quinta-feira, 10 de janeiro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

Uma foto e uma semana

RIO DE JANEIRO - Em comemoração a seus 70 anos, Vladimir Carvalho produziu e dirigiu um documentário sobre José Lins do Rego, "O Engenho de Zé Lins", com cenas do vale do Paraíba e dos principais cenários do ciclo da cana-de-açúcar, que deu perenidade a um dos maiores escritores de nossa literatura.

Como acontece nos documentários, há depoimentos de vários interessados na obra do autor de "Fogo Morto", e, entre eles, Vladimir me colocou. Eu tinha visto, havia pouco, uma foto de máquina-caixote, as mais primitivas da época, 1932.

Tarde de domingo em Maceió. Todos de branco, lá estão, da esquerda para a direita, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge de Lima, Zé Lins, Aurélio Buarque, Gilberto Freyre e Jorge Amado. Todos na altura do primeiro ou segundo livro.

Não fizeram manifesto nem foram patrocinados pela alta burguesia do Nordeste. Eram amigos entre si, mas não faziam ruído. Faziam bons livros, que marcariam a vida cultural do século 20.

Comparei essa foto com outra, tirada no Teatro Municipal de São Paulo, um grupo mais numeroso e heterogêneo naquela que seria chamada de Semana de Arte Moderna de 1922. Foi um evento patrocinado por milionários paulistas. Fizeram muito barulho, muita festa e foguetório.

Tinha um grande músico, um grande pintor, um grande poeta (Bandeira), um agitador cultural (Oswald de Andrade) e um polígrafo (Mário de Andrade). Geração respeitável, mas esgarçada, sem um núcleo que a amarrasse, a não ser o rótulo desgastado que sempre parece novo: "moderno".

A turma de 1932 praticamente não tomara conhecimento das tábuas da lei de 22. Eles chegaram onde chegaram por instinto próprio, pela realidade própria dos dramas e cenários do tempo e do chão em que viviam.

ELIANE CANTANHÊDE

Eu descarto, tu descartas...

BRASÍLIA - Ontem foi o dia do verbo "descartar" em Brasília. O ministro da Saúde, José Temporão, descartou a volta da febre amarela urbana, erradicada no Brasil desde 1942, e desestimulou uma corrida aos postos de saúde para vacinação. As doses rareiam.

Enquanto isso, o mesmo Temporão pediu ao Turismo e ao Itamaraty que visitantes sejam orientados a tomar a vacina antes de ir a áreas de risco de febre amarela silvestre. Com mortes suspeitas em Brasília e em Goiás, sabe como é: "Eu não creio em bruxas, mas....".

O ministro (interino há meses) de Minas e Energia, Nelson Hubner, também descartou a possibilidade de um novo apagão ou racionamento de energia.

Enquanto isso, o mesmo Hubner admitia que, eventualmente, quem sabe, talvez, se tenha de usar térmicas a diesel e óleo combustível, muito mais caras.

Solução prima-irmã do racionamento -que o presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica, Jerson Kelman, considerou que "não é impossível".

Pois não é que, bem no meio dessa confusão, Lula deverá anunciar o senador Edison Lobão (PMDB-MA) como substituto de Hubner? O que ele entende de energia? Bulhufas. Mas é amigão do Sarney.

Por fim, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, descartou que haja o que cortar na sua área, pois a FAB enfrentou uma crise área braba em 2007 e só pensa naquilo: reequipamento e aumento dos soldos.

Enquanto isso, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, passou o dia discutindo justamente como, onde e quanto cortar nas três Forças Armadas, inclusive na FAB, claro. Hoje, deve reunir os três comandantes de tesoura na mão.

Tomara que a febre amarela urbana não esteja de volta, que haja energia para dar e vender e que Exército, Marinha e Aeronáutica sejam preservados dos cortes. Mas, se eu fosse Temporão, Hubner ou Saito, ficaria com um pé atrás.

elianec@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Hillary! Tomou Cornil, o chifre sumiu!

Confundiram a região que fica a leste de SP com Leste Europeu. Acertaram 50%: leste!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Olha essa manchete: "Reforço do Cruzeiro desmaia!". Isso é piada pronta e enlatada: O time mineiro Cruzeiro contrata um reforço, o Marquinhos Paraná, e sabe o que aconteceu logo na apresentação? O REFORÇO DESMAIOU!

Se fosse bicha não desmaiava, desfalecia. Porque bicha não desmaia, des-fa-le-ce! E acharam os quadros roubados do Masp.

De manhã, a polícia afirmou que os quadros estavam no Leste Europeu. E à tarde, a polícia encontrou os quadros em Ferraz de Vasconcelos, que fica a leste de São Paulo.

Confundiram a região que fica a leste de São Paulo com o Leste Europeu. Pelo menos, acertaram a metade, 50%: leste. Agora é "zona leste europeu". Rarará!

E a Hillary Pinton? A Hilária Clinton! Seu slogan é: "Tomei Cornil, o chifre sumiu". Rarará! E o Obama vai acabar ganhando a São Silvestre. Magrinho e queniano, só ganha a São Silvestre!

E adorei a charge do Nani com o povo dançando pro Obama: "Aqui em casa tudo mundo Obama, todo mundo bebe, todo mundo samba". Rarará!

E no Masp fizeram orientador trabalhar como segurança, deixaram o prédio sem alarme, puseram câmeras que não mostram nada à noite e deixaram a porta do térreo sem cadeado. Ou seja, CHUTARAM O BARDI!

Tão chutando o Bardi! Rarará! E continua o bolão da Amy Winehouse. Quem acertar a data da morte da Amy ganha um iPod.

E aí um leitor me escreveu: a Amy já está morta e mumificada, o iPod é meu! Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Araguapaz, Goiás, tem uma casa de danças chamada Puxa Faca.

Uau! Mais direto, impossível! Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Eficiência": companheiro que estuda a ciência da letra efe. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.
E vai indo, que eu não vou!

simao@uol.com.br


AS PEÚGAS DO MEU PAI

Eu sempre achei ridículo os franceses e os norte-americanos falarem em língua brasileira. Ainda se fosse língua à brasileira ou língua de brasileiro.

Somos quase tão bons em lingüística aplicada quanto em dar com a língua nos dentes. Temos jeito para a informação. Ou para a fofoca. Mas os editores franceses e americanos, por exemplo, referem-se a traduções para a língua brasileira. Dou a língua à palmatória.

Mudei de idéia depois de ler 'Eu Hei-de Amar uma Pedra', romance do português Lobo Antunes.

A história, contada em rápidas 558 páginas, é simples: um homem, já velho, relembra o passado olhando fotografias. Em Portugal existem três torcidas fanáticas: a do Benfica, a de José Saramago e a de Lobo Antunes.

Eu faço parte da última. Saramago é o velho comunista contador de histórias prolixas e com fundo moral. Lobo Antunes é o destruidor dos mitos da colonização portuguesa na África. Sempre fico com os destruidores.

Aceito, portanto, a hipótese delirante de que brasileiros e portugueses não falam, pois, exatamente a mesma língua. É uma mera hipótese sem arroubos científicos. Falta a comprovação.

Nem me refiro à letra 'c' no meio de palavras que mais parecem uma estrada com pedágio ou com buracos. Nem a termos como 'aluguer', o que torna alguns dos nossos falantes humildes, estigmatizados pelos 'de cima', bons usuários da língua-mãe.

A gramática é uma convenção. O futuro ainda dará razão ao nosso presidente. Prova disso é que os personagens de Lobo Antunes perguntam assim: 'Porquê?'. Junto e com acento. Falo de construções frasais e de vocabulário.

Sempre se pode recorrer ao dicionário. Às vezes, contudo, até o amansa-burro fica em silêncio ou é vitimado por um choque cultural. No caso do inglês é diferente. Existem apenas duas maneiras de falar inglês: com uma batata quente na boca ou com o sotaque do Texas.

Alguns exemplos tirados da prosa barroca de Lobo Antunes (edição brasileira da Alfaguara, Objetiva) para que possamos 'reflectir' juntos: 'Caiu, vinha a planar direito ao Cabo Ruivo espreitando alforrecas e nisso a carlinga a arder'.

Fiquei preocupado. Pobre carlinga! As alforrecas arrancaram-me uma gargalhada. Justo num momento triste da narrativa. Sou um ignorante. Admito. De qualquer maneira, há sempre um leitor atento para me lembrar disso.

Respondo que sou socrático: só sei que nada sei. Já é muito. Embatuquei mesmo foi aqui: '... adivinhava-se a chuva pela exasperação das gaivotas, lamentos que procuravam navios e encontravam gasóleo, tinha a certeza que eram as noivas da montra a soluçarem nos pântanos de caniços ou empoleiradas nos algerozes catando algas das asas'. É lindo. E totalmente esotérico.

Tem também esta passagem desconcertante e bela: 'Quando não me lembro de rir, lembro-me que sentia medo dos gorilas e das jibóias pintadas, dos crocitos das noivas a invadirem a montra adejando grinaldas...'.

Descontadas as marcas do estilo, sobram dúvidas primárias: o que são mesmo 'crocitos das noivas' e 'montras'? Abandonei a leitura na página 273 quando um personagem diz: 'Calcem as peúgas do meu pai por favor'. Voltarei a ler Lobo Antunes em francês.

Eu conseguia entender tudo. Certamente por ser mal traduzido. Tem autores que só se tornam legíveis em língua estrangeira.

Tomara que um dia saia uma tradução brasileira de Lobo Antunes. É um autor que merece ser compreendido por nós. São os aloendros.

juremir@correiodopovo.com.br


10 de janeiro de 2008
N° 15474 - Nilson Souza


Propósitos

Aí vão minhas cinco resoluções para o Ano-Novo - sem a pretensão de que possam inspirar alguém, mas com o indisfarçável objetivo de que este compartilhamento público me constranja a cumpri-las.

Neste ano que chegou luminoso e promissor, separarei pelo menos uma manhã por semana para saboreá-la ao meu gosto, sem a obrigação de levantar cedo, sem a urgência de qualquer compromisso, sem a necessidade de enfrentar o trânsito, consultar o relógio ou fazer compras. Minha preferência é pelas quintas-feiras.

Portanto, não contem comigo na manhã de hoje, porque provavelmente estarei caminhando sem rumo e sem vontade de voltar, embora consciente de que o encanto do alienamento quebra-se ao meio-dia.

Mesa limpa. Meu segundo propósito é manter minha mesa de trabalho livre de papéis inúteis, leituras adiadas, envelopes usados, canetas sem tampa ou qualquer outro material que incite o espírito ao desleixo e à inércia.

Sei que isso parece obsessão, respeito quem consegue produzir no meio da bagunça, mas me sinto melhor e mais inspirado olhando para uma superfície limpa do que para uma pilha de revistas e jornais velhos.

Pretendo, também, organizar minhas leituras. Terminei 2007 com muitos livros começados e uns poucos concluídos. Mas li do início ao fim, no último dia do ano, um dos meus presentes de Natal - o amargo Homem Comum, do norte-americano Philip Roth.

Em 2008, pretendo virar últimas páginas de livros cuidadosamente selecionados pelo menos uma vez por mês.

E serei implacável com textos que me bloquearem os neurônios. Estes não ficarão mais nas torres gêmeas da minha mesa de cabeceira.

Também usarei este ano que ninguém usou ainda para dar mais atenção aos verdadeiros tesouros da rotina - os afetos familiares, os amigos, as crianças, os pássaros, as borboletas e os lírios do campo.

Por fim, planejo abolir a pressa do meu vocabulário. Li outro dia um interessante artigo que rotulava a pressa como presumível oitavo pecado capital, esquecido pelo açodado legislador na ânsia de terminar logo o seu regulamento. Pois bem, meu quinto propósito é revogá-lo, nem que leve o ano todo.

Sei que vivemos na era da instantaneidade, das respostas rápidas, das decisões definitivas. Digite-se e cumpra-se. Mas vou fazer esse exercício.

Aliás, já comecei: tanto que só estou concluindo os meus propósitos de Ano-Novo agora, quando 2008 já chega ao seu 10º dia.

Manhã livre, mesa limpa, um bom livro, amigos e afetos, nenhuma pressa... Acho que estou precisando de férias.

Uma excelente quinta-feira para todos nós, ainda com temperatura muito alta neste Rio Grande.


10 de janeiro de 2008
N° 15474 - Paulo Sant'ana


Crime chocante

Sem mais delongas, passemos ao que Zero Hora publicou anteontem no noticiário policial: uma entrevista com o garoto de 16 anos que sofreu empalamento (cabo de vassoura enfiado no ânus) por integrantes da Brigada Militar, em Flores da Cunha.

O menino, após quatro dias no Hospital Geral de Caxias do Sul, tem dificuldades para caminhar e ostenta no abdômen um corte de 20 centímetros, a marca da cirurgia.

Eis apenas metade da entrevista que ele concedeu ao repórter Adriano Duarte, do jornal Pioneiro, de Caxias:

Agência RBS - Como foi a ação dos policiais?

Adolescente - Primeiro mandaram o pessoal que mora em cima (na casa do gesseiro Valdir de Moura, assassino do sargento da Brigada Militar) descer para o pátio. Depois arrombaram a porta da casa de baixo e mandaram a gente sair.

Na casa estávamos eu e mais cinco amigos, além da dona Janet e um senhor de 63 anos que é pensionista. Fomos para a calçada e ficamos sentados no cordão. Passou um tempo e me chamaram para um canto. Queriam saber onde estava o Valdir. Respondi que não sabia.

Daí levaram eu e o meu amigo para dentro da casa. Quando chegamos lá, já tinha mais dois rapazes no corredor e mandaram a gente se ajoelhar.

Agência RBS - Quantos policiais estavam no local?

Adolescente - Eram uns 10, todos fardados.

Agência RBS - O que os policiais faziam?

Adolescente - Os dois rapazes estavam algemados. Um estava deitado e tinha um saco na cabeça. Davam socos, tapas, coronhadas e pontapés.

Agência RBS - E o que aconteceu contigo e com outro menor?

Adolescente - A gente estava ajoelhado e preso com a mesma algema. Um dos policiais me estrangulou com o braço e outro colocou uma pistola na minha cara. Daí desmaiei, sufocado. Acordei e levei um susto porque o policial apontou a pistola na minha cabeça, engatilhou e perguntou: onde é que está o Valdir?

Agência RBS - Quanto tempo isso durou?

Adolescente - Apanhei uns 10 minutos.

Agência RBS - O que houve em seguida?

Adolescente - Me deram mais uns tapas, me colocaram de bruços no chão e tiraram minhas calças. Um policial me segurou e o outro introduziu o cabo (de vassoura no ânus do garoto entrevistado).

Quando este colunista entrou para a polícia, em 1963, como inspetor, sabia que ia exercer uma das mais sublimes profissões humanas, se fosse desempenhada com a finalidade do bem comum e a retidão com que precisam se dispor nesse mister os agentes voltados para o bem da comunidade.

Mas sabia também que, quando um policial se vale de sua função (poder) para cometer arbitrariedades, constitui-se num dos mais terríveis agentes da iniqüidade.

Foi isso que aconteceu em Flores da Cunha esses dias. Policiais militares pérfidos, verdadeiras feras humanas, maltrataram e torturaram uma família inteira durante muitas horas, em busca do assassino de um PM, morto horas antes em circunstâncias que serão esclarecidas pela Justiça.

Foi um dos piores crimes cometidos por agentes da autoridade policial em todos os tempos no RS.

O assassino do PM foi preso imediatamente e está ainda preso, justificadamente. No entanto, injustificadamente, ainda não foram presos os autores das atrocidades contra a família e o garoto empalado, vários praças e no mínimo três oficiais PM.

Esse crime não pode silenciar. O comando da Brigada Militar tomou as medidas administrativas cabíveis, afastando os envolvidos nos atos de tortura física e mental.

Fez bem a autoridade que pediu e obteve a prisão preventiva do assassino do PM, que solicitou e obteve a prisão preventiva dele.

Mas quem vai solicitar e obter a prisão preventiva dos torturadores? Por que a diferença?

Não se trata de incriminar a BM (meu pai foi coronel PM), que como toda a polícia tem missão divina, que, no entanto, vez por outra é malbaratada pelas mãos humanas perversas de alguns de seus integrantes.

Trata-se de fazer justiça. E as evidências do caso clamam que a justiça ainda está por ser feita.

Se não for feita, hipótese inaceitável, estará erigido entre nós o império da injustiça e da impunidade.

Ninguém, arrisco a dizer que até os próprios acusados, quer isso.


10 de janeiro de 2008
N° 15474 - Nilson Souza


Propósitos

Aí vão minhas cinco resoluções para o Ano-Novo - sem a pretensão de que possam inspirar alguém, mas com o indisfarçável objetivo de que este compartilhamento público me constranja a cumpri-las.

Neste ano que chegou luminoso e promissor, separarei pelo menos uma manhã por semana para saboreá-la ao meu gosto, sem a obrigação de levantar cedo, sem a urgência de qualquer compromisso, sem a necessidade de enfrentar o trânsito, consultar o relógio ou fazer compras. Minha preferência é pelas quintas-feiras.

Portanto, não contem comigo na manhã de hoje, porque provavelmente estarei caminhando sem rumo e sem vontade de voltar, embora consciente de que o encanto do alienamento quebra-se ao meio-dia.

Mesa limpa. Meu segundo propósito é manter minha mesa de trabalho livre de papéis inúteis, leituras adiadas, envelopes usados, canetas sem tampa ou qualquer outro material que incite o espírito ao desleixo e à inércia.

Sei que isso parece obsessão, respeito quem consegue produzir no meio da bagunça, mas me sinto melhor e mais inspirado olhando para uma superfície limpa do que para uma pilha de revistas e jornais velhos.

Pretendo, também, organizar minhas leituras. Terminei 2007 com muitos livros começados e uns poucos concluídos. Mas li do início ao fim, no último dia do ano, um dos meus presentes de Natal - o amargo Homem Comum, do norte-americano Philip Roth. Em 2008, pretendo virar últimas páginas de livros cuidadosamente selecionados pelo menos uma vez por mês.

E serei implacável com textos que me bloquearem os neurônios. Estes não ficarão mais nas torres gêmeas da minha mesa de cabeceira.

Também usarei este ano que ninguém usou ainda para dar mais atenção aos verdadeiros tesouros da rotina - os afetos familiares, os amigos, as crianças, os pássaros, as borboletas e os lírios do campo.

Por fim, planejo abolir a pressa do meu vocabulário. Li outro dia um interessante artigo que rotulava a pressa como presumível oitavo pecado capital, esquecido pelo açodado legislador na ânsia de terminar logo o seu regulamento. Pois bem, meu quinto propósito é revogá-lo, nem que leve o ano todo.

Sei que vivemos na era da instantaneidade, das respostas rápidas, das decisões definitivas. Digite-se e cumpra-se. Mas vou fazer esse exercício. Aliás, já comecei: tanto que só estou concluindo os meus propósitos de Ano-Novo agora, quando 2008 já chega ao seu 10º dia.

Manhã livre, mesa limpa, um bom livro, amigos e afetos, nenhuma pressa... Acho que estou precisando de férias.

Uma excelente quinta-feira para todos nós, ainda com temperatura muito alta neste Rio Grande.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008



CLÓVIS ROSSI

Saudades do mensalão

SÃO PAULO - Se eu fosse do governo, relançaria um esquema tipo mensalão (se é que o modelo não continua, até que Roberto Jefferson resolva detoná-lo de novo). Parece a única maneira de conseguir soldar a base de apoio governista, que anda batendo cabeça de uma forma jamais vista antes.

Estamos assim: o vice-presidente, José Alencar, amigo do presidente, diz que é mero "remendo" a proposta de seu amigo Lula para cobrir parte do buraco deixado pela queda da CPMF. O "remendo" nem sequer foi antecipado ao rapaz que faz a coordenação política do governo, no que parece demonstrar que, como ministro, trata-se de um ótimo cantor amador.

Já o líder do governo no Senado, que, entra governo, sai governo, continua sendo governo, confessa sem ruborizar-se que o presidente faltou com a palavra empenhada ao anunciar que não haveria aumento de impostos, apenas para decretá-lo dias depois.

Claro que sempre haverá poetas capazes de dizer que mensalão é coisa feia e que o amalgama correto para a base governista (ou para a base oposicionista) deveria ser a ideologia, o programa, essas coisas com os quais os políticos enchem a boca, mas não acreditam.

De fato, deveria ser assim, mas ideologia, programa, convicções, seriedade no trato da coisa pública são produtos em absoluta falta no mercado político brasileiro (não só brasileiro, é verdade, mas lá fora o problema é deles).

A queda da CPMF é, talvez, o mais emblemático dos exemplos: foi derrubada pelos partidos que a criaram e foi defendida pelo partido que, quando era oposição, a ela se opunha ferozmente. Não foi criada nem extinta em função de ser um bom ou um mau tributo, mas em função de dar ou retirar dinheiro do governo de turno.

Se não é a mais perfeita escul- hambação, não sei mais o significado de esculhambação.

crossi@uol.com.br

RUY CASTRO

Os vilões de sempre

RIO DE JANEIRO - Os vários Andrés (Gide, Breton, Malraux, Bazin), Jacques Prévert, Sartre, Camus, Boris Vian, Genêt, Merleau-Ponty, Truffaut e demais franceses que fizeram a cabeça do século 20 a partir de uma mesa de café em Paris e de um cigarro na boca seriam, hoje, inviáveis. Se vivessem em 2008, e quisessem continuar filosofando, poderiam tudo, menos fumar.

Em sua época, havia um forte aroma de contravenção no surrealismo, no realismo poético, no existencialismo, na fenomenologia, na Nouvelle Vague e nas outras disciplinas que ficamos devendo a esses homens.

E, embora não existisse nenhuma relação, todos fumavam como se fosse para salvar a vida. Mas teria sido a mesma coisa se, entre um "pourquoi" e um "parce que", em vez do onipresente Gauloise, eles mascassem chicletes ou chupassem jujubas?

A proibição de fumar em lugares fechados na França, a valer desde o primeiro dia do ano, é uma saudável vitória da campanha antitabagista, porque os franceses, de fato, fumam demais -com o mesmo fanatismo com que os americanos comem batata frita com ketchup e os brasileiros bebem cerveja.

Na Inglaterra, por sua vez, o primeiro-ministro Gordon Brown anunciou no mesmo dia que os fumantes britânicos poderão ter "dificuldade de acesso ao sistema nacional de saúde". A idéia é a de que quem não fuma não é obrigado a financiar com seus impostos o tratamento das mazelas de quem fuma.

Dito assim, faz sentido. Mas esse mesmo fumante, e que também paga impostos, será obrigado a financiar o tratamento das mazelas de quem se entope de fast food?

Ou de quem bebe demais ou de quem usa outras drogas? No entanto, Brown não se lembrou de ameaçar os usuários de cheeseburgers, conhaque ou cocaína. Sobrou apenas para os fumantes, os vilões de sempre.

JOSÉ SIMÃO

Buemba! Lula lança IPOD!

O presidente acaba de lançar mais um imposto: Imposto sobre Praias, Ondas e Derivados

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

E o Lula acaba de lançar mais um imposto: o IPOD! Imposto sobre Praias, Ondas e Derivados! Tributaram o verão!
E já começou o "BBB", Big Bagaça Brasil ou Big Barriga do Bial.

Aliás, o Bial é aquele que escreveu a BIALgrafia do doutor Marinho! E a definição definitiva de reality show: um monte de gente sem nada pra fazer assistindo um monte de gente fazendo nada. Ou, como definiu a Grazi: "O "BBB" é muito bom para o auto-conhecimento de si mesmo".

O que prova que passar pelo "BBB" provoca um alto conhecimento! Rarará! E reality show é ficar trancado no elevador com a Heloísa Helena!

E só dois lugares têm movimento em janeiro: barraca de caipirosca e pedágio.

E eu acho engraçado que agora você pode pagar o pedágio com cartão. Antes você usava o cartão pra ir pra Miami. Agora você usa o cartão pra ir pra Cubatão!

E continua o bolão da Amy Winehouse. Quem acertar a data da morte da Amy ganha um iPod. Com as músicas da Britney Spears. Rarará!

Que aliás foi eleita a mais malvestida do ano passado. E quem está interessado na Britney vestida? Ela tinha que ganhar a MAIS MENOS vestida.

E o Lula tem a língua plesa e o Zé Dirceu tem a língua solta! Aliás, com aquele sotaque do Mazzaropi tá mais pra "sôrta" que pra solta!

É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: "É mole, mas trisca pra ver o que acontece!". Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo hilário de antitucanês.

É que em Ubatuba, aqui no litoral paulista, tem uma pousada chamada Pousada da Charuta, Onestidade e Igiene. Rarará!

Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio

lulante. "Nostalgia": companheiro com saudades das nozes de Natal. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

E quem não tiver colírio pode pingar silicone com água oxigenada pra ver o mundo loiro e de peitão! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

Neste Dia Internacional do sofá tenhamos todos um bom dia.


09 de janeiro de 2008
N° 15473 - Martha Medeiros


Tudo bem?

Você pergunta se está tudo bem para mais ou menos 25 pessoas a cada dia. Não fiz as contas, mas deve ser esta a média. Seja na rua, no escritório, ao telefone ou dentro do seu prédio, você dispara um monte de "tudo bem?", variando às vezes com um "tudo bom?" ou "como vai?".

Seja quem for o destinatário do seu cumprimento, ele responderá que sim, está tudo bem. Na pior das hipóteses, responderá "tudo indo".

Pode parecer uma resposta mal-humorada, mas é preferível alguém responder "tudo indo" do que desfiar um rosário de queixas. Se não está tudo bem para o indivíduo, ele respondendo "tudo indo" já sabemos que poderia estar melhor, só que ele está nos poupando dos detalhes. É uma criatura educada.

O problema é que a gente se sente meio culpado em ficar quieto depois de um "tudo indo". Tudo indo pra onde? Ribanceira abaixo?

De mal a pior? Seguidamente cruzo com uma moça com quem simpatizo mas não tenho intimidade, e a cada vez que pergunto a ela se está tudo bem, ela me responde "tudo indo" com um jeito de quem vai cair em prantos.

Há pelo menos um ano que está tudo indo pra ela. E eu fico torcendo para que esteja tudo indo às mil maravilhas, que tudo esteja indo de vento em popa, indo melhor do que o esperado. Mas não é nada disso que sugere o olhar sorumbático dela.

Na verdade, todos nós estamos indo, que é melhor do que estar tudo parado. Estamos indo rumo a novas eleições para prefeito, indo rumo a contas mais arrochadas, indo rumo a pessoas que ainda não conhecemos, indo rumo a dias melhores, a dias piores e, encaremos: indo rumo à morte, se me permite ser uma desmancha-prazer. É duro, mas a outra opção é estacionar, não ir a lugar algum.

Eu estou bem e estou indo. Não conheço ninguém que não esteja indo. Não significa que todo "indo" seja um deixar-se levar sem entusiasmo. Estamos indo rumo às férias, rumo ao Carnaval e rumo a novos acontecimentos. Parece bom.

Se eu continuar sem inspiração como hoje, o único rumo que vou tomar é o do departamento de RH para acertar minhas contas. Como você pode comprovar, aqui nest a coluna, tudo indo. Às vezes, sem norte algum, mas indo.


09 de janeiro de 2008
N° 15473 Paulo Sant'ana


O ciumento profissional

H oje vou começar com um tema que me agrada muito, o ciúme, apenas por um ângulo diferente.

Vou analisar um tipo muito freqüente na humanidade, que a minha turma da tardinha na Rua Padre Chagas denomina de ciumento profissional.

O ciumento profissional é aquela pessoa que sente ciúme de todos e de tudo.

O ciumento profissional (todos os meus leitores o conhecem e convivem sempre com ele) é aquele sujeito que acorda mais cedo para ter ciúme durante mais tempo.

Ele tem insônia de propósito para cultivar o seu ciúme doentio até mais tarde.

Há no meu condomínio um ciumento profissional conhecidíssimo. Apesar de ser um homem rico, ele troca todos os anos de carro, mas sempre de carro popular: com a finalidade de poder invejar todos os proprietários de carros do condomínio, que têm, é óbvio, carros melhores.* * *

O pior ciumento profissional que existe é uma flor do lodo que viceja entre os interinos de colunas muito lidas em jornais de grande circulação.

Há uns sete anos, um tipo rondou a direção de Zero Hora com a intenção de ser interino da minha coluna.

Era um tempo em que, de cada 10 colunas minhas, oito eram contra os pardais das nossas estradas e ruas.

No dia que conseguiu ser designado para ser meu interino por eu estar doente, o tipo sorrateiro escreveu aqui neste meu espaço, só meu, uma coluna inteira e veemente a favor dos pardais.

Se eu escrevesse a favor do grande e inesquecível sanitarista Oswaldo Cruz, aquele meu maldito interino escreveria a favor do mosquito.

Há ciumentos profissionais que ficam a tarde inteira bebendo uma só Coca light numa sorveteria, só para invejar as imensas, com bem decoradas coberturas, taças de sorvete devoradas pela clientela.

Há um tipo perverso de ciumento profissional que finge ser contra o cigarro por motivos sanitários, mas na verdade ele tem é ciúme de quem é fumante e pode desfrutar do prazer inefável de fumar.

Mas a mais intrigante espécie de ciumento profissional é a daqueles que têm ciúme do salário dos outros.

Aqui na RBS, há um ciumento profissional que vive me testando, querendo saber quanto eu ganho. Esses dias ele usou uma tática terrível, aproximou-se de mim no bar e me disse mansamente: "É verdade o que vazou do departamento pessoal: Fulano (e citou o nome de um artista) é o maior salário da RBS?".

Confesso que senti ímpetos de enfurecer, mas a tempo percebi que era uma armadilha do ciumento profissional.

Calei-me e fui dormir, sob certo aspecto, um pouco tranqüilo depois da intriga dele.

O ofício do ciumento profissional é o de bisbilhotar a vida de quem ele inveja. Pergunta a todos os que têm cartão de crédito qual o limite de gastos deles, com o fim de conscientizar-se, paranoicamente, que o seu é menor.

Esses dias perguntei a um famoso ciumento profissional se ele era feliz. Resposta dele: "Por que me perguntas? Só o que me faltava é dizeres que tu és!".


09 de janeiro de 2008
N° 15473 - David Coimbra


O Rio Grande é uma ficção

O Rio Grande do Sul não existe. Nem Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina. Os Estados brasileiros foram abolidos na prática por Getúlio Vargas e a Constituição Polaca, em 1937. Hoje subsistem como peso para o contribuinte e como vaga abstração cultural.

Verdade que nem todos. Só Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio, Minas e Bahia têm identidade cultural. Ceará um pouquinho. O resto é Brasil.

Getúlio Vargas extinguiu os Estados, tributariamente falando, e tentou fazê-lo, digamos, ideologicamente. Queimou as bandeiras, obrigou o ensino do português em todas as escolas do país e instituiu a Hora do Brasil, o primeiro jornal nacional.

Conseguiu enfraquecer as identidades regionais, mas não matá-las. Quem fez o serviço foi a Rede Globo.

A Rede Globo realizou o sonho de unificação do Brasil de Getúlio Vargas. Com o Jornal Nacional, com as novelas, com as transmissões via satélite. O Brasil tornou-se um só, enfim.

A prova é o gandula. Não havia isso de gandula, aqui na província. Gandula era no Riosãopaulo. Aqui era marrecão, só. Hoje, nenhum torcedor com menos de 30 anos sabe que marrecão um dia foi algo além de uma ave freqüentadora de rios, lagos e banhados.

A linguagem do futebol, a verdadeira linguagem de massa do Brasil, demonstra: a Rede Globo transformou-nos, a todos, em brasileiros. Para o bem e para o mal.

No princípio, tudo era o Verbo

Antes não tinha marrecão, não tinha gandula, não tinha nada. Quem ia pegar a bola, quando ela escorria pela lateral ou pela linha de fundo, era o jogador mesmo. Ou algum torcedor devolvia, que muitas vezes a torcida assistia ao jogo da beira do campo.

Aí surgiu o Gandulla com dois eles. Bernardo Gandulla. Um argentino que foi jogar no Vasco em 1939. Só tem o seguinte: esse Bernardo Gandulla era um baita pereba. Nunca jogou de titular. Mas, como queria se sentir útil, buscava as bolas durante os jogos. Tanto as do Vasco quanto as do adversário.

A bola saía, o Gandulla corria atrás, pegava, mandava para o campo. Muito solícito. Então, quando pela primeira vez colocaram um guri para buscar as bolas nas partidas, ele logo virou gandula, com minúscula e um ele só, que marrecão não precisa de ele dobrado.

Conto isso porque a CBF agora quer profissionalizar o gandula. Não pode mais ser qualquer um. Tem que ser gente especializada, gente com vocação, gente como aquele argentino, o velho Bernardo Gandulla, que podia não jogar nada, mas que era prestativo, era.

O livro do centenário

O jornalista Cláudio Dienstmann, velho pesquisador do futebol, concluiu recentemente um livro sobre o Inter. Lançá-lo-á em 2009, ano do centenário do clube. Cimentado em consultas em 1.500 documentos originais, Cláudio promete muitas revelações acerca das origens do clube. O livro ainda não tem editora. Algumas disputam-no a tapas.

Os Inters

O Inter de Porto Alegre não tem nada a ver com a Inter de Milão, ao contrário do que foi divulgado pelo site do clube. A Internazionale é apenas um ano mais velha do que o Internacional. Uma é de março de 1908, outro de abril de 1909.

O Inter de Porto Alegre tem a ver é com o Inter de São Paulo, clube fundado em 1898, duas vezes campeão paulista, em 1907 e 1928, quando dividiu o título com o Corinthians.

Ocorre que o fundador do Inter, Henrique Poppe Leão, era sócio e chegou a ser jogador desse Inter de São Paulo. Ao chegar a Porto Alegre, Henrique queria continuar militando no futebol. Como sua filiação no Grêmio não foi aceita, fundou outro clube, e nesse tentou reproduzir em tudo o do seu coração.

Os nomes de ambos eram idênticos: Sport Club Internacional, e nos dois predominava a cor vermelha. Henrique só não conseguiu fazer com que o Inter fosse tricolor, como pretendia - o preto ficou de fora do uniforme.

Esse Inter de São Paulo sucumbiu à profissionalização do futebol. Em 1933, foi fundido ao Antarctica e deu origem ao Clube Atlético Paulista.

Por aqui, Henrique Poppe Leão não chegou a jogar no Inter. Aos 28 anos de idade, achava-se muito velho para correr atrás da bola. Seu irmão, José Poppe (por algum motivo ele não era Leão), e seu primo, Luís Madeira Poppe, esses jogaram. Eram novinhos, 18 anos de idade. Os dois estavam no primeiro Gre-Nal, o primeiro jogo da história do Inter.

José era o goleiro, chamado de Poppe II na escalação. Levou os 10 gols no clássico e desanimou. Luís era ponta-direita, Poppe I, chamavam-no. Chegou a jogar o segundo Gre-Nal, depois parou.

Henrique poderia ter sido o primeiro presidente do Inter. Renunciou à honraria em nome de João Leopoldo Seferin, dono da casa onde se fez a reunião de fundação do clube, na João Pessoa, quase em frente à Redenção, onde hoje existe uma padaria.

Henrique foi o segundo presidente. Morreu aos 35 anos de idade, de uremia, doença braba. Se existe um homem que pode ser considerado O fundador do Inter, esse homem é Henrique Poppe Leão.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008


JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Imposto sobre Trio Elétrico!

O Lula vai tributar até o Carnaval. É tanto tributo pra pagar que um amigo meu já está triputo!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
E sabe o nome da repórter da Globo que cobriu o furto dos quadros do Masp? MONALISA Perrone!

E eu acho que o Lula vai tributar até o Carnaval. É o ITE: Imposto sobre Trio Elétrico! Rarará! É tanto tributo pra pagar que um amigo meu já está triputo! Triputo da vida!

E IPVA é Imposto Para Vários Amigos. Agora tem que fazer vaquinha pra pagar o IPVA. Pagar imposto da carona.

E, como diz um amigo meu: meu carro desvaloriza ano a ano, e o imposto sobe ano a ano. Então, vende o carro pra pagar o IPVA!
E todo mês de janeiro eu provo que Cristo é brasileiro: vive fazendo milagre, andava sem dinheiro e se ferrou na mão do governo!

E o IPVA vira impagável, e o carro vira implacável. E é IPTU, IPVA, IPI, IOF e não vou pagar mais IPORRA nenhuma. Rarará!
E adorei a charge do Marco Aurélio: acabaram com o imposto do cheque e incluíram no contracheque! Rarará!

E esta: filho do Lula entra pra comissão técnica do Palmeiras. O filho do Lula é porco. Aliás, o Serra também é porco. Foi o primeiro ministro da Saúde porco. Rarará!

E tem um site inglês fazendo o bolão da Amy Winehouse. Quem acertar o dia, a hora e o mês em que Amy morrer ganha um Ipod. Rarará!

E IOF tá sendo chamado de imposto dos burros. IOOOOOF! IOOOOOF! Parece que tá relinchando! Paga relinchando!

E eu vou lançar a enquete: "Onde você vai passar o Carnaval?". 1) Em Curitiba com a namorada menstruada. 2) No retiro. Retiro e ponho, retiro e ponho. 3) Vou passar no pão porque a manteiga tá muito cara.

Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Ribeirão Preto tem um bar gay chamado Mister Lady! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Impostor": companheiro criador de imposto!

O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Ouriços e raposas

São dois tipos de personalidade distintos presentes na história intelectual do Ocidente

ONDE ESTÃO os ouriços? Mistério. Uns tempos atrás, passei uma tarde de conversa em casa de um velho professor inglês que me confessou as suas mágoas mais excêntricas. Como o desaparecimento dos ouriços, já noticiado pelos jornais.

Antigamente, era possível caminhar pelo jardim e encontrar dois ou três. Hoje, nem sombra. A poluição urbana, o uso de químicos na agricultura e o avanço do cimento acabaram com a raça. Ele próprio sentia dificuldades em explicar às netas certos personagens das fábulas, em que ouriços falantes abundam.

Ouvi tudo com a educação possível e, quando ele se levantou para recarregar os copos, passei os olhos pelos jornais do dia. E então reparei, surpreso, que passavam dez anos sobre a morte do filósofo Isaiah Berlin.

Sorri. A efeméride era perfeita porque nenhum outro pensador utilizou a palavra "ouriço" com tanta inteligência e propriedade.

Aconteceu em 1953, em ensaio sobre Tolstói. Título? "O Ouriço e a Raposa". E Berlin, socorrendo-se de um aforismo do poeta grego Arquiloco, relembrava: "A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante".

Um jogo de palavras? Mais que isso. Para Berlin, "ouriços" e "raposas" representam dois tipos de personalidade distintos que é possível encontrar na história intelectual do Ocidente -e, naturalmente, nas nossas vidas anônimas e privadas.

Os "ouriços" surgem movidos por uma idéia central, procurando explicar a diversidade do mundo por referência a um único sistema monista. Platão era um "ouriço". Dostoiévski também. Marx idem.

As "raposas", pelo contrário, entendem que a diversidade do mundo não autoriza um único sistema explicativo; são pluralistas porque sabem que os fins são vários e nem sempre compatíveis entre si.

Montaigne, Shakespeare ou Joyce eram "raposas" por excelência. E Tolstói? O drama de Tolstói era ser naturalmente uma "raposa", embora desejando ser um "ouriço".

A divisão acabou por entrar na imaginação popular, e até Woody Allen, em "Maridos e Esposas", filmou Judy Davis em momento de intimidade, mas incapaz de atingir o orgasmo porque demasiado preocupada em separar mentalmente os seus amigos em "ouriços" e "raposas". A piada é boa, claro, mas a herança de Berlin é melhor.

Porque as conseqüências de um jogo aparentemente inocente têm implicações arrasadoras para as grandes construções utópicas que dominaram, de forma particularmente trágica, o século 20.

Hoje, depois da queda do comunismo, é fácil apontar para as ruínas e exclamar que as "utopias" não funcionam. Mas Berlin, que atravessou as ruínas ao fugir da Rússia em 1917, não se limitou a afirmar o óbvio antes de ser óbvio. Berlin foi mais longe e procurou saber por que motivo as "utopias" estavam condenadas a fracassar.

E, para Berlin, as "utopias" estavam condenadas por uma razão conceitual da maior importância. Quando falamos de "utopia", falamos de um estado perfeito: uma realidade onde os valores mais caros à existência humana -a liberdade, a justiça, a igualdade- se encontram na sua expressão máxima. Falamos de uma realidade onde existe a liberdade máxima, a justiça máxima, a igualdade máxima.

Infelizmente, esse mundo não passa de uma ilusão. Não apenas pelas razões empíricas que nos levam a concluir que jamais foi possível habitar tal mundo.

Mas porque os valores mais caros à existência humana são múltiplos e nem sempre compatíveis entre si. Podemos ter alguma liberdade, alguma justiça, alguma igualdade. Mas a liberdade total dos lobos significa apenas a morte dos carneiros.

O que resta, então? Para Berlin, resta a certeza de que é necessário escolher: uma escolha nem sempre fácil e onde a perda é real. Exatamente como nas nossas vidas anônimas e privadas, onde não é possível ter tudo.

Não por sermos fracos, ignorantes ou confusos. Mas porque essa é a natureza dos valores: abraçar uns é excluir outros.

Por isso, as "raposas" levam vantagem sobre os "ouriços" ao aceitarem a perda como inevitável. Para Berlin, os "ouriços" procuram impor a idéia perfeita e redentora que os move.

Mas essa idéia, desde o início, transporta uma bomba-relógio que a acabará por destruir, destruindo todos em volta.

Depois de um século bem utópico e bem tenebroso, o progressivo desaparecimento dos "ouriços" é um fenômeno a festejar. Apesar da tristeza do meu velho professor.

ELIANE CANTANHÊDE

Pra quando o Carnaval chegar

BRASÍLIA - Como bem registrou o "Painel", quando Mantega e Paulo Bernardo anunciaram o "pacote de janeiro", aumentando o IOF e a CSLL, a toda-poderosa Dilma Rousseff tinha acabado de sair de férias. Estava longe de Brasília.

O ex-ministro Rubens Ricúpero dizia que "o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde". No atual governo, a frase lapidar foi adaptada para: "O que é bom a Dilma mostra e, quando é ruim, a gente esconde a Dilma".

Na hora de anunciar e comemorar que a Petrobras descobriu o megacampo de Tupi? Chame-se a Dilma! É para anunciar e chorar que dois impostos serão aumentados? Esconda-se a Dilma!

De férias, a ministra está livre do deus-nos-acuda de Brasília neste início de ano, em pleno recesso parlamentar. O governo perdeu R$ 38 bi sem a CPMF, espera recompor uns R$ 10 bi subindo os dois impostos e precisa passar a tesoura nos gastos para fechar a conta.

Mas ninguém quer saber de tesouradas. Nem os parlamentares, que seguram seus mandatos à custa de emendas ao Orçamento, nem os ministros, que, sem verbas, não são nada.

Então, temos dois contra todos: Paulo Bernardo e José Múcio (da Articulação Política) contra a Esplanada dos Ministérios inteira e mais a Praça dos Três Poderes (incluindo o Judiciário).

Dilma? Não sabe, não viu. Só deve reaparecer lá pelo dia 22, para a festa de um ano do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) -se houver festa. A expectativa é que Lula vá livrar os programas sociais e o PAC, mas ele avisou ontem que será preciso "cortar na veia".

Não fazia sentido (como se viu depois) Lula negar o óbvio aumento de impostos, mas faz todo o sentido tentar preservar o Bolsa Família, que sustenta a popularidade do próprio Lula, e o PAC, que sacode a candidatura Dilma pra quando o Carnaval chegar. O Carnaval de 2010, evidentemente.

elianec@uol.com.br


08 de janeiro de 2008
N° 15472 - Liberato Vieira da Cunha


Luar de verão

Convivo cordialmente com uma Porto Alegre divorciada dos calendários. Por toda esta área do Centro, a paisagem mudou. Quadras inteiras se transformaram em paredões de aço, cimento e vidro, engolindo meias-águas e sobrados.

Há, contudo, um trecho que sobreviveu a andaimes e elevadores. Fica bem aqui perto, em trechos da Demétrio Ribeiro, da Fernando Machado, da General Auto e adjacências.

Supondo que você saiba o que é a palavra adjacência, não deve desconhecer o que venha a ser relíquia. Pois é o que são essas casas das redondezas.

Enxertadas aqui e ali por uns raros edifícios, mantêm-se como eram há 80 ou 90 anos, para ficar apenas nas mais jovens.

Não compõem um bloco harmônico. Um quarteirão pode começar com umas moradas de porta e janela e converter-se sem aviso numa formação de vivendas de três andares.

O que resta, apesar de tudo, é um equilíbrio de modos e de idades absolutamente ausente no sobrante da Capital, descontados os modernos condomínios, mas não é disso que estou falando.

Ao que a paisagem denuncia, houve nas duas ou três décadas iniciais do século passado uma espécie de tranqüilo boom imobiliário.

Senhores de vastos terrenos, nesta zona que não é bem Centro, nem Cidade Baixa, ou preencheram espaços baldios, ou converteram ranchos em habitações dignas do nome, ou, ainda, ergueram, de pisos térreos, solares com o gosto da altitude.

Ainda ontem passei por ali.

Olhei menos a arquitetura em pedra do que essa cimentada em vida.

Naquela esquina deve ter vivido o dono de um armazém de secos e molhados. Chamava-se talvez Manuel e tinha orgulho de seus bigodes e de uma ida noite de paixão com uma Inês, no outro lado do Atlântico.

Num quarto daquela pensão morou um estudante de Farmácia, que mais de fórmulas cuidava do coração de uma vizinha, a qual ele tratava com a infinita aplicação dos enamorados pelas ciências do amor.

E no sótão daquele torreão sobrevivia uma moça tão bela quanto abandonada.

De dia lavava escadas e assoalhos. Mas à noite, por uma mínima janela, flertava, encantada, com o luar de verão.

Uma ótima terça-feira, especialmente a você, mesmo com temperatura acima de 30 graus e com sol forte neste Rio Grande do Sul.


A LITERATURA NOS TEMPOS DO CINEMA

Ver 'O Amor nos Tempos do Cólera', filme de Mike Newell, baseado no livro de Gabriel García Márquez, despertou a minha atenção para três aspectos historicamente relevantes, mas nem sempre destacados pelos observadores:

não é de hoje que Paris atrai as mulheres, especialmente em dois momentos, como promessa de lua-de-mel e quando o casamento vai mal e exige uma medida forte de recuperação; a obrigação ou não de comer berinjela pode abrir ou fechar as portas do paraíso; adaptações de grandes livros normalmente resultam em pequenos filmes.

De qualquer maneira, o filme, a exemplo do livro, consegue fazer mais um inventário da psicologia feminina, tendo como estudo de caso uma bela colombiana do final do século XIX e começo do século XX.

Fermina Daza, a musa de um homem capaz de esperar por ela mais de 51 anos, gostava de Paris, que não conhecia, detestava berinjela, que nunca tinha comido, e amava um rapaz porque não o tinha observado com mais atenção, o que acaba fazendo em menos de 30 segundos – depois de uma longa separação imposta por seu pai –, tempo suficiente para o despachar e cometer o erro da sua vida. Ou da vida dos dois.

Quer dizer, se erro houve, pois, nesse meio tempo, Florentino, o eterno apaixonado, encontrou ânimo para transar com 622 mulheres e tornar-se importante como diretor de uma empresa do seu tio.

Fermina teve muitas dúvidas ao longo da existência. Mesmo assim, conseguiu ter filhos, gostar do marido, sentir ciúmes dele, ser feliz e infeliz como todo mundo.

O mais empolgante de 'Amor nos Tempos do Cólera', além do inglês dos colombianos no filme, é a descrição dos costumes da época em que se passa a história. A liberação sexual feminina era total.

As mulheres agarravam os homens nos barcos, nas ruas, no quarto deles, com a mãe do sujeito na sala, no escritório, enfim, em qualquer lugar.

Bastava um sorriso, um piscar de olhos, uma insinuação e, pronto, já estavam uma mulher e um homem fornicando. Acabava sempre dando certo. Só um homem se indignou e matou a esposa infiel. Mas deixou em paz o amante.

Daí a minha hipótese radical e inovadora, neste ano de comemoração de quatro décadas de 1968: a revolução comportamental não começou no maio parisiense, mas na Colômbia, cem anos antes. Os colombianos, como sabemos, andam sempre na vanguarda.

É uma ilusão imaginar que somos mais liberados do que os nossos antepassados. Na verdade, somos muito mais conservadores. Os gregos e os romanos eram libertinos.

Dizem que a queda do Império Romano começou quando César desabou do colo de um gladiador. A Grécia é o berço da civilização ocidental e a cama do maior número de bibas reflexivas da história universal. Os franceses do século XVIII não ficavam atrás.

Quer dizer, não ficavam só atrás. Qualquer posição era boa para eles. Nos livros de Machado de Assis, para não ir muito longe, o número de cornos e de esposas infiéis é superior a qualquer outra categoria socialmente respeitável.

A convivência, não raras vezes, era pacífica e todos iam juntos ao teatro. Aí está, certamente, uma boa maneira de recuperar o gosto do público pelo teatro nestes tempos de televisão em casa.

As novelas de televisão é que mudaram os costumes. Ou terá sido a redescoberta pelos franceses, em maio de 68, de uma receita colombiana afrodisíaca de berinjela?

juremir@correiodopovo.com.br


08 de janeiro de 2008
N° 15472 - Paulo Sant'ana


Além do limite

A o meu redor, em toda parte que estou ou vou, todas as pessoas se traçam limites. E vão até aqueles limites, não os transpõem.

Traçam limites na bebida, no cigarro, no jogo, na diversão, nos negócios, em tudo as pessoas se regram para não ultrapassarem em sua conduta as promessas que fazem a si mesmas.

Quero dizer que sou igual a essas pessoas todas que se traçam limites, creio que a maioria das pessoas é assim.

Eu também me traço limites. Só que não cumpro nenhum limite que me traço. Transponho todos os limites que marco para mim. Ultrapasso todos os meus limites, fumo mais do que deveria, como mais doces do que deveria, amo mais do que deveria amar, entrego-me como refém dos meus amores e dos meus amigos mais do que deveria me entregar, eu sou um desbragado.

Supero, vou muito além dos meus limites nos cigarros, nos doces, em todos os prazeres e em todos os vícios, nos meus sofrimentos, nas minha aflições, nas minhas preocupações.

Acho que por me recusar a ser limitado.

Atualmente, passo por dificuldades financeiras, que pretendo serem sazonais. Ganho muito bem, mais do que mereço, tenho diversas fontes de renda, mas me apertei. Talvez porque tudo que ganho partilho com outros.

Quem não se aperta neste Brasil infame em que a cesta básica subiu em Porto Alegre no ano de 2007 cerca de 18%? E o governo e seus áulicos dizendo que está tudo bem. Quem não se aperta?

Pois bem, eu me apertei. Estou fazendo das tripas coração para me safar dos meus compromissos.

Como já disse, ganho muito bem. Mas é que nos últimos meses as minhas despesas se tornaram maiores do que os meus ganhos.

Cedo, bem cedinho, com certeza, torço eu, creio eu, estarei me desvencilhando dessa dificuldade financeira.

Enquanto não me desvencilhava, ontem eu estava me barbeando, quando bateram duas vezes na minha porta.

Gritei, perguntando quem era. A pessoa respondeu, do lado de fora da minha casa, gritando: "Uma esmola! Uma moeda!".

E eu, ainda gritando: "Pode botar por baixo da porta".

Parei meu carro na sinaleira da Ipiranga com Erico Verissimo. Abordou-me um rapaz alto, forte, enorme, cheio de saúde.

Pediu-me uma moeda. Eu disse a ele que não era possível dar-lhe a moeda. Ele me perguntou por que não era possível.

Eu lhe disse que passava por 210 sinaleiras por dia, se fosse dar uma moeda para todos que me pedissem nas sinaleiras, iria gastar R$ 210 por dia, por mês seria uma despesa de R$ 6,3 mil.

"Quer dizer então que o senhor nunca dá moeda na sinaleira?", indagou-me o rapagão.

Eu respondi que dou, mas só R$ 2 por dia, duas moedas, uma numa sinaleira, outra na outra.

Ele ainda teve tempo de me dizer: "Então vamos fazer o seguinte: o senhor passa aqui todos os dias. Reserve e dê essas moedas só para mim, sempre, tio?".

Esses dias recebeu da Câmara de Vereadores o título honorário de Cidadão de Porto Alegre o bacharel Cláudio Rihan, meu amigo.

Não pude ir lá, eu estava doente. Mas mando-lhe daqui o meu abraço caloroso pela comenda merecidamente recebida.


08 de janeiro de 2008
N° 15472 - Moacyr Scliar


Nomes

Há uns três anos, viajamos a Boston, onde eu tinha de dar uma conferência. A viagem correu bem, mas, quando chegamos, tivemos uma desagradável notícia: a bagagem se extraviara. No balcão da companhia deram-me um número de telefone e pediram para ligar no dia seguinte. Atendeu-me alguém que se identificou como Simon (pronúncia: Saimon), mas que não era uma pessoa:

tratava-se de um programa de computador, formulando questões às quais eu deveria responder: lugar de origem, número do vôo etc. Simon era tão educado quanto um robô pode ser, mas levou dias até que a bagagem aparecesse. Resultado: fiquei com um trauma em relação ao nome Simon.

Assim vocês podem imaginar qual foi a minha reação quando, precisando de uma informação, liguei para a TAM e ouvi, do outro lado: "Aqui quem fala é o Saimon".

Pensei que estava sofrendo de um delírio paranóico, mas não, o funcionário chama-se mesmo Saimon. Ao contrário de seu homônimo americano, foi muito gentil e prestativo, resolvendo o meu problema. Cheguei a uma conclusão: quando Simon vira Saimon as coisas (com perdão do nosso grande Pedro Simon) melhoram muito.

Nomes que condicionam destinos. O Dr. René Guedes da Luz Filho lança luz sobre o assunto mencionando o nome de um veterinário chamado Dr. Cação. Só não consegui descobrir se ele é ictiólogo, acrescenta o Dr. René.

O Ramão Marques (Caxias do Sul), fala em uma senhora Leda Penteado, que é cabeleireira. O Sergio Aguinsky apresenta-nos um automobilista alemão que se chama Frank Biela.

O Jorge Olintho Pires diz que há um médico anatomista de sobrenome Tirapele. O Dr. Geraldo da Camino, conhecido jurista, lembra o nome do promotor mineiro que investigou a fraude do leite: Cristiano Cassiolato. Numa área similar, a dos nomes que causam constrangimento, o Dr. Nelson Nascimento, advogado, diz que existe uma moça chamada Vaselina Modes (sic).

O Sergio Thomas, que é gaúcho e mora em Natal, viu, num supermercado, o nome da garota do caixa, Jonhyevelita. A Rosiléia Germann conta como nasceu seu nome: "A sugestão veio de um amigo dos meus irmãos, provavelmente fã da Jovem Guarda: Rosiléia = Rosemary + Wanderléa".

O Cleber Zanatta cita outros nomes estranhos: Deyverson (que é filho da Ilvaniana), Anny Christine e Bryan Rodrigues Rodrigues (isto mesmo, dois Rodrigues).