sábado, 5 de janeiro de 2008



05 de janeiro de 2008 | N° 15469
Prazer das Palavras | Cláudio Moreno


O rio Guaíba

Mal rompeu 2008 e os incansáveis micuins do idioma, que não dormem nunca, já começaram a incomodar.

Falando diretamente da Usina do Gasômetro, durante a queima de fogos que saudou a passagem de ano, o jovem repórter de uma rádio local, entusiasmado, comentava o belíssimo espetáculo das luzes e cores refletidas nas águas do rio Guaíba, quando foi interrompido pelo responsável pelo programa, que, em tom amistoso, lascou uma intervenção corretiva:

"É estuário, não é rio" - o que fez o ingênuo reporterzinho, depois de pedir desculpas por sua falha, massacrar o meu ouvido com estuário Guaíba para lá, estuário Guaíba para cá.

E essa agora! Será que alguém imagina que vamos deixar de chamá-lo de rio só porque tecnicamente ele não é um rio? Sabemos que já faz muito tempo que os especialistas vêm debatendo a verdadeira natureza do Guaíba.

Depois de ser rio por dois séculos, passou alguns anos como lago e agora recebe o rótulo de estuário, que chega com ares de classificação definitiva (desde que, é bom lembrar, o próprio conceito de "estuário" não venha, um dia, sofrer alterações, como sói acontecer no mundo do conhecimento).

E daí? Esse rigor definitório é extremamente relevante no recinto reservado dos especialistas, mas aqui fora, no léxico geral do idioma, essas distinções simplesmente não são (nem poderiam ser) levadas em consideração.

Sendo a linguagem uma forma de compreensão e classificação da realidade que nos cerca, só conseguimos distinguir perfeitamente as palavras pertencentes a um mesmo grupo semântico quando as diferenças que elas exprimem têm algum sentido para nós.

Detalhes que são relevantes para uns podem não ser tão relevantes para outros, o que vai se refletir nos vocábulos empregados.

Exemplifico: há alguns meses, um porta-voz da área policial, numa entrevista radiofônica, comentava que a crescente instalação de sistemas de segurança eletrônico nos carros modernos tinha feito baixar consideravelmente o número de furtos de veículos em Porto Alegre.

Por alguns preciosos segundos, todos nós - o entrevistador, eu e todos os demais ouvintes - chegamos a imaginar que a taxa de violência estava finalmente diminuindo, mas foi ilusão que durou pouquíssimo, pois logo o porta-voz se encarregou de estragar a festa:

"Isso trouxe, é claro, um aumento no número de roubos, porque o meliante agora é obrigado a esperar pelo dono do carro para tirar-lhe o comando ou a chave eletrônica".

Para os leigos, furto e roubo são sinônimos; advogados e policiais, contudo, no desempenho de suas funções, sempre distinguirão o furto do roubo porque, no mundo jurídico, roubo implica violência ou ameaça.

Para nós, simples mortais, isso não faz a menor diferença, e todos aqueles veículos levados pelos amigos do alheio serão contabilizados como carros roubados. Quem está certo, aqui?

É claro que todos, pois o critério de correção vai depender do grau de precisão de linguagem que se exige para cada tipo de falante. Para o contribuinte comum, tudo aquilo que ele paga ao poder público é imposto; para o advogado, no entanto, tudo é tributo, que se dividirá, segundo sua natureza, em taxas, impostos ou contribuições.

Eu jamais contrataria um advogado que confunde furto com roubo, ou taxa com imposto, mas não vou criticar o zelador do prédio quando ele aplaude o fim do "imposto" da CPMF ou quando promete que ainda vai descobrir quem anda "roubando" material de limpeza do condomínio.

É assim que a coisa funciona: as palavras são mais elásticas no uso normal, quotidiano, do que no uso técnico e profissional - e isso é bom, e é fundamental que assim seja, ou nossa vida viveria paralisada por crises de exatidão.

Há exemplos assim em todas as áreas; para mim, o condor é um pássaro gigantesco que vive nas alturas geladas dos Andes, apesar dos biólogos afirmarem que ele é uma ave, jamais um pássaro.

Aceito quando um aluno fala no "uso da crase" ou no "A craseado" - mas jamais aceitaria isso de um professor, que é obrigado a distinguir entre o acento grave indicativo de crase e o fenômeno propriamente dito.

A lagoa dos Patos e a lagoa da Conceição, por estarem ligadas ao mar, são tecnicamente lagunas - mas só no mundo acadêmico. Há quem diga que o Mar Morto é, na verdade, um grande lago - mas ninguém vai se pôr a chamá-lo de "Lago Morto".

Um aterro fez com que a ilha do Retiro, onde fica o estádio do Sport Recife, deixasse de ser ilha, mas ninguém pensa em trocar seu nome por "aterro do Retiro".

Por tudo isso, seja lago, estuário, laguna ou mesmo mar, o Guaíba sempre será referido como o rio Guaíba, em cuja margem se ergue o altaneiro Gigante da Beira-Rio - e não "Beira-Estuário", o que é um argumento de peso mundial, reconhecido até pela Fifa...


05 de janeiro de 2008
N° 15469 - Paulo Sant'ana


Versos íntimos

Eu gosto muito da história que vou reproduzir no parágrafo posterior porque ela trata de um princípio e sentimento que tento cultivar, embora não o consiga muitas vezes: a lealdade entre as pessoas.

A história é a seguinte:

- Meu amigo não voltou do campo de batalha, senhor. Solicito permissão para ir buscá-lo - disse um soldado ao seu tenente.

- Permissão negada - replicou o oficial. - Não quero que arrisque a sua vida por um homem que provavelmente esteja morto.

O soldado, ignorando a proibição, saiu, e uma hora mais tarde regressou, mortalmente ferido, transportando o cadáver de seu amigo.

O oficial estava furioso:

- Já tinha dito que ele estava morto!!! Agora eu perdi dois homens! Diga-me: valeu a pena trazer um cadáver?

E o soldado, moribundo, respondeu:

- Claro que sim, senhor! Quando o encontrei ele ainda estava vivo e pôde me dizer: "Tinha certeza que você viria!".

A moral desta história é que amigo é aquele que chega quando todo mundo já se foi.

Tenho recebido muitos e-mails de leitores cujo sentido se resume a este conceito que nutrem sobre mim: eles mandam dizer que não me consideram megalomaníaco.

Megalomaníaco, dizem eles, é todo aquele que se considera superior ao que realmente é.

Já comigo, insistem eles, dá-se exatamente o contrário: todos os auto-elogios que faço não são somente verdadeiros como ainda inferiores ao meu merecimento.

Observando atentamente as praias neste verão, reparei que 90% das pessoas que passam o veraneio no Litoral nunca entram no mar, isto é, não se banham na praia.

Depois, mais estudioso deste fenômeno, verifiquei que, por óbvio, os 90% que não tomam banho vêem como atração principal não a água do mar, mas o sol.

Tanto que, nos dias que não tem sol, a praia fica vazia, embora a água do mar esteja sempre presente.

Este meu estudo psico-demográfico-social estou enviando para a ONU analisar.

O maior verso de Chico Buarque de Holanda é: "Eu te perdôo por te trair".

O maior verso de Lupicínio Rodrigues é: "Quem nos vê brigar/ quase a nos matar/ há de pensar que esta louca não gosta de mim".

O maior verso de Luiz Coronel é: "Geada vestiu de noiva os galhos da pitangueira".

Os maiores versos de Augusto dos Anjos são: "A mão que afaga é a mesma que apedreja/ se alguém causa ainda pena a tua chaga/ apedreja esta mão vil que te afaga/ e escarra nesta boca que te beija".

O verso imortal de Orestes Barbosa: "Tu pisavas nos astros distraída".

E os maiores de todos os versos da língua portuguesa são de Luiz de Camões, escritos diante do caixão fúnebre de sua noiva, falecida em Lisboa:

"E se vires que pode merecer-te/ alguma coisa a dor que me ficou/ da mágoa sem remédio de perder-te/ roga a Deus que teus anos encurtou/ que tão cedo de cá me leve a ver-te/ quão cedo de meus olhos te levou".


05 de janeiro de 2008 - N° 15469

Por aí

Boneca espanhola com sintomas de Down

A fábrica espanhola Super-Juguete acaba de lançar uma boneca com traços típicos de uma criança com síndrome de Down. O brinquedo se chama Baby Down e tem as versões menino e menina. Os olhos, orelhas, nariz e a boca reproduzem os sintomas mais visíveis da condição.

A língua fica para fora, e os pés e as mãos são menores do que o normal. No pulso, a boneca tem uma pulseira de recém-nascido com o logotipo da Associação Espanhola de Síndrome de Down, entidade que apóia a campanha e recebe parte do valor da venda da boneca. Para o lançamento, foram produzidas 3 mil unidades, já esgotadas.

Estados Unidos, França, Portugal e Itália fizeram suas encomendas. Um folheto explicativo sobre a síndrome acompanha o brinquedo.

Quanto a indústria gasta com saúde
US$ 57,5 bilhões

foi o que gastaram os laboratórios norte-americanos em publicidade em 2004. O valor foi publicado na revista médica PLoS Medicine (http://medicine.plosjournals.org)

US$ 31,5 bilhões

foi o que gastaram essas mesmas empresas em pesquisa e desenvolvimento de novos remédios, incluindo financiamentos do governo dos Estados Unidos. Esse levantamento foi feito pela Fundação Nacional de Ciências dos EUA

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008



NELSON MOTTA

Uma chamada para trás

SALVADOR - Conheci uma senhora portuguesa em Nova York que não conseguiu aprender inglês e esqueceu o português.

Quando deixava recados, em vez de pedir para retornar ou "call me back", dizia "chama-me para trás". O projeto do deputado Aldo Rebelo que proíbe o uso de palavras estrangeiras também soa como um chamado para trás.

Sob pena de multa, mulheres nacionais não farão mais stripteases, mas excitantes "tira-provoca". Os restaurantes terão dificuldades de explicar em seus cardápios que o "soprado de queijo" é o velho e banido suflê e que o "marronzinho" é o ex-brownie.

A Aids terá de ser chamada de Sida sob pena de o doente não receber os remédios. E os lobistas, coitados, como se chamarão?

Ninguém falará mais laptop, que deverá ser chamado de "ordenador de colo", já que computador é americanismo e também está fora da lei, só poderemos falar ordenador -macaqueando os franceses e os espanhóis.

Falar em PC só se for o do B: os ordenadores pessoais serão os populares OPs, os programas rodarão no sistema "Janelas". Já os CDs terão que ser chamados de DCs, "discos-compactos".

As lanchonetes terão que mudar de nome. Como se chamarão os sundaes? O milk-shake será "leite-chacoalhado"? O afrancesado croquete é fácil, vira "cocréte". Assim como as balas Hall's são chamadas de "Rális" na Bahia.

Estou preocupadíssimo com os publicitários, que terão que fazer muitos seminários para se adaptar a uma nova e estranha língua.

Mas eles são criativos, encontrarão boas expressões nacionais para layout, release, top de linha. Pior para os surfistas, que já não tem um vocabulário muito amplo e ainda serão privados do pouco que têm.

Livre da nefasta influência estrangeira, a nossa língua será pura. Nem nós a entenderemos.

Com tantas coisas a fazer por este País e um político assim vai se preocupar com que minha gente!! Haja paciência com eles, não..?

ELIANE CANTANHÊDE

Fracassos

BRASÍLIA - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, perdeu o plebiscito que lhe daria mandatos sucessivos e perdeu o seu grande lance internacional, que seria a libertação de três reféns emblemáticos das Farc na Colômbia.

Chávez embolou a campanha do plebiscito com o vai-não-vai da intermediação entre as Farc e o governo da Colômbia. Primeiro, bateu de frente e trocou impropérios com Uribe ao passar por cima do presidente e ir direto aos comandantes militares.

Uma ousadia que nenhum presidente poderia cometer, muito menos um que tem origem na caserna, como Chávez.

Passado o plebiscito, ele tentou se recuperar da derrota voltando ao palanque, ou à cena, não mais apenas como intermediário entre Uribe e Farc, mas como ator principal de um espetáculo cheio de personagens estrangeiros, inclusive o assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia.

O Brasil, o governo e Garcia não tinham alternativa senão a de atender ao chamado, que, ademais, tem um forte apelo humanitário. Mas ninguém chegou a acreditar que tudo aquilo daria realmente certo naquele momento, por causa da contaminação política.

O que fica, por hora, é uma dúvida atroz: por que, depois de tantos anos do polêmico "Plan Colômbia" -que, aliás, o Brasil rejeitou com FHC e com Lula-, o país ainda vive em tal estado de guerra?

Com todos os bilhões de dólares, armamentos e soldados americanos, como ainda há 3.000 seqüestros, cerca de 45 deles políticos?

Pode-se falar tudo das polícias de São Paulo e do Rio, mas lá os criminosos roubam, matam, estupram, porém não seqüestram (pelo menos como antes).

Em vez de EUA, Chávez e observadores internacionais, Uribe deveria chamar as equipes anti-seqüestro dos dois Estados. Ficaria mais barato. E o Brasil não reclamaria tanto da bota do Tio Sam em solo sul-americano.

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Juros e medo

SÃO PAULO - A verdadeira cláusula pétrea da legislação brasileira não está inscrita em nenhuma lei, em nenhum código, a rigor em nenhum lugar.

Trata-se da impossibilidade real, embora não escrita, de mexer no superávit fiscal primário (receitas menos despesas, fora pagamento de juros).

É a conclusão inevitável quando se verifica que o governo preferiu aumentar impostos, apesar de o presidente ter dito o contrário, em vez de pelo menos discutir a hipótese de reduzir o superávit.

Para quem não lembra: o "lucro" do governo se destina ao sagrado pagamento dos juros devidos aos portadores de títulos públicos, que compõem uma superelite, aquela camada que o lulopetismo ama execrar da boca para fora, mas adora forrar de dinheiro.

Não é só o governo que deixou de lado essa possibilidade. Não li nem ouvi ninguém, desde que caiu a CPMF, tocar no assunto, na oposição, na academia, no jornalismo, onde seja. Se alguém tocou, minhas desculpas antecipadas.

Note bem que reduzir o superávit não é igual a dar o calote, antes que os fundamentalistas de mercado saquem do coldre essa suspeita.

É uma hipótese lógica: a derrubada da CPMF provocou redução da arrecadação. Logo, reduzir a parte da arrecadação que se destina a pagar os juros seria natural, certo?

Errado, em um mundo em que a pátria financeira tem poderes extraordinários e em um país em que o vice-presidente diz que o presidente tem medo dela -ou, ao menos, de seus arautos no colunismo econômico.

Note também que diminuir o superávit não significa eliminá-lo.

Um governo que manteve religiosamente o superávit elevado deveria ter crédito para cortá-lo, numa necessidade, mesmo à custa de não conseguir continuar reduzindo a proporção dívida/PIB. Mas, quem tem medo uma vez, tem medo o resto da vida.

crossi@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Fila pra entrar no mar!

As praias estão tão lotadas que pra entrar no mar tem que pegar senha na prefeitura!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Direto do País da Piada Pronta! Direto do planeta da piada pronta: sabe como se chama o filho e herdeiro político da Benazir Bhutto? BILAW. Bilau Bhuto!

Esse devia ser o representante internacional do meu PGN, Partido da Genitália Nacional! Bilau Bhuto do Baquistão!
E já tô com saudades de 2007!

Principalmente da última semana! Eu só voltei da praia porque botaram a rede pra lavar. Fui despejado da rede. Aliás, as praias estão tão lotadas que tem fila pra entrar no mar. Tem que pegar senha na prefeitura. Rarará!

E a primeira coisa que eu vi neste ano foi a Ana Maria Braga. Com o cabelo parecendo cacho de banana! E eu conheci um piloto da TAP que me contou que turbulência em Portugal é abano!

Senhores passageiros, apertem os cintos, permaneçam sentados que VAMOS ABANAR! Será que eles abanam no inverno também ou é só no verão? Senhores passageiros, apertem os cintos que estamos atravessando uma zona de abano.

Zona de Abano Urgente! Lamento informar que começou o ano fiscal: IPVA, IPTU, IPI. Ih, me ferrei. Esse devia ser o novo imposto do Lula; IMF. IH... ME FERREI! Isso que é zona de abano! Rarará!

E sabe por que tributo se chama tributo? Porque a gente recebe os carnês de três em três. De manhã, recebe três, à tarde recebe mais três e à noite, trinta e três!

Por isso que a árvore símbolo do Brasil é o ipê: IPÊVA, IPÊTU! Rarará! E essa: cobra confunde bolas de golfe com ovos na Austrália.

Pior aquela minhoca que entrou num prato de espaguete pensando que era uma suruba! E a pergunta que todo ano faço às minhas leitoras: entraram ou foram entradas?! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo hilário de antitucanês.

É que no interior do Maranhão tem um forró fim de noite chamado Derrubando e Comendo Logo! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Vandalismo": companheiro que foi pro show do Wando! O lulês é mais fácil que o inglês.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

Ótima sexta-feira e excelente fim de semana este que é o primeiro de 2008, para todos nós.


DE VIRADA

A praia é um dos lugares mais interessantes para observações antropológicas livres. Pode-se olhar, descrever e até praticar a chamada observação-participante ou mesmo a perigosa, epistemologicamente falando, se me entendem, participação-observante.

Tudo sem pressa. Eu me dedico, em geral, à contemplação estudiosa e detalhista. Entre a observação e a participação há, quase sempre, o uso de um código que permite romper a distância cultural e quebrar o estranhamento.

Pude anotar várias fórmulas originais de superação do choque cultural: 'Oi...' – seguido de um silêncio dubitativo; 'Você não é a...' – completado pela interlocutora com satisfação ou, não raras vezes, com certo ar de tédio.

Pude constatar, porém, que a linguagem não-verbal – sorrisos e olhares oblíquos – predomina nas estratégias de aproximação, com os machos ainda tomando mais vezes a iniciativa e quebrando a cara em, ao menos, 50% dos casos. Já a tomada de iniciativa pelo sexo feminino, embora mais rara, é quase sempre bem-sucedida.

Passamos o réveillon no Costão do Santinho, em Santa Catarina. Como se sabe, é um paraíso. Ninguém esteve no paraíso até hoje, que eu saiba.

Ao menos não localizei no You Tube nenhum vídeo com imagens autênticas do paraíso. Mas é assim que se fala de qualquer lugar bonito e não cabe aqui discutir esse termo consagrado.

Certo é que eu me dediquei, durante três dias, no Santinho, a classificar tatuagens, formatos de barriga e tamanhos de biquíni. Nada posso dizer sobre a beleza das mulheres ou sobre as figuras masculinas, pois não tive tempo de prestar-lhes atenção.

Levei muito a sério a tarefa a que me destinei. Seguem as minhas conclusões: os biquínis estão maiores e alguns podem até servir de shortinho na hora de ir ao supermercado ou tomar um sorvete no centrinho, na Praia dos Ingleses.

Mesmo assim, foi possível perceber o retorno do fio-dental numa faixa etária, ouso imaginar, entre 25 e 30 anos. A evolução dos biquínis resume-se a isto, uma modernização-conservadora bastante moderada. Uma postura mediana entre os governos FHC e Lulla.

Já as barrigas, predominantemente masculinas, podem ser classificadas em três formatos: redondas em cima e triangulares em baixo (bebedores de cerveja, carregadas em caixas de isopor, a partir das 10h da manhã);

redondas embaixo e afinadas em cima (alternam cerveja, comprada dos vendedores ambulantes, e caipirinhas); e ovais (bebem cerveja de manhã na praia, caipirinha no almoço, cerveja, à tarde, na beira da piscina, e uísque ao anoitecer).

Cheguei a produzir uma tabela com os dados relativos a esse aspecto. Alerto que não são números definitivos. Para tirar conclusões sérias, eu teria de coligir – é assim que se fala – outras informações.

Por fim, a parte mais desconcertante: as tatuagens. Entre as mulheres, predominam, como esperado, as flores, os pássaros delicados e os nomes de homens.

Foram os marmanjos que provocaram as maiores surpresas com as suas inscrições. Um deles, sarado e altivo, beirando os 30 anos, carregava no próprio corpo uma marca indelével e inimaginável: Harry Potter. Uau! Nada contra.

Cada um com a sua cultura. Outro, mais jovem, escolheu algo mais razoável, embora não menos impactante: Sport Club Internacional. Falta ainda estabelecer uma relação de causa e efeito entre barrigas, biquínis e tatuagens.

juremir@correiodopovo.com.br


04 de janeiro de 2008
N° 15468 - Paulo Sant'ana


Chokito

Morreu meu amigo Chokito. Morreu sozinho num hospital de Belém Novo. Foi no último dia 28.

Chokito era um quase mendigo. Branco, estatura média, com barba grande, vivia de donativos em suas andanças trêmulas e parcas pela cidade.

Tornei-me amigo dele apresentado pelo Guerrinha. Se o Guerrinha gosta de alguém, eu também acabo gostando.

Chokito morreu na semana passada de câncer no estômago, com alastrada metástase.

Tinha o apelido de Chokito por um sarcasmo coletivo que se instalou no Centro, bairro onde ele quase sempre vivia. Aliás, ele morava há anos numa pensão do Centro, pagava por dia, pasmem, R$ 11. Imaginem o pardieiro onde ele morava. Mesmo assim, era um lugar até que mordômico para quem foi na vida inteira um quase mendigo, um tremendo desprotegido.

Voltando ao apelido de Chokito que a plebe lhe deu, devia-se às 200 verrugas que havia no pergaminho de sua pele, espalhadas no corpo inteiro. Enormes verrugas, do tamanho de pitangas.

Então lhe aplicaram o apelido de Chokito, referência ao bombom de chocolate muito vendido no comércio, cheio de protuberâncias.

Afora o apelido tão genial quanto escatológico (por vezes o povo é cruel com suas chacotas), Chokito era uma pessoa muito amável, serviçal, devotado a quebrar os galhos dos outros, como pagar contas.

Ele era terrivelmente pobre, mas um homem de confiança, nunca se apropriou de dinheiro ou quaisquer outros valores dos outros.

Era só, morava só numa pensão barata do Centro, dedicava-se todo dia a favores que prestava aos amigos.

Era muito só, muito desamparado, meu desventurado amigo Chokito.

Para essas pessoas assustadoramente sós, Vinicius de Moraes fez um poema que encaixou numa música antológica, denominada Um Homem Chamado Alfredo, da qual um trecho que vou agora reproduzir parece que foi escrito para o Chokito:

"Ah, quanta gente sozinha/ gente que mal se adivinha/ gente sem mãos para dar/ gente sem fé para orar/ gente que basta um olhar/ quase nada/ Gente com os olhos no chão/ sempre pedindo perdão/ gente que a gente não vê/ porque é quase nada".

Terrível e sublime!

Encontrei anteontem na parrilla Viejo Panchos, onde vai sempre com o ex-deputado federal Jorge Uequed, o ministro e senador Paulo Brossard.

Tão pronto me viu, Paulo Brossard contou-me o seguinte fato: esses dias, encontrou-se na rua com uma senhora. Brossard, tirou seu chapéu panamá e saudou a senhora. A senhora perguntou ao condestável Brossard, ao erudito Brossard: "O senhor não é o Paulo SantAna?".

Realmente sou parecido com Brossard, muitas pessoas me dizem que seu olhar e seus cabelos são iguais aos meus.

Mas quando a senhora perguntou na calçada da rua a Brossard se ele era o Paulo SantAna, o ministro respondeu: "Ainda não".

E eu acrescento que o ministro Brossard ainda chega lá.


04 de janeiro de 2008
N° 15468 - DAVID COIMBRA


Não fui eu!

Fosse acreditar nos cartões de fim de ano, estaria explodindo de amor-próprio. Acharia que lojas, empresas de construção, farmácias, vereadores e agências de publicidade me amam verdadeiramente. Não só isso: acharia que nada é mais importante do que eu, para eles. "O mais importante para nós é você!", juram-me todos.

Mas não é verdade, sei que mandam esses cartões para todo mundo. Então, nem os abro. Recebo um envelope, aqui na Redação, vejo que é de felicitações, bibibi, e enfio-o direto na lata de lixo ao lado da mesa.

Fico pensando nas árvores, quando faço isso. Quantas árvores continuariam vivas, fazendo fotossíntese com plena alegria, se ninguém enviasse cartão de Boas Festas? Quantas florestas? Vejam, vegetarianas, como também posso ser ecologicamente correto.

Mas a fúria que se abate sobre as pessoas para desejar alvíssaras aos outros é tão intensa, tão irrefreável, tão incontida, nessa época do ano, que elas não ficam felizes em apenas mandar cartões. Elas vão para a internet e começam a enviar mensagens de bom Ano-Novo indiscriminadamente, durante dias a fio, sem parar.

Eu mesmo recebi centenas, sério!, centenas de imeils de desconhecidos com o mesmo título: "Que venha 2008!" Não cheguei a ler o restante da mensagem, mas o tom de desafio me intrigou.

Que venha 2008! Uma espécie de chamamento para a briga. Certamente, é de alguém que não teve um bom 2007, espera algo pior, mas garante que não vai desistir.

Quer dizer: não irá se jogar do oitavo andar, por exemplo. Não sei se essa pessoa faz bem em ser tão insistente, mas o fato é que seu arrosto a 2008 encontrou seguidores sem fim, estão todos por aí de queixo erguido, encarando 2008 com uma faca entre os dentes.

Eu recomendaria mais prudência. O ano mal começou, sabe como é... Não que meu 2007 tenha sido ruim. Ao contrário: foi ótimo.

Mas, no finzinho, no dia 31, abateu-se sobre meu fatigado corpo uma virose, ou algo do gênero, que me pôs de cama, com febre e enjôos pelo dia inteiro e que ainda não me abandonou completamente. Fazia 11 anos que não ficava doente. Onze anos!

Por isso, febril, suando, sozinho no escuro do quarto, refletia penosamente sobre as razões de aquilo ter acontecido comigo. Era difícil de pensar, vinham-me à cabeça imagens de corujas na praia, de retrospectivas na TV, do Rei cantando, até que fiat lux!

Lembrei dos imeils. Que venha 2008! Que venha 2008! Que venha 2008! Aquelas milhares de mensagens desaforadas passando pelo meu endereço eletrônico, e aí 2008, como se dissesse, ah é, é?, começou desse jeito para mim.

Não fui eu! Eu não tenho culpa! Odeio cartões de felicitações de qualquer tipo! Odeio imeils com cachorrinhos, criancinhas, passarinhos e Jesus, com mensagens emocionantes.

Não que tenha algo contra os animais, as crianças ou O Senhor, por favor! Tenho-os todos em máxima conta, viram, vegetarianas?

Mas é que não vou perder tempo lendo imeils de mensagens edificantes, por mais edificantes que sejam. Não vou! Não adianta me mandar.

Portanto, aqui de dentro do meu corpo enfraquecido, quero deixar bem claro: não sou a favor de afrontas contra anos-novos. Prefiro a composição, a tolerância, o jeitinho. Calma, 2008. Calma.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008


ELIANE CANTANHÊDE

É caso de caixa, não de saúde

BRASÍLIA - Lula usou o primeiro dia útil do ano para deflagrar duas operações de recuperação: uma, dos R$ 38 bilhões perdidos com o fim da CPMF; outra, da imagem e da auto-estima do ministro Guido Mantega, que ele próprio tinha desautorizado publicamente.

Ficou o dito pelo não-dito. Ou melhor, o não-dito do dito pelo não-dito. Mantega anunciou que haveria aumento de impostos e cortes para compensar a CPMF.

Lula deu-lhe um carão, negando o óbvio. Agora, foi o próprio Mantega quem foi à TV para dizer que ele estava certo. Logo, Lula blefara.

E a sensação é de que os aumentos do IOF e da CSLL, que incidem sobre operações financeiras, são apenas a primeira parte da história. Lá pelo meio do ano deverá haver uma reavaliação, com mais "novidades". Depende da vitalidade da economia. Preparem os bolsos.

Sim, porque o discurso oficial é de que os bancos foram chamados a pagar a conta, mas não é bem assim. Quem paga IOF não é o banco, é o tomador do crédito. E o peso da CSLL vai acabar caindo sobre o preço do produto. Alguma dúvida?

A favor do governo, não havia muita alternativa. Corte de R$ 38 bilhões corresponde a redução de superávit fiscal, corte drástico de despesas e/ou aumento de impostos.

O equilíbrio desse tripé varia de acordo com o freguês. Como o governo decidiu corretamente não mexer no superávit fiscal e sempre faz apologia da gastança, o aumento de impostos era inevitável.

Agora, é acompanhar os tais cortes anunciados de R$ 20 bilhões.

Calculadoras da Esplanada dos Ministério estão a mil, e já há general pensando em convocar o Alto Comando do Exército para defender o tão prometido "reequipamento" (com aumento do soldo, claro).

Por falar nisso, onde foi parar a promessa de garantir os recursos extras da Saúde? Virou uma "equação futura". O problema é de caixa, não de saúde, manjou?

elianec@uol.com.br

ASQUALE CIPRO NETO

Gato matreiro, sensual, incendiário

Em poesia, "tudo-nada cabe", diz Gil em "Metáfora" ("Ao poeta cabe fazer com que na lata venha a caber o incabível")

"CRESCI NATURALMENTE, como crescem as magnólias e os gatos", diz Machado em "O Menino É Pai do Homem", capítulo de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", obra-prima do Bruxo do Cosme Velho.

Decerto é desnecessário dizer que, no excerto machadiano, "gatos" quer dizer "gatos" mesmo, ou seja, trata-se dos felídeos.

Até aí, nenhuma novidade. Pois bem. Ontem, a primeira página do UOL estampava uma manchete em que se afirmava que um "gato" pode ter sido o causador do incêndio na cadeia de Rio Piracicaba (MG).

Outra manchete informava que, para a genial e encantadora jogadora de futebol Marta, o jogador português Cristiano Ronaldo é um "gato".

Nos dois casos, o pessoal do site teve o cuidado de colocar a palavra "gato" entre aspas, o que, para muita gente (por "gente" entenda-se tanto "leitores" quanto "redatores"), não faz nenhuma diferença.

No segundo caso (o do conceito de Marta sobre C. Ronaldo), vá lá que a falta das aspas não implicaria dificuldade para a compreensão, mas no primeiro...

Santo Deus, uma coisa é afirmar que um gato pode ter causado o incêndio; outra é afirmar que o tal incêndio pode ter sido causado por um "gato". O nobre leitor já percebeu aonde quero chegar, certo?

Os sinais de pontuação não são enfeites, lenteloujas (ou lantejoulas, tanto faz), miçangas etc. Têm e cumprem seu papel, muitas vezes bem definido.

No caso das aspas, um dos seus papéis é realçar o sentido figurado com que se empregou determinada palavra ou expressão.

Se um matreiro felídeo (isto é, um gato, sem aspas, como o é o gordo, guloso e preguiçoso Garfield, por exemplo) perambula pela fiação de determinado lugar e causa um curto-circuito, a culpa é do gato.

Se humanos desastrados fazem ligações elétricas clandestinas e isso causa curtos-circuitos, a culpa é do "gato". Na verdade, é do homem (ou será do "rato", com aspas?).

Gato, rato, bicho-homem, homem-bicho -é quase tudo uma coisa só, neste triste mundo de meu Deus.

Na memorável "Ode aos Ratos" (música de Edu Lobo, letra de Chico Buarque), encontram-se estes finos versos, que encerram a obra-prima: "Saqueador da metrópole / Tenaz roedor / De toda esperança / Estuporador da ilusão / Ó meu semelhante / Filho de Deus, meu irmão".

Em seu belíssimo disco "Carioca", Chico emenda "Ode aos Ratos" e "Embolada" (também composta em parceria com Edu Lobo), que assim começa: "Rato / Rato que rói a roupa / Que rói a rapa do rei do morro...".

Compreendidas as metáforas (e, no fundo, a alegoria), fica difícil saber se esse rato é um rato ou um "rato".

Mas isso é poesia, e em poesia "tudo-nada cabe", como dizia Gilberto Gil em sua genial "Metáfora" ("Na lata do poeta tudo-nada cabe / Pois ao poeta cabe fazer / Com que na lata venha a caber / O incabível").

Definir o sentido da linguagem poética pode resultar em empobrecimento. Vale o que diz o mesmo Gil na mesma "Metáfora": "(...) não se meta a exigir do poeta / que determine o conteúdo em sua lata / (...)

Deixe a meta do poeta, não discuta / Deixe a sua meta fora da disputa / Meta dentro e fora, lata absoluta / Deixe-a simplesmente metáfora".

Em se tratando de linguagem jornalística, é bom (re)lembrar, a clareza é mais do que necessária. É isso.

inculta@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Chegou a conta dos fogos!

Que preguiça! Réveillon na Bahia é bom porque acabou o Réveillon já começa o Carnaval

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Em 2008, molhe o biscoito! E, como diz a minha vizinha, se for em mim, melhor ainda!

E um leitor me disse que 2007 foi o ano da rabanada. Levou rabanada do chefe, levou rabanada da mulher, levou rabanada da sogra. E levou rabanada do Lula.

Aliás, o Lula disse que este será o ano do crescimento. Vamos crescer tanto que vamos furar a lona do circo! Rarará! Vamos furar a camada de ozônio. E a dona Marisa tá parecendo um quindão de botox! Rarará!

Ai que preguiça! Falta muito para o Réveillon de 2009? Réveillon na Bahia é bom porque acabou o Réveillon já começa o Carnaval.
Não tem aquele intervalo insuportável!

E agora volta ao trabalho. Back to reality. Definição definitiva da volta ao trabalho: depois de comer tudo aquilo, voltamos a comer por quilo!

E essa é a grande previsão pra 2008: depois da grande virada, todo mundo se virando. Pra pagar a conta dos fogos. Ou você acha que rojão em Copacabana é de graça?

O show da Alcione no Recife já vem embutido nos impostos. Esse ano vão cobrar IPVA até de carrinho de supermercado. De carrinho de bebê!

E sabe como foi a passagem de ano do Rubinho? Os outros é que passaram! Rarará!

E sabe o que um amigo meu fez no primeiro dia do ano? Vomitou no carpete da sogra, vomitou no elevador do prédio e mijou na porta da geladeira. É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é duro, mas desce!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Arembepe, na Bahia, tem uma barraca de beiju COM TUDO DENTRO! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Delivery: companheiro que age por vontade própria. Delivery e espontânea vontade. Rarará. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã.

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. No peru! Pra fazer glu-glu! E quem fica parado é poste! Acorda, Brasil! Que eu vou dormir. Até 2014! Ufa!

simao@uol.com.br


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Nilson Souza


O ano da coruja

Sei que o público vaiou e que o prefeito ficou indignado, mas também me incluo entre os que aplaudem a ação do Batalhão Ambiental da Brigada Militar que impediu os fogos da virada de ano em Capão da Canoa, para não perturbar a família de corujas hospedada nas dunas da praia.

A prefeitura gastou R$ 26 mil para iluminar os céus da cidade na chegada de 2008 e agora não sabe o que fazer com os rojões que seriam queimados durante 12 minutos, exatamente no lugar onde a coruja dorme, com seu companheiro e seus filhotes recém vindos ao mundo.

Sugiro que a administração pública guarde as suas bombinhas para as festas juninas ou distribua os foguetes para os pescadores utilizarem como sinalizador em caso de necessidade, mas deixe as aves em paz.

Os veranistas contrariados também devem refletir melhor. O Ano-Novo chegou de qualquer maneira e certamente com um pouco mais de paz para todos.

Basta lembrar o exemplo trágico da vizinha Imbé, onde um artefato disparado irresponsavelmente atingiu a cabeça de uma idosa, causando sua morte. Neste sentido, é uma bênção para Capão da Canoa ter sido escolhida como estação de verão pela família de simpáticas corujas.

Esta semana mesmo, lendo sobre previsões e simpatias para a virada de ano, encontrei uma curiosidade que se adapta perfeitamente ao episódio do litoral gaúcho.

Um xamã, que é uma espécie de sacerdote indígena e que se vale de recursos da natureza para curar pessoas, dizia exatamente que 2008 é o ano da coruja-branca, símbolo do aprendizado: "Por isso, devemos adotar a postura de aprendizes e prestar muita atenção nas questões mal resolvidas", recomendou.

Tenho uma amiga querida que costuma reagir sempre com a mesma frase quando ouve uma queixa ou o relato de um acontecimento amargo:

- E o que a gente aprende com isto?

Podemos aprender, por exemplo, que os pássaros, os cães, os gatos, os cavalos e todos os animais merecem um pouco mais de respeito quando promovemos as nossas barulhentas celebrações.

Podemos, também, até para consolar os inconformados veranistas que ficaram sem o show de fogos, aprender que a coruja-branca se alimenta de roedores, sendo uma das responsáveis pelo controle da população de ratos.

Podemos, talvez, aprender que os governantes queimam o dinheiro de toda a população - e não apenas dos apreciadores do foguetório - quando investem recursos públicos em pirotecnia.

Ou, quem sabe, podemos aprender a mais importante de todas as lições do Ano da Coruja: que 2008 pode ser efetivamente um ano de cuidados com o meio ambiente.

Excelente quinta-feira com temparaturas acima dos 30º graus e clima seco por aqui nesta Porto que continua alegre.


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Paulo Sant'ana


Em perigo a borboleta

Como eu sempre digo e ouço: "Quando a vaga é boa, a gente nem tem vontade de tirar o carro".

Neste ano de 2008, doe sangue. É sempre bom repetir: inscreva-se como doador de sangue.

E neste ano de 2008, principalmente doe seus órgãos. Comunique sua família de que você é um doador - ou doadora.

Sempre é bom relembrar: doe sangue e doe seus órgãos. E finalmente doe-se de todo, por inteiro, aos outros, em 2008.

Doe-se, dê-se, entregue-se. Faça alguma coisa para tornar-se digno aos olhos de Deus. Doe-se. Saia definitivamente deste casulo e ande pela ruas abraçando-se às pequenas e às grandes causas dos seus semelhantes.

Doe-se. E seu dever como ser humano estará cumprido.

Um soberano da antigüidade já estava incendiado de inveja com relação a um sábio de seu reino.

O sábio sabia tudo. Resolvia os problemas de todos os súditos do rei.

O sábio era tão sábio e estava ficando tão mais famoso e prestigiado do que o rei, que este só tinha na cabeça uma coisa: haveria de eliminá-lo, a megalomania e a insegurança do rei deram-se as mãos e decidiram por desmoralizar o sábio, com o que ele teria de deixar o reino ou suicidar-se.

Obrou então o rei em sua urdidura: convocou uma imensa platéia para um espetáculo na capital do reino, onde ele próprio, em carne e osso, se encontraria com o sábio e o desmoralizaria publicamente.

Feito isso, chegou o grande dia. Uma multidão se reuniu em torno da grande praça central da cidade. Além do povo, as pessoas mais importante do reino estavam ali acotoveladas.

E o rei, diante dos olhos de todos, perguntou ao sábio se uma borboleta que estava entre suas mãos se encontrava viva ou morta.

O soberano ergueu as mãos, assim como se ergue as mãos ao céu para orar, colocou entre os dedos estendidos e contíguos das duas mãos uma borboleta viva, encostou uma mão na outra, e perguntou ao sábio:

"A borboleta que tenho entre minhas mãos está viva ou morta?".

O plano do rei era o seguinte; se o sábio dissesse que a borboleta estava viva, o rei apertaria suas mãos e apresentaria a borboleta morta e esmigalhada por suas mãos ao grande público.

Se, no entanto, o sábio dissesse que a borboleta estava morta, o rei abriria e deixaria alçar vôo o inseto lepidóptero ante o olhar curioso da enorme platéia.

Ou seja, com qualquer das duas alternativas de resposta o sábio se desmoralizaria e seguiria para o desterro.

Então foi chegado o momento culminante: o rei perguntou com as mãos justapostas e os dedos fechados em forma de oração se a borboleta estava morta ou viva.

E o sábio respondeu: "Em qualquer situação, o destino desta borboleta está em suas mãos, respeitado soberano".

Eu conto esta história interessante por vários motivos, mas por um mais importante: mesmo tendo demonstrado inveja do sábio, não julguei mau o soberano por isso.

Só fui julgá-lo mau, isto é, só fui saber que ele era cruel e déspota quando chegou a parte da história em que ele decidiu que iria deixar viva a borboleta ou matá-la, conforme a reposta do sábio:

um homem que por qualquer motivo ou interesse considere a hipótese de matar qualquer animal, mesmo um inseto, embora a borboleta seja um deslumbrante inseto, é mau.

Assim como qualquer um que queira molestar ou matar a golpes de forte som as corujinhas de Capão da Canoa haverá de ser um homem mau.

Qualquer homem que mata ou mesmo maltrata qualquer animal é um homem mau e indigno de continuar vivendo.


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Luiz Pilla Vares


E 2008 chegou

Pois já estamos em 2008. Depois da comilança do final de 2007, as pessoas vão cair na real. E isso significa que nada vai mudar, mesmo que a vida real, sem fantasias, comece apenas depois do Carnaval, que, neste ano, é bem mais cedo, no início de fevereiro.

E então recomeça a rotina, as mesmas chateações de todos os anos, as mesmas pequenas alegrias, as mesmas preocupações, novos nascimentos, novas mortes e, aos poucos, vamos esquecendo as expectativas que tínhamos em relação ao ano novo até que novas esperanças surjam quando estivermos às portas de 2009. Enfim, nada muda apenas porque acrescentamos um novo número na data.

O bom é que podemos novamente ler jornais, ouvir rádio, ver televisão, porque não há nada mais chato do que os meios de comunicação em final de ano.

As retrospectivas então, ninguém agüenta mais: é um repeteco de todos os finais de ano, uma coletânea de fatos desconexos, o mero cumprimento de um ritual que tem valor apenas para um punhado de colecionadores. Se ao menos, os editores se dessem ao trabalho de uma análise jornalística séria, bem escrita...

Mas 2008 vai servir para proporcionar algumas reflexões importantes: vão ocorrer as chamadas "datas redondas", que tanto gostamos de celebrar.

Já no começo, temos os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. É uma data que assinala um mudança radical no país, que ali deixou de ser uma colônia - ou uma colcha de retalhos de províncias desligadas entre si.

Desde que não venham transformar D. João VI, um rei medroso, indeciso e relaxado, num herói nacional, é uma data propícia a análises sobre uma época e um processo de transformações que mudaram o Brasil: desde 1808, o país deixa de ser colônia e está maduro para a Independência.

Além disso, a literatura pode também festejar e muito. Para começar, os 200 anos de nosso maior escritor, Machado de Assis, e os cem anos de um autor que não lhe fica muito atrás e que mudou a face do romance brasileiro, Guimarães Rosa.

Mas há, também, (como o tempo passa), os 40 anos do glorioso maio de 1968, último momento em que uma onda libertária de esperanças, a partir da França, varreu o mundo inteiro e abriu as comportas do sonho e da imaginação. Uma pena que tenha resultado apenas no sonho e na imaginação.

Diferente foi o ano de 2006, para a felicidade inesquecível de uns e a tristeza infinita de outros, o meu, o nosso, Internacional, foi campeão da América e do Mundo. Ainda hoje, já em 2008, repito o Verissimo: "belisquem-me".


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Luis Fernando Verissimo


Querido Papai Noel

Recebi uma carta do Papai Noel! Nela ele agradece a cartinha que lhe mandei em dezembro de 1942 pedindo uma bola de futebol e um revólver como o do Vingador, com espoletas, e se desculpa pela demora da resposta.

Explica que como faz questão de responder pessoalmente todas as cartas que recebe no Natal, e escreve à mão, sua correspondência naturalmente se acumula e só agora ele está chegando ao ano de 1942. A carta é simpática.

Papai Noel comenta como é difícil acreditar que 65 anos passaram tão depressa e pergunta se recebi os presentes pedidos e se por acaso eles tiveram alguma influência na minha vida, se acabei sendo jogador de futebol ou caubói. E deseja um bom 2008 etc.

Pensei em responder ao Papai Noel, mas ele provavelmente só teria tempo de ler minha resposta lá pelo fim do século, quando eu possivelmente já estarei morto.

Eu diria que fui as duas coisas, jogador de futebol e caubói, simultaneamente, e marquei muitos gols e matei muitos bandidos e índios, todos imaginários, mas por pouco tempo. Que continuei gostando de bola mas abandonei o revólver, embora ainda me lembre com saudade do cheiro da espoleta detonada.

Que de 1942 até agora fui muitas outras coisas, na maioria imaginárias também. Perguntaria se ele recebeu minha última cartinha, escrita na adolescência, em que eu pedia de Natal a Jane Russel com seus peitos e/ou a paz mundial.

E concordaria com ele: 65 anos passam, mesmo, depressa demais.

The Queen

Confesso que gosto da rainha Elizabeth, que na semana passada, se entendi bem, o que eu duvido, colocou um blog, ou coisa parecida, seu na internet.

Ela parecia exercer seu reinado com placidez e um toque de tédio, de quem gostaria mesmo estar com os seus cavalos, embora às vezes seja difícil saber se alguém está chateado ou apenas sendo inglês em público. Mas agora sabe-se que o enfaro da rainha escondia um desejo secreto de modernização e relevância.

O blog da rainha seria uma resposta às repetidas sugestões para que se aposente. Ela se renova para ficar. Ou talvez só esteja preocupada em poupar a nação do Charles, ou o Charles da nação.

Nas fotografias de Elizabeth quando moça, nota-se - se não for só uma tara minha - uma certa sensualidade no rosto, algo nos olhos que ela teve que domar para não fugir com um cavalariço, ficar e cumprir suas obrigações. Sobrou disso uma resignação irônica que se vê nos cantos da sua boca até hoje.

O inglês Alan Bennett escreveu uma peça sobre Anthony Blunt, um aristocrático historiador de arte que era consultor do palácio e também, soube-se muitos anos depois, espião da União Soviética, em que a rainha aparece, de surpresa, numa cena.

Elizabeth e Blunt têm uma conversa sobre a autenticidade na arte que também é uma conversa sobre a duplicidade nas pessoas e a crescente vulgarização da monarquia e suas riquezas, e em que ela diz:

"Um monarca já foi definido como alguém que não precisa olhar antes de se sentar. Não mais. É preciso olhar, hoje em dia, pois há uma boa possibilidade de a sua cadeira não estar ali, mas em exibição em outro lugar".

A frase é de Bennett, mas é possível imaginá-la dita pela rainha, com o meio sorriso desencantado de quem um dia sonhou ser outra coisa, mas não teve escolha.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008


JOÃO PEREIRA COUTINHO

O ano que não vai existir

É possível afirmar que Saramago não vai escrever um bom livro, Oliver Stone não vai dirigir um bom filme

POBRES LEITORES de jornais. No final de um ano, começo do outro, os jornais deixam de ser jornais. As notícias do mundo não ajudam, claro, mas os jornalistas também não.

Existem duas hipóteses. Primeira: reciclar notícias de 2007 e fazer um "balanço do ano" (com fotos, claro). Segunda: fazer "previsões" de 2008 que não são "previsões", mas repetições de fatos incontornáveis (exemplo: dia 25 de dezembro será Natal novamente).

No primeiro caso, existe preguiça. No segundo, existe preguiça ou presunção. Exceto generalidades, ninguém faz a mais pálida idéia do que vai suceder em 2008. Desistimos?

Obviamente, não. Podemos não saber o que vai acontecer em 2008. Mas é possível dizer o que não vai acontecer. A revista americana "Business Week", por exemplo, dedicou um número recente à indústria dos negócios e do espetáculo, prevendo quem não vai ganhar Oscar, quem não vai falir, quem não vai faturar na bolsa etc.

O exercício é pedagógico e pode ser aplicado ao mundo inteiro com resultados modestos, mas seguros. Querem experimentar?

Politicamente, 2008 será marcado pelas eleições presidenciais americanas. Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é os americanos elegerem uma mulher (Hillary), um negro (Obama) ou um mórmon (Romney) para a Casa Branca.

O mesmo para a Rússia e para o Zimbabwe, com eleições no mesmo mês (março). Isso é fato. Duplo.

Mas o que não vai acontecer é o partido de Vladimir Putin perder as eleições na Rússia. Ou Mugabe perder as dele no Zimbabwe. Ou seja, a Rússia não será mais democrática e o regime de Mugabe não será menos torcionário. Isso não vai acontecer.


Mas o ano não se limita a eleições. Teremos Jogos Olímpicos em Beijing. Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é a China libertar os presos políticos, tolerar os dissidentes ou renunciar às suas pretensões sobre Taiwan.

O mesmo para o Irã, que não vai abandonar o processo de enriquecimento de urânio e a busca da bomba.

E se vocês acreditam que o Estado de Israel, nos 60 anos da sua fundação, será finalmente reconhecido pelo radicalismo islâmico, por favor, não se iludam: isso também não vai acontecer.

Aliás, o radicalismo islâmico não vai desaparecer. Muito menos no Iraque. Qualquer jornal do mundo dirá que em 2008 passarão cinco anos sobre a invasão americana.

E daí? Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é a retirada das tropas, independentemente do vencedor nas presidenciais americanas de novembro.

E se o Iraque não terá paz, sobretudo porque o entendimento entre sunitas e xiitas também não vai existir, as reformas econômicas e sociais de Sarkozy em França não vão trazer paz ao país.

E o namoro do Presidente com Carla Bruni, mais nova do que ele, também não vai trazer paz ao próprio.

De resto, é possível afirmar com segurança que Saramago não vai escrever um bom livro, Oliver Stone não vai dirigir um bom filme e Rod Stewart não vai gravar uma boa música. E o presente cronista?

O presente cronista talvez não acerte em todas as não-previsões. O que seria bom. Essa é a única hipótese de Portugal vencer mesmo a Eurocopa.

FREI BETTO

Feliz 2008

Não basta o propósito de fazer novo em nossas vidas o ano de 2008. É preciso mais: fazer novas as realidades que nos cercam

O QUE há de especial em trocar de ano? Nada, exceto a convenção numérica, invenção indo-arábica, que nos permite codificar o tempo em horas, minutos e segundos e estabelecer, segundo o movimento de nosso planeta em torno do Sol e as fases da Lua, calendários que repartem o tempo em ano de 12 meses, mês com cerca de 30 dias e dia com exatas 24 horas.

Ocorre que não somos trilobitas, e sim humanos, dotados da capacidade de imprimir ao tempo caráter histórico e, à história, sentido. Mudar de ano é rito de passagem.

Ressoa em nosso inconsciente o alívio por terminar um ano de tantos reveses, perdas, sofrimentos; e celebrar conquistas, avanços e vitórias. Vivemos premidos pelo mistério.

Como as partículas subatômicas, somos regidos pelo princípio da indeterminação. Essa impossibilidade de prever o futuro suscita angústia, o que nos induz a tentar decifrá-lo por via da leitura dos astros e das cartas, da sabedoria de videntes, dos búzios de pais e mães-de-santo, da rogação aos nossos santos protetores.

Esta é uma paradoxal característica da pós-modernidade: em plena era da emergência da física quântica e da falência do determinismo histórico como ideologia, acreditamos que o nosso futuro está escrito nas estrelas.

Daí a inércia, a indignação imobilizadora, a impotência diante dos escândalos éticos e do descaramento com que corruptos são absolvidos por seus pares, essa letargia que em nada lembra o que se deveria comemorar neste ano: os 40 anos de Maio de 1968.
Nos países industrializados,

Maio de 68 é o paradigma da rebeldia, o grito parado no ar enfim sonorizado nas manifestações estudantis, os EUA derrotados pelos vietnamitas, os Beatles reinventando a canção, a moda subvertendo parâmetros, as mulheres a conquistar o direito de se apaixonar pela primeira vez inúmeras vezes, a castração do machismo, a emergência esotérica.

Do lado sul do planeta, os anos de chumbo, os generais metendo no coldre as chaves dos Parlamentos, a utopia dependurada no pau-de-arara, as rotas do exílio se multiplicando, os mortos e desaparecidos enterrados nos arquivos secretos das Forças Armadas.

Ainda assim, havia sonho, e não era motivado pela ingestão química, brotava da fome de liberdade e justiça, fomentava o desejo irrefreável a adjetivar de novo a criatividade incensurável -o cinema, a bossa, a literatura, o tropicalismo. No passado, o futuro era melhor.

Hoje, imersos nessa sociedade da hiperestetização da banalidade, na qual as imagens contraem o tempo e a "web" virtualiza o diálogo na solidão digital, andamos em busca de uma razão de viver.

Perdemos o senso histórico, trocamos os vínculos de solidariedade pela conectividade eletrônica, vendemos a liberdade por um punhado de lentilhas em forma de segurança.
Em 2008, seremos chamados às urnas municipais.

Haveremos de tentar discernir os idealistas dos arrivistas; os servidores públicos dos que se afogam no ego destilado na embriaguez dos aplausos; os movidos pela intransigência dos princípios éticos dos que miram os recursos do Estado como carniça fresca ofertada à sua gula insaciável.

Ano também de comemorar o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, para vergonha de nós, católicos, até hoje não mereceu a assinatura do Estado do Vaticano.

No Brasil, é hora de a declaração ser transferida do papel à realidade social. Em que pese a atuação corajosa da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, é impossível celebrar conquistas em direitos humanos enquanto a polícia estigmatiza como suposto traficante o morador de favela;

o Judiciário promove a orgia compulsória ao trancafiar mulheres em celas repletas de homens; indígenas e quilombolas são condenados à miséria por descaso das autoridades; a frouxidão da lei cobre de imunidade corruptos e de impunidade bandidos e assassinos.

Não basta o propósito sincero de fazer novo em nossas vidas o ano de 2008. É preciso mais: fazer novas as realidades que nos cercam, de modo que ocorram mudanças efetivas e a paz floresça como fruto da justiça. Feliz 2008, Brasil!

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 63, frade dominicano e escritor, é autor de, entre outras obras, "A arte de semear estrelas". Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
Veículos circulam por paisagem coberta de neve nas montanhas Mecsek,
ao sul de Budapeste, na Hungria; inverno é rigoroso



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