sábado, 12 de janeiro de 2008



Mudança radical

Na adolescência, a atriz Flávia Alessandra costumava ficar horas sob o sol, com o corpo besuntado de Coca-Cola e óleo de urucum, para ganhar cor. Há dez anos, ela passou a defender-se dos raios solares. Agora, protegida como convém, Flávia bronzeia-se sem riscos

Os conhecimentos sobre a radiação ultravioleta e o aperfeiçoamento tecnológico dos filtros possibilitaram que os banhos de sol se tornassem um grande aliado da saúde e da estética

Adriana Dias Lopes

Carioquíssima, a atriz Flávia Alessandra nutre pelo sol um sentimento próximo ao da veneração. Nos seus verões adolescentes, ela se estirava sob os raios escaldantes, com o corpo besuntado por um bronzeador caseiro à base de Coca-Cola e óleo de urucum.

"Achava um charme ficar vermelha nos primeiros dias", lembra. Como quase todo mundo, ela encarava a ardência e as bolhas como uma passagem obrigatória para a morenice.

No fim dos anos 80, com o bombardeio de informações sobre os malefícios do abuso da radiação ultravioleta para a pele, a atriz começou a preocupar-se com o assunto e a refugiar-se nas sombras de varandas e guarda-sóis. Hoje, aos 34 anos, ela está em paz com o sol.

Aprendeu como tirar proveito dos dias ensolarados, sem riscos à saúde. "Voltei aos tempos de menina e até me permito pegar aquele solão do meio-dia", diz. Até recentemente, o único banho de sol considerado 100% seguro era o de bebê, aquele de antes das 10 da manhã ou de depois das 4 da tarde com duração de minutos.

Com os avanços nos conhecimentos sobre a radiação solar e seu impacto sobre o organismo e o aprimoramento tecnológico dos protetores solares, pode-se dizer que o verão de 2008 – o mais quente da última década, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – é a estação de alforria do sol.

Está liberado inclusive o "solão do meio-dia". As pesquisas médicas mais recentes indicam que os benefícios dos raios solares superam seus possíveis malefícios para a pele.

A exposição solar faz bem para o esqueleto, fortalece o sistema imunológico e regula a pressão arterial. Pode, ainda, prevenir o diabetes tipo 2 e até alguns tipos de câncer, como os de mama, próstata, pulmão e intestino. O sol tem, inclusive, ação antidepressiva. É uma alegria – basta saber usá-lo.

Depois de mais de dez anos relegado ao papel de vilão, o sol ascendeu ao posto de aliado da boa saúde porque se comprovou a sua estreita relação com a vitamina D, essencial ao funcionamento adequado do organismo. A explicação é que, na superfície da pele, existem substâncias precursoras desse micronutriente.

Quando os raios ultravioleta, especialmente os do tipo B (UVB), incidem sobre a derme, as moléculas de tais substâncias são transformadas em vitamina D – a qual, em seguida, cai na corrente sanguínea e é transportada para diversos órgãos (veja o quadro na pág. 73). Desde meados da década de 90, associa-se a vitamina D a processos deflagrados por 200 genes.

Ou seja, ela está presente na multiplicação de certos tipos de célula, na liberação de hormônios, na absorção de nutrientes e na manutenção do ritmo dos batimentos cardíacos.

Uma das mais fascinantes e inovadoras linhas de pesquisa sobre as benesses do sol para a saúde é a que investiga o papel da vitamina D na prevenção a diversos tipos de câncer. Há pelo menos uma centena de estudos sobre esse tema em andamento.

O mais recente foi publicado pela revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Liderados pelo médico Johan Moan, da Universidade de Oslo, pesquisadores noruegueses e americanos compararam os níveis de vitamina D no sangue de habitantes de países dos hemisférios Norte e Sul.

Entre os ingleses e os noruegueses, que habitam a porção superior do planeta, com menos insolação, as quantidades de vitamina D chegam a ser um quinto das registradas entre os australianos.

Paralelamente, os pesquisadores constataram que a incidência de tumores malignos de próstata, mama, pulmão e intestino dobra nessas regiões mais frias.

Segundo dados do Inpe, a intensidade da radiação solar no verão do Hemisfério Sul é 7% maior, em média, do que no verão do Hemisfério Norte. Se os noruegueses se expusessem ao sol duas vezes mais do que estão habituados a fazer, conforme o levantamento da equipe de Moan, 3.000 mortes por câncer poderiam ser evitadas a cada ano.

Para chegar às quantidades ideais de vitamina D, é preciso muito pouco. Basta expor as pernas ou os braços ao sol, duas vezes por semana, de cinco a trinta minutos, conforme o tipo de pele (veja o quadro).

O aproveitamento máximo dos raios requer que não se use protetor durante esse período de exposição – depois disso, só com protetor, é claro. Sem esse pequeno banho de sol, aumenta exponencialmente o risco de hipovitaminose D.

Calcula-se que 1 bilhão de pessoas, ao redor do mundo, tenham o problema. Sete de cada dez americanos com mais de 70 anos sofrem da carência do micronutriente. Os mais velhos são mais suscetíveis porque tendem a sair menos de casa. Ou seja, pegam menos sol.

Já se verificou também que os negros são mais propensos à doença do que os brancos. Quanto mais escura é a pele, menor é a quantidade de radiação solar absorvida por ela. A melanina, o pigmento que enegrece, funciona como um filtro natural.

Um negro chega a produzir 100 vezes mais melanina do que um branco de pele claríssima. É por isso que, para produzir vitamina D nas quantidades preconizadas pelos médicos, uma mulher como a atriz Taís Araújo tem de tomar seis vezes mais sol do que a modelo e apresentadora Ana Hickmann, por exemplo.

Não é por causa da síntese de vitamina D que os brasileiros se refestelam nas praias e piscinas sob o sol de verão. Eles querem mesmo é pegar uma cor.

E é aqui que os filtros solares se fazem imprescindíveis. Os primeiros estudos que associam os banhos de sol sem proteção aos cânceres cutâneos datam da década de 40.

O conceito de proteção contra os raios solares começou a ser estabelecido no decorrer da II Guerra Mundial. Nos campos de batalha, para protegerem o rosto da exposição prolongada ao sol, alguns soldados americanos lambuzavam a face com uma graxa vermelha desenvolvida no fundo do quintal do farmacêutico Benjamin Greene, de Miami.

A partir dessa graxa vermelha surgiram, dez anos depois, os primeiros bloqueadores físicos produzidos em escala industrial. Feitos à base de óxido de zinco, eles protegiam contra 90% da radiação solar.

O único inconveniente era a sua apresentação: uma pomada branca, densa, difícil de espalhar. Até hoje há diversos bloqueadores físicos no mercado (veja o quadro). Como não são absorvidos pela pele, eles entram principalmente na formulação de cosméticos fotoprotetores, como as bases de maquiagem.

Nos anos 50, surgiram os protetores químicos, cujo aperfeiçoamento resultou nos filtros que eu, você e a torcida do Flamengo usamos atualmente. Eles são constituídos por moléculas que captam e enfraquecem os raios solares, anulando os seus efeitos danosos. Em termos de proteção, não há diferença entre os bloqueadores químicos e os físicos.

A vantagem destes últimos é que eles são fáceis de espalhar, não deixam o corpo melado ou o rosto brilhante. Tais características, somadas à maior quantidade de informação, aumentaram sobremaneira a adesão dos brasileiros ao uso dos filtros solares. Em 2001, foram produzidos no país 3 milhões de toneladas de protetor solar. A projeção para 2008 é que esse volume dobrará.

Hoje em dia, a indústria conta com pelo menos uma centena de moléculas anti-sol. Combinadas entre si, elas possibilitam a criação de produtos com diferentes fatores de proteção solar, conhecidos pela sigla FPS.

A tecnologia necessária para definir o FPS de um filtro foi desenvolvida na década de 70. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que, quanto maior o número correspondente ao FPS, maior seria o seu tempo de ação.

Ou seja, uma pessoa de pele morena, como a modelo Raica Oliveira, que usasse um protetor de fator 5 poderia ficar estirada sob o sol por duas horas e cinco minutos, com uma única aplicação.

Se ela, no entanto, espalhasse pelo corpo um fotoprotetor de fator 10, poderia, teoricamente, ficar mais de quatro horas sem ter de reaplicar o produto. Essa aritmética revelou-se falsa. Está provado que, independentemente do fator de proteção ou do tipo de pele, os filtros deixam de fazer efeito depois de duas horas.

"Além disso, as análises laboratoriais mais recentes mostram que, a partir do fator 30, a capacidade de proteção dos filtros é praticamente a mesma", diz Omar Lupi, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Nenhum filtro é capaz de barrar 100% dos raios solares.

Um fotoprotetor de fator 30 bloqueia 97,6% dos raios ultravioleta do tipo B (UVB), aqueles que queimam a pele e estão relacionados ao aparecimento da maioria dos casos de câncer de pele. Um protetor 50 filtra 98% da radiação. São os raios que escapam à ação dos filtros que permitem o bronzeamento.

A ação benéfica do sol é um fato, mas, paradoxalmente, ele nunca foi tão perigoso. Isso por causa dos rombos na camada de ozônio. Localizada entre 25 e 35 quilômetros da superfície da Terra, ela filtra dois tipos de raio ultravioleta. Um deles é o tipo A (UVA), que acelera o envelhecimento da pele, por penetrar em camadas mais profundas. A capa de ozônio consegue bloquear 5% da radiação UVA e 95% dos raios UVB.

De acordo com os cientistas, a cada vinte anos, 4% da camada de ozônio é destruída pela ação de poluentes lançados na atmosfera. Resumo de todas essas estatísticas: sim, sua impressão está correta. O sol, a cada verão, apresenta-se mais e mais ardido. Já pensou se não existissem os protetores?

Raios de saúde e alegria

O sol é a principal fonte de vitamina D do organismo. Esse micronutriente é essencial para a saúde. Alguns de seus benefícios:

Ossos – A vitamina D aumenta a absorção de cálcio pelos ossos – o que faz com que os banhos de sol sejam indicados para combater o raquitismo na infância e a osteoporose na velhice

Sistema imunológico – A exposição ao sol ajuda a fortalecer o sistema imunológico. Com células de defesa mais vigorosas, o risco de infecções diminui

Pâncreas – Níveis adequados de vitamina D estão associados a uma redução no risco de diabetes tipo 2. O micronutriente ajuda as células pancreáticas a liberar insulina, o hormônio regulador das taxas de açúcar no sangue

Cérebro – O sol tem ação antidepressiva. A vitamina D está relacionada a um aumento na liberação de substâncias cerebrais associadas à sensação de bem-estar e euforia, como as endorfinas

Próstata, mama, pulmão e intestino – Como a vitamina D tem um papel essencial no processo de multiplicação celular, a sua falta está associada a um aumento no risco de câncer, sobretudo de próstata, mama, pulmão e intestino. A incidência dessas doenças chega a ser 50% inferior em regiões ensolaradas

Rins – A vitamina D está envolvida na síntese de renina, hormônio de controle da pressão arterial. Por isso, os hipertensos podem se beneficiar dos banhos de sol freqüentes

A BULA DO SOL

Para que todos esses benefícios sejam conseguidos, basta expor os braços ou as pernas ao sol, duas vezes por semana, por períodos de cinco a trinta minutos, dependendo do tipo de pele de cada um (veja o quadro)

O banho de sol deve ser sem protetor


Eu tingo, sim...

Um escritor inglês virou caçador de palavras curiosas, como tingo, em rapanui. Quer saber o que significa?

gisela anauate

Sabe aquela sensação agradável de estar se divertindo e dando risada na companhia de bons amigos? Aquele momento que certamente ficará na memória? Os holandeses conseguem defini-lo em uma única palavra: gezellig. Esse foi um dos achados do escritor inglês Adam Jacot de Boinod.

Seu interesse por línguas estrangeiras surgiu quando era pesquisador de um programa de perguntas e respostas da rede britânica BBC. Consultando um dicionário albanês, deparou com nada menos que 27 verbetes para bigode e outros 27 para sobrancelhas.

A partir desse momento, De Boinod se tornou um colecionador de curiosidades lingüísticas. Juntou tantas que resolveu escrever o livro Tingo: o Irresistível Almanaque das Palavras Que a Gente não Tem, publicado no Brasil pela Conrad.

Em 2007, lançou mais um na Inglaterra, pela editora Penguin: Toujours Tingo (Ainda Tingo, em francês), com 319 páginas de palavras e expressões que dão muitas pistas sobre quem é o povo que está por trás da língua.

Algumas das palavras levantadas pelo autor mostram fenômenos estranhíssimos para nossa cultura. Lelufa é o ciúme entre duas esposas do mesmo homem, em setsuana, língua falada em Botsuana.

Outros vocábulos falam sobre coisas bem familiares, ainda que não tenhamos palavras para elas. Quem nunca se encantou com um wom-ba – o sorriso de uma criança ao dormir, em bakweri, língua de Camarões?

Tingo está na onda de outros best-sellers de cultura inútil, uma febre no Reino Unido. Um exemplo é o sucesso Do Ants Have Arseholes?

(algo como As Formigas Têm Ânus?), de Jon Butler e Bruno Vincent, primeiro lugar nas vendas de Natal. Esses títulos são chamados pelos britânicos de “loo books”, livros para serem lidos no banheiro.

Para figurar ao lado dos vasos sanitários ingleses, no entanto, De Boinod pesquisou 280 línguas, lendo pilhas e pilhas de dicionários.

Em um deles, encontrou a palavra que deu título a seus livros: tingo, em rapanui, idioma da Ilha de Páscoa, é pegar muitas coisas emprestadas da casa de um amigo, até que não sobre nada.

Tingo é uma obra tão interessante que seus leitores podem incorrer no hinmekuru, do japonês “virar a página violentamente”. Afinal, a palavra seguinte pode ser ainda mais engraçada.

Vexame na festa

Tartle, no inglês da Escócia, é um verbo usado para aquele momento constrangedor em que você vai apresentar alguém e surge um branco. “Esse aqui é o... hum... peraí que vou pegar uma bebida.”

A única saída é mesmo encher a cara. Falando em álcool, rangi-changi é nepalês para “bêbado”. Literalmente, quer dizer “ligeiramente multicolorido”.

Na Rússia, quando você chega tarde a uma festa e quer atingir rapidamente esse estágio policromático, entra em cena o daganyat’sya, expressão que significa “beber para ficar tão bêbado quanto os outros”.

O corpo feminino

Os italianos são loucos por mulher. Celulite? Ninguém nota. Já buço pode até ser bonito. Baffona é uma bela mulher bigoduda, em italiano. Os japoneses são cheios de expressões para elogiar – e sobretudo detonar – o físico feminino.

Daburu bikkuri é usado pelos atendentes de lojas para designar a mulher que parece tão bela de longe, que até provoca espanto. No entanto, ao se aproximar do balcão, a moça se revela um tribufu e acaba provocando um susto no pobre vendedor.

A expressão literal quer dizer “choque duplo”. Já os noruegueses preferem metáforas marítimas: sjotstyggé uma pessoa tão feia que, se for ao litoral, afasta a maré.

Cantando um chorinho

Chantepleurer é cantar e chorar ao mesmo tempo, em francês. Depois de uma sessão de cantoria-choradeira, à Edith Piaf, as conseqüências são visíveis.

Sekgamatha, em setsuana, de Botsuana, é a sujeira que fica na cara e nos olhos depois de derramarmos muitas lágrimas. Quem canta também pode incorrer no yaourt.

A palavra francesa, que quer dizer iogurte, é usada quando o cantor não sabe inglês e fica só enrolando na letra. “Embromation”, em resumo. Seguindo essa lógica, poderíamos chamar karaokê de coalhada.

Homens e lobos

Okuri-okami, em japonês, é um homem que finge ser cuidadoso, oferecendo-se para encontrar uma garota em casa, quando na verdade quer molestá-la assim que entrar pela porta. Literalmente, a expressão quer dizer “lobo te-vejo-em-casa”.

Mas, se a garota realmente quiser dar uma de Chapeuzinho Vermelho, melhor não levar a vovozinha ao encontro com o lobo. Afinal, ninguém gosta de tocar el violin, que, no espanhol dos chilenos, é o mesmo que “segurar vela”, no português do Brasil.
Oi, tudo bem?

Quando pergunta “tudo bem” a um colega, você não espera um relato preciso de suas alegrias e angústias, certo? Errado. Para muitos, o conceito de pergunta retórica não é tão claro.

É por isso que os russos usam a expressão nudnyi para chatos que desfiam uma ladainha quando tudo o que você quer é ouvir um “tudo bem, obrigado”. E tem gente que faz pior que achar que você é psicólogo de plantão.

Em tibetano, gadrii nombor shulen jongu é, literalmente, “dar uma resposta verde a uma pergunta azul”. Serve para vários políticos brasileiros, especialistas em fugir de perguntas capciosas dando respostas nada a ver.

O estranho mundo do escritório

Há várias maneiras de se gabar de seu status. Spesenritter, em alemão, é alguém que se mostra para os outros pagando a conta com o dinheiro da empresa.

Os gurus de auto-ajuda para executivos não devem aprovar essa arrogância. Mas eles podem concordar com o digdig – em manobo, idioma falado nas Filipinas, significa elogiar uma pessoa pelos atributos que ela não tem, de forma a encorajá-la a desenvolver essas qualidades.

Às vezes, no entanto, nem um líder competente consegue estimular alguns funcionários. Bulat, na língua falada em Maguindanao, também nas Filipinas, quer dizer “fobia de certos empregos”. Será que não existe uma palavra para “fobia de todos os empregos”?

A estupidez humana

Gugbe janjou, em tibetano, é uma pessoa estúpida tentando ser esperta. Tarefa difícil. Spruchkasper, em alemão, é um bobo cheio de frases sábias.

Aquele cara arrogante que cita Nietzsche e Hemingway sem nunca tê-los lido e sem entender a própria citação que está fazendo.

alta de humor inteligente também é erro grave em vários idiomas. Jayus, em indonésio, é alguém que tenta fazer uma piada tão sem graça que você acaba rindo de qualquer jeito.


12 de janeiro de 2008
N° 15477 - Ricardo Silvestrin


Roubos

O roubo das telas do Masp pelo menos elevou o nível da conversa. No país do narcotráfico, das tropas de elite, do mensalão, da tortura e de outras baixarias, ladrão levando Picasso e Portinari é um luxo. Felizmente, os quadros agora foram recuperados.

O Lavrador de Café, de Portinari, e Retrato de Suzzane Bloch, de Pablo Picasso, estão entre as mais importantes e mais valiosas peças do museu. São avaliadas em R$ 100 milhões.

O quadro do Picasso é considerado uma das últimas obras da sua famosa fase azul. É um óleo sobre tela, produzido em Paris, no ano de 1904. Retrata a cantora francesa Suzanne Bloch.

O quadro é assinado pelo autor. Muito se fala sobre os significados do azul predominando no fundo e nas figuras que o mestre espanhol criou. Costuma-se atribuir a ele uma certa melancolia com ecos da morte de um grande afeto. Mas o que importa é a beleza que a imagem quase monocromática consegue transmitir.

Personagem dos círculos parisienses freqüentados por Picasso no início do século 20, a cantora wagneriana Suzanne Bloch posou para o pintor em Paris, ainda em finais de 1904.

A obra pertenceu à própria Suzanne Bloch, tendo sido vendida por seus descendentes, após sua morte, à princesa Sichnowsky, que a manteve em sua coleção particular em Londres. Da capital inglesa, a obra migrou para Lugano, na Suíça, onde integrou a coleção da família Biber.

A partir de 1942, esteve exposta na National Gallery of Art, em Washington, onde permaneceu até 1946. No ano seguinte, foi adquirida pelo Museu de Arte de São Paulo. Em dezembro de 2007, a obra foi furtada do Masp e agora, finalmente, voltou para casa.

Museu é a casa das musas. Tem esse nome por isso. Na mitologia grega, as musas eram as filhas de Zeus. Cada uma protegia uma arte ou ciência. Assim, um museu de arte é o lugar que abriga uma produção artística.

Essa produção pode ser contemporânea, não precisa ser do passado. Ou seja, museu não precisa ser lugar de coisa velha, como é o sentido mais comum que a palavra acabou portando entre nós. Tanto que existem os museus de arte contemporânea.

O Lavrador de Café é datado de 1939. Trata-se de um trabalhador negro, em primeiro plano, preenchendo quase todo o campo visual. Está segurando uma grande enxada.

Não há mais ninguém com ele. Portinari pintou o homem e a paisagem do Brasil. Tem um grande apelo social. Focou a pobreza, a vida simples.

Usou cores fortes, massas de tinta, volumes, formas que saltam da tela, pessoas com traços marcantes. Tem muito de expressionismo e muita coisa que é só dele. Dele e da sua terra.

Li numa recente pesquisa que o nível de emprego no Brasil está aumentando. Entretanto, aumenta nas faixas que não precisam de formação. Já nos níveis de profissionais mais qualificados, há falta de mão-de-obra.

Quem roubou a educação dos trabalhadores brasileiros? Quanto vale essa educação? Como se viu acima, a cultura pode chegar a valer R$ 100 milhões. Ou mais.


12 de janeiro de 2008
N° 15477 - Paulo Sant'ana


O ziguezague

Um pintor de 51 anos foi flagrado pela quinta vez dirigindo embriagado, em uma estrada da região de Bento Gonçalves.

Os patrulheiros o detiveram porque seu carro ziguezagueava. Nunca entendi por que os carros imitam seus condutores.
Se um homem está bêbado e caminha pelas ruas, é natural que ele cambaleie.

O que me intriga é que esse mesmo bêbado que cambaleia na rua acaba dirigindo um carro e aí então quem cambaleia não é ele, é o carro.

Quer dizer então que o carro imita sempre o condutor?

Ou seja, se um homem caminha pelas ruas devagar, como pedestre, se for dirigir um carro, a velocidade do veículo será irritante de tão vagarosa?

E se o homem, enquanto pedestre, é daqueles rapidinhos, se anda sempre acelerado no seu caminhar, se for dirigir um carro, excederá todos os limites de velocidade impostos pelas autoridades do trânsito?

Desisto. Mas não entendo definitivamente os motivos, físicos ou químicos, que levam um carro, portanto um aparelho, a cambalear. É demais para minha compreensão.

Carro tem labirinto?

Recebo e registro como mais uma colaboração de leitora para a campanha de trânsito da RBS: "Querido Paulo Sant’Ana. Como leitora diária da sua coluna, gostaria de aproveitar o espaço para comentar um fato acontecido com amigos pouco antes do Natal. Acho louvável a campanha promovida pela RBS por um trânsito seguro.

Não podemos mais conviver com esse número assustador de mortes no trânsito, sem saber, quando saímos de casa pela manhã, se voltaremos ou não. Do jeito que está, fica fácil viver sob a máxima de ‘viver cada dia como se fosse o último’.

Vejo declarações de policiais rodoviários sobre as imprudências cometidas por motoristas e minha vontade de te escrever cada vez aumenta mais.

Uma família de amigos, os dois filhos e a mãe, estavam indo de São Leopoldo, onde moram, para Tenente Portela, onde nasceram, para as festas de Natal. Infelizmente, eles tiveram que mudar os planos no meio do caminho.

Graças a Deus uma combinação de fatores – e acredito que o fato de não ter chegado a hora deles ainda – fez com que hoje eles estejam conosco, mas, por uma falta grave da Polícia Rodoviária Federal, o Natal deles foi, no mínimo, atípico.

Nas proximidades de Estrela, eles iam pela rodovia felizes por terem um trânsito tranqüilo e um dia ensolarado e claro, ótimo para uma viagem de carro.

No segundo seguinte, o Peugeot 206 em que estavam praticamente entrou (colisão) numa Blazer da Polícia Rodoviária Federal. Sem que eles tivessem tempo de frear, se segurar ou utilizar qualquer instinto para se proteger.

A policial que dirigia a viatura estava no acostamento para fazer o retorno e, após a passagem de um caminhão, decidiu que poderia acelerar, sem olhar se havia algum carro vindo da outra direção. Meus amigos, por outro lado, não viram a blazer por causa da passagem do caminhão, e só pararam com a batida dos dois automóveis.

Por sorte, estavam usando o cinto, mas o mesmo instrumento que salvou a vida de todos machucou-os em vários lugares. O mais novo teve que passar por uma cirurgia para a retirada do baço e reconstrução de parte do intestino.

O mais velho, que estava dirigindo, ainda apresenta hematomas pelo corpo, e a mãe teve uma fratura na costela e ainda está sob o efeito de remédios para a dor.

Passaram o Natal sozinhos no hospital de Estrela, um preocupado com o outro e angustiando todos os amigos que estavam de corpo com suas família, mas de alma com eles.

Eles nasceram de novo, pela gravidade do acidente, pelo forte impacto e pelo grande susto. Nós todos aprendemos algumas lições importantes com o acontecido.

Que a Polícia Rodoviária Federal trate de aprender que as regras de trânsito valem para todos, inclusive para eles. Um grande abraço, (ass.) Roberta Ramos (ramos.ro@gmail.com).


12 de janeiro de 2008 | N° 15477
A Cena Médica | Moacyr Scliar


Por trás dos óculos escuros

Considerem os seguintes personagens:

1) Jovem adolescente, estudante relapso, chegado a um traguinho e que sempre senta na última fileira da sala de aula

2) Negociante ambicioso, freqüentemente envolvido em operações financeiras de caráter duvidoso e que está a ponto de concluir uma grande transação com um rival

3) Ditador (Ásia, África, América Latina) que vai receber uma comissão de defensores dos direitos humanos para informar sobre presos políticos em seu país

Pergunta: que equipamento comum usam essas três pessoas? Resposta: óculos escuros.

Óculos de grau são usados pela humanidade há muito tempo, sempre com a finalidade de enxergar melhor, de ler melhor, de trabalhar melhor. Óculos de grau são coisa séria, respeitável.

O garotinho que vai para o colégio com seus óculos de grossas lentes é a imagem clássica do bom aluno, do menino virtuoso.

Óculos escuros são diferentes. Seu objetivo é primariamente proteger. Um objetivo que, diga-se de passagem, é mais do que justificado, porque, assim como a luz forte do sol prejudica a pele, prejudica também os olhos. Usar óculos escuros é uma medida de saúde.

Nos três casos mencionados, temos, porém, uma situação diferente. Mostra-o o artigo que, via internet, descobri na Folha da Manhã (antecessora da Folha de S. Paulo), em sua edição de 14 de agosto de 1949: "A moda, que é incerta e variável nas suas manifestações, nos apresenta o uso de óculos escuros como um dos seus últimos caprichos.

Quem quer que saia à rua pode observar que, de tão comum, tal uso já se vai convertendo em abuso.

A intensidade da luz solar nem sempre se presta a justificá-lo. É certo que muita gente se utiliza de lentes coloridas, sob prescrição, ou por algum defeito nos órgãos visuais. Há, porém, o lado subjetivo que pode ser apontado como a maior causa dessa utilização.

Há os que desejam ocultar a irritação que a bebida alcoólica lhes produz nos olhos, os que procuram esconder as olheiras, os batedores de carteira que querem observar, sem que ninguém os observe, os professores que almejam surpreender alunos em plena cola. A todas essas finalidades, têm se prestado os óculos escuros."

Os olhos são o espelho da alma, diz um antigo provérbio, e os óculos escuros ocultam esse espelho. O aluno que não está interessado na aula pode dormir à vontade (desde que sem roncos).

O negociante está afastando um antigo e bem conhecido temor: teme que, em meio à complexa interação com o rival, suas pupilas se dilatem, evidenciando o cobiçoso interesse que ele quer disfarçar. E, a propósito, as pupilas se dilatam mesmo, por ação da adrenalina secretada em meio à excitação.

É como se as pupilas, vorazes, quisessem engolir o mundo. Quanto aos ditadores, a imagem é clássica: masmorras para os adversários, enigmáticos óculos escuros para o público em geral. Óculos que dizem: não tentem descobrir nada se vocês não querem se incomodar.

No site Yahoo, esses dias, apareceu a seguinte pergunta, feita por um leitor: "Um homem de óculos escuros não fica com cara de quem quer esconder alguma coisa ou mascarar algum sentimento?"

Preconceito à parte (afinal, a indagação valeria também para mulheres), essa dúvida faz pensar. Mas talvez seja melhor buscar uma resposta depois do verão. Agora o sol anda muito forte.

Neste dia 14 um grande evento vai comemorar a transformação da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre em Universidade Federal de Ciências da Saúde, com o acréscimo de vários cursos da área.

É uma trajetória gloriosa que começou com a pequena Faculdade Católica de Medicina e agora chega a seu ápice. Um grande dia para a Educação e a Saúde no RS.


TPM MASCULINA

É muito difícil fazer com que dois escritores concordem sobre um fato acontecido há 40 anos. Deve ser por isso que os historiadores ainda continuam debatendo o que realmente houve na França em 1789.

Por enquanto, há unanimidade sobre um único aspecto: muita gente perdeu a cabeça naquela época.

O resto é polêmico. Parece, no entanto, que já se avançou, graças a um pouco mais de tempo para reflexão, sobre as razões da decadência do Império Romano.

Salvo engano, os romanos teriam ido longe demais. Saber, portanto, o que realmente ocorreu em maio de 1968, quando os estudantes proibiram proibir e continuaram sem tomar banho, é quase impossível. Há informações em excesso.

O jornalista brasileiro Zuenir Ventura decretou num livro que 68 não terminou. O maldito escritor francês Michel Houellebecq acha que esse ano nem começou. Exceto como operação de marketing internacional.

Certo é que depois de 1968 muitos comportamentos mudaram. Por exemplo, 68, em termos sexuais, teria liberado os casais, mesmo aqueles com papel passado, para o 69. Michel Houellebecq garante que o melhor de 68 foi o 69.

Os pais de hoje poderiam entrar com pedidos de indenização contra os protagonistas da 'revolução comportamental' de 68.

Por causa deles, os filhos (e filhas) podem agora trazer os namorados (um por semana, ao menos) para dormir em casa. A conseqüência é o saque à geladeira. O prejuízo pode ser grande.

O 'ficar', prática adolescente consistindo em beijos e amassos com filas de parceiros numa mesma noite, sem levar para casa, já seria uma reação paterna para evitar incursões à cozinha.

Passada a época dos seqüestros de embaixadores e dos assaltos a banco com fins ideológicos, restou o ataque à geladeira, no meio da noite, como vestígio de uma mutação social abortada bem antes da queda do Muro de Berlim.

Outra conquista de maio de 1968 foi a TPM masculina. Antes, mesmo as mulheres só tinham direito à TPM clássica. Hoje, experimentam também a TPM alternativa: Temporada Pós-Marido.

É um abraço. Atrás do outro. A TPM masculina pode ser pré ou pós: Tensão Pré-Matrimônio, quando o homem tenta escapar de qualquer jeito, e Tensão Pós-Matrimônio, quando o homem tenta se casar de novo o mais rápido possível.

Evidentemente, há os lobos que, enfim livres, se imaginam 'ficando', à maneira mais antiga, ou mais radical, com dezenas de mulheres, uma mais linda do que a outra a cada noite.

Aí, a Tensão Pós-Matrimônio pode atingir níveis insuportáveis, visto que a relação entre oferta e procura costuma frustrar as expectativas mais otimistas dos agentes no mercado.

O jornalista Alfredo Possas criou o conceito de TPN (Tensão Pré-Natal). Ou, para evitar mal-entendidos, Tensão Pré-Noel. Pois o ápice da TPM masculina acontece em dezembro.

O cruzamento da TPM (Tensão Pós-Matrimônio) com a TPN pode ser fatal. Enche até o saco do Papai Noel. O homem separado não consegue comprar sozinho nem os presentes para os filhos.

Além disso, teme a solidão. Erra de shopping em shopping na esperança de encontrar o que mais procura: uma nova mulher. Ou uma mulher nova. Se duvidar, escreve ao bom velhinho para implorar esse presente.

Um homem na TPN/TPM só não maldiz 68 por, em geral, esquecer as datas mais importantes da existência. Houellebecq sugere que a saída, inventada pela liberação geral de maio de 68, para os casos mais graves, é a boneca inflável. Não sejamos radicais. Sejamos antigos.

juremir@correiodopovo.com.br

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008


NELSON MOTTA

Os livros do futuro

SALVADOR - É um livro? É um site? É um livro virtual!

Talvez por sua origem gutemberguiana, a indústria do livro está demorando a descobrir e a usar os recursos digitais que estão à sua disposição. E que são o complemento ideal para vários gêneros literários.

Melhor do que ler uma boa biografia é ler a história de um Picasso -e ver num site todos os seus quadros, esculturas e fotos de seus modelos e cenários. Se tudo isso fosse impresso, seria inacessível, em volume e preço.

Com o site, é acessível e grátis para todos, um complemento da edição impressa. Como fazem as revistas e jornais. Melhor do que ler a biografia de um Cole Porter é também ouvir as suas músicas, ver suas fotos e vídeos.

Ou a vida de Orson Welles, com seus roteiros e trechos de seus filmes. Melhor ainda para os livros de história -com seus documentos, mapas, quadros, links para sites específicos: os extras do livro. Nunca mais os livros de história serão os mesmos.

Porque esta é a linguagem e a expectativa das novas gerações, alfabetizadas digitais, habituadas a encontrar com um clic as palavras, sons e imagens que procuram.

Ao contrário da música, que passou por vários formatos e suportes, do gramofone ao CD e ao "pen drive", os bons e velhos livros não mudaram muito nos últimos séculos, apenas se desenvolveram nos processos de impressão e tiveram inovações discretas nas artes gráficas.

O resto, que é quase tudo -palavras no papel-, continua como sempre. Como no jogo do bicho, continua valendo o escrito.

O livro continuará com cheiro de livro, com a textura do papel, poderá ser lido em qualquer lugar, sem precisar de tomada nem de bateria. O livro de papel não vai acabar tão cedo. Mas terá na internet o seu melhor complemento.

ELIANE CANTANHÊDE

A vitória é de Chávez, e daí?

BRASÍLIA - A grande estrela da libertação das duas reféns das Farc foi Hugo Chávez, que dá a volta por cima da derrota no plebiscito sobre os mandatos sucessivos, neutraliza o fiasco da tentativa anterior e atrai para si os holofotes internacionais. A vitória tem reflexos externos e internos a seu favor.

O Brasil, porém, teve uma reação cautelosa. Enquanto todos badalam Chávez, as notas e declarações brasileiras enaltecem um outro personagem da história: o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.

Por quê? Porque ninguém sabe ao certo os motivos para as Farc libertarem Clara Rojas e Consuelo González, mas uma coisa parece óbvia: seus líderes quiseram prestigiar Chávez e consolidar uma aliança com ele.

Com o detalhe, instigante, de que mantiveram a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt. Para futuros acordos...

Estrategicamente, Uribe não negocia e mantém a política de confronto com as Farc, enquanto Chávez é o negociador, o intermediário.

Neste momento, a estratégia da negociação sai fortalecida, com a expectativa de libertação de Betancourt e dos mais de 40 reféns.

Mas não custa lembrar que Uribe foi fundamental para o sucesso: engoliu em seco e acatou o protagonismo de Chávez, abriu o espaço aéreo colombiano aos aviões venezuelanos e retirou tropas da região onde os reféns foram entregues.

Difícil saber quais serão os próximos passos dos três principais atores da história, em especial das Farc, que têm uma cabeça política "indevassável", segundo o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, um dos "garantee" da primeira tentativa de libertação.

Pelo sim, pelo não, diz o Itamaraty, Chávez já é muito forte, e a preocupação é evitar um desequilíbrio que sugira um Uribe fraco.

A libertação de Rojas e González é só o início, e ao Brasil (como aos EUA e às Américas) interessa um governo constitucional sólido e prestigiado na conflagrada Colômbia.

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Hillary e Roberto Carlos

SÃO PAULO - Se predominasse a versão hegemônica no imediato pós-vitória de Hillary Clinton em New Hampshire, a primária democrata viraria um show de Roberto Carlos, na base de, "se chorei ou se sorri/ o importante/ é que emoções eu vivi...".

Refiro-me à catarata de interpretações que atribuíram a vitória à lágrima que a senadora derramou (ou quase) em um boteco durante conversa com eleitores. É um insulto à capacidade de análise das mulheres americanas.

Se verdadeira, o subtexto, um clássico do machismo, seria: homem vota pelas idéias/propostas do candidato/a, mulher vota pela lágrima/emoção.

Significaria também que Hillary poderia encomendar a lágrima da posse, já que é a única mulher candidata, homem não chora (outro clássico do machismo) e a maioria das mulheres não resiste a uma lágrima.

Significaria, por fim, que Hillary passou 60 anos de sua vida como uma estátua de gelo e só virou "humana" no undécimo minuto. Ainda bem que já há análises menos sentimentalóides.

Na Folha, o notável acadêmico que é Kenneth Maxwell escreve que "foi organização política à moda antiga que levou os eleitores democratas às urnas. (...)

No dia da decisão, foram os velhos e confiáveis sindicalistas democratas, preocupados com a economia, bem como uma maioria das mulheres maduras, que foram de fato às urnas para conceder à senadora Clinton sua famosa vitória".

Reforça, no espanhol "El País", seu excelente correspondente Antonio Caño (apesar de ter se deslumbrado, até a véspera, com a "Obamamania"): "Sindicatos, grupos feministas, praticamente todas as estruturas organizadas do Partido Democrata estão por agora com Hillary Clinton".

Se a tese da lágrima vencesse, haveria inundações em todo o Brasil durante a campanha municipal.

crossi@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Masp Urgente! Chutaram os Bardi!

Sabe porque a Chupinsky não processou o Clinton? Porque engoliu as provas! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

E duas loiras estavam se bronzeando quando uma perguntou: "Qual o seu protetor?". E a outra respondeu: "Santo Expedito!" Rarará!

E a loira da vez é a Hillary: a Marta dos gringos. Diz que a Hillary ligou pra dona Marisa: "O problema do Clinton é que ele pensa com o pinto". E a dona Marisa: "E o problema do Lula é que ele pensa com o cérebro". Rarará!

E se a Hilária Pinton ganhar, ela vai se vingar. Só de vingança, ela vai contratar um estagiário. Pro Salão Oval. Oval de ovo. Salão Dois Oval! Rarará!

E sabe como era o pouso do avião do Bill Pinton? O comandante anunciava: "Favor apertar os cintos, fechar as mesinhas e botar a estagiária na vertical".

Esse é o problema do Bush: ele não tem estagiária! E sabe porque a Monica Chupinsky não processou o Clinton?

Porque ela engoliu as provas! Rarará! E uma amiga minha disse que o sexo na casa dela tá cada dia mais fantástico: uma vez por semana, domingo à noite!

E o Masp tá sendo chamado de Museu Tabajara! Forte esquema de segurança pra DEVOLUÇÃO dos quadros! Pra roubar foi moleza, mas pra devolver, foram seis viaturas, cem policiais, helicóptero e rede de TV ao vivo!

Um Picasso que parece o retrato do Sylvester Stallone! E um Portinari que parece o Alexandre Frota! Um Debret que não é Debret!

E a polícia disse que os quadros estavam no Leste Europeu, mas os acharam na região da zona leste de São Paulo!
Pelo menos acertaram no leste.

Cinqüenta por cento. Chutaram os Bardi! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Olinda, Pernambuco, tem um restaurante francês chamado La Mer, e aí abriram uma barraca em frente chamada La Merdinha. Rarará! Mais direto, impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Comemorar": dois direitos básicos de todo companheiro: comê e morá!

Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Acorda Brasil! Que eu vou dormir! Rarará!

simao@uol.com.br

Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana mesmo com chuva e temperatura super elevada por aqui.


PROGRAMA DE ANO NOVO

Em 2008, precisamos mudar o mundo. É simples assim. Eu sempre tive vontade de fazer isso. Mas me faltava tempo, inspiração ou parceria.

Em alguns momentos, preferi ir à praia. Em outros, fiquei em casa vendo televisão. Nunca, porém, deixei de pensar no assunto com gravidade nem de sentir culpa pela imutabilidade das coisas.

Certa vez, saí para mudar o mundo. No caminho, encontrei uns amigos e passamos a noite mudando o mundo na mesa de um bar.

Ao amanhecer, voltei para casa com tudo resolvido. Os efeitos da nossa revolução se fizeram sentir a partir do meio-dia. Uma enorme ressaca. Qualquer oportunidade é boa para darmos o pontapé inicial.

Minha colega Raquel Paiva, professora da Faculdade de Comunicação da UFRJ, mulher inteligente e cativante, enviou para mim e outros amigos seus um cartão de votos de ano-novo que é um verdadeiro programa de transformação do mundo.

Diz assim: em 2008, economize água, consuma menos carne, apague a luz, deixe o carro em casa, consuma orgânicos, use menos papel, utilize menos sacolinhas plásticas, prospere de forma sustentável, seja voluntário e mude o mundo.

Não é fantástico? Cada item traz uma argumentação capaz de nos tirar o sono. Por exemplo, 'segundo a ONU, a escassez de água já atinge 2 bilhões de pessoas, número que pode dobrar em menos de 20 anos'.

Gostei do cartão porque me permite mudar o mundo sem deixar de ir à praia ou de ficar em casa vendo televisão. O problema é que eu sempre fico procurando culpados para tudo.

Quem foi que nos convenceu a só andar de carro, a gastar água como se fôssemos os donos de todos os mananciais e a deixar todas as luzes da casa acesas?

Essas perguntas já seriam suficientes para instalar um júri popular, mas há outra ainda mais assustadora: quem foi que nos convenceu a preferir sacolinhas plásticas à velha e boa sacola que se levava de casa para trazer os produtos do mercado?

Todas as recomendações do cartão da Raquel eram naturalmente seguidas quando éramos crianças nas pequenas cidades do interior do Brasil. Pois eu vou designar os culpados. Preparem-se para ter uma surpresa acachapante, digna de um capítulo de telenovela.

Os culpados são todos os adoradores da modernidade. Quando alguém fala em modernizar, eu tenho vontade de sacar o meu revólver. Um revólver de brinquedo. Quem são os principais vendedores dos mitos da modernidade: empresários e publicitários.

Essas duas categorias, cúmplices, vivem de desqualificar o passado e de inventar futuros que se transformam em pesadelos presentes. Um publicitário é, em geral, um sujeito com um visual esquisito que vive de louvar a inutilidade de novos produtos para que eles sejam rapidamente adotados em lugar de outros.

O usuário que resiste é tratado como anacrônico, grosso ou de mau gosto. A principal técnica da publicidade é a chantagem emocional.

As festas de final de ano, por exemplo, são apoteoses à destruição do planeta. As luzes que enfeitam cada cidade deveriam ser catalogadas como crimes contra a humanidade. Ou contra o lugar onde a humanidade habita. Exagero? Ao contrário.

Proponho que comecemos a mudar o mundo levando a júri popular os publicitários e os empresários que, de tanto cantar os feitos da modernidade bacana, mataram por tabela as sacolas caseiras e obrigaram-nos a usar essas nefastas sacolinhas plásticas que conduzirão à decadência do planeta. Em 2008, aposte num publicitário orgânico e sustentável.

juremir@correiodopovo.com.br


11 de janeiro de 2008
N° 15476 - Paulo Sant'ana


Ciúme do helicóptero

Às vezes, esta profissão que exerço, de comunicador, oferece um tal reconhecimento do público, que deve até superar o impacto benigno de que são alvo as pessoas que se valem dos préstimos dos médicos para curar e salvar a vida delas.

Anteontem, por exemplo, enquanto me dirigia em dois trajetos, para a televisão e o rádio, chusmas de pessoas me atacavam para louvar a minha coluna, cujo tema foi o "ciumento profissional".

Daquelas colunas em que a gente acerta na veia. Fez um sucesso bárbaro a minha coluna de anteontem, e até que eu não levava muita fé nela.

Mas o segredo daquela coluna estava encerrado em uma frase que coloquei quase no início: "O ciumento profissional é conhecido por todos os meus leitores, que convivem diariamente com ele".

Ou seja, o tipo que escolhi é muito freqüente e inafastável no meio social, não há quem não tope com ele no cotidiano.

E como todos conheciam o tipo que abordei, então o êxito da coluna tinha de vir acompanhado assim de tanta repercussão.

O repórter Mauro Saraiva Jr., da Rádio Gaúcha, encontrou-me ontem e, como tantas outras pessoas, me falou na coluna do ciumento profissional.

Ele se confessou para mim um ciumento profissional. Mas incrivelmente ele me disse que seu ciúme tem como nexo e objetivo o helicóptero para o qual ele foi designado há nove anos para transmitir das alturas principalmente o movimento do trânsito em Porto Alegre.

Ele me disse que, quando está em férias e escalam outro repórter para substituí-lo no helicóptero, não tem condições psicológicas para ouvir em casa a transmissão: o seu ciúme do helicóptero é tão grande, que não tem forças para ouvir ninguém falando lá de cima , "no seu helicóptero".

Vejam que um profissional de rádio se confessa completamente ciumento quanto ao equipamento que ele usa para suas reportagens, morre de inveja quando alguém o substitui no helicóptero, chegando ao ponto de não sintonizar a sua amada emissora quando se dá esse fato.

Ou desligar o rádio se outro repórter "se atreve" a tripular o helicóptero que desde que foi inaugurado "lhe pertence".

Foi isso que eu quis dizer naquela coluna: o ciúme é intrínseco à natureza humana.

Quantas vezes nos sentimos agravados quando alguém usa nosso computador, nosso chinelo, nossa coluna?

Uma vez, contei aqui esta história: eu tinha um carro conversível, há 30 anos, um MP Lafer. Andei com ele pela cidade durante uns três anos, era o meu carrinho querido, eu ficava mais jovem e bonito dentro dele.

De repente, como estava já desgastado, resolvi vendê-lo.

Um belo dia, eu estava dirigindo já outro carro, quando vi o meu MP Lafer passar por mim, pintado, brilhando, já sendo dirigido por seu novo dono.

Corri em disparada atrás do MP Lafer, parecia que aquele motorista que o dirigia tinha roubado a minha mulher e a estava namorando!

Até lá pelos lados do aeroporto, quando vi que o MP Lafer iria se dirigir para Canoas, abandonei minha ridícula perseguição.

Mas estacionei meu novo carro no acostamento e derramei uma lágrima em homenagem ao antigo, em homenagem ao meu amor perdido, em homenagem ao que um crítico de literatura portuguesa que analisou um poema de Fernando Pessoa chamou de "saudade do futuro".

Ou então, quando segui alucinadamente o ex-meu MP Lafer pelas ruas da cidade, fiz o que disse a respeito o poeta Guilherme de Almeida, é claro que de olho no meu carrinho querido que fui obrigado a vender: "Tenho ciúme de quem não te conhece ainda/ e cedo ou tarde te verá pálida e linda/ pela primeira vez".


11 de janeiro de 2008
N° 15476 - David Coimbra


Moacyr Scliar e o sentido da vida

Encontrei o Moacyr Scliar em frente ao cinema, e foi aí que descobri qual é o sentido da vida.

Porque, quando encontro o Moacyr Scliar, sempre penso: um imortal! Não são seus vários livros que já li que me vêm à mente, nem seus contos encantadores, que são tantos, nem sua personalidade generosa, nada. Penso: um imortal!

Trata-se do primeiro pensamento, claro, mas é um pensamento infalível. Pois existe algo que possa ser mais importante para um homem do que ser imortal?

Foi seguindo esse raciocínio que desvendei os mistérios da existência, ao deparar com o Scliar, dias atrás. Primeiro pensei: um imortal indo ao cinema!

Um imortal que talvez coma pipoca e tome Mirinda! Depois, ocorreu-me que tudo o que o Scliar fizer, a partir de agora, pode ser casual como pegar um cineminha ou lamber um Picolé Espacial.

O Scliar já é imortal, e, na verdade, tudo o que fazemos, nesse Vale de Lágrimas, é buscar a imortalidade. Mesmo os espíritos mais iluminados, como esses senhores da Academia. Um exemplo notável: Guimarães Rosa.

A morte de Guimarães Rosa segue um mistério. Morreu sozinho, a mulher tinha ido à missa, não havia amigo ou parente ou serviçal por perto. Algum vizinho ouviu-lhe o último e desesperado grito: socorro!

Socorro!, gritou Guimarães Rosa, e deixou a cabeça desabar sobre a escrivaninha de trabalho. Assim foi encontrado. O laudo médico apontou infarto. Estava com 59 anos.

De certa forma, Guimarães Rosa previu a própria morte. Fora eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas vacilava em tomar posse. Dizia temer não suportar a emoção e morrer em meio ao discurso.

Até que, um dia, inflou o peito de determinação e resolveu assumir a cadeira. Na hora do discurso, de fato, parecia nervoso.

Ainda assim, portou-se bem durante a cerimônia. Só no final meio que embargou a voz, meio que tropeçou no verbo, ele que era mestre do verbo. Três dias depois, morreu nas circunstâncias descritas há um parágrafo.

Olhando para Moacyr Scliar no saguão do cinema, lembrei de Guimarães Rosa. Não que o Scliar já não tenha mais o que fazer entre nós. Tem, e muito, e fará.

Mas Scliar, como Guimarães Rosa, é escritor, é médico e é um imortal da Academia. Ou seja: ambos são imortais duas vezes: pela obra e pelo título.

Porém, o que talvez não seja o suficiente para o Scliar, foi para Guimarães Rosa. Guimarães Rosa, um místico que dizia escrever sob transe mediúnico, acreditou que havia atingido o auge e o fim, que sua missão estava cumprida.

Convenceu-se de que estava pronto para morrer, porque já tinha tudo. Já tinha a imortalidade.

E eis o sentido da vida! Justamente isso: a própria vida. O homem vive para viver para sempre. Vive para ser imortal. É por esse motivo, e quase só por esse motivo, que tem filhos: para continuar vivo na memória de alguém.

Por isso, por já ter atingido a imortalidade, Guimarães Rosa soube que já podia morrer.

Porém, sua vontade de viver era tamanha, era tão poderosa, era tão maior até do que o seu desejo de imortalidade, que, ao sentir o abraço da morte a lhe cingir, gritou por socorro. O imortal pediu, por favor, para continuar vivo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

Uma foto e uma semana

RIO DE JANEIRO - Em comemoração a seus 70 anos, Vladimir Carvalho produziu e dirigiu um documentário sobre José Lins do Rego, "O Engenho de Zé Lins", com cenas do vale do Paraíba e dos principais cenários do ciclo da cana-de-açúcar, que deu perenidade a um dos maiores escritores de nossa literatura.

Como acontece nos documentários, há depoimentos de vários interessados na obra do autor de "Fogo Morto", e, entre eles, Vladimir me colocou. Eu tinha visto, havia pouco, uma foto de máquina-caixote, as mais primitivas da época, 1932.

Tarde de domingo em Maceió. Todos de branco, lá estão, da esquerda para a direita, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Zé Lins, Aurélio Buarque, Gilberto Freyre e Jorge Amado. Todos na altura do primeiro ou segundo livro.

Não fizeram manifesto nem foram patrocinados pela alta burguesia do Nordeste. Eram amigos entre si, mas não faziam ruído. Faziam bons livros, que marcariam a vida cultural do século 20.

Comparei essa foto com outra, tirada no Teatro Municipal de São Paulo, um grupo mais numeroso e heterogêneo naquela que seria chamada de Semana de Arte Moderna de 1922. Foi um evento patrocinado por milionários paulistas. Fizeram muito barulho, muita festa e foguetório.

Tinha um grande músico, um grande pintor, um grande poeta (Bandeira), um agitador cultural (Oswald de Andrade) e um polígrafo (Mário de Andrade). Geração respeitável, mas esgarçada, sem um núcleo que a amarrasse, a não ser o rótulo desgastado que sempre parece novo: "moderno".

A turma de 1932 praticamente não tomara conhecimento das tábuas da lei de 22. Eles chegaram onde chegaram por instinto próprio, pela realidade própria dos dramas e cenários do tempo e do chão em que viviam.

ELIANE CANTANHÊDE

Eu descarto, tu descartas...

BRASÍLIA - Ontem foi o dia do verbo "descartar" em Brasília. O ministro da Saúde, José Temporão, descartou a volta da febre amarela urbana, erradicada no Brasil desde 1942, e desestimulou uma corrida aos postos de saúde para vacinação. As doses rareiam.

Enquanto isso, o mesmo Temporão pediu ao Turismo e ao Itamaraty que visitantes sejam orientados a tomar a vacina antes de ir a áreas de risco de febre amarela silvestre. Com mortes suspeitas em Brasília e em Goiás, sabe como é: "Eu não creio em bruxas, mas....".

O ministro (interino há meses) de Minas e Energia, Nelson Hubner, também descartou a possibilidade de um novo apagão ou racionamento de energia.

Enquanto isso, o mesmo Hubner admitia que, eventualmente, quem sabe, talvez, se tenha de usar térmicas a diesel e óleo combustível, muito mais caras.

Solução prima-irmã do racionamento -que o presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica, Jerson Kelman, considerou que "não é impossível".

Pois não é que, bem no meio dessa confusão, Lula deverá anunciar o senador Edison Lobão (PMDB-MA) como substituto de Hubner? O que ele entende de energia? Bulhufas. Mas é amigão do Sarney.

Por fim, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, descartou que haja o que cortar na sua área, pois a FAB enfrentou uma crise área braba em 2007 e só pensa naquilo: reequipamento e aumento dos soldos.

Enquanto isso, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, passou o dia discutindo justamente como, onde e quanto cortar nas três Forças Armadas, inclusive na FAB, claro. Hoje, deve reunir os três comandantes de tesoura na mão.

Tomara que a febre amarela urbana não esteja de volta, que haja energia para dar e vender e que Exército, Marinha e Aeronáutica sejam preservados dos cortes. Mas, se eu fosse Temporão, Hubner ou Saito, ficaria com um pé atrás.

elianec@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Hillary! Tomou Cornil, o chifre sumiu!

Confundiram a região que fica a leste de SP com Leste Europeu. Acertaram 50%: leste!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Olha essa manchete: "Reforço do Cruzeiro desmaia!". Isso é piada pronta e enlatada: O time mineiro Cruzeiro contrata um reforço, o Marquinhos Paraná, e sabe o que aconteceu logo na apresentação? O REFORÇO DESMAIOU!

Se fosse bicha não desmaiava, desfalecia. Porque bicha não desmaia, des-fa-le-ce! E acharam os quadros roubados do Masp.

De manhã, a polícia afirmou que os quadros estavam no Leste Europeu. E à tarde, a polícia encontrou os quadros em Ferraz de Vasconcelos, que fica a leste de São Paulo.

Confundiram a região que fica a leste de São Paulo com o Leste Europeu. Pelo menos, acertaram a metade, 50%: leste. Agora é "zona leste europeu". Rarará!

E a Hillary Pinton? A Hilária Clinton! Seu slogan é: "Tomei Cornil, o chifre sumiu". Rarará! E o Obama vai acabar ganhando a São Silvestre. Magrinho e queniano, só ganha a São Silvestre!

E adorei a charge do Nani com o povo dançando pro Obama: "Aqui em casa tudo mundo Obama, todo mundo bebe, todo mundo samba". Rarará!

E no Masp fizeram orientador trabalhar como segurança, deixaram o prédio sem alarme, puseram câmeras que não mostram nada à noite e deixaram a porta do térreo sem cadeado. Ou seja, CHUTARAM O BARDI!

Tão chutando o Bardi! Rarará! E continua o bolão da Amy Winehouse. Quem acertar a data da morte da Amy ganha um iPod.

E aí um leitor me escreveu: a Amy já está morta e mumificada, o iPod é meu! Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Araguapaz, Goiás, tem uma casa de danças chamada Puxa Faca.

Uau! Mais direto, impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Eficiência": companheiro que estuda a ciência da letra efe. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.
E vai indo, que eu não vou!

simao@uol.com.br


AS PEÚGAS DO MEU PAI

Eu sempre achei ridículo os franceses e os norte-americanos falarem em língua brasileira. Ainda se fosse língua à brasileira ou língua de brasileiro.

Somos quase tão bons em lingüística aplicada quanto em dar com a língua nos dentes. Temos jeito para a informação. Ou para a fofoca. Mas os editores franceses e americanos, por exemplo, referem-se a traduções para a língua brasileira. Dou a língua à palmatória.

Mudei de idéia depois de ler 'Eu Hei-de Amar uma Pedra', romance do português Lobo Antunes.

A história, contada em rápidas 558 páginas, é simples: um homem, já velho, relembra o passado olhando fotografias. Em Portugal existem três torcidas fanáticas: a do Benfica, a de José Saramago e a de Lobo Antunes.

Eu faço parte da última. Saramago é o velho comunista contador de histórias prolixas e com fundo moral. Lobo Antunes é o destruidor dos mitos da colonização portuguesa na África. Sempre fico com os destruidores.

Aceito, portanto, a hipótese delirante de que brasileiros e portugueses não falam, pois, exatamente a mesma língua. É uma mera hipótese sem arroubos científicos. Falta a comprovação.

Nem me refiro à letra 'c' no meio de palavras que mais parecem uma estrada com pedágio ou com buracos. Nem a termos como 'aluguer', o que torna alguns dos nossos falantes humildes, estigmatizados pelos 'de cima', bons usuários da língua-mãe.

A gramática é uma convenção. O futuro ainda dará razão ao nosso presidente. Prova disso é que os personagens de Lobo Antunes perguntam assim: 'Porquê?'. Junto e com acento. Falo de construções frasais e de vocabulário.

Sempre se pode recorrer ao dicionário. Às vezes, contudo, até o amansa-burro fica em silêncio ou é vitimado por um choque cultural. No caso do inglês é diferente. Existem apenas duas maneiras de falar inglês: com uma batata quente na boca ou com o sotaque do Texas.

Alguns exemplos tirados da prosa barroca de Lobo Antunes (edição brasileira da Alfaguara, Objetiva) para que possamos 'reflectir' juntos: 'Caiu, vinha a planar direito ao Cabo Ruivo espreitando alforrecas e nisso a carlinga a arder'.

Fiquei preocupado. Pobre carlinga! As alforrecas arrancaram-me uma gargalhada. Justo num momento triste da narrativa. Sou um ignorante. Admito. De qualquer maneira, há sempre um leitor atento para me lembrar disso.

Respondo que sou socrático: só sei que nada sei. Já é muito. Embatuquei mesmo foi aqui: '... adivinhava-se a chuva pela exasperação das gaivotas, lamentos que procuravam navios e encontravam gasóleo, tinha a certeza que eram as noivas da montra a soluçarem nos pântanos de caniços ou empoleiradas nos algerozes catando algas das asas'. É lindo. E totalmente esotérico.

Tem também esta passagem desconcertante e bela: 'Quando não me lembro de rir, lembro-me que sentia medo dos gorilas e das jibóias pintadas, dos crocitos das noivas a invadirem a montra adejando grinaldas...'.

Descontadas as marcas do estilo, sobram dúvidas primárias: o que são mesmo 'crocitos das noivas' e 'montras'? Abandonei a leitura na página 273 quando um personagem diz: 'Calcem as peúgas do meu pai por favor'. Voltarei a ler Lobo Antunes em francês.

Eu conseguia entender tudo. Certamente por ser mal traduzido. Tem autores que só se tornam legíveis em língua estrangeira.

Tomara que um dia saia uma tradução brasileira de Lobo Antunes. É um autor que merece ser compreendido por nós. São os aloendros.

juremir@correiodopovo.com.br


10 de janeiro de 2008
N° 15474 - Nilson Souza


Propósitos

Aí vão minhas cinco resoluções para o Ano-Novo - sem a pretensão de que possam inspirar alguém, mas com o indisfarçável objetivo de que este compartilhamento público me constranja a cumpri-las.

Neste ano que chegou luminoso e promissor, separarei pelo menos uma manhã por semana para saboreá-la ao meu gosto, sem a obrigação de levantar cedo, sem a urgência de qualquer compromisso, sem a necessidade de enfrentar o trânsito, consultar o relógio ou fazer compras. Minha preferência é pelas quintas-feiras.

Portanto, não contem comigo na manhã de hoje, porque provavelmente estarei caminhando sem rumo e sem vontade de voltar, embora consciente de que o encanto do alienamento quebra-se ao meio-dia.

Mesa limpa. Meu segundo propósito é manter minha mesa de trabalho livre de papéis inúteis, leituras adiadas, envelopes usados, canetas sem tampa ou qualquer outro material que incite o espírito ao desleixo e à inércia.

Sei que isso parece obsessão, respeito quem consegue produzir no meio da bagunça, mas me sinto melhor e mais inspirado olhando para uma superfície limpa do que para uma pilha de revistas e jornais velhos.

Pretendo, também, organizar minhas leituras. Terminei 2007 com muitos livros começados e uns poucos concluídos. Mas li do início ao fim, no último dia do ano, um dos meus presentes de Natal - o amargo Homem Comum, do norte-americano Philip Roth.

Em 2008, pretendo virar últimas páginas de livros cuidadosamente selecionados pelo menos uma vez por mês.

E serei implacável com textos que me bloquearem os neurônios. Estes não ficarão mais nas torres gêmeas da minha mesa de cabeceira.

Também usarei este ano que ninguém usou ainda para dar mais atenção aos verdadeiros tesouros da rotina - os afetos familiares, os amigos, as crianças, os pássaros, as borboletas e os lírios do campo.

Por fim, planejo abolir a pressa do meu vocabulário. Li outro dia um interessante artigo que rotulava a pressa como presumível oitavo pecado capital, esquecido pelo açodado legislador na ânsia de terminar logo o seu regulamento. Pois bem, meu quinto propósito é revogá-lo, nem que leve o ano todo.

Sei que vivemos na era da instantaneidade, das respostas rápidas, das decisões definitivas. Digite-se e cumpra-se. Mas vou fazer esse exercício.

Aliás, já comecei: tanto que só estou concluindo os meus propósitos de Ano-Novo agora, quando 2008 já chega ao seu 10º dia.

Manhã livre, mesa limpa, um bom livro, amigos e afetos, nenhuma pressa... Acho que estou precisando de férias.

Uma excelente quinta-feira para todos nós, ainda com temperatura muito alta neste Rio Grande.


10 de janeiro de 2008
N° 15474 - Paulo Sant'ana


Crime chocante

Sem mais delongas, passemos ao que Zero Hora publicou anteontem no noticiário policial: uma entrevista com o garoto de 16 anos que sofreu empalamento (cabo de vassoura enfiado no ânus) por integrantes da Brigada Militar, em Flores da Cunha.

O menino, após quatro dias no Hospital Geral de Caxias do Sul, tem dificuldades para caminhar e ostenta no abdômen um corte de 20 centímetros, a marca da cirurgia.

Eis apenas metade da entrevista que ele concedeu ao repórter Adriano Duarte, do jornal Pioneiro, de Caxias:

Agência RBS - Como foi a ação dos policiais?

Adolescente - Primeiro mandaram o pessoal que mora em cima (na casa do gesseiro Valdir de Moura, assassino do sargento da Brigada Militar) descer para o pátio. Depois arrombaram a porta da casa de baixo e mandaram a gente sair.

Na casa estávamos eu e mais cinco amigos, além da dona Janet e um senhor de 63 anos que é pensionista. Fomos para a calçada e ficamos sentados no cordão. Passou um tempo e me chamaram para um canto. Queriam saber onde estava o Valdir. Respondi que não sabia.

Daí levaram eu e o meu amigo para dentro da casa. Quando chegamos lá, já tinha mais dois rapazes no corredor e mandaram a gente se ajoelhar.

Agência RBS - Quantos policiais estavam no local?

Adolescente - Eram uns 10, todos fardados.

Agência RBS - O que os policiais faziam?

Adolescente - Os dois rapazes estavam algemados. Um estava deitado e tinha um saco na cabeça. Davam socos, tapas, coronhadas e pontapés.

Agência RBS - E o que aconteceu contigo e com outro menor?

Adolescente - A gente estava ajoelhado e preso com a mesma algema. Um dos policiais me estrangulou com o braço e outro colocou uma pistola na minha cara. Daí desmaiei, sufocado. Acordei e levei um susto porque o policial apontou a pistola na minha cabeça, engatilhou e perguntou: onde é que está o Valdir?

Agência RBS - Quanto tempo isso durou?

Adolescente - Apanhei uns 10 minutos.

Agência RBS - O que houve em seguida?

Adolescente - Me deram mais uns tapas, me colocaram de bruços no chão e tiraram minhas calças. Um policial me segurou e o outro introduziu o cabo (de vassoura no ânus do garoto entrevistado).

Quando este colunista entrou para a polícia, em 1963, como inspetor, sabia que ia exercer uma das mais sublimes profissões humanas, se fosse desempenhada com a finalidade do bem comum e a retidão com que precisam se dispor nesse mister os agentes voltados para o bem da comunidade.

Mas sabia também que, quando um policial se vale de sua função (poder) para cometer arbitrariedades, constitui-se num dos mais terríveis agentes da iniqüidade.

Foi isso que aconteceu em Flores da Cunha esses dias. Policiais militares pérfidos, verdadeiras feras humanas, maltrataram e torturaram uma família inteira durante muitas horas, em busca do assassino de um PM, morto horas antes em circunstâncias que serão esclarecidas pela Justiça.

Foi um dos piores crimes cometidos por agentes da autoridade policial em todos os tempos no RS.

O assassino do PM foi preso imediatamente e está ainda preso, justificadamente. No entanto, injustificadamente, ainda não foram presos os autores das atrocidades contra a família e o garoto empalado, vários praças e no mínimo três oficiais PM.

Esse crime não pode silenciar. O comando da Brigada Militar tomou as medidas administrativas cabíveis, afastando os envolvidos nos atos de tortura física e mental.

Fez bem a autoridade que pediu e obteve a prisão preventiva do assassino do PM, que solicitou e obteve a prisão preventiva dele.

Mas quem vai solicitar e obter a prisão preventiva dos torturadores? Por que a diferença?

Não se trata de incriminar a BM (meu pai foi coronel PM), que como toda a polícia tem missão divina, que, no entanto, vez por outra é malbaratada pelas mãos humanas perversas de alguns de seus integrantes.

Trata-se de fazer justiça. E as evidências do caso clamam que a justiça ainda está por ser feita.

Se não for feita, hipótese inaceitável, estará erigido entre nós o império da injustiça e da impunidade.

Ninguém, arrisco a dizer que até os próprios acusados, quer isso.


10 de janeiro de 2008
N° 15474 - Nilson Souza


Propósitos

Aí vão minhas cinco resoluções para o Ano-Novo - sem a pretensão de que possam inspirar alguém, mas com o indisfarçável objetivo de que este compartilhamento público me constranja a cumpri-las.

Neste ano que chegou luminoso e promissor, separarei pelo menos uma manhã por semana para saboreá-la ao meu gosto, sem a obrigação de levantar cedo, sem a urgência de qualquer compromisso, sem a necessidade de enfrentar o trânsito, consultar o relógio ou fazer compras. Minha preferência é pelas quintas-feiras.

Portanto, não contem comigo na manhã de hoje, porque provavelmente estarei caminhando sem rumo e sem vontade de voltar, embora consciente de que o encanto do alienamento quebra-se ao meio-dia.

Mesa limpa. Meu segundo propósito é manter minha mesa de trabalho livre de papéis inúteis, leituras adiadas, envelopes usados, canetas sem tampa ou qualquer outro material que incite o espírito ao desleixo e à inércia.

Sei que isso parece obsessão, respeito quem consegue produzir no meio da bagunça, mas me sinto melhor e mais inspirado olhando para uma superfície limpa do que para uma pilha de revistas e jornais velhos.

Pretendo, também, organizar minhas leituras. Terminei 2007 com muitos livros começados e uns poucos concluídos. Mas li do início ao fim, no último dia do ano, um dos meus presentes de Natal - o amargo Homem Comum, do norte-americano Philip Roth. Em 2008, pretendo virar últimas páginas de livros cuidadosamente selecionados pelo menos uma vez por mês.

E serei implacável com textos que me bloquearem os neurônios. Estes não ficarão mais nas torres gêmeas da minha mesa de cabeceira.

Também usarei este ano que ninguém usou ainda para dar mais atenção aos verdadeiros tesouros da rotina - os afetos familiares, os amigos, as crianças, os pássaros, as borboletas e os lírios do campo.

Por fim, planejo abolir a pressa do meu vocabulário. Li outro dia um interessante artigo que rotulava a pressa como presumível oitavo pecado capital, esquecido pelo açodado legislador na ânsia de terminar logo o seu regulamento. Pois bem, meu quinto propósito é revogá-lo, nem que leve o ano todo.

Sei que vivemos na era da instantaneidade, das respostas rápidas, das decisões definitivas. Digite-se e cumpra-se. Mas vou fazer esse exercício. Aliás, já comecei: tanto que só estou concluindo os meus propósitos de Ano-Novo agora, quando 2008 já chega ao seu 10º dia.

Manhã livre, mesa limpa, um bom livro, amigos e afetos, nenhuma pressa... Acho que estou precisando de férias.

Uma excelente quinta-feira para todos nós, ainda com temperatura muito alta neste Rio Grande.