terça-feira, 4 de novembro de 2008



MEGAFUSÃO / FUTURO - Governo espera mais fusões e aquisições

Avaliação é que a crise atual oferece boas oportunidades para bancos capitalizados e que não querem perder espaço

Especialistas alertam para risco de concentração demasiada do setor bancário brasileiro, que pode prejudicar cliente

SHEILA D'AMORIM
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DENYSE GODOY - A REPORTAGEM LOCAL


A fusão entre o Itaú e o Unibanco anunciada ontem, marca, na avaliação do governo, o início de uma onda de fusões e aquisições comuns no sistema bancário em períodos de crise financeira.

Segundo a Folha apurou, a equipe econômica acredita que a negociação acirrará o apetite dos grandes grupos privados que não querem perder espaço no mercado. A análise é que a crise gera boas oportunidades de negócios para quem está capitalizado e com planos de expandir sua atuação.

Essa tendência de movimentação na área financeira em períodos de crise ocorreu também nos anos 1990. O mercado brasileiro, que tinha 243 instituições no final de 1994, possuía 156 em junho deste ano. Os especialistas alertam, no entanto, para o risco de que essa concentração seja prejudicial aos clientes.

"Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de 8.000 bancos, e eles são muito segmentados. Podem, portanto, oferecer um tratamento mais personalizado e atencioso", afirma Carlos Daniel Coradi, diretor da consultoria EFC.

João Augusto Salles, economista da consultoria Lopes Filho, explica que, geralmente, a consolidação de mercado em qualquer setor primeiramente significa benefícios para o consumidor, mas depois acaba sendo negativo.

"A princípio, são oferecidos serviços e tarifas melhores; porém, no momento em que o setor fica nas mãos de poucos atores, a qualidade do atendimento cai."

"Natural"

A procura por instituições à venda neste momento "é natural" na análise do governo porque a competição entre os bancos de varejo é acirrada no país e ninguém quer ficar para trás.

Um problema, no entanto, é que não há mais muitas instituições disponíveis no mercado, como o Unibanco ou a Nossa Caixa, que está sendo negociada com o Banco do Brasil.

Os bancos pequenos e médios não atraem tanto a atenção porque têm nichos específicos, que não contam com interesse dos grandes bancos, com é o caso das operações com baixa renda, financiamentos de longo prazo com prestações pequenas e voltadas para o consumo de bens duráveis. Daí a preferência, atualmente, por análise de carteiras.

No entanto, a disparada do Itaú no ranking dos maiores bancos do Brasil e da América Latina pode fazer com que esse interesse seja revisto.

Banco do Brasil e Bradesco, líderes por muito anos, ficaram em desvantagem. Na avaliação do governo, há ainda uma lista enorme de bancos que estão em boa situação e podem ser adquiridos nesta fase atual de crise internacional.

Para o ministro Guido Mantega (Fazenda), essa tendência de fusões no sistema bancário não deverá alterar significativamente o mercado nacional.

"Acredito que o cenário bancário do Brasil vai ficar mais ou menos como se encontra. Temos cerca de 10 a 15 bancos relevantes, depois bancos menores que também cumprem uma determinada função. Vai mudar um pouco, mas não muito, pois já é um setor concentrado.

Mas o importante é que essa concentração vem no sentido de fortalecer o sistema financeiro".

Colaborou LEANDRA PERES , da Sucursal de Brasília


MEGAFUSÃO / FUTURO - Governo espera mais fusões e aquisições

Avaliação é que a crise atual oferece boas oportunidades para bancos capitalizados e que não querem perder espaço

Especialistas alertam para risco de concentração demasiada do setor bancário brasileiro, que pode prejudicar cliente

SHEILA D'AMORIM
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DENYSE GODOY - A REPORTAGEM LOCAL


A fusão entre o Itaú e o Unibanco anunciada ontem, marca, na avaliação do governo, o início de uma onda de fusões e aquisições comuns no sistema bancário em períodos de crise financeira.

Segundo a Folha apurou, a equipe econômica acredita que a negociação acirrará o apetite dos grandes grupos privados que não querem perder espaço no mercado. A análise é que a crise gera boas oportunidades de negócios para quem está capitalizado e com planos de expandir sua atuação.

Essa tendência de movimentação na área financeira em períodos de crise ocorreu também nos anos 1990. O mercado brasileiro, que tinha 243 instituições no final de 1994, possuía 156 em junho deste ano. Os especialistas alertam, no entanto, para o risco de que essa concentração seja prejudicial aos clientes.

"Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de 8.000 bancos, e eles são muito segmentados. Podem, portanto, oferecer um tratamento mais personalizado e atencioso", afirma Carlos Daniel Coradi, diretor da consultoria EFC.

João Augusto Salles, economista da consultoria Lopes Filho, explica que, geralmente, a consolidação de mercado em qualquer setor primeiramente significa benefícios para o consumidor, mas depois acaba sendo negativo.

"A princípio, são oferecidos serviços e tarifas melhores; porém, no momento em que o setor fica nas mãos de poucos atores, a qualidade do atendimento cai."

"Natural"

A procura por instituições à venda neste momento "é natural" na análise do governo porque a competição entre os bancos de varejo é acirrada no país e ninguém quer ficar para trás.

Um problema, no entanto, é que não há mais muitas instituições disponíveis no mercado, como o Unibanco ou a Nossa Caixa, que está sendo negociada com o Banco do Brasil.

Os bancos pequenos e médios não atraem tanto a atenção porque têm nichos específicos, que não contam com interesse dos grandes bancos, com é o caso das operações com baixa renda, financiamentos de longo prazo com prestações pequenas e voltadas para o consumo de bens duráveis. Daí a preferência, atualmente, por análise de carteiras.

No entanto, a disparada do Itaú no ranking dos maiores bancos do Brasil e da América Latina pode fazer com que esse interesse seja revisto.

Banco do Brasil e Bradesco, líderes por muito anos, ficaram em desvantagem. Na avaliação do governo, há ainda uma lista enorme de bancos que estão em boa situação e podem ser adquiridos nesta fase atual de crise internacional.

Para o ministro Guido Mantega (Fazenda), essa tendência de fusões no sistema bancário não deverá alterar significativamente o mercado nacional.

"Acredito que o cenário bancário do Brasil vai ficar mais ou menos como se encontra. Temos cerca de 10 a 15 bancos relevantes, depois bancos menores que também cumprem uma determinada função. Vai mudar um pouco, mas não muito, pois já é um setor concentrado.

Mas o importante é que essa concentração vem no sentido de fortalecer o sistema financeiro".

Colaborou LEANDRA PERES , da Sucursal de Brasília

CARLOS HEITOR CONY

O poeta das Gálias

RIO DE JANEIRO - Comparado ao Império Romano em seus tempos de glória, os Estados Unidos mudam hoje o comando da guarda e o resto do mundo acompanha com interesse (ou preocupação) o novo esquema de poder que de certa forma contaminará a economia mundial.

Tal como no tempo dos imperadores de Roma, havia e há províncias esparsas que contestavam e contestam o poder e a glória dos Césares de plantão.

Albert Uderzo e René Goscinny criaram em 1959 uma história em quadrinhos na qual uma aldeia gaulesa se rebela contra a globalização romana. São personagens engraçados. O meu preferido é Chatotorix, "o poeta mais chato das Gálias". Após cada episódio, ninguém pode evitar que ele tome a palavra e comente o que se passou.

Hoje é dia importante na vida do império, e haverá Chatotorixes em todos os quadrantes da Terra para louvar ou chorar a vitória ou a derrota de Obama ou McCain. Pensando bem, do ponto de vista internacional, o resultado não mudará em muita coisa a atual situação.

Os Estados Unidos continuarão fazendo o possível e o impossível para manter a hegemonia militar e econômica, tendo inclusive o argumento da sua segurança ameaçada pelo terrorismo. Já se teme desde já um atentado de morte contra um dos candidatos, não por suas idéias, mas pelo fato de ser negro.

A mídia mundial, em sua quase compacta maioria, futebolizou a disputa entre democratas e republicanos, na base de uma batalha do bem contra o mal em termos absolutos.

Se Obama vencer, o poeta fará odes retumbantes à vitória do bem, cantará a nova era que se abre não apenas para os Estados Unidos mas para o mundo todo.

Em caso contrário, Chatotorix chorará amargamente, atribuindo a derrota à Ku Klux Klan, à CIA e ao papa Bento 16.

Uma ótima terça-feira para todos nós.

ELIANE CANTANHÊDE

Ninguém é perfeito

BRASÍLIA - Ao vencer as primárias democratas em Iowa, onde tudo começou, Barack Obama comemorou: "A esperança venceu o medo". Onde você já ouviu isso? Pois é, Obama nos EUA, como Lula no Brasil, fez a campanha da "esperança", da "mudança".
Uma guinada pró-John McCain hoje não é impossível, mas é improvável.

Em dando Obama, os democratas terão a Casa Branca e uma maioria, tanto na Câmara como no Senado, provavelmente impermeável às manobras obstrucionistas dos republicanos.

Obama terá, assim, legitimidade eleitoral, segurança no Congresso e uma imensa simpatia internacional, aliadas a um imenso carisma pessoal e a um poderoso discurso de "transformação".

Para dentro dos EUA, espera-se que ele interrompa o "ladeira abaixo" da maior economia do planeta, que atropela a Europa e causa engarrafamento no mundo.

Para fora, espera-se que Obama faça um mea-culpa pelos erros dos EUA e adote uma política externa aberta, dialogando com amigos e com "inimigos", inclusive Chávez, forçado a rever a retórica: como chamar Obama de "diabo", como faz com Bush?

O mundo precisava dos EUA. Agora, os EUA não mandam mais sozinhos e precisam do mundo. Até para sair da própria crise.

Com a expectativa "para dentro" e "para fora", Obama deve manter a tradição democrata de subsidiar a produção interna em detrimento da importação de países como o Brasil, mas deve fortalecer o ansiado "multilateralismo". E os "emergentes", novamente como Brasil, terão cada vez mais voz e respeito.

Em outras palavras: Obama pode não agradar os exportadores brasileiros, mas deve investir num equilíbrio melhor entre as nações. O preço compensa. E, afinal, ninguém é perfeito.

Fusão Itaú-Unibanco: bom para o sistema, coitado do cliente.

elianec@uol.com.br


04 de novembro de 2008
N° 15779 - CLÁUDIO MORENO


Ler os clássicos

“Homero continua novo esta manhã, e nada é tão velho, talvez, quanto o jornal de hoje”

Charles Péguy

Há muito tempo troquei os contemporâneos pelos clássicos. Assim como muitos vão buscar suas respostas em Marx, no zen-budismo ou nas seções de horóscopo, eu me sinto mais à vontade conversando com meus autores gregos e romanos, que nunca deixam de ser inspiradores e permitem, generosamente, que eu os leia à minha maneira.

Aliás, o segredo da eterna vitalidade da cultura grega sempre será essa extraordinária riqueza de abordagens que ela possibilita; como muito bem definiu W. H. Auden, cada nação, cada época redescobre a Grécia Clássica de uma maneira diferente, à sua própria imagem.

“Há uma Grécia alemã, uma Grécia francesa, uma Grécia inglesa”, diz ele – para concluir, não sem certa maldade: “Pode ser até que exista uma Grécia norte-americana”...

Para o Ocidente, este sempre foi um diálogo frutífero, que não deixou de ser feito mesmo nos períodos em que o Mundo Antigo era condenado pelo Cristianismo primitivo.

O próprio São Jerônimo, que traduziu a Bíblia para o Latim, amava seus autores pagãos e tratou de justificar sua leitura – e no século 11 de nossa era, um bispo da igreja bizantina costumava fazer a seguinte prece: “Senhor, se estás, em Tua Graça, disposto a poupar algum pagão da ira divina, suplico-te humildemente que poupes Platão e Plutarco”.

Além de lições e de exemplos para a vida, neles encontramos um vastíssimo repertório de personagens e de expressões indispensáveis para a cultura ocidental. Que o diga Margaret Thatcher! Certa feita, ao afirmar que não se deveria dar ouvidos ao enganador canto das sereias dos trabalhistas, ela saiu-se com esta pérola:

“Se Ulisses tivesse ouvido o canto das sereias, seus navios teriam naufragado e ele não teria conseguido chegar a seu destino” – o que deu ensejo a que um deputado de oposição fulminasse o discurso da Dama de Ferro: “Em primeiro lugar, Ulisses ouviu a voz das sereias.

Em segundo lugar, seus navios naufragaram. Em terceiro lugar, assim mesmo ele conseguiu chegar a seu destino. Por último, proponho uma comissão de inquérito que avalie a decadência dos estudos clássicos em todo o Reino Unido”.

Pois, amigos, a L&PM acaba de reunir uma centena de crônicas desta coluna num volume que leva o longo mas sugestivo título de 100 Lições para Viver Melhor – Histórias da Grécia Antiga.

Todos estão desde já convidados para a sessão de autógrafos, nesta sexta, dia 7, às 19h30min, na Feira do Livro.


04 de novembro de 2008
N° 15779 MOACYR SCLIAR

Os brasileiros como leitores

A Feira do Livro de Porto Alegre, inaugurada no último fim de semana, traz de volta perguntas classicamente formuladas nesta época: como está a situação da leitura no Brasil? Os brasileiros lêem ou não lêem? O que lêem? Como lêem? Por que lêem?

Durante muito tempo as respostas a estas perguntas eram baseadas em suposições. Isto mudou. Recentemente foi lançada, pela Imprensa Oficial de São Paulo e pelo Instituto Pró-Livro, uma importante obra, Retratos da Leitura no Brasil, organizada por Galeno Amorim,

que tem uma extensa experiência na coordenação pública do setor do livro no Brasil e foi secretário de Cultura em Ribeirão Preto. Trata-se de um estudo estatístico, realizado sobre uma amostra de mais de 5 mil pessoas em 311 municípios.

Foram considerados leitores pessoas que, entrevistadas, declararam ter lido pelo menos um livro nos três meses anteriores. De acordo com este critério, e generalizando a partir da amostra, conclui-se que 95 milhões de brasileiros, mais da metade da população, são leitores.

Não é o ideal, mas é um avanço para um país, no qual, à época de Machado de Assis, 90% das pessoas eram analfabetas. Na lista dos países que mais publicam livros ,o Brasil está num nada mau 11º lugar.

E será que os brasileiros gostam de ler? 41% disseram que gostam muito de ler, 46% gostam “um pouco” da leitura e os 13% restantes não querem nada com o texto.

O prazer é a maior motivação para a leitura; depois vem a obrigação, escolar ou acadêmica, a necessidade de se manter informado, a religião. Aliás, quando se pergunta a leitores qual a obra mais significativa em suas vidas, a maioria responde que é a Bíblia; seguem-se O Sítio do Pica-Pau Amarelo (grande Monteiro Lobato!),

O Pequeno Príncipe, do francês Saint-Exupéry, que, numa época, todas as candidatas a miss qualquer-coisa citavam, e Dom Casmurro, do imortal Machado (deve ter muito ciumento por aí querendo saber se Capitu traiu ou não Bentinho).

Mas o autor mais admirado, para desgosto da intelectualidade, ainda é Paulo Coelho, seguido por Monteiro Lobato, Jorge Amado, Machado, Vinicius de Moraes, Drummond e Cecilia Meireles.

Mesmo aqueles que lêem não lêem muito, em termos de tempo. A maioria lê uma hora ou menos por semana. Como seria de esperar, estudantes lêem mais, o que enfatiza o papel da escola como incentivadora da leitura.

Há obstáculos para a leitura, que vão desde problemas visuais até dificuldade de entendimento (sem falar no analfabetismo), e eles ainda afetam metade da população. O que só enfatiza a necessidade de motivar as pessoas; professores e pais têm aí um papel fundamental.

O estudo também mostrou que, depois das livrarias, as feiras de livro são o lugar onde as pessoas mais compram livros.

Portanto, não percam tempo: corram à Praça da Alfândega. Ou vão a outras feiras – a de Farroupilha da qual sou, com muita honra, patrono, está ótima. É tempo de livros, pessoal.

Os americanos podem ter muitos defeitos, mas têm uma grande qualidade: aprendem com seus erros. Um país que foi racista e guerreiro pode agora eleger um candidato negro e menos belicoso.

Falando nisto, nem o Obama escapa aos nomes que condicionam destino. Sabem de quem ele cogita para o lugar da Condoleezza Rice? O senador Richard Lugar. Se dependesse desta coluna, já estaria no cargo.


04 de novembro de 2008
N° 15779 - PAULO SANT’ANA


Bancos e times fracos

Estava no auge da crise econômica internacional quando o governo brasileiro sinalizou: autorizou a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil a socorrer bancos particulares que atravessassem crise de liquidez com seus depósitos e investimentos.

Numa época como esta, de terror financeiro, tenho certeza de que milhares de depositantes transferiram seus depósitos de bancos particulares para a Caixa e o Banco do Brasil.

Agora, ontem, o Itaú e o Unibanco anunciaram com estardalhaço a sua fusão, vão se tornar um banco só e amealharão um quinto do movimento bancário brasileiro.

Em muito boa hora é anunciada essa fusão. Os depositantes, investidores e clientes dos dois bancos ficam possuídos de serenidade com esta notícia de que estão lidando agora com um banco poderoso.

Essa fusão passa tranqüilidade para o mercado.

Da minha parte, como depositante, entendo que tem de haver uma relação de confiança entre o cliente e o banco.

Eu só sou cliente de banco que me esfola nas taxas, que me arranca bastante dinheiro para administrar minha conta.

Não vou depositar dinheiro em banco pequeno que fica cheio de dedos para me cobrar as taxas. Um banco que não sabe nem cobrar taxas de seus clientes é um banco que não se dá ao respeito.

Os bancos, na minha visão, têm de me escorchar para que eu os sinta mais fortes.

Ao anunciarem sua fusão, o Itaú e o Unibanco estão mandando dizer aos seus clientes e ao mercado que não estão aí para brincadeira, eles aliaram seus recursos no sentido de se tornarem mais fortes, mais sólidos, mais responsáveis.

E os clientes gostam de se sentir seguros, investindo em bancos mais sólidos, que transmitem sensação de poder.

Eu não simpatizo com bancos que me cobram taxas pequenas.

Os gremistas Rekern e Léo Guerchmann, aqui da Redação, são símbolos da torcida do Grêmio. Eles agora acreditam sinceramente que o Grêmio vai entrar no G4, alcançará até a quarta colocação neste campeonato brasileiro e disputará a Libertadores no ano que vem.

Não falam mais em título, embora tivessem acreditado nele durante tantos meses.

Eu ontem chamei os dois e disse-lhes o seguinte: “Eu fico olhando de longe a esperança de vocês. Agora vocês estão sonhando com o G4. Eu não quero arrancar vocês dois do seu sonho, não sou um desconstrutor de ilusões.

Se isso os faz felizes, é o que importa. Mas se vocês quiserem saber da verdade, de qual time vai ser campeão, de quais times têm chances de disputar a Libertadores no ano que vem, falem comigo. Sonhem, se iludam, esta é uma boa receita para serem felizes.

Mas sinto dizer-lhes que a realidade é outra. O Grêmio não tem time para ganhar sequer uma partida das cinco que lhe faltam. É preciso olhar para o fenômeno tendência. E por esse fenômeno o Grêmio não vai ficar no G4”.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008


MOACYR SCLIAR

Uma instalação no vazio

Satisfeito, coloca um cartaz em uma coluna [do prédio da Bienal], com os dizeres: "Instalação: o vazio ocupado"

Se a intenção da curadoria da 28ª Bienal de São Paulo era dar visibilidade à crise do modelo das bienais, o resultado foi plenamente alcançado.

O vazio do segundo andar, que representaria a tal crise, recebeu muito mais elogios de artistas e curadores do que a mostra de arte apresentada no terceiro andar, marcada pelo tom conceitual.

PARA MUITAS pessoas o espaço vazio da Bienal é um tema interessante para uma discussão artística e intelectual: o que, afinal, significa a arte, em que medida a imaginação e a inteligência das pessoas devem ser mobilizadas para compreender o que aparentemente é incompreensível etc. Mas existe alguém que vê o espaço vazio não apenas como um mistério, mas até como uma ameaça.

É um dos vigilantes do prédio. Ele tem uma fantasia. Será pelo fato de prestar serviços em um lugar classicamente associado à imaginação criadora? Ele não sabe. O certo é que tem uma fantasia, um devaneio -que, na verdade, e como já se verá, atenderia melhor pelo nome de pesadelo.

Nessa fantasia, ele está, tarde da noite, diante do prédio da Bienal cumprindo seu dever de vigilante. Tudo parece calmo, mas ele tem um pressentimento de que algo vai acontecer.

E algo acontece: de repente surge, diante dele, uma pequena multidão: homens, mulheres, crianças. Gente pobre, maltrapilha, vários deles empurrando velhos carrinhos de supermercado com colchões, panelas, roupas. Alarmado, o vigilante pergunta o que querem.

Não respondem, mas então aparece um homem jovem, simpático, longos cabelos, roupa estranha, mas elegante. "Sou um artista", ele diz e acrescenta: "Estes que aqui estão são meus colaboradores". Melhor dizendo, senhor vigilante, eles são a matéria-prima com a qual eu vou construir minha obra de arte.

Uma instalação." Uma instalação? O vigilante não tem a menor idéia do que vem a ser isso, mas, por outro lado, tem vergonha de perguntar, mesmo porque a presença do artista o intimida. Percebendo-o, o jovem ri e explica que uma instalação é uma obra de arte um pouco diferente, não é um quadro, não é uma escultura, é outra coisa.

Uma coisa que tem de ser montada e ele vai montá-la, bastando para isso que a porta seja aberta.

Depois de uma pequena hesitação o vigilante -que diabo, nunca vou entender esses artistas- abre a porta. A multidão entra, corre para o segundo andar e, num instante, o grande espaço vazio está ocupado.

Colchões são colocados no chão, um varal de roupas é estendido, comida é aquecida em pequenas fogueiras. O artista observa, atento, e de vez em quando dá instruções: "Vocês aí no fundo, não se afastem tanto, não esqueçam de que o conjunto é fundamental". Finalmente, satisfeito, coloca um cartaz em uma coluna, com os dizeres: "Instalação: o vazio ocupado".

Na sua fantasia, o vigilante fica ali, inerme, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. De manhã, pessoas virão e esclarecerão a dúvida: é aquilo mesmo uma obra de arte?

Na sua fantasia, essas são horas de apreensão, de sofrimento mesmo. É com alívio que ele vê a noite passar sem que ninguém apareça. Um dia a Bienal terminará e, com ela, seu pesadelo.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

RUY CASTRO

Mulher-repolho

RIO DE JANEIRO - Oscar Wilde dizia, com exagero, que a moda é uma forma tão intolerável de horror que tem de ser mudada todo ano. Mas, com tal rotatividade, é fatal que certos horrores sejam cíclicos.

Os costureiros apenas deixam passar uma ou duas gerações, para que a memória histórica se dissipe e essa ou aquela moda volte como novidade. Os babados, por exemplo.

Os babados vêm de longe, dos tempos de "A princesa de Clèves", de Madame de Staël, no século 17, ou até de antes. Desde o começo, já eram aquela cascata de rufos, folhos e franzidos de renda ou de seda, aplicada à gola do vestido ou da camisa, descendo em camadas pelo peito da pessoa, às vezes espalhando-se pelos punhos e, nos casos mais graves, combinando com um lenço. O nome técnico é jabô.

Mas o efeito sempre foi transformar homens e mulheres em repolhos.
Vide a Revolução Francesa. O próprio Robespierre passava anos sem tirar seu jabô do pescoço, nem mesmo para lavar. Mas tudo acaba. No século 19, os homens trocaram o jabô pela gravata e ele ficou exclusivo das mulheres, até que elas também o abandonaram.

Depois de décadas no limbo, os babados voltaram, entre 1965 e 1970, na "swinging London" -o breve período em que Londres trocou o fog, o pigarro e o guarda-chuva por sexo, drogas e rock'n'roll -, e convenceram os homens do mundo inteiro a usá-los. (Menos no Brasil, onde o único a aderir foi o costureiro Denner.)
Pois eis que, agora, os babados estão de volta, pelo menos entre as mulheres.

E não se limitam ao peito. Ameaçam tomar o vestido inteiro, transformando a mulher numa instalação gótica foragida de um hortifrúti. O horror está às portas e, desta vez, só uma coisa pode contê-lo: a crise global. Com a falta de crédito, não haverá dinheiro para tantos fru-frus.


03 de novembro de 2008
N° 15778 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Pássaros de primavera

Há qualquer coisa neste apartamento onde me abrigo que atrai aladas dinastias de visitantes. Por sucessivas primaveras, isto aqui foi a pista de aterrissagem de tico-ticos, pardais e cambacicas, o palco de sua dança nupcial, o jardim de infância de seus filhotes. Depois, chegou o turno das andorinhas.

Vindas de distantes terras ou nascidas pelas vizinhanças – já que os descuidos que votamos à ronda das estações acabaram subvertendo suas migrações de antigamente –, passaram a me dar o prazer de sua companhia. Não sei quantas gerações desses pássaros de um belíssimo azul-noturno aprenderam a conhecer os mistérios da vida e do universo numa mínima sacada oculta desta casa.

Eram, não duvido, linhagens de uma mesma e imensa família. Nunca lhes pedi certidão de nascimento, mas aprendi a conhecê-las – avós, pais, filhos –, ou por certa parecença de visual e modos, ou por um certo jeito de sorrir que tinham.

Após, sobrevieram uns tempos ásperos. Desertaram-se as sacadas e jardins de meus hóspedes habituais – suponho que foram cantar todos em outras freguesias. Eis senão contudo que, numa manhã do último setembro, havendo levantado mais cedo para concluir um chatíssimo trabalho, escutei de repente arrulhos.

Arrulhos – me apresso a esclarecer – são uma fala ou conversa meiga, terna, carinhosa. Era, outra vez, um diálogo de pássaros. Não me perguntem como pude adjetivá-lo. Essas coisas não se aprendem, essas coisas são espontâneas. Me lembro que pensei: tem aves arrulhando de novo neste apartamento, e isto é bom. Refletido o que, fui cuidar de minha tarefa.

Meus atuais hóspedes formam um par com decidida queda para o romantismo. Já na antemanhã identifico suas declarações de mútuo amor e desejo. Tem dias em que me pergunto se não serão parte de um sonho. Há outros em que me indago se não serão capítulos de minhas próprias, idas lembranças.

O resto é segredo. Nem consegui ver qualquer dos pássaros – embora os imagine índigo-blue – nem faço remota noção de seu nome ou de sua definição ornitológica.

Isso, aliás, nem importa. Na real, importa mesmo é que voltou a ser primavera por estas alturas da Rua Duque.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós.


03 de novembro de 2008
N° 15778 - KLEDIR RAMIL


Mundo virtual

Se no dia-a-dia já está difícil acreditar no que as pessoas dizem, imagine no ambiente nebuloso da internet, onde a vida por definição é virtual.

Virtual é a simulação de algo criada por meios eletrônicos. É uma imitação da realidade. É “como se fosse”. Você participa de um universo de mentirinha, mas sabe o tempo todo que está vivendo uma ficção. É enganado conscientemente, sabe onde está se metendo. Como dizia o poeta, “finge que me ama e eu finjo que acredito”.

Pois nesse ambiente fictício, sem governo nem autoridade, circula um sem números de informações apócrifas, falsamente atribuídas a um autor ou de autoria duvidosa. Ninguém se responsabiliza por nada e todo mundo pode dar palpite sobre qualquer assunto. É uma terra de ninguém e, ao mesmo tempo, de todo mundo.

Reconheço que é uma forma democrática de circulação de conhecimento, onde você pode interagir, alterar o conteúdo, dar sua contribuição. Mas o resultado não é confiável. Como na vida em geral. O mundo virtual está cada vez mais próximo da realidade. Ou será o contrário?

Um bom exemplo disso é a Wikipédia, uma enciclopédia online onde qualquer um escreve o que bem entende. Não dá pra acreditar em tudo que está ali. A idéia de softwares livres é outro exemplo - nesse caso positivo - dessa diluição autoral.

Alguém inventa um programa, abre o código fonte e solta na rede pra quem quiser alterar, mexer, melhorar. Talvez no futuro a criação artística também seja assim, ninguém mais vai ser dono da obra.

Como já são os roteiros de Hollywood, escritos a várias mãos. Confesso que é um pouco difícil para mim, um artista, conviver com essa idéia. Não gosto que mexam em um texto que escrevi. Nem que alterem a harmonia e a melodia de uma canção que leva minha assinatura.

Em relação a assuntos técnicos, como programas de computador, concordo que é diferente. Teoricamente, várias cabeças são capazes de criar melhor do que apenas uma. Mas uma obra de arte é uma criação muito pessoal. Como um filho.

Antigamente, em determinadas tribos indígenas não existia o conceito de casal. As relações eram abertas. Cada criança que nascia era criada por todos, não havia exatamente um pai legítimo.

Hoje em dia, com as novas estruturas familiares, estamos de certa forma nos aproximando desse modelo. O mundo dá voltas, talvez seja um retorno ao sistema tribal.

Acho que estou ficando velho pra tanta novidade.


03 de novembro de 2008
N° 15778 - PAULO SANT’ANA


A enganosa liderança

Cá para nós, não foi difícil prever que o Internacional não iria esforçar-se para ganhar, sequer empatar com o São Paulo ontem.

A rivalidade aqui em Porto Alegre é muito grande e se ouvia dizer nas ruas antes do jogo, por parte de colorados, que desejavam que o Internacional perdesse para não favorecer o Grêmio.

Não se poderia esperar, assim, que o Internacional jogasse motivado ontem.

O que se poderia esperar, como adiantei à frente de todos na semana passada, é que o Internacional facilitasse o caminho do São Paulo para devorar o Grêmio.

Não deu outra.

Mas aí o campeonato fica desigual. O mesmo Internacional que obteve contra o Grêmio a goleada retumbante de 4 a 1, vai molenga contra o São Paulo e obtém o resultado inverso do Gre-Nal: 0 a 3.

Os adeptos desta fórmula de pontos corridos vão ter de engolir este fato: não é o campeonato de todos contra todos, como se gabam eles. É o campeonato de alguns contra alguns.

Inter varonil contra o Grêmio, o mesmo Inter a não fazer contra o São Paulo. Num campeonato de final embatucado, este fato decide, desequilibra e tira a nobreza da disputa.

A primeira explicação para a liderança que o Grêmio ostentava até ontem no campeonato nacional é a debilidade técnica dos clubes brasileiros.

Mas só esta explicação não satisfaz. Aquela liderança agora desaparecida do Grêmio foi conseguida por desígnios inexplicáveis. Ontem, observando o Grêmio jogar contra o Figueirense, constatei o que todo mundo deve constatar: o Grêmio possui uma equipe modestíssima, crivada de jogadores medíocres por todos os lados em que se ponham os olhos.

Não tem explicação que o Grêmio tenha sido líder durante a maior parte do campeonato.

Ainda assim, o São Paulo alcançou agora a liderança mediante grave erro de arbitragem: contra o Botafogo, na penúltima rodada, o time carioca fez um gol legítimo, que foi anulado pelo árbitro.

Foram dois pontos ganhos pelo São Paulo em uma só penada de árbitro. Dois pontos decidem um campeonato.

Dá para dizer que o verdadeiro Grêmio é o do segundo turno deste campeonato.

O Grêmio do primeiro turno, o Grêmio líder do campeonato com seis pontos à frente do segundo colocado, foi uma miragem, uma visão mirabolante, um sonho delirante que nada tinha a ver com a realidade.

A realidade é este Grêmio pobre que sofre para jogar todas as partidas, mesmo aquelas disputadas no Olímpico.

A realidade é que o Grêmio fez em 2008 um time visando a não ser rebaixado e, de repente, topou com uma equipe que surpreendentemente liderava o campeonato.

Não podia liderar, mas liderava, porque a ruindade é geral, haja vista esta goleada que o Cruzeiro levou do Goiás ontem.

Ninguém joga nada, até o São Paulo é um time medíocre. Não há mais futebol no Brasil, os nossos craques estão todos no Exterior.

Ainda assim, sonhar-se que o Grêmio pudesse ter sido campeão com este time arruinado que tem, aproveitando-se desse descuido de ruindade geral, foi uma pretensão arrogante de nós, gremistas.


03 de novembro de 2008
| N° 15778 - LF VERISSIMO


De volta

Quem vive de dar palpites corre um risco quando tira férias. Pode confundir a desobrigação de dar opiniões com a desobrigação de ter opiniões, ou até mesmo de pensar.

Nas férias optamos pela desatenção com as coisas sérias e, mesmo não saindo de casa, adotamos a desculpa do turista: esteja onde estiver, você não é dali. Aconteça o que acontecer, você não tem nada com isso.

Está de férias, saudavelmente burro. E um palpiteiro que volta das férias se vê obrigado a religar os circuitos, testar o motor, ajustar o foco, se informar sobre o que houve na sua ausência e produzir uma opinião, mesmo fora de fora, em dois minutos.

Estas férias foram diferentes, porque a burrice programada não funcionou. Ignorar a crise foi impossível, porque ela era o único assunto do mundo.

Se ainda fosse preciso provar que a globalização é um fato e a interligação das economias uma fatalidade, esta grande conquista do capital foi, paradoxalmente, provada pela sua precariedade: Wall Street adoeceu e os sintomas foram sentidos em toda a Terra, mesmo por quem – como turistas em férias – achava que não saber de nada o isentava.

Hipotecas de risco, derivativos inventados... Não ter nada a ver com isso não livra ninguém de perder seu emprego porque financistas americanos não souberam distinguir boa ganância (“greed is good” foi o lema dos anos de euforia) de ganância demais.

Pelo menos a crise está servindo para restituir um pouco de indignação moral nas pessoas com relação a extremos de desigualdade, ao nível do puro ressentimento, como não se via desde que o capitalista deixou de ser objeto de caricatura – charutão na boca, dólares espirrando dos bolsos, pisando no proletariado – e virou herói cultural.

De repente “pára-quedas douradas”, as indenizações milionárias pagas a executivos para amainar sua queda de um alto posto, também passou a ser um termo global, como exemplo dos excessos que deram nisto.

Com a crise, estamos tendo uma educação em neo-economês e ao mesmo tempo uma depuração de conceitos, que a globalização e a pregação neoliberal ofuscaram um pouco.

Entre eles, o de que o mercado pode funcionar ou não, se autocorrigir ou não, mas nunca será melhor do que o caráter dos seus bandidos.

É a minha opinião. Foi o que deu para pensar em tão pouco tempo.

domingo, 2 de novembro de 2008



Tudo Passa

Havia um rei muito poderoso que tinha tudo na vida, mas sentia-se confuso. Resolveu consultar os sábios do reino e disse-lhes:

- Não sei por que me sinto estranho e preciso ter paz de espírito. Preciso de algo que me faça alegre quando estiver triste e que me faça triste quando estiver alegre.

Os sábios resolveram dar um anel ao rei, desde que o rei seguisse certas condições:

Debaixo do anel existe uma mensagem, mas o rei só deverá abrir o anel quando ele estiver num momento intolerável. Se abrir só por curiosidade, a mensagem perderá o seu significado. Quando TUDO estiver perdido, a confusão for total, acontecer a agonia e nada mais puder ser feito, aí o rei deve abrir o anel.

O rei seguiu o conselho. Um dia o país entrou em guerra e perdeu. Houve vários momentos em que a situação ficou terrível, mas o rei não abriu o anel porque ainda não era o fim.

O reino estava perdido, mas ainda podia recuperá-lo. Fugiu do reino para se salvar. O inimigo o seguiu, mas o rei cavalgou até que perdeu os companheiros e o cavalo.

Seguiu a pé, sozinho, e os inimigos atrás; era possível ouvir o ruído dos cavalos. Os pés sangravam, mas tinha que continuar a correr. O inimigo se aproxima e o rei, quase desmaiado, chega à beira de um precipício. Os inimigos estão cada vez mais perto e não há saída, mas o rei ainda pensa:

- Estou vivo, talvez o inimigo mude de direção. Ainda não é o momento de ler a mensagem...

Olha o abismo e vê leões lá embaixo, não tem mais jeito. Os inimigos estão muito próximos, e aí o rei abre o anel e lê a mensagem: "Isto também passará". De súbito, o rei relaxa. Isto também passará e, naturalmente, o inimigo mudou de direção.

O rei volta e tempo depois reúne seus exércitos e reconquista seu país. Há uma grande festa, o povo dança nas ruas e o rei está felicíssimo, chora de tanta alegria e, de repente, se lembra do anel, abre-o e lê a mensagem: "Isto também passará". Novamente ele relaxa, e assim obtém a sabedoria e a paz de espírito.

Em qualquer situação, boa ou ruim, de prosperidade ou de dificuldades, em que as emoções parecem dominar tudo o que fazemos, é importante que nos lembremos de que tudo é efêmero, de que tudo passará, de que é impossível perpetuarmos os momentos que vivemos, queiramos ou não, sejam eles escolhidos ou não.

A ansiedade, freqüentemente, não nos deixa analisar o que nos ocorre com objetividade. Nem sempre é possível, mesmo. Mas, em muitos momentos, precipitamos atitudes que só pioram o que queríamos que melhorasse, e é na esfera dos relacionamentos amorosos que isso ocorre quase sempre.

A calma, conforme o ditado popular, pode ser o melhor remédio diante daquilo que não depende de nós...

Manter as emoções constantemente sob controle é pura fantasia e qualquer um já viveu a sensação de pânico ao perceber que o que mais se valoriza está escapando por entre os dedos.

"Dar tempo ao tempo" não é sintoma de passividade, mas de sabedoria na maior parte dos casos.

Autor desconhecido

FERREIRA GULLAR

A punição como crime

O seqüestrador não é responsável pelo crime que cometeu; os responsáveis somos nós

O OFICIAL da Polícia Militar de Santo André, que comandou a operação de resgate das meninas que Lindemberg Alves mantinha prisioneiras, indagado por que demorara a ordenar a invasão do apartamento, respondeu que, se o tivesse feito mais cedo, teria sido acusado pela imprensa de preferir a violência ao diálogo.

Já um especialista nesse tipo de operação diz que a norma é não esperar mais do que nove horas. A polícia de Santo André esperou cem horas para decidir-se pela invasão e ainda assim está sendo acusada de agir errado.

Um psiquiatra, entrevistado pela televisão, afirmou que, "antes de tudo, devemos perguntar o que a sociedade fez de nossos jovens". Noutras palavras, o seqüestrador não é responsável pelo crime que cometeu; os responsáveis somos todos nós, que não seqüestramos nem matamos ninguém.

Não deveríamos, então, perguntar também o que a sociedade fez dos adultos, dos empresários, dos políticos, que são levados a roubar e a legislar em causa própria?

Certamente também não terão culpa de seus crimes uma vez que foi a sociedade que os fez criminosos. E como a sociedade, sendo todos, não é ninguém, estaremos todos absolvidos e, sem culpa, entraremos no reino do céu.
Sucede que a coisa não é tão simples, pois, antes de chegarmos ao céu, teremos de viver e conviver em sociedade, o que só é possível se se obedecem às normas que a regem.

E essas normas, por sua vez, só serão respeitadas se quem as desobedecer pagar por isso, ou seja, se for punido. E aí está a dificuldade: por que punir quem viola as normas se é a sociedade que o induz a violá-las? Ele é, portanto, inocente, e não será justo punir um inocente.

Não tenho dúvida alguma de que, exatamente nos setores encarregados da punição, existe um sentimento subjacente de que só se deve punir em último caso, já que a punição é coisa retrógrada, resto de uma noção de Justiça anacrônica.

Posso estar errado mas ouço com freqüência advogados e juristas nos alertarem para o fato de que não se deve usar a lei para vingar-se do réu.
Sei que não tenho autoridade para falar de leis e problemas jurídicos.

Não tenho, como a vasta maioria dos cidadãos também não tem. Não obstante, o problema da segurança, do respeito à nossa vida e a nossa tranqüilidade, passa pelas mãos dos que estão encarregados, pela sociedade, de aplicar as leis e fazê-las respeitar. E se eles não o fazem ou o fazem mal, isso nos atinge.

Na minha santa ignorância, tenho a audácia de afirmar que a complacência com o crime torna inviável o convívio social e que seria preferível viver numa sociedade em que o aumento da criminalidade fosse menos assustador.

Vamos ao exemplo mais primário: se a mãe vê o filho insistir em bater na irmãzinha e não o pune, o mais provável é que ele continue a espancá-la. Punição não é crueldade nem vingança, mas o recurso que resta para deter quem não aceita submeter-se às normas do convívio social.

Se é verdade que uma noção primária de educar consistia em espancar brutalmente as crianças, foi, mais tarde, substituída por uma complacência que anulou a autoridade dos pais. Hoje, compreende-se que o respeito às normas não é algo inato e, sim, incutido nas pessoas pela educação, visando tornar seguro e pacífico o convívio social.

São coisas óbvias que, no entanto, parecem esquecidas quando a OAB de São Paulo pretende revogar a lei que instituiu o Regime Disciplinar Diferenciado, sob a alegação de que atenta contra os direitos humanos do sentenciado.

Todos sabemos que, de dentro das penitenciárias, alguns criminosos conseguem dirigir quadrilhas de bandidos que, sob suas ordens, praticam todo tipo de crime, do tráfico ao assassinato.

O RDD impede a ação daqueles criminosos, donde que sua revogação só servirá a eles. O que leva, então, a OAB a empenhar-se em semelhante iniciativa que atenta contra a segurança dos cidadãos?

Não saberia responder com plena convicção, mas me parece ajustar-se à já mencionada maneira de encarar o crime e, conseqüentemente, a punição: o criminoso é uma vítima da desigualdade social.

A partir dessa premissa, todo o aparato judicial, com sua finalidade punitiva, não é nada mais do que um instrumento de que a sociedade se vale para consumar uma dupla injustiça, ou seja, depois de transformar os pobres em bandidos, ainda os pune.

Certamente a OAB se apóia em argumentos jurídicos para demonstrar que a lei do RDD atenta contra os direitos dos cidadãos. Mas não será direito dos cidadãos estar a salvo da ação de criminosos?

DANUZA LEÃO

A vitória de Gabeira

Nosso consolo é saber que ele, com um discurso limpo, claro, ético, tocou o coração dos cariocas

NA NOITE DO domingo da eleição, o Rio de Janeiro, que é uma cidade tão festeira, estava silenciosa e deserta. Poucos carros na rua, buzinas zero, e nos bares e restaurantes vazios, o clima era de um quase luto.

Ok, estou falando da zona sul, onde Gabeira era o favorito, mas na zona norte não foi muito diferente -a não ser no comitê eleitoral de Eduardo Paes, é claro.

Mas a derrota de Gabeira teve sabor de vitória. Usando o que disse o grande Cony, Gabeira como prefeito seria um desperdício.

Ele merece e tem capacidade para muito mais, pois sua visão do mundo é completa, não apenas municipal, a visão deste mundo ao qual pertencemos e pelo qual também somos responsáveis.

Talvez, depois de 16 anos de Cesar Maia, o Rio não merecesse ainda ter um prefeito como Gabeira.

Como as coisas, sobretudo em política, demoram a mudar, Eduardo Paes, que é a continuação perfeita de Cesar Maia -de quem, aliás, é cria-, foi eleito não por ele mesmo, mas pela máquina -e uma máquina pesada.

E bem ajudado pelo feriadão de segunda-feira, quando alguns menos politizados aproveitaram para fazer um longo fim de semana, no lugar de votar.

Mas, segundo "O Globo" da última terça-feira, Gabeira tem sido aclamado nas ruas e até na feira como se tivesse sido o candidato eleito.

Uma amiga me contou que para entrar no restaurante onde ele almoçava foi um tumulto, e que as pessoas se debruçavam nas janelas gritando seu nome.

Tendo oferecido sua vitória a Sergio Cabral e a Lula, Paes ficou refém dos dois -a não ser que daqui a algum tempo mude novamente de partido (seria o nono). Mas não só deles: também do vereador Babu, entre outros. Mas os 49,17% que não votaram nele estão de olho.

Eu adoro a minha cidade; mas Sergio Cabral com seu risinho simpático e "ishperto" de carioca que gosta de samba, futebol e praia, nunca me enganou.

E o novo prefeito mauricinho tampouco. Torço para que a cidade melhore, mas só vejo Cabral viajando, e com a ambição de ser vice-presidente, e em Paes, a de ser governador.

Mas vamos supor, apenas supor, que Eduardo Paes tenha as condições para ser um prefeito maravilhoso; mas tive a visão clara do que vai ser essa prefeitura quando vi pela televisão a comemoração.

No lugar de olhar para Paes e Cabral, fiquei observando os correligionários que os cercavam, e vi ali o que há de pior na política brasileira; uma gentalha que há anos consegue continuar no poder, e me pergunto como.

Só de ver essa gente dá para saber que não vai dar certo, e que os três unidos -Lula, Cabral e Paes- vão fazer o que bem quiserem com o nosso Estado, com a nossa cidade, com os nossos impostos.

Nosso consolo é saber que Gabeira, sem dinheiro, sem partidos o apoiando, sem a famosa máquina administrativa, sem panfletos, sem camisetas, com um discurso limpo, claro, ético, tocou o coração dos cariocas, que já estão cansados de tanta politicalha e tanta falta de vergonha na nossa cidade e no nosso Estado.

Meu próximo voto será novamente para Gabeira -seja lá para o que for.

danuza.leao@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Lula apóia OBRAHMA!

Não custa insistir: avisa pro Lula não confundir Barack Obama com Barraca da Brahma

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Três! Dois! Um! Zero! Entro em férias.

Mas eu volto. Para alegria de muitos e desespero de poucos. E a primeira piada pronta: sabe como se chama o ministro de Obras Públicas da Bolívia? COCA! Oscar Coca! Segunda piada pronta: consumidor encontra bicho dentro de lata de pêssego em calda, em Santa Catarina.

E qual era o bicho? PERERECA! Perereca em calda. E quem descobriu foi a mulher dele. O que você tá comendo? Perereca em calda! E essa semana só vai dar Obama.

Obama é pop! O Galvão Urubueno falou que o Hamilton parece o Robinho. Eu acho que o Hamilton parece o Obama que parece o Robinho que parece o Obama que parece o Brasil inteiro. O Obama é filho do Bezerra da Silva!

Ele tem que chamar o Martinho da Vila: na minha casa todo mundo canta, todo mundo bebe e todo mundo Obama! E sabe qual a diferença entre Obama e Sarah Palin? Obama é o primeiro negro a ter chances de chegar à presidência dos EUA.

Sarah Palin viu um negro pela primeira vez. E eu sei que essa é velha mas não custa insistir: avisa pro Lula não confundir Barack Obama com Barraca da Brahma. E o Salão do Automóvel? Carrão e gostosa.

Só que a gostosa tem mais airbag que o carrão. Salão do Automóvel só serve pra duas coisas: sentir cheiro de couro novo e lembrar como a mulher da gente é feia. E quem mais vai pro Salão do Carro é motoboy pra ver os novos modelos de retrovisor pra quebrar.

E flagrante duma mulher na frente duma Ferrari no estacionamento do salão com o cartaz: "Vou dar o meu fiofó pro dono desse carro". E a definição de Salão do Automóvel: "Os carros que terei e as mulheres que comerei. Daqui a 20 anos". Que otimista!

Piada pruenta: Maradona é o técnico da Argentina. A seleção vai virar pó! Tá certo, a seleção de los hermanos tá uma droga mesmo.

Eu achava que o Maradona era técnico em aspirador de pó. É verdade. Tem uma loja de aspiradores de pó aqui em Sampa chamada Feirão do Maradona.

Só que o Maradona diz que largou as drogas. Agora é viciado em rosquinha de doce de leite. O Maradona é a bola da seleção argentina.

Devia jogar sumô com o Ronaldo Fofômeno. É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece.

E atenção! Cartilha do Lula! Mais um verbete pro óbvio lulante. "Incontinência urinária": companheiro que bate continência com o pingolim! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã.

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

sábado, 1 de novembro de 2008



02 de novembro de 2008 | N° 15777AlertaVoltar para a edição de hojeMARTHA MEDEIROSmar­thamedeiros@terra.com.br

Nadismo e tudismo

N o final de semana passado fui à festa de comemoração dos 30 anos de formatura do colégio Bom Conselho. As dinossauras estão todas bonitas e em forma, aviso antes das piadinhas.

A gente se divertiu à beça, mas o grande momento foi o discurso da Irmã Nazaré, que nos idos tempos escolares controlava quem matava aula e outros crimes dessa natureza, e que hoje, aos 85 anos, esbanja lucidez, energia e bom humor. Qual o segredo da sua vitalidade, Irmã?

– Eu não me preocupo. Eu me ocupo.

Não posso deixar de lembrar dessa resposta ao escrever sobre o assunto de capa de hoje, o Nadismo, prática difundida pelo Marcelo Bohrer, que prega a importância de não se fazer nada por alguns minutos durante o dia.

É uma proposta original e bem-vinda, porque a gente sabe o quanto é importante dar uma parada e quebrar o ritmo alucinante da nossa rotina, mas acredito que também é possível conjugar o verbo “fazer” com “relaxar”.

Meu nadismo só acontece, pra valer, durante o sono. Do momento que acordo em diante, nunca fico ao léu.

Quando não estou trabalhando ou envolvida com outra atividade obrigatória, estou lendo um livro, estou fazendo palavras cruzadas, estou revendo fotos, estou conversando com uma amiga, estou arrumando meus armários, estou assistindo a um DVD, estou retocando o esmalte das unhas, estou baixando músicas no meu iPod,

estou namorando, estou tomando um banho relaxante, estou conversando com minhas filhas, estou caminhando no parque, estou tomando um chá, estou assistindo a uma entrevista na tevê, estou me bronzeando, estou regando as flores.

Sou adepta de um nadismo produtivo, que me relaxa mais do que se eu estivesse sentada olhando para o infinito, inerte. Até lavar louça me parece algo repousante e terapêutico.

Ativar-me não faz de mim uma ansiosa, porque me ocupo com coisas que me dão prazer. Luxo, para mim, é dar bom uso às minhas horas, e consigo isso inclusive trabalhando. A minha revolução particular se deu através da prática de um “tudismo” focado no meu bem-estar e no das pessoas que convivem comigo.

Eu sei que pareço uma pessoa excessivamente plugada, e tenho realmente uma série de compromissos a cumprir, mas não sou refém deles: aprendi a dizer não, e digo.

Ter que ganhar dinheiro nunca me escravizou, e mesmo tendo contas pra pagar, como todos, não me sinto intimada a fazer coisas que não gosto. Nunca fui ambiciosa a ponto de me esgotar.

Aos que não têm pleno domínio do seu tempo, recomendo o livro do Marcelo e suas dicas para desacelerar, mas, por enquanto, não sinto necessidade de marcar um horário para me desconectar do mundo.

Meu esforço, ao contrário, deveria ser para me reconectar, porque minha mente anda cada vez mais afastada de tudo o que estressa.

Se filosofia e religião possuem algum parentesco - e acredito que possuem -, vou me manter discípula da filósofa Irmã Nazaré, me ocupando com coisas simples para viver mais e melhor, amém.

Um ótimo domingo especialmente a você.


02 de novembro de 2008
N° 15777 - VERISSIMO


Ironias

O historiador americano Hayden White diz que toda interpretação histórica é determinada pela linguagem em que é escrita, e que cada um dos maiores filósofos da História (para ele Hegel, Marx, Nietzsche e Benedeto Croce) tinha a sua poética, o seu tropo literário.

O que sugere a fascinante redefinição de ideologias e sistemas de pensamento inteiros como frutos menos de percepções diferentes do que de estilos diferentes de narrativa. Os tipos de linguagem poética que determinariam a abordagem histórica, segundo White, seriam Metáfora, Metonímia, Sinédoque (procure você no dicionário, eu não posso fazer tudo) e Ironia.

Em qualquer área de estudo ainda não reduzida (ou elevada) ao status de uma ciência genuína, o pensamento permanece cativo da forma de linguagem com que se define, escreveu White.

E o legado dos grandes historiadores, ou narradores históricos, do século 19 que teria prevalecido seria o que ele chama de ironic mode.

O século 20 estaria cheio de exemplos para a História como narrativa irônica, mesmo que a ironia nem sempre fosse consciente, e o estilo literário mais apropriado para a história do século 21 – a julgar pelos seus primeiros capítulos – será certamente o da ironia, trágica ou bufa.

Quando Dominique Strauss-Khan, uma das estrelas da esquerda francesa, foi eleito diretor do Fundo Monetário Internacional por indicação do presidente Sakorzy mesmo tendo denunciado o esquema FMI-Banco Mundial como uma armação mal disfarçada do Departamento do Tesouro americano, o jornal parisiense Liberation ironizou na capa: “Finalmente, um socialista eleito”.

Outro que Sarkozy aliciou da esquerda, o respeitado inventor dos Médecins sans Frontières, Bernard Kouchner, seu ministro das Relações Exteriores, declarou-se depois de escolhido favorável não só à guerra no Iraque como a uma ação armada contra o Irã, o que levou a especulações irônicas sobre sua conversão a um Bushismo sem Fronteiras.

Mas se o ironic mode tinha encontrado seu sujeito principal na grande confusão da esquerda mundial, hoje também descreve a perplexidade da direita diante da crise do capitalismo financeiro.

Ninguém menos do que Sarkozy – só para ficar em exemplos franceses – tem sido um dos críticos mais loquazes da desregulação dos mercados e pedido algemas para a mão invisível que impediria o desmoronamento, segundo os liberais, e não impediu.

E pelo andar da crise, ainda veremos muitas conversões parecidas e o ironic mode comandar a narrativa do resto do século.

CALÇÕEZINHOS

Em mil novecentos e qualquer coisa, o Arsenal da Inglaterra foi jogar no Brasil. Jogou, se não me falha a memória, o que eu duvido, no Rio e em São Paulo.

E todo mundo achou muito engraçado o comprimento dos calções dos ingleses. Só o que se via entre o fim das meias e o começo dos calções eram os joelhos muito brancos, muito ingleses, dos visitantes.

Aquilo dava aos jogadores uma aparência curiosamente antiga. Até os mais jovens pareciam circunspetos senhores deslocados no tempo, vindos de uma época em que um cavalheiro não mostrava as coxas. Um pudor que o resto do mundo já vencera.

Os primeiros times de “foot-ball” do Brasil vestiam-se como ingleses, mas não demorou para os nossos calções começarem a encurtar. Nem os argentinos, que se consideram mais ingleses do que os ingleses, usaram calções compridos por muito tempo.

Mas os ingleses reais permaneciam no passado. Os jogos do Arsenal contra times brasileiros foram encontros entre o arcaico e o moderno. Entre o risível fora de moda e o contemporâneo.

Corte no tempo. Nas minhas férias, vi um documentário sobre o futebol em várias épocas. E nada parece mais arcaico, hoje, do que os calções curtos usados pelos jogadores até não faz muito.

Quem diria: foram os divertidos calções ingleses de 50 anos atrás, a que os próprios ingleses tinham renunciado, que acabaram se impondo ao moderno passageiro. O risivelmente fora de moda hoje é o curtinho.

Significando a inconstância do gosto humano, o poder dos fabricantes de material esportivo que faturam com a inconstância e talvez até uma anomalia sociológica: no tempo em que mulher não ia a futebol falava-se no apelo sexual dos jogadores de calçãozinho, agora que mulher vai a futebol o calção encompridou. Conjeturas à vontade. Eu fora.

Felizmente, a tendência para encompridar, do futebol e do basquete, não chegou a outros esportes. Como o tênis feminino, onde acontece, abençoadamente, o contrário.

Foi a eliminação dos saiões, substituídos pelas sainhas, que tornou possível o aparecimento das tenistas russas.


02 de novembro de 2008
N° 15777 - DAVID COIMBRA


Mulheres de médicos

Não sei por que as mulheres de médicos têm essa fama. De serem propensas à infidelidade, digo. Conheço muitos médicos e sei da integridade pétrea de suas ilustríssimas.

Já tive até um sogro médico, e a mulher dele, não por coincidência minha sogra, era honesta como um capuchinho. Talvez seja por causa daquele velho best-seller do Frank Slaughter, “Mulheres de Médicos”... Pode ser. O fato é que alguns preconceituosos pensam... coisas... a respeito das mulheres dos médicos.

Alguns desses conheci em Criciúma, quando lá trabalhei nos anos 80. É que, na época, o Criciúma tinha um timaço onde ponteava o meia Rached, e o meia Rached granjeava fama de seduzir as mulheres dos médicos da cidade.

O Rached, não há dúvida, exercia atração sobre as fêmeas em geral. Um tipo meio árabe, moreno, cerca de um metro e noventa de altura, queixo quadrado, olhar bondoso. Jogou no Grêmio, uma época. Fez parte daquele time que tinha De León, Renato Portaluppi, Osvaldo. Jogava muito.

Meia-esquerda clássico. Chutava forte com os dois pés (um de cada vez). Lançava em profundidade com a precisão de um Gérson. Com a bola nos pés, tinha a inteligência de um Chico Buarque.

Parecia lento; não era. Sua passada larga compensava o aparente vagar dos movimentos. Mesmo assim, não deu certo no Grêmio. A camisa tricolor comichava-lhe no corpo, o tamanho da responsabilidade o oprimia.

No Criciúma, se encontrou. Tornou-se o melhor jogador do time, o craque do campeonato. Com ele, o clube foi campeão pela primeira vez. Ídolo e bonitão, Rached se transformou no objeto de desejo das mulheres da cidade.

Os boateiros espalharam que, por algum motivo, ele preferia mulheres de médicos, e que as mulheres de médicos, por algum outro motivo, o preferiam também.

Mentira, claro, mas a fofoca contribuiu para que Rached acabasse saindo do clube – havia muitos médicos entre os conselheiros, alguns bem próximos da diretoria.

Quando Rached saiu do Estado, pensei: tem tudo para se consagrar num grande clube. Mas não. Cumpriu carreira mediana, bem abaixo das possibilidades do seu futebol. É que, como em tudo na vida, só talento não basta. Há que se ter personalidade para usá-lo na hora certa.

A hora certa, no caso do futebol, é a partida decisiva. Esse Grêmio do Celso Roth tem vacilado nas decisões. Todas as decisões. É um time fraco não de futebol: de alma. Quando começou o campeonato, ganhava tanto porque jogava com uma marcação agressiva.

O Grêmio tinha medo de perder, então defendia-se sem parar. Defendia-se obsessivamente. Agora quer ganhar, e não consegue. Porque não sabe como. Porque o Grêmio não tem que tentar ganhar, tem que tentar não perder.

Time moscão

Mas é muita desfaçatez dos dirigentes do Grêmio quererem que o Inter jogue por eles neste domingo. Francamente! A comissão técnica do Grêmio está jogando fora um campeonato nacional por pura imobilidade.

O Grêmio está falhando como instituição neste ano. Promoveu uma eleição que desanimou seu presidente em meio ao campeonato.

Odone, dirigente de competência notória, foi derrotado nas urnas pela facção do seu próprio vice de futebol. Este, por sua vez, nunca mostrou energia para mobilizar o grupo de jogadores. Trata-se de um homem polido e educado, talvez até demais para o ambiente do vestiário de futebol.

O técnico, isso é fato, teve tino para montar um bom time com os parcos recursos de que dispunha, mas, na hora da decisão, de qualquer decisão, ele não consegue nem fazer com que os jogadores entrem em campo atilados.

A deficiência do Grêmio neste quesito é tão grave que, num Gre-Nal, tomou gol numa falta cobrada enquanto a barreira estava sendo arrumada. Até nas nossas peladas na Rua da Tendinha, no IAPI, alguém ficava marcando a bola, enquanto o goleiro ajeitava a barreira.

Depois, na outra decisão, o Grêmio levou um gol a 15 segundos numa bobeada clássica de seus jogadores. Alguém imagina um time treinado pelo Felipão levando gols assim? Isso é coisa de time moscão.

O Grêmio não faz por si e quer que o Inter faça??? Um time desses não merece ser campeão.