quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Veículos circulam por paisagem coberta de neve nas montanhas Mecsek,
ao sul de Budapeste, na Hungria; inverno é rigoroso



Mulheres acendem velas diante de imagem da ex-premiê paquistanesa
Benazir Bhutto; eleições no país foram adiadas em um mês



02 de janeiro de 2008
N° 15466 - Martha Medeiros


Nunca subestime uma formiga

Ela é das grandes. Daquelas bem pretas. Vem caminhando em cima da minha escrivaninha, rumo ao teclado do meu computador, como se tivesse perdido o celular em algum lugar.

Ela olha para um lado e para o outro freneticamente - formigas não são cegas, como se sabe. E não usam celular, foi uma brincadeira.

Mas que ela está procurando alguma coisa, está. Um farelo, um grão, um filho. Finjo que não estou prestando atenção, mas não tiro o olho da bichinha, inscluve etsou escrnevdo tduo errdao.

Lá vem ela com passinhos ligeiros e pimba: subiu no teclado, está tentando se enfiar entre o F1 e o F2, mas lhe dou um peteleco bem mirado.

Ela volta cambaleando pra mesa e nem acusa o golpe, segue serelepe da vida. Só há um jeito. Vou matar. Sim, vou matar bem matadinha, vou entrar pro Bope e esmagá-la - argh, que nojo. Ao menos não é uma barata.

Pego uma folha pequena, arrancada de um bloco de recados. É suficiente para prensar esta desvairada contra a mesa. Depois é só dobrar o papel, limpar alguma gosminha que reste no local do crime e estará feito o serviço. Sem testemunhas. Como sou malvada.

Quando coloco o papel sobre ela, no entanto, o plano dá errado. Ela enxerga o papel! E isso não é o que mais me surpreende. Que ela não era cega, sempre soube. Só não sabia que era instintiva!

Ela entende que aquele papel sobre sua cabeça não é um zepelim planando, não é um guarda-chuva, não é uma nuvem: é uma ameaça de morte.

Ela sabe que está correndo perigo. Sabe a diferença entre viver e morrer, e não quer morrer, lógico. Então ela corre feito um maratonista e desaparece embaixo da minha impressora. Danada. Quer guerra? Pois bem.

Passados cinco intermináveis minutos, quem eu vejo saindo por baixo da impressora? Ela. Reconheceria a quilômetros. Resolvo mudar de tática: nada de folha de papel. Vou usar um livro. Isso, vou abrir um livro, fingir que estou lendo e assim que ela me der as costas, pá.

Peguei o Guia Prático do Português Correto, era o que eu tinha à mão ao lado do computador. Sim, também tenho minhas dúvidas gramaticais. Livro de bolso, pequeninho, vai ser uma barbada.

Onde está ela, onde está? Ali. Não consigo evitar de dizer em voz alta: "Você já era, sua metida. JÁ ERA!" Então ela, que até então estava andando por ali bem tranqüila, acelerou as patinhas e se mandou num flash. Sumiu. Escafedeu-se.

Que não são cegas, sabia-se. Que são inteligentes, foi uma descoberta. Mas que entendem o que a gente fala, foi de estarrecer.

Ótima quarta-feira, excelente primeira semana e que 2008 seja de muitas realizações para todos nós.


02 de janeiro de 2008
N° 15466 - David Coimbra


O cafezinho do Hélvio

Durante 35 anos, o Hélvio Schneider trabalhou em silêncio na Redação de Zero Hora.

Trinta e cinco anos, e não lembro de ele ter sido protagonista de alguma história que excitasse a imaginação dos colegas, para o bem ou para o mal. O máximo que se dizia do Hélvio, como um gracejo, é que ele jamais gastou um centavo no bar da Redação.

No tempo em que as solicitações no bar eram feitas por comandas assinadas, o Guerrinha dizia que as atendentes achavam que o Hélvio era analfabeto, por ele nunca ter preenchido um único pedido.

Trinta e cinco anos sem ter tomado um cafezinho que fosse, sem ter sido pego de surpresa pela fome no meio de uma tarde de inverno, sem ceder à ânsia de aplacar a sede com um refrigerante gelado.

Calculamos, nós, os colegas do Hélvio, quanto ele economizou nesse tempo de renúncia a pães de queijo e expressos. Fazendo uma média entre os mais gastadores e os mais contidos, chegamos a um total de R$ 60.440. Sessenta mil reais!

A austeridade do Hélvio era tanta que ele não aceitava nem o que fosse de graça. Quando ocorria alguma festinha de aniversário na Redação, o Hélvio cantava o Parabéns a Você, mas não comia os totozinhos, não bebia a Coca-Cola.

Alguém vinha com uma barra de chocolate, com um saco de biscoitos, com uma guloseima qualquer, e o Hélvio sempre agradecia com um sorriso simpático. E recusava.

O Hélvio era o único dos 230 jornalistas de ZH, talvez o único dos mais de mil jornalistas da RBS, que não dispunha de uma gaveta para ele na Redação. Não queria. Não precisava. Os horários do Hélvio não variavam, nem o de chegada, nem o de saída.

O Hélvio era em tudo discreto, em tudo mansidão, e a tudo a que se dedicava fazia-o com competência. Era um editor preciso e um redator de texto escorreito. Trabalhou sempre nos mesmos setores do jornal, nas imediações da Editoria de Geral.

Não lembro de tê-lo visto de mau humor ou triste, algum dia. Sempre sorria, era sempre simpático, embora não fosse de muito tagarelar. Três ou quatro vezes elogiou colunas minhas, e arquivei esses elogios como galardão.

O Hélvio só se aproximava das fronteiras do arroubo por um motivo: pelo Grêmio. Trata-se de um gremista dedicado, atento e orgulhoso. Cheguei a ver o Hélvio vibrar em gols do Grêmio, nos jogos que ele acompanhava pela TV do Esporte espiando as imagens meio de lado, meio de longe, meio já saindo.

O que me levava a refletir a respeito do poder que o futebol exerce sobre o espírito humano. Nem o Hélvio resiste às emoções do futebol.

Na última sexta-feira de 2007, o Hélvio nos surpreendeu a todos, nós seus colegas. De manhã, ele apareceu no jornal fora de seu horário de trabalho, sentou-se ao terminal e deixou, no sistema de mensagens interno da Redação, uma despedida.

Estava se aposentando, comunicou. Depois, levantou-se da sua cadeira e foi embora. Poucos dos novos jornalistas de ZH conhecem o Hélvio, mas nós, os mais antigos, íamos chegando e nos surpreendendo:

- O Hélvio...

E falávamos sobre a sua discrição, sobre a sua elegância, sobre a sua simpatia e sobre aquela sua característica curiosa, de jamais ter despendido um único centavo no bar da Redação, de ser um econômico atroz. Assim passou o dia. À noitinha, a Redação estava alvoroçada com o horário de baixamento, quando o Hélvio nos surpreendeu mais uma vez.

Por sua ordem, e às suas expensas, chegaram entregadores com garrafas de champanha, inúmeras garrafas de champanha geladas, chegaram pizzas gigantes de variados sabores, chegaram doces, tortas, acepipes e foram depositados sobre as mesas da sua editoria e todos foram convocados para o piquenique inesperado.

No seu último dia de trabalho, sem a sua presença, o Hélvio patrocinou uma festinha de despedida para os seus colegas de tanto tempo. A Redação inteira se reuniu em volta da cadeira vazia onde o Hélvio trabalhou em silêncio durante 35 anos.

Todos comeram, riram e brindaram, alguns perguntavam por ele, e se espantavam por ele não estar lá, outros ensaiaram o coro de Hélvio, Hélvio, Hélvio, no congratulamos, nos abraçamos e falamos muito do nosso amigo que se retirou para a dolce far niente. Trinta e cinco anos!, exclamávamos, admirados.

Trinta e cinco anos, e o Hélvio, jornalista quase calado e gremista quase exacerbado, enfim, foi o assunto da Redação!


02 de janeiro de 2008
N° 15466 - Paulo Sant'ana


Assassinato de trânsito

O e-mail que transcrevo agora é o mais pungente apelo em favor da campanha da RBS por um trânsito mais humano. É a dor de um pai que perdeu seu filho num assassinato do trânsito. Leiam:

"Caro SantAna. Ao ler tua coluna de 24/25 de dezembro, sobre os canalhas do trânsito, não tive como não lembrar de meu filho.

O Bruno estaria se formando em Jornalismo na PUC no dia 22 de dezembro passado e já era teu colega na RBS, mas ao invés de um diploma recebeu uma homenagem póstuma dos formandos.

No último dia 24 de março, um ensolarado sábado, às cinco horas da tarde, ele aguardava no canteiro central da João Pessoa que o sinal de pedestres abrisse para atravessar em direção à Redenção.

Quando o sinal abriu, ele subiu em sua bicicleta e começou a atravessar sobre a ciclovia - que fica exatamente ao lado de uma faixa de pedestres - e sobre essa ciclovia foi atingido por um táxi que vinha a pelo menos 74 km/h, conforme provado pela perícia. Uma outra estudante da PUC por pouco não foi atingida pelo mesmo veículo.

O que pode passar pela cabeça de um indivíduo que acha que andar a quase 80 km/h ao lado da Redenção em um sábado à tarde é normal? O que passa pela cabeça de alguém que acha que parar em um sinal vermelho para pedestre é bobagem?

A situação que tu descreveste na Protásio Alves eu já vivi algumas vezes, a de estar parado no sinal antes de uma faixa de pedestre e ver alguém passar voando na faixa ao lado.

O motorista assassino de meu filho provavelmente passou um bom Natal junto a sua família. Acho que podes imaginar o Natal que minha família passou.

Entendo que a explicação para isto é simples: é a certeza da impunidade. Nossa sociedade simplesmente não pune os faltosos. Somos especialistas em descobrir jeitinhos, brechas e acordos para escaparmos de punição. Em outros países, esse motorista estaria na cadeia, já julgado e condenado.

Enquanto isso, azar de quem acredita em faixa de pedestre e sinal vermelho. Meu filho não teve a sorte de te ter por perto naquele sábado à tarde. Sorte que teve a senhora da tua coluna. Obrigado pela tua atenção. Um grande abraço, (ass.) Jorge Neumann (jorge.neumann@uol.com.br)".

Vejam vocês como a gente se engana. Nós pensamos que nada de bom pode vir da classe política, que os políticos só existem para se locupletar.

E, no entanto, existem centenas de políticos que honram seus mandatos e servem à causa popular com desprendimento, desvelo e objetividade.

Está provado isso no e-mail que lerão a seguir:

"Caro Paulo SantAna. Pela segunda vez contato contigo através do correio eletrônico, e pela mesma razão ou causa.

Nesta oportunidade, gostaria de registrar um fato ocorrido aqui no nosso Alegrete que poderia servir de exemplo a muitos outros.

Muitas notícias são veiculadas na imprensa sobre política e políticos, e, na maioria das vezes, os fatos têm conotação negativa, com envolvimentos em corrupção, malversação de recursos públicos, entre outras.

A Câmara de Vereadores de Alegrete, durante o ano de 2007, com medidas administrativas incluindo contenção de gastos e otimização na aplicação dos recursos de seu orçamento, conseguiu economizar valores significativos e, ao final do ano legislativo, esses valores andavam ao redor de R$ 180 mil (cento e oitenta mil reais).

Esse recurso, ao ser devolvido para o Executivo, terá como destino, de acordo com os dois poderes, ser aplicado na nossa santa casa, que, como os demais hospitais filantrópicos, está sempre carente de verbas para investimento em melhorias de suas instalações e custeio.

Teremos com esse valor a reforma das instalações do bloco cirúrgico e centro obstétrico, além da aquisição de aparelhagem necessária para esses dois serviços essenciais ao bom funcionamento de um hospital.

Fica este registro de um fã de tua coluna que, assim como muitos, lê a ZH do fim para o começo. (ass.) João Alberto Almeida Pereira, diretor-geral e diretor médico da Santa Casa de Caridade de Alegrete".


02 de janeiro de 2008
N° 15466 - Sergio Faraco


Velórios do futuro

Na campanha, bom velório é o que oferece canha e café preto à vontade e faculta umas rodadas de Truco. É um velório que vale a pena.

O café mantém todos despertos durante a longa noite, a canha proporciona emocionadas evocações do finado, ao passo que o Truco é uma metáfora, querendo dizer que o jogo da vida continua.

Sim, uns e outros inconseqüentes proferem palavrões enquanto carteiam, mas em regra são advertidos com um coice por baixo da mesa e logo-logo se assossegam.

Já na cidade... Bah, que horror!

Como se o morto não existisse (e ele existe, à moda dele), voga entre os presentes um tal falatório, um tal bulício, quase uma algazarra onde há de tudo, desde negócios e planos para o fim de semana até mexericos sobre as relações extraconjugais daquele que ainda existe e está deitado, ouvindo tudo, ainda que tão plácido quanto um buque de oceano.

Já assisti a velórios em que três ou quatro sujeitos davam gargalhadas à proa do féretro, sem se compenetrar de que, naquele momento, o outro estava iniciando sua perigosa e incerta travessia do Aqueronte.

Ó tempos, ó costumes, exclamava Cícero.

Ai de mim, sinto saudade (bem, não muita) daqueles austeros velórios da aurora da minha vida, da minha infância querida, quando os circunstantes falavam baixo, contemplavam o viajante em contrição e ciciavam ave-marias para que o barqueiro lhe fizesse um bom desconto no óbolo infernal.

E mais as velas fumegando, as coroas a cheirar, as expressões obsequiosas e toda aquela atmosfera funerária que dava gosto e inspirava silenciosas e proveitosas meditações sobre a origem e a destinação da vida, as conjunções planetárias e o princípio da incerteza na teoria quântica...

Era sobre este dilema que outro dia, na Tristeza, eu trocava idéias com o Comandante Soares, segurança do Bistrô do Pátio.

Eis um filósofo.

E como fica parado no pórtico do restaurante até altas horas, dedica-se à observação crítica dos vivos e os mortos da noite tristezense e a aprofundar até limites extremos sua cosmovisão.

Ele entende que a modernidade e seu materialismo, com perdão da palavra, avacalharam tudo, até os velórios.

Na sua opinião, com essa azáfama das pessoas em busca do sustento, com essa falta de respeito que só respeita aquilo que engorda o bolso, no futuro a humanidade não velará seus mortos.

"Vai ter tele-entrega", arrematou. E eu acho que ele tem razão.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008


CARLOS HEITOR CONY

2008

RIO DE JANEIRO - Não sei se o ano que está começando será bom e próspero, como geralmente desejamos aos outros e como os outros nos desejam. Mas o calendário marca alguns eventos importantes que nos obrigarão a refletir um pouco sobre a nossa história.

Um deles é o bicentenário da chegada da corte portuguesa ao Brasil. Muito já se escreveu sobre o assunto ao longo deste ano.

Não vem ao caso se devemos reabilitar a figura de d. João 6º, se é que ele precisa mesmo de reabilitação. Ao editar o álbum oficial da Rio 92, pediram-me que dedicasse um retrato àquele que considerasse o carioca mais autêntico, com as virtudes (poucas) e os defeitos (muitos) que formam a personalidade de quem nasce e vive às margens da Guanabara.

Escolhi d. João 6º, com seu chapelão de palha, na sombra e na água fresca de Santa Cruz, arredio da corte, detestando a política, mas gostando de coisas boas, não apenas de frangos assados, mas de música, das artes em geral. Saiu do Rio chorando.

Outro evento é o centenário da morte de Machado de Assis, um carioca enrustido, formal e chato nas lides oficiais, mas gozador e cético em sua obra universal.

Teremos ainda os 40 anos do AI-5, uma data macabra que teve início em 1964 e prolongou-se por mais de vinte anos. Foi o 13 de dezembro de 68 que marcou o momento de verdade do processo ditatorial que atravessamos naquela época.

É preciso recordar que o movimento militar de 64 contou com o apoio majoritário e decisivo não apenas das classes dominantes, da quase totalidade da imprensa, da igreja e de grandes parcelas do povo.

Foram precisos quatro anos de violência e repressão para que todos acordássemos e, aí sim, o país ficou realmente dividido entre opressores e oprimidos.

ELIANE CANTANHÊDE

Mãos à obra!

BRASÍLIA - Em 2007, crianças brasileiras nasceram porque o anticoncepcional injetável falhou, tomaram leite com soda cáustica e brincaram com brinquedos que produzem ecstasy líquido ou têm excesso de chumbo na tinta -caso de acessórios da popular Barbie. Pára e começa de novo! Ou muda tudo neste 2008 que começa hoje.

A lembrança foi do meu colega da Folha Gustavo Patu, pai do Caio e do André e expert na numeralha da economia. Daria para acrescentar, sem traço de humor e brincadeira, os rapazes mal-educados que esbofetearam uma empregada doméstica no Rio, ou a menina jogada numa cela com 20 homens no Pará e o menino torturado até a morte por policiais em Bauru (SP), dentro da própria casa, gemendo a poucos metros da mãe e da irmã. Que país é este aqui ou esse aí?

Mas 2007 foi também o ano em que a economia bombou, a renda aumentou, os empregos cresceram, a arrecadação foi recorde, milhões de pessoas saíram da linha da pobreza.

Os ventos externos sopraram a favor da ortodoxia, dando razão a Pedro Malan e a Antonio Palocci. A Justiça tarda, mas não falha? Há controvérsias. Já a ortodoxia tardou, mas não está falhando.

Neste novo ano, é fazer o sucesso do país e dos números chegar ao cidadão e à realidade, especialmente às nossas crianças de norte a sul. Às que tomam leite e têm brinquedos e, com urgência, às que são obrigadas a se prostituir para sobreviver e às suspeitas de roubar motos para compensar o desamor.

Que não caiam mais nas garras da polícia que trucida, mas sejam acolhidas pela que é paga para salvar.

A violência atinge todos, e não apenas os ricos, os compositores e atrizes que têm carros blindados e vão parar nas capas dos jornais.

As vítimas mais frágeis são as crianças -e, entre elas, as mais pobres. Cabe a todos, governantes, legisladores e cidadãos, protegê-las. Mãos à obra e ótimo 2008!

elianec@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

O conto da cuca vem pegar

SÃO PAULO - Nada como a candura de uma autoridade, no caso José Alencar, vice-presidente da República, para informar ao distinto público aquilo que é óbvio, mas que os áulicos e bajuladores de plantão, sempre abundantes, preferem manter na obscuridade.

Refiro-me à confissão de Alencar a Valdo Cruz, publicada domingo, segundo a qual os juros só são altos porque o presidente Lula "tem medo desses que o ameaçam com inflação". E quem "o ameaça com inflação"? "Articulistas, que são economistas ligados ao sistema financeiro, que é muito organizado".

Quando escrevi aqui, uma e outra vez, que Lula terceirizou a política econômica para o mercado, nunca esperei que a confirmação viesse de uma alta autoridade, o sucessor direto do presidente, além do mais seu amigo e admirador.

Sim, porque juros altos, superávit fiscal elevado e um câmbio desalinhado são faces do mesmo "medo" do presidente e de sua rendição aos articulistas/economistas, "ligados ao sistema financeiro".

Essa lógica do presidente me ficou claríssima com poucos dias de governo, em janeiro de 2003. Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, desembarcou em Davos, logo após ter promovido o primeiro aumento de juros na era Lula (de 25% para 26,5%).

Perguntei-lhe como convencera o presidente. Respondeu que dissera a Lula que, no Brasil, a inflação dispara sempre que chega a dois dígitos, como era o caso então.

É o cenário descrito por Alencar agora: Meirelles, vindo do sistema financeiro, usou uma cabala para aterrorizar Lula com a inflação.

Lula se rende, e nunca mais recupera o comando da política econômica. Alguma surpresa com o fato de que Roger Noriega, a quintessência do que Lula e o PT de antigamente descreveriam (apropriadamente) como imperialismo norte-americano, prefira Lula a Putin como "homem do ano" de 2007?

crossi@uol.com.br

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007



31/12/2007 e 01/01/2008
N° 15465 Liberato Vieira da Cunha


Balanço de Ano Bom

No ano que findou, não compus uma sinfonia, não pintei uma tela, não construí um romance, não esculpi uma estátua, não criei uma peça teatral. Estranhamente, contudo, não me sinto arrependido.

Pois minha sinfonia seria dissonante. Minha tela seria abstrata. Meu romance não teria nem começo, nem meio, nem fim. Minha estátua seria o reverso de sua imagem. Minha peça dispensaria atores.

Mas, de novo estranhamente, não me sinto arrependido, pois, neste outro palco em que atuo, desempenhei papéis de que me orgulho.

Numa época em que o medo é a mais constante companhia das pessoas, soube sustentar um traço de coragem. Não, não enfrentei nenhum grande exército. Apenas fui valente o bastante para encarar os pequenos desafios que a vida nos apronta todos os dias.

Fui sonhador. Numa era em que estamos todos tão sitiados pela realidade, aprendi a evadir-me do cárcere do cotidiano. Não, não imergi no devaneio. Apenas fui ousado o suficiente para moldar o cenário segundo o perfil de minhas utopias sobrantes.

Fui sincero. Num tempo em que é moeda corrente a mentira, ou a fuga, disse sempre o que pensei. Não, não fui deseducado. Apenas fui franco e preciso para desenhar a verdade contra a moldura da ficção.

Talvez tudo isso não seja muito. Talvez não seja nada.

Mas estou pensando agora no dezembro em que conquistei o canudo da universidade. Estou lembrando o janeiro em que comprei o meu primeiro carro. Estou voltando ao setembro de meu vôo inaugural à Europa.

Estou me dando conta de que vai ver que compor uma sinfonia, pintar uma tela, construir um romance, esculpir uma estátua, criar uma peça não sejam assim tão relevantes.

Mais importante quem sabe seja mostrar-me guapo, sonhador, sincero.

Pois somos feitos de ilusão e argila. A arte de viver consiste não em viver muito, mas em viver segundo nossa natureza e nossa inclinação.


31/12/2007 e 01/01/2008
N° 15465 - Paulo Sant'ana


O rottweiler churrasqueiro

2007 foi o pior e o melhor ano da minha vida. Pior porque foi o ano em que mais problemas de saúde atentaram contra meu corpo e meu espírito.

Melhor porque ainda encontrei resistências - incrível - para uma ronda incessante por inúmeros médicos que tiveram comigo cuidados verdadeiramente samaritanos.

Foram tantos médicos, que seria fastidioso citá-los. Mas cada um deles sabe que terá a minha eterna gratidão, principalmente aqueles a quem mais freqüento com minhas aflições.

Valeu a pena, eu sei que a batalha ainda não foi ganha, até mesmo porque, como eu sempre digo, a velhice é a pior doença.

Mas foi uma luta brava, um feroz combate, que aos fracos abate e aos fortes e bravos só pode exaltar, o que travamos, eu e os médicos, e as enfermeiras, contra os males insidiosos que por vezes tentaram driblar a medicina em meu corpo.

Vencemos. Ainda é uma vitória parcial. Mas poderá vir a ser em 2008 uma vitória na Copa do Mundo da minha saúde.

Obrigado a todos os que me ampararam e amparam a tanta gente em seus consultórios, enfermarias e hospitais. Deus lhes pague.

E feliz Ano-Novo a todos os médicos e profissionais de saúde aqui no Sul, extensivos aos seus pacientes.

Eu acredito nessa rapaziada, que vai em frente e segura o rojão.

O leitor Fábio Verardi (fabio.verardi@terra.com.br) manda me dizer que sofreu assédio de um cão rottweiler na sua cabana da Praia do Rosa (SC).

E que se salvou graças a um conselho que dei no Jornal do Almoço a todos os que estivessem para ser atacados por pitbulls ou rottweilers.

Quero dizer que o leitor se enganou, nunca dei conselho para ninguém sobre como proceder ante ataque iminente dessas feras.

O que fiz foi desqualificar alguns adestradores de cães que aconselham conduta para prováveis vítimas dessas feras assassinas, ridicularizando-os, como por exemplo quando pregaram que, quando o cão vai atacar, quem será atacado não deve olhar para os olhos da fera e tem de assobiar uma canção do Roberto Carlos.

Ora, tenham dó. Ora, respeitem a inteligência.

Pois bem, o leitor fazia um churrasco ao lado de sua cabana, a carne já estava sendo assada, quando pulou a cerca baixa de arame do seu terreno um imenso rottweiler.

O animal foi se aproximando do leitor, que ficou paralisado de terror. Evidentemente que o leitor só olhava para o rottweiler, ao contrário do que aconselham os adestradores.

Então, para surpresa geral, a besta feroz cheirou os pés do leitor, afastou-se um pouco, pelo que o leitor pôde fugir em desabalada carreira para dentro de sua cabana.

Da janela, viu o cão dar um salto na churrasqueira e abocanhar um espeto inteiro de carne, que levou correndo para o lugar da cerca por onde tinha entrado.

Foi embora a fera, comer o seu churrasco em paz.

Esse episódio repisa um fato consagrado. Essas pobres feras estão sempre com fome. Não há comida que as sacie. Por mais que seus donos gastem em comida para esses monstros, nada os satisfaz e, com fome, eles se tornam mais perigosos.

Vamos acabar com essas raças. A última vítima, a menina de sete anos de Dois Irmãos, está pedindo de algum lugar do céu que nós ponhamos fim a essas raças em nosso meio.

Vamos esterilizá-los, por lei. Chega de vítimas com doloroso fim.

E, meus fiéis leitores, desejo-lhes um feliz Ano-Novo. Eu na companhia de vocês por todo o ano de 2008. E principalmente vocês na minha companhia.

Belo Ano-Novo!


31/12/2007 e 01/01/2008
N° 15465 - Cláudio Moreno


A ilusão da esperança

Os gregos acreditavam que, num passado remotíssimo, quando ainda não havia mulheres neste mundo, os homens levavam uma vida de abundância e despreocupação (é bom frisar que a história é contada por Hesíodo, o primeiro e mais radical autor misógino do Ocidente).

Esses bem-aventurados passavam incontáveis anos numa eterna primavera, sem conhecer a dor, a doença, o ódio ou a inveja - até que um dia, sem sofrimento algum, adormeciam para nunca mais acordar. Foi a chegada de Pandora, uma espécie de Eva criada pelo Olimpo, que veio alterar para sempre a vida naquele paraíso.

Para o rabugento Hesíodo, tudo não passava de uma vingança de Zeus, furioso porque os homens tinham recebido de Prometeu o segredo de acender o fogo; outros, mais filosóficos, acreditavam que os deuses estavam apenas entediados e, para se divertir, mandaram a mulher para acabar de uma vez por todas com a monotonia reinante aqui na terra.

Todas as versões concordam, no entanto, quanto ao que ocorreu depois: Pandora passou a viver com o irmão de Prometeu, que a recebeu como uma verdadeira dádiva divina e se tornou o primeiro marido apaixonado da História.

Foram felizes por muitos meses, até que, finalmente, Hermes, o mensageiro dos deuses, veio deixar na porta deles a caixa fatídica que mudaria para sempre o destino da humanidade.

A caixa tinha a tampa pesadamente lacrada com cera. "Peço que vocês a guardem até que eu venha buscá-la", havia dito Hermes, encarecendo que não a abrissem em hipótese alguma.

Ali estava a armadilha: sem que eles suspeitassem, Zeus tinha reunido ali dentro todos os males que o mundo ainda desconhecia - o Medo, o Sofrimento, o Trabalho, o Frio, a Fome, entre muitos outros - , esperando que a curiosidade de Pandora vencesse a prudência.

Não demorou muito; atraída pelo misterioso zumbido que saía da caixa, ela aproveitou um descuido do marido e levantou a tampa um pouquinho - só o suficiente para ver, afinal, o que estava ali dentro.

Foi o que bastou para que os males saíssem pela fresta como um enxame de zangões furiosos, que cobriram Pandora e o marido de ferroadas insuportáveis. Súbito, uma vozinha suave chamou de dentro da caixa: era a simpática Esperança, a única que tinha ficado, para nos confortar.

Este consolo que ela nos traz ajuda a esconder o fato evidente de que ela também estava dentro da caixa - e era, talvez, o agente mais perverso da vingança de Zeus.

Se ela tomar conta de meu espírito, vai fazer com que eu, diante das promessas sempre generosas do futuro, esqueça a alegria de viver plenamente o presente, que passa a ser provisório e sem graça, transformando-me num daqueles que, como disse Sêneca, "perdem os seus dias pensando na noite, e suas noites pensando na aurora".


31/12/2007 e 01/01/2008
N° 15465 - moacyr scliar


Um verbo para começar o ano

O fim do ano é uma época associada à conjugação quase obrigatória de certos verbos: recordar, avaliar, adivinhar, prever. Ocorre-me que um outro verbo pode se juntar a estes. Antes disto, porém, deixem-me contar para vocês uma história que começou num 1º de janeiro.

Formado em Medicina, recebi meu diploma em dezembro e fui aceito para a residência no serviço do professor Rubens Maciel, na Santa Casa. Reunimo-nos, os residentes, para uma providência imediata: organizar uma escala de plantões.

Não lembro exatamente por qual razão, mas a mim tocou o primeiro plantão, no primeiro dia do ano que começava. Notícia que recebi com euforia: estava ansioso por começar a trabalhar.

No 1 º de janeiro, lá estava eu, o estreante doutorzinho. E aí chegou um paciente, vindo do interior de Santa Catarina. De imediato me impressionou a cor do paciente; de origem alemã, com pele clara, ele estava marrom.

A história era simples: a caminho do trabalho, tinha sido picado por uma aranha. O veneno tinha destruído os glóbulos vermelhos, cujo pigmento se impregnara na pele. A anemia era grave. O maior problema, contudo, era outro: os rins tinham parado de funcionar.

Naquela época não se fazia hemodiálise no RS. A família Chaves Barcellos tinha doado à Santa Casa um rim artificial, que ainda estava na embalagem: nunca tinha sido utilizado.

A equipe da qual eu fazia parte, junto com a doutora Ana Maria Maciel Alves e o doutorando Domingos dÁvila, era chefiada pelo Dr. Antonio Azambuja e pelo Dr. Moysés Lerrer. Este, que estagiara em São Paulo, participara em hemodiálises, mas conduzidas por outros. Pessoalmente nunca se encarregara disso.

Mas não havia como hesitar. O homem certamente ia morrer. Tiramos o aparelho da embalagem e tratamos de prepará-lo, lendo as instruções. Era como se estivéssemos consultando um livro de culinária: "Coloque cem litros de água no recipiente.

Adicione as substâncias de diálise..." Fizemos tudo, cânulas foram colocadas numa artéria e numa veia do paciente e a diálise começou e funcionou. Aos poucos, o paciente foi melhorando.

Eu gostaria de dizer que a história teve um final feliz, mas não teve. O estado do paciente era muito grave, e ele não resistiu à doença.

Contudo, a primeira diálise tinha sido feita; outras se seguiram e mais adiante o procedimento tornou-se rotina, junto com o transplante, salvando muitas vidas. De certa maneira, a tentativa deu certo.

Tentar. Este é o verbo que deve ser adicionado à lista de 2008. Não somos obrigados a vencer, a triunfar. Mas vale a pena tentar. Isto é o que muitos brasileiros estão descobrindo. E é o que vai melhorar nosso futuro.


31/12/2007 e 01/01/2008
N° 15465 - Luis Fernando Verissimo


Humanidade em comum

Que 2008 lhe dê em dobro tudo que 2007 não deu. E que no novo ano as pessoas aprendam a se entender. Afinal, temos tanta coisa em comum!

Por exemplo: o homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe.

Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se vêem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa.

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem - ou, mais provavelmente, a mulher - sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso de a laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

Sabe-se que a vida surgiu na Terra porque a combinação de condições - a nossa distância do Sol e a relação dos elementos na nossa sopa primeva - eram as ideais para haver vida. Isto foi um acaso que só aconteceu aqui e todo o resto do Universo é apenas um bonito cenário de fundo para a nossa excepcionalidade, ou o acaso se repetiu em várias galáxias?

O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou como pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos.

O que, de certa maneira, redime aquele gesto de fazer aspas com os dedos, pois as aspas seriam anteriores à fala e não uma irritante novidade.

A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam. No século 17 um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês e a serpente falava francês.

Sempre a má vontade com os franceses. Na sua infância - a palavra "infância", por sinal, vem do latim "incapacidade de falar" - , a humanidade não produzia palavras, mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum.

Foi chamada de "teoria bow wow", e o nome já a desmentia, pois "bow wow" é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem "au-au" e os japoneses, segundo os japoneses, "bau-bau".

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo. Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão.

Eis uma receita para o entendimento: reuniões internacionais que começassem com um coro dos nossos ruídos elementares, para enfatizar a nossa semelhança. E não haveria a necessidade de intérpretes.


SONHO COMPARTILHADO PARA 2008

Na Terra inteira, toda a criança
Tenha de fato esperança.
Seja sua vida poupada da miséria,
Por uma educação cuidadosa e séria.
Nossos impostos bem utilizados,
Não sejamos de novo enganados.
Não precisamos de esmolas.
Mas,da construção e do bom uso de escolas.
De governantes eficientes e honestos,
E de fim aos corruptos funestos.
Sejam os fuzis postos no chão,
E haja PAZ em todo humano coração.
O ano de 2008 seja um marco novo,
De renascer a todo povo.
Em nosso planeta lindo e azul,
Seus habitantes de norte a sul.
Pensem e façam reflorecer forte
A vontade de preservar. Seja este o nosso norte.
O lixo sendo reciclado.
O meio ambiente preservado.
A nossa água não seja contaminada,
Pela poluição da ganância desenfreada.
Árvores ornamentando as praças,
Onde as flores resplandeçam em graças.
A poluição ambiental e até a sonora,
Sejam contidas, pelo mundo afora.
Havendo o mais nobre pleito,
Da vida humana ser tratada com respeito.
Tudo pode começar agora,
Em todo tempo existe a hora,
No mais digno momento,
Do habitante da Terra, criar seu renascimento.
Amar é preservar,
Ter carinho, cuidar.
Este pode ser o sonho de uma mulher romântica,
Palavras, ilusões, linda semântica.
Mas, do fundo do meu coração entreaberto,
Na sinceridade de meu desejo descoberto,
Minha Leitora, meu leitor quero compartilhar
Contigo, o meu direito de querer e sonhar:
Um mundo melhor é possível!
Basta ser humano, ser sensível.
Unidos na força indestrutível do bem,
Este sonho, todo poder alcança e tem
O significado de estarmos aqui, neste lugar.
Onde o Criador nos colocou para iluminar.
Procriar uma raça de gente verdadeira.
Sendo do universo a mais gentil e a primeira,
A fazer ressurgir o fraterno amor,
Com o mais autêntico destemor.
Por não termos nos afastado da compaixão,
Da lucidez, da generosidade e da gratidão.
Venha, pois, sonhar comigo,
Minha amiga, meu amigo.
Talvez, este sonho se fortaleça,
Se multiplique, se espalhe e cresça,
Se torne realidade,
Porque foi sonhado de coração, com fé de verdade!

Vera Linden

sábado, 29 de dezembro de 2007



30 de dezembro de 2007
N° 15464 - Martha Medeiros


Sentido único: em frente

Sairei de 2008 melhor do que estou entrando, simplesmente porque é impossível desprezar conhecimentos, conversas, sensações

Faço aniversário em agosto. Quando alguém, em julho, pergunta quantos anos eu tenho, já respondo com a idade nova.

Não sei até quando terei essa coragem de me envelhecer antes da hora, mas, por enquanto, ainda arredondo pra cima. Com o ano novo, é a mesma coisa. Já estou em 2008 faz uns 20 dias.

Coloquei-o em total vigência, é um ano em curso, mergulhei de cabeça nele. 2007 já era, já deu o que tinha que dar. Aliás, foi bom pra você?

Poucas pessoas viveram grandes feitos, grandes viagens ou grandes paixões. A maioria viveu o que podia ter vivido. Foi ao cinema e adorou (ou odiou) Tropa de Elite. Leu alguns livros. Curtiu alguns churrascos.

Passou uns finais de semana fora da cidade. Reclamou da falta de dinheiro. Brigou com pais e irmãos. Fez as pazes com pais e irmãos. E depois brigou de novo.

Esperou em filas. Assistiu a pelo menos um show. Achou a Camila Pitanga linda em Paraíso Tropical. Reclamou muito do frio. Bebeu demais.

Pensou em casar. Pensou em descasar. Pensou em ter um cachorro.

"Ano da virada" é apenas força de expressão. A maioria de nós viveu um ano semelhante aos outros anos, salvo aqueles que foram colhidos por uma fatalidade - já não é fatalidade suficiente estar vivo?

Eu tive um ano muito bom e muito parecido com outros anos bons, inclusive nas partes ruins. Ainda assim, o melhor de chegar aqui, na saideira, é olhar para trás e concluir que o aconteceu de mais diferente foi eu mesma.

Entrei de um jeito em 2007 e estou saindo outra, mesmo que eu pouco perceba essa alteração.

Recentemente ouvi alguém admitir que era uma pessoa melhor anos atrás. Duvido. Não se pode dizer isso pra valer. É muito desestimulante a gente acreditar que está involuindo.

Quando olho para o meu passado, encontro uma mulher bem parecida comigo - por acaso, eu mesma - porém essa mulher sabia menos, conhecia menos lugares, menos emoções.

Ora, por mais legal que a gente tenha sido, sempre fomos mais pobres em relação ao presente - e não estou falando de dinheiro, mas de vivência.

Involuir é muito trabalhoso, exige que rejeitemos todos os aprendizados: quem faria essa maldade consigo mesmo? Evoluir é que está na ordem natural das coisas.

Portanto, tenho certeza de que em 2008 eu verei alguns filmes, assistirei pelo menos a um show, lerei alguns livros, sairei da cidade uns finais de semana, irei bater ótimos papos com os amigos, terei uns arranca-rabos em família e depois voltarei às boas, perderei tempo em filas e reclamarei do frio.

E mesmo sendo mais um ano como tantos outros - no caso de nenhuma fatalidade ocorrer - , sairei de 2008 melhor do que estou entrando, simplesmente porque é impossível desprezar conhecimentos, conversas, sensações - tudo o que parece repetitivo, mas que nos dá uma cancha necessária pra seguir adiante e viver melhor.

Então, feliz você novo, mesmo que pareça igualzinho.

Ótimo domingo - Excelente segunda-feira e FELIZ ANO NOVO.


30 de dezembro de 2007 | N° 15464
Moacyr Scliar


Foi tão bom para você quanto foi bom para mim?

Quem pergunta espera uma resposta, e no jogo pergunta-resposta está a chave para uma sábia e gratificante convivência

Durante alguns anos o ator americano Dom DeLuise apresentou na tevê um famoso programa chamado "Candid Camera", na qual pessoas eram submetidas a situações embaraçosas que, depois descobriam, estavam sendo gravadas para o show.

Para evitar que essas pessoas ficassem contrariadas ou furiosas, encerrava-se a gravação com uma frase famosa: "Sorria, você está no Candid Camera".

DeLuise encerrava o programa com uma pergunta que ficou igualmente famosa: "Was it good for you as it was for me?", ("Foi tão bom para você quanto foi bom para mim?").

Esta pergunta, crucial na relação entre seres humanos, revela ao mesmo tempo a nossa grandeza e a nossa fraqueza. A grandeza está em perguntar, em se interessar pelo que o outro sente. Perguntar, de modo geral, é bom.

Perguntar não ofende; ao contrário, revela abertura. Quem pergunta espera uma resposta, e no jogo pergunta-resposta está a chave para uma sábia e gratificante convivência.

Não é demais lembrar que, na Bíblia, Deus freqüentemente se dirige aos humanos sob a forma de perguntas. Cujas respostas, o Senhor, que é onisciente, obviamente já sabe; se pergunta é exatamente para dar aos seres humanos a chance de responder. É para manter o diálogo divino-humano.

"Foi tão bom para você quanto foi bom para mim?" Há pelo menos dois momentos em que esta pergunta é pertinente. O primeiro, ao final de uma relação sexual.

O segundo momento é este que estamos vivendo: o final do ano. Mas para quem perguntar? Quem é o nosso interlocutor nesse diálogo?

O ano, claro. "Foi tão bom para você, 2007, quanto foi para mim?"

Certas condições precisam ser preenchidas para que esta pergunta seja respondida. A primeira: é preciso que terminemos o ano bem, que, olhando o período em retrospecto, possamos dizer:

de fato, este foi um bom ano, uma afirmativa que não é fácil de fazer, porque a nossa vida é feita de bons e maus momentos, momentos de alegria e momentos de tristeza, momentos de glória e momentos de miséria moral.

Em segundo lugar, é preciso que 2007 nos imite e faça uma avaliação do que aconteceu nesses 365 dias.

De novo, tarefa difícil. Sim, houve crescimento econômico, mas a distribuição de renda continua ruim. Sim, há mais comida, mas a obesidade aumentou. Sim, há mais carros nas ruas, mas os acidentes de trânsito cresceram exponencialmente.

"Foi tão bom para você quanto foi bom para mim?" O casal deitado na cama, ainda ofegante, ele ou ela (em geral ela; a iniciativa da pergunta mais freqüentemente é do homem) não terão dificuldade em responder.

Porque sexo é coisa orgânica; aí fala forte a voz do corpo e o corpo não mente. A vida em geral é mais complexa. Mas vamos simplificar as coisas.

Vamos partir do pressuposto que, avaliados os prós e os contras o resultado foi positivo e que lembraremos 2007 como um bom ano. Quanto ao mais: sorriam, amigos, vocês estão no Candid Camera.


30 de dezembro de 2007
N° 15464 - Paulo Sant'ana


Assassinatos evitáveis

Em face das minhas doenças, muitas pessoas, na ânsia de me socorrer, tentando melhorar meu estado de saúde, enviam-me conselhos, pelo que fico profundamente agradecido.

Os conselhos vão desde que eu só coma carne e saladas até consumir somente produtos dietéticos.

Desencorajaram-se de pedir-me para deixar de fumar, é mais fácil obrigar o Bush a fazer profissão de fé islâmica.

Mas um dos pedidos mais insistentes que recebo dos leitores é para eu caminhar ou correr. Dizem que as transformações que sofrerei para melhor na saúde, se caminhar ou correr oito quilômetros por dia, serão espantosas.

E, para não decepcionar essas pessoas, eu deixo de responder a elas o que crê o Ibsen Pinheiro: "Se correr fosse sinônimo de saúde ou longevidade, o cavalo inglês não viveria só por 17 anos e a tartaruga por 200".

Mais uma criança foi morta nos últimos dias pelos dentes de um cão feroz: uma menina de sete anos de idade foi estraçalhada na véspera de Natal por um cão rottweiler, na cidade de Dois Irmãos (RS).

O incrível é que o dono do sítio e da fera assassina declarou após o homicídio culposo que a menina "sabia que não podia estar naquele lugar".

Como é que é? A menina não podia estar naquele lugar?

Será que o dono do sítio onde houve o massacre - e dono do cão - não sabe que quem não pode estar nem naquele lugar do sítio nem em qualquer lugar da Terra não era a menina, mas exatamente o rottweiler?

Nós temos que depressa nos conscientizar de que não podemos permitir, se quisermos ser uma sociedade civilizada, que continuem a freqüentar nosso meio social os pitbulls e rottweilers.

Cansei já de narrar os sofrimentos que crianças e adultos padecem em poder desses cães assassinos.

Essa criança ficou dezenas de minutos sendo dilacerada pelas mandíbulas e dentes cortantes e perfurantes desse cão chacinador.

A dor que uma criança ou um adulto sente ao ter cravados em seu corpo os dentes dessas feras é inenarrável. Ninguém suporta.

A vítima pede para morrer, durante 10, 20 minutos, até que alguém a socorra. Pede para morrer para parar de sentir dor e para parar de sentir medo, pânico, terror.

E foi tanta a dor dessa criança de Dois Irmãos, que, quando deram vários tiros no rottweiler, que nem mesmo assim soltou a criança, ela já tinha morrido.

Ou seja, daí a que fossem buscar o revólver, ela sofreu, ela se martirizou, ela foi sendo aos poucos, lentamente, torturada, até que morreu, chegando atrasado o socorro. E se tivesse chegado a tempo o socorro, o que restaria da criança mutilada seria mais trágico do que o cadáver.

Parem de criar e manter em casa esses cães, já que não adianta mais apelar ao poder público insensível. Parem, parem de uma vez por todas.

Isso atenta contra a razão e as humanidades. Por que não param de assassinar os cúmplices desses assassinatos, que criam esses cães?

Por que não param? Vão querer matar todas as crianças e metade dos adultos do mundo? Por que não param?

Parem. Cães assassinos de donos irresponsáveis. Dizem-me que os cães não são os culpados dessas chacinas que não param mais. Acho isso certo.

Mas e os verdadeiros culpados, os donos dessas feras, vão continuar matando? Matando, torturando, massacrando? Quando é que essa estupidez vai ter um fim?


30 de dezembro de 2007
N° 15464 - David Coimbra


O quase gordo e os dois magros mas não muito

Não me recordo do nome de nenhum dos personagens dessa história, mas lembro deles como se os visse agora e aqui, pisando em cima do carpete azul da Redação. Eram meus colegas de aula, os três.

Desentenderam-se por alguma razão na hora do intervalo, dois contra um. O um era grande, quase gordo. Os dois, pequenos e magros, mas não muito. Os dois magros mas não muito é que pediram briga.

- Vamos te pegar lá fora! - arrostavam para o quase gordo, em meio a aula sobre a fórmula de Báskara, menos bê mais ou menos raiz quadrada de bê ao quadrado menos quatro a cê sobre dois a.

O quase gordo não respondia. - Ele vai levar um pau! Vamos quebrar a cara dele! - ameaçavam. O quase gordo, nada.

Eram debochados, os dois magros mas não muito, eram insolentes. Ficaram provocando o quase gordo até que a sineta bateu, que naquela época a sineta batia nas escolas.

Na saída, o colégio inteiro estava mobilizado para ver a luta. Os dois magros mas não muito caminhavam na frente, gabando-se, jurando o quase gordo, iam transformá-lo em patê, iam fazer a cara dele virar xis-bacon, ninguém saberia a diferença entre o quase gordo e um prato de mondongo, depois da surra que lhe aplicariam, e talicoisa.

O quase gordo, mudo, olhando para o bico branco da Conga, arrastando sua melancolia, como diria o Professor Ruy.

O grupo, enfim, chegou a um barranco ao lado do muro que circundava a escola. O quase gordo sentou-se na grama e abraçou os joelhos, sempre mirando o solo, chateado.

Os dois magros mas não muito ficaram saltitando em volta, rindo e caçoando, chamando o quase gordo de verdadeiro gordo, de banha, de pança, de baleio, de poltrão, diziam que a mãe dele militava em rendez-vous, que o pai dele não tinha caminhão, essas coisas. O quase gordo cabisbaixo, sem reagir.

Para quem queria ver briga, para quem estava lá pelo espetáculo, era frustrante. Todos em volta começaram a açular o quase gordo, a chamá-lo de covarde, covarde, co-var-de! Um dos magros mas não muito parou diante dele, fincou as mãos na cintura e, olhando para baixo, comentou, entre risos:

- Ele não luta porque são dois contra um. Ele tem medo de nós dois.

Então, o quase gordo finalmente levantou o queixo e olhou para cima, afastou os braços das pernas e, apoiando as mãos na grama, ergueu o corpanzil, murmurando:

- Nem de dois, nem de três. E a ação começou.

Testemunhei, nos minutos seguintes, uma breve porém eloqüente demonstração da arte do pugilato. O quase gordo tinha os braços mais compridos que os dois magros mas não muito.

Graças a isso, mantinha-os a uma distância segura. Eles não podiam se aproximar, senão se transformavam em alvos dos punhos de pedra do quase gordo. Mas, se não se aproximassem, como atingi-lo? Mais: o quase gordo era surpreendentemente ágil para o seu tamanho.

Ficava dançando em volta dos dois adversários, pulando de um lado para outro. Quando um se punha ao seu alcance, ele, SOC!, desferia-lhe um murro certeiro. Aí o outro tentava socorrer o amigo e o quase gordo, POW!, mandava mais uma bomba.

Em três ou quatro minutos de violência concentrada, sistemática, calculada e feroz, o quase gordo desmontou os dois magros mas não muito peça por peça, como se estivesse exercendo uma atividade profissional, uma tarefa de escritório.

Foi isso que me impressionou: a serenidade assassina do quase gordo. Sua técnica de espancamento. A violência transformada em instrumento de ação. A partir daí, passei a me interessar pelo boxe. Corta.

Em meados deste ano que se escoa, o já saudoso 2007, fui assistir às lutas de boxe no Pan do Rio. Lá estavam os cubanos, exímios pugilistas, e lá estava o Minotouro, irmão do Minotauro, primo irmão do Minotiuro, gêmeos campeões de vale-tudo no Japão. Parecia uma competição animada. Qual o quê!, como diria Chico Buarque.

Como é que chamam aquilo de luta? Boxe olímpico, francamente! E nem falo por causa do elmo protetor que os pugilistas usam. Até porque não será o sangue espirrando que haverá de tornar mais atrativo o jogo.

Só que, no boxe olímpico, o nocaute está praticamente proibido. Quando um lutador começa a castigar o outro com mais eficácia, o árbitro logo os separa. A vitória é concedida por pontos marcados eletronicamente.

Sem o nocaute, o boxe olímpico torna-se uma competição emasculada. Porque o nocaute é a essência do boxe. O nocaute é o verdadeiro objetivo do boxe.

Uma luta sem nocaute, sem o adversário batido cabalmente, inapelavelmente, é como um campeonato de futebol sem decisão. Mas quem admitiria um campeonato de futebol sem decisão? Quem???


30 de dezembro de 2007
N° 15464 Tele tudo | Marianne Scholze


O Domingo é de ... premiar os melhores

Pulando as páginas adiante, o TV+Show lembra o melhor das novelas e da TV aberta em 2007. Nessa onda de retrospectiva, o DOMINGÃO DO FAUSTÃO deste domingo vai revelar os vencedores do Melhores do Ano.

Na premiação, além de destaques como melhor ator, atriz e música de novela, também são homenageados destaques em outras áreas, como grupo ou dupla musical, esportista e comediante.

Por telefone, torpedo e internet, o próprio público do programa votou e elegeu os que recebem o troféu no palco do Domingão. A atração segue com Faustão fazendo a entrega do Troféu Mario Lago, em homenagem a grandes nomes da teledramaturgia brasileira.

A tarde também é de quadros novos no programa: no Imitadores, anônimos dublam famosos, enquanto uma nova atração sobre comportamento recebe o nome de O Jogo dos Dez.

Período sabático

Assim que o Fantástico entrar no ar neste domingo, os telespectadores vão perceber a mudança.

Estrela do dominical, GLÓRIA MARIA decidiu "tirar um período sabático" para dedicar-se a projetos pessoais e ficará fora da TV por dois anos. De supetão, a notícia veio por meio de um comunicado oficial da Globo, em que a emissora garante que o vínculo com a jornalista permanece inalterado. Nesse período, Glória pretende estudar canto, escrever um livro e viajar.

Quem dá as caras no programa neste domingo é Renata Ceribelli - a partir do dia 6 de janeiro, quem assume é a gaúcha PATRÍCIA POETA, que dividirá a apresentação com Zeca Camargo.

- Vou me esforçar. E espero que o telespectador aprove - declarou Patrícia.

Vips a mancheias

Durante o CARNAVAL deste ano no Rio, o disputado camarote da Brahma - que terá como tema As Maravilhas do Rio - reunirá mais de 800 convidados vips.

Entre as celebridades que irão desfrutar da 18ª edição do espaço cheio de mordomias e boca-livre, estão o cantor Paulo Ricardo, a atriz Silvia Pfeifer e o culinarista Olivier Anquier.

Estrela cheirosa

GRAZI MASSAFERA é a estrela da nova fragrância que a Avon lança em 2008.

A campanha foi realizada no estúdio do fotógrafo Jairo Goldflus (marido de Gabriela Duarte), com visual assinado por Marco Antonio de Biaggi, Kaká Moraes e a stylist Jussara Romão.

Batida nova

Falando em Duas Caras, a favela da Portelinha vai dançar ao som de outro ritmo assim que o Carnaval passar.

A comunidade vai ser palco de um grande baile funk, que vai deixar famosa a pequena MANU DA PORTELINHA (Luana Dandara), filha de Alzira (Flávia Alessandra) e funkeira de carteirinha.

Em seu engraçadíssimo blog (passa lá: www.bloglog.com.br/aguinaldosilva), o autor Aguinaldo Silva também adiantou que Jojo (Wilson de Santos) vai abrir uma nova casa noturna, o Dallas Bar. Por lá, devem passar, segundo Silva, "artistas mais estabelecidos, como o Ministro Gil e tantos outros".

Alguém falou em Bar da Jura aí?

Cara de um...

O cara nunca fez tanto sucesso.

Aos 41 anos, o santa-mariense FLÁVIO BAURAQUI tem sido cumprimentado pelo trabalho como Evilásio, de Duas Caras. O pequeno detalhe é que o gaúcho interpreta Ezequiel, o motorista evangélico de Marconi Ferraço (Dalton Vigh) na trama de Aguinaldo Silva.

Não entendeu? É a semelhança física com Lázaro Ramos que confunde parte do telespectador, que o elogia pela interpretação alheia.

A semelhança entre os dois atores até já inspirou piada no Casseta & Planeta: Urgente! e diverte o povo nos bastidores da novela das oito.

- Quando alguém vem me falar do trabalho dele, agradeço e digo "Obrigado, mas não sou o Lázaro". Mas se a pessoa está muito empolgada com o encontro, só agradeço e saio correndo - confessa, dando risada.

Se eles acham que foram separados no nascimento? A resposta é negativa.

- Quanto mais a gente se conhece, menos se acha parecido - garante Bauraqui.

Mais internacional ainda

Estouram champanhas em comemoração a 2007 pelas bandas da GLOBO TV INTERNACIONAL.

Ao todo, foram vendidas 48 produções para 50 países, traduzidas para 22 idiomas, em mais de 23 mil horas licenciadas.

A Globo TV Internacional já tem um forte posicionamento em Portugal - onde a SIC exibe todas as suas novelas - , na América Latina e no Leste Europeu.

O destaque do ano foi a entrada da emissora nos mercados asiáticos e norte-americanos. Neste ano, China, Macau, Índia e Vietnã puderam conhecer as produções da emissora.

Entrando no ringueGolpes e socos vão dominar as tardes de sábado do SBT.

No dia 5, estréia na emissora a WWE - LUTA LIVRE NA TV. O programa vai exibir os dois campeonatos de luta livre mais famosos do mundo: o Smackdown e o Raw. As batalhas acontecem em ginásios espalhados por todo o mundo e chegam a receber um público de 45 mil pessoas.

Ok, então.

Fonte de inspiração

E depois há quem diga que TV é um meio cultural "menor".

Foi em frente à telinha que THIAGO MENDONÇA tomou gosto pela profissão. Uma das revelações mais queridas na dramaturgia este ano, ele nasceu e cresceu em Belford Roxo (RJ), onde não havia - e ainda não há - teatros ou cinemas.

Vendo novela, Mendonça aprendeu a admirar um ator: Lauro Corona, falecido em 1989. Com menos de 10 anos, o piá já assistia ao ídolo em Direito de Amar (1987) e Vida Nova (1989).

- Ele é um ícone, não era apenas um galã. Tenho desejo de viver o Lauro Corona. Ele sempre me instigou e seria legal resgatar essa história - imagina.

Vidas marcadas (1)

- Assim como o Lula é Luiz Inácio Lula da Silva, eu sou Cristiana Juma Oliveira - brinca CRISTIANA OLIVEIRA, que vira-e-mexe é abordada por fãs (geralmente homens) da novela Pantanal (1990).

- Nenhuma personagem me marcará tanto - conforma-se a atriz.

Vidas marcadas (2)

Quem também não se importa de ser lembrada pela sua maior personagem é MARISA ORTH.

- Até hoje as pessoas me mandam calar a boca - entrega a atriz, referindo-se ao famoso bordão de Miguel Falabella no humorístico Sai de Baixo, que saiu do ar em março de 2002.

- Apesar de ser cada vez menos comum, acho que sempre serei chamada de Magda. Não me incomodo com isso porque ela foi minha melhor personagem.

Amor ao Verdão

Pegou entre os times de futebol a onda de investir em celebridades.

Depois do São Paulo e do Corinthians, o Palmeiras pagou um alto cachê para usar a imagem de ADRIANE GALISTEU, que participou do anúncio do novo patrocinador da camisa alviverde e, em janeiro, reúne-se com a direção do clube.

- Ela já se colocou à disposição para participar de todos os projetos - diz Marcelo Solarino, assessor do Verdão.

Haja gasolina!

OTÁVIO MESQUITA, quem diria, vai se tornar motorista de kombi nos próximos dias.

Para os programas especiais de verão do A Noite é Uma Criança, ele segue com uma kombi toda estilizada para o litoral Norte de São Paulo. A bordo da "Karanga do programa", o apresentador pretende aprontar poucas e boas nas areias de Maresias, Ilhabela e redondezas.

- Nem sei bem o que vamos aprontar. Peço para a produção não me contar tudo porque gosto de fazer as coisas de maneira inesperada - diz o turbinado apresentador.

Meu nome é trabalho

Mão na massa é o lema de RODRIGO VERONESE para o ano que vem chegando.

Além de Beleza Pura, próxima novela das sete da Globo, o ator já tem outros projetos engatilhados. Um deles é a participação na peça que o amigo Sérgio Abreu produz, Look Back in Anger, de John Osbourne.

- Estou feliz por dividir o palco com o Sérgio - diz o Lucas, de Paraíso Tropical, sobre o ex-colega de trama, que viveu o homossexual Tiago.

O melhor

Não há quem não tenha se emocionado com a linda participação especial de CAMILA PITANGA no tradicional especial de fim de ano de Roberto Carlos.

Ao lado do rei, a discretamente grávida atriz era só atenções para a princesa Antônia, que deve nascer em maio. Voz afinada e mão na barriga, Camila derreteu a todos entoando Como É Grande o Meu Amor Por Você.

O pior

Em pleno Natal, o ator ANDRÉ MATTOS foi assaltado na Linha Amarela, no Rio, enquanto se dirigia a Juiz de Fora (MG) para encontrar com familiares.

Os bandidos não perdoaram: apesar de reconhecerem o D. João VI de O Quinto dos Infernos, prometendo inclusive devolver o carro, Mattos foi deixado completamente nu no meio da estrada. Ninguém merece.


30 de dezembro de 2007
N° 15464 - Luis Fernando Verissimo


O futuro do passado

Mesmo que o Papa não morra e a Xuxa não case, os videntes mantêm sua reputação e são consultados a cada ano novo sobre o que o futuro nos reserva

Não sou bom em retrospectivas. Esqueço o que aconteceu de importante no ano e quando me lembro fico na dúvida: foi neste ano mesmo ou no ano passado? Não consigo citar nem um bom filme que vi, o que dirá os 10 melhores.

A única maneira de fazer minha retrospectiva do ano é ficar esperando que os outros façam as suas, para me lembrar do que houve. Mas aí já acabou o ano e não dá mais tempo para fazer a minha.

Mais fácil e seguro é, em vez de retrospectivas, fazer prognósticos. Especular sobre o que vai acontecer para ser incluído nas retrospectivas do ano que vem. Você pode prever o que quiser.

Até hoje, ninguém no Brasil foi cobrado por fazer previsões erradas. Mesmo que o papa não morra e a Xuxa não case, os videntes mantêm sua reputação e são consultados a cada ano novo sobre o que o futuro nos reserva. É uma profissão à prova de desmentidos.

É verdade que se todas as previsões feitas no passado sobre como seria a vida hoje dessem certo, cada um de nós teria um helicóptero - ou coisa parecida - na garagem, e para viagens mais longas só usaríamos aviões supersônicos.

Os Volkswagens voadores não vieram, para não falar nas megalópoles super-organizadas com calçadas rolantes num mundo em paz permanente e sem pragas, mas o Concorde parecia ser um sinal de que pelo menos parte da visão se cumpriria, mesmo com atraso.

Era um protótipo que, com o tempo, se aperfeiçoaria e se democratizaria. Seus defeitos eram desculpáveis, tratando-se de um protótipo.

Fora as críticas irrelevantes (sim, querida, o caviar é Beluga, mas com a granulação errada), o pior que se dizia de uma viagem no estreito Concorde, com suas poltronas apertadas, era parecido com o que aquele inglês disse do ato sexual: o prazer é fugaz e a posição é ridícula.

Tudo isso seria corrigido com o tempo, inclusive seu maior defeito, o preço das passagens, só acessível a quem distingue o grão do caviar. Mas o Concorde acabou antes de poder ficar viável.

E o que se chora não é o fim de uma máquina muito cara e talvez desnecessária, mas de um sonho: o que a vida poderia ser se todas as possibilidades abertas pela ciência e a tecnologia depois da I Guerra Mundial tivessem dado em outro mundo.

As idílicas previsões dos anos 1920 e 1930 pressupunham um progresso da natureza humana comparável ao da sua técnica. Não aconteceu. No fim, o que a gente mais sente falta do passado é o futuro que ele previa.

O Concorde podia ser só uma extravagância feita para você poder almoçar em Paris e almoçar de novo em Nova York. Acabou como símbolo do fim prematuro de um século que só ficou na imaginação.

Mas, enfim, o futuro previsto no passado não incluía uma palavra, uma pista, uma sugestão que fosse (fora, talvez, o rádio de pulso do Dick Tracy) da grande revolução que viria e ninguém sabia, a da informática. Quer dizer, já era um futuro obsoleto.