quinta-feira, 6 de novembro de 2008



O PREÇO DA EDUCAÇÃO

A leitora Teresinha M. Savian me mandou em e-mail cuja transcrição, em meio à Feira do Livro de Porto Alegre, parece-me obrigatória. Questão de cultura. Parece um texto de Ionesco sobre o absurdo morno do cotidiano. Se um autor de ficção quisesse ser tão verossímil sobre o assunto abordado, algo que sempre se busca em literatura, dificilmente conseguiria.

Há um requinte ao mesmo tempo folhetinesco e discreto nesta história em que uma pessoa, por más razões e em seu prejuízo, ocupa a própria vaga que deveria preencher por boas razões e em seu benefício.

É extremamente pedagógico sobre as disfunções do Estado na educação. Não fosse tristemente verdadeiro, seria o melhor miniconto realista que eu li em 2008. Não há, porém, ironia. Somente um realismo cru e frontal. Salvar a educação é menos urgente que salvar bancos. Obviamente.

'Prezado jornalista: quando li sua coluna no Correio do Povo do último dia 23 de outubro, sobre o professor de História Rodrigo de Azevedo Weimer, contratado pelo Estado do Rio Grande do Sul para dar aulas, associei a história desse colega à minha, pois são muito semelhantes.

Sou professora nomeada 20 horas pelo Estado há oito anos. No último concurso para professor em 2005, realizei-o com a finalidade de ser nomeada para mais 20 horas, pois tenho habilitação, disponibilidade e muita vontade de trabalhar.

Fui classificada em primeiro lugar na lista de professores para a disciplina de História da minha região. Fiquei muito feliz e, se me dissessem naquele ano que eu jamais seria nomeada, eu não acreditaria, pois na CRE da minha região faltava profissional nomeado nesta área.

Porém, passaram-se os dois anos e o prazo de validade do concurso terminou em setembro do ano passado, e não fui nomeada. Antes do prazo de validade do concurso terminar, fui várias vezes à Coordenadoria pedir pela minha nomeação, já que eu estava, e ainda estou, ocupando minha própria vaga dando aulas de História.

O melhor, ou o pior, vem agora: 'As explicações que me davam eram sempre as mesmas: ‘A SEC só irá nomear se houver muita necessidade, pois estamos em contenção de despesas’.

A última vez que fui à Coordenadoria, senti-me a pior de todas as criaturas do mundo, pois ouvi da própria coordenadora que ‘a SEC não tem interesse em nomear professores, pois um nomeado significa 70 anos de gasto para o Estado’.

Se o governo entende que educação é gasto, então estamos perdidos, ou devemos fazer uma profunda mudança no conceito de educação.

Neste ano de 2008, a partir de julho, fui convocada pela CRE para assumir as aulas de História do ensino médio numa escola estadual de um município vizinho ao meu, onde descobri que não há professor nomeado pelo Estado para esta disciplina e onde também descobri outros professores, de outras disciplinas, ocupando suas próprias vagas e esperando pela nomeação, que jamais sairá.

Faço questão de afirmar que amo muito minha profissão, tenho paixão pelo meu trabalho e planejo minhas aulas com muito prazer.

Não me queixo jamais da responsabilidade que assumi, mas sim da humilhação que passei e pela desvalorização, minha e de meus colegas, como profissionais.

Não consigo entender a política educacional deste governo, pois não acredito em educação construída desta forma. Deixo aqui o meu protesto pelo descaso com que a educação no Estado vem sendo tratada'.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite sua quinta-feira - Um ótimo dia para todos nós


06 de novembro de 2008
N° 15781 - RICARDO SILVESTRIN


A foto

Estávamos eu, Ziraldo e Fausto Wolf no último Fórum Social Mundial em Porto Alegre, três anos atrás. Começaria dali a pouco a abertura, com palestra do lingüista e pensador americano Noam Chomsky.

Fausto chamou Ziraldo e disse-lhe que tinha sido o tradutor do último livro do Chomsky no Brasil. Estava por dentro de tudo o que o americano andava pensando.

Propôs que tentassem entrevistá-lo para colocar na próxima edição do Pasquim 21. Se não conseguissem, o mais importante era tirar uma foto com Chomsky, pois a matéria Fausto faria.

Subi com os dois até o salão onde ocorreria a abertura do Fórum Social Mundial. Chegando lá, conseguiram entrar e me botar pra dentro junto, driblando a obrigatoriedade de crachás e outras formalidades. Afinal, éramos da imprensa.

Infiltraram-se na fileira da frente, das autoridades. Quem iria barrar o Ziraldo, o Fausto Wolf e... eu? Bem, eu estava junto... Cumprimentaram o governador, o prefeito e sentaram ao lado do Chomsky.

Fausto se apresentou, disse que era o tradutor do livro dele no Brasil. Pediu se poderiam fazer uma foto. Ziraldo lembrou que não tinham máquina. Pediu para uma pessoa que estava por ali para tirar e depois mandar por e-mail.

Após a foto, Fausto falou que seria mais legal ainda se Chomsky estivesse segurando um exemplar do Pasquim. Ziraldo, com seus 70 anos e disposição de guri, desceu os três andares do prédio da PUC e, rapidamente, voltou com o Pasquim. Retornaram à fila das autoridades, falaram novamente com o lingüista, pediram para o fotógrafo fazer o favor de clicá-los novamente.

Duas semanas depois, estavam com a foto na capa do Pasquim 21 e uma excelente matéria. Ainda nesse dia, numa rápida conversa, Fausto Wolf me disse que o fundamental no jornalismo é saber falar do que realmente interessa. Essa foi praticamente toda a minha convivência com ele.

Esse espírito de rebeldia, de não se tolher perante as formalidades, vivenciado na prática junto com Wolf e com Ziraldo, foi para mim uma experiência rara e inspiradora.

Fausto Wolf morreu há pouco. Mas viveu de verdade.


06 de novembro de 2008
N° 15781 - PAULO SANT’ANA


O racismo é aqui

Eleger-se um presidente negro nos Estados Unidos é fácil. Eu quero ver é eleger-se um presidente negro no S. C. Internacional, onde não há conselheiros negros.

Ou no Grêmio, onde também não há conselheiros negros.

Se existirem negros nos Conselhos Deliberativos do Internacional e do Grêmio, são menos de três.

Isso dá razão a alguns sociólogos que sempre insistiram em que o Brasil é muito mais racista que os Estados Unidos.

Pelo seguinte fato: admite-se que haja racismo nos Estados Unidos. Já aqui no Brasil, ninguém admite que haja racismo.

E no entanto nunca se ouviu falar de um almirante ou de um brigadeiro negro no Brasil. General deve haver raros.

Esses dias apareceu um ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro negro. Mas também é muito raro.

Eu dou um prêmio para quem me trouxer aqui no jornal um síndico de edifício negro. Deve haver, se se for catar bem, mas é muito raro.

Caixa de banco negro também é muito raro.

Juízes e promotores negros são muito raros. Corretores de imóveis negros são raríssimos.

Eu nunca vi na minha vida um agente funerário negro. No entanto, entre os coveiros dos cemitérios se vêem muitos negros.

Médicos negros são praticamente inexistentes. Aqui e ali, um que um. Cirurgião plástico negro, nunca haverá no Brasil.

Alguém já viu, por exemplo, um psicanalista negro? Eu nunca vi sequer psiquiatra negro.

E para que não me acusem de corporativista, um dos setores mais racistas da sociedade brasileira é o jornalismo: entre em qualquer redação de jornal e há em atividade 200 brancos para um negro.

O negro em jornalismo é só contratado para disfarçar.

Nós não gostamos que se diga que o Brasil é um dos países mais racistas do mundo. Mas é.

E o Rio Grande do Sul é o Estado mais racista do Brasil.

Tanto que o primeiro governador negro gaúcho não foi Alceu Collares, foi o deputado Carlos Santos, que era presidente da Assembléia Legislativa gaúcha.

E ele assumia o governo do Estado sempre que os governadores viajavam.

Um dia, de madrugada, ele morava aqui na Azenha e o telefone de sua casa estragou.

Ele saiu de pijama e foi tentar telefonar na 2ª Delegacia de Polícia.

Quando dois policiais fardados que estavam na porta o viram, reconheceram-no e foram levá-lo com gentileza até o delegado.

O delegado, se espreguiçando, viu o deputado Carlos Santos entrando de pijama na sua sala, custodiado por dois policiais, e perguntou: – O que é que tu já andaste aprontando por aí, negrão?


06 de novembro de 2008
N° 15781 - LF VERISSIMO


Diferenças

Ben Bernanke, dirigente do Federal Reserve, o banco central americano, é um estudioso da Grande Depressão de 1929. Especializou-se na matéria e escreveu mais de um livro a respeito. Deve estar sentindo o mesmo que sentiria um medievalista que um dia acordasse na Idade Média, um misto de euforia intelectual e pavor.

Vai poder reviver – in loco, por assim dizer – o período que o fascina e testar suas teses a respeito, mas sem saber se sua informação privilegiada sobre as causas do desastre ajudará a impedir a repetição das conseqüências.

Outros estudiosos do passado com a mesma chance adorariam poder chegar no ouvido de César e sugerir “Não vá ao Senado hoje” para evitar seu assassinato, ou corrigir decisões erradas e escolhas fatais que determinaram o curso da História. Já Ben Bernanke lembra mais um especialista no naufrágio do Titanic que um dia acorda no passado – a bordo do Titanic indo a pique!

Dizem que tem gente em Wall Street agarrada ao parapeito só esperando uma definição semântica para decidir se pula ou não pula: afinal, isto é uma depressão ou uma recessão? Mas uma das diferenças entre 29 e hoje é que não se tem notícia de gente pendurada em parapeitos em Wall Street.

Ou a situação não é tão grave, ou há a convicção generalizada – que não existia no auge do “laisser-faire” em 29 – de que, aconteça o que acontecer, o setor financeiro será socorrido, como foi em todas as crises do capitalismo desde então. E que ninguém precisa se esborrachar na calçada ou praticar haraquiri, se não for japonês.

Há outras diferenças óbvias. Em 29, o fascismo crescia na Europa, em grande parte como reação à ameaça que vinha da União Soviética e de movimentos esquerdistas em várias partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos.

Historiadores da época concordam que a tolerância inicial com o histriônico fascismo italiano e com os primeiros avanços de Hitler sobre a vizinhança, no que viria a ser chamada de “a guerra de mentira”, se deu porque Mussolini e o “socialismo” nazista tinham se adiantado ao comunismo e encampado a insatisfação popular provocada pela crise européia.

Depois de 29, veio Hitler, veio o governo intervencionista de Roosevelt para salvar o capitalismo americano de si mesmo e veio a II Guerra Mundial, que apesar dos seus horrores também contribuiu para apagar as seqüelas da Grande Depressão.

Não há nada parecido com nada disso no horizonte desta crise que nem sabe dizer seu nome exato. Suas conseqüências nem o Ben Bernanke pode adivinhar, mas o mundo é decididamente outro.

Sem querer, claro, parecer o construtor do Titanic, para quem seu navio era a prova de qualquer tipo de desastre já conhecido.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008


ANTONIO DELFIM NETTO

As crises

HÁ PELO MENOS dois fatos empiricamente verificáveis que não podem (ou não deveriam) ser esquecidos neste momento de crise:

1º) as vantagens insuperáveis da organização da atividade econômica através dos mercados (cujo bom funcionamento depende de instituições garantidas pelo Estado), à qual se dá o nome impreciso de "capitalismo".

Permitindo aos homens apropriaram-se dos benefícios de sua liberdade de iniciativa e criatividade na ciência e na tecnologia, ele, nos últimos 250 anos (depois de quase dez séculos de prática estagnação), permitiu que a população mundial se multiplicasse por seis, acompanhada de um enorme aumento de seu bem-estar material, cujo indicador definitivo foi a duplicação de sua expectativa de vida ao nascer (de 30 para 60 anos) e

2º) que nestes 250 anos todas as organizações alternativas inventadas por cérebros peregrinos revelaram-se tragicamente ineficientes do ponto de vista econômico e supressoras da liberdade individual sem a qual o homem não realiza o seu potencial.

A organização de atividade econômica pelos mercados tem também seus defeitos. Eles precisam ser mitigados para acomodar outras necessidades do homem: 1º) seu desejo de relativa igualdade e 2º) sua busca incessante de um mínimo de segurança.

Os mercados criam um ambiente de intensa competição entre os homens, cujo resultado final depende, obviamente, do ponto de partida de cada um (do lar em que nasceu, das oportunidades de manter sua higidez física e de apropriar-se do conhecimento etc.).

A experiência histórica mostra que, deixada a si mesma, ela tende a produzir uma desigualdade econômica moralmente inaceitável. Nos regimes politicamente abertos, a cidadania tenta corrigi-la pelas urnas.

É preciso ter presente, portanto, que a busca da estrita eficiência produtiva que não leva em conta as desigualdades dela resultantes não sobrevive ao sufrágio universal livre.

Outro fato historicamente verificável é que, mesmo quando a ação do Estado corrige parte das desigualdades, a organização econômica pelos mercados deixada a si mesma produz uma variação das atividades (do nível de emprego) que gera uma insegurança custosa em termos do bem-estar dos cidadãos.

Nos últimos 250 anos, o crescimento do PIB per capita se fez em torno de uma tendência exponencial com 46 ciclos irregulares de flutuação, o último dos quais estamos vivendo.

É por isso que, muito mais do que tentar "refundar o capitalismo" em resposta à crise, é melhor continuar a aperfeiçoá-lo para que a próxima crise tenha menos virulência que a atual...

contatodelfimnetto@uol.com.br

RUY CASTRO

Paixão pela rebimboca

RIO DE JANEIRO - O presidente Lula disse há tempos que o carro é a "paixão nacional". Palpite infeliz e, no que me concerne, errado. Sou tão brasileiro quanto ele e não tenho nenhuma paixão por carros.

Sempre achei o automóvel uma das desgraças modernas, juntamente com a droga, a televisão, a música alta e o lixo urbano, sendo a violência mero sucedâneo.
Nunca me interessei em aprender a guiar e não acho que tal lacuna me tenha atrapalhado nem por um instante.

Outros não-motoristas que conheço, como Carlinhos Lyra, Aldir Blanc, Elton Medeiros, Sérgio Augusto, João Máximo, ou que conheci, como os falecidos Nelson Rodrigues, Paulo Francis e José Lino Grünewald, também não saberiam distinguir um pára-choque de uma rebimboca da parafuseta. Nem por isso deixaram de construir suas carreiras e seguir em frente.

Por não dirigir, passo a vida em táxis, ônibus, bondes, metrôs, a pé ou no banco do carona -neste último caso, cumprindo as funções de co-piloto.

Do meu ponto de vista, à direita do chofer, tenho observado o crescente estrangulamento das ruas, o mau humor dos motoristas, a ferocidade homicida dos ônibus, a intrepidez suicida dos motoqueiros e a incompreensível indisciplina dos pedestres.

E tudo porque, à nova média de um carro para dois habitantes, nossas cidades estão se tornando intransitáveis. Não era tão ruim há dez anos.

Nem há cinco. Nem há dois. Piorou muito desde que ficou possível a qualquer pessoa comprar um carro de que talvez não precise e pagá-lo em 72 meses -seis anos!-, ao fim dos quais o dito carro já se tornou uma furreca ou foi até passado adiante.

Resta ver, a exemplo dos EUA, como será a quebradeira por aqui quando faltar dinheiro para pagar a "paixão nacional" que milhões de brasileiros compraram a prestação.
Filme expõe encantos de Martha Argerich
ARTHUR NESTROVSKI
ARTICULISTA DA FOLHA


Uma das cenas mais incríveis acontece logo no começo do filme e leva pouco mais que alguns segundos. Filmada de costas, Martha Argerich se aproxima de um piano, numa sala de ensaio.

Sem se sentar, desfere uma sucessão de escalas cromáticas com a mão direita, para cima e para baixo, com velocidade e fluência características, como se não fosse nada. Depois dá um sorriso e se afasta.

É bom rever a cena, depois, com a lembrança de um comentário feito ao final do documentário. Na música, é preciso se preparar 150%, diz ela, para chegar a um resultado de 60%. E o que mais vier é fruto do instante.

Vale dizer que aqui, também, neste filme de pouco mais de 60 minutos, dirigido por Georges Cachot em 2002 e agora lançado no Brasil (Biscoito Fino), muito do que passa por espontâneo terá tido 150% de preparação da pianista -seja pela circunstância específica, seja por uma vida inteira de dedicação.

Sedução

Que ela é uma das artistas mais carismáticas que já se viu não é qualquer novidade; mas o filme deixa à mostra um carisma de outra ordem, mais íntima, à medida em que se vai vendo e ouvindo essa argentina tão sedutora aos 62 anos de idade (hoje 67), falando à meia voz e olhando meio de lado para a câmera, envolta no seu manto preto Miyake e ladeada por jovens músicos de aparência levemente exótica e sugestivamente boêmia.

Outra cena: um bis em Zurique (Suíça), em 2001. Martha ataca a "Sonata" K. 141, de Scarlatti (1685-1757), um virtuosístico exercício de notas repetidas, no pulso mais rápido que jamais se imaginou. Com ela, não parece só o mais rápido, mas o mais certo e o mais natural.

É um dos raros momentos em que a dificuldade técnica transparece no rosto da pianista. Mas transparece do modo mais delicado e bem-humorado: num biquinho que ela faz com a boca, além de cantarolar as melodias.

Humor, aliás, é uma das qualidades que ela mais admira, inclusive na música: em mestres do período clássico como Beethoven e Haydn, assim como nos modernos Prokofiev e Shostakovich.

Suas risadas são irresistíveis. Parece servir de lastro para a loucura de uma vida exposta a platéia atrás de platéia, sob o risco permanente do desastre.

Mergulhar

"Se errar uma nota, eu morro", lembra de ter dito a si mesma, ajoelhada no banheiro de um teatro, aos nove anos de idade, antecipando uma lição do seu maior mestre, Friedrich Gulda (1930-2000). "Não vou errar", resolveu -e nunca mais errou. Sabe que não vai errar, por isso não erra.

Ao mesmo tempo, sente-se à beira do nada, a cada vez. "I have to... plonger" -"tenho de... mergulhar"-, comenta, misturando línguas. Só quando começa a tocar, está de novo em controle, a ponto de se deixar vulnerável, "porque é quando se está vulnerável que as coisas acontecem".

Um ensaio do "Concerto" de Schumann (1810-1856) é outro ponto alto do filme, que tem a virtude de exibir longos planos-seqüência, sem malabarismos.

Um segundo antes de começar, Martha olha para o alto, bufa, faz um espalhafato no teclado. Um segundo depois, concentra-se e ataca a música que ela toca como ninguém.

Mergulhada em Schumann, ela nos leva de roldão. Ninguém resiste a seus encantamentos. O filme é um filme é um filme, mas Martha é Martha é Martha e sai da tela para preencher nossa vida, com as paixões da música e da personalidade.

DVD - CONVERSA NOTURNA - MARTHA ARGERICH
Gravadora: Biscoito Fino
Direção: Georges Cachot
Quanto: R$ 42,90, em média
Avaliação: ótimo


05 de novembro de 2008
N° 15780 - MARTHA MEDEIROS


O isopor e a neve

Aconteceu comigo. Eu, que trabalho em casa, senti uma necessidade súbita de sair, atravessar paredes, ganhar as ruas por alguns minutos, a fim de renovar o fôlego para continuar a escrever.

Precisava enviar uma correspondência e resolvi: vou a pé até uma agência dos Correios, tem uma a cinco quadras de onde moro. Fui.

Cheguei lá, não sem antes ter sido quase atropelada, foi por um triz. Despachei a carta, saí da agência e foi então que eu vi: um caminhão havia deixado cair no meio da rua um saco enorme cheio de isopor. O caminhão seguiu seu rumo sem perceber o rastro que ficou pra trás.

Em segundos, aquele isopor em lâminas foi se transformando em pedaços miúdos. Os carros passavam por cima e o isopor se desintegrava em partículas que se movimentavam para cima e para os lados em câmera lenta, de tão leves.

Parei, porque se eu atravessasse a rua de novo, não haveria uma segunda chance: seria atropelada de fato. Eu não estava mais em mim. Via nevar em Porto Alegre no meio de uma tarde de novembro. Neve de isopor.

Qualquer semelhança com Beleza Americana é, sim, uma feliz coincidência. Se você viu o filme, não pode ter esquecido aquela cena. Um saco plástico vazio sendo movimentado pelo vento durante alguns minutos.

Apenas a câmera e o saco plástico dançando em slow motion diante dos nossos olhos. Certamente, uma das cenas mais bonitas e poéticas que já vi no cinema.

Foi bem assim. Pedacinhos de isopor que pareciam flocos de neve dançavam sobre o asfalto numa tarde abafada de Porto Alegre. Carros velozes passavam por cima, e os isopores ali, flutuando lentamente, alheios à pressa urbana. O que significava aquilo?

Nada.

Por isso o estranhamento. Por isso a singeleza. As coisas sem significado são tão raras, acontecimentos gratuitos costumam ser tão despercebidos, que, se você percebe, ganha o dia.

Foi uma cena real, não de cinema, e por isso não teve trilha sonora, os motores dos automóveis violavam o silêncio, mas dentro da minha cabeça ouvi música clássica por alguns segundos, encantada com a neve no asfalto.

Aí o isopor foi se dispersando, se dispersando, e eu comecei a me sentir uma idiota parada no meio da calçada, inerte, como se tivesse testemunhado um atropelamento. Metaforicamente, é o que havia acontecido. Eu havia sido atropelada.

Não um atropelamento como quase havia ocorrido minutos antes, quando um carro tirou um fininho de mim em plena faixa de segurança, mas foi outro tipo de atropelo:

fiquei paralisada por ter sido platéia de um pouco de poesia no meio de uma tarde de um dia útil, que se mostrou útil justamente quando parei de trabalhar.

Voltei pra casa e escrevi este texto sem propósito, em homenagem à neve que também não era neve.

Você tem todos os motivos pra duvidar, mas meu livro Doidas e Santas reúne crônicas bem mais inspiradas que esta. Estarei autografando amanhã na Feira do Livro, às 18h30min. Apareça.

Ótima quarta-feira - Aproveite, ame, namore - Tenhamos todos um ótimo dia.


05 de novembro de 2008
N° 15780 - DAVID COIMBRA


Uma noite de guerra

Não se vê um negro em Buenos Aires. Nem lembro de algum dia um negro ter jogado na seleção argentina. Poderia parecer prova de humanidade dos hermanos – alguém há de achar que por lá não ocorreu a importação de escravos africanos.

Ocorreu.

Até o século 19, havia negros a mancheias na Argentina, tantos que seu número chegava a um terço da população de algumas províncias. Mas eles foram dizimados. Se foi um genocídio sistemático ou não, eis algo que até hoje se discute por lá. O fato é que os negros praticamente desapareceram do país. Como?

Assim:

Na Guerra do Paraguai, o governo argentino promoveu o envio maciço de pelotões de negros para lutar contra o bem treinado exército paraguaio. Nada muito diferente do que fez o Brasil, bem entendido.

Aqui os negros também foram usados como bucha de canhão, e não apenas na Guerra do Paraguai. Mas, na Argentina, logo depois da guerra uma epidemia de febre amarela assolou Buenos Aires.

A população negra sobrevivente, que residia nos bairros de San Telmo e La Boca, ficou confinada nestes locais tornados insalubres pela peste. Os negros argentinos contaminavam-se uns aos outros e morriam feito vermes. Os que conseguiram evadir-se dos guetos homiziaram-se, quase todos, no Uruguai.

Além disso, a Argentina aboliu a escravatura quase meio século antes do Brasil, um ponto a favor dos hermanos. E a imigração européia igualmente começou bem antes, no início dos anos 50 do século 19, eliminando a mão-de-obra escrava. Dois a zero para eles. Desta forma, os negros sumiram de Buenos Aires.

Há uns dois anos, os argentinos realizaram um censo para descobrir qual era o tamanho da população descendente de africanos na capital. Concluíram ser de menos de 5%, a maioria ainda morando nos velhos bairros negros.

Esses bairros continuam reservados à população pobre da cidade, ainda mais empobrecida pelas crises econômicas do século 20. Assim, as ruas de La Boca são estreitas, os prédios velhos e mal-conservados, as pinturas das paredes descascadas. Típico bairro operário decadente.

No coração deste bairro pulsa a Bombonera.

No ano passado, era lá que eu estava, a fim de cobrir a primeira partida da final da Libertadores, entre Grêmio e Boca Juniors. Minha tarefa era acompanhar os torcedores gremistas. No deslocamento do aeroporto para o estádio e durante o jogo foi tudo bem, sem percalços.

Foi na volta que tudo aconteceu.

Terminado o jogo, enviei o material para Porto Alegre e comecei a descer as escadarias de pedra da Bombonera para ir embora. Tinha de encontrar os ônibus dos torcedores. Quando pus o pé no lado de fora do estádio, espantei-me.

O clima de belicosidade eletrizava a noite. Soldados da polícia militar argentina, vestidos de preto, as cabeças cobertas por capacetes, armados de pistolas, cacetetes e metralhadoras, protegidos por escudos, esses soldados formavam pelotões cerrados, fechavam ruas, tentavam dispersar os grupos de torcedores.

O aparato não intimidava os boquenses. Eles formavam bandos, atiravam pedras e garrafas nos policiais, e vez em quando ouvia-se o aterrador estouro de tiros. Estavam atrás dos torcedores do Grêmio e não pareciam dispostos a desistir, mesmo com a firme repressão policial.

Caminhava em meio àquelas ruas conflagradas temendo sobretudo que me atacassem e levassem o laptop do jornal, que carregava às costas, na mochila. Não achava os ônibus.

Perguntava aos policiais, e eles não sabiam dizer de onde partiriam os brasileiros. De vez em quando, a turbamulta assomava de uma ruela num vozerio agressivo, ameaçadores, furiosos, querendo a tudo romper e derrubar.

Quando enfim encontrei os ônibus, encontrei também notícias alarmantes: um grupo de brasileiros havia sido assaltado e espancado. O amigo de alguém tivera a perna quebrada e fora hospitalizado. Um ônibus fora atacado a tiros. Os policiais argentinos informaram que iam nos escoltar até a saída do bairro:

- Fechem as cortinas das janelas! Permaneçam todos agachados nos bancos!

Foi assim que o ônibus partiu, com as luzes apagadas, vagarosa e cautelosamente. Os passageiros todos em silêncio, abaixados, as cabeças entre os joelhos. Lá fora continuavam o som de tiroteio, os gritos e o estouro de pedradas e pauladas. Não resisti.

Abri a cortininha da janela e espiei. As ruas do bairro estavam desertas, mas vez ou outra alguém surgia no topo de um prédio e apontava para o ônibus, ou a janela de um apartamento se abria e eu supunha divisar o cano de uma arma.

A saída de La Boca foi uma operação militar. Ao chegar ao aeroporto de Ezeiza, tentei compreender o que acontecera. Porque, afinal, não havia motivo aparente para todo aquele conflito.

O Boca vencera o jogo e, ao que eu soubesse, não tinha ocorrido nenhuma confusão significativa entre as torcidas ou entre os jogadores. Por que, então, toda aquela loucura?

Assim é a Bombonera. Não acredito que algo semelhante esteja a espera do Inter ou de seus torcedores nesta quarta-feira, mas, tratando-se de La Boca e da Bombonera, é sempre bom se precaver.


05 de novembro de 2008
N° 15780 - PAULO SANT’ANA


Olhos nos olhos

Li há alguns dias que o Supremo Tribunal Federal anulou a sentença de sete anos de prisão contra um réu, pelo crime de roubo, pronunciada por um juiz singular.

A anulação do processo e da sentença deu-se por ter sido o réu julgado depois que se submeteu perante o juiz a um interrogatório por videoconferência.

Muito bem fez o Supremo em anular esse processo, declarando inconstitucional a lei vigente no Estado de São Paulo que instituiu a videoconferência em interrogatórios de processos penais nos casos de réus perigosos.

Um juiz condenar uma pessoa ouvindo-a em uma videoconferência é o mesmo que alguém ter um título protestado sem ter sido notificado do protesto.

A respeito disso, li anteontem um parágrafo constante do livro de um famoso editor, Gay Talese, sobre a história do jornal New York Times: “Não fazemos matéria jornalística direito porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones e gravações. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas”.

Ora, se jornalismo não se faz sem os repórteres olharem para os rostos dos entrevistados e das fontes de informação, como se fará justiça sem os juízes olharem para os rostos dos réus, das vítimas, dos autores e dos demandados em ações?

Os réus têm o direito sagrado de olhar nos olhos do juiz que vai condená-los ou absolvê-los.

E os juízes têm o dever de olhar nos olhos dos réus a quem vão condenar ou absolver.

Caso contrário, ficam muito impessoais, muito distantes, muito remotos os processos e as respectivas sentenças.

O mínimo que se exige num processo, principalmente o que culmina com condenação, ainda mais penal, ainda que possa ser também cível, é que o juiz tenha conhecido o réu, tenha presenciado sua qualificação, tenha-o interrogado pessoalmente.

Ou seja, tenha sentido e perscrutado por controle sensorial a pessoa do réu, seu tom de voz, seus gestos, suas reações.

E por controle sensorial advindo também da confrontação ambiental entre juiz e réu, só assim se pronuncie a sentença, que não será produzida por este contacto, mas será inválida, estéril e indevida se não se cumprir esta formalidade.

É muito injusto que um juiz condene alguém sem tê-lo conhecido.

O ministro do Supremo Ricardo Lewandowski muito bem pronunciou seu voto ao anular o processo por videoconferência quando disse que “o interrogatório é talvez a primeira e última vez que um acusado tem de se defrontar com o juiz”.

E disse melhor em seu voto o decano do Supremo, ministro Celso Mello: “O interrogatório é um ato de defesa”.

É o cúmulo do burocratismo condenar um réu ouvido por videoconferência.


05 de novembro de 2008
N° 15780 - SERGIO FARACO


Sepukai

Eis um país do futuro, a Mongólia, cujo vertiginoso desenvolvimento tem provocado atônitos comentários nos corredores da ONU. Os cientistas mongóis já enviaram uma Laika a Marte, onde se acasalou com um astronauta, pariu e passa bem.

Enquanto as sumidades norte-americanas continuam investigando a possível ocorrência de água no planeta vermelho, um bafo que seja, a NASA da Mongólia já estabeleceu uma colônia lá, inspiradora d’As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, que apesar do nome é mongoloparlante.

Os automóveis de lá têm revolucionária motorização. Nos Estados Unidos, um hebdomadário troçou a respeito, comentando que naquele país os carros são abastecidos com baldes. Baldes, sim, mas o pasquim lhes omitiu o conteúdo para salvaguardar interesses petrolíferos:

os pistões rotativos projetados pela engenharia mongólica trabalham com suco de limão-galego e um só balde proporciona autonomia de sabe-se lá quantas léguas. Ou mais: nas ruas e estradas da Mongólia, como se sabe, não há subidas, só descidas. Quem vai, fica.

Um dos segredos desse progresso é a juventude da população. O jovem sabe o que faz. O homem mais idoso da Mongólia, Luiz Ernani, tem 59 anos e é trisavô.

Explico: ainda na puberdade, os mongóis fazem o Curso de Fornicação, que lá se chama Boriak, e dali já saem boriakando ladeira abaixo. Pode parecer estranho que não sofra o país as seqüelas do superpovoamento. Ora, eles resolveram comilfô o peso social representado pela terceira idade.

Quando o mongol faz 60 anos, o governo lhe oferece uma festa, depois o cerca num canto e lhe dá com um facalhão na pança, o Bugo, que entra pelo umbigo e sai pelo pomo adâmico. A cerimônia se chama Sepukai e é tri-tocante. Aproveita-se o corpo para fazer torresmo.

O Sepukai é considerado pela ONU excelente método para reduzir a população às parcelas economicamente ativas. Os velhos oneram o erário com suas aposentadorias, precisam de remédios e incomodam, além de enfear a exuberante natureza do país e prejudicar o turismo com suas carunchosas figuras.

E pior: custam a morrer. Mortos, mais despesas geram: o terno, a gravata, o féretro, o círio, o túmulo ou a urna e por aí vai, sem falar no cachê da funerária. Na Mongólia, o figurino é acabar com a laia deles.

Aqui é Terceiro Mundo. Os velhos mandam na iniciativa privada e na pública, gozam de coxudas rendas previdenciárias e, se velhos demais, hospedam-se em albergues de luxo, onde têm, com verbas estatais, um vidão de nababos.

Por isso o país não progride. Nossos carros ainda empregam o veterano Ciclo Otto, o preço da gasolina é um acinte e nosso foguete espacial, ao partir, dá um traque e cai sentado

terça-feira, 4 de novembro de 2008



Conheça os benefícios de um "pé na bunda"
Getty Images

Durante os cinco anos em que esteve casada, a gerente de qualidade Gisele Abel, 24 anos, vivia o conto de fadas de qualquer garota que sonha em se casar. "Eu era uma dondoca, uma madame. Minha vida era um sonho de consumo de qualquer pessoa", relembra.

Mas foi após o término do relacionamento que ela se viu tendo que assumir as rédeas de sua vida e responsabilidades que antes não existiam. "Mudei meu visual, mudei de cidade, arrumei um emprego e passei a ser independente financeiramente."

O fim de um relacionamento pode significar uma reviravolta na vida de qualquer mulher. E isso não significa somente mudar o corte dos cabelos, emagrecer quilos e mais quilos ou ainda sair sorridente por aí.

"Em casos em que uma relação não dá certo, a mulher pode preencher o vazio deixado. Ela pode transformar o amor pela pessoa em amor por ela mesma", comenta o psicólogo Mauro Godoy.

Godoy salienta ainda que o "erguer a cabeça e seguir adiante" é algo saudável e uma fase que pode indicar o amadurecimento da mulher. "Sofrer é saudável porque amadurece, mas reagir e investir em si mesma é ainda mais saudável. É o amor próprio e a lucidez. É quase que obrigatório, por ser uma forma de sobrevivência".

Então, se você acabou de levar o famoso "pé na bunda", o jeito é juntar os cacos e canalizar energia em tudo o que lhe possa fazer bem. E isso pode significar cuidar do corpo, investir na carreira ou ainda em uma viagem que você sempre sonhou.

"Eu não teria investido na minha carreira profissional se ainda estivesse casada", comenta Gisele. Assim como para ela, o término da relação foi o ponto de partida para o mergulho profissional da relações públicas Sheila Laranjeiras, 24 anos.

"Me transformei em uma workaholic. Chego a trabalhar 19 horas por dia", conta. Depois do fim do relacionamento, Sheila precisou de seis meses para se recompor e seguir em frente. "Foi bastante dolorido, precisei de um tempo para voltar a minha rotina normal", relembra.

Saiba ver a luz no final do túnel

Segundo a psicóloga Sueli Castillo, o fim de um relacionamento pode ser bastante traumatizante, independentemente do grau de sentimento que exista. "Lidar com o fim de uma relação, ainda amando, gostando ou apenas acomodada em uma situação, é lidar com o deixar de ter, com as perdas. Essa situação causa muita angústia e desassossego para as pessoas", explica.

A psicóloga comenta ainda que o amadurecimento vem com a superação da dor da separação e com o desejo de transformar o que aconteceu de negativo na relação em aprendizado.

A maneira como se lida com a situação, como a capacidade de recomeçar, a culpa e a readaptação social, são fundamentais para o crescimento pessoal da mulher. "Brincar de avestruz, enfiar a cabeça na terra e fazer de conta que nada aconteceu não leva ninguém a nenhum tipo de crescimento e amadurecimento."

Mas não é porque sua vizinha saiu aparentemente ilesa de um "pé na bunda" que você tem que ter a mesma reação. "Existem pessoas que têm resistência emocional, que enfrentam uma dor cara a cara, conscientemente", conta Godoy.

O psicólogo diz ainda que mulheres que nunca passaram por uma perda tendem a ter menos estrutura para superar um rompimento amoroso. "Pessoas com mais vivência têm mais 'facilidade' em superar uma perda grande."

Independentemente da idade ou da experiência amorosa, é fundamental que se perceba o fim de um ciclo amoroso para que um outro possa ser começado.

"É natural e extremamente saudável essa reciclagem na história de vida da mulher. Investir em estudos, buscar uma profissão ou começar a atuar no mercado de trabalho torna a mulher mais independente, ampliando sua visão a respeito de si mesma e do mundo no qual está inserida", finaliza Sueli.


MEGAFUSÃO / FUTURO - Governo espera mais fusões e aquisições

Avaliação é que a crise atual oferece boas oportunidades para bancos capitalizados e que não querem perder espaço

Especialistas alertam para risco de concentração demasiada do setor bancário brasileiro, que pode prejudicar cliente

SHEILA D'AMORIM
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DENYSE GODOY - A REPORTAGEM LOCAL


A fusão entre o Itaú e o Unibanco anunciada ontem, marca, na avaliação do governo, o início de uma onda de fusões e aquisições comuns no sistema bancário em períodos de crise financeira.

Segundo a Folha apurou, a equipe econômica acredita que a negociação acirrará o apetite dos grandes grupos privados que não querem perder espaço no mercado. A análise é que a crise gera boas oportunidades de negócios para quem está capitalizado e com planos de expandir sua atuação.

Essa tendência de movimentação na área financeira em períodos de crise ocorreu também nos anos 1990. O mercado brasileiro, que tinha 243 instituições no final de 1994, possuía 156 em junho deste ano. Os especialistas alertam, no entanto, para o risco de que essa concentração seja prejudicial aos clientes.

"Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de 8.000 bancos, e eles são muito segmentados. Podem, portanto, oferecer um tratamento mais personalizado e atencioso", afirma Carlos Daniel Coradi, diretor da consultoria EFC.

João Augusto Salles, economista da consultoria Lopes Filho, explica que, geralmente, a consolidação de mercado em qualquer setor primeiramente significa benefícios para o consumidor, mas depois acaba sendo negativo.

"A princípio, são oferecidos serviços e tarifas melhores; porém, no momento em que o setor fica nas mãos de poucos atores, a qualidade do atendimento cai."

"Natural"

A procura por instituições à venda neste momento "é natural" na análise do governo porque a competição entre os bancos de varejo é acirrada no país e ninguém quer ficar para trás.

Um problema, no entanto, é que não há mais muitas instituições disponíveis no mercado, como o Unibanco ou a Nossa Caixa, que está sendo negociada com o Banco do Brasil.

Os bancos pequenos e médios não atraem tanto a atenção porque têm nichos específicos, que não contam com interesse dos grandes bancos, com é o caso das operações com baixa renda, financiamentos de longo prazo com prestações pequenas e voltadas para o consumo de bens duráveis. Daí a preferência, atualmente, por análise de carteiras.

No entanto, a disparada do Itaú no ranking dos maiores bancos do Brasil e da América Latina pode fazer com que esse interesse seja revisto.

Banco do Brasil e Bradesco, líderes por muito anos, ficaram em desvantagem. Na avaliação do governo, há ainda uma lista enorme de bancos que estão em boa situação e podem ser adquiridos nesta fase atual de crise internacional.

Para o ministro Guido Mantega (Fazenda), essa tendência de fusões no sistema bancário não deverá alterar significativamente o mercado nacional.

"Acredito que o cenário bancário do Brasil vai ficar mais ou menos como se encontra. Temos cerca de 10 a 15 bancos relevantes, depois bancos menores que também cumprem uma determinada função. Vai mudar um pouco, mas não muito, pois já é um setor concentrado.

Mas o importante é que essa concentração vem no sentido de fortalecer o sistema financeiro".

Colaborou LEANDRA PERES , da Sucursal de Brasília


MEGAFUSÃO / FUTURO - Governo espera mais fusões e aquisições

Avaliação é que a crise atual oferece boas oportunidades para bancos capitalizados e que não querem perder espaço

Especialistas alertam para risco de concentração demasiada do setor bancário brasileiro, que pode prejudicar cliente

SHEILA D'AMORIM
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DENYSE GODOY - A REPORTAGEM LOCAL


A fusão entre o Itaú e o Unibanco anunciada ontem, marca, na avaliação do governo, o início de uma onda de fusões e aquisições comuns no sistema bancário em períodos de crise financeira.

Segundo a Folha apurou, a equipe econômica acredita que a negociação acirrará o apetite dos grandes grupos privados que não querem perder espaço no mercado. A análise é que a crise gera boas oportunidades de negócios para quem está capitalizado e com planos de expandir sua atuação.

Essa tendência de movimentação na área financeira em períodos de crise ocorreu também nos anos 1990. O mercado brasileiro, que tinha 243 instituições no final de 1994, possuía 156 em junho deste ano. Os especialistas alertam, no entanto, para o risco de que essa concentração seja prejudicial aos clientes.

"Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de 8.000 bancos, e eles são muito segmentados. Podem, portanto, oferecer um tratamento mais personalizado e atencioso", afirma Carlos Daniel Coradi, diretor da consultoria EFC.

João Augusto Salles, economista da consultoria Lopes Filho, explica que, geralmente, a consolidação de mercado em qualquer setor primeiramente significa benefícios para o consumidor, mas depois acaba sendo negativo.

"A princípio, são oferecidos serviços e tarifas melhores; porém, no momento em que o setor fica nas mãos de poucos atores, a qualidade do atendimento cai."

"Natural"

A procura por instituições à venda neste momento "é natural" na análise do governo porque a competição entre os bancos de varejo é acirrada no país e ninguém quer ficar para trás.

Um problema, no entanto, é que não há mais muitas instituições disponíveis no mercado, como o Unibanco ou a Nossa Caixa, que está sendo negociada com o Banco do Brasil.

Os bancos pequenos e médios não atraem tanto a atenção porque têm nichos específicos, que não contam com interesse dos grandes bancos, com é o caso das operações com baixa renda, financiamentos de longo prazo com prestações pequenas e voltadas para o consumo de bens duráveis. Daí a preferência, atualmente, por análise de carteiras.

No entanto, a disparada do Itaú no ranking dos maiores bancos do Brasil e da América Latina pode fazer com que esse interesse seja revisto.

Banco do Brasil e Bradesco, líderes por muito anos, ficaram em desvantagem. Na avaliação do governo, há ainda uma lista enorme de bancos que estão em boa situação e podem ser adquiridos nesta fase atual de crise internacional.

Para o ministro Guido Mantega (Fazenda), essa tendência de fusões no sistema bancário não deverá alterar significativamente o mercado nacional.

"Acredito que o cenário bancário do Brasil vai ficar mais ou menos como se encontra. Temos cerca de 10 a 15 bancos relevantes, depois bancos menores que também cumprem uma determinada função. Vai mudar um pouco, mas não muito, pois já é um setor concentrado.

Mas o importante é que essa concentração vem no sentido de fortalecer o sistema financeiro".

Colaborou LEANDRA PERES , da Sucursal de Brasília

CARLOS HEITOR CONY

O poeta das Gálias

RIO DE JANEIRO - Comparado ao Império Romano em seus tempos de glória, os Estados Unidos mudam hoje o comando da guarda e o resto do mundo acompanha com interesse (ou preocupação) o novo esquema de poder que de certa forma contaminará a economia mundial.

Tal como no tempo dos imperadores de Roma, havia e há províncias esparsas que contestavam e contestam o poder e a glória dos Césares de plantão.

Albert Uderzo e René Goscinny criaram em 1959 uma história em quadrinhos na qual uma aldeia gaulesa se rebela contra a globalização romana. São personagens engraçados. O meu preferido é Chatotorix, "o poeta mais chato das Gálias". Após cada episódio, ninguém pode evitar que ele tome a palavra e comente o que se passou.

Hoje é dia importante na vida do império, e haverá Chatotorixes em todos os quadrantes da Terra para louvar ou chorar a vitória ou a derrota de Obama ou McCain. Pensando bem, do ponto de vista internacional, o resultado não mudará em muita coisa a atual situação.

Os Estados Unidos continuarão fazendo o possível e o impossível para manter a hegemonia militar e econômica, tendo inclusive o argumento da sua segurança ameaçada pelo terrorismo. Já se teme desde já um atentado de morte contra um dos candidatos, não por suas idéias, mas pelo fato de ser negro.

A mídia mundial, em sua quase compacta maioria, futebolizou a disputa entre democratas e republicanos, na base de uma batalha do bem contra o mal em termos absolutos.

Se Obama vencer, o poeta fará odes retumbantes à vitória do bem, cantará a nova era que se abre não apenas para os Estados Unidos mas para o mundo todo.

Em caso contrário, Chatotorix chorará amargamente, atribuindo a derrota à Ku Klux Klan, à CIA e ao papa Bento 16.

Uma ótima terça-feira para todos nós.

ELIANE CANTANHÊDE

Ninguém é perfeito

BRASÍLIA - Ao vencer as primárias democratas em Iowa, onde tudo começou, Barack Obama comemorou: "A esperança venceu o medo". Onde você já ouviu isso? Pois é, Obama nos EUA, como Lula no Brasil, fez a campanha da "esperança", da "mudança".
Uma guinada pró-John McCain hoje não é impossível, mas é improvável.

Em dando Obama, os democratas terão a Casa Branca e uma maioria, tanto na Câmara como no Senado, provavelmente impermeável às manobras obstrucionistas dos republicanos.

Obama terá, assim, legitimidade eleitoral, segurança no Congresso e uma imensa simpatia internacional, aliadas a um imenso carisma pessoal e a um poderoso discurso de "transformação".

Para dentro dos EUA, espera-se que ele interrompa o "ladeira abaixo" da maior economia do planeta, que atropela a Europa e causa engarrafamento no mundo.

Para fora, espera-se que Obama faça um mea-culpa pelos erros dos EUA e adote uma política externa aberta, dialogando com amigos e com "inimigos", inclusive Chávez, forçado a rever a retórica: como chamar Obama de "diabo", como faz com Bush?

O mundo precisava dos EUA. Agora, os EUA não mandam mais sozinhos e precisam do mundo. Até para sair da própria crise.

Com a expectativa "para dentro" e "para fora", Obama deve manter a tradição democrata de subsidiar a produção interna em detrimento da importação de países como o Brasil, mas deve fortalecer o ansiado "multilateralismo". E os "emergentes", novamente como Brasil, terão cada vez mais voz e respeito.

Em outras palavras: Obama pode não agradar os exportadores brasileiros, mas deve investir num equilíbrio melhor entre as nações. O preço compensa. E, afinal, ninguém é perfeito.

Fusão Itaú-Unibanco: bom para o sistema, coitado do cliente.

elianec@uol.com.br


04 de novembro de 2008
N° 15779 - CLÁUDIO MORENO


Ler os clássicos

“Homero continua novo esta manhã, e nada é tão velho, talvez, quanto o jornal de hoje”

Charles Péguy

Há muito tempo troquei os contemporâneos pelos clássicos. Assim como muitos vão buscar suas respostas em Marx, no zen-budismo ou nas seções de horóscopo, eu me sinto mais à vontade conversando com meus autores gregos e romanos, que nunca deixam de ser inspiradores e permitem, generosamente, que eu os leia à minha maneira.

Aliás, o segredo da eterna vitalidade da cultura grega sempre será essa extraordinária riqueza de abordagens que ela possibilita; como muito bem definiu W. H. Auden, cada nação, cada época redescobre a Grécia Clássica de uma maneira diferente, à sua própria imagem.

“Há uma Grécia alemã, uma Grécia francesa, uma Grécia inglesa”, diz ele – para concluir, não sem certa maldade: “Pode ser até que exista uma Grécia norte-americana”...

Para o Ocidente, este sempre foi um diálogo frutífero, que não deixou de ser feito mesmo nos períodos em que o Mundo Antigo era condenado pelo Cristianismo primitivo.

O próprio São Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o Latim, amava seus autores pagãos e tratou de justificar sua leitura – e no século 11 de nossa era, um bispo da igreja bizantina costumava fazer a seguinte prece: “Senhor, se estás, em Tua Graça, disposto a poupar algum pagão da ira divina, suplico-te humildemente que poupes Platão e Plutarco”.

Além de lições e de exemplos para a vida, neles encontramos um vastíssimo repertório de personagens e de expressões indispensáveis para a cultura ocidental. Que o diga Margaret Thatcher! Certa feita, ao afirmar que não se deveria dar ouvidos ao enganador canto das sereias dos trabalhistas, ela saiu-se com esta pérola:

“Se Ulisses tivesse ouvido o canto das sereias, seus navios teriam naufragado e ele não teria conseguido chegar a seu destino” – o que deu ensejo a que um deputado de oposição fulminasse o discurso da Dama de Ferro: “Em primeiro lugar, Ulisses ouviu a voz das sereias.

Em segundo lugar, seus navios naufragaram. Em terceiro lugar, assim mesmo ele conseguiu chegar a seu destino. Por último, proponho uma comissão de inquérito que avalie a decadência dos estudos clássicos em todo o Reino Unido”.

Pois, amigos, a L&PM acaba de reunir uma centena de crônicas desta coluna num volume que leva o longo mas sugestivo título de 100 Lições para Viver Melhor – Histórias da Grécia Antiga.

Todos estão desde já convidados para a sessão de autógrafos, nesta sexta, dia 7, às 19h30min, na Feira do Livro.


04 de novembro de 2008
N° 15779 MOACYR SCLIAR

Os brasileiros como leitores

A Feira do Livro de Porto Alegre, inaugurada no último fim de semana, traz de volta perguntas classicamente formuladas nesta época: como está a situação da leitura no Brasil? Os brasileiros lêem ou não lêem? O que lêem? Como lêem? Por que lêem?

Durante muito tempo as respostas a estas perguntas eram baseadas em suposições. Isto mudou. Recentemente foi lançada, pela Imprensa Oficial de São Paulo e pelo Instituto Pró-Livro, uma importante obra, Retratos da Leitura no Brasil, organizada por Galeno Amorim,

que tem uma extensa experiência na coordenação pública do setor do livro no Brasil e foi secretário de Cultura em Ribeirão Preto. Trata-se de um estudo estatístico, realizado sobre uma amostra de mais de 5 mil pessoas em 311 municípios.

Foram considerados leitores pessoas que, entrevistadas, declararam ter lido pelo menos um livro nos três meses anteriores. De acordo com este critério, e generalizando a partir da amostra, conclui-se que 95 milhões de brasileiros, mais da metade da população, são leitores.

Não é o ideal, mas é um avanço para um país, no qual, à época de Machado de Assis, 90% das pessoas eram analfabetas. Na lista dos países que mais publicam livros ,o Brasil está num nada mau 11º lugar.

E será que os brasileiros gostam de ler? 41% disseram que gostam muito de ler, 46% gostam “um pouco” da leitura e os 13% restantes não querem nada com o texto.

O prazer é a maior motivação para a leitura; depois vem a obrigação, escolar ou acadêmica, a necessidade de se manter informado, a religião. Aliás, quando se pergunta a leitores qual a obra mais significativa em suas vidas, a maioria responde que é a Bíblia; seguem-se O Sítio do Pica-Pau Amarelo (grande Monteiro Lobato!),

O Pequeno Príncipe, do francês Saint-Exupéry, que, numa época, todas as candidatas a miss qualquer-coisa citavam, e Dom Casmurro, do imortal Machado (deve ter muito ciumento por aí querendo saber se Capitu traiu ou não Bentinho).

Mas o autor mais admirado, para desgosto da intelectualidade, ainda é Paulo Coelho, seguido por Monteiro Lobato, Jorge Amado, Machado, Vinicius de Moraes, Drummond e Cecilia Meireles.

Mesmo aqueles que lêem não lêem muito, em termos de tempo. A maioria lê uma hora ou menos por semana. Como seria de esperar, estudantes lêem mais, o que enfatiza o papel da escola como incentivadora da leitura.

Há obstáculos para a leitura, que vão desde problemas visuais até dificuldade de entendimento (sem falar no analfabetismo), e eles ainda afetam metade da população. O que só enfatiza a necessidade de motivar as pessoas; professores e pais têm aí um papel fundamental.

O estudo também mostrou que, depois das livrarias, as feiras de livro são o lugar onde as pessoas mais compram livros.

Portanto, não percam tempo: corram à Praça da Alfândega. Ou vão a outras feiras – a de Farroupilha da qual sou, com muita honra, patrono, está ótima. É tempo de livros, pessoal.

Os americanos podem ter muitos defeitos, mas têm uma grande qualidade: aprendem com seus erros. Um país que foi racista e guerreiro pode agora eleger um candidato negro e menos belicoso.

Falando nisto, nem o Obama escapa aos nomes que condicionam destino. Sabem de quem ele cogita para o lugar da Condoleezza Rice? O senador Richard Lugar. Se dependesse desta coluna, já estaria no cargo.


04 de novembro de 2008
N° 15779 - PAULO SANT’ANA


Bancos e times fracos

Estava no auge da crise econômica internacional quando o governo brasileiro sinalizou: autorizou a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil a socorrer bancos particulares que atravessassem crise de liquidez com seus depósitos e investimentos.

Numa época como esta, de terror financeiro, tenho certeza de que milhares de depositantes transferiram seus depósitos de bancos particulares para a Caixa e o Banco do Brasil.

Agora, ontem, o Itaú e o Unibanco anunciaram com estardalhaço a sua fusão, vão se tornar um banco só e amealharão um quinto do movimento bancário brasileiro.

Em muito boa hora é anunciada essa fusão. Os depositantes, investidores e clientes dos dois bancos ficam possuídos de serenidade com esta notícia de que estão lidando agora com um banco poderoso.

Essa fusão passa tranqüilidade para o mercado.

Da minha parte, como depositante, entendo que tem de haver uma relação de confiança entre o cliente e o banco.

Eu só sou cliente de banco que me esfola nas taxas, que me arranca bastante dinheiro para administrar minha conta.

Não vou depositar dinheiro em banco pequeno que fica cheio de dedos para me cobrar as taxas. Um banco que não sabe nem cobrar taxas de seus clientes é um banco que não se dá ao respeito.

Os bancos, na minha visão, têm de me escorchar para que eu os sinta mais fortes.

Ao anunciarem sua fusão, o Itaú e o Unibanco estão mandando dizer aos seus clientes e ao mercado que não estão aí para brincadeira, eles aliaram seus recursos no sentido de se tornarem mais fortes, mais sólidos, mais responsáveis.

E os clientes gostam de se sentir seguros, investindo em bancos mais sólidos, que transmitem sensação de poder.

Eu não simpatizo com bancos que me cobram taxas pequenas.

Os gremistas Rekern e Léo Guerchmann, aqui da Redação, são símbolos da torcida do Grêmio. Eles agora acreditam sinceramente que o Grêmio vai entrar no G4, alcançará até a quarta colocação neste campeonato brasileiro e disputará a Libertadores no ano que vem.

Não falam mais em título, embora tivessem acreditado nele durante tantos meses.

Eu ontem chamei os dois e disse-lhes o seguinte: “Eu fico olhando de longe a esperança de vocês. Agora vocês estão sonhando com o G4. Eu não quero arrancar vocês dois do seu sonho, não sou um desconstrutor de ilusões.

Se isso os faz felizes, é o que importa. Mas se vocês quiserem saber da verdade, de qual time vai ser campeão, de quais times têm chances de disputar a Libertadores no ano que vem, falem comigo. Sonhem, se iludam, esta é uma boa receita para serem felizes.

Mas sinto dizer-lhes que a realidade é outra. O Grêmio não tem time para ganhar sequer uma partida das cinco que lhe faltam. É preciso olhar para o fenômeno tendência. E por esse fenômeno o Grêmio não vai ficar no G4”.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008


MOACYR SCLIAR

Uma instalação no vazio

Satisfeito, coloca um cartaz em uma coluna [do prédio da Bienal], com os dizeres: "Instalação: o vazio ocupado"

Se a intenção da curadoria da 28ª Bienal de São Paulo era dar visibilidade à crise do modelo das bienais, o resultado foi plenamente alcançado.

O vazio do segundo andar, que representaria a tal crise, recebeu muito mais elogios de artistas e curadores do que a mostra de arte apresentada no terceiro andar, marcada pelo tom conceitual.

PARA MUITAS pessoas o espaço vazio da Bienal é um tema interessante para uma discussão artística e intelectual: o que, afinal, significa a arte, em que medida a imaginação e a inteligência das pessoas devem ser mobilizadas para compreender o que aparentemente é incompreensível etc. Mas existe alguém que vê o espaço vazio não apenas como um mistério, mas até como uma ameaça.

É um dos vigilantes do prédio. Ele tem uma fantasia. Será pelo fato de prestar serviços em um lugar classicamente associado à imaginação criadora? Ele não sabe. O certo é que tem uma fantasia, um devaneio -que, na verdade, e como já se verá, atenderia melhor pelo nome de pesadelo.

Nessa fantasia, ele está, tarde da noite, diante do prédio da Bienal cumprindo seu dever de vigilante. Tudo parece calmo, mas ele tem um pressentimento de que algo vai acontecer.

E algo acontece: de repente surge, diante dele, uma pequena multidão: homens, mulheres, crianças. Gente pobre, maltrapilha, vários deles empurrando velhos carrinhos de supermercado com colchões, panelas, roupas. Alarmado, o vigilante pergunta o que querem.

Não respondem, mas então aparece um homem jovem, simpático, longos cabelos, roupa estranha, mas elegante. "Sou um artista", ele diz e acrescenta: "Estes que aqui estão são meus colaboradores". Melhor dizendo, senhor vigilante, eles são a matéria-prima com a qual eu vou construir minha obra de arte.

Uma instalação." Uma instalação? O vigilante não tem a menor idéia do que vem a ser isso, mas, por outro lado, tem vergonha de perguntar, mesmo porque a presença do artista o intimida. Percebendo-o, o jovem ri e explica que uma instalação é uma obra de arte um pouco diferente, não é um quadro, não é uma escultura, é outra coisa.

Uma coisa que tem de ser montada e ele vai montá-la, bastando para isso que a porta seja aberta.

Depois de uma pequena hesitação o vigilante -que diabo, nunca vou entender esses artistas- abre a porta. A multidão entra, corre para o segundo andar e, num instante, o grande espaço vazio está ocupado.

Colchões são colocados no chão, um varal de roupas é estendido, comida é aquecida em pequenas fogueiras. O artista observa, atento, e de vez em quando dá instruções: "Vocês aí no fundo, não se afastem tanto, não esqueçam de que o conjunto é fundamental". Finalmente, satisfeito, coloca um cartaz em uma coluna, com os dizeres: "Instalação: o vazio ocupado".

Na sua fantasia, o vigilante fica ali, inerme, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. De manhã, pessoas virão e esclarecerão a dúvida: é aquilo mesmo uma obra de arte?

Na sua fantasia, essas são horas de apreensão, de sofrimento mesmo. É com alívio que ele vê a noite passar sem que ninguém apareça. Um dia a Bienal terminará e, com ela, seu pesadelo.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha