sexta-feira, 4 de janeiro de 2008



DE VIRADA

A praia é um dos lugares mais interessantes para observações antropológicas livres. Pode-se olhar, descrever e até praticar a chamada observação-participante ou mesmo a perigosa, epistemologicamente falando, se me entendem, participação-observante.

Tudo sem pressa. Eu me dedico, em geral, à contemplação estudiosa e detalhista. Entre a observação e a participação há, quase sempre, o uso de um código que permite romper a distância cultural e quebrar o estranhamento.

Pude anotar várias fórmulas originais de superação do choque cultural: 'Oi...' – seguido de um silêncio dubitativo; 'Você não é a...' – completado pela interlocutora com satisfação ou, não raras vezes, com certo ar de tédio.

Pude constatar, porém, que a linguagem não-verbal – sorrisos e olhares oblíquos – predomina nas estratégias de aproximação, com os machos ainda tomando mais vezes a iniciativa e quebrando a cara em, ao menos, 50% dos casos. Já a tomada de iniciativa pelo sexo feminino, embora mais rara, é quase sempre bem-sucedida.

Passamos o réveillon no Costão do Santinho, em Santa Catarina. Como se sabe, é um paraíso. Ninguém esteve no paraíso até hoje, que eu saiba.

Ao menos não localizei no You Tube nenhum vídeo com imagens autênticas do paraíso. Mas é assim que se fala de qualquer lugar bonito e não cabe aqui discutir esse termo consagrado.

Certo é que eu me dediquei, durante três dias, no Santinho, a classificar tatuagens, formatos de barriga e tamanhos de biquíni. Nada posso dizer sobre a beleza das mulheres ou sobre as figuras masculinas, pois não tive tempo de prestar-lhes atenção.

Levei muito a sério a tarefa a que me destinei. Seguem as minhas conclusões: os biquínis estão maiores e alguns podem até servir de shortinho na hora de ir ao supermercado ou tomar um sorvete no centrinho, na Praia dos Ingleses.

Mesmo assim, foi possível perceber o retorno do fio-dental numa faixa etária, ouso imaginar, entre 25 e 30 anos. A evolução dos biquínis resume-se a isto, uma modernização-conservadora bastante moderada. Uma postura mediana entre os governos FHC e Lulla.

Já as barrigas, predominantemente masculinas, podem ser classificadas em três formatos: redondas em cima e triangulares em baixo (bebedores de cerveja, carregadas em caixas de isopor, a partir das 10h da manhã);

redondas embaixo e afinadas em cima (alternam cerveja, comprada dos vendedores ambulantes, e caipirinhas); e ovais (bebem cerveja de manhã na praia, caipirinha no almoço, cerveja, à tarde, na beira da piscina, e uísque ao anoitecer).

Cheguei a produzir uma tabela com os dados relativos a esse aspecto. Alerto que não são números definitivos. Para tirar conclusões sérias, eu teria de coligir – é assim que se fala – outras informações.

Por fim, a parte mais desconcertante: as tatuagens. Entre as mulheres, predominam, como esperado, as flores, os pássaros delicados e os nomes de homens.

Foram os marmanjos que provocaram as maiores surpresas com as suas inscrições. Um deles, sarado e altivo, beirando os 30 anos, carregava no próprio corpo uma marca indelével e inimaginável: Harry Potter. Uau! Nada contra.

Cada um com a sua cultura. Outro, mais jovem, escolheu algo mais razoável, embora não menos impactante: Sport Club Internacional. Falta ainda estabelecer uma relação de causa e efeito entre barrigas, biquínis e tatuagens.

juremir@correiodopovo.com.br


04 de janeiro de 2008
N° 15468 - Paulo Sant'ana


Chokito

Morreu meu amigo Chokito. Morreu sozinho num hospital de Belém Novo. Foi no último dia 28.

Chokito era um quase mendigo. Branco, estatura média, com barba grande, vivia de donativos em suas andanças trêmulas e parcas pela cidade.

Tornei-me amigo dele apresentado pelo Guerrinha. Se o Guerrinha gosta de alguém, eu também acabo gostando.

Chokito morreu na semana passada de câncer no estômago, com alastrada metástase.

Tinha o apelido de Chokito por um sarcasmo coletivo que se instalou no Centro, bairro onde ele quase sempre vivia. Aliás, ele morava há anos numa pensão do Centro, pagava por dia, pasmem, R$ 11. Imaginem o pardieiro onde ele morava. Mesmo assim, era um lugar até que mordômico para quem foi na vida inteira um quase mendigo, um tremendo desprotegido.

Voltando ao apelido de Chokito que a plebe lhe deu, devia-se às 200 verrugas que havia no pergaminho de sua pele, espalhadas no corpo inteiro. Enormes verrugas, do tamanho de pitangas.

Então lhe aplicaram o apelido de Chokito, referência ao bombom de chocolate muito vendido no comércio, cheio de protuberâncias.

Afora o apelido tão genial quanto escatológico (por vezes o povo é cruel com suas chacotas), Chokito era uma pessoa muito amável, serviçal, devotado a quebrar os galhos dos outros, como pagar contas.

Ele era terrivelmente pobre, mas um homem de confiança, nunca se apropriou de dinheiro ou quaisquer outros valores dos outros.

Era só, morava só numa pensão barata do Centro, dedicava-se todo dia a favores que prestava aos amigos.

Era muito só, muito desamparado, meu desventurado amigo Chokito.

Para essas pessoas assustadoramente sós, Vinicius de Moraes fez um poema que encaixou numa música antológica, denominada Um Homem Chamado Alfredo, da qual um trecho que vou agora reproduzir parece que foi escrito para o Chokito:

"Ah, quanta gente sozinha/ gente que mal se adivinha/ gente sem mãos para dar/ gente sem fé para orar/ gente que basta um olhar/ quase nada/ Gente com os olhos no chão/ sempre pedindo perdão/ gente que a gente não vê/ porque é quase nada".

Terrível e sublime!

Encontrei anteontem na parrilla Viejo Panchos, onde vai sempre com o ex-deputado federal Jorge Uequed, o ministro e senador Paulo Brossard.

Tão pronto me viu, Paulo Brossard contou-me o seguinte fato: esses dias, encontrou-se na rua com uma senhora. Brossard, tirou seu chapéu panamá e saudou a senhora. A senhora perguntou ao condestável Brossard, ao erudito Brossard: "O senhor não é o Paulo SantAna?".

Realmente sou parecido com Brossard, muitas pessoas me dizem que seu olhar e seus cabelos são iguais aos meus.

Mas quando a senhora perguntou na calçada da rua a Brossard se ele era o Paulo SantAna, o ministro respondeu: "Ainda não".

E eu acrescento que o ministro Brossard ainda chega lá.


04 de janeiro de 2008
N° 15468 - DAVID COIMBRA


Não fui eu!

Fosse acreditar nos cartões de fim de ano, estaria explodindo de amor-próprio. Acharia que lojas, empresas de construção, farmácias, vereadores e agências de publicidade me amam verdadeiramente. Não só isso: acharia que nada é mais importante do que eu, para eles. "O mais importante para nós é você!", juram-me todos.

Mas não é verdade, sei que mandam esses cartões para todo mundo. Então, nem os abro. Recebo um envelope, aqui na Redação, vejo que é de felicitações, bibibi, e enfio-o direto na lata de lixo ao lado da mesa.

Fico pensando nas árvores, quando faço isso. Quantas árvores continuariam vivas, fazendo fotossíntese com plena alegria, se ninguém enviasse cartão de Boas Festas? Quantas florestas? Vejam, vegetarianas, como também posso ser ecologicamente correto.

Mas a fúria que se abate sobre as pessoas para desejar alvíssaras aos outros é tão intensa, tão irrefreável, tão incontida, nessa época do ano, que elas não ficam felizes em apenas mandar cartões. Elas vão para a internet e começam a enviar mensagens de bom Ano-Novo indiscriminadamente, durante dias a fio, sem parar.

Eu mesmo recebi centenas, sério!, centenas de imeils de desconhecidos com o mesmo título: "Que venha 2008!" Não cheguei a ler o restante da mensagem, mas o tom de desafio me intrigou.

Que venha 2008! Uma espécie de chamamento para a briga. Certamente, é de alguém que não teve um bom 2007, espera algo pior, mas garante que não vai desistir.

Quer dizer: não irá se jogar do oitavo andar, por exemplo. Não sei se essa pessoa faz bem em ser tão insistente, mas o fato é que seu arrosto a 2008 encontrou seguidores sem fim, estão todos por aí de queixo erguido, encarando 2008 com uma faca entre os dentes.

Eu recomendaria mais prudência. O ano mal começou, sabe como é... Não que meu 2007 tenha sido ruim. Ao contrário: foi ótimo.

Mas, no finzinho, no dia 31, abateu-se sobre meu fatigado corpo uma virose, ou algo do gênero, que me pôs de cama, com febre e enjôos pelo dia inteiro e que ainda não me abandonou completamente. Fazia 11 anos que não ficava doente. Onze anos!

Por isso, febril, suando, sozinho no escuro do quarto, refletia penosamente sobre as razões de aquilo ter acontecido comigo. Era difícil de pensar, vinham-me à cabeça imagens de corujas na praia, de retrospectivas na TV, do Rei cantando, até que fiat lux!

Lembrei dos imeils. Que venha 2008! Que venha 2008! Que venha 2008! Aquelas milhares de mensagens desaforadas passando pelo meu endereço eletrônico, e aí 2008, como se dissesse, ah é, é?, começou desse jeito para mim.

Não fui eu! Eu não tenho culpa! Odeio cartões de felicitações de qualquer tipo! Odeio imeils com cachorrinhos, criancinhas, passarinhos e Jesus, com mensagens emocionantes.

Não que tenha algo contra os animais, as crianças ou O Senhor, por favor! Tenho-os todos em máxima conta, viram, vegetarianas?

Mas é que não vou perder tempo lendo imeils de mensagens edificantes, por mais edificantes que sejam. Não vou! Não adianta me mandar.

Portanto, aqui de dentro do meu corpo enfraquecido, quero deixar bem claro: não sou a favor de afrontas contra anos-novos. Prefiro a composição, a tolerância, o jeitinho. Calma, 2008. Calma.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008


ELIANE CANTANHÊDE

É caso de caixa, não de saúde

BRASÍLIA - Lula usou o primeiro dia útil do ano para deflagrar duas operações de recuperação: uma, dos R$ 38 bilhões perdidos com o fim da CPMF; outra, da imagem e da auto-estima do ministro Guido Mantega, que ele próprio tinha desautorizado publicamente.

Ficou o dito pelo não-dito. Ou melhor, o não-dito do dito pelo não-dito. Mantega anunciou que haveria aumento de impostos e cortes para compensar a CPMF.

Lula deu-lhe um carão, negando o óbvio. Agora, foi o próprio Mantega quem foi à TV para dizer que ele estava certo. Logo, Lula blefara.

E a sensação é de que os aumentos do IOF e da CSLL, que incidem sobre operações financeiras, são apenas a primeira parte da história. Lá pelo meio do ano deverá haver uma reavaliação, com mais "novidades". Depende da vitalidade da economia. Preparem os bolsos.

Sim, porque o discurso oficial é de que os bancos foram chamados a pagar a conta, mas não é bem assim. Quem paga IOF não é o banco, é o tomador do crédito. E o peso da CSLL vai acabar caindo sobre o preço do produto. Alguma dúvida?

A favor do governo, não havia muita alternativa. Corte de R$ 38 bilhões corresponde a redução de superávit fiscal, corte drástico de despesas e/ou aumento de impostos.

O equilíbrio desse tripé varia de acordo com o freguês. Como o governo decidiu corretamente não mexer no superávit fiscal e sempre faz apologia da gastança, o aumento de impostos era inevitável.

Agora, é acompanhar os tais cortes anunciados de R$ 20 bilhões.

Calculadoras da Esplanada dos Ministério estão a mil, e já há general pensando em convocar o Alto Comando do Exército para defender o tão prometido "reequipamento" (com aumento do soldo, claro).

Por falar nisso, onde foi parar a promessa de garantir os recursos extras da Saúde? Virou uma "equação futura". O problema é de caixa, não de saúde, manjou?

elianec@uol.com.br

ASQUALE CIPRO NETO

Gato matreiro, sensual, incendiário

Em poesia, "tudo-nada cabe", diz Gil em "Metáfora" ("Ao poeta cabe fazer com que na lata venha a caber o incabível")

"CRESCI NATURALMENTE, como crescem as magnólias e os gatos", diz Machado em "O Menino É Pai do Homem", capítulo de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", obra-prima do Bruxo do Cosme Velho.

Decerto é desnecessário dizer que, no excerto machadiano, "gatos" quer dizer "gatos" mesmo, ou seja, trata-se dos felídeos.

Até aí, nenhuma novidade. Pois bem. Ontem, a primeira página do UOL estampava uma manchete em que se afirmava que um "gato" pode ter sido o causador do incêndio na cadeia de Rio Piracicaba (MG).

Outra manchete informava que, para a genial e encantadora jogadora de futebol Marta, o jogador português Cristiano Ronaldo é um "gato".

Nos dois casos, o pessoal do site teve o cuidado de colocar a palavra "gato" entre aspas, o que, para muita gente (por "gente" entenda-se tanto "leitores" quanto "redatores"), não faz nenhuma diferença.

No segundo caso (o do conceito de Marta sobre C. Ronaldo), vá lá que a falta das aspas não implicaria dificuldade para a compreensão, mas no primeiro...

Santo Deus, uma coisa é afirmar que um gato pode ter causado o incêndio; outra é afirmar que o tal incêndio pode ter sido causado por um "gato". O nobre leitor já percebeu aonde quero chegar, certo?

Os sinais de pontuação não são enfeites, lenteloujas (ou lantejoulas, tanto faz), miçangas etc. Têm e cumprem seu papel, muitas vezes bem definido.

No caso das aspas, um dos seus papéis é realçar o sentido figurado com que se empregou determinada palavra ou expressão.

Se um matreiro felídeo (isto é, um gato, sem aspas, como o é o gordo, guloso e preguiçoso Garfield, por exemplo) perambula pela fiação de determinado lugar e causa um curto-circuito, a culpa é do gato.

Se humanos desastrados fazem ligações elétricas clandestinas e isso causa curtos-circuitos, a culpa é do "gato". Na verdade, é do homem (ou será do "rato", com aspas?).

Gato, rato, bicho-homem, homem-bicho -é quase tudo uma coisa só, neste triste mundo de meu Deus.

Na memorável "Ode aos Ratos" (música de Edu Lobo, letra de Chico Buarque), encontram-se estes finos versos, que encerram a obra-prima: "Saqueador da metrópole / Tenaz roedor / De toda esperança / Estuporador da ilusão / Ó meu semelhante / Filho de Deus, meu irmão".

Em seu belíssimo disco "Carioca", Chico emenda "Ode aos Ratos" e "Embolada" (também composta em parceria com Edu Lobo), que assim começa: "Rato / Rato que rói a roupa / Que rói a rapa do rei do morro...".

Compreendidas as metáforas (e, no fundo, a alegoria), fica difícil saber se esse rato é um rato ou um "rato".

Mas isso é poesia, e em poesia "tudo-nada cabe", como dizia Gilberto Gil em sua genial "Metáfora" ("Na lata do poeta tudo-nada cabe / Pois ao poeta cabe fazer / Com que na lata venha a caber / O incabível").

Definir o sentido da linguagem poética pode resultar em empobrecimento. Vale o que diz o mesmo Gil na mesma "Metáfora": "(...) não se meta a exigir do poeta / que determine o conteúdo em sua lata / (...)

Deixe a meta do poeta, não discuta / Deixe a sua meta fora da disputa / Meta dentro e fora, lata absoluta / Deixe-a simplesmente metáfora".

Em se tratando de linguagem jornalística, é bom (re)lembrar, a clareza é mais do que necessária. É isso.

inculta@uol.com.br

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Chegou a conta dos fogos!

Que preguiça! Réveillon na Bahia é bom porque acabou o Réveillon já começa o Carnaval

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Em 2008, molhe o biscoito! E, como diz a minha vizinha, se for em mim, melhor ainda!

E um leitor me disse que 2007 foi o ano da rabanada. Levou rabanada do chefe, levou rabanada da mulher, levou rabanada da sogra. E levou rabanada do Lula.

Aliás, o Lula disse que este será o ano do crescimento. Vamos crescer tanto que vamos furar a lona do circo! Rarará! Vamos furar a camada de ozônio. E a dona Marisa tá parecendo um quindão de botox! Rarará!

Ai que preguiça! Falta muito para o Réveillon de 2009? Réveillon na Bahia é bom porque acabou o Réveillon já começa o Carnaval.
Não tem aquele intervalo insuportável!

E agora volta ao trabalho. Back to reality. Definição definitiva da volta ao trabalho: depois de comer tudo aquilo, voltamos a comer por quilo!

E essa é a grande previsão pra 2008: depois da grande virada, todo mundo se virando. Pra pagar a conta dos fogos. Ou você acha que rojão em Copacabana é de graça?

O show da Alcione no Recife já vem embutido nos impostos. Esse ano vão cobrar IPVA até de carrinho de supermercado. De carrinho de bebê!

E sabe como foi a passagem de ano do Rubinho? Os outros é que passaram! Rarará!

E sabe o que um amigo meu fez no primeiro dia do ano? Vomitou no carpete da sogra, vomitou no elevador do prédio e mijou na porta da geladeira. É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é duro, mas desce!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em Arembepe, na Bahia, tem uma barraca de beiju COM TUDO DENTRO! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Delivery: companheiro que age por vontade própria. Delivery e espontânea vontade. Rarará. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã.

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. No peru! Pra fazer glu-glu! E quem fica parado é poste! Acorda, Brasil! Que eu vou dormir. Até 2014! Ufa!

simao@uol.com.br


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Nilson Souza


O ano da coruja

Sei que o público vaiou e que o prefeito ficou indignado, mas também me incluo entre os que aplaudem a ação do Batalhão Ambiental da Brigada Militar que impediu os fogos da virada de ano em Capão da Canoa, para não perturbar a família de corujas hospedada nas dunas da praia.

A prefeitura gastou R$ 26 mil para iluminar os céus da cidade na chegada de 2008 e agora não sabe o que fazer com os rojões que seriam queimados durante 12 minutos, exatamente no lugar onde a coruja dorme, com seu companheiro e seus filhotes recém vindos ao mundo.

Sugiro que a administração pública guarde as suas bombinhas para as festas juninas ou distribua os foguetes para os pescadores utilizarem como sinalizador em caso de necessidade, mas deixe as aves em paz.

Os veranistas contrariados também devem refletir melhor. O Ano-Novo chegou de qualquer maneira e certamente com um pouco mais de paz para todos.

Basta lembrar o exemplo trágico da vizinha Imbé, onde um artefato disparado irresponsavelmente atingiu a cabeça de uma idosa, causando sua morte. Neste sentido, é uma bênção para Capão da Canoa ter sido escolhida como estação de verão pela família de simpáticas corujas.

Esta semana mesmo, lendo sobre previsões e simpatias para a virada de ano, encontrei uma curiosidade que se adapta perfeitamente ao episódio do litoral gaúcho.

Um xamã, que é uma espécie de sacerdote indígena e que se vale de recursos da natureza para curar pessoas, dizia exatamente que 2008 é o ano da coruja-branca, símbolo do aprendizado: "Por isso, devemos adotar a postura de aprendizes e prestar muita atenção nas questões mal resolvidas", recomendou.

Tenho uma amiga querida que costuma reagir sempre com a mesma frase quando ouve uma queixa ou o relato de um acontecimento amargo:

- E o que a gente aprende com isto?

Podemos aprender, por exemplo, que os pássaros, os cães, os gatos, os cavalos e todos os animais merecem um pouco mais de respeito quando promovemos as nossas barulhentas celebrações.

Podemos, também, até para consolar os inconformados veranistas que ficaram sem o show de fogos, aprender que a coruja-branca se alimenta de roedores, sendo uma das responsáveis pelo controle da população de ratos.

Podemos, talvez, aprender que os governantes queimam o dinheiro de toda a população - e não apenas dos apreciadores do foguetório - quando investem recursos públicos em pirotecnia.

Ou, quem sabe, podemos aprender a mais importante de todas as lições do Ano da Coruja: que 2008 pode ser efetivamente um ano de cuidados com o meio ambiente.

Excelente quinta-feira com temparaturas acima dos 30º graus e clima seco por aqui nesta Porto que continua alegre.


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Paulo Sant'ana


Em perigo a borboleta

Como eu sempre digo e ouço: "Quando a vaga é boa, a gente nem tem vontade de tirar o carro".

Neste ano de 2008, doe sangue. É sempre bom repetir: inscreva-se como doador de sangue.

E neste ano de 2008, principalmente doe seus órgãos. Comunique sua família de que você é um doador - ou doadora.

Sempre é bom relembrar: doe sangue e doe seus órgãos. E finalmente doe-se de todo, por inteiro, aos outros, em 2008.

Doe-se, dê-se, entregue-se. Faça alguma coisa para tornar-se digno aos olhos de Deus. Doe-se. Saia definitivamente deste casulo e ande pela ruas abraçando-se às pequenas e às grandes causas dos seus semelhantes.

Doe-se. E seu dever como ser humano estará cumprido.

Um soberano da antigüidade já estava incendiado de inveja com relação a um sábio de seu reino.

O sábio sabia tudo. Resolvia os problemas de todos os súditos do rei.

O sábio era tão sábio e estava ficando tão mais famoso e prestigiado do que o rei, que este só tinha na cabeça uma coisa: haveria de eliminá-lo, a megalomania e a insegurança do rei deram-se as mãos e decidiram por desmoralizar o sábio, com o que ele teria de deixar o reino ou suicidar-se.

Obrou então o rei em sua urdidura: convocou uma imensa platéia para um espetáculo na capital do reino, onde ele próprio, em carne e osso, se encontraria com o sábio e o desmoralizaria publicamente.

Feito isso, chegou o grande dia. Uma multidão se reuniu em torno da grande praça central da cidade. Além do povo, as pessoas mais importante do reino estavam ali acotoveladas.

E o rei, diante dos olhos de todos, perguntou ao sábio se uma borboleta que estava entre suas mãos se encontrava viva ou morta.

O soberano ergueu as mãos, assim como se ergue as mãos ao céu para orar, colocou entre os dedos estendidos e contíguos das duas mãos uma borboleta viva, encostou uma mão na outra, e perguntou ao sábio:

"A borboleta que tenho entre minhas mãos está viva ou morta?".

O plano do rei era o seguinte; se o sábio dissesse que a borboleta estava viva, o rei apertaria suas mãos e apresentaria a borboleta morta e esmigalhada por suas mãos ao grande público.

Se, no entanto, o sábio dissesse que a borboleta estava morta, o rei abriria e deixaria alçar vôo o inseto lepidóptero ante o olhar curioso da enorme platéia.

Ou seja, com qualquer das duas alternativas de resposta o sábio se desmoralizaria e seguiria para o desterro.

Então foi chegado o momento culminante: o rei perguntou com as mãos justapostas e os dedos fechados em forma de oração se a borboleta estava morta ou viva.

E o sábio respondeu: "Em qualquer situação, o destino desta borboleta está em suas mãos, respeitado soberano".

Eu conto esta história interessante por vários motivos, mas por um mais importante: mesmo tendo demonstrado inveja do sábio, não julguei mau o soberano por isso.

Só fui julgá-lo mau, isto é, só fui saber que ele era cruel e déspota quando chegou a parte da história em que ele decidiu que iria deixar viva a borboleta ou matá-la, conforme a reposta do sábio:

um homem que por qualquer motivo ou interesse considere a hipótese de matar qualquer animal, mesmo um inseto, embora a borboleta seja um deslumbrante inseto, é mau.

Assim como qualquer um que queira molestar ou matar a golpes de forte som as corujinhas de Capão da Canoa haverá de ser um homem mau.

Qualquer homem que mata ou mesmo maltrata qualquer animal é um homem mau e indigno de continuar vivendo.


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Luiz Pilla Vares


E 2008 chegou

Pois já estamos em 2008. Depois da comilança do final de 2007, as pessoas vão cair na real. E isso significa que nada vai mudar, mesmo que a vida real, sem fantasias, comece apenas depois do Carnaval, que, neste ano, é bem mais cedo, no início de fevereiro.

E então recomeça a rotina, as mesmas chateações de todos os anos, as mesmas pequenas alegrias, as mesmas preocupações, novos nascimentos, novas mortes e, aos poucos, vamos esquecendo as expectativas que tínhamos em relação ao ano novo até que novas esperanças surjam quando estivermos às portas de 2009. Enfim, nada muda apenas porque acrescentamos um novo número na data.

O bom é que podemos novamente ler jornais, ouvir rádio, ver televisão, porque não há nada mais chato do que os meios de comunicação em final de ano.

As retrospectivas então, ninguém agüenta mais: é um repeteco de todos os finais de ano, uma coletânea de fatos desconexos, o mero cumprimento de um ritual que tem valor apenas para um punhado de colecionadores. Se ao menos, os editores se dessem ao trabalho de uma análise jornalística séria, bem escrita...

Mas 2008 vai servir para proporcionar algumas reflexões importantes: vão ocorrer as chamadas "datas redondas", que tanto gostamos de celebrar.

Já no começo, temos os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil. É uma data que assinala um mudança radical no país, que ali deixou de ser uma colônia - ou uma colcha de retalhos de províncias desligadas entre si.

Desde que não venham transformar D. João VI, um rei medroso, indeciso e relaxado, num herói nacional, é uma data propícia a análises sobre uma época e um processo de transformações que mudaram o Brasil: desde 1808, o país deixa de ser colônia e está maduro para a Independência.

Além disso, a literatura pode também festejar e muito. Para começar, os 200 anos de nosso maior escritor, Machado de Assis, e os cem anos de um autor que não lhe fica muito atrás e que mudou a face do romance brasileiro, Guimarães Rosa.

Mas há, também, (como o tempo passa), os 40 anos do glorioso maio de 1968, último momento em que uma onda libertária de esperanças, a partir da França, varreu o mundo inteiro e abriu as comportas do sonho e da imaginação. Uma pena que tenha resultado apenas no sonho e na imaginação.

Diferente foi o ano de 2006, para a felicidade inesquecível de uns e a tristeza infinita de outros, o meu, o nosso, Internacional, foi campeão da América e do Mundo. Ainda hoje, já em 2008, repito o Verissimo: "belisquem-me".


03 de janeiro de 2008
N° 15467 - Luis Fernando Verissimo


Querido Papai Noel

Recebi uma carta do Papai Noel! Nela ele agradece a cartinha que lhe mandei em dezembro de 1942 pedindo uma bola de futebol e um revólver como o do Vingador, com espoletas, e se desculpa pela demora da resposta.

Explica que como faz questão de responder pessoalmente todas as cartas que recebe no Natal, e escreve à mão, sua correspondência naturalmente se acumula e só agora ele está chegando ao ano de 1942. A carta é simpática.

Papai Noel comenta como é difícil acreditar que 65 anos passaram tão depressa e pergunta se recebi os presentes pedidos e se por acaso eles tiveram alguma influência na minha vida, se acabei sendo jogador de futebol ou caubói. E deseja um bom 2008 etc.

Pensei em responder ao Papai Noel, mas ele provavelmente só teria tempo de ler minha resposta lá pelo fim do século, quando eu possivelmente já estarei morto.

Eu diria que fui as duas coisas, jogador de futebol e caubói, simultaneamente, e marquei muitos gols e matei muitos bandidos e índios, todos imaginários, mas por pouco tempo. Que continuei gostando de bola mas abandonei o revólver, embora ainda me lembre com saudade do cheiro da espoleta detonada.

Que de 1942 até agora fui muitas outras coisas, na maioria imaginárias também. Perguntaria se ele recebeu minha última cartinha, escrita na adolescência, em que eu pedia de Natal a Jane Russel com seus peitos e/ou a paz mundial.

E concordaria com ele: 65 anos passam, mesmo, depressa demais.

The Queen

Confesso que gosto da rainha Elizabeth, que na semana passada, se entendi bem, o que eu duvido, colocou um blog, ou coisa parecida, seu na internet.

Ela parecia exercer seu reinado com placidez e um toque de tédio, de quem gostaria mesmo estar com os seus cavalos, embora às vezes seja difícil saber se alguém está chateado ou apenas sendo inglês em público. Mas agora sabe-se que o enfaro da rainha escondia um desejo secreto de modernização e relevância.

O blog da rainha seria uma resposta às repetidas sugestões para que se aposente. Ela se renova para ficar. Ou talvez só esteja preocupada em poupar a nação do Charles, ou o Charles da nação.

Nas fotografias de Elizabeth quando moça, nota-se - se não for só uma tara minha - uma certa sensualidade no rosto, algo nos olhos que ela teve que domar para não fugir com um cavalariço, ficar e cumprir suas obrigações. Sobrou disso uma resignação irônica que se vê nos cantos da sua boca até hoje.

O inglês Alan Bennett escreveu uma peça sobre Anthony Blunt, um aristocrático historiador de arte que era consultor do palácio e também, soube-se muitos anos depois, espião da União Soviética, em que a rainha aparece, de surpresa, numa cena.

Elizabeth e Blunt têm uma conversa sobre a autenticidade na arte que também é uma conversa sobre a duplicidade nas pessoas e a crescente vulgarização da monarquia e suas riquezas, e em que ela diz:

"Um monarca já foi definido como alguém que não precisa olhar antes de se sentar. Não mais. É preciso olhar, hoje em dia, pois há uma boa possibilidade de a sua cadeira não estar ali, mas em exibição em outro lugar".

A frase é de Bennett, mas é possível imaginá-la dita pela rainha, com o meio sorriso desencantado de quem um dia sonhou ser outra coisa, mas não teve escolha.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008


JOÃO PEREIRA COUTINHO

O ano que não vai existir

É possível afirmar que Saramago não vai escrever um bom livro, Oliver Stone não vai dirigir um bom filme

POBRES LEITORES de jornais. No final de um ano, começo do outro, os jornais deixam de ser jornais. As notícias do mundo não ajudam, claro, mas os jornalistas também não.

Existem duas hipóteses. Primeira: reciclar notícias de 2007 e fazer um "balanço do ano" (com fotos, claro). Segunda: fazer "previsões" de 2008 que não são "previsões", mas repetições de fatos incontornáveis (exemplo: dia 25 de dezembro será Natal novamente).

No primeiro caso, existe preguiça. No segundo, existe preguiça ou presunção. Exceto generalidades, ninguém faz a mais pálida idéia do que vai suceder em 2008. Desistimos?

Obviamente, não. Podemos não saber o que vai acontecer em 2008. Mas é possível dizer o que não vai acontecer. A revista americana "Business Week", por exemplo, dedicou um número recente à indústria dos negócios e do espetáculo, prevendo quem não vai ganhar Oscar, quem não vai falir, quem não vai faturar na bolsa etc.

O exercício é pedagógico e pode ser aplicado ao mundo inteiro com resultados modestos, mas seguros. Querem experimentar?

Politicamente, 2008 será marcado pelas eleições presidenciais americanas. Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é os americanos elegerem uma mulher (Hillary), um negro (Obama) ou um mórmon (Romney) para a Casa Branca.

O mesmo para a Rússia e para o Zimbabwe, com eleições no mesmo mês (março). Isso é fato. Duplo.

Mas o que não vai acontecer é o partido de Vladimir Putin perder as eleições na Rússia. Ou Mugabe perder as dele no Zimbabwe. Ou seja, a Rússia não será mais democrática e o regime de Mugabe não será menos torcionário. Isso não vai acontecer.


Mas o ano não se limita a eleições. Teremos Jogos Olímpicos em Beijing. Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é a China libertar os presos políticos, tolerar os dissidentes ou renunciar às suas pretensões sobre Taiwan.

O mesmo para o Irã, que não vai abandonar o processo de enriquecimento de urânio e a busca da bomba.

E se vocês acreditam que o Estado de Israel, nos 60 anos da sua fundação, será finalmente reconhecido pelo radicalismo islâmico, por favor, não se iludam: isso também não vai acontecer.

Aliás, o radicalismo islâmico não vai desaparecer. Muito menos no Iraque. Qualquer jornal do mundo dirá que em 2008 passarão cinco anos sobre a invasão americana.

E daí? Isso é fato. Mas o que não vai acontecer é a retirada das tropas, independentemente do vencedor nas presidenciais americanas de novembro.

E se o Iraque não terá paz, sobretudo porque o entendimento entre sunitas e xiitas também não vai existir, as reformas econômicas e sociais de Sarkozy em França não vão trazer paz ao país.

E o namoro do Presidente com Carla Bruni, mais nova do que ele, também não vai trazer paz ao próprio.

De resto, é possível afirmar com segurança que Saramago não vai escrever um bom livro, Oliver Stone não vai dirigir um bom filme e Rod Stewart não vai gravar uma boa música. E o presente cronista?

O presente cronista talvez não acerte em todas as não-previsões. O que seria bom. Essa é a única hipótese de Portugal vencer mesmo a Eurocopa.

FREI BETTO

Feliz 2008

Não basta o propósito de fazer novo em nossas vidas o ano de 2008. É preciso mais: fazer novas as realidades que nos cercam

O QUE há de especial em trocar de ano? Nada, exceto a convenção numérica, invenção indo-arábica, que nos permite codificar o tempo em horas, minutos e segundos e estabelecer, segundo o movimento de nosso planeta em torno do Sol e as fases da Lua, calendários que repartem o tempo em ano de 12 meses, mês com cerca de 30 dias e dia com exatas 24 horas.

Ocorre que não somos trilobitas, e sim humanos, dotados da capacidade de imprimir ao tempo caráter histórico e, à história, sentido. Mudar de ano é rito de passagem.

Ressoa em nosso inconsciente o alívio por terminar um ano de tantos reveses, perdas, sofrimentos; e celebrar conquistas, avanços e vitórias. Vivemos premidos pelo mistério.

Como as partículas subatômicas, somos regidos pelo princípio da indeterminação. Essa impossibilidade de prever o futuro suscita angústia, o que nos induz a tentar decifrá-lo por via da leitura dos astros e das cartas, da sabedoria de videntes, dos búzios de pais e mães-de-santo, da rogação aos nossos santos protetores.

Esta é uma paradoxal característica da pós-modernidade: em plena era da emergência da física quântica e da falência do determinismo histórico como ideologia, acreditamos que o nosso futuro está escrito nas estrelas.

Daí a inércia, a indignação imobilizadora, a impotência diante dos escândalos éticos e do descaramento com que corruptos são absolvidos por seus pares, essa letargia que em nada lembra o que se deveria comemorar neste ano: os 40 anos de Maio de 1968.
Nos países industrializados,

Maio de 68 é o paradigma da rebeldia, o grito parado no ar enfim sonorizado nas manifestações estudantis, os EUA derrotados pelos vietnamitas, os Beatles reinventando a canção, a moda subvertendo parâmetros, as mulheres a conquistar o direito de se apaixonar pela primeira vez inúmeras vezes, a castração do machismo, a emergência esotérica.

Do lado sul do planeta, os anos de chumbo, os generais metendo no coldre as chaves dos Parlamentos, a utopia dependurada no pau-de-arara, as rotas do exílio se multiplicando, os mortos e desaparecidos enterrados nos arquivos secretos das Forças Armadas.

Ainda assim, havia sonho, e não era motivado pela ingestão química, brotava da fome de liberdade e justiça, fomentava o desejo irrefreável a adjetivar de novo a criatividade incensurável -o cinema, a bossa, a literatura, o tropicalismo. No passado, o futuro era melhor.

Hoje, imersos nessa sociedade da hiperestetização da banalidade, na qual as imagens contraem o tempo e a "web" virtualiza o diálogo na solidão digital, andamos em busca de uma razão de viver.

Perdemos o senso histórico, trocamos os vínculos de solidariedade pela conectividade eletrônica, vendemos a liberdade por um punhado de lentilhas em forma de segurança.
Em 2008, seremos chamados às urnas municipais.

Haveremos de tentar discernir os idealistas dos arrivistas; os servidores públicos dos que se afogam no ego destilado na embriaguez dos aplausos; os movidos pela intransigência dos princípios éticos dos que miram os recursos do Estado como carniça fresca ofertada à sua gula insaciável.

Ano também de comemorar o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, para vergonha de nós, católicos, até hoje não mereceu a assinatura do Estado do Vaticano.

No Brasil, é hora de a declaração ser transferida do papel à realidade social. Em que pese a atuação corajosa da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, é impossível celebrar conquistas em direitos humanos enquanto a polícia estigmatiza como suposto traficante o morador de favela;

o Judiciário promove a orgia compulsória ao trancafiar mulheres em celas repletas de homens; indígenas e quilombolas são condenados à miséria por descaso das autoridades; a frouxidão da lei cobre de imunidade corruptos e de impunidade bandidos e assassinos.

Não basta o propósito sincero de fazer novo em nossas vidas o ano de 2008. É preciso mais: fazer novas as realidades que nos cercam, de modo que ocorram mudanças efetivas e a paz floresça como fruto da justiça. Feliz 2008, Brasil!

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 63, frade dominicano e escritor, é autor de, entre outras obras, "A arte de semear estrelas". Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
Veículos circulam por paisagem coberta de neve nas montanhas Mecsek,
ao sul de Budapeste, na Hungria; inverno é rigoroso



Mulheres acendem velas diante de imagem da ex-premiê paquistanesa
Benazir Bhutto; eleições no país foram adiadas em um mês



02 de janeiro de 2008
N° 15466 - Martha Medeiros


Nunca subestime uma formiga

Ela é das grandes. Daquelas bem pretas. Vem caminhando em cima da minha escrivaninha, rumo ao teclado do meu computador, como se tivesse perdido o celular em algum lugar.

Ela olha para um lado e para o outro freneticamente - formigas não são cegas, como se sabe. E não usam celular, foi uma brincadeira.

Mas que ela está procurando alguma coisa, está. Um farelo, um grão, um filho. Finjo que não estou prestando atenção, mas não tiro o olho da bichinha, inscluve etsou escrnevdo tduo errdao.

Lá vem ela com passinhos ligeiros e pimba: subiu no teclado, está tentando se enfiar entre o F1 e o F2, mas lhe dou um peteleco bem mirado.

Ela volta cambaleando pra mesa e nem acusa o golpe, segue serelepe da vida. Só há um jeito. Vou matar. Sim, vou matar bem matadinha, vou entrar pro Bope e esmagá-la - argh, que nojo. Ao menos não é uma barata.

Pego uma folha pequena, arrancada de um bloco de recados. É suficiente para prensar esta desvairada contra a mesa. Depois é só dobrar o papel, limpar alguma gosminha que reste no local do crime e estará feito o serviço. Sem testemunhas. Como sou malvada.

Quando coloco o papel sobre ela, no entanto, o plano dá errado. Ela enxerga o papel! E isso não é o que mais me surpreende. Que ela não era cega, sempre soube. Só não sabia que era instintiva!

Ela entende que aquele papel sobre sua cabeça não é um zepelim planando, não é um guarda-chuva, não é uma nuvem: é uma ameaça de morte.

Ela sabe que está correndo perigo. Sabe a diferença entre viver e morrer, e não quer morrer, lógico. Então ela corre feito um maratonista e desaparece embaixo da minha impressora. Danada. Quer guerra? Pois bem.

Passados cinco intermináveis minutos, quem eu vejo saindo por baixo da impressora? Ela. Reconheceria a quilômetros. Resolvo mudar de tática: nada de folha de papel. Vou usar um livro. Isso, vou abrir um livro, fingir que estou lendo e assim que ela me der as costas, pá.

Peguei o Guia Prático do Português Correto, era o que eu tinha à mão ao lado do computador. Sim, também tenho minhas dúvidas gramaticais. Livro de bolso, pequeninho, vai ser uma barbada.

Onde está ela, onde está? Ali. Não consigo evitar de dizer em voz alta: "Você já era, sua metida. JÁ ERA!" Então ela, que até então estava andando por ali bem tranqüila, acelerou as patinhas e se mandou num flash. Sumiu. Escafedeu-se.

Que não são cegas, sabia-se. Que são inteligentes, foi uma descoberta. Mas que entendem o que a gente fala, foi de estarrecer.

Ótima quarta-feira, excelente primeira semana e que 2008 seja de muitas realizações para todos nós.


02 de janeiro de 2008
N° 15466 - David Coimbra


O cafezinho do Hélvio

Durante 35 anos, o Hélvio Schneider trabalhou em silêncio na Redação de Zero Hora.

Trinta e cinco anos, e não lembro de ele ter sido protagonista de alguma história que excitasse a imaginação dos colegas, para o bem ou para o mal. O máximo que se dizia do Hélvio, como um gracejo, é que ele jamais gastou um centavo no bar da Redação.

No tempo em que as solicitações no bar eram feitas por comandas assinadas, o Guerrinha dizia que as atendentes achavam que o Hélvio era analfabeto, por ele nunca ter preenchido um único pedido.

Trinta e cinco anos sem ter tomado um cafezinho que fosse, sem ter sido pego de surpresa pela fome no meio de uma tarde de inverno, sem ceder à ânsia de aplacar a sede com um refrigerante gelado.

Calculamos, nós, os colegas do Hélvio, quanto ele economizou nesse tempo de renúncia a pães de queijo e expressos. Fazendo uma média entre os mais gastadores e os mais contidos, chegamos a um total de R$ 60.440. Sessenta mil reais!

A austeridade do Hélvio era tanta que ele não aceitava nem o que fosse de graça. Quando ocorria alguma festinha de aniversário na Redação, o Hélvio cantava o Parabéns a Você, mas não comia os totozinhos, não bebia a Coca-Cola.

Alguém vinha com uma barra de chocolate, com um saco de biscoitos, com uma guloseima qualquer, e o Hélvio sempre agradecia com um sorriso simpático. E recusava.

O Hélvio era o único dos 230 jornalistas de ZH, talvez o único dos mais de mil jornalistas da RBS, que não dispunha de uma gaveta para ele na Redação. Não queria. Não precisava. Os horários do Hélvio não variavam, nem o de chegada, nem o de saída.

O Hélvio era em tudo discreto, em tudo mansidão, e a tudo a que se dedicava fazia-o com competência. Era um editor preciso e um redator de texto escorreito. Trabalhou sempre nos mesmos setores do jornal, nas imediações da Editoria de Geral.

Não lembro de tê-lo visto de mau humor ou triste, algum dia. Sempre sorria, era sempre simpático, embora não fosse de muito tagarelar. Três ou quatro vezes elogiou colunas minhas, e arquivei esses elogios como galardão.

O Hélvio só se aproximava das fronteiras do arroubo por um motivo: pelo Grêmio. Trata-se de um gremista dedicado, atento e orgulhoso. Cheguei a ver o Hélvio vibrar em gols do Grêmio, nos jogos que ele acompanhava pela TV do Esporte espiando as imagens meio de lado, meio de longe, meio já saindo.

O que me levava a refletir a respeito do poder que o futebol exerce sobre o espírito humano. Nem o Hélvio resiste às emoções do futebol.

Na última sexta-feira de 2007, o Hélvio nos surpreendeu a todos, nós seus colegas. De manhã, ele apareceu no jornal fora de seu horário de trabalho, sentou-se ao terminal e deixou, no sistema de mensagens interno da Redação, uma despedida.

Estava se aposentando, comunicou. Depois, levantou-se da sua cadeira e foi embora. Poucos dos novos jornalistas de ZH conhecem o Hélvio, mas nós, os mais antigos, íamos chegando e nos surpreendendo:

- O Hélvio...

E falávamos sobre a sua discrição, sobre a sua elegância, sobre a sua simpatia e sobre aquela sua característica curiosa, de jamais ter despendido um único centavo no bar da Redação, de ser um econômico atroz. Assim passou o dia. À noitinha, a Redação estava alvoroçada com o horário de baixamento, quando o Hélvio nos surpreendeu mais uma vez.

Por sua ordem, e às suas expensas, chegaram entregadores com garrafas de champanha, inúmeras garrafas de champanha geladas, chegaram pizzas gigantes de variados sabores, chegaram doces, tortas, acepipes e foram depositados sobre as mesas da sua editoria e todos foram convocados para o piquenique inesperado.

No seu último dia de trabalho, sem a sua presença, o Hélvio patrocinou uma festinha de despedida para os seus colegas de tanto tempo. A Redação inteira se reuniu em volta da cadeira vazia onde o Hélvio trabalhou em silêncio durante 35 anos.

Todos comeram, riram e brindaram, alguns perguntavam por ele, e se espantavam por ele não estar lá, outros ensaiaram o coro de Hélvio, Hélvio, Hélvio, no congratulamos, nos abraçamos e falamos muito do nosso amigo que se retirou para a dolce far niente. Trinta e cinco anos!, exclamávamos, admirados.

Trinta e cinco anos, e o Hélvio, jornalista quase calado e gremista quase exacerbado, enfim, foi o assunto da Redação!


02 de janeiro de 2008
N° 15466 - Paulo Sant'ana


Assassinato de trânsito

O e-mail que transcrevo agora é o mais pungente apelo em favor da campanha da RBS por um trânsito mais humano. É a dor de um pai que perdeu seu filho num assassinato do trânsito. Leiam:

"Caro SantAna. Ao ler tua coluna de 24/25 de dezembro, sobre os canalhas do trânsito, não tive como não lembrar de meu filho.

O Bruno estaria se formando em Jornalismo na PUC no dia 22 de dezembro passado e já era teu colega na RBS, mas ao invés de um diploma recebeu uma homenagem póstuma dos formandos.

No último dia 24 de março, um ensolarado sábado, às cinco horas da tarde, ele aguardava no canteiro central da João Pessoa que o sinal de pedestres abrisse para atravessar em direção à Redenção.

Quando o sinal abriu, ele subiu em sua bicicleta e começou a atravessar sobre a ciclovia - que fica exatamente ao lado de uma faixa de pedestres - e sobre essa ciclovia foi atingido por um táxi que vinha a pelo menos 74 km/h, conforme provado pela perícia. Uma outra estudante da PUC por pouco não foi atingida pelo mesmo veículo.

O que pode passar pela cabeça de um indivíduo que acha que andar a quase 80 km/h ao lado da Redenção em um sábado à tarde é normal? O que passa pela cabeça de alguém que acha que parar em um sinal vermelho para pedestre é bobagem?

A situação que tu descreveste na Protásio Alves eu já vivi algumas vezes, a de estar parado no sinal antes de uma faixa de pedestre e ver alguém passar voando na faixa ao lado.

O motorista assassino de meu filho provavelmente passou um bom Natal junto a sua família. Acho que podes imaginar o Natal que minha família passou.

Entendo que a explicação para isto é simples: é a certeza da impunidade. Nossa sociedade simplesmente não pune os faltosos. Somos especialistas em descobrir jeitinhos, brechas e acordos para escaparmos de punição. Em outros países, esse motorista estaria na cadeia, já julgado e condenado.

Enquanto isso, azar de quem acredita em faixa de pedestre e sinal vermelho. Meu filho não teve a sorte de te ter por perto naquele sábado à tarde. Sorte que teve a senhora da tua coluna. Obrigado pela tua atenção. Um grande abraço, (ass.) Jorge Neumann (jorge.neumann@uol.com.br)".

Vejam vocês como a gente se engana. Nós pensamos que nada de bom pode vir da classe política, que os políticos só existem para se locupletar.

E, no entanto, existem centenas de políticos que honram seus mandatos e servem à causa popular com desprendimento, desvelo e objetividade.

Está provado isso no e-mail que lerão a seguir:

"Caro Paulo SantAna. Pela segunda vez contato contigo através do correio eletrônico, e pela mesma razão ou causa.

Nesta oportunidade, gostaria de registrar um fato ocorrido aqui no nosso Alegrete que poderia servir de exemplo a muitos outros.

Muitas notícias são veiculadas na imprensa sobre política e políticos, e, na maioria das vezes, os fatos têm conotação negativa, com envolvimentos em corrupção, malversação de recursos públicos, entre outras.

A Câmara de Vereadores de Alegrete, durante o ano de 2007, com medidas administrativas incluindo contenção de gastos e otimização na aplicação dos recursos de seu orçamento, conseguiu economizar valores significativos e, ao final do ano legislativo, esses valores andavam ao redor de R$ 180 mil (cento e oitenta mil reais).

Esse recurso, ao ser devolvido para o Executivo, terá como destino, de acordo com os dois poderes, ser aplicado na nossa santa casa, que, como os demais hospitais filantrópicos, está sempre carente de verbas para investimento em melhorias de suas instalações e custeio.

Teremos com esse valor a reforma das instalações do bloco cirúrgico e centro obstétrico, além da aquisição de aparelhagem necessária para esses dois serviços essenciais ao bom funcionamento de um hospital.

Fica este registro de um fã de tua coluna que, assim como muitos, lê a ZH do fim para o começo. (ass.) João Alberto Almeida Pereira, diretor-geral e diretor médico da Santa Casa de Caridade de Alegrete".


02 de janeiro de 2008
N° 15466 - Sergio Faraco


Velórios do futuro

Na campanha, bom velório é o que oferece canha e café preto à vontade e faculta umas rodadas de Truco. É um velório que vale a pena.

O café mantém todos despertos durante a longa noite, a canha proporciona emocionadas evocações do finado, ao passo que o Truco é uma metáfora, querendo dizer que o jogo da vida continua.

Sim, uns e outros inconseqüentes proferem palavrões enquanto carteiam, mas em regra são advertidos com um coice por baixo da mesa e logo-logo se assossegam.

Já na cidade... Bah, que horror!

Como se o morto não existisse (e ele existe, à moda dele), voga entre os presentes um tal falatório, um tal bulício, quase uma algazarra onde há de tudo, desde negócios e planos para o fim de semana até mexericos sobre as relações extraconjugais daquele que ainda existe e está deitado, ouvindo tudo, ainda que tão plácido quanto um buque de oceano.

Já assisti a velórios em que três ou quatro sujeitos davam gargalhadas à proa do féretro, sem se compenetrar de que, naquele momento, o outro estava iniciando sua perigosa e incerta travessia do Aqueronte.

Ó tempos, ó costumes, exclamava Cícero.

Ai de mim, sinto saudade (bem, não muita) daqueles austeros velórios da aurora da minha vida, da minha infância querida, quando os circunstantes falavam baixo, contemplavam o viajante em contrição e ciciavam ave-marias para que o barqueiro lhe fizesse um bom desconto no óbolo infernal.

E mais as velas fumegando, as coroas a cheirar, as expressões obsequiosas e toda aquela atmosfera funerária que dava gosto e inspirava silenciosas e proveitosas meditações sobre a origem e a destinação da vida, as conjunções planetárias e o princípio da incerteza na teoria quântica...

Era sobre este dilema que outro dia, na Tristeza, eu trocava idéias com o Comandante Soares, segurança do Bistrô do Pátio.

Eis um filósofo.

E como fica parado no pórtico do restaurante até altas horas, dedica-se à observação crítica dos vivos e os mortos da noite tristezense e a aprofundar até limites extremos sua cosmovisão.

Ele entende que a modernidade e seu materialismo, com perdão da palavra, avacalharam tudo, até os velórios.

Na sua opinião, com essa azáfama das pessoas em busca do sustento, com essa falta de respeito que só respeita aquilo que engorda o bolso, no futuro a humanidade não velará seus mortos.

"Vai ter tele-entrega", arrematou. E eu acho que ele tem razão.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

2008

RIO DE JANEIRO - Não sei se o ano que está começando será bom e próspero, como geralmente desejamos aos outros e como os outros nos desejam. Mas o calendário marca alguns eventos importantes que nos obrigarão a refletir um pouco sobre a nossa história.

Um deles é o bicentenário da chegada da corte portuguesa ao Brasil. Muito já se escreveu sobre o assunto ao longo deste ano.

Não vem ao caso se devemos reabilitar a figura de d. João 6º, se é que ele precisa mesmo de reabilitação. Ao editar o álbum oficial da Rio 92, pediram-me que dedicasse um retrato àquele que considerasse o carioca mais autêntico, com as virtudes (poucas) e os defeitos (muitos) que formam a personalidade de quem nasce e vive às margens da Guanabara.

Escolhi d. João 6º, com seu chapelão de palha, na sombra e na água fresca de Santa Cruz, arredio da corte, detestando a política, mas gostando de coisas boas, não apenas de frangos assados, mas de música, das artes em geral. Saiu do Rio chorando.

Outro evento é o centenário da morte de Machado de Assis, um carioca enrustido, formal e chato nas lides oficiais, mas gozador e cético em sua obra universal.

Teremos ainda os 40 anos do AI-5, uma data macabra que teve início em 1964 e prolongou-se por mais de vinte anos. Foi o 13 de dezembro de 68 que marcou o momento de verdade do processo ditatorial que atravessamos naquela época.

É preciso recordar que o movimento militar de 64 contou com o apoio majoritário e decisivo não apenas das classes dominantes, da quase totalidade da imprensa, da igreja e de grandes parcelas do povo.

Foram precisos quatro anos de violência e repressão para que todos acordássemos e, aí sim, o país ficou realmente dividido entre opressores e oprimidos.

ELIANE CANTANHÊDE

Mãos à obra!

BRASÍLIA - Em 2007, crianças brasileiras nasceram porque o anticoncepcional injetável falhou, tomaram leite com soda cáustica e brincaram com brinquedos que produzem ecstasy líquido ou têm excesso de chumbo na tinta -caso de acessórios da popular Barbie. Pára e começa de novo! Ou muda tudo neste 2008 que começa hoje.

A lembrança foi do meu colega da Folha Gustavo Patu, pai do Caio e do André e expert na numeralha da economia. Daria para acrescentar, sem traço de humor e brincadeira, os rapazes mal-educados que esbofetearam uma empregada doméstica no Rio, ou a menina jogada numa cela com 20 homens no Pará e o menino torturado até a morte por policiais em Bauru (SP), dentro da própria casa, gemendo a poucos metros da mãe e da irmã. Que país é este aqui ou esse aí?

Mas 2007 foi também o ano em que a economia bombou, a renda aumentou, os empregos cresceram, a arrecadação foi recorde, milhões de pessoas saíram da linha da pobreza.

Os ventos externos sopraram a favor da ortodoxia, dando razão a Pedro Malan e a Antonio Palocci. A Justiça tarda, mas não falha? Há controvérsias. Já a ortodoxia tardou, mas não está falhando.

Neste novo ano, é fazer o sucesso do país e dos números chegar ao cidadão e à realidade, especialmente às nossas crianças de norte a sul. Às que tomam leite e têm brinquedos e, com urgência, às que são obrigadas a se prostituir para sobreviver e às suspeitas de roubar motos para compensar o desamor.

Que não caiam mais nas garras da polícia que trucida, mas sejam acolhidas pela que é paga para salvar.

A violência atinge todos, e não apenas os ricos, os compositores e atrizes que têm carros blindados e vão parar nas capas dos jornais.

As vítimas mais frágeis são as crianças -e, entre elas, as mais pobres. Cabe a todos, governantes, legisladores e cidadãos, protegê-las. Mãos à obra e ótimo 2008!

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

O conto da cuca vem pegar

SÃO PAULO - Nada como a candura de uma autoridade, no caso José Alencar, vice-presidente da República, para informar ao distinto público aquilo que é óbvio, mas que os áulicos e bajuladores de plantão, sempre abundantes, preferem manter na obscuridade.

Refiro-me à confissão de Alencar a Valdo Cruz, publicada domingo, segundo a qual os juros só são altos porque o presidente Lula "tem medo desses que o ameaçam com inflação". E quem "o ameaça com inflação"? "Articulistas, que são economistas ligados ao sistema financeiro, que é muito organizado".

Quando escrevi aqui, uma e outra vez, que Lula terceirizou a política econômica para o mercado, nunca esperei que a confirmação viesse de uma alta autoridade, o sucessor direto do presidente, além do mais seu amigo e admirador.

Sim, porque juros altos, superávit fiscal elevado e um câmbio desalinhado são faces do mesmo "medo" do presidente e de sua rendição aos articulistas/economistas, "ligados ao sistema financeiro".

Essa lógica do presidente me ficou claríssima com poucos dias de governo, em janeiro de 2003. Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, desembarcou em Davos, logo após ter promovido o primeiro aumento de juros na era Lula (de 25% para 26,5%).

Perguntei-lhe como convencera o presidente. Respondeu que dissera a Lula que, no Brasil, a inflação dispara sempre que chega a dois dígitos, como era o caso então.

É o cenário descrito por Alencar agora: Meirelles, vindo do sistema financeiro, usou uma cabala para aterrorizar Lula com a inflação.

Lula se rende, e nunca mais recupera o comando da política econômica. Alguma surpresa com o fato de que Roger Noriega, a quintessência do que Lula e o PT de antigamente descreveriam (apropriadamente) como imperialismo norte-americano, prefira Lula a Putin como "homem do ano" de 2007?

crossi@uol.com.br