segunda-feira, 3 de novembro de 2008


MOACYR SCLIAR

Uma instalação no vazio

Satisfeito, coloca um cartaz em uma coluna [do prédio da Bienal], com os dizeres: "Instalação: o vazio ocupado"

Se a intenção da curadoria da 28ª Bienal de São Paulo era dar visibilidade à crise do modelo das bienais, o resultado foi plenamente alcançado.

O vazio do segundo andar, que representaria a tal crise, recebeu muito mais elogios de artistas e curadores do que a mostra de arte apresentada no terceiro andar, marcada pelo tom conceitual.

PARA MUITAS pessoas o espaço vazio da Bienal é um tema interessante para uma discussão artística e intelectual: o que, afinal, significa a arte, em que medida a imaginação e a inteligência das pessoas devem ser mobilizadas para compreender o que aparentemente é incompreensível etc. Mas existe alguém que vê o espaço vazio não apenas como um mistério, mas até como uma ameaça.

É um dos vigilantes do prédio. Ele tem uma fantasia. Será pelo fato de prestar serviços em um lugar classicamente associado à imaginação criadora? Ele não sabe. O certo é que tem uma fantasia, um devaneio -que, na verdade, e como já se verá, atenderia melhor pelo nome de pesadelo.

Nessa fantasia, ele está, tarde da noite, diante do prédio da Bienal cumprindo seu dever de vigilante. Tudo parece calmo, mas ele tem um pressentimento de que algo vai acontecer.

E algo acontece: de repente surge, diante dele, uma pequena multidão: homens, mulheres, crianças. Gente pobre, maltrapilha, vários deles empurrando velhos carrinhos de supermercado com colchões, panelas, roupas. Alarmado, o vigilante pergunta o que querem.

Não respondem, mas então aparece um homem jovem, simpático, longos cabelos, roupa estranha, mas elegante. "Sou um artista", ele diz e acrescenta: "Estes que aqui estão são meus colaboradores". Melhor dizendo, senhor vigilante, eles são a matéria-prima com a qual eu vou construir minha obra de arte.

Uma instalação." Uma instalação? O vigilante não tem a menor idéia do que vem a ser isso, mas, por outro lado, tem vergonha de perguntar, mesmo porque a presença do artista o intimida. Percebendo-o, o jovem ri e explica que uma instalação é uma obra de arte um pouco diferente, não é um quadro, não é uma escultura, é outra coisa.

Uma coisa que tem de ser montada e ele vai montá-la, bastando para isso que a porta seja aberta.

Depois de uma pequena hesitação o vigilante -que diabo, nunca vou entender esses artistas- abre a porta. A multidão entra, corre para o segundo andar e, num instante, o grande espaço vazio está ocupado.

Colchões são colocados no chão, um varal de roupas é estendido, comida é aquecida em pequenas fogueiras. O artista observa, atento, e de vez em quando dá instruções: "Vocês aí no fundo, não se afastem tanto, não esqueçam de que o conjunto é fundamental". Finalmente, satisfeito, coloca um cartaz em uma coluna, com os dizeres: "Instalação: o vazio ocupado".

Na sua fantasia, o vigilante fica ali, inerme, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. De manhã, pessoas virão e esclarecerão a dúvida: é aquilo mesmo uma obra de arte?

Na sua fantasia, essas são horas de apreensão, de sofrimento mesmo. É com alívio que ele vê a noite passar sem que ninguém apareça. Um dia a Bienal terminará e, com ela, seu pesadelo.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

RUY CASTRO

Mulher-repolho

RIO DE JANEIRO - Oscar Wilde dizia, com exagero, que a moda é uma forma tão intolerável de horror que tem de ser mudada todo ano. Mas, com tal rotatividade, é fatal que certos horrores sejam cíclicos.

Os costureiros apenas deixam passar uma ou duas gerações, para que a memória histórica se dissipe e essa ou aquela moda volte como novidade. Os babados, por exemplo.

Os babados vêm de longe, dos tempos de "A princesa de Clèves", de Madame de Staël, no século 17, ou até de antes. Desde o começo, já eram aquela cascata de rufos, folhos e franzidos de renda ou de seda, aplicada à gola do vestido ou da camisa, descendo em camadas pelo peito da pessoa, às vezes espalhando-se pelos punhos e, nos casos mais graves, combinando com um lenço. O nome técnico é jabô.

Mas o efeito sempre foi transformar homens e mulheres em repolhos.
Vide a Revolução Francesa. O próprio Robespierre passava anos sem tirar seu jabô do pescoço, nem mesmo para lavar. Mas tudo acaba. No século 19, os homens trocaram o jabô pela gravata e ele ficou exclusivo das mulheres, até que elas também o abandonaram.

Depois de décadas no limbo, os babados voltaram, entre 1965 e 1970, na "swinging London" -o breve período em que Londres trocou o fog, o pigarro e o guarda-chuva por sexo, drogas e rock'n'roll -, e convenceram os homens do mundo inteiro a usá-los. (Menos no Brasil, onde o único a aderir foi o costureiro Denner.)
Pois eis que, agora, os babados estão de volta, pelo menos entre as mulheres.

E não se limitam ao peito. Ameaçam tomar o vestido inteiro, transformando a mulher numa instalação gótica foragida de um hortifrúti. O horror está às portas e, desta vez, só uma coisa pode contê-lo: a crise global. Com a falta de crédito, não haverá dinheiro para tantos fru-frus.


03 de novembro de 2008
N° 15778 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Pássaros de primavera

Há qualquer coisa neste apartamento onde me abrigo que atrai aladas dinastias de visitantes. Por sucessivas primaveras, isto aqui foi a pista de aterrissagem de tico-ticos, pardais e cambacicas, o palco de sua dança nupcial, o jardim de infância de seus filhotes. Depois, chegou o turno das andorinhas.

Vindas de distantes terras ou nascidas pelas vizinhanças – já que os descuidos que votamos à ronda das estações acabaram subvertendo suas migrações de antigamente –, passaram a me dar o prazer de sua companhia. Não sei quantas gerações desses pássaros de um belíssimo azul-noturno aprenderam a conhecer os mistérios da vida e do universo numa mínima sacada oculta desta casa.

Eram, não duvido, linhagens de uma mesma e imensa família. Nunca lhes pedi certidão de nascimento, mas aprendi a conhecê-las – avós, pais, filhos –, ou por certa parecença de visual e modos, ou por um certo jeito de sorrir que tinham.

Após, sobrevieram uns tempos ásperos. Desertaram-se as sacadas e jardins de meus hóspedes habituais – suponho que foram cantar todos em outras freguesias. Eis senão contudo que, numa manhã do último setembro, havendo levantado mais cedo para concluir um chatíssimo trabalho, escutei de repente arrulhos.

Arrulhos – me apresso a esclarecer – são uma fala ou conversa meiga, terna, carinhosa. Era, outra vez, um diálogo de pássaros. Não me perguntem como pude adjetivá-lo. Essas coisas não se aprendem, essas coisas são espontâneas. Me lembro que pensei: tem aves arrulhando de novo neste apartamento, e isto é bom. Refletido o que, fui cuidar de minha tarefa.

Meus atuais hóspedes formam um par com decidida queda para o romantismo. Já na antemanhã identifico suas declarações de mútuo amor e desejo. Tem dias em que me pergunto se não serão parte de um sonho. Há outros em que me indago se não serão capítulos de minhas próprias, idas lembranças.

O resto é segredo. Nem consegui ver qualquer dos pássaros – embora os imagine índigo-blue – nem faço remota noção de seu nome ou de sua definição ornitológica.

Isso, aliás, nem importa. Na real, importa mesmo é que voltou a ser primavera por estas alturas da Rua Duque.

Ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós.


03 de novembro de 2008
N° 15778 - KLEDIR RAMIL


Mundo virtual

Se no dia-a-dia já está difícil acreditar no que as pessoas dizem, imagine no ambiente nebuloso da internet, onde a vida por definição é virtual.

Virtual é a simulação de algo criada por meios eletrônicos. É uma imitação da realidade. É “como se fosse”. Você participa de um universo de mentirinha, mas sabe o tempo todo que está vivendo uma ficção. É enganado conscientemente, sabe onde está se metendo. Como dizia o poeta, “finge que me ama e eu finjo que acredito”.

Pois nesse ambiente fictício, sem governo nem autoridade, circula um sem números de informações apócrifas, falsamente atribuídas a um autor ou de autoria duvidosa. Ninguém se responsabiliza por nada e todo mundo pode dar palpite sobre qualquer assunto. É uma terra de ninguém e, ao mesmo tempo, de todo mundo.

Reconheço que é uma forma democrática de circulação de conhecimento, onde você pode interagir, alterar o conteúdo, dar sua contribuição. Mas o resultado não é confiável. Como na vida em geral. O mundo virtual está cada vez mais próximo da realidade. Ou será o contrário?

Um bom exemplo disso é a Wikipédia, uma enciclopédia online onde qualquer um escreve o que bem entende. Não dá pra acreditar em tudo que está ali. A idéia de softwares livres é outro exemplo - nesse caso positivo - dessa diluição autoral.

Alguém inventa um programa, abre o código fonte e solta na rede pra quem quiser alterar, mexer, melhorar. Talvez no futuro a criação artística também seja assim, ninguém mais vai ser dono da obra.

Como já são os roteiros de Hollywood, escritos a várias mãos. Confesso que é um pouco difícil para mim, um artista, conviver com essa idéia. Não gosto que mexam em um texto que escrevi. Nem que alterem a harmonia e a melodia de uma canção que leva minha assinatura.

Em relação a assuntos técnicos, como programas de computador, concordo que é diferente. Teoricamente, várias cabeças são capazes de criar melhor do que apenas uma. Mas uma obra de arte é uma criação muito pessoal. Como um filho.

Antigamente, em determinadas tribos indígenas não existia o conceito de casal. As relações eram abertas. Cada criança que nascia era criada por todos, não havia exatamente um pai legítimo.

Hoje em dia, com as novas estruturas familiares, estamos de certa forma nos aproximando desse modelo. O mundo dá voltas, talvez seja um retorno ao sistema tribal.

Acho que estou ficando velho pra tanta novidade.


03 de novembro de 2008
N° 15778 - PAULO SANT’ANA


A enganosa liderança

Cá para nós, não foi difícil prever que o Internacional não iria esforçar-se para ganhar, sequer empatar com o São Paulo ontem.

A rivalidade aqui em Porto Alegre é muito grande e se ouvia dizer nas ruas antes do jogo, por parte de colorados, que desejavam que o Internacional perdesse para não favorecer o Grêmio.

Não se poderia esperar, assim, que o Internacional jogasse motivado ontem.

O que se poderia esperar, como adiantei à frente de todos na semana passada, é que o Internacional facilitasse o caminho do São Paulo para devorar o Grêmio.

Não deu outra.

Mas aí o campeonato fica desigual. O mesmo Internacional que obteve contra o Grêmio a goleada retumbante de 4 a 1, vai molenga contra o São Paulo e obtém o resultado inverso do Gre-Nal: 0 a 3.

Os adeptos desta fórmula de pontos corridos vão ter de engolir este fato: não é o campeonato de todos contra todos, como se gabam eles. É o campeonato de alguns contra alguns.

Inter varonil contra o Grêmio, o mesmo Inter a não fazer contra o São Paulo. Num campeonato de final embatucado, este fato decide, desequilibra e tira a nobreza da disputa.

A primeira explicação para a liderança que o Grêmio ostentava até ontem no campeonato nacional é a debilidade técnica dos clubes brasileiros.

Mas só esta explicação não satisfaz. Aquela liderança agora desaparecida do Grêmio foi conseguida por desígnios inexplicáveis. Ontem, observando o Grêmio jogar contra o Figueirense, constatei o que todo mundo deve constatar: o Grêmio possui uma equipe modestíssima, crivada de jogadores medíocres por todos os lados em que se ponham os olhos.

Não tem explicação que o Grêmio tenha sido líder durante a maior parte do campeonato.

Ainda assim, o São Paulo alcançou agora a liderança mediante grave erro de arbitragem: contra o Botafogo, na penúltima rodada, o time carioca fez um gol legítimo, que foi anulado pelo árbitro.

Foram dois pontos ganhos pelo São Paulo em uma só penada de árbitro. Dois pontos decidem um campeonato.

Dá para dizer que o verdadeiro Grêmio é o do segundo turno deste campeonato.

O Grêmio do primeiro turno, o Grêmio líder do campeonato com seis pontos à frente do segundo colocado, foi uma miragem, uma visão mirabolante, um sonho delirante que nada tinha a ver com a realidade.

A realidade é este Grêmio pobre que sofre para jogar todas as partidas, mesmo aquelas disputadas no Olímpico.

A realidade é que o Grêmio fez em 2008 um time visando a não ser rebaixado e, de repente, topou com uma equipe que surpreendentemente liderava o campeonato.

Não podia liderar, mas liderava, porque a ruindade é geral, haja vista esta goleada que o Cruzeiro levou do Goiás ontem.

Ninguém joga nada, até o São Paulo é um time medíocre. Não há mais futebol no Brasil, os nossos craques estão todos no Exterior.

Ainda assim, sonhar-se que o Grêmio pudesse ter sido campeão com este time arruinado que tem, aproveitando-se desse descuido de ruindade geral, foi uma pretensão arrogante de nós, gremistas.


03 de novembro de 2008
| N° 15778 - LF VERISSIMO


De volta

Quem vive de dar palpites corre um risco quando tira férias. Pode confundir a desobrigação de dar opiniões com a desobrigação de ter opiniões, ou até mesmo de pensar.

Nas férias optamos pela desatenção com as coisas sérias e, mesmo não saindo de casa, adotamos a desculpa do turista: esteja onde estiver, você não é dali. Aconteça o que acontecer, você não tem nada com isso.

Está de férias, saudavelmente burro. E um palpiteiro que volta das férias se vê obrigado a religar os circuitos, testar o motor, ajustar o foco, se informar sobre o que houve na sua ausência e produzir uma opinião, mesmo fora de fora, em dois minutos.

Estas férias foram diferentes, porque a burrice programada não funcionou. Ignorar a crise foi impossível, porque ela era o único assunto do mundo.

Se ainda fosse preciso provar que a globalização é um fato e a interligação das economias uma fatalidade, esta grande conquista do capital foi, paradoxalmente, provada pela sua precariedade: Wall Street adoeceu e os sintomas foram sentidos em toda a Terra, mesmo por quem – como turistas em férias – achava que não saber de nada o isentava.

Hipotecas de risco, derivativos inventados... Não ter nada a ver com isso não livra ninguém de perder seu emprego porque financistas americanos não souberam distinguir boa ganância (“greed is good” foi o lema dos anos de euforia) de ganância demais.

Pelo menos a crise está servindo para restituir um pouco de indignação moral nas pessoas com relação a extremos de desigualdade, ao nível do puro ressentimento, como não se via desde que o capitalista deixou de ser objeto de caricatura – charutão na boca, dólares espirrando dos bolsos, pisando no proletariado – e virou herói cultural.

De repente “pára-quedas douradas”, as indenizações milionárias pagas a executivos para amainar sua queda de um alto posto, também passou a ser um termo global, como exemplo dos excessos que deram nisto.

Com a crise, estamos tendo uma educação em neo-economês e ao mesmo tempo uma depuração de conceitos, que a globalização e a pregação neoliberal ofuscaram um pouco.

Entre eles, o de que o mercado pode funcionar ou não, se autocorrigir ou não, mas nunca será melhor do que o caráter dos seus bandidos.

É a minha opinião. Foi o que deu para pensar em tão pouco tempo.

domingo, 2 de novembro de 2008



Tudo Passa

Havia um rei muito poderoso que tinha tudo na vida, mas sentia-se confuso. Resolveu consultar os sábios do reino e disse-lhes:

- Não sei por que me sinto estranho e preciso ter paz de espírito. Preciso de algo que me faça alegre quando estiver triste e que me faça triste quando estiver alegre.

Os sábios resolveram dar um anel ao rei, desde que o rei seguisse certas condições:

Debaixo do anel existe uma mensagem, mas o rei só deverá abrir o anel quando ele estiver num momento intolerável. Se abrir só por curiosidade, a mensagem perderá o seu significado. Quando TUDO estiver perdido, a confusão for total, acontecer a agonia e nada mais puder ser feito, aí o rei deve abrir o anel.

O rei seguiu o conselho. Um dia o país entrou em guerra e perdeu. Houve vários momentos em que a situação ficou terrível, mas o rei não abriu o anel porque ainda não era o fim.

O reino estava perdido, mas ainda podia recuperá-lo. Fugiu do reino para se salvar. O inimigo o seguiu, mas o rei cavalgou até que perdeu os companheiros e o cavalo.

Seguiu a pé, sozinho, e os inimigos atrás; era possível ouvir o ruído dos cavalos. Os pés sangravam, mas tinha que continuar a correr. O inimigo se aproxima e o rei, quase desmaiado, chega à beira de um precipício. Os inimigos estão cada vez mais perto e não há saída, mas o rei ainda pensa:

- Estou vivo, talvez o inimigo mude de direção. Ainda não é o momento de ler a mensagem...

Olha o abismo e vê leões lá embaixo, não tem mais jeito. Os inimigos estão muito próximos, e aí o rei abre o anel e lê a mensagem: "Isto também passará". De súbito, o rei relaxa. Isto também passará e, naturalmente, o inimigo mudou de direção.

O rei volta e tempo depois reúne seus exércitos e reconquista seu país. Há uma grande festa, o povo dança nas ruas e o rei está felicíssimo, chora de tanta alegria e, de repente, se lembra do anel, abre-o e lê a mensagem: "Isto também passará". Novamente ele relaxa, e assim obtém a sabedoria e a paz de espírito.

Em qualquer situação, boa ou ruim, de prosperidade ou de dificuldades, em que as emoções parecem dominar tudo o que fazemos, é importante que nos lembremos de que tudo é efêmero, de que tudo passará, de que é impossível perpetuarmos os momentos que vivemos, queiramos ou não, sejam eles escolhidos ou não.

A ansiedade, freqüentemente, não nos deixa analisar o que nos ocorre com objetividade. Nem sempre é possível, mesmo. Mas, em muitos momentos, precipitamos atitudes que só pioram o que queríamos que melhorasse, e é na esfera dos relacionamentos amorosos que isso ocorre quase sempre.

A calma, conforme o ditado popular, pode ser o melhor remédio diante daquilo que não depende de nós...

Manter as emoções constantemente sob controle é pura fantasia e qualquer um já viveu a sensação de pânico ao perceber que o que mais se valoriza está escapando por entre os dedos.

"Dar tempo ao tempo" não é sintoma de passividade, mas de sabedoria na maior parte dos casos.

Autor desconhecido

FERREIRA GULLAR

A punição como crime

O seqüestrador não é responsável pelo crime que cometeu; os responsáveis somos nós

O OFICIAL da Polícia Militar de Santo André, que comandou a operação de resgate das meninas que Lindemberg Alves mantinha prisioneiras, indagado por que demorara a ordenar a invasão do apartamento, respondeu que, se o tivesse feito mais cedo, teria sido acusado pela imprensa de preferir a violência ao diálogo.

Já um especialista nesse tipo de operação diz que a norma é não esperar mais do que nove horas. A polícia de Santo André esperou cem horas para decidir-se pela invasão e ainda assim está sendo acusada de agir errado.

Um psiquiatra, entrevistado pela televisão, afirmou que, "antes de tudo, devemos perguntar o que a sociedade fez de nossos jovens". Noutras palavras, o seqüestrador não é responsável pelo crime que cometeu; os responsáveis somos todos nós, que não seqüestramos nem matamos ninguém.

Não deveríamos, então, perguntar também o que a sociedade fez dos adultos, dos empresários, dos políticos, que são levados a roubar e a legislar em causa própria?

Certamente também não terão culpa de seus crimes uma vez que foi a sociedade que os fez criminosos. E como a sociedade, sendo todos, não é ninguém, estaremos todos absolvidos e, sem culpa, entraremos no reino do céu.
Sucede que a coisa não é tão simples, pois, antes de chegarmos ao céu, teremos de viver e conviver em sociedade, o que só é possível se se obedecem às normas que a regem.

E essas normas, por sua vez, só serão respeitadas se quem as desobedecer pagar por isso, ou seja, se for punido. E aí está a dificuldade: por que punir quem viola as normas se é a sociedade que o induz a violá-las? Ele é, portanto, inocente, e não será justo punir um inocente.

Não tenho dúvida alguma de que, exatamente nos setores encarregados da punição, existe um sentimento subjacente de que só se deve punir em último caso, já que a punição é coisa retrógrada, resto de uma noção de Justiça anacrônica.

Posso estar errado mas ouço com freqüência advogados e juristas nos alertarem para o fato de que não se deve usar a lei para vingar-se do réu.
Sei que não tenho autoridade para falar de leis e problemas jurídicos.

Não tenho, como a vasta maioria dos cidadãos também não tem. Não obstante, o problema da segurança, do respeito à nossa vida e a nossa tranqüilidade, passa pelas mãos dos que estão encarregados, pela sociedade, de aplicar as leis e fazê-las respeitar. E se eles não o fazem ou o fazem mal, isso nos atinge.

Na minha santa ignorância, tenho a audácia de afirmar que a complacência com o crime torna inviável o convívio social e que seria preferível viver numa sociedade em que o aumento da criminalidade fosse menos assustador.

Vamos ao exemplo mais primário: se a mãe vê o filho insistir em bater na irmãzinha e não o pune, o mais provável é que ele continue a espancá-la. Punição não é crueldade nem vingança, mas o recurso que resta para deter quem não aceita submeter-se às normas do convívio social.

Se é verdade que uma noção primária de educar consistia em espancar brutalmente as crianças, foi, mais tarde, substituída por uma complacência que anulou a autoridade dos pais. Hoje, compreende-se que o respeito às normas não é algo inato e, sim, incutido nas pessoas pela educação, visando tornar seguro e pacífico o convívio social.

São coisas óbvias que, no entanto, parecem esquecidas quando a OAB de São Paulo pretende revogar a lei que instituiu o Regime Disciplinar Diferenciado, sob a alegação de que atenta contra os direitos humanos do sentenciado.

Todos sabemos que, de dentro das penitenciárias, alguns criminosos conseguem dirigir quadrilhas de bandidos que, sob suas ordens, praticam todo tipo de crime, do tráfico ao assassinato.

O RDD impede a ação daqueles criminosos, donde que sua revogação só servirá a eles. O que leva, então, a OAB a empenhar-se em semelhante iniciativa que atenta contra a segurança dos cidadãos?

Não saberia responder com plena convicção, mas me parece ajustar-se à já mencionada maneira de encarar o crime e, conseqüentemente, a punição: o criminoso é uma vítima da desigualdade social.

A partir dessa premissa, todo o aparato judicial, com sua finalidade punitiva, não é nada mais do que um instrumento de que a sociedade se vale para consumar uma dupla injustiça, ou seja, depois de transformar os pobres em bandidos, ainda os pune.

Certamente a OAB se apóia em argumentos jurídicos para demonstrar que a lei do RDD atenta contra os direitos dos cidadãos. Mas não será direito dos cidadãos estar a salvo da ação de criminosos?

DANUZA LEÃO

A vitória de Gabeira

Nosso consolo é saber que ele, com um discurso limpo, claro, ético, tocou o coração dos cariocas

NA NOITE DO domingo da eleição, o Rio de Janeiro, que é uma cidade tão festeira, estava silenciosa e deserta. Poucos carros na rua, buzinas zero, e nos bares e restaurantes vazios, o clima era de um quase luto.

Ok, estou falando da zona sul, onde Gabeira era o favorito, mas na zona norte não foi muito diferente -a não ser no comitê eleitoral de Eduardo Paes, é claro.

Mas a derrota de Gabeira teve sabor de vitória. Usando o que disse o grande Cony, Gabeira como prefeito seria um desperdício.

Ele merece e tem capacidade para muito mais, pois sua visão do mundo é completa, não apenas municipal, a visão deste mundo ao qual pertencemos e pelo qual também somos responsáveis.

Talvez, depois de 16 anos de Cesar Maia, o Rio não merecesse ainda ter um prefeito como Gabeira.

Como as coisas, sobretudo em política, demoram a mudar, Eduardo Paes, que é a continuação perfeita de Cesar Maia -de quem, aliás, é cria-, foi eleito não por ele mesmo, mas pela máquina -e uma máquina pesada.

E bem ajudado pelo feriadão de segunda-feira, quando alguns menos politizados aproveitaram para fazer um longo fim de semana, no lugar de votar.

Mas, segundo "O Globo" da última terça-feira, Gabeira tem sido aclamado nas ruas e até na feira como se tivesse sido o candidato eleito.

Uma amiga me contou que para entrar no restaurante onde ele almoçava foi um tumulto, e que as pessoas se debruçavam nas janelas gritando seu nome.

Tendo oferecido sua vitória a Sergio Cabral e a Lula, Paes ficou refém dos dois -a não ser que daqui a algum tempo mude novamente de partido (seria o nono). Mas não só deles: também do vereador Babu, entre outros. Mas os 49,17% que não votaram nele estão de olho.

Eu adoro a minha cidade; mas Sergio Cabral com seu risinho simpático e "ishperto" de carioca que gosta de samba, futebol e praia, nunca me enganou.

E o novo prefeito mauricinho tampouco. Torço para que a cidade melhore, mas só vejo Cabral viajando, e com a ambição de ser vice-presidente, e em Paes, a de ser governador.

Mas vamos supor, apenas supor, que Eduardo Paes tenha as condições para ser um prefeito maravilhoso; mas tive a visão clara do que vai ser essa prefeitura quando vi pela televisão a comemoração.

No lugar de olhar para Paes e Cabral, fiquei observando os correligionários que os cercavam, e vi ali o que há de pior na política brasileira; uma gentalha que há anos consegue continuar no poder, e me pergunto como.

Só de ver essa gente dá para saber que não vai dar certo, e que os três unidos -Lula, Cabral e Paes- vão fazer o que bem quiserem com o nosso Estado, com a nossa cidade, com os nossos impostos.

Nosso consolo é saber que Gabeira, sem dinheiro, sem partidos o apoiando, sem a famosa máquina administrativa, sem panfletos, sem camisetas, com um discurso limpo, claro, ético, tocou o coração dos cariocas, que já estão cansados de tanta politicalha e tanta falta de vergonha na nossa cidade e no nosso Estado.

Meu próximo voto será novamente para Gabeira -seja lá para o que for.

danuza.leao@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Lula apóia OBRAHMA!

Não custa insistir: avisa pro Lula não confundir Barack Obama com Barraca da Brahma

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Três! Dois! Um! Zero! Entro em férias.

Mas eu volto. Para alegria de muitos e desespero de poucos. E a primeira piada pronta: sabe como se chama o ministro de Obras Públicas da Bolívia? COCA! Oscar Coca! Segunda piada pronta: consumidor encontra bicho dentro de lata de pêssego em calda, em Santa Catarina.

E qual era o bicho? PERERECA! Perereca em calda. E quem descobriu foi a mulher dele. O que você tá comendo? Perereca em calda! E essa semana só vai dar Obama.

Obama é pop! O Galvão Urubueno falou que o Hamilton parece o Robinho. Eu acho que o Hamilton parece o Obama que parece o Robinho que parece o Obama que parece o Brasil inteiro. O Obama é filho do Bezerra da Silva!

Ele tem que chamar o Martinho da Vila: na minha casa todo mundo canta, todo mundo bebe e todo mundo Obama! E sabe qual a diferença entre Obama e Sarah Palin? Obama é o primeiro negro a ter chances de chegar à presidência dos EUA.

Sarah Palin viu um negro pela primeira vez. E eu sei que essa é velha mas não custa insistir: avisa pro Lula não confundir Barack Obama com Barraca da Brahma. E o Salão do Automóvel? Carrão e gostosa.

Só que a gostosa tem mais airbag que o carrão. Salão do Automóvel só serve pra duas coisas: sentir cheiro de couro novo e lembrar como a mulher da gente é feia. E quem mais vai pro Salão do Carro é motoboy pra ver os novos modelos de retrovisor pra quebrar.

E flagrante duma mulher na frente duma Ferrari no estacionamento do salão com o cartaz: "Vou dar o meu fiofó pro dono desse carro". E a definição de Salão do Automóvel: "Os carros que terei e as mulheres que comerei. Daqui a 20 anos". Que otimista!

Piada pruenta: Maradona é o técnico da Argentina. A seleção vai virar pó! Tá certo, a seleção de los hermanos tá uma droga mesmo.

Eu achava que o Maradona era técnico em aspirador de pó. É verdade. Tem uma loja de aspiradores de pó aqui em Sampa chamada Feirão do Maradona.

Só que o Maradona diz que largou as drogas. Agora é viciado em rosquinha de doce de leite. O Maradona é a bola da seleção argentina.

Devia jogar sumô com o Ronaldo Fofômeno. É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece.

E atenção! Cartilha do Lula! Mais um verbete pro óbvio lulante. "Incontinência urinária": companheiro que bate continência com o pingolim! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã.

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

sábado, 1 de novembro de 2008



02 de novembro de 2008 | N° 15777AlertaVoltar para a edição de hojeMARTHA MEDEIROSmar­thamedeiros@terra.com.br

Nadismo e tudismo

N o final de semana passado fui à festa de comemoração dos 30 anos de formatura do colégio Bom Conselho. As dinossauras estão todas bonitas e em forma, aviso antes das piadinhas.

A gente se divertiu à beça, mas o grande momento foi o discurso da Irmã Nazaré, que nos idos tempos escolares controlava quem matava aula e outros crimes dessa natureza, e que hoje, aos 85 anos, esbanja lucidez, energia e bom humor. Qual o segredo da sua vitalidade, Irmã?

– Eu não me preocupo. Eu me ocupo.

Não posso deixar de lembrar dessa resposta ao escrever sobre o assunto de capa de hoje, o Nadismo, prática difundida pelo Marcelo Bohrer, que prega a importância de não se fazer nada por alguns minutos durante o dia.

É uma proposta original e bem-vinda, porque a gente sabe o quanto é importante dar uma parada e quebrar o ritmo alucinante da nossa rotina, mas acredito que também é possível conjugar o verbo “fazer” com “relaxar”.

Meu nadismo só acontece, pra valer, durante o sono. Do momento que acordo em diante, nunca fico ao léu.

Quando não estou trabalhando ou envolvida com outra atividade obrigatória, estou lendo um livro, estou fazendo palavras cruzadas, estou revendo fotos, estou conversando com uma amiga, estou arrumando meus armários, estou assistindo a um DVD, estou retocando o esmalte das unhas, estou baixando músicas no meu iPod,

estou namorando, estou tomando um banho relaxante, estou conversando com minhas filhas, estou caminhando no parque, estou tomando um chá, estou assistindo a uma entrevista na tevê, estou me bronzeando, estou regando as flores.

Sou adepta de um nadismo produtivo, que me relaxa mais do que se eu estivesse sentada olhando para o infinito, inerte. Até lavar louça me parece algo repousante e terapêutico.

Ativar-me não faz de mim uma ansiosa, porque me ocupo com coisas que me dão prazer. Luxo, para mim, é dar bom uso às minhas horas, e consigo isso inclusive trabalhando. A minha revolução particular se deu através da prática de um “tudismo” focado no meu bem-estar e no das pessoas que convivem comigo.

Eu sei que pareço uma pessoa excessivamente plugada, e tenho realmente uma série de compromissos a cumprir, mas não sou refém deles: aprendi a dizer não, e digo.

Ter que ganhar dinheiro nunca me escravizou, e mesmo tendo contas pra pagar, como todos, não me sinto intimada a fazer coisas que não gosto. Nunca fui ambiciosa a ponto de me esgotar.

Aos que não têm pleno domínio do seu tempo, recomendo o livro do Marcelo e suas dicas para desacelerar, mas, por enquanto, não sinto necessidade de marcar um horário para me desconectar do mundo.

Meu esforço, ao contrário, deveria ser para me reconectar, porque minha mente anda cada vez mais afastada de tudo o que estressa.

Se filosofia e religião possuem algum parentesco - e acredito que possuem -, vou me manter discípula da filósofa Irmã Nazaré, me ocupando com coisas simples para viver mais e melhor, amém.

Um ótimo domingo especialmente a você.


02 de novembro de 2008
N° 15777 - VERISSIMO


Ironias

O historiador americano Hayden White diz que toda interpretação histórica é determinada pela linguagem em que é escrita, e que cada um dos maiores filósofos da História (para ele Hegel, Marx, Nietzsche e Benedeto Croce) tinha a sua poética, o seu tropo literário.

O que sugere a fascinante redefinição de ideologias e sistemas de pensamento inteiros como frutos menos de percepções diferentes do que de estilos diferentes de narrativa. Os tipos de linguagem poética que determinariam a abordagem histórica, segundo White, seriam Metáfora, Metonímia, Sinédoque (procure você no dicionário, eu não posso fazer tudo) e Ironia.

Em qualquer área de estudo ainda não reduzida (ou elevada) ao status de uma ciência genuína, o pensamento permanece cativo da forma de linguagem com que se define, escreveu White.

E o legado dos grandes historiadores, ou narradores históricos, do século 19 que teria prevalecido seria o que ele chama de ironic mode.

O século 20 estaria cheio de exemplos para a História como narrativa irônica, mesmo que a ironia nem sempre fosse consciente, e o estilo literário mais apropriado para a história do século 21 – a julgar pelos seus primeiros capítulos – será certamente o da ironia, trágica ou bufa.

Quando Dominique Strauss-Khan, uma das estrelas da esquerda francesa, foi eleito diretor do Fundo Monetário Internacional por indicação do presidente Sakorzy mesmo tendo denunciado o esquema FMI-Banco Mundial como uma armação mal disfarçada do Departamento do Tesouro americano, o jornal parisiense Liberation ironizou na capa: “Finalmente, um socialista eleito”.

Outro que Sarkozy aliciou da esquerda, o respeitado inventor dos Médecins sans Frontières, Bernard Kouchner, seu ministro das Relações Exteriores, declarou-se depois de escolhido favorável não só à guerra no Iraque como a uma ação armada contra o Irã, o que levou a especulações irônicas sobre sua conversão a um Bushismo sem Fronteiras.

Mas se o ironic mode tinha encontrado seu sujeito principal na grande confusão da esquerda mundial, hoje também descreve a perplexidade da direita diante da crise do capitalismo financeiro.

Ninguém menos do que Sarkozy – só para ficar em exemplos franceses – tem sido um dos críticos mais loquazes da desregulação dos mercados e pedido algemas para a mão invisível que impediria o desmoronamento, segundo os liberais, e não impediu.

E pelo andar da crise, ainda veremos muitas conversões parecidas e o ironic mode comandar a narrativa do resto do século.

CALÇÕEZINHOS

Em mil novecentos e qualquer coisa, o Arsenal da Inglaterra foi jogar no Brasil. Jogou, se não me falha a memória, o que eu duvido, no Rio e em São Paulo.

E todo mundo achou muito engraçado o comprimento dos calções dos ingleses. Só o que se via entre o fim das meias e o começo dos calções eram os joelhos muito brancos, muito ingleses, dos visitantes.

Aquilo dava aos jogadores uma aparência curiosamente antiga. Até os mais jovens pareciam circunspetos senhores deslocados no tempo, vindos de uma época em que um cavalheiro não mostrava as coxas. Um pudor que o resto do mundo já vencera.

Os primeiros times de “foot-ball” do Brasil vestiam-se como ingleses, mas não demorou para os nossos calções começarem a encurtar. Nem os argentinos, que se consideram mais ingleses do que os ingleses, usaram calções compridos por muito tempo.

Mas os ingleses reais permaneciam no passado. Os jogos do Arsenal contra times brasileiros foram encontros entre o arcaico e o moderno. Entre o risível fora de moda e o contemporâneo.

Corte no tempo. Nas minhas férias, vi um documentário sobre o futebol em várias épocas. E nada parece mais arcaico, hoje, do que os calções curtos usados pelos jogadores até não faz muito.

Quem diria: foram os divertidos calções ingleses de 50 anos atrás, a que os próprios ingleses tinham renunciado, que acabaram se impondo ao moderno passageiro. O risivelmente fora de moda hoje é o curtinho.

Significando a inconstância do gosto humano, o poder dos fabricantes de material esportivo que faturam com a inconstância e talvez até uma anomalia sociológica: no tempo em que mulher não ia a futebol falava-se no apelo sexual dos jogadores de calçãozinho, agora que mulher vai a futebol o calção encompridou. Conjeturas à vontade. Eu fora.

Felizmente, a tendência para encompridar, do futebol e do basquete, não chegou a outros esportes. Como o tênis feminino, onde acontece, abençoadamente, o contrário.

Foi a eliminação dos saiões, substituídos pelas sainhas, que tornou possível o aparecimento das tenistas russas.


02 de novembro de 2008
N° 15777 - DAVID COIMBRA


Mulheres de médicos

Não sei por que as mulheres de médicos têm essa fama. De serem propensas à infidelidade, digo. Conheço muitos médicos e sei da integridade pétrea de suas ilustríssimas.

Já tive até um sogro médico, e a mulher dele, não por coincidência minha sogra, era honesta como um capuchinho. Talvez seja por causa daquele velho best-seller do Frank Slaughter, “Mulheres de Médicos”... Pode ser. O fato é que alguns preconceituosos pensam... coisas... a respeito das mulheres dos médicos.

Alguns desses conheci em Criciúma, quando lá trabalhei nos anos 80. É que, na época, o Criciúma tinha um timaço onde ponteava o meia Rached, e o meia Rached granjeava fama de seduzir as mulheres dos médicos da cidade.

O Rached, não há dúvida, exercia atração sobre as fêmeas em geral. Um tipo meio árabe, moreno, cerca de um metro e noventa de altura, queixo quadrado, olhar bondoso. Jogou no Grêmio, uma época. Fez parte daquele time que tinha De León, Renato Portaluppi, Osvaldo. Jogava muito.

Meia-esquerda clássico. Chutava forte com os dois pés (um de cada vez). Lançava em profundidade com a precisão de um Gérson. Com a bola nos pés, tinha a inteligência de um Chico Buarque.

Parecia lento; não era. Sua passada larga compensava o aparente vagar dos movimentos. Mesmo assim, não deu certo no Grêmio. A camisa tricolor comichava-lhe no corpo, o tamanho da responsabilidade o oprimia.

No Criciúma, se encontrou. Tornou-se o melhor jogador do time, o craque do campeonato. Com ele, o clube foi campeão pela primeira vez. Ídolo e bonitão, Rached se transformou no objeto de desejo das mulheres da cidade.

Os boateiros espalharam que, por algum motivo, ele preferia mulheres de médicos, e que as mulheres de médicos, por algum outro motivo, o preferiam também.

Mentira, claro, mas a fofoca contribuiu para que Rached acabasse saindo do clube – havia muitos médicos entre os conselheiros, alguns bem próximos da diretoria.

Quando Rached saiu do Estado, pensei: tem tudo para se consagrar num grande clube. Mas não. Cumpriu carreira mediana, bem abaixo das possibilidades do seu futebol. É que, como em tudo na vida, só talento não basta. Há que se ter personalidade para usá-lo na hora certa.

A hora certa, no caso do futebol, é a partida decisiva. Esse Grêmio do Celso Roth tem vacilado nas decisões. Todas as decisões. É um time fraco não de futebol: de alma. Quando começou o campeonato, ganhava tanto porque jogava com uma marcação agressiva.

O Grêmio tinha medo de perder, então defendia-se sem parar. Defendia-se obsessivamente. Agora quer ganhar, e não consegue. Porque não sabe como. Porque o Grêmio não tem que tentar ganhar, tem que tentar não perder.

Time moscão

Mas é muita desfaçatez dos dirigentes do Grêmio quererem que o Inter jogue por eles neste domingo. Francamente! A comissão técnica do Grêmio está jogando fora um campeonato nacional por pura imobilidade.

O Grêmio está falhando como instituição neste ano. Promoveu uma eleição que desanimou seu presidente em meio ao campeonato.

Odone, dirigente de competência notória, foi derrotado nas urnas pela facção do seu próprio vice de futebol. Este, por sua vez, nunca mostrou energia para mobilizar o grupo de jogadores. Trata-se de um homem polido e educado, talvez até demais para o ambiente do vestiário de futebol.

O técnico, isso é fato, teve tino para montar um bom time com os parcos recursos de que dispunha, mas, na hora da decisão, de qualquer decisão, ele não consegue nem fazer com que os jogadores entrem em campo atilados.

A deficiência do Grêmio neste quesito é tão grave que, num Gre-Nal, tomou gol numa falta cobrada enquanto a barreira estava sendo arrumada. Até nas nossas peladas na Rua da Tendinha, no IAPI, alguém ficava marcando a bola, enquanto o goleiro ajeitava a barreira.

Depois, na outra decisão, o Grêmio levou um gol a 15 segundos numa bobeada clássica de seus jogadores. Alguém imagina um time treinado pelo Felipão levando gols assim? Isso é coisa de time moscão.

O Grêmio não faz por si e quer que o Inter faça??? Um time desses não merece ser campeão.


02 de novembro de 2008
N° 15777 - PAULO SANT’ANA


Isto não vai ficar assim!

Refletindo sobre a morte do amigo Renato Sirotsky, filho do seu Semi e sobrinho do seu Maurício, tão moço, tão entusiasmado, tão gremista, tão cheio de planos, tão cheio assim de cuidados com seus filhos, cheguei à conclusão de que sou um reencarnacionista.

Ou seja, a vida só tem uma lógica garantida se não for única, se se constituir meramente em apenas uma etapa, uma passagem, uma estação, a qual sobrevirão outras vidas, outras passagens, outras estações.

Fiquei sabendo pelo livro A Nova Ciência e a Fé, recentemente lançado, de autoria do porto-alegrense Mário Costa de Araújo Lima, que os grandes filósofos gregos Platão e Sócrates, duas das inteligências mais luminosas da humanidade, eram reencarnacionistas.

A reencarnação é a idéia segundo a qual os espíritos em seu processo evolutivo vivem muitas vidas, em diferentes corpos, assumindo portanto distintas personalidades.

Eu só posso admitir a idéia de um Deus bom, de um Deus justo, de um Deus misericordioso e acima de tudo de suprema lucidez e sabedoria, se concluir que não há uma vida única, que as pessoas que se tornam mártires, que vivem em extremo sofrimento, ou sobre as quais se abateram as injustiças e os tormentos, terão em outra vida recompensas que restituirão à sua vida um plano de justiça e lógica de proporcionalidade.

Como eu escrevi em outras colunas, isto não vai ficar assim.

Não pode Deus ter criado ao mesmo tempo uma besta e um filósofo, um rico e um miserável, um cruel e um bondoso, um feio e um bonito, um dotado de raras virtudes, outro pleno de todos os defeitos.

Uma só passagem pela vida, pela efemeridade em que ela consiste, pela incompletude das experiências que se desenrolam para um só indivíduo em particular, pela exigüidade do seu campo de desenvolvimento, será insuficiente para torná-lo apto a ser considerado um ser que tenha absorvido todo o húmus da existência e ter encerrado seu ciclo.

Não me resta dúvida nenhuma de que aqui na Terra estou vivendo apenas uma etapa da minha evolução e que outras missões me serão confiadas em vidas futuras, até que minha formação como espírito ocorra para que eu ganhe talvez para a eternidade um lugar na planície de Deus, quando então me reencontrarei com todos aqueles com quem compartilhei a ocasião maravilhosa da vida.

Não há céu nem inferno depois de uma só única vida. O que há é um inferno parcial, do qual o homem escapará por seu mérito, subindo os degraus da justiça através de muitas vidas, no rumo do aperfeiçoamento.

Não há também dúvida de que estamos sendo testados, estão sendo pesadas as nossas boas obras e as nossas maldades, num lento e progressivo andar pela vida, numa sucessão de várias vidas em que o Criador nos dá oportunidade de exercitá-las em situações absolutamente distintas uma das outras, com a finalidade de nos completarmos como seres dignos da criação, agarremo-nos ou não a uma religião ou crença, o que importa é que atinjamos um grau de bondade e dignidade a ponto de que sejamos considerados – e nos consideremos – justos.

Não faz sentido que Deus – ou qualquer outra força superior e reguladora que contenha o conteúdo desse nome – nos jogue aqui na Terra e nos faça néscio ou sábio, faminto ou regalado, oprimido ou poderoso, saudável ou doente, desde o nosso nascimento, tornando-nos assim tão facilmente condenados ou premiados.

Nada disso, isso é apenas um dos inumeráveis ciclos de vida a que temos de nos submeter.

Até nossa “formação”, muitas e muitas gerações e séculos vão suceder a este átimo de existência que nos cerca.

Não foi só esta vida que nos esperava. Isto não vai ficar assim. Seria profundamente injusto.


A terra não agüenta

A humanidade já consome mais recursos naturais do que o planeta é capaz de repor. O colapso é visível nas florestas, oceanos e rios. O ritmo atual de consumo é uma ameaça para a prosperidade futura da humanidade

Roberta de Abreu Lima e Vanessa Vieira

Montagem com foto de William Whitehurst/Corbis



A exploração dos recursos naturais da Terra permite à humanidade atingir patamares de conforto cada vez maiores. Diante da abundância de riquezas proporcionada pela natureza, sempre se aproveitou como se o dote fosse inesgotável.

Essa visão foi reformulada. Hoje se sabe que a maioria dos recursos naturais dos quais o homem depende para manter seu padrão de vida pode desaparecer num prazo relativamente curto – e que é urgente evitar o desperdício.

Um relatório publicado na semana passada pela ONG World Wildlife Fund dá a dimensão de como a exploração dos recursos da Terra saiu do controle e das conseqüências que isso pode ter no futuro.

O estudo mostra que o atual padrão de consumo de recursos naturais pela humanidade supera em 30% a capacidade do planeta de recuperá-los. Ou seja, a natureza não mais dá conta de repor tudo o que o bicho-homem tira dela.

A conta da ONG foi feita da seguinte forma. Primeiro, estimou-se a quantidade de terra, água e ar necessária para produzir os bens e serviços utilizados pelas populações e para absorver o lixo que elas geram durante um ano.

A seguir, esses valores foram transformados em hectares e o resultado dividido pelo número de habitantes do planeta. Chegou-se à conclusão de que cada habitante usa 2,7 hectares do planeta por ano. Nesta conta, o brasileiro utiliza 2,4 hectares.

De acordo com a análise, para usar os recursos sem provocar danos irreversíveis à natureza, seria preciso que cada habitante utilizasse, no máximo, 2,1 hectares. Se o homem continuar a explorar a natureza sem dar tempo para que ela se restabeleça, em 2030 serão necessários recursos equivalentes a dois planetas Terra para atender ao padrão de consumo.

Essa perspectiva, conclui o relatório, é uma ameaça à prosperidade futura da humanidade, com impacto no preço dos alimentos e da energia.

Nos últimos 45 anos, a demanda pelos recursos naturais do planeta dobrou. Esse aumento se deve, principalmente, à elevação do padrão de vida das nações ricas e emergentes e ao crescimento demográfico dos países pobres.

A população africana triplicou nas últimas quatro décadas. O crescimento econômico dos países em desenvolvimento, como a China e a Índia, vem aumentando em ritmo frenético a necessidade de matérias-primas para as indústrias.

China e Estados Unidos, juntos, consomem quase metade das riquezas naturais da Terra. O impacto ambiental da China se explica pela demanda de sua imensa população e, nos Estados Unidos, pelo elevado nível de consumo.

Nas contas da World Wildlife Fund, enquanto o chinês usa 2,1 hectares do planeta, o americano chega a utilizar 9,4 hectares. Se todos os habitantes do planeta tivessem o mesmo padrão de vida dos americanos, seriam necessárias quatro Terras e meia para suprir suas necessidades.

A exploração abusiva do planeta já tem conseqüências visíveis. A cada ano, uma área de floresta equivalente a duas vezes o território da Holanda desaparece. Metade dos rios do mundo está contaminada por esgoto, agrotóxicos e lixo industrial.

A degradação e a pesca predatória ameaçam reduzir em 90% a oferta de peixes utilizados para a alimentação. As emissões de CO2 cresceram em ritmo geométrico nas últimas décadas, provocando o aumento da temperatura do globo.

Evitar uma catástrofe planetária é possível. O grande desafio é conciliar o desenvolvimento dos países com a preservação dos recursos naturais. Para isso, segundo os especialistas, são necessárias soluções tecnológicas e políticas.

"Os governos precisam criar medidas que assegurem a adoção de hábitos sustentáveis, em vez de apenas esperar que as pessoas o façam voluntariamente", disse a VEJA o antropólogo americano Richard Walker, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade Indiana, nos Estados Unidos.

O engenheiro agrônomo uruguaio Juan Izquierdo, do Programa das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, propõe que se concedam incentivos e subsídios a agricultores que produzam de forma sustentável.

Diz ele: "Hoje, a produtividade de uma lavoura é calculada com base nos quilos de alimento produzidos por hectare.

No futuro, deverá ser baseada na capacidade de economizar recursos escassos, como a água". Como mostra o relatório da World Wildlife Fund, é preciso evitar a todo custo que se usem mais recursos do que a natureza é capaz de repor.

Stephen Kanitz

O fim dos homens alfa

"Na próxima crise, tenha mais cuidado

com o poder de persuasão e sedução dos homens que querem aparecer"

A crise mundial que estamos presenciando é um fenômeno conhecido por zoólogos como o estouro da manada. Ela ocorre quando os machos alfa se assustam por alguma razão, seja um vulto de leão, um relâmpago ou um trovão.

Sem analisar a situação por um segundo, fogem em pânico, na esperança de que comido será o bezerro retardatário. As fêmeas, surpresas, fogem atrás, seguindo "o nobre exemplo" do macho alfa em disparada.

Os primeiros a sair gritando "fogo", numa casa de espetáculos, e dizendo que "200 bancos americanos vão quebrar e o mundo vai derreter" foram os machos alfa. O alfa dos alfas, o diretor-geral do FMI, saiu a público afirmando que as bolsas iriam derreter 20% em dois dias, algo que uma pessoa na sua posição jamais poderia dizer.

Boa parte daqueles que saíram resgatando fundos de investimento foram pessoas inocentes, que confiavam nos profissionais do Fed e do FMI. Mas, se eles mesmos estão em pânico, o pânico se espalha.

O macho alfa sobrevive usando a força bruta, e não a inteligência. Ele quer e detém o poder. É sedutor, aprende a falar bem, acha que sexo se consegue ou com poesia ou mentindo descaradamente. Numa crise, são os homens alfa os mais interessados em aparecer, no rádio ou na televisão, que, devido à concorrência, baixam seu padrão de seleção.

Eles tratam primeiro de salvar a própria pele. Raramente pensam nos mais fracos, como gostam de afirmar, muito menos procuram acalmá-los.

Nenhum alfa brasileiro saiu acalmando os investidores brasileiros ou estrangeiros, mostrando-lhes que o Brasil não tinha esse tal de "subprime", nem "alavancagem financeira", nem bancos com prejuízo, prestes a quebrar. Só disseram que a crise iria piorar e atingiria o Brasil, profecia que se cumpriu.

Nenhum alfa brasileiro saiu apresentando fatos concretos, informando que nossos bancos financiam governo, e não imóveis, que nosso crédito ao consumidor não passa dos 36% do PIB, contra os 160% do americano, que metade dos bancos já era estatal, que o momento era para comprar ações dos alfas apavorados, e não para sair vendendo junto.

"Será pior do que 1929", berrava o professor Nouriel Roubini, encantado com sua súbita notoriedade, correndo de entrevista em entrevista. "Será igual a 1929", afirmava o antigo alfa aposentado Alan Greenspan, quando o correto teria sido o silêncio.

Ilustração Atômica Studio

O desemprego nos Estados Unidos não chegará aos 24% de 1929 nem 4.000 bancos quebrarão. E, mesmo que 4.000 bancos quebrassem, o dinheiro hoje está em fundos DI, e não em contas remuneradas.

Os fundos DI e de investimento estão no nome dos cotistas, e não dos bancos. Eles conseguiram, com suas previsões, provocar uma corrida aos fundos de investimento, e não aos bancos, como em 1929.

As fotos do professor Roubini rodeado de mulheres são sintomáticas de alguém que quer ser associado aos alfas, ao contrário das fotos de Hank Paulson e Sheila Bair, do FDIC (a agência federal de seguro de depósitos), tentando conter o estouro da manada.

Como nessas horas nossos instintos são parecidos com os dos animais, machos alfa contaminam gente inocente. O homem ômega e a maioria das mulheres têm coisas mais importantes a fazer no meio de uma crise, como cuidar das crianças e das finanças em perigo, do que dar entrevistas.

Não se culpe por ter-se deixado levar por homens que você achou que eram mais inteligentes do que você. A crise caminhará para o fim quando os alfas cansarem de correr.

Na próxima crise, tenha mais cuidado com o poder de persuasão e sedução dos homens que querem aparecer. Aplique seu dinheiro com homens ômega mais velhos, preferencialmente avós experientes, gente que não se abala com crises, pois já as viu acontecer muitas vezes. Ignore solenemente os homens alfa, daqui por diante.

Eles são um atraso evolutivo e estão em extinção. Vire a página, mude de canal. Ouça mais aquele homem ômega que você tem em casa, aquele que não se desesperou, correndo e berrando "fogo" numa casa de espetáculos.

Confie naquele que lhe deu apoio e proteção, naquele que se preocupa com os retardatários e que ficou ao seu lado. Eles são os verdadeiros "machos" da história da humanidade, o resto é balela e encenação.

Stephen Kanitz é administrador www.kanitz.com.br

José Antonio Lima

Cuidado: você pode estar tomando um placebo

Pesquisa americana mostra que 50% dos médicos receitam com freqüência placebos ou remédios sem eficácia comprovada. A prática é difundida, mas sofre críticas do ponto de vista ético e da saúde pública

Imagine que você está com uma forte dor, desmarca compromissos, falta no trabalho e corre para o médico em busca de ajuda.

No consultório, a sua expectativa é receber um remédio que fará o incômodo passar, mas existe uma grande chance, de 50% segundo um estudo divulgado na semana passada, de que o médico prescreva uma droga inócua – os placebos – ou um medicamento sem eficiência comprovada.

Em ambos os casos, a intenção é que você sinta o efeito placebo – aquele em que a simples impressão de ser medicado produz uma reação psicológica positiva que se reflete em uma melhora real no estado de saúde do paciente.

Esse tipo de prática é comum na medicina há séculos e tem sucesso relativo para determinados tipos de doentes, mas é questionada tanto do ponto de vista ético como da saúde pública.

"Dar um placebo ou um remédio que não tem eficácia provada sem o paciente saber não é ético", diz Décio Mion, coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa Clínica do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo. "O médico não pode se sentir onipotente".

Duas das justificativas para dar esse tipo de medicamento são a pressa e o descaso com pacientes mais complicados, como os que têm algum nível de hipocondria.

"Para esse tipo de médico, o paciente incomoda. Parece que é muito mais fácil dar um remédio do que explicar o que pode estar causando problemas ao doente", afirma Antonio Carlos Lopes, professor titular de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo Mion, uma motivação mais nobre para usar esse tipo de recurso é o resultado de algumas pesquisas. Em testes com pacientes hipertensos, por exemplo, chega a 20% o número de pessoas que conseguem normalizar a pressão tomando apenas placebos.

Conta muito para isso, explica Mion, o fato de a hipertensão ser uma doença com um forte componente emocional – e suscetível, portanto, ao efeito placebo.

Ainda que esse efeito positivo tenha sido demonstrado empiricamente, o uso de placebos é controlado em quase todo o mundo. No Brasil, a restrição foi ampliada em 22 de outubro deste ano pelo Conselho Federal de Medicina.

O texto da entidade proíbe a participação de médicos em pesquisas que utilizem placebo quando houver disponível tratamento eficaz já conhecido.

Para as pesquisas, a fiscalização funciona, mas o problema é quando os placebos são substituídos por remédios ineficazes. Nesses casos, não há controle.

Pesquisa

Na semana passada, pesquisadores das universidades de Chicago, Harvard e do National Institutes of Health, um dos órgãos de pesquisa mais respeitados dos Estados Unidos, publicaram no British Medical Journal (BMJ) um levantamento feito com clínicos gerais e reumatologistas, médicos que tratam com freqüência pacientes com condições clínicas debilitantes, e que são difíceis de diagnosticar.

Segundo os dados, 50% dos 679 médicos entrevistados confirmaram que receitam drogas sem efeito comprovado aos pacientes. Quase 70% dizem que o medicamento é "potencialmente benéfico, mas não usado tipicamente para a sua condição".

A pesquisa revelou que, dos remédios receitados, apenas 5% são os placebos usados em pesquisas – pílulas de açúcar (2%) e injeções salinas (3%). O grosso é formado por analgésicos que podem ser comprados em farmácias, vitaminas e até sedativos e antibióticos.

Para os médicos contrários à prática, a prescrição desse tipo de medicamento amplia o problema. "Quanto às vitaminas, não há tanto problema, mas o caso do antibiótico é ainda mais grave, pois pode criar resistência no paciente e dificultar tratamentos futuros", diz Décio Mion, do Hospital das Clínicas.

Quanto aos sedativos, o perigo é que uma pessoa medicada com um remédio desse tipo fique sonolenta, e não possa fazer atividades como dirigir ou trabalhar com materiais perigosos.

O que é preciso fazer então para escapar desse tipo de receita? Talvez o melhor seja procurar um médico que valorize a relação com o paciente.

"Muitas vezes um médico que tenha carisma, postura e esteja disponível para o paciente pode resolver o problema sem usar medicamentos, especialmente quando questões emocionais estão envolvidas", diz Antonio Carlos Lopes, da Unifesp.

Mas um outro dado da pesquisa mostra que as críticas e a polêmica acerca do tema não devem diminuir a quantidade de médicos que fazem esse tipo de prescrição.

Enquanto 50% dos entrevistados receitam placebos e remédios sem eficácia comprovada, 62% acreditam que essa prática é eticamente aceitável. Ao que parece, mesmo que os pacientes tentem evitar essa situação, a decisão está nas mãos apenas dos médicos.


01 de novembro de 2008
N° 15776 - NILSON SOUZA


A casa de livros

Muito legal o anúncio da Feira, que mostra um sobrado construído inteiramente de livros. O visitante é recebido na escada por Raul Pompéia e José Clemente Pozenato, ingressa numa área edificada sobre um alicerce de Hemingways, Camões e Joyces, com uma guarnição de obras de Thomas Mann e Dante Alighieri.

Pára diante de uma porta de Ericos, observa uma parede inteira de Nabokovs e Conrads, e pode subir para um segundo andar de Tolstois ou até para um telhado de Cervantes.

Estão todos lá, os autores da História e de muitas histórias, e devem estar lá, também, seus personagens surpreendentes, emocionantes, inesquecíveis.

Mesmo sem ter visitado o seu interior, tenho certeza de que se trata de uma casa bem-assombrada – freqüentada por heróis e vilões, mas principalmente por pessoas comuns. E são essas pessoas do povo, gente como a gente, que constituem a matéria-prima da literatura.

Pegue, por exemplo, um velho pescador solitário, entre com ele no mar atrás de um marlim disposto a lutar incansavelmente por sua vida de peixe, e você terá um romance épico e inesquecível.

Na casa dos livros impera um fantasma poderoso chamado Imaginação. Haja criatividade para construir tantos mundos de letras, na forma de contos, crônicas, poesias e romances, que enchem páginas e páginas de informação e ficção.

Quem lê tanto livro em tempos de realidade virtual? Difícil saber, mas a verdade é que esse objeto medieval, quase tosco se comparado com a parafernália tecnológica dos nossos tempos, continua atraindo a atenção e a curiosidade das pessoas.

Borges, que deve estar em algum desvão daquela casa encantada, definiu magistralmente esta invenção humana: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro.

Os demais são extensão do seu corpo... Mas o livro é outra coisa, o livro é um extensão da memória e da imaginação”.

Há, também, uma outra simbologia na construção de livros arquitetada pela Agência Matriz para convencer o público de que ler realmente enriquece.

A casa é a proteção, é o refúgio, é o lugar onde buscamos o descanso, o alimento, o afeto e o sonho.

Nada mais adequado do que uma casa de histórias encadernadas, portanto. Abrir um livro equivale a abrir uma janela para a vida, para a luz, para o infinito, para a inigualável aventura do conhecimento.


01 de novembro de 2008
N° 15776 - PAULO SANT’ANA


Há um galho no Grêmio!

Desculpem os leitores que não gostam de futebol, mas o momento é importante, estamos diante de uma decisão no Campeonato Brasileiro, o Grêmio está metido no centro dela e eu tenho de tomar uma providência para desencargo de consciência.

É que eu aposto que está havendo algo grave no Grêmio.

Alguma coisa está acontecendo. Não sei se o presidente Paulo Odone tem de investigar ou se o próprio André Krieger pode deslindar o mistério e revirar esta tendência, que parece inexorável, de o Grêmio perder o título.

Distante do vestiário e do Olímpico, não sei detectar.

Mas está havendo algo que está levando o Grêmio ao precipício.

Essas questões não são difíceis de resolver. Basta haver um dirigente que converse em particular com um jogador, pode conversar com outro, em seguida se chega ao nó górdio do problema.

Só para exemplificar, sem nada ter a ver especificamente sobre a questão gremista, nesses casos os motivos são muitas vezes financeiros, não acertaram com os jogadores a quantia de prêmio pelo título ou participação na Libertadores etc.

Outras vezes é um ruído na comunicação entre o treinador e os jogadores. Ou entre os dirigentes e o treinador. Ou seja, uma crise grave de relacionamento.

Alguma coisa está havendo no Grêmio para o time ter afundado numa crise técnica sem precedentes.

Até mesmo nas vitórias sobre o Botafogo, o Santos e o Sport, no Olímpico, as atuações gremistas foram sofríveis.

Mas, afinal, o que está havendo no Grêmio neste segundo turno?

A comparação com o primeiro turno, quando o time esteve ajustado, é surpreendente: o Grêmio é um outro time, sem rumo, sem orientação, vazio de tática e deplorável de técnica dos jogadores.

Algo está havendo. Não pode o presidente gremista e seu representante no vestiário continuarem a assistir impassíveis ao Grêmio se precipitar num abismo sem fazer nada, sem tomar qualquer medida restauradora, sem chamar o técnico e dizer para ele que assim não dá para continuar. E ainda há tempo para consertar esta encrenca.

Algo grave está acontecendo. Não é lógico, não é racional e não é humano que o Grêmio tenha se distanciado 12 pontos do São Paulo neste campeonato e essa diferença tenha desaparecido por encanto, inteiramente.

Há algo de grave no reino da Dinamarca, ou melhor, no vestiário do Grêmio.

Eu não sei isto por sábio, sei por ser antigo no ramo.


01 de novembro de 2008
N° 15776 - CLÁUDIA LAITANO


A roda da história

O que são 40 anos na história? Se você tem 20, uma eternidade, um intervalo de tempo tão grande comparado a sua curta presença no planeta que Jango e Rui Barbosa, a Tropicália e a Semana de Arte Moderna, a Primavera de Praga e a Comuna de Paris parecem igualmente remotos.

Uma das boas surpresas da maturidade é descobrir que a noção de tempo evolui conosco rumo a um certo alargamento de horizontes históricos – sim, sou uma otimista.

Aos 40 anos, o espaço de tempo que nos separa da época em que nascemos nos parece um pulinho ali na esquina da história – a curta distância entre o moleque que fomos e o adulto que já conta os primeiros cabelos brancos.

O mesmo período de tempo estica e encolhe conforme a idade de quem olha para ele – e pelo menos nesse jogo os mais velhos costumam levar a vantagem da perspectiva.

Em 1986, aos 20 anos, morei durante alguns meses na cidade americana de San Francisco, estudando inglês e trabalhando como babá.

Naquele ano, vários eventos na cidade lembravam as duas décadas de um fato que entrou para a história da música:

em 1966, no estádio de beisebol Candlestick Park, os Beatles fizeram sua última grande apresentação pública antes da separação. Naquela época, esses 20 anos que coincidiam com a minha idade me pareciam uma enormidade de tempo.

Hoje, quando lembro disso, penso que faziam “apenas” 20 anos que os Beatles haviam estado na mesma cidade que eu – o que hoje me parece um intervalinho de nada, quase como se eu ainda pudesse ouvir os acordes da última música que eles tocaram.

Nunca voltei a San Francisco, mas nos anos 80 ainda havia na cidade o curioso costume de os negros sentarem-se nos assentos traseiros dos ônibus. O hábito remontava à época em que eles ocupavam um lugar separado no transporte público, em geral os últimos assentos, e eram obrigados a levantar-se para dar lugar aos brancos se não houvesse um banco vazio à disposição.

Essa história, como se sabe, começou a mudar em 1955, quando uma costureira negra chamada Rosa Parks desafiou a lei de segregação ao não ceder o seu lugar no ônibus para um rapaz branco.

Rosa morreu em 2005, aos 92 anos, tendo se tornado aquele tipo de personagem que entra para a história não pela sua liderança ou por grandes articulações políticas, mas por um gesto aparentemente simples de coragem pessoal que, por uma conjunção imprevisível de fatores, acaba movimentando a manivela dos acontecimentos –

como a última gota que finalmente faz um copo cheio transbordar. Inspirado pelo gesto de Rosa Parks, o jovem pastor negro Martin Luther King Jr. começou a incentivar seus fiéis a boicotar o transporte oferecido pelos brancos.

Começava ali o movimento pelos direitos civis, que viraria lei em 1964 e repercutiria no mundo inteiro nos anos seguintes. Luther King foi assassinado há exatos 40 anos, em abril de 1968, mas a roda da história já havia sido posta em marcha.

O que são 40 anos? Uma eternidade para quem tem 20 anos, quase nada para a trajetória de um país.

Ligar a televisão na madrugada da próxima quarta-feira e descobrir que os Estados Unidos elegeram um presidente negro vai provocar aquela sensação, rara e inesquecível, de puro contentamento pelo simples fato de se estar vivo para ver a história acontecer.