido.

O ministro do Supremo Ricardo Lewandowski muito bem pronunciou seu voto ao anular o processo por videoconferência quando disse que “o interrogatório é talvez a primeira e última vez que um acusado tem de se defrontar com o juiz”.

E disse melhor em seu voto o decano do Supremo, ministro Celso Mello: “O interrogatório é um ato de defesa”.

É o cúmulo do burocratismo condenar um réu ouvido por videoconferência.


05 de novembro de 2008
N° 15780 - SERGIO FARACO


Sepukai

Eis um país do futuro, a Mongólia, cujo vertiginoso desenvolvimento tem provocado atônitos comentários nos corredores da ONU. Os cientistas mongóis já enviaram uma Laika a Marte, onde se acasalou com um astronauta, pariu e passa bem.

Enquanto as sumidades norte-americanas continuam investigando a possível ocorrência de água no planeta vermelho, um bafo que seja, a NASA da Mongólia já estabeleceu uma colônia lá, inspiradora d’As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, que apesar do nome é mongoloparlante.

Os automóveis de lá têm revolucionária motorização. Nos Estados Unidos, um hebdomadário troçou a respeito, comentando que naquele país os carros são abastecidos com baldes. Baldes, sim, mas o pasquim lhes omitiu o conteúdo para salvaguardar interesses petrolíferos:

os pistões rotativos projetados pela engenharia mongólica trabalham com suco de limão-galego e um só balde proporciona autonomia de sabe-se lá quantas léguas. Ou mais: nas ruas e estradas da Mongólia, como se sabe, não há subidas, só descidas. Quem vai, fica.

Um dos segredos desse progresso é a juventude da população. O jovem sabe o que faz. O homem mais idoso da Mongólia, Luiz Ernani, tem 59 anos e é trisavô.

Explico: ainda na puberdade, os mongóis fazem o Curso de Fornicação, que lá se chama Boriak, e dali já saem boriakando ladeira abaixo. Pode parecer estranho que não sofra o país as seqüelas do superpovoamento. Ora, eles resolveram comilfô o peso social representado pela terceira idade.

Quando o mongol faz 60 anos, o governo lhe oferece uma festa, depois o cerca num canto e lhe dá com um facalhão na pança, o Bugo, que entra pelo umbigo e sai pelo pomo adâmico. A cerimônia se chama Sepukai e é tri-tocante. Aproveita-se o corpo para fazer torresmo.

O Sepukai é considerado pela ONU excelente método para reduzir a população às parcelas economicamente ativas. Os velhos oneram o erário com suas aposentadorias, precisam de remédios e incomodam, além de enfear a exuberante natureza do país e prejudicar o turismo com suas carunchosas figuras.

E pior: custam a morrer. Mortos, mais despesas geram: o terno, a gravata, o féretro, o círio, o túmulo ou a urna e por aí vai, sem falar no cachê da funerária. Na Mongólia, o figurino é acabar com a laia deles.

Aqui é Terceiro Mundo. Os velhos mandam na iniciativa privada e na pública, gozam de coxudas rendas previdenciárias e, se velhos demais, hospedam-se em albergues de luxo, onde têm, com verbas estatais, um vidão de nababos.

Por isso o país não progride. Nossos carros ainda empregam o veterano Ciclo Otto, o preço da gasolina é um acinte e nosso foguete espacial, ao partir, dá um traque e cai sentado

terça-feira, 4 de novembro de 2008



Conheça os benefícios de um "pé na bunda"
Getty Images

Durante os cinco anos em que esteve casada, a gerente de qualidade Gisele Abel, 24 anos, vivia o conto de fadas de qualquer garota que sonha em se casar. "Eu era uma dondoca, uma madame. Minha vida era um sonho de consumo de qualquer pessoa", relembra.

Mas foi após o término do relacionamento que ela se viu tendo que assumir as rédeas de sua vida e responsabilidades que antes não existiam. "Mudei meu visual, mudei de cidade, arrumei um emprego e passei a ser independente financeiramente."

O fim de um relacionamento pode significar uma reviravolta na vida de qualquer mulher. E isso não significa somente mudar o corte dos cabelos, emagrecer quilos e mais quilos ou ainda sair sorridente por aí.

"Em casos em que uma relação não dá certo, a mulher pode preencher o vazio deixado. Ela pode transformar o amor pela pessoa em amor por ela mesma", comenta o psicólogo Mauro Godoy.

Godoy salienta ainda que o "erguer a cabeça e seguir adiante" é algo saudável e uma fase que pode indicar o amadurecimento da mulher. "Sofrer é saudável porque amadurece, mas reagir e investir em si mesma é ainda mais saudável. É o amor próprio e a lucidez. É quase que obrigatório, por ser uma forma de sobrevivência".

Então, se você acabou de levar o famoso "pé na bunda", o jeito é juntar os cacos e canalizar energia em tudo o que lhe possa fazer bem. E isso pode significar cuidar do corpo, investir na carreira ou ainda em uma viagem que você sempre sonhou.

"Eu não teria investido na minha carreira profissional se ainda estivesse casada", comenta Gisele. Assim como para ela, o término da relação foi o ponto de partida para o mergulho profissional da relações públicas Sheila Laranjeiras, 24 anos.

"Me transformei em uma workaholic. Chego a trabalhar 19 horas por dia", conta. Depois do fim do relacionamento, Sheila precisou de seis meses para se recompor e seguir em frente. "Foi bastante dolorido, precisei de um tempo para voltar a minha rotina normal", relembra.

Saiba ver a luz no final do túnel

Segundo a psicóloga Sueli Castillo, o fim de um relacionamento pode ser bastante traumatizante, independentemente do grau de sentimento que exista. "Lidar com o fim de uma relação, ainda amando, gostando ou apenas acomodada em uma situação, é lidar com o deixar de ter, com as perdas. Essa situação causa muita angústia e desassossego para as pessoas", explica.

A psicóloga comenta ainda que o amadurecimento vem com a superação da dor da separação e com o desejo de transformar o que aconteceu de negativo na relação em aprendizado.

A maneira como se lida com a situação, como a capacidade de recomeçar, a culpa e a readaptação social, são fundamentais para o crescimento pessoal da mulher. "Brincar de avestruz, enfiar a cabeça na terra e fazer de conta que nada aconteceu não leva ninguém a nenhum tipo de crescimento e amadurecimento."

Mas não é porque sua vizinha saiu aparentemente ilesa de um "pé na bunda" que você tem que ter a mesma reação. "Existem pessoas que têm resistência emocional, que enfrentam uma dor cara a cara, conscientemente", conta Godoy.

O psicólogo diz ainda que mulheres que nunca passaram por uma perda tendem a ter menos estrutura para superar um rompimento amoroso. "Pessoas com mais vivência têm mais 'facilidade' em superar uma perda grande."

Independentemente da idade ou da experiência amorosa, é fundamental que se perceba o fim de um ciclo amoroso para que um outro possa ser começado.

"É natural e extremamente saudável essa reciclagem na história de vida da mulher. Investir em estudos, buscar uma profissão ou começar a atuar no mercado de trabalho torna a mulher mais independente, ampliando sua visão a respeito de si mesma e do mundo no qual está inserida", finaliza Sueli.