domingo, 6 de janeiro de 2008



DANUZA LEÃO

Os novos não-fumantes

A TV mostrou um resistente, dizendo que vai continuar a fumar, e mais: que não vai pagar multa nenhuma

PARIS 1º/JANEIRO - Podem os oceanos inundar os continentes, podem as geleiras derreter, na França inteira, hoje, só existe um assunto, um único assunto:

a proibição de fumar nos restaurantes, cafés, discotecas, em qualquer lugar público fechado. Na televisão não se fala de outra coisa, e vários jornais estamparam em manchete: é proibido fumar.

Franceses são grandes fumantes; alguns são tolerantes, dizem que a lei é a lei, mas a grande maioria é contra. Sobretudo os proprietários dos cafés, que sabem que seus clientes, que pedem uma bebida ou um simples café, lendo um jornal, têm o hábito -para não dizer o vício- de passar horas sentados, olhando o mundo passar; e fumando, é claro.

As multas são altas: 78 euros (cerca de R$ 200) para os desobedientes, 150 euros (quase R$ 400) para os donos dos estabelecimentos e 750 euros (R$ 1.800) para os que facilitarem a vida dos fumantes, deixando cinzeiros sobre as mesas, por exemplo.

Mas existem os revoltados; a televisão mostrou um resistente, dizendo que vai continuar a fumar, e mais: que não vai pagar multa nenhuma, e pronto. Um francês mal humorado consegue ser mais mal humorado do que qualquer raça mal humorada do mundo.

As autoridades foram gentis; no primeiro dia do ano ainda foi tolerado o fumo em lugares públicos, mas, apesar da gentileza, um café ao lado do meu hotel estampou um cartaz, escrito à mão, dizendo: "fumem cada vez mais". Só um francês para ser tão provocador.

Mas há uma certa dúvida na alma de todos; a lei vai ou não pegar? A brigada contra o tabaco se mobilizou, e a maior parte dos anúncios na TV é de adesivos, chicletes e comprimidos para tirar a vontade de fumar.

À meia-noite de terça-feira os últimos cigarros foram apagados, e o clima era dos condenados à morte fumando seu último cigarro.

Paris 2/janeiro - Passei o dia percorrendo os cafés de Paris. O ambiente era curioso; nenhum cinzeiro nas mesas, e o assunto continuava um só: a proibição de fumar (e os fumantes todos falando mal de Sarkozy).

Alguns punham um maço de cigarros e um cinzeiro na mesa, só para implicar, mas os não-fumantes ficavam de olho, e quando um dos revoltados tentou acender o cigarro, foram eles os primeiros a reclamar.

A sorte é que, com a temperatura amena -4C-, as calçadas estão cheias de mesinhas onde as pessoas têm liberdade para fumar (ainda). E alguns anúncios de apartamentos e studios para alugar já especificam: não aceitam fumantes.

A França está começando a mudar, e pequenas coisas vão modificar a vida das pessoas. Todos os colégios do país davam um dia por semana de descanso, às quartas-feiras.

Agora vai ser diferente: como todo o resto do mundo, a folga será no sábado, o que vai permitir que as famílias passem o fim de semana inteiro juntas, o que pode não parecer, mas será uma revolução nos hábitos.

Agora, uma curiosidade minha: como é que um presidente da República começa um namoro?

Onde eles vão, num primeiro encontro? Como ele cortejou a moça, convidou para jantarem juntos? E onde terá sido, no Elysée? E depois da viagem que fizeram, se o affair continuar, como será o próximo encontro?

Ela tem que ficar esperando que ele abra uma brecha em seus compromissos para poder vê-la, imagino, mas ela vai ter que esperar trancada em casa, à disposição? E será que eles passaram juntos a noite do Réveillon?

Escrevo mascando um chiclete, que remédio. Mas daqui a pouco vou botar um casaco bem quente e sentar no terraço de um café; adivinha para quê?

danuza.leao@uol.com.br


O mau exemplo das "pontes'

OS AMERICANOS usam e abusam da expressão "time is money". Mas há uma certa razão para isso. O tempo é um bem muito precioso.

O governo de São Paulo estimou que, em 2007, foram gastos R$ 235 milhões com as faltas dos professores de primeiro grau por motivos atribuídos a doenças. É um número impressionante, que resulta em sério prejuízo para o ensino.

A maioria dos professores não falta, é verdade. Mas a média de ausências é de 32 dias anuais. Isso é muito quando se leva em conta que o ano letivo tem apenas 200 dias.

Em boa hora, o governo do Estado de São Paulo enviou à Assembléia Legislativa um projeto de lei que limita essas faltas a seis por ano, a menos que haja parecer de perícia médica estabelecendo em contrário -ninguém pode dizer que o professor pode adoecer apenas seis dias por ano.

Mas o problema de excesso de faltas não se limita à área da educação. Na saúde também há muitas faltas. E, no Poder Legislativo, nem se fala.

Em 2007, 75% dos deputados federais faltaram a mais de 25% das sessões -há casos de 50%-, lembrando que naquela Casa o expediente efetivo é de apenas três dias por semana -de terça a quinta-feira.

Seria injusto não mencionar o grande número de dias não trabalhados no setor privado. A maioria é sancionada por lei, que estabelece paradas obrigatórias. Outra parte é aprovada pelas próprias empresas, que adotam o sistema de pontes entre os feriados e os fins de semana.

O ano de 2007 foi pródigo. A primeira ponte foi no Carnaval, pois ninguém é de ferro... O dia 1º de maio caiu numa terça-feira, o que ensejou o enforcamento da segunda-feira anterior, 30 de abril.

Corpus Christi caiu numa quinta-feira (7 de junho) e foi emendado com a sexta-feira. O 15 de Novembro também foi quinta-feira, que, em São Paulo, foi emendado até a outra terça-feira em comemoração ao Dia da Consciência Negra.

E os dias 25 de dezembro e 1º de janeiro caíram nas terças-feiras, o que provocou a grande ponte dos dois últimos fins de semana. Pelas minhas contas, foram 21 dias sem trabalho, isso porque a homenagem a Tiradentes caiu num sábado, senão seriam 22 dias.

Para se saber quanto se trabalha efetivamente, há que juntar a esses 21 dias os 52 sábados, 52 domingos e 30 dias de férias, que, no total, chegam a 155 dias sem trabalho -quase a metade do ano, sem nos esquecermos de que o descanso é sagrado.

Esse assunto me intriga, porque o brasileiro é um povo trabalhador por excelência.

antonio.ermirio@antonioermirio.com.br


ELIANE CANTANHÊDE

Quem dá mais?

BRASÍLIA - Apesar das eleições presidenciais nos EUA e municipais no Brasil -ou, ao contrário, justamente por isso-, 2008 tem tudo para ser... um ano da economia, de incertezas na economia.

A invasão do Iraque, gerada por uma mentira e geradora de milhares de mortos, aos poucos cede espaço à questão econômica na eleição americana: o dólar não pára de cair, o petróleo não pára de subir, crise do sistema habitacional, imigração, impostos. É isso o que mexe no bolso e no voto dos eleitores.

Enquanto os candidatos de lá tentam acertar discurso e prumo, o grande desafio por aqui é saber para onde vai a economia norte-americana e quais seus reflexos no Brasil.

Disso depende muita coisa, inclusive a resposta a uma pergunta que não quer calar: o "pacote de janeiro" (aumento de IOF e CSLL) vai parar por aí, ou vem mais pelo meio do ano? Lula e Mantega vão jurar que não, mas a gente bem sabe que isso não significa nada.

Além da pressão externa, num ano delicado na maior potência mundial, o governo vai também estar sujeito a fortes pressões internas, num ano delicado para milhares de candidatos a prefeitos. O governo tem que segurar gastos, os seus candidatos têm que gastar.

Tudo isso com a oposição gritando no seu (do governo) ouvido: "Abaixo os impostos, abaixo os impostos". E torcendo para que o tema caia na boca do povo, ou nas urnas de 2010.

Lula, portanto, deu de bandeja dois presentes para os adversários: abriu o ano com a pauta que eles queriam e não conquistou a solidariedade dos próprios aliados, que não sabiam de nada.

Com a agenda parlamentar pobre e o Congresso quase parando, os impostos estarão no centro da política e dos palanques. A oposição vai ficar gritando contra eles. E o governo, na contramão, ameaçado pela conjuntura externa e interna de ter de aumentá-los ainda mais.

elianec@uol.com.br


JOSÉ SIMÃO

Buemba! E este Carnaval que não chega!

Mal passou o Réveillon, já começa a pergunta clássica: "Onde você vai passar o Carnaval?"

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Em 2008, molhe o biscoito! E mal passou o Réveillon, já começa a pergunta clássica: "Onde você vai passar o Carnaval?". Responde que vai passar em Curitiba e com a namorada menstruada. Pronto!

E um leitor me disse que 2007 foi o ano da rabanada. Levou rabanada do chefe, levou rabanada da mulher, levou rabanada da sogra. E tá levando rabanada do Lula!

E 2007 foi o ano em que a Lucianta Gimenez conseguiu pronunciar "quiropraxia". Previsões para 2008: depois da virada, todo mundo se virando.

E o Lula diz que 2008 vai ser o ano do crescimento. Mas tô achando que vai ser o Ano do Estacionamento! Ou então vamos crescer tanto que vamos furar a lona do circo! Não vamos caber nem nas calças!

E o ano começou com uma tragédia que virou piada pronta. Sabe como é o nome do filho e herdeiro político da Benazir Bhutto? BILAWAL. Bilau Bhutto.

Tem que ser o representante internacional do meu PGN, Partido da Genitália Nacional. E um amigo meu chegou da praia e diz que tem fila pra entrar no mar.

Tem que pegar senha. Pega senha na prefeitura! Rarará! E um outro diz que as praias estão tão sujas que não se joga mais frescobol, é bostabol!

Depois da grande virada, todo mundo se virando! Pra pagar imposto. O Lula devia criar um novo PAC: Programa de Ajuda ao Contribuinte!

E sabe por que tributo se chama tributo? Porque os carnês vêm de três em três. De manhã, você recebe três; de tarde, mais três; e de noite, mais 33!

É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês".

Acabo de receber mais um exemplo hilário de antitucanês. É que em Cuiabá tem um centro de convivência para idosos chamado Padre FIRMO PINTO. Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Delivery": companheiro que age por vontade própria. Delivery e espontânea vontade. Rarará. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! O já famoso Estoura Brasil! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

sábado, 5 de janeiro de 2008



06 de janeiro de 2008 | N° 15470
Martha Medeiros


Grisalha? Não, obrigada

Nenhuma mulher, em pleno gozo de suas faculdades mentais, diria que não dá a mínima para seu cabelo

Certa vez, por ocasião do Dia dos Pais, escrevi uma crônica chamada A Dignidade do Grisalho, defendendo que os homens deveriam pensar muito antes de pintar o cabelo, já que o grisalho lhes dava muito mais credibilidade, charme e juventude - isso mesmo, juventude. Citei Giorgio Armani como um desses garotos.

Em contraponto, disse que entendia perfeitamente que mulheres pintassem o cabelo, já que em nós o grisalho passa uma idéia de relaxamento e raramente nos cai bem.

Pois descubro que um dos livros mais comentados por aí tem sido Meus Cabelos Estão Ficando Brancos, Mas Eu me Sinto Cada Vez Mais Poderosa, da americana Anne Kreamer, que, depois de extensa pesquisa de campo, defende que as mulheres não perdem nada em manterem suas melenas ao natural.

Anne defende que ficar grisalha é um ato político, de afirmação. Uma outra espécie de vaidade, muito mais honesta. Com suas mechas acizentadas, as mulheres, como os homens, também ganham mais credibilidade, charme e, por que não, até juventude.

Todos sabem: cabelos escuros, depois de uma certa idade, endurecem o semblante - e eu, que sou praticamente uma índia, não quero escutar mais nada: vou acabar essa crônica e ir pra cama chorar.

Ou seja, aquele truque de ficar loira pra não ficar velha estaria com os dias contados. Nem loira, nem ruiva, nem castanha, nem índia Sioux. Grisalha. É essa a verdadeira mulher moderna, de atitude.

Conceitualmente, concordo com tudo. Menos com a generalização. Que mulher é essa que só tem a ganhar? Qualquer uma de nós? Tá bom.

Recentemente estive no teatro e vi uma mulher com os cabelos curtos e grisalhos. O rosto dela era igual ao da Jaqueline Bisset nos áureos tempos.

Tinha quase dois metros de altura, magérrima e superestilosa. Ela nem precisava de cabelo nenhum, podia ter um balde em cima da cabeça e continuaria um deslumbre.

Mas para a mulher comum, que não chega a medir 1m65cm, que não tem corpo de modelo nem um guarda-roupa estiloso e ainda por cima quer manter os cabelos compridinhos, assumir a grisalhice é um homicídio qualificado contra si mesma.

A autora do livro condena a busca por uma aparência mais jovem. Concordo que não devemos entrar nessa neura: cada uma de nós pode ser atraente na idade que tiver.

Mas o livro trata todas as pró-tinturas como mulheres patéticas que querem ter 18 anos para sempre. Nunca é levantada a hipótese de desejarmos apenas ter uma relação cordial com nosso espelho, mirar-se sem ter vontade de gritar.

O assunto não é sério, mas totalmente trivial também não. Que mulher, em pleno gozo das suas faculdades mentais, diria que não dá a mínima pro cabelo?

Eu, por enquanto, nem penso em cirurgias, botox ou preenchimentos, tenho pânico só de pensar em escarafunchar meu rosto - não que eu não precisasse - , mas me acusar de não ter atitude porque passo um tonalizantezinho de nada já é querer humilhar.

Tenho atitude, sim, principalmente a atitude de pegar o telefone e marcar hora no cabeleireiro.

Quem fala que isso é perder tempo não sabe que bela companhia é um livro enquanto a tintura age. Leve um livro pro salão e ganhe cultura enquanto "perde tempo".

Um cabelo branco, todinho branco, e bem curtinho, acho um charme total. Funciona porque branco é cor. Grisalho é o quê? Cansaço.

Excelente domingo, na praia, no sítio ou na serra. Aproveite.


06 de janeiro de 2008
N° 15470 - David Coimbra


Encontro com Kafka

Tenho cá, incrustada numa estante da minha pequena biblioteca, a História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. Trata-se de uma obra monumental, que se espraia por oito alentados volumes de texto tão informativo quanto saboroso. Em português.

Faço essa ressalva porque Otto Carpeaux era austríaco, veio para o Brasil fugido da Segunda Guerra Mundial e aqui, depois de se tornar íntimo da língua de Camões e Wianey Carlet, é que escreveu sua grande História da Literatura.

O detalhe é que, ao evadir-se às pressas do Velho Mundo, Carpeaux lá deixou a sua, essa sim, enorme biblioteca, exatamente a fonte de consulta com a qual teria de contar para escrever o seu livro. Quer dizer: Otto escreveu tudo...de memória!

Digo isso para deixar claro quem é o homem. Feitas as apresentações, conto que Otto Carpeaux, como seria de se esperar, tinha vasta admiração pelo escritor tcheco-alemão-judeu Franz Kafka. Mais: Otto Carpeaux conheceu Kafka.

A história desse encontro me encantou. Em 1921, Berlim era a capital do mundo intelectual. Tudo de novo, vivo e pulsante acontecia lá.

Otto vivia na cidade como estudante universitário e candidato a escritor, e, a exemplo de todos nessa condição, freqüentava o Café Românico, o correspondente ao Les Deux Margots para os existencialistas de Paris, duas décadas depois.

Algumas mesas do bar estavam reservadas para os já famosos, Heinrich Mann, Arnold Zweig, Werfel. Dessa região, nenhum mortal ousava se aproximar, a não ser que fosse convidado.

Uma noite, o Românico estava especialmente agitado. Não apenas pela presença dos intelectuais, mas também porque entre eles circulava com suas longas pernas uma famosa atriz alemã que granjeava fama de Messalina.

Todos em volta dela, aquela coisa, aquela excitação. Carpeaux, meio desasado, retirou-se para um canto da janela, já ocupado por um rapaz "franzino, magro, pálido, taciturno".

E continua Carpeaux: "Eu não podia saber que a tuberculose da laringe, que o mataria três anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. Apresentou-se: Kauka. Não entendi, perguntei: Como é o nome? Repetiu: Kauka. Não sabia eu outra coisa para dizer que: Muito prazer. E esse foi o diálogo todo; não muito espirituoso, mas histórico.

Ao sair, perguntei a um amigo: Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca? Respondeu: É de Praga. Publicou contos que ninguém entende. Não tem importância".

Os encontros e desencontros de Carpeaux com Kafka não terminariam aí. Cinco anos depois, ele foi até a editora berlinense Die Brücke (A Ponte) a fim de tentar receber por alguns trabalhos que prestara à casa.

O diretor deixou-o esperando por mais de meia hora. Não tendo o que fazer, Carpeaux olhou para os lados e viu uma pilha de livros, todos iguais. Tomou um, abriu-o e começou a ler.

Era a primeira edição de "O Processo", de Kafka. Carpeaux estava distraído, lendo sem prestar muita atenção ao texto, quando um tapa nas costas o surpreendeu. Era o diretor.

- Pagar não posso, meu caro - disse-lhe. - Mas, se você quiser, pode levar, como pagamento, esse volume e mesmo a tiragem completa. O Max Brod, que teima em considerar um gênio esse amigo dele, já falecido, me forçou a editá-lo. É uma droga. Não vendi nem três exemplares. Pode levar tudo!

Carpeaux não aceitou a proposta. Ficou apenas com o volume que havia aberto e o resto foi vendido como papel de embrulho. Justamente aquele volume foi um dos poucos livros que ele conseguiu trazer para o Brasil, durante a Segunda Guerra.

Se tivesse topado o curioso pagamento do editor, Carpeaux seria um homem rico. Mas quem poderia imaginar que Kafka se transformaria no mais célebre, mais cultuado e mais poderoso escritor entre todos os freqüentadores do Café Românico?

Kafka só foi se tornar Kafka muito depois de morto, o que não é incomum em se tratando de escritores. É preciso haver certo distanciamento histórico para apreciá-los como devem ser apreciados.

Com jogadores de futebol, hoje, acontece exatamente o contrário. A fama lhes chega antes da obra. São craques antes de ter jogado. Vide Alexandre Pato.

Não jogou seis meses como profissional, não fez nada realmente importante, mas já tem salário de ídolo, cobertura da imprensa de ídolo e namorada de ídolo. Imagine quando jogar!

Mas, ainda que não jogue, ainda que Alexandre Pato gore, algo se pode dizer: em vida, já foi mais venturoso do que o infeliz Franz Kafka.


06 de janeiro de 2008
N° 15470 - Paulo Sant'ana


Adultérios

Vejamos. O caso de adultério mais célebre de Pelotas está ainda se dando neste momento. Ou seja, um marido continua ainda hoje traindo sua mulher, o que faz há 30 anos.

Explico melhor: repito que o marido vem traindo sua mulher há 30 anos. Ainda pior: o marido mora com a esposa na mesma rua em que mora, a 200 metros da residência do casal, a amante do marido.

Está formado o triângulo amoroso. Falta só dizer neste caso espetacular de Pelotas que o marido não teve nenhum filho - e não o teve até agora - nesses 30 anos com sua esposa.

No entanto, esse marido nos últimos 30 anos teve cinco filhos com sua amante, que mora na mesma Rua Gonçalves Chaves, onde mora mais adiante o casal. Desnecessário dizer que a amante em tela não mora com nenhum homem, apenas cria os cinco filhos do marido da outra.

Sensacional.

Mas o mais espetacular neste caso de adultério em Pelotas é que esse marido infiel chegava todos os dias em casa às 19h, em seguida tomava banho e ia ver o Jornal Nacional, todos os santos dias, na sala de sua casa, em companhia da mulher.

E esse marido infidelissimamente discreto trabalha hoje como gerente de uma empresa na qual ingressou como office boy há 35 anos.

O que quer dizer, como esse marido chegava cedo em casa, que ele traiu sua esposa, nos últimos 30 anos, durante o horário de expediente na empresa.

É como sempre digo: os adultérios se dão, seja o homem adúltero ou a mulher infiel, em horários imprevisíveis.

Já o caso de adultério mais famoso em Passo Fundo é o do homem casado que teve filhos trigêmeos. Mas não com sua mulher. E sim com uma amante, também de Passo Fundo.

É muito azar do cara, casado, pai de um só filho com a esposa, foi ter filhos trigêmeos com a amante.

Para um pequeno círculo de pessoas silenciosas em Passo Fundo, este é o maior escândalo socioconjugal da história da cidade.

Pior que isso foi o que aconteceu bem perto daqui, na Avenida Ipiranga, Porto Alegre.

A baixinha era esposa do baixinho. Todas as noites, chegava à residência do casal uma loira de quase dois metros de altura. A loira era amiga da baixinha e por conseguinte ficou amiga do marido dela, o baixinho.

Todas as noites os três jogavam cartas na casa do casal, depois jantavam ou faziam um lanche, até que a loira embarcava no seu carro e ia embora para seu apartamento, no Centro, onde morava sozinha.

Passaram-se três anos e todas as noites, menos domingos, quando os três não jogavam cartas na casa do baixinho e da baixinha, a loura de quase dois metros de altura ficava no sofá da sala conversando com a baixinha, enquanto o baixinho se embalava de pijama na cadeira de balanço da mesma sala.

Até que um dia estourou a notícia no arrabalde: a loura gigante tinha tirado o baixinho da casa da baixinha e estava morando com ele no seu (dela) apartamento do Centro.

E veio me dizer uma outra amiga da loura que joga agora cartas com ela, no apartamento em que ela mora agora com o baixinho, que enquanto as duas conversam todas as noites no sofá da sala, o baixinho, de pijama, fica se embalando numa cadeira de balanço muito melhor do que aquela que lhe destinara em seu ex-lar a baixinha.

Ah, os adultérios atuais e os adultérios em gestação!


06 de janeiro de 2008
N° 15470 - Moacyr Scliar


A quem pertence o futuro?

O que está adiante depende de nossa história. Freud se deu conta disso quando determinou que os sonhos são extremamente reveladores dos conflitos pessoais

A mudança de ano é uma época de previsões, de adivinhações, de profecias. Diz-se que o futuro a Deus pertence, mas isso não impede os seres humanos de, ao menos ocasionalmente, dar uma de divindade, tentando descobrir o que lhes reserva o porvir. As pessoas recorrem para isso a meios variados: bola de cristal, tarô, astros.

O mundo está cheio de profetas amadores. E acertam? Às vezes sim, às vezes não. Às vezes a adivinhação ou a profecia depende mais da esperteza ou do bom senso do que qualquer outra coisa.

Tomem o sonho do faraó, que José interpretou. O soberano sonhou que sete vacas magras devoravam sete vacas gordas. Interpretação de José: as sete vacas gordas corresponderiam a sete anos de colheitas abundantes, ao cabo dos quais se seguiriam sete anos de carência.

Portanto, era bom guardar grãos para o período das vacas magras ( a expressão ficou consagrada). O faraó fez isso, evitou que os egípcios passassem fome e José foi promovido a ministro, com todas as mordomias do cargo.

Agora, queridos leitores, pensem um pouco. Será que esta previsão era tão difícil de fazer? Afinal, na natureza as coisas ocorrem por ciclos, chuva alternando com seca, boas colheitas alternando com más colheitas.

José sabia disso. O faraó também. E os temores do faraó se traduziram nas imagens oníricas que o rapaz interpretou.

Mas há uma situação ainda mais interessante. É aquilo que os americanos chamam de "self fulfilling prophecy" a profecia que se auto-cumpre.

O que é muito evidente na área da especulação financeira, uma área em que a esperteza compete com a superstição. O espírito de manada, como diz o pessoal da Bolsa, faz o resto e aí tudo pode acontecer.

Foi desta maneira que os Rotschilds, famosos financistas, enriqueceram. Um dos irmãos Rotschild operava na Bolsa de Londres. Num dia célebre estava em curso a batalha de Waterloo, cujo desfecho era aguardado com a maior expectativa.

Se os ingleses vencessem, as ações de companhias britânicas disparariam; se os franceses de Napoleão ganhassem, o contrário aconteceria. À época não havia e-mail, ou telefone, ou mesmo telégrafo, de modo que as notícias só poderiam chegar trazidas por mensageiros. E os Rotschilds, todos sabiam, tinham um ótimo serviço de mensageiros.

De repente entra na Bolsa um homem e entrega um papel ao Rotschild que lá estava. Era, claro, o anúncio do vencedor de Waterloo. Todo mundo ficou atento ao que o financista faria. E ele começou a vender papéis ingleses.

Conclusão: Napoleão tinha vencido, agora viria a derrocada inglesa. Foi uma corrida louca para vender, os preços simplesmente desabando. Poucos minutos antes de encerrar o pregão Rotschild comprou tudo, a preço de banana (mais barato que banana, aliás, que lá era uma fruta cara).

O futuro a Deus pertence? Sim, mas também pertence a nós. O nosso futuro depende de quem somos, de nossa história pessoal. Freud se deu conta disso quando concluiu que os sonhos são extremamente reveladores dos conflitos pessoais.

E os conflitos pessoais, por sua vez, condicionam o futuro. O escritor americano James Thurber disse, várias vezes, que morreria enquanto sua mulher estivesse no cabeleireiro.

Uma tarde em que ela estava arrumando o cabelo, ele, em casa, teve um ataque cardíaco e faleceu. Coincidência?

Ou o resultado de um impulso agressivo que, dirigido à mulher, acabou se voltando contra o próprio Thurber, sob forma de uma emoção violenta causando um enfarte?

Dá para preparar um futuro melhor para nós. Para isso, temos de entender quem somos, o que significa nosso passado. E temos de viver com equilíbrio e sabedoria o nosso presente.

Imprevistos à parte, o futuro será uma decorrência disso. A ele chegaremos tranqüilamente. Se não acelerarmos demais nas estradas, claro.


06 de janeiro de 2008 | N° 15470
Luis Fernando Verissimo


Glórias

Einstein podia reivindicar uma glória de descobrir igual à glória de Deus em ocultar, embora nunca tenha abandonado sua devoção quase religiosa ao determinismo harmônico do Universo

"A glória de Deus é encobrir, mas a glória dos reis é tudo investigar", disse Salomão ("Provérbios" 25:2). Muitos séculos depois, o inglês Sir Francis Bacon deu um conselho curioso aos que estudavam a Natureza: eles deveriam desconfiar de tudo que suas mentes aceitassem sem hesitação.

Talvez fosse uma maneira de prevenir contra a ilusão de que qualquer descoberta humana fosse completa, ou tivesse completamente desvendado o que Deus encobrira.

No momento (século 17) em que crescia a idéia herética de que existia um metafórico Livro da Natureza tão cheio de mensagens de Deus para os homens quanto o Livro dos Livros, Bacon aconselhava a Ciência a não desprezar o que diziam os mitos e as Escrituras. A glória de Deus se manifestava de várias formas. Alguma eram apenas mais poéticas do que as outras.

Num livro chamado Labyrinth, sub-intitulado Uma Busca pelo Significado Escondido da Ciência, o autor americano Peter Pesic (professor de música, diplomado em Física, não sei muito mais sobre ele) escreve que a primeira "mensagem" assim identificada do Livro secular da Natureza foi o magnetismo,

que só começou a ser estudado a fundo pelo inglês William Gilbert, contemporâneo de Bacon na corte da rainha Elizabeth I, de quem era médico.

O magnetismo era a prototípica evidência de uma força invisível na Natureza, a primeira alternativa à pura vontade de Deus como algo por trás de tudo. Segundo Pesic, Albert Einstein contava que o presente de uma bússola, quando era menino, lhe dera a primeira sensação desta força misteriosa, e o primeiro ímpeto de desvendá-la.

Mais do que ninguém, Einstein podia reivindicar uma glória de descobrir igual à glória de Deus em ocultar, embora nunca tenha abandonado sua devoção quase religiosa a um determinismo harmônico do Universo, atribuindo-o a Deus ou a que outro nome se quisesse dar ao indesvendável.

Mas Einstein não seguiu o conselho de Francis Bacon, de desconfiar do que o satisfazia. Satisfez-se tanto com suas certezas que passou os últimos anos da vida buscando uma teoria unificada da gravidade e do eletromagnetismo que refutasse a teoria quântica que as ameaçava, e tornava a matéria e seu comportamento inexplicáveis em qualquer linguagem, científica ou poética.

Pois aceitá-la seria aceitar um Universo regido pelo acaso, ou pela estupidez, ou pela ironia (já que partículas subatômicas tendem a se comportar - por exemplo, de um jeito quando são observadas e de outro quando não são - com evidente gaiatice).

Ou tornado absolutamente obscuro por um Deus ciumento, cioso da sua glória e indisposto a compartilhá-la com quem quer que fosse, mesmo com um Einstein.

Quando recém se começava a falar em partículas subatômicas e seu estranho procedimento, o físico dinamarquês Niels Bohr disse que elas só poderiam ser descritas usando-se a linguagem como na poesia.

Um sombrio reconhecimento de que a linguagem racional não teria como acompanhar a especulação científica e estava condenada à analogia e à aproximação inexata.

Assim os físicos falam em teorias das cordas, em um universo em forma de donut ou de bola de futebol, e isso é apenas o som da mente humana se chocando contra os limites da linguagem, como moscas (para usar outra analogia) na vidraça.

Einstein morreu sem se resignar à idéia de que a verdadeira e inexpugnável glória de Deus começa onde termina a linguagem humana.

André Petry

Será mais um basta?

"O problema no trânsito, como em tudo o que se refere ao crime, está onde sempre esteve: na impunidade. Pena mais dura nunca
resolveu nada. Fosse assim, pena de morte seria barbárie, mas eficaz, e não é"

O Brasil talvez seja o único país em que quase toda família tem para contar um caso de assalto, um acidente de trânsito e uma campanha de basta.

Somos cheios de bastas. Não adianta nada porque basta de brasileiro é como promessa de político: só vale no calor da hora. Qualquer cidadão já ouviu falar em campanha de basta de violência no trânsito. Não deve haver capital no país que não tenha feito a sua.

Agora, com a matança nas estradas brasileiras no Natal, quando se deu a trágica confluência de aumento da frota, estradas esburacadas e motoristas amalucados, devem acontecer mais bastas.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, já anunciou o seu. Até o fim do mês, vai lançar o remédio ao qual toda autoridade recorre na emergência: pacote.

O tal pacote deve prever penas mais duras, talvez até com o polêmico confisco do carro do reincidente. Seria ótimo se funcionasse, mas o problema brasileiro no trânsito, como em tudo o que se refere ao crime, está onde sempre esteve: na impunidade. No país onde é preciso repetir o óbvio, é óbvio que pena mais dura nunca resolveu nada.

Fosse assim, pena de morte seria barbárie, mas eficaz, e não é. O que combate a impunidade é uma coisa singela: punição. Pode até ser pequena, mas tem de existir.

Nos Estados Unidos, Paris Hilton passou 23 dias em cana por dirigir embriagada. Mel Gibson tomou pena de três anos sob liberdade assistida.

Em 2005, quase 1,5 milhão de americanos foram autuados por dirigir bêbados. Para ser punido, não precisa ter causado um acidente. Basta ter bebido. E aqui?

Em dezembro de 1995, Edmundo, o jogador de futebol, causou um acidente que matou três pessoas. Foi condenado a quatro anos e meio de prisão. Entrou com recurso para reduzir a pena. Não deu.

Tentou de novo. Não deu. Tentou outra vez. Também não deu. Tentou sete vezes. Perdeu todas. Mas, passados doze anos, até hoje não foi para a cadeia.

Em 2004, numa cena inesquecível da antologia da impunidade nacional, Edmundo foi visto no desfile da Mocidade Independente. O enredo, patrocinado pelo Detran, era Não Corra, Não Mate, Não Morra. Como deboche, uma pérola.

Num caso recente, alguém apostaria um vintém na prisão do promotor Wagner Juarez Grossi? Em outubro passado, o promotor atropelou e matou um casal e uma criança de 7 anos em Araçatuba, no interior paulista.

Estava com "embriaguez moderada". Se pegar menos de quatro anos de prisão, Gross não irá para a cadeia. Será triplo homicídio punido com serviços à comunidade.

O festival de impunidade resulta de uma sociedade mal-educada e permissiva, que aceita tudo depois do último basta. Campanhas educativas, portanto, são fundamentais, mas as autoridades torram dinheiro público com panfletos repetitivos, apelos insípidos, mensagens anódinas.

Em Brasília, o jornal Correio Braziliense fez uma campanha agressiva, criativa e certeira há alguns anos. Resultado: os motoristas da capital até hoje respeitam a faixa de pedestre. Agora, a RBS, o maior grupo de comunicação do Sul, lançou uma campanha inovadora.

Voltadas para jovens e homens, as peças publicitárias trazem belas atrizes globais ao lado da frase: "Se o cara é rapidinho no trânsito, deve ser rapidinho em tudo". O país todo ganhará se a campanha não virar apenas mais um basta.

Ponto de vista: Lya Luf

A dignidade humana

"Enquanto houver uma cela cosm 100 presos onde caberiam quarenta, enquanto houver pátios sujos de sangue, urina e fezes, enquanto houver tortura e injustiças, não teremos direito de falar em lei e direito neste país"

O presídio, pequeno e de um só andar, a que chamávamos "a cadeia", ficava na outra esquina, em diagonal com a esquina de nossa casa. Acordada no escuro, às vezes a menina que eu era escutava gritos vindos de lá.

"Deviam estar batendo em algum dos presos", me diziam de manhã. Aquilo era uma peça perdida no interessante quebra-cabeça do mundo que eu estava descobrindo e já amava.

Pois, há alguns anos, um telefonema da diretora do presídio feminino da cidade onde resido comunicou-me que estavam instalando uma biblioteca para as presidiárias. As "apenadas" queriam dar meu nome ao local.

Ela me consultava para saber "se eu não me ofenderia com isso". Ao contrário, respondi, eu me sentia honrada, de verdade.

Meses depois, novo telefonema: a biblioteca estava pronta, queriam que eu fosse inaugurá-la. Antes, uma visita ao lugar. Refeitório, oficina, ateliê, algumas celas com berços para os filhos – várias presas tinham crianças pequenas, que até certa idade poderiam ficar com a mãe – e a modesta biblioteca me pareceram normais. Havia setores onde não pude entrar. Imaginei que seriam as solitárias.

Não acredito que fossem o chiqueiro imundo de presídios que conheço via imprensa e outros relatos, mais uma prova de que o ser humano tem um lado sombrio preocupante, pois aquilo não é decidido e administrado por psicopatas, mas por pessoas no cumprimento da lei (as perguntas seriam: que pessoas e que leis?).

Vendo minha emoção, minha acompanhante dizia: "Não se impressione demais, aquela vovozinha desdentada matou os três filhinhos da amante do marido. Aquela moça com cara de anjo esfaqueou e mutilou o marido, que a traía". Mas a maioria dos casos, ela me disse, era de "crimes do coração".

Mulheres de todas as idades estavam ali em lugar de seu companheiro: numa batida policial, o traficante botara a droga embaixo do travesseiro, nas roupas dela ou do bebê, e fugira. Apanhada, a pobre fora para a prisão no lugar dele, e em geral elas aceitavam tudo sem o acusar.

No fim da visita, hora de inaugurar a biblioteca, descerrando a placa que me deixaria presente ali definitivamente. Fiquei aflita. O que dizer àquelas mulheres, algumas jovenzinhas, outras já envelhecidas, olhos magoados de criança surrada ou duros como punhais? Eu não havia preparado nada. Não dou conferências.

Converso com as pessoas, divido com elas minha curiosidade ou reflexões. Ali fiquei insegura, me senti pequena, quase miserável – tudo o que eu dissesse estaria errado.

Logo eu voltaria para as ruas, para minha casa, para minha família. Elas ficariam lá, justa ou injustamente, por alguns anos, muitos anos, a vida toda.

Entendi que a única saída era a sinceridade: disse-lhes sem rodeios que estava me sentindo mal, que não tinha palavras, que me incomodava a liberdade de sair em seguida, enquanto elas ficariam.

Não me importavam, ali, nem justiça nem injustiça. Importava o que poderia lhes dizer de pessoa para pessoa.

Lembrei, então, a frase de meu pai para alguém que o visitava quando eu era mocinha, e que me foi relatada anos depois. Estendendo a mão para as fileiras de livros em suas paredes, meu pai apenas disse: "Estes são os meus amigos".

Pois para elas, ali prisioneiras, os livros também poderiam ser conforto e distração. Porta e janela para o mundo. Aula de psicologia, de história, de qualquer matéria. Momento de beleza. Hora de chorar.

Ocasião de abrir os olhos para qualquer coisa que ajudasse a diminuir a dor e dar esperança.

Possibilidade de conhecimento de si, dos outros, de tudo. Entre as modestas prateleiras, estava algo que ninguém poderia lhes tirar: a liberdade de pensar e de sentir, a liberdade de ser gente.

Recordei aquele episódio lendo outro dia notícias sobre a moça presa entre dezenas de homens: ser menor de idade era um detalhe, pois mulher alguma, dos 8 aos 80, pessoa alguma, homem, mulher, adolescente ou criança, pode ser tratada como um animal.

Aliás, corrijo: animal algum pode ser jogado no lixo, em uma cela imunda, apinhada de seres desesperados, enquanto lá fora, nos tribunais e nas cortes, se pronunciam em tom solene palavras pernósticas e frases complicadas sobre justiça, direito e lei.

Enquanto houver uma cela com quarenta homens ou mulheres quando lá caberiam dez, com 100 quando caberiam quarenta, enquanto houver pátios sujos de sangue, urina e fezes, enquanto houver tortura, maus-tratos e injustiças que gritam aos céus, não teremos direito de falar em lei e direito neste país.

Seremos todos, direta ou indiretamente, malfeitores.

Lya Luft é escritora

rafael pereira

"É duro ver um filho paralítico"

O drama do jovem baleado em um assalto no Réveillon contado por seu pai, que também é médico

Uma face pouco conhecida do trabalho de Lídio Toledo, médico da Seleção em seis Copas do Mundo, foram os 40 anos de plantões na emergência de um hospital público carioca.

Ali atendeu muitos baleados. Portanto, sabia o que ia encontrar ao visitar seu filho mais velho, Lídio Toledo Filho, o Lidinho, de 35 anos, vítima desse mesmo tipo de violência.

Mesmo assim, seu emocionado relato retrata a tragédia das famílias vítimas do crime. Na noite do dia 31, a caminho de uma festa com a mulher, Silene, Lidinho foi assaltado e reagiu. O casal foi baleado e sobreviveu, mas Lidinho deverá ficar paraplégico.

ENTREVISTA - Lídio Toledo

VIDA: Lídio Toledo nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Tem 75 anos, é casado com a fisioterapeuta Nilka Dionísio e tem três filhos

CARREIRA: Médico ortopedista há cinco décadas, tornou-se conhecido como médico do Botafogo e da Seleção Brasileira de Futebol. Seus três filhos também são ortopedistas. Lidinho, o mais velho, vítima do assalto no dia 31, divide com o pai uma clínica de ortopedia na Barra da Tijuca

ÉPOCA – O que mudou em sua vida?
Lídio Toledo – Mudou tudo. Eu estava em Copacabana, num apartamento de 8o andar de um amigo meu na Avenida Atlântica. Entrei às 23 horas. Às 23h03 meu telefone toca. Era um policial dizendo que meu filho tinha sido assaltado e baleado.

Não houve Réveillon. Pedi desculpas à família e fui correndo ao Hospital do Andaraí. Devo mencionar e agradecer publicamente o magnífico atendimento que meu filho recebeu lá. A equipe de plantão salvou a vida de meu filho.

ÉPOCA – Quando seu filho chegou ao hospital nesse estado, o senhor já estava lá?
Toledo – Sim. Eu estava lá quando ele chegou de ambulância, sangrando e chocado, e não passou por nenhum exame. Seguiu direto para o centro cirúrgico.

ÉPOCA – O senhor já sabia exatamente o que havia acontecido?
Toledo – Logo fiquei sabendo. Os bandidos estão muito bem organizados, e o Estado está mal organizado. Esse é o problema. É só você olhar o plano do assalto, que saiu nos jornais. Botaram um garoto, menor, para ver se havia algum policial.

Só então a primeira moto partiu para o assalto. Como meu filho reagiu e jogou o carro em cima da moto deles, uma segunda moto veio socorrer os bandidos. Era tudo bem planejado, diferentemente do policiamento.

ÉPOCA – Como o senhor descreveria seu filho?
Toledo – Meu filho é um rapaz de 35 s anos, excelente médico ortopedista, magnífico cirurgião, operava quase diariamente, principalmente joelho. Botafoguense doente, jogava futebol, ia sempre à praia...

Ele trabalhava aqui comigo na clínica, era meu braço direito. De repente, fiquei só. Tenho outro filho médico que mora em Florianópolis e um terceiro que ainda está para se formar. Todos ortopedistas também. Mas ele era o único apto a me ajudar aqui.

ÉPOCA – Como o senhor se sente?
Toledo – Estou triste. É ruim ver um indivíduo jovem, esportista, provavelmente ficando paralítico nas pernas. Ele teve uma lesão medular grave.

Mesmo tendo sido bem operado, é provável que seja irreparável. Foram três tiros de (calibre) 9 milímetros, um na mandíbula, outro no antebraço e o terceiro, o pior, atravessou um pulmão, o músculo diafragma e o baço, antes de transpassar duas vértebras.

ÉPOCA – Como médico e pai, o senhor conseguiu manter-se calmo?
Toledo – Você tem de ver o caso sob dois aspectos. Sob o aspecto médico, eu trabalhei 40 anos no pronto-socorro do Hospital Miguel Couto, de modo que estou superacostumado a ver essa situação.

Tinha baleado toda semana – agora é todo dia. E confiei na equipe. O segundo aspecto é o do pai. Sempre fui católico, praticamente criado no Mosteiro de São Bento, e rezei muito, senti muito.

Mas eu tive de bancar o durão, perante a família e os amigos. Alguém tinha de orientar, transferir a mulher dele para outro hospital, ligar para meus colegas de profissão para que meu filho tivesse a melhor assistência. Deixei um pouco o sentimento de lado para tratar do assunto objetivamente.

" Ele pediu um papel e escreveu um recado para a mãe, enquanto estava lúcido: ‘Mamãe, eu estou melhor. Um beijo, Lidinho’ "
ÉPOCA – Seu filho teve a oportunidade de conversar com o senhor?

Toledo – Agora (manhã da sexta-feira 4) ele está dopado, em coma induzido. Antes, ele falou comigo, mas foram pouquíssimas palavras. Inclusive ele pediu um papel e escreveu um recado para a mãe enquanto estava lúcido. “Mamãe, eu estou melhor. Um beijo, Lidinho.”

ÉPOCA – Ele sabe da gravidade da lesão?
Toledo – Ele não sabe ainda.

ÉPOCA – O senhor imagina qual será a reação dele?
Toledo – Você calcule. Um rapaz de 35 anos com paralisia nas pernas, ortopedista e cirurgião... Vamos ter de fazer um trabalho psicológico muito grande para ele reagir a isso.

Vai ser muito complicado. Ele conhece bem a patologia. Se fosse um leigo... Mas ele está por dentro dos sintomas, não terá nenhuma falsa esperança.

ÉPOCA – Como está sua nora?
Toledo – Está melhor. Ela tomou dois tiros, inclusive um no tórax. Mas não foram profundos. As balas já foram retiradas e ela saiu do CTI.

ÉPOCA – O senhor já teve outros casos de violência próximos de seu cotidiano?
Toledo – Já, claro. O filho do delegado Hélio Vígio, que é muito meu amigo, tomou um tiro também. Teve uma lesão medular e está numa cadeira de rodas. Mas eu nunca imaginei que isso acontecesse em minha família. Uma surpresa profundamente desagradável.

ÉPOCA – O que o senhor espera da polícia e da Justiça?
Toledo – Primeiro eu devo dizer que a Polícia Civil foi sensacional. Resolveram o caso, identificaram os criminosos e nos atenderam muitíssimo bem.

Mas o policiamento em geral, atribuição da Polícia Militar, deixa muito a desejar. As ruas estão abandonadas. Nesse dia não havia nenhum guarda na estrada toda. E acho que as leis precisam ser mais duras.

ÉPOCA – Pensa em mudar-se de cidade?
Toledo – Não, isso não. Sou carioca e adoro minha cidade.

REAÇÃO
Lidinho tentou derrubar a moto do assaltante, bateu e foi baleado a sangue-frio

ÉPOCA – Sua rotina mudou?
Toledo – Já mudou tudo. Aqui na clínica, por exemplo. Era meu filho quem fazia praticamente todas as operações. E eu agora vou ter de voltar a operar, quase dois anos depois de parado. A clínica tem de continuar funcionando. Temos doentes marcados, pós-operatórios delicados a fazer. Mas à noite eu fico lá até bem tarde.

No dia 3, passei rapidamente e, no dia 4, já voltei ao trabalho normalmente. Os doentes não têm nada a ver com o que aconteceu. Para mim é muito difícil. Mas durante o trabalho eu acabo me desligando um pouco do caso. É uma maneira de se distrair, o trabalho.

ÉPOCA – E o apoio dos pacientes?
Toledo – O que tem de telegrama, telefonema ou gente que vem aqui falar comigo, mesmo que sem consulta marcada... Quanto ao apoio deles, eu não tenho do que reclamar.

ÉPOCA – E os amigos?
Toledo – Uma palavra especial foi a do doutor João Havelange. Desculpe... (Toledo chora e pede um minuto para se recuperar.) É difícil um homem chorar assim, mas não tem jeito.

Havelange estava em Angra dos Reis quando soube e me telefonou. No dia seguinte, às 7 horas da manhã, estava na casa de saúde. Ele vai lá todos os dias.

Ele me deu conforto e colocou-se à disposição. É um homem extraordinário. Você me desculpa, de vez em quando acontece. Olha que eu estou me prendendo. Sou um cara meio chorão, mas estou me segurando ao máximo. Às vezes despenco. Despenquei.

ÉPOCA – Antes do ocorrido, qual foi a última vez em que o senhor esteve com ele, que conversaram?

Toledo – Olha, eu vou falar uma coisa que achei estranha. No dia do ocorrido, dia 31, fui à praia com ele e a esposa, aqui na Barra da Tijuca mesmo. Não acredito muito nisso, não, mas notei uma grande alteração no comportamento dele. Estava triste e falando o mínimo possível.

Foi à beira da água, ficou em pé de braços cruzados por uns dez minutos, olhando o mar. Eu estava na barraca e estranhei um pouco. Ele sempre almoçava comigo, e eu o convidei, mas ele recusou.

Quando fomos embora, ele foi andando na minha frente, e não ao meu lado. Não acredito em fantasmas, mas que dá para desconfiar de alguma coisa, dá. O que é, eu não sei.

ÉPOCA – Em que momento da vida ele estava?
Toledo – Magnificamente realizado. Contente com a vida.


05 de janeiro de 2008
N° 15469 - A Cena Médica | Moacyr Scliar


Vale a pena escutar

Há pelo menos duas pessoas interessantes na vida de Alexander Graham Bell, o inventor do telefone.

Uma é o imperador Dom Pedro II, que tomou conhecimento do invento de Bell na Exposição Internacional de Filadélfia, em 1876, e ficou simplesmente maravilhado ouvindo Shakespeare pelo aparelho: "Meu Deus, isto fala!".

A segunda pessoa foi a noiva do inventor, Mabel Hubbard, que era grande companheira e incentivadora. Mabel tinha um déficit auditivo, o que levou o dedicado Graham Bell a confeccionar um aparelho para ajudá-la a ouvir melhor.

Tinha o tamanho de um tijolo e funcionava à base de duas grandes baterias. Ou seja, carregar aquilo era um transtorno quase tão grande como o déficit auditivo. E o pior é que não resolvia o problema.

Quem conta essa história é o doutor Luiz Lavinsky, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e um entusiasta da otologia. Ele destaca o enorme progresso na área: os aparelhos auditivos foram os primeiros a utilizar transistor e circuito impresso para melhorar um problema sensorial.

O primeiro equipamento a atuar na interface entre o ambiente e o sistema nervoso central foi o implante coclear - a cóclea, que tem forma de caracol, é a parte interna do ouvido, essencial para a transmissão do som ao cérebro. Hoje, implanta-se ali um chip capaz de mandar 80 mil sinais para as terminações nervosas.

E as próteses diminuíram de tamanho: do "tijolo" de Graham Bell chegamos hoje às dimensões de um grãozinho de feijão, com a prótese pesando menos de oito gramas.

Esse progresso corresponde a uma necessidade real: cerca de 10% da população tem algum tipo de problema auditivo. Em até 80% dos casos, há solução satisfatória.

Mas é preciso saber encaminhar as coisas. A surdez é um problema em si, mas é, sobretudo a manifestação de uma doença, inclusive tumoral.

E doença quer dizer médico. Como diz o doutor Simão Piltcher, expoente da otologia em nosso meio, a escolha do equipamento tem de ser orientada por um especialista da área.

Caso contrário, poderá representar perda de tempo e de dinheiro e uma frustração que muitas vezes é endêmica entre pessoas que têm esse problema.

Uma velha anedota fala de um homem já idoso que tinha um déficit auditivo severo, mas que se recusava a tomar qualquer providência a respeito. Aos filhos que insistiam com ele, dava uma seca resposta: "Hoje em dia não há mais nada que valha a pena escutar".

Ou seja, uma teimosia que só podia prejudicá-lo e que mostra uma verdade evidente: pior que não escutar os sons do mundo é não ouvir a voz da razão.


05 de janeiro de 2008 | N° 15469
Prazer das Palavras | Cláudio Moreno


O rio Guaíba

Mal rompeu 2008 e os incansáveis micuins do idioma, que não dormem nunca, já começaram a incomodar.

Falando diretamente da Usina do Gasômetro, durante a queima de fogos que saudou a passagem de ano, o jovem repórter de uma rádio local, entusiasmado, comentava o belíssimo espetáculo das luzes e cores refletidas nas águas do rio Guaíba, quando foi interrompido pelo responsável pelo programa, que, em tom amistoso, lascou uma intervenção corretiva:

"É estuário, não é rio" - o que fez o ingênuo reporterzinho, depois de pedir desculpas por sua falha, massacrar o meu ouvido com estuário Guaíba para lá, estuário Guaíba para cá.

E essa agora! Será que alguém imagina que vamos deixar de chamá-lo de rio só porque tecnicamente ele não é um rio? Sabemos que já faz muito tempo que os especialistas vêm debatendo a verdadeira natureza do Guaíba.

Depois de ser rio por dois séculos, passou alguns anos como lago e agora recebe o rótulo de estuário, que chega com ares de classificação definitiva (desde que, é bom lembrar, o próprio conceito de "estuário" não venha, um dia, sofrer alterações, como sói acontecer no mundo do conhecimento).

E daí? Esse rigor definitório é extremamente relevante no recinto reservado dos especialistas, mas aqui fora, no léxico geral do idioma, essas distinções simplesmente não são (nem poderiam ser) levadas em consideração.

Sendo a linguagem uma forma de compreensão e classificação da realidade que nos cerca, só conseguimos distinguir perfeitamente as palavras pertencentes a um mesmo grupo semântico quando as diferenças que elas exprimem têm algum sentido para nós.

Detalhes que são relevantes para uns podem não ser tão relevantes para outros, o que vai se refletir nos vocábulos empregados.

Exemplifico: há alguns meses, um porta-voz da área policial, numa entrevista radiofônica, comentava que a crescente instalação de sistemas de segurança eletrônico nos carros modernos tinha feito baixar consideravelmente o número de furtos de veículos em Porto Alegre.

Por alguns preciosos segundos, todos nós - o entrevistador, eu e todos os demais ouvintes - chegamos a imaginar que a taxa de violência estava finalmente diminuindo, mas foi ilusão que durou pouquíssimo, pois logo o porta-voz se encarregou de estragar a festa:

"Isso trouxe, é claro, um aumento no número de roubos, porque o meliante agora é obrigado a esperar pelo dono do carro para tirar-lhe o comando ou a chave eletrônica".

Para os leigos, furto e roubo são sinônimos; advogados e policiais, contudo, no desempenho de suas funções, sempre distinguirão o furto do roubo porque, no mundo jurídico, roubo implica violência ou ameaça.

Para nós, simples mortais, isso não faz a menor diferença, e todos aqueles veículos levados pelos amigos do alheio serão contabilizados como carros roubados. Quem está certo, aqui?

É claro que todos, pois o critério de correção vai depender do grau de precisão de linguagem que se exige para cada tipo de falante. Para o contribuinte comum, tudo aquilo que ele paga ao poder público é imposto; para o advogado, no entanto, tudo é tributo, que se dividirá, segundo sua natureza, em taxas, impostos ou contribuições.

Eu jamais contrataria um advogado que confunde furto com roubo, ou taxa com imposto, mas não vou criticar o zelador do prédio quando ele aplaude o fim do "imposto" da CPMF ou quando promete que ainda vai descobrir quem anda "roubando" material de limpeza do condomínio.

É assim que a coisa funciona: as palavras são mais elásticas no uso normal, quotidiano, do que no uso técnico e profissional - e isso é bom, e é fundamental que assim seja, ou nossa vida viveria paralisada por crises de exatidão.

Há exemplos assim em todas as áreas; para mim, o condor é um pássaro gigantesco que vive nas alturas geladas dos Andes, apesar dos biólogos afirmarem que ele é uma ave, jamais um pássaro.

Aceito quando um aluno fala no "uso da crase" ou no "A craseado" - mas jamais aceitaria isso de um professor, que é obrigado a distinguir entre o acento grave indicativo de crase e o fenômeno propriamente dito.

A lagoa dos Patos e a lagoa da Conceição, por estarem ligadas ao mar, são tecnicamente lagunas - mas só no mundo acadêmico. Há quem diga que o Mar Morto é, na verdade, um grande lago - mas ninguém vai se pôr a chamá-lo de "Lago Morto".

Um aterro fez com que a ilha do Retiro, onde fica o estádio do Sport Recife, deixasse de ser ilha, mas ninguém pensa em trocar seu nome por "aterro do Retiro".

Por tudo isso, seja lago, estuário, laguna ou mesmo mar, o Guaíba sempre será referido como o rio Guaíba, em cuja margem se ergue o altaneiro Gigante da Beira-Rio - e não "Beira-Estuário", o que é um argumento de peso mundial, reconhecido até pela Fifa...


05 de janeiro de 2008
N° 15469 - Paulo Sant'ana


Versos íntimos

Eu gosto muito da história que vou reproduzir no parágrafo posterior porque ela trata de um princípio e sentimento que tento cultivar, embora não o consiga muitas vezes: a lealdade entre as pessoas.

A história é a seguinte:

- Meu amigo não voltou do campo de batalha, senhor. Solicito permissão para ir buscá-lo - disse um soldado ao seu tenente.

- Permissão negada - replicou o oficial. - Não quero que arrisque a sua vida por um homem que provavelmente esteja morto.

O soldado, ignorando a proibição, saiu, e uma hora mais tarde regressou, mortalmente ferido, transportando o cadáver de seu amigo.

O oficial estava furioso:

- Já tinha dito que ele estava morto!!! Agora eu perdi dois homens! Diga-me: valeu a pena trazer um cadáver?

E o soldado, moribundo, respondeu:

- Claro que sim, senhor! Quando o encontrei ele ainda estava vivo e pôde me dizer: "Tinha certeza que você viria!".

A moral desta história é que amigo é aquele que chega quando todo mundo já se foi.

Tenho recebido muitos e-mails de leitores cujo sentido se resume a este conceito que nutrem sobre mim: eles mandam dizer que não me consideram megalomaníaco.

Megalomaníaco, dizem eles, é todo aquele que se considera superior ao que realmente é.

Já comigo, insistem eles, dá-se exatamente o contrário: todos os auto-elogios que faço não são somente verdadeiros como ainda inferiores ao meu merecimento.

Observando atentamente as praias neste verão, reparei que 90% das pessoas que passam o veraneio no Litoral nunca entram no mar, isto é, não se banham na praia.

Depois, mais estudioso deste fenômeno, verifiquei que, por óbvio, os 90% que não tomam banho vêem como atração principal não a água do mar, mas o sol.

Tanto que, nos dias que não tem sol, a praia fica vazia, embora a água do mar esteja sempre presente.

Este meu estudo psico-demográfico-social estou enviando para a ONU analisar.

O maior verso de Chico Buarque de Holanda é: "Eu te perdôo por te trair".

O maior verso de Lupicínio Rodrigues é: "Quem nos vê brigar/ quase a nos matar/ há de pensar que esta louca não gosta de mim".

O maior verso de Luiz Coronel é: "Geada vestiu de noiva os galhos da pitangueira".

Os maiores versos de Augusto dos Anjos são: "A mão que afaga é a mesma que apedreja/ se alguém causa ainda pena a tua chaga/ apedreja esta mão vil que te afaga/ e escarra nesta boca que te beija".

O verso imortal de Orestes Barbosa: "Tu pisavas nos astros distraída".

E os maiores de todos os versos da língua portuguesa são de Luiz de Camões, escritos diante do caixão fúnebre de sua noiva, falecida em Lisboa:

"E se vires que pode merecer-te/ alguma coisa a dor que me ficou/ da mágoa sem remédio de perder-te/ roga a Deus que teus anos encurtou/ que tão cedo de cá me leve a ver-te/ quão cedo de meus olhos te levou".


05 de janeiro de 2008 - N° 15469

Por aí

Boneca espanhola com sintomas de Down

A fábrica espanhola Super-Juguete acaba de lançar uma boneca com traços típicos de uma criança com síndrome de Down. O brinquedo se chama Baby Down e tem as versões menino e menina. Os olhos, orelhas, nariz e a boca reproduzem os sintomas mais visíveis da condição.

A língua fica para fora, e os pés e as mãos são menores do que o normal. No pulso, a boneca tem uma pulseira de recém-nascido com o logotipo da Associação Espanhola de Síndrome de Down, entidade que apóia a campanha e recebe parte do valor da venda da boneca. Para o lançamento, foram produzidas 3 mil unidades, já esgotadas.

Estados Unidos, França, Portugal e Itália fizeram suas encomendas. Um folheto explicativo sobre a síndrome acompanha o brinquedo.

Quanto a indústria gasta com saúde
US$ 57,5 bilhões

foi o que gastaram os laboratórios norte-americanos em publicidade em 2004. O valor foi publicado na revista médica PLoS Medicine (http://medicine.plosjournals.org)

US$ 31,5 bilhões

foi o que gastaram essas mesmas empresas em pesquisa e desenvolvimento de novos remédios, incluindo financiamentos do governo dos Estados Unidos. Esse levantamento foi feito pela Fundação Nacional de Ciências dos EUA

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008



NELSON MOTTA

Uma chamada para trás

SALVADOR - Conheci uma senhora portuguesa em Nova York que não conseguiu aprender inglês e esqueceu o português.

Quando deixava recados, em vez de pedir para retornar ou "call me back", dizia "chama-me para trás". O projeto do deputado Aldo Rebelo que proíbe o uso de palavras estrangeiras também soa como um chamado para trás.

Sob pena de multa, mulheres nacionais não farão mais stripteases, mas excitantes "tira-provoca". Os restaurantes terão dificuldades de explicar em seus cardápios que o "soprado de queijo" é o velho e banido suflê e que o "marronzinho" é o ex-brownie.

A Aids terá de ser chamada de Sida sob pena de o doente não receber os remédios. E os lobistas, coitados, como se chamarão?

Ninguém falará mais laptop, que deverá ser chamado de "ordenador de colo", já que computador é americanismo e também está fora da lei, só poderemos falar ordenador -macaqueando os franceses e os espanhóis.

Falar em PC só se for o do B: os ordenadores pessoais serão os populares OPs, os programas rodarão no sistema "Janelas". Já os CDs terão que ser chamados de DCs, "discos-compactos".

As lanchonetes terão que mudar de nome. Como se chamarão os sundaes? O milk-shake será "leite-chacoalhado"? O afrancesado croquete é fácil, vira "cocréte". Assim como as balas Hall's são chamadas de "Rális" na Bahia.

Estou preocupadíssimo com os publicitários, que terão que fazer muitos seminários para se adaptar a uma nova e estranha língua.

Mas eles são criativos, encontrarão boas expressões nacionais para layout, release, top de linha. Pior para os surfistas, que já não tem um vocabulário muito amplo e ainda serão privados do pouco que têm.

Livre da nefasta influência estrangeira, a nossa língua será pura. Nem nós a entenderemos.

Com tantas coisas a fazer por este País e um político assim vai se preocupar com que minha gente!! Haja paciência com eles, não..?

ELIANE CANTANHÊDE

Fracassos

BRASÍLIA - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, perdeu o plebiscito que lhe daria mandatos sucessivos e perdeu o seu grande lance internacional, que seria a libertação de três reféns emblemáticos das Farc na Colômbia.

Chávez embolou a campanha do plebiscito com o vai-não-vai da intermediação entre as Farc e o governo da Colômbia. Primeiro, bateu de frente e trocou impropérios com Uribe ao passar por cima do presidente e ir direto aos comandantes militares.

Uma ousadia que nenhum presidente poderia cometer, muito menos um que tem origem na caserna, como Chávez.

Passado o plebiscito, ele tentou se recuperar da derrota voltando ao palanque, ou à cena, não mais apenas como intermediário entre Uribe e Farc, mas como ator principal de um espetáculo cheio de personagens estrangeiros, inclusive o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia.

O Brasil, o governo e Garcia não tinham alternativa senão a de atender ao chamado, que, ademais, tem um forte apelo humanitário. Mas ninguém chegou a acreditar que tudo aquilo daria realmente certo naquele momento, por causa da contaminação política.

O que fica, por hora, é uma dúvida atroz: por que, depois de tantos anos do polêmico "Plan Colômbia" -que, aliás, o Brasil rejeitou com FHC e com Lula-, o país ainda vive em tal estado de guerra?

Com todos os bilhões de dólares, armamentos e soldados americanos, como ainda há 3.000 seqüestros, cerca de 45 deles políticos?

Pode-se falar tudo das polícias de São Paulo e do Rio, mas lá os criminosos roubam, matam, estupram, porém não seqüestram (pelo menos como antes).

Em vez de EUA, Chávez e observadores internacionais, Uribe deveria chamar as equipes anti-seqüestro dos dois Estados. Ficaria mais barato. E o Brasil não reclamaria tanto da bota do Tio Sam em solo sul-americano.

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Juros e medo

SÃO PAULO - A verdadeira cláusula pétrea da legislação brasileira não está inscrita em nenhuma lei, em nenhum código, a rigor em nenhum lugar.

Trata-se da impossibilidade real, embora não escrita, de mexer no superávit fiscal primário (receitas menos despesas, fora pagamento de juros).

É a conclusão inevitável quando se verifica que o governo preferiu aumentar impostos, apesar de o presidente ter dito o contrário, em vez de pelo menos discutir a hipótese de reduzir o superávit.

Para quem não lembra: o "lucro" do governo se destina ao sagrado pagamento dos juros devidos aos portadores de títulos públicos, que compõem uma superelite, aquela camada que o lulopetismo ama execrar da boca para fora, mas adora forrar de dinheiro.

Não é só o governo que deixou de lado essa possibilidade. Não li nem ouvi ninguém, desde que caiu a CPMF, tocar no assunto, na oposição, na academia, no jornalismo, onde seja. Se alguém tocou, minhas desculpas antecipadas.

Note bem que reduzir o superávit não é igual a dar o calote, antes que os fundamentalistas de mercado saquem do coldre essa suspeita.

É uma hipótese lógica: a derrubada da CPMF provocou redução da arrecadação. Logo, reduzir a parte da arrecadação que se destina a pagar os juros seria natural, certo?

Errado, em um mundo em que a pátria financeira tem poderes extraordinários e em um país em que o vice-presidente diz que o presidente tem medo dela -ou, ao menos, de seus arautos no colunismo econômico.

Note também que diminuir o superávit não significa eliminá-lo.

Um governo que manteve religiosamente o superávit elevado deveria ter crédito para cortá-lo, numa necessidade, mesmo à custa de não conseguir continuar reduzindo a proporção dívida/PIB. Mas, quem tem medo uma vez, tem medo o resto da vida.

crossi@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Fila pra entrar no mar!

As praias estão tão lotadas que pra entrar no mar tem que pegar senha na prefeitura!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Direto do País da Piada Pronta! Direto do planeta da piada pronta: sabe como se chama o filho e herdeiro político da Benazir Bhutto? BILAW. Bilau Bhuto!

Esse devia ser o representante internacional do meu PGN, Partido da Genitália Nacional! Bilau Bhuto do Baquistão!
E já tô com saudades de 2007!

Principalmente da última semana! Eu só voltei da praia porque botaram a rede pra lavar. Fui despejado da rede. Aliás, as praias estão tão lotadas que tem fila pra entrar no mar. Tem que pegar senha na prefeitura. Rarará!

E a primeira coisa que eu vi neste ano foi a Ana Maria Braga. Com o cabelo parecendo cacho de banana! E eu conheci um piloto da TAP que me contou que turbulência em Portugal é abano!

Senhores passageiros, apertem os cintos, permaneçam sentados que VAMOS ABANAR! Será que eles abanam no inverno também ou é só no verão? Senhores passageiros, apertem os cintos que estamos atravessando uma zona de abano.

Zona de Abano Urgente! Lamento informar que começou o ano fiscal: IPVA, IPTU, IPI. Ih, me ferrei. Esse devia ser o novo imposto do Lula; IMF. IH... ME FERREI! Isso que é zona de abano! Rarará!

E sabe por que tributo se chama tributo? Porque a gente recebe os carnês de três em três. De manhã, recebe três, à tarde recebe mais três e à noite, trinta e três!

Por isso que a árvore símbolo do Brasil é o ipê: IPÊVA, IPÊTU! Rarará! E essa: cobra confunde bolas de golfe com ovos na Austrália.

Pior aquela minhoca que entrou num prato de espaguete pensando que era uma suruba! E a pergunta que todo ano faço às minhas leitoras: entraram ou foram entradas?! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo hilário de antitucanês.

É que no interior do Maranhão tem um forró fim de noite chamado Derrubando e Comendo Logo! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Vandalismo": companheiro que foi pro show do Wando! O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

Ótima sexta-feira e excelente fim de semana este que é o primeiro de 2008, para todos nós.