terça-feira, 15 de janeiro de 2008



15 de janeiro de 2008
N° 15480 - Liberato Vieira da Cunha


Encontro com o mar

Meu primeiro encontro com o mar me extasiou os olhos e me inundou a alma. Não importa há quanto tempo tenha sido: não existe idade para as grandes emoções. Como se fosse hoje e instantaneamente, senti que estava diante de uma imensidão sem reprise.

Devo esclarecer que era manhã e a praia estava deserta. Vi muitos mares depois, do Pacífico ao Mediterrâneo, do Tirreno ao Adriático, do Báltico ao Jônico. Nenhum me legou tão nítido sentido de poder e vastidão quanto as águas de Capão da Canoa.

De que era feita essa impressão?

Creio que das ondas se formando como suaves, ásperas cordilheiras, que se armavam e se desfaziam entre céus e areias. Suponho que do aroma de sal da atmosfera, que me apresentava a uma nova dimensão do mundo, instigante e intraduzível. Penso que daquele horizonte infinito, que era o casamento das águas e do firmamento.

E havia ainda o fato de que Capão era algo de único e inimitável. Conheci Tramandaí e Imbé; Cidreira e Xangri-lá; Atlântida e Torres. Conheci as praias da Espanha, as da França, as do Chile, as da Califórnia. Escalei meia dúzia de verões em Punta del Este.

São todos lugares aprazíveis, alguns soberbos, outros surpreendentes, como Timmerdorfer Strand, onde as vagas são da cor violeta. Mas em Capão era diverso.

Já nem estou falando agora do impacto de seu mar em minha infância. Me transponho para a adolescência.

O que é a felicidade? Uma das definições possíveis são aquelas areias brancas, onde você deixava a ressaca do baile da noite anterior, ouvindo no radinho Spika o último sucesso do The Platters.

Outra é a absoluta paz íntima, advinda da certeza de que você nada tinha de mais importante a fazer no universo do que não perder uma reunião dançante marcada para as cinco da tarde.

E outra ainda era perceber uma sombra pairando sobre seus devaneios e abrir os olhos e ver, recém-chegada e lindíssima, a garota que você iria amar para todo o sempre.

Excelente terça-feira especialmente para você.


15 de janeiro de 2008
N° 15480 - Paulo Sant'ana


Modéstia

Ainda sobre os melhores momentos desta coluna. Certa vez, escrevi: "Diz o Gênesis que Deus fez a mulher da costela do homem. Carne de segunda! Carne de segunda!".

Outra vez escrevi: "No dia 15 de junho de 1939, morria em Londres o maior psiquiatra da humanidade: Sigmund Freud. No mesmo dia, mesmo ano, mesmo mês, nascia na Rua João Alfredo, em Porto Alegre, Francisco Paulo SantAna, também chamado de Pablo. Foi apenas uma passagem de bastão".

Achei espetacular a piada que o leitor Luiz Carlos Melo, o Melinho, mandou para mim:

O sujeito finalmente conseguiu realizar o seu sonho de comprar um Audi A4 1.8T, automático, conversível e blá, blá, blá...

Então, numa bela tarde, se mandou para uma auto-estrada para testar toda a capacidade da "belezura".

Capota abaixada, o vento na cara, o cabelo voando, resolveu ir fundo!

Quando o ponteiro estava chegando aos 120, ele viu que um carro da Polícia Rodoviária o perseguia com a sirene a mil e as luzes piscando.

"Ah, mas não vão alcançar este Audi de jeito nenhum", pensou ele e atolou o pé no acelerador.

O ponteiro foi pros 140, 160, 200, e a patrulha atrás.

"Que loucura!", ele pensou e, então, resolveu encostar.

O guarda veio, pediu os documentos, examinou o carro e disse: "Eu tive um dia muito duro e já passou do horário do meu turno. Se me der uma boa desculpa, que eu nunca tenha ouvido, para dirigir desta maneira, deixo você ir embora".

E o sujeito emendou: "Na semana passada, minha mulher fugiu com um policial rodoviário e eu tive medo de que fosse ele querendo devolvê-la".

"Boa noite!!!", disse o guarda.

O Mauro Saraiva Jr., repórter que fala do helicóptero da Rádio Gaúcha, citado na semana passada por esta coluna, imediatamente após ser citado, recebeu 1.048 e-mails e 363 torpedos em seu celular. Não foi possível a ele responder a todos.

Ficou impressionado até a estupefação com o índice de leitura desta coluna.

Ele nunca foi tão procurado pelo público. Veio correndo me contar tudo isso e me deu um abraço.

Recebi o abraço com a resignação discreta dos modestos.

Recebo de uma aparentemente aflita veranista: "Paulo SantAna, sou veranista do balneário de Mariluz (Imbé) há mais de 40 anos, e sempre teve dois salva-vidas em cada guarita. Este ano, a nossa querida governadora tomou a seguinte decisão: uma guarita tem um salva-vidas, a outra não tem nenhum.

A seguinte tem mais um, a outra não tem nenhum. E assim por diante, até o fim das praias. Como isso é possível? Cortar salva-vidas das praias, se o índice de afogamentos é grande e agora, com essa medida, com certeza vai aumentar?

Noutro dia, um jovem estava se afogando, tivemos que fazer uma corrente humana para puxar o rapaz. Como podemos continuar convivendo com esses absurdos que nossa governadora faz? Simplesmente ela brinca com a população.

Por favor, peço que mencione em sua coluna esses fatos que mais uma vez envergonham nosso Estado. Obrigada... saudações gremistas (ass. Marcia Kopczynski)".


15 de janeiro de 2008
N° 15480 - Cláudio Moreno


Da taça aos lábios

Anqueu, filho de Posêidon, era um dos heróis que tripulavam o navio dos Argonautas, na lendária viagem de Jasão em busca do velocino de ouro.

Quando Tífis, o timoneiro, morreu de uma doença misteriosa, foi Anqueu o escolhido para assumir o seu lugar, pois, sendo filho do deus do mar, conhecia mais do que ninguém o lugar das estrelas no céu e o ritmo oculto das marés.

Guiado por sua mão segura, o navio Argo foi e voltou da distante Cólquida, ingressando para sempre na galeria dos mitos imortais.

Quando Anqueu voltou para seu reino em Samos, a vindima daquele ano estava praticamente concluída, e os intendentes do palácio apresentaram-se com uma excelente notícia:

a parreira que ele tinha plantado com as próprias mãos, alguns anos antes, tinha produzido uma uva abundante, e o primeiro vinho feito com ela estava pronto para ser bebido.

Para Anqueu, esta era uma notícia realmente especial, pois assim se desfazia a sombra de uma estranha maldição que pairava sobre ele: um de seus servos, revoltado com o árduo trabalho do plantio, havia predito que ele não viveria o bastante para provar o produto deste vinhedo.

Agora, porém, o vinho estava ali, ao alcance de sua mão, na taça cheia que lhe estenderam.

Com um sorriso triunfante, Anqueu ergueu-a na luz para apreciar o belo tom sangüíneo da bebida; depois, levou-a junto às narinas e aspirou o perfume quase selvagem, que lhe trouxe à lembrança as encostas ensolaradas de sua ilha.

No entanto, antes de beber, mandou trazerem à sua presença o servo que o amaldiçoara. "Olha bem", disse ele, "vou engolir a tua profecia juntamente com este vinho!".

O servo, contudo, não se deu por vencido: "Senhor, lembra-te que da taça até a boca muita coisa pode acontecer!". Nesse momento, com efeito, entrou um lavrador esbaforido, gritando que um grande javali estava destruindo as plantações.

Sem hesitar, Anqueu depôs a taça sobre a mesa, pegou a lança e saiu no seu encalço - para morrer minutos depois, com a artéria da coxa seccionada pela presa afiada do traiçoeiro animal.

Por que paraste, Anqueu? Por que foste perder tempo mandando buscar o escravo, por que foste combater aquele estúpido javali?

Eras sábio para ler as estrelas e as profundezas do mar, mas ignoraste a mais antiga das regras: quando a vida, que nem sempre é generosa, resolve encher nossa taça, bebamos!

Quando esse raro vinho está servido, não é hora de acertar contas antigas, não é hora de se preocupar com os negócios. É bebê-lo - ou perdê-lo para sempre, levando para a morte a tortura de não saber, afinal, que gosto ele teria na boca.
Em 2008, seja do Marte do bem



15 de janeiro de 2008
N° 15480 - Moacyr Scliar


As lições da febre amarela

O surgimento de casos de febre amarela é, claro, uma notícia ruim.

Mas dentro dessa notícia ruim há alguns aspectos positivos. Um deles, muito importante: o fato de que a população em áreas vulneráveis está acorrendo em massa aos postos de vacinação.

É uma mudança significativa, e não apenas da saúde pública, é uma mudança do Brasil.

A febre amarela aqui chegou no século 17. Navios que vinham das Antilhas traziam o mosquito, e com ele a doença, que gerou epidemias, desapareceu e foi reintroduzida em 1849, quando um navio (norte-americano: Chávez gostaria disso) chegou a Salvador.

A febre amarela se disseminou pelo litoral brasileiro; no Rio, então capital, tornou-se um flagelo, a tal ponto, que os navios estrangeiros se recusavam a ali aportar, o que estava detonando a economia do país, baseada na exportação de café.

É então que assume a Diretoria de Saúde Pública esse grande brasileiro que foi Oswaldo Cruz, com a missão específica de controlar a febre amarela.

Missão quase impossível: a vacina não existia e, pior, o mecanismo de transmissão da febre amarela era objeto de controvérsia.

Em Cuba (Chávez gostaria disso), o médico Carlos Finlay, com apoio de médicos norte-americanos (Chávez não gostaria disso) tinha evidenciado o papel do mosquito, mas muitos médicos brasileiros não acreditavam em suas idéias:

achavam que a doença era transmitida pelo solo ou pelo alimento. Oswaldo Cruz, que enxergava muito adiante de seu tempo, seguiu as idéias de Finlay e desencadeou o combate ao mosquito. Foi execrado, foi ridicularizado, mas venceu a batalha.

No Brasil, a febre amarela é hoje uma doença silvestre, acometendo principalmente macacos; casos humanos podem surgir (e surgem).

A vacina é, contudo, uma proteção muitíssimo eficaz. Exemplo dramático: o de Drauzio Varella, que, indo para a Amazônia, não se revacinou e contraiu a doença que quase o matou, experiência por ele narrada no livro O Médico Doente.

Que um médico famoso admita publicamente seu erro e o transforme num ensinamento (o contrário da arrogância dos doutores à época de Oswaldo Cruz) também é um sinal de que o país mudou. Se a vacina está indicada para vocês, não hesitem: vacinem-se. Protege a saúde e melhora o Brasil.

Nada como leitores informados e cultos. A propósito de uma coluna que escrevi no caderno Vida, mencionando o norte-americano Graham Bell como inventor do telefone, diz o Leonardo Mario Ferraro que, na verdade, a invenção da telefonia foi obra do imigrante italiano Antonio Meucci (1808-1889), residente em Nova York:

"É muito semelhante ao que fazem com Santos Dumont, principalmente nos EUA, afirmando que não foi ele o inventor do avião e, sim, os irmãos Wright".

Uma rápida pesquisa mostrou-me que o assunto é mesmo controverso. Além de Meucci e Graham Bell, outros nomes são apontados: Johann Philipp Reis, Elisha Gray, Thomas Edison. Talvez todos tenham descoberto o telefone ao mesmo tempo...

O Nelson Lersch queixa-se de que, nas minhas caminhadas pela Protásio, às vezes passo por ele e não cumprimento.

Se te consola, Nelson, não és o único: outras pessoas já me puxaram as orelhas pelo mesmo motivo (haja orelha). A única escusa que tenho é que, nas caminhadas, fico pensando no que vou escrever aqui.

E, na mais recente dessas caminhadas, concluí que tenho de pedir desculpa a ti e a todos os outros que, nas caminhadas, não cumprimentei. Ficam, pois, as minhas escusas.

scliar@zerohora.com.br

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008


VALDO CRUZ

Gol contra

BRASÍLIA - O governo Lula, apesar de renegar, é uma grande continuidade dos anos FHC. Copiou e aprofundou a política monetária, tornou mais austera a fiscal e seguiu o velho sistema de convívio com o Congresso: alimentar sua base aliada com cargos e grana de emendas parlamentares.

Se teve mais sucesso nas duas primeiras ações, na terceira não demonstra igual "competência". Poderia ser até uma virtude, mas não é o caso. Senão, vejamos.

Nesse início de ano, ao fazer um balanço das pendências no balcão de negócios do Palácio do Planalto, o governo descobriu uma série de promessas não cumpridas.

Há cargos já assegurados pelo Planalto a aliados cerca de dez meses atrás. Até hoje o sujeito ainda não foi nomeado, irritando seu padrinho político, que tem de explicar ao amigo por que seu empreguinho não sai. Na próxima eleição, pode perder um belo cabo eleitoral.

Mais: nada menos do que R$ 6,4 bilhões de emendas de parlamentares, dinheiro destinado às bases eleitorais de deputados e senadores, foram reservados para gastos no ano passado.

A grana, contudo, não foi efetivamente liberada pelo Tesouro Nacional. O congressista fica na seguinte situação. Chega a fazer festa por conta do dinheiro prometido, mas que nunca chega à sua cidade. Se não chegar, será cobrado pelos eleitores. Menos votos.

Tanta incompetência não vem só da burrice burocrática. É fruto ainda da guerra política dentro do governo. O PT resiste a ceder espaço ao PMDB.

Ministros não seguem ordens do Planalto para soltar aquela verbinha para um aliado, porque preferem privilegiar seu amigo. No final, ninguém crê muito nas promessas de Lula.

Essa não é uma forma recomendável de governar. Pelo contrário, é péssima. Mas é a que impera hoje. Que tal o presidente dar uma forcinha a seus articuladores políticos nessa ingrata e doce tarefa? Ele só tem a ganhar. Ou a perder, com tanto gol contra de sua turma.

MOACYR SCLIAR

Espaço vital

Como a mulher a seu lado, ele era corpulento; o braço da poltrona não acolheria os cotovelos de ambos

Etiqueta no avião: quem tem direito ao braço da poltrona? Mônica Bérgamo, 3 de janeiro.

TÃO LOGO SENTARAM E AFIVELARAM os cintos de segurança ele sentiu que o conflito começaria a qualquer momento. O conflito pelo braço da poltrona, bem entendido, este território que, ao menos na classe econômica (para executiva ele não tinha grana), é obrigatoriamente comum.

Como a mulher a seu lado, ele era corpulento; e o braço da poltrona, estreito, não acolheria os cotovelos de ambos. Breve estaria desencadeada a luta pelo espaço vital, talvez não tão sangrenta quanto a Segunda Guerra na Europa, mas mesmo assim encarniçada.

Ela tomou a iniciativa. Tão logo o avião decolou, e antes mesmo que a comissária anunciasse: "Nosso tempo de vôo será de..." ela abriu o jornal.

Um jornal grande, não um tablóide, não uma revista. Jornalão, com muita coisa para ler, editoriais, artigos, reportagens. E, o jornal aberto, ela naturalmente ancorou o cotovelo no braço da poltrona. Ancorou-o numa posição que não permitiria o ingresso ali de qualquer outro cotovelo.

Ele também tinha um jornal. Ele também era um leitor assíduo. Mas a verdade é que ela se antecipara na manobra, e agora qualquer tentativa dele no sentido de manifestar interesse nas notícias do país e do mundo não passaria de uma medíocre, e até vergonhosa, imitação. Portanto, um a zero para ela.

Mas ele não desistiria. Desistir? De maneira alguma. Como se diz no Sul: "Não está morto quem peleia", e ele ainda tinha muito a pelear. Agora, porém, adotaria uma tática diversa.

Uma falsa retirada, destinada a dar à dona do poderoso cotovelo uma ilusória sensação de definitiva vitória. Inclinou a poltrona, bocejou, fechou os olhos e fingiu dormir.

Mas, por entre as pálpebras semicerradas, observava-a. Aparentemente, ela continuava absorvida na leitura. Ele resolveu tentar um ataque sub-reptício, tipo atentado terrorista.

Como se fosse um movimento automático, colocou o cotovelo sobre o braço da poltrona. Torceu para que a aeronave entrasse numa área de turbulência, o que acabou acontecendo.

No primeiro solavanco o cotovelo dele empurrou, como que por acidente, o cotovelo dela para fora. E ali ficou triunfante, como aqueles soldados que, na batalha de Iwo Jima, desfraldaram a bandeira americana.

Ela continuava lendo o jornal. Mas ele sabia que, no fundo, ela estava remoendo a raiva e planejando a vingança. Que planejasse. Ele não entregaria jamais a sua conquista.

E aí o problema, o inesperado problema. De repente sentiu vontade de urinar. Muita vontade de urinar. Que fazer?

Se levantasse, perderia o braço da poltrona e nunca mais o recuperaria. Durante longos minutos debateu-se em dúvida cruel. E aí, misericordiosamente, o comandante anunciou que estavam pousando. Ela fechou o jornal, voltou-se para ele: - Você sabe que dia é hoje?

Ele não sabia. Ela sorriu, como mãe diante de filho travesso, e revelou: era o aniversário de casamento de ambos. Trinta e cinco anos de matrimônio. Trinta e cinco anos partilhando sonhos, angústias, o cuidado dos filhos. E ah, sim, braços de poltrona em aviões.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha


14 de janeiro de 2008
N° 15479 - Paulo Sant'ana


O enredo

Sempre é bom relembrar os melhores momentos deste colunista nos 36 anos em que escrevo em Zero Hora.

Um desses instantes foi quando a Escola de Samba Acadêmicos da Orgia me escolheu, anos atrás, como tema-enredo de seu desfile na avenida.

Um belo dia, quando os ensaios estavam no seu clímax, era um sábado com quadra cheia, gente saindo pelo ladrão.

Então eu cheguei, até mesmo porque queria pagar duas caixas de cerveja gelada para a bateria da escola.

Lá dentro, a escola ensaiava e cantava o samba de autoria de Alexandre, que tratava da minha vida, eu, que comecei profissionalmente como baleiro dos cinemas Castelo e Avenida.

E a escola cantando "Balas, baleiro, balas". Então me aproximei da porta para ingressar na quadra e o porteiro me barrou: "O senhor, quem é o senhor". Eu fui entrando na marra e tive ainda tempo de dizer: "Eu sou o enredo! O enredo!"

Recebo de atônita moradora de bairro porto-alegrense: "Sou moradora da Rua Jacob Vontobel, bairro Jardim Botânico, em Porto Alegre, e preciso muito que o senhor leia minha denúncia.

Dias atrás, um sábado, por volta das 22h, a amiguinha de minhas filhas, uma menina de apenas 13 anos de idade foi VIOLENTADA na esquina de sua casa, na minha rua, em um mato que há muito pedimos para que seja eliminado.

Bem, além da questão do matagal, que serve de refúgio para drogados e marginais, o que ocasiona além de tumultos e constantes furtos às residências, aconteceu esse crime abominável.

Pois bem, peço encarecidamente que o senhor denuncie o fato que descrevo a seguir:

O criminoso atacou a menina, violentou-a e a ameaçou de morte. Nós, moradores da rua, saímos à cata do marginal, mas naquela noite não conseguimos localizá-lo, apenas descobrir de quem se trata, já que ele vive solto e perambulando pelo bairro, roubando e estuprando.

Na manhã seguinte, meu marido saiu novamente pelo bairro e conseguiu encontrá-lo. Na tentativa de fuga, o marginal se atirou pra dentro do quartel da Brigada, o Regimento Bento Gonçalves, na Aparício.

A ação da Brigada Militar foi perfeita. Prenderam o cara, fizeram o reconhecimento com a menina e encaminharam o marginal pro Presídio Central. Mas para nossa surpresa ele teve de ser solto, porque a captura dele não pôde ser considerada flagrante!!!

Na Delegacia da Mulher, onde a vítima registrou queixa, não havia delegado de plantão no domingo, por isso só fariam o pedido de prisão preventiva na segunda-feira... Paulo SantAna, o senhor acha que o bandido ficaria sentado na rua esperando que a polícia viesse prendê-lo?

Onde está a verdadeira justiça?

A polícia diz que não pôde detê-lo porque não é flagrante e só pode trabalhar cumprindo a lei. Concordo plenamente que a lei deva ser cumprida, mas veja bem, o cara foi pego, reconhecido pela vítima e encaminhado pela Brigada Militar e aí teve que ser solto porque não é flagrante e porque não tinha delegado de plantão pra expedir o pedido de prisão preventiva, isto é, ficamos diante de fato vergonhoso.

Tenho absoluta certeza de que, se fosse a filha ou mesmo parente de qualquer um dos que o soltaram, o episódio teria um rumo muito diferente, mas como se trata de uma menina anônima e pobre, ficaremos à mercê desse marginal.

Por favor, conto com sua consideração para levar isso adiante, sei que o senhor tem poder de fazer as pessoas escutarem e quem sabe mudar uma vergonha dessas.

Caso precise, estou à disposição para maiores informações. Agradecidamente,

Maria Cristina".

Falo eu, o colunista. É muito difícil para os cidadãos leigos entenderem a lei penal. Quanto a não ter delegado na delegacia para pedir a prisão preventiva, quero dizer que os governos sucessivos estão terminando por falir a Polícia Civil.

Excelente seamana especialmente para voce...


14 de janeiro de 2008
N° 15479 - Nico Fagundes


Série Gaúchos e Gaúchas de Todas as Querências

25. Fátima Gimenez

Ela é jovem, linda e cheia de classe. Parece uma princesa de conto de fadas e eu gosto de dizer que a Fátima deveria ter porte de arma para sair com aqueles olhos na rua...

Maria de Fátima da Silva Gimenez nasceu em Porto Alegre e foi guria travessa ali na Independência. O pai, músico e com sangue correntino nas veias, sempre a incentivava para cantar, maravilhado com sua voz.

Aos 12 anos, Fátima brilhava com repertório da jovem guarda dos programas da TV local. Tentou o piano, mas decorava as músicas e, quando a professora descobriu que ela não lia as partituras, terminou a carreira da jovem pianista. Mas gosta de tocar violão, instrumento que reserva mais para seus momentos do lar e da família.

Quando fazia parte do aplaudido Grupo Tempero, participou da Ciranda Musical Teuto Rio-Grandense de Taquara defendendo a canção Visões.

Foi o seu primeiro contato com o regionalismo. A atuação do grupo encantou Barbosa Lessa, Leonardo e Paulinho Pires. Não por coincidência, os três vão convidar o Grupo Tempero para defender obras suas na oitava Califórnia: Bambaquererê, de Barbosa Lessa, Assombração, do Leonardo e Súplica do Rio, de Paulinho Pires.

A Fátima destaca sempre a sua enorme admiração pelo grande Barbosa Lessa, que foi uma espécie de amadrinhador de seu trabalho e de seu ingresso decisivo no mundo do gauchismo.

Pouco depois, o Grupo Tempero, sob inspiração de Paixão Côrtes, começa a apresentar Terno de Reis, primeiro em Porto Alegre, depois em Brasília, Rio e São Paulo, deslumbrando o Brasil.

Mas a carreira solo de Fátima Gimenez só vai começar em 1983, quando vence a Seara de Carazinho defendendo Tapejaras do Amanhã, um poema de José Hilário Retamozzo com música de Heleno Gimenez. Aí não parou mais, vencendo como intérprete festival atrás de festival. Hoje são mais de 50 premiações.

Quero crer, porém, que a grande explosão na carreira da Fátima ocorreu quando defendeu a impactante canção Cabo Toco na quinta Vigília de Cachoeira do Sul. Cabo Toco foi uma gaúcha que lutou ao lado das forças dos provisórios da Brigada Militar.

A força pública estadual, aliás, confeccionou a farda que Fátima usou no palco, com garra invulgar. E, para maior emoção, a própria heroína inspiradora da canção, a própria cabo Toco, estava na platéia e subiu ao palco ovacionada pela multidão para abraçar a sua feliz intérprete.

Figura humana e sensível, querida de todo mundo, assim é Fátima Gimenez.


14 de janeiro de 2008
N° 15479 - Luiz Antonio de Assis Brasil

Palavras (24)


Sabedoria - Toda sabedoria é falha. Nenhuma possui todas as respostas ao nosso não-saber. Sempre há um espaço para o desconhecimento, para a precariedade, para o ridículo.

Sempre há um espaço - enfim - para nossa pedestre ignorância.

Desde os começos das artes visuais na cultura ocidental, os sábios são representados como homens velhos. Platão. Aristóteles. Também no Extremo Oriente.

Já os egípcios, que não cultivavam a velhice como uma boa qualidade, por isso mesmo não tinham sábios. Nenhuma pintura mural, nenhum baixo-relevo dos egípcios representa um velho.

Entre os egípcios, homens da bela e eterna juventude, sábios eram apenas os deuses. Eles é que falavam com propriedade, desde suas culminâncias metafísicas, exortando, advertindo, ameaçando, premiando.

Aos homens, destinavam uma perpétua e feliz ignorância.

A felicidade era esta: os deuses pensavam por eles.

"Quanto mais velho, mais sábio" - eis mais uma falácia.

A alguns velhos, a velhice resulta apenas em queixas; não têm a sabedoria de entender a natural passagem do tempo.

Reumatismo, dores variadas, incapacidade de subir escadas, perda de dentes, fraqueza nas pernas e nas lembranças - isso deveria ser banido das queixas dos velhos, se verdadeiramente sábios.

São poucos.


14 de janeiro de 2008
N° 15479 - Luis Fernando Verissimo


A vida não é uma comédia romântica


Homem e mulher se conhecem numa sala de espera de médico. Ela grávida, ele esperando a mulher, que consulta com o médico. Ele oferece a Caras que estava folheando:

- Quer dar uma olhada?

Ela:

- Acho que essa eu já vi. É nova?

Ele, depois de consultar a data da revista:

- Bom, é deste século...

Os dois riem. E se apaixonam.

Dessas coisas. Destino, química... Quem explica essas coisas?

Se apaixonam, pronto. Mas não caem nos braços um do outro.

Mesmo porque a barriga dela, de sete meses, não permitiria. Ficam apenas se olhando, atônitos com o que aconteceu. Pois junto com o amor súbito vem a certeza da sua impossibilidade. Como uma ferida fazendo casca em segundos.

E como nenhum dos dois é um monstro de frivolidade, e como a vida não é uma comédia romântica, é uma coisa muito séria, e como eles não podem largar tudo e fugir, trocam informações rápidas, para pelo menos ter mais o que lembrar quando lembrarem aquele momento sem nenhum futuro, aquela quase loucura.

Sim, é o primeiro filho dela. Menino. E a mulher dele? Está consultando o médico porque a gestação complicou, o parto talvez precise ser prematuro. Também é o primeiro filho deles. Filha. Menina. Que mais? Que mais? Não há tempo para biografias completas.

Gostos, endereços, telefones, nada. A mulher dele sai do consultório. Ele tem que ir embora. Dá um jeito de voltar sozinho e perguntar o nome dela. Maria Alice. E o dele? Rogério! Rogério! E sai correndo, para nunca mais se encontrarem.

Mas se encontram. Três anos depois, na sala de espera de um pediatra.

Ela chega com uma criança no colo. Ele está lendo uma revista. Talvez a mesma Caras. Os dois se reconhecem instantaneamente. Ele pega a mãozinha da criança. Pergunta o nome. É João Carlos. Caquinho.

- Ele está com algum...

- Não, não. Consulta normal. Ele é saudável até demais. Hiperativo. E a de vocês? O parto, afinal...

- Foi bem, foi bem. Ela está ótima. Se chama Gabriela. Só veio fazer um checape. Eu não posso ficar lá dentro porque fico nervoso.

E declara que não houve dia em que não pensasse nela, e no que poderia ter sido se tivessem saído juntos daquele consultório, anos atrás, e seguido seus instintos, e feito aquela loucura. E ela confessa que também pensou muito nele e no que poderia ter sido.

E ele está prestes a pedir um telefone, um endereço, um sobrenome para procurar no guia, quando a mulher sai do consultório com a filha deles no colo e ele precisa ir atrás, e só o que consegue é um olhar de despedida, um triste olhar de nunca mais.

Mas se encontram outra vez. Dois anos depois, na sala de espera de um pronto-socorro. Ele com a mulher, ela com o marido. Ele leva um susto ao vê-la. O que houve? É o Caquinho.

O cretino conseguiu prender a língua numa lata de Coca. Ele se emociona. A mulher dele não entende. De onde o marido conhece aquele Caquinho? E aquela mulher, que está perguntando se aconteceu alguma coisa com a Gabriela?

Não foi nada, Gabriela só bateu com a cabeça na borda da piscina e está levando alguns pontos. E nem a mulher dele nem o marido dela entendem por que, ao chegar a notícia de que o Caquinho só ficará com a língua um pouco inchada, os dois se abraçam daquela maneira, tão comovidos. Depois, em casa, ele se explica:

- Solidariedade humana, pô.

A história não precisa terminar aí. Rogério e Maria Alice podem continuar se encontrando, de tempos em tempos, em salas de espera (dentistas, traumatologistas, psicólogos especializados em problemas de adolescentes etc.) até um dia ela sair do quarto de hospital onde está o Caquinho, que teve um acidente de ultraleve, e avistá-lo na sala de espera da maternidade, e perguntar:

- A Gabriela está tendo bebê?

E ele fazer que sim com a cabeça, com cara de para onde foram as nossas vidas?

domingo, 13 de janeiro de 2008


DANUZA LEÃO

É bom se sentir em casa

Vou tomar um vinho branco; uma garrafa inteira, paranão pensar em nada; sónos prazeres do paladar

É BOM ESTAR só em Paris -se é que alguém está realmente só em alguma cidade do mundo. E nessa noite fui fazer uma extravagância pensando que, afinal, eu mereço: jantar num restaurante caríssimo, só de coisas do mar.

Telefonei, reservei e fiquei pensando no que vou comer. Ah, tudo. Para começar, meia dúzia de ostras, mas quais? Existem várias qualidades, cada uma com um nome, e cada uma com pelo menos três tamanhos: começam os problemas.

Conheço quase todos os tipos de ostra (de vista), mas não guardei o nome de família, o que é uma falha grave. Ah, depois eu penso. Chego na hora marcada, sou levada à mesa por um maître de opereta e chamada de madame umas 15 vezes, antes de me sentar à mesa. "Bon soir, madame, vous êtes seule, madame, par ici, madame".

Depois, mais umas 30: "Que désirez vous boire, madame? Vous voulez un aperitif, madame, ou préferez choisir tout de suite, madame?". Vou tomar um vinho branco; uma garrafa inteira, para não pensar em nada; só nos prazeres do paladar.

Mas na hora de escolher o vinho começa; ah, se estivesse com um homem do lado. A escolha de uma mulher, no quesito vinhos, é sempre posta em questão. Estou sozinha num restaurante chiquérrimo de Paris, com três cartões de crédito na carteira e morta de medo do maître e dos garçons -tem sentido?

Se escolher o mais caro, posso ser considerada uma nova rica; se pedir o mais barato, uma pobrezinha, e se pedir o mais ou menos, pior ainda: vão pensar que sou uma mais ou menos.

Mas quem vai pensar? O garçom, que deve morar num quarto sem conforto num subúrbio de Paris?

O maître, que deve ser cheio de problemas? E o mais importante: cada um deles deve servir a 100, 200 pessoas por dia, muitas pedindo vinhos errados, pratos errados, queijos errados.

Resolvo ser humilde e peço uma sugestão, que é dada com uma certa arrogância -pelo menos segundo minha ótica subdesenvolvida.

É preciso ter coragem; não conheço as ostras pelo nome, só olhando, por isso vou na sorte, e tomara que acerte -mas não acerto. Quando elas chegam, vejo que escolhi errado, mas nem pensar em devolver ou trocar. Mas no segundo prato fico feliz: como sei distinguir uma lagosta de um homard, me dou bem.

E a sobremesa? Adoraria pedir um queijo, mas estou tomando vinho branco. Será que vão deixar?

Deixar é bem a palavra. Me sinto uma criança que, se errar, vai levar um castigo. E de que adiantaram tantas viagens, tanta experiência de vida, se morro de medo de um garçom?

Não faz o menor sentido, mas desde quando as coisas precisam fazer sentido para existirem? Desisto do queijo e peço a conta, muito mais alta do que poderia imaginar.

Para quem havia planejado passar duas horas sem pensar em nada, sem um só problema, um só pensamento -bem, foi uma noite intensa, para não dizer tensa. Tensa e cara. Pego um táxi e vou para o hotel, para relaxar.

Percebo que começo a me sentir feliz porque estou perto de casa -isto é, do hotel. E resolvo entrar num café onde já me conhecem e peço, contra todas as regras, um Ricard, sabendo que mesmo sendo essa uma bebida que só se bebe antes do jantar, no verão, e de preferência perto do mar, ninguém vai me olhar atravessado.

Mas quando vou acender o cigarro, aquele que me dá toda a segurança do mundo, lembro que é proibido fumar; como a temperatura baixou para dois graus negativos, uma mesa na calçada está fora de questão. Que noite; ainda bem que trouxe um comprimido para dormir.

danuza.leao@uol.com.br

JANIO DE FREITAS

Meganegócio e outros megas

A Oi/Telemar agiu em função de já esperado decreto presidencial que a beneficie

A VESTIMENTA técnica do caso, que afasta as atenções da opinião pública, está protegendo-o do destino merecido: um escândalo com proporções e efeitos políticos incalculáveis, por afetar a própria Presidência da República, entre as partes de um negócio de R$ 4,8 bilhões.

Dito da maneira mais simples, trata-se da anulação de um dispositivo de lei para permitir a compra, até agora proibida, de uma empresa telefônica por outra -como foi noticiado nos últimos dias, a partir de informação divulgada pelo jornalista Lauro Jardim.

Mas, se mesmo aí já existe o bastante para questionar a motivação e as conseqüências, nesse caso, do poder de legislar, os ingredientes que acasalam o meganegócio e o governo são inconciliáveis com a probidade.

Para começar, a transação foi negociada, para a compra da Brasil Telecom pela Oi (ex-Telemar), sob o regime legal que proíbe tal negócio, nos termos do Plano Geral de Outorgas, decretado em 1998.

Para que possa efetivar a compra, sem estabelecer uma situação monopolista, conforme a lei em vigor a Oi/Telemar precisaria abrir mão da sua concessão.

Ou seja, da área de telefonia fixa que inclui Minas e Rio, daí segue para todos os Estados do leste e do Nordeste, e vira para o Norte todo até a divisa do Amazonas com o Acre.

Em troca dessa vastidão, a Oi/Telemar ficaria, por compra, com a área da Brasil Telecom que abrange os três Estados do Sul e o Centro-Oeste. Uma permuta esquisita.

Como não pretende abrir mão de sua área, ao estabelecer negociações com a Brasil Telecom, a Oi/Telemar, obviamente, agiu em função de já esperado decreto presidencial que a beneficie com a anulação do impedimento de acumular novas áreas.
As conseqüências de tal decreto não se limitam, porém, a produzir a anulação indispensável à Oi/ Telemar.

Se somadas as concessões dessa empresa e as da Brasil Telecom, estabelece-se o domínio da Oi/Telemar sobre a telefonia fixa em todo o país, com exclusão de uma só área -São Paulo, da Telefônica, excetuada uma pequena região do Estado.

A contribuição questionável do governo vai em frente. Também com o amparo financeiro para a pretendida compra. Do valor de R$ 4,8 bilhões em que as duas empresas concordaram, os dois acionistas que seriam majoritários na supertelefônica aplicam R$ 2 bilhões, meio a meio. Por determinação da Presidência da República, o BNDES entrará como financiador dos dois controladores da compra.

O BNDES que agora mesmo pediu ao governo um crédito de R$ 30 bilhões para os projetos, sobretudo industriais e de infra-estrutura, que buscam o seu financiamento.

O BNDES que é sócio da Oi/ Telemar, na proporção de 25% do capital da empresa, mas que não está chamado à operação para usar seus recursos na melhoria ou, no mínimo, na defesa de sua participação proporcional. Seus recursos serão para benefício alheio.

Como acionistas das duas empresas, fundos de estatais, por sua vez, receberam orientação da Presidência da República para desprezar quaisquer restrições e apoiar o negócio.

O governo foi surpreendido pela notícia da transação que patrocina. Interessados no negócio, não citados nominalmente, teriam dado, em seguida, a curiosa explicação de que o propósito do governo "seria [também no condicional] criar uma grande empresa nacional para competir com gigantes do setor". Competir onde e fazê-lo para quê?

O Brasil não tem nenhuma necessidade social, econômica ou política de entrar nesse tipo de competição. E, se entrar, nada promete que o simples tamanho monopolista da Oi/Telemar lhe dê condições reais de competição mundial.

Embora desnecessária, diante das peculiaridades impróprias do negócio, uma razão adicional desaprova o patrocínio que lhe é dado pela Presidência da República.

A Oi/Telemar foi a empresa que pôs R$ 5 milhões no capital de uma firma para viabilizá-la: a Gamecorp de que Fábio Luiz Lula da Silva é sócio. Nem importa o grau de pureza que haja ou falte no modo como se deu a formação financeira da Gamecorp.

Em qualquer caso, a probidade estará negada na mudança da lei para possibilitar um meganegócio à empresa que fez sociedade, reprovável ou não, com um filho do presidente da República. Ainda que não seja na telefônica, nem por isso a Oi/Telemar é menos sócia de Fábio Luiz Lula da Silva.

Ao entrar com quase todo o capital que viabilizou a Gamecorp, a bilionária Telemar, hoje Oi, deu à estranheza geral a resposta de que viu um "negócio promissor".

Será muito mais do que imprudência, se o presidente da República fizer o que possa ser visto como confirmação daquela resposta.

CLÓVIS ROSSI

Esse socialismo também quero

SÃO PAULO- Há furor no Reino Unido pelo fato de o ex-primeiro-ministro Tony Blair ter aceitado posto de consultoria na firma financeira JP Morgan Chase.

O jornal "The Guardian" diz que não se surpreendeu porque, "no posto [de premiê], ele ficava muito impressionado com dinheiro e pessoas ricas e agora perdeu o senso de como seu desejo de ganhar tanto, tão rapidamente, ofende os ideais de serviço público e os princípios fundamentais de seu partido" (o Trabalhista, social-democracia britânica).

O curioso é que, no Brasil, não houve nem mesmo um leve muxoxo sobre fato bem parecido, qual seja, a admissão por parte de José Dirceu, ex-todo poderoso do governo Lula, de que está prestando consultoria ao biliardário mexicano Carlos Slim, um dos homens mais ricos do mundo. Será que Dirceu vai alegar que está "socializando" (a seu favor) a imensa fortuna de Slim?

A reação de um lado e do outro do mundo parece indicar que o brasileiro toma como normal que políticos enriqueçam na atividade política e queiram permanecer ricos quando a abandonam (ou são forçados a abandoná-la, como no caso Dirceu, cassado).

Nada contra Dirceu ganhar dinheiro dando consultoria a Slim (ou a qualquer outro). É melhor do que ser chefe de uma "organização criminosa", acusação de que se defende no STF.

Mas tudo contra a hipocrisia e a desonestidade (dele e de intelectuais afins) de ficar desancando as elites ao mesmo tempo em que são parte delas e, pelo menos ele, se põe a soldo não de um membro qualquer da elite, mas de um supermilionário, conspícuo representante da cobertura do andar de cima.

O carnavalesco Joãozinho Trinta dizia que só intelectual gosta de pobre. Errou, João. No Brasil, nem intelectual. Político "socialista", então, nem pensar.

crossi@uol.com.br

sábado, 12 de janeiro de 2008



13 de janeiro de 2008
N° 15478 - Martha Medeiros


Abalando estruturas

Mudanças não significam fragilidade de caráter. É preciso ter uma certa flexibilidade para evoluir e se divertir com a vida. Mais ainda: essa flexibilidade é fundamental para manter a nossa integridade

Uma amiga minha vive dizendo que odeia amarelo, que prefere tomar cianureto a usar uma roupa amarela. Quem a conhece já a ouviu dizer isso mil vezes, inclusive seu namorado.

Pois uns dias atrás ela me contou que esse seu namorado chegou em sua casa e, mesmo os dois estando a uma semana sem se ver, brigaram nos primeiros cinco minutos de conversa e ele foi embora. "Mas o que aconteceu?" perguntei. "Eu sei lá", me respondeu ela.

"Estávamos morrendo de saudades um do outro, mas começamos a discutir por causa de uma bobagem". Eu: "Que bobagem?". Então ela me disse: "Você não vai acreditar, mas ele ficou desconcertado por eu estar usando uma camiseta amarela".

Ora, ora. Era a oportunidade para eu utilizar meus dons de psicóloga de fundo de quintal. Perguntei para minha amiga: "Quer saber o que eu acho?".

A irresponsável respondeu: "Quero". Mal sabia ela que eu recém havia assistido a uma palestra sobre as armadilhas da tão prestigiada estabilidade. Arregacei as mangas e mandei ver.

Você está namorando o cara há pouco tempo. Sabemos como funcionam esses primeiros encontros. Cada um vai fornecendo informações para o outro: eu adoro rock, eu tenho alergia a frutos do mar, tenho um irmão com quem não me dou bem, prefiro campo em vez de praia, não gosto de teatro, jamais vou ter uma moto, não uso roupa amarela.

A gente então vai guardando cada uma dessas frases num baú imaginário, como se fosse um pequeno tesouro. São os dados secretos de um novo alguém que acaba de entrar em nossa vida.

Assim vamos construindo a relação com certa intimidade e segurança, até que um belo dia nosso amor propaga as maravilhas de uma peça de teatro que acabou de assistir, ou sugere 20 dias de férias numa praia deserta, ou usa uma roupa amarela. Pô, como é que dá pra confiar numa criatura dessas?

Pois dá. Aliás, é mais confiável uma criatura dessas do que aquela que se algemou em meia dúzia de "verdades" inabaláveis, que não muda jamais de opinião, que registrou em cartório sua lista de aversões.

Vale para essas bobagens de roupa amarela e praia deserta, e vale também para coisas mais sérias, como posicionamentos sobre o amor e o trabalho.

Mudanças não significam fragilidade de caráter. É preciso ter uma certa flexibilidade para evoluir e se divertir com a vida. Mas ainda: essa flexibilidade é fundamental para manter nossa integridade, por mais contraditório que pareça.

Me vieram agora à mente os altos edifícios que são construídos em cidades propensas a terremotos, que mantêm em sua estrutura um componente que permite que eles se movam durante o abalo. Um edifício que balança! Com que propósito? Justamente para não vir abaixo. Se ele não se flexibilizar, a estrutura pode ruir.

O fato de transgredirmos nossas próprias regras só demonstra que estamos conscientes de que a cada dia aprendemos um pouco mais, ou desaprendemos um pouco mais, o que também é amadurecer. Não estamos congelados em vida.

Podemos mudar de idéia, podemos nos reapresentar ao mundo, podemos nos olhar no espelho de manhã e dizer: bom dia, muito prazer. Ninguém precisa ficar desconcertado diante de alguém que se desconstrói às vezes.

Eu também não gosto de roupa amarela. Quem abrir meu armário vai encontrar basicamente peças brancas, pretas, cinzas e em algumas tonalidades de verde. No entanto, hoje de manhã saí com um casaco amarelo canário!

Tenho há mais de 10 anos e quase nunca usei. Pois hoje saí com ele para dar uma volta e retornei para casa sendo a mesmíssima pessoa, apenas um pouco mais alegre por ter me sentido diferente de mim mesma, o que é vital uma vez ao dia.

Um excelente domingo para você e uma semana super especial.


13 de janeiro de 2008
N° 15478 - Paulo Sant'ana


A nossa roda

A minha roda das tardinhas na Rua Padre Chagas tem tipos muito interessantes, eles são em sua maioria muito queridos.

Ali, por exemplo, a gente fica sabendo que a bonança proporciona os amigos, a desventura os testa.

Na minha roda da Rua Padre Chagas, a gente fica sabendo também o que é proclamado de meia em meia hora pelos integrantes da roda, que um amigo vale mais que 10 mil parentes.

É uma roda heterogênea. É escolhida pela inteligência e sensibilidade dos seus componentes, que se revezam no grupo das 18h às 20h. Há bacharéis em Direito, médicos, empresários, psicanalistas, imunologistas, trabalhadores e quase mendigos.

Em suma, uma roda que não exige que seus integrantes possuam pecúnia ou linhagem, o único requisito para entrar na roda é não ser medíocre.

Modéstia à parte, é uma das rodas mais instigantes da cidade.

A roda fica numa mesa de calçada do Café do Porto, cuja proprietária é uma mulher belíssima de segunda idade.

Vez por outra, a loira proprietária chega na roda e dirige a palavra para nós e nós dirigimos individualmente a palavra para ela.

A única pergunta que fiz a ela na quinta-feira foi qual era o seu xampu e qual era o seu cabeleireiro. Ela respondeu que o xampu que usa para seu cabelo ficar tão sedoso é o Phytoervas e para seu corte ficar tão ajeitado em sua delicada cabeça utiliza os serviços de Hugo Cabeleireiros.

Mais não me disse nem lhe foi por mim perguntado. Tudo o mais que se passou na relação entre mim e ela ficou por conta de minha imaginação e fantasia.

E o futuro do nosso relacionamento resta a cargo da minha sorte ou talento.

Freqüenta minha roda da tardinha na Rua Padre Chagas um renomado psicanalista.

Como ele é um dos que nunca pagam nem dividem a despesa da nossa mesa (não entendo de onde ele pensa que nós tiramos dinheiro para pagar seus gastos no Café), eu o provoquei sexta-feira: "O senhor é dermatologista?".

Ele respondeu: "Não. Eu sou psicanalista. Por que pensaste que eu fosse dermatologista?".

"Porque o senhor nunca se coça", retruquei.

A nossa roda na Rua Padre Chagas é liderada pelo fundador da roda, Gastão Wallauer. A sua simpatia comanda a roda e, modéstia à parte, o meu talento costura e coordena as tiradas espirituosas e a camaradagem.

O prazer e a alegria que emanam dos nossos rostos por termos a certeza de que aquelas duas horas são e serão sempre as mais felizes de todos os nossos cinco dias por semana.

A roda está se alargando. Éramos seis, já somos uns 16 e tenho certeza de que, depois desta coluna que estou escrevendo, teremos de cobrar jóia para quem quiser se integrar doravante à nossa roda.

A fila dos que irão querer se inscrever na nossa roda, a partir da semana que se inicia, terá de ser disciplinada por um pelotão de PMs, que já servirão para deter os cambistas.

Os autores mais citados na nossa roda são Dostoiévski, Noel Rosa, Pablo Neruda, Lupicínio Rodrigues, Descartes, Zeca Pagodinho, Sartre, Alcione, Epicuro, Platão, Michelângelo, Vitório Gheno, João Nogueira, Beth Carvalho, Maiakovski, Luis Fernando Verissimo, pela ordem. Ou melhor, pela desordem.

A nossa roda na Rua Padre Chagas se tornará, em dois anos, tão célebre quanto aquela roda de um bar de Ipanema que tinha como alguns de seus integrantes Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, Nara Leão, Fernando Sabino, Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta e Jorge Veiga.

Que roda, a nossa! Publicada esta coluna, ela será a maior atração turística de Porto Alegre.


O jeito que Sandrinha lavava roupa

O lance é que a Sandra gostava de lavar roupa só de calcinha. Sandra, Sandrinha. Loira, não muito grande. Mas também não servia para miúda; não, miúda não era. Coxas fortes, isso se podia dizer de Sandrinha.

As coxas eram um predicado seu. Quanto às nádegas, redondas, cada gomo um hemisfério de bola de futsal. Corpo bem proporcionado tinha Sandrinha, seios pequenos, naquela época era moda seio pequeno.

Para arrematar, uma aragem de malícia lhe envolvia o rosto harmonioso. Uma aragem superior. A gente sabia por que: Sandrinha... transava! As mulheres não transavam, naquele tempo. Não as que conhecíamos. Já Sandrinha transava. Infelizmente, não com nenhum de nós. Com os caras mais velhos. Três ou quatro deles se reuniam, e logo a Sandrinha desabava no meio da conversa.

Ouvia-se: a Sandrinha, a Sandrinha... Falavam dela com risos maliciosos e frases pela metade, falavam com lasciva satisfação, fazendo-nos, a nós, os bacuris, os pirralhos, os bostinhas, sonhar.

Nós éramos muito coesos, os bostinhas. Um time. Andávamos juntos e jogávamos juntos. Juntos, íamos ver Sandrinha lavar roupa.

Ela morava um andar abaixo do apê do ala esquerda. A área de serviço dela dava para o centro do prédio, para o poço de luz. Da janela do quarto do ala, a vista era perfeita.

Então, na hora da lavação de roupa, nos amontoávamos no quarto, ficávamos espiando pelas frestas da veneziana, na maior excitação. O brabo era descobrir o horário da lavação. O ala ficava de campana em casa. De repente, descia correndo até a porta do edifício e gritava a senha:

- Saponáceo!!!

Era aquela correria, a gurizada subindo as escadarias de três em três degraus. Depois, mó disputa para olhar pelas frestas da janela. Não havia lugar para todo mundo, dava uma agonia, agora eu, agora eu!

Sandrinha lá, só de calcinha. Uma calcinha bem pequeninha. E Hawaianas. Porque lavava só de calcinha, ninguém nunca descobriu. Mas lavava, e lavava com vigor, cantarolando. E nós: que gostoooosa!

O mais entusiasmado, o fã número 1 da Sandrinha, era o Fernando, eterno reserva do time. O cara chegava a saltitar de emoção, atrás da janela.

Só que nunca deixávamos que visse a Sandrinha por muito tempo. Era um reserva, reserva tinha de esperar. Pior que reserva, e aí está o busílis, é o seguinte: o Fernando era virgem.

Não que algum de nós fosse muito menos virgem, mas o Fernando era o mais virgem, se é que isso é possível. Nós outros tínhamos, cada um, pelo menos uma experiência. Uminha. Geralmente mal-enjorcada e rápida, mas pelo menos havia algo a se contar. O Fernando, nada. Vivia se lamuriando:

- Quando é que vou perder a virgindade? Quando, meu Deus???

Foi aí que concebemos um plano: por que ele não pedia ajuda a Sandrinha? Por que não pedia que ela, tão dadivosa, resolvesse o seu problema? Bastava pedir, Fernando, bastava expor-lhe o drama, vai, Fernando.

Tratava-se de dupla maldade, evidentemente. Em primeiro lugar, preconceituosos, derramávamos nossa frustração em cima da mulher que nós desejávamos, mas que sequer nos olhava e, se nos olhasse, não nos veria.

Em segundo, de alguma forma demonstrávamos que havia uma casta inferior à nossa, que havia um ser ainda mais infame: Fernando, o virgem absoluto, o terceiro reserva do time, o objeto de galhofa da turma.

Passávamos os dias insistindo:

- Pede a ela, Fernando. Fala da tua virgindade. Desabafa. Ela vai topar.

O Fernando começou a se convencer de que talvez tivéssemos razão. Tratava-se de um crédulo, de uma pessoa que confiava nas outras pessoas. De um bom sujeito, enfim. Um dia, anunciou:

- Eu vou! Vou pedir a ela!

A notícia eletrizou a turma. Ficamos imaginando a cena, o fiasco, o escândalo. Ele seria espancado, decerto. Seria enxotado pela Sandrinha. O Fernando marcou até a hora: no fim da tarde, Sandrinha sempre descia para dar uma banda, fumar um Minister e talicoisa. Nessa hora, o Fernando a abordaria, relataria o seu drama e lhe imploraria por seus favores.

Na hora da descida da Sandrinha, estávamos excitados. Até os caras mais velhos sabiam da intenção do Fernando e ficaram na expectativa. O bairro inteiro estava na expectativa. Talvez a cidade inteira!

Bom.

Às seis da tarde, mais ou menos, Sandrinha desceu. Encostou o ombro no vão da porta do edifício, sacou um cigarro e ficou soprando fumaça azul para o alto, distraída. Vestia um calçãozinho branco, uma blusinha azul-marinho e Bamba branco. O Fernando olhou para ela e como que ficou petrificado. Nós:

- Vai lá! Vai lá! Os caras mais velhos: - Vai lá! Vai lá! Os vizinhos: - Vai!

Todos queriam zombar do Fernando. E da Sandrinha, por vias nem tão indiretas assim. O Fernando era boa pessoa mesmo, achava que todos queriam o seu bem. Respirou fundo, emitiu um suspiro doído, e foi. Ninguém acreditava que teria coragem, mas ele foi.

Enquanto se dirigia, meio vacilante, para o local onde Sandrinha fumava, ela, ladina, percebeu que havia algo estranho no ar. Não parecia mais relaxada. Ao contrário: estava ereta, atenta, farejando a maldade no ambiente. Os poucos metros que o Fernando venceu para chegar até ela, via-se que os percorreu com sofrimento. Com dor.

Parou diante dela. Ela olhou para ele, muito séria, e em seguida olhou para nós, olhou para a turma dos caras mais velhos, olhou para tudo no entorno.

O Fernando começou a falar. Ela olhava para ele e dele olhava para nós, olhava para ele e olhava para os caras mais velhos. Finalmente, ficou olhando só para ele, ouvindo-o, o Fernando tímido, deste tamainho, se tivesse um chapéu nas mãos, estaria rodando-o e amassando-o.

Sandrinha ouviu o Fernando, ouviu, ouviu. Nós, rindo, esperávamos que ela o esbofeteasse, que o expulsasse dali, que gritasse com ele. Mas ela não dava mostras de estar nervosa, nem ofendida.

Ele terminou de falar, ficou de cabeça baixa, fitando a ponta dos guids. Sandrinha deu uma última baforada no Minister. Atirou a bagana no meio da rua. Ergueu o queixo. Olhou uma última vez para todos nós, ali em volta.

E, a seguir, tomou o Fernando pela mão e sumiu com ele prédio adentro. Ficamos, nós, os caras mais velhos, os vizinhos, todo mundo, ficamos abestalhados no meio da rua.

Passados dois minutos, corremos até o corredor, imaginando que ela e o Fernando estivessem em algum canto, rindo de nós.

Não estavam. Sandrinha o levara para o apartamento dela. O Fernando só saiu de lá tarde da noite. Quem o viu, disse que sorria, sorria sempre, sorria sem parar.

Fernando nunca contou o que aconteceu durante aquelas horas. Nunca descobrimos o que se passou entre ele e a Sandrinha. Mas, depois daquele dia, a vida dele mudou: ele nunca mais subiu para vê-la lavando a roupa, e ele nunca mais ficou na reserva.


13 de janeiro de 2008
N° 15478 - Moacyr Scliar


O gorila e a TPM

Em 1955, a médica inglesa Katharina Dalton defendeu a tese de que as alterações de comportamento, mesmo as mais agressivas, poderiam ser sintomas da "doença mais comum e provavelmente mais antiga do mundo"

A historinha é antiga mas ainda instrutiva. Um homem vai, junto com sua mulher, ao zoológico. Ali estão, diante da jaula de um gigantesco gorila, quando o bicho, inspirado talvez pelo King Kong, consegue arrebatar a moça. Ela começa a gritar pedindo socorro ao marido. Diga a ele que você está com TPM, é a sarcástica resposta do cônjuge.

Resposta que resume milênios de aversão e de incompreensão. Para muitos homens, a tensão pré-menstrual lidera a lista das coisas abomináveis. Aliás, não só a tensão pré-menstrual, a menstruação também.

É imensa a lista de males atribuídos à mulher neste período. Mulher menstruada azeda o leite, estraga os frutos ainda na árvore, contamina os cursos dágua. É considerada portadora de "maus fluidos" e não pode ser tocada pelo homem.

Ou seja, a menstruação permaneceu, durante muito tempo, como uma fonte de crendices e de tabus. Até que se descobriu os hormônios e sua ação sobre o organismo das mulheres - e dos homens.

Sim, homem também depende de hormônios, sobretudo da testosterona. E homem também pode ter problemas com hormônios. Mas com a mulher é diferente. Com a mulher, a variação ocorre sempre, e é cíclica.

No início do ciclo, vai subindo a produção de estrógeno que chega a seu auge no 14º dia, quando então começa a cair; aí aumenta a produção de progesterona. Essa flutuação por sua vez interfere com a produção de serotonina, que é um neurotransmissor, isto é, uma substância que serve como "mensageiro químico" entre as células cerebrais.

Para que o cérebro funcione bem, inclusive no que se refere ao aspecto emocional, serotonina é essencial. Se o nível é bom, o resultado é alegria, satisfação; se o nível é deficiente, ficamos (homens ou mulheres, é bom frisar), irritadiços, mal-humorados, deprimidos até. Nada de mágico, nada de maus fluidos. São os hormônios, amigos.

Essas descobertas são relativamente recentes. Diz-se que o primeiro a abordar o tema foi o médico nova-iorquino Robert T. Frank, num artigo intitulado Os Fatores Hormonais da Tensão Pré-Menstrual, de 1931. Em 1955, os médicos ingleses Katharina Dalton e Raymond Greene cunharam a expressão Síndrome Pré-Menstrual.

A dra. Dalton rotulava a SPM como "a doença mais comum e provavelmente a mais antiga do mundo". Ela defendeu a tese de que as alterações de comportamento, mesmo as mais agressivas, poderiam ser explicadas pela SPM.

Os sintomas da SPM são muito comuns. Num trabalho publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, os doutores Clarissa W. M. Nogueira e João Luiz P. e Silva estudaram 254 mulheres com idade entre 20 e 44 anos, sem doenças ginecológicas ou clínicas.

Dessas, quase a metade (110 mulheres) relataram pelo menos um sintoma intenso na fase pré-menstrual causando problemas: irritabilidade, cansaço, depressão, dor de cabeça, dor nas mamas, dor no ventre.

Quase todas tinham mais de uma queixa; na maioria dos casos, o problema durava entre três e sete dias. Ou seja: um problema real, que exige tratamento, e que pode ser controlado mediante tratamento.

Voltando ao gorila, e ao marido, será que essas explicações resolveriam? A julgar pela frase vingativa do cônjuge ele teria de ler muitos artigos para ser convencido.

Em relação ao gorila (ah, esse termo; era muito comum durante o período de ditaduras na América Latina), o processo de convencimento seria mais difícil. Mas se até King Kong mudou, sempre se pode ter esperança.


13 de janeiro de 2008
N° 15478 - Luis Fernando Verissimo


O silêncio

A internet está cheia de textos apócrifos, inclusive alguns atribuídos a mim, pelos quais recebo xingamentos (e tento explicar que não são meus) e elogios (que aceito, resignado)

A substituição da máquina de escrever pelo computador não afetou muito o que se escreve.

Quer dizer, existe toda uma geração de escritores que nunca viu um tabulador (que, confesso, eu nunca soube bem para o que servia) e uma literatura pontocom que já tem até os seus mitos, mas mesmo num processador de texto de último tipo ainda é a mesma velha história, a mesma luta por amor e glória botando uma palavra depois da outra com um mínimo de coerência, como no tempo da pena de ganso.

O novo vocabulário da comunicação entre micreiros, feito de abreviações esotéricas e ícones, pode ser um desafio para os não iniciados, mas o que se escreve com ele não mudou. Mudaram, isto sim, os entornos da literatura.

Por exemplo: não existem mais originais. Os velhos manuscritos corrigidos, com as impressões digitais, por assim dizer, do escritor, hoje são coisas do passado: com o computador, só existe versão final.

O processo da criação foi engolido, não sobram vestígios. Só se vê a sala do parto depois que enxugaram o sangue e guardaram os ferros.

Nos jornais, o efeito do computador foi muito maior do que o fim da lauda rabiscada e da prova de paquê. O computador restabeleceu o que não existia nas redações desde - bem, desde as penas de ganso.

O silêncio. Um dia alguém ainda vai escrever um tratado sobre as consequências para o jornalismo mundial da substituição do metralhar das máquinas de escrever pelo leve clicar dos teclados dos micros, que transformou as redações, de fábricas, em claustros.

A desnecessidade do grito para se fazer ouvir e a perda da identificação do seu ofício com um barulhento trabalho braçal mudou o caráter do jornalista. Se para melhor ou para pior, é discutível.

Defendo, sem muita convicção, a tese de que a mudança da máquina de escrever para o computador também determinou uma migração da esquerda para a direita nas redações brasileiras.

Se hoje não vale mais a velha máxima de que jornalista era de esquerda até o nível de redator chefe e de direita daí para cima, a culpa é da informatização. A nova direita é filha do silêncio.

Mas é no futuro que a troca do bom preto no branco pelo impulso eletrônico e o texto virtual fará a maior confusão.

A internet está cheia de textos apócrifos, inclusive alguns atribuídos a mim, pelos quais recebo xingamentos (e tento explicar que não são meus) e elogios (que aceito, resignado), contra os quais nada pode ser feito e que, desconfio, sobreviverão enquanto tudo que os pobres autores deixarem feito por meios obsoletos virará cinza e será esquecido.

Nossa posteridade será eletrônica e, do jeito que vai, será fatalmente de outro.


Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

Atrás da exata calibragem

Até onde ser mulher, até onde ser negro: os desafios de Hillary Clinton e de Barack Obama

Ser mulher e querer ser presidente dos Estados Unidos ou ser negro e querer ser presidente dos Estados Unidos são aspirações que exigem do ser humano bem mais do que se costuma exigir. Hillary Clinton e Barack Obama, os líderes na disputa pela candidatura do Partido Democrata à eleição deste ano, estão envolvidos numa empreitada hercúlea.

Ser mulher e ser negro lhes é permitido, o.k., disso eles não podem fugir – mas nada de exagerar. Saber até onde pode ser mulher, num caso, e até onde cai bem ser negro, no outro – eis um desafio visceral, que se soma aos de fazer história e ameaçar tabus. Demanda uma calibragem de cujo fino ajuste dependem a vida e a morte eleitoral.

Hillary, ao decidir se lançar na carreira política, decidiu simultaneamente renunciar à condição de mulher. Desde que, na presidência do marido, ganhou tarefas como a de coordenar a reforma do sistema público de saúde, adotou o modelo da executiva fria, forte nos números, preocupada com os pobres, sim, mas nem por isso disposta a, como a princesa Diana, posar ao lado dos famintos.

Não chegou a encarnar uma Margaret Thatcher, a menos mulher de todas as mulheres que já comandaram um país – tão difícil de imaginar pondo o neto para dormir quanto fácil de supor a varar noites em articulações com parceiros fumando charuto –, mas também se posicionou o mais distante possível do modelo fada-madrinha de Eva Perón.

No Senado, seu mais famoso voto, pelo qual hoje é insistentemente cobrada – o de apoio à invasão do Iraque –, foi voto de macho. Se fosse homem, talvez se permitisse votar contra. Sendo mulher, nunca. O voto contra poderia ser interpretado como fraqueza de mulherzinha.

Eis, no entanto, que na semana passada, na véspera da eleição prévia de New Hampshire, Hillary – coisa jamais vista! – chorou. A rigor, não foi nem choro. Numa conversa com eleitoras, uma perguntou como ela conseguia agüentar o stress da campanha, e a candidata ficou com aquilo que nos romances populares se chama de "olhos rasos de lágrimas".

A cena, de tão incomum, foi repisada mil vezes na TV. Os assessores de Hillary se apavoraram. Um homem ficar com os olhos rasos de lágrimas se tolera. Já uma mulher vira mulherzinha. Como pode uma pessoa dessas governar a maior das potências?

Já se sabe o resultado desse fugaz momento de fraqueza: a ele foi atribuído o fato de, contrariando as pesquisas, Hillary ter vencido a eleição de New Hampshire. Bendito choro. Mostrou-a humana e mulher. Mas isso não quer dizer que Hillary deva sair chorando pela campanha eleitoral afora.

Indica apenas que nem sempre é preciso ficar em guarda contra a condição de mulher, ou contra manifestações que o estereótipo dá como femininas e condena como incompatíveis com o exercício do poder.

Barack Obama, embora mulato – sua falecida mãe era branca –, é, sob certo ângulo, o negro mais negro que jamais freqüentou a política americana.

Na semana passada correram mundo fotos e filmes de sua avó paterna, uma octogenária que mora na zona rural do Quênia, na mesma aldeia em que nasceu o também falecido pai do candidato – uma avó que fala suaíli e usa os característicos vestidos, turbantes e colares coloridos. Não há no panorama político americano personagem com ascendência africana tão próxima. A mulher de Obama é negra, ou mulata, como ele.

Quer dizer: o sucesso não o levou a aderir ao padrão Pelé de certos negros brasileiros bem-sucedidos. Obama converteu-se ao cristianismo, mas a família paterna é muçulmana.

Eis, no entanto, que esse negro de trajetória tão assombrosa, um Lula em escala global, em que o Quênia faz o papel das favelas e do pau-de-arara das origens do presidente brasileiro, está a grande distância do negro típico da política americana.

O típico é o militante dos direitos civis. É Martin Luther King ou, em anos mais recentes, Jesse Jackson, que, aliás, também chegou a se lançar candidato a presidente.

Andrew Young, outro veterano militante dos direitos civis, hoje na campanha de Hillary, disse há pouco que Bill Clinton é mais negro do que Obama. "Com certeza Clinton já teve mais mulheres negras do que Obama", acrescentou. Era uma piada, claro, mas adivinha-se que uma piada saída do fundo do coração.

Obama é um negro que toma suas distâncias da política negra habitual. É aquilo que se convencionou chamar de "moderado". Por isso mesmo é um candidato competitivo, e não, como Jesse Jackson, um negro que entra nas campanhas para marcar presença.

Se houvesse só uma mulher, ou só um negro, concorrendo, em condições de vencer, à candidatura do Partido Democrata, a disputa já seria demais de boa.

Ter os dois, como está ocorrendo, é a glória, ainda que a mulher tome seus cuidados para não ser tão mulher assim, e o negro para não ser tão negro. O simbolismo permanece.

E tem valor duplicado quando posto em contraste com os horrores da era Bush e seu coquetel de guerra no Iraque, Guantánamo, oficialização da tortura e outros desastres. A glória de abrigar uma disputa eleitoral entre Hillary e Obama é da democracia americana.

Ponto de vista: Claudio de Moura Castro

Ecologia seiscentista

"Se as Ordenações Filipinas fossem vigentes e cumpridas, hoje, os problemas de desmatamento e queimadas no Brasil estariam resolvidos"

Ao Brasil falta riqueza para se igualar aos grandes incineradores de combustíveis fósseis no que diz respeito à poluição e ao aquecimento global.

Mas o país compensa isso amplamente, pois é egrégio incendiário e desmatador. Onde estão as soluções novas e milagrosas? Ou quem sabe devemos buscar essas soluções no passado?

No início do século XVII, o marco legislativo português (e brasileiro, por via de conseqüência) eram as Ordenações Filipinas. São leis extraordinariamente amplas, cobrindo até urbanismo e meio ambiente.

A tese simplória do presente ensaio é que, se as Ordenações Filipinas fossem vigentes e cumpridas, hoje, os problemas de desmatamento e queimadas no Brasil estariam resolvidos. Vejamos alguns exemplos.

É fulminante a legislação que protege as árvores consideradas úteis:

"O que cortar árvores de fruto (...) pagará a estimação dela ao seu dono em três dobro (sic). (...) E se for valia de 30 cruzados, e daí para cima, será degredado para sempre para o Brasil" (Um comentário cínico: quem sabe nosso atavismo destruidor não resulta de que para cá vieram os degredados por crimes contra a natureza?).

Já então a silvicultura era considerada uma ciência, a ser estudada e aplicada nas florestas (não é sempre o caso das nossas leis atuais):

Atômica Studio

"Sendo sumamente necessário o conhecimento da física das árvores, para que não aconteça fazer-se o corte em tempo incompetente (...) determino que façais anualmente plantar a quantidade possível daquelas árvores, mais próprias para delas depois de estarem no seu devido crescimento fazerem os cortes (...).

E toda pessoa que tomar mais quantidade de pau de que lhe for dado licença, além de o perder para minha fazenda (...) e passando de cem quintais morrerá por ele e perderá toda a sua fazenda (...). Nenhum dos sobreditos possuidores de terra poderá (...) derrubar e incendiar aquelas matas e arvoredos que se chamam e forem reputadas matas virgens".

"E quanto às roças que se por temporadas podem fazer nos matos, ou maninhos dos lugares que não são para durarem lavoura, por fraqueza da terra, onde estão, mas que um ano, dois, ou três (...) e se acharem que queimando-as, rompendo ou cortando os ditos matos ou árvores, será dano geral, ou a alguns em particular (...) não dêem as ditas terras para roças."

Não foi por falta de legislação atemorizante que o pau-brasil desapareceu:

"Primeiramente, hei por bem e mando que nenhuma pessoa possa cortar (...) o dito pau-brasil, (...) sem a expressa licença (...) e o que contrário fizer, incorrerá em pena de morte e confiscação de toda a sua fazenda".

Observamos também que o legislador seiscentista era mais sagaz do que boa parte dos de hoje. Nas Ordenações Filipinas se eliminam as motivações para queimar a terra. Se ela pegasse fogo, não poderia ser usada:

"E porque alguns, por caçarem nas queimadas, ou fazerem carvão ou pastarem com seus gados, põem escondidamente fogo nos matos, para se poderem aproveitar das queimadas, e porque não se sabem quem o fez, não são castigados, mandamos que pessoa alguma não cace em queimada, do dia que foi posto fogo, de que seguiu algum dano, a trinta dias, nem entre nelas a pastar com seu gado até a Páscoa florida, e carvoeiro algum não faça dela carvão, até dois anos."

O combate à poluição das águas é analogamente drástico:

"E pessoa alguma, não lance nos rios e lagoas em qualquer tempo (...) algum material com que se o peixe mata e quem o fizer, pela primeira vez seja degredado (...). E sendo de menor qualidade, seja publicamente açoitado (...) ."

Lendo as Ordenações Filipinas, percebemos que os problemas e soluções são antigos.

1) Nelas há uma forte preocupação com a aplicação da ciência para a conservação dos recursos naturais.

2) Há uma decisão inequívoca de usar as leis para impedir sua degradação – nada mais atual (mas as penas de açoite ou de morte talvez careçam hoje de popularidade).

3) Revelam sagacidade na sua formulação. 4) Contudo, o arraso que fizemos em nossas terras e águas mostra que não bastam boas leis, é preciso que sejam aplicadas com eficácia e energia. Esse tem sido o grande problema desde então.

Claudio de Moura Castro é economista – Claudio&Moura&Castro@cmcastro.com.br