sábado, 29 de dezembro de 2007



30 de dezembro de 2007
N° 15464 - Luis Fernando Verissimo


O futuro do passado

Mesmo que o Papa não morra e a Xuxa não case, os videntes mantêm sua reputação e são consultados a cada ano novo sobre o que o futuro nos reserva

Não sou bom em retrospectivas. Esqueço o que aconteceu de importante no ano e quando me lembro fico na dúvida: foi neste ano mesmo ou no ano passado? Não consigo citar nem um bom filme que vi, o que dirá os 10 melhores.

A única maneira de fazer minha retrospectiva do ano é ficar esperando que os outros façam as suas, para me lembrar do que houve. Mas aí já acabou o ano e não dá mais tempo para fazer a minha.

Mais fácil e seguro é, em vez de retrospectivas, fazer prognósticos. Especular sobre o que vai acontecer para ser incluído nas retrospectivas do ano que vem. Você pode prever o que quiser.

Até hoje, ninguém no Brasil foi cobrado por fazer previsões erradas. Mesmo que o papa não morra e a Xuxa não case, os videntes mantêm sua reputação e são consultados a cada ano novo sobre o que o futuro nos reserva. É uma profissão à prova de desmentidos.

É verdade que se todas as previsões feitas no passado sobre como seria a vida hoje dessem certo, cada um de nós teria um helicóptero - ou coisa parecida - na garagem, e para viagens mais longas só usaríamos aviões supersônicos.

Os Volkswagens voadores não vieram, para não falar nas megalópoles super-organizadas com calçadas rolantes num mundo em paz permanente e sem pragas, mas o Concorde parecia ser um sinal de que pelo menos parte da visão se cumpriria, mesmo com atraso.

Era um protótipo que, com o tempo, se aperfeiçoaria e se democratizaria. Seus defeitos eram desculpáveis, tratando-se de um protótipo.

Fora as críticas irrelevantes (sim, querida, o caviar é Beluga, mas com a granulação errada), o pior que se dizia de uma viagem no estreito Concorde, com suas poltronas apertadas, era parecido com o que aquele inglês disse do ato sexual: o prazer é fugaz e a posição é ridícula.

Tudo isso seria corrigido com o tempo, inclusive seu maior defeito, o preço das passagens, só acessível a quem distingue o grão do caviar. Mas o Concorde acabou antes de poder ficar viável.

E o que se chora não é o fim de uma máquina muito cara e talvez desnecessária, mas de um sonho: o que a vida poderia ser se todas as possibilidades abertas pela ciência e a tecnologia depois da I Guerra Mundial tivessem dado em outro mundo.

As idílicas previsões dos anos 1920 e 1930 pressupunham um progresso da natureza humana comparável ao da sua técnica. Não aconteceu. No fim, o que a gente mais sente falta do passado é o futuro que ele previa.

O Concorde podia ser só uma extravagância feita para você poder almoçar em Paris e almoçar de novo em Nova York. Acabou como símbolo do fim prematuro de um século que só ficou na imaginação.

Mas, enfim, o futuro previsto no passado não incluía uma palavra, uma pista, uma sugestão que fosse (fora, talvez, o rádio de pulso do Dick Tracy) da grande revolução que viria e ninguém sabia, a da informática. Quer dizer, já era um futuro obsoleto.

Diogo Mainardi

Ficamos mais bestiais

Luiz Moyses perdeu a mulher na tragédia da TAM. Na tragédia do Aeroporto de Congonhas. Na tragédia do Airbus. Na tragédia da Anac. Na tragédia da Infraero. Na tragédia de Lula. Chame do jeito que quiser.

Luiz Moyses era de Porto Alegre. Depois do acidente, a TAM o acomodou no Hotel Blue Tree, em Moema, perto de Congonhas. Em 31 de agosto de 2007, à noite, ele estava no bar do hotel, acompanhado por dois outros familiares de vítimas do Airbus.

No mesmo dia, ocorrera a abertura do III Congresso Nacional do PT. Mais de 150 delegados do partido também estavam hospedados no Hotel Blue Tree. O PT sempre se deu bem com o Hotel Blue Tree. Um dos delegados petistas foi confraternizar com Luiz Moyses, imaginando que ele fosse um correligionário.

Luiz Moyses repeliu-o dizendo que Lula era o culpado pela morte de sua mulher. O delegado petista tentou agredi-lo. Insultou-o. Disse que os parentes dos mortos da TAM estavam chorando demais. O agressor só foi contido pelo deputado baiano Joseph Bandeira e pelos guarda-costas do partido.

O próprio Luiz Moyses relatou-me o episódio alguns meses atrás. Nesta semana, à procura de uma imagem que sintetizasse o ano, lembrei-me dele. Mais do que pelo acidente de Congonhas, 2007 ficará marcado pela bestialidade que deflagrou.

Da alegria indecente de Lula na posse de Nelson Jobim ao top, top, top de Marco Aurélio Garcia quando o Jornal Nacional falou sobre o reversor pifado, o Brasil desceu mais uns degrauzinhos na escala de civilidade.

Em 2005 e 2006, o conflito foi entre lulistas e antilulistas, entre achacadores e achacados, entre quadrilheiros de um bando e de outro. 2007 foi pior: o conflito passou a ser mais essencial, mais primário, entre a selvageria e a humanidade.

Os fatos do Hotel Blue Tree resumem idealmente o que aconteceu no país nos últimos tempos. Num artigo pomposo como este, em que se analisa o passado em busca de ensinamentos para o futuro, cai bem citar um autor ilustre.

É kitsch, mas cai bem. Pensando em Lula, em Marco Aurélio Garcia e no agressor de Luiz Moyses, cito o autor mais manjado de todos, Samuel Johnson: "A piedade não é natural ao homem. Crianças são sempre cruéis. Selvagens são sempre cruéis. A piedade é adquirida e aperfeiçoada pelo cultivo da razão".

A mulher de Luiz Moyses chamava-se Nádia. Foi sua primeira namorada. Eram casados havia sete anos. Quando Nádia morreu, Luiz Moyses vendeu sua empresa e mudou-se de Porto Alegre.

Atualmente, ele tenta reconstruir sua vida em outro lugar, ao mesmo tempo que coordena as atividades do grupo de parentes dos 199 mortos de Congonhas. Chegou a ser recebido por Lula no Palácio do Planalto. Perguntou o motivo do descaso do governo com a segurança nos aeroportos.

Lula respondeu, segundo ele, que "o povo brasileiro nunca pediu segurança, pediu que modernizássemos os terminais". Lula teria acrescentado que o Brasil "possui os melhores terminais do mundo, com shopping center e tudo o mais".

O ano acabou. A tragédia da TAM ficou para trás. Menos para Luiz Moyses e todas as pessoas que perderam parentes ou amigos. Eles continuam a buscar respostas para os acontecimentos daquele fim de tarde de julho. Reúnem-se, confortam-se, trocam mensagens.
A última suspeita que circula entre eles é que o piloto do Airbus teria pedido autorização para aterrissar no Aeroporto de Guarulhos, mas tivera seu pedido negado pelos controladores.

Em 2007, o Brasil pediu para aterrissar numa pista longa e segura, mas acabou numa pista incerta e escorregadia, "com shopping center e tudo o mais".

Ronaldo Soares - Oscar Cabral

O campeão do ano na Bolsa

Eike, em seu quartel-general no Rio: com uma só empresa, ganho de 6 bilhões de dólares desde 2006

A trajetória empresarial de Eike Fuhrken Batista alternou feitos memoráveis e fracassos retumbantes. Ele explorou com sucesso a maior mina de ouro e prata da América do Sul, no Chile.

Também perdeu muito dinheiro em investimentos aventureiros, como uma fábrica de jipes e uma empresa de entregas pela internet. Com a exuberância do mercado de capitais brasileiro, no entanto, esse empresário de 50 anos se reinventou.

Antes mais lembrado como o marido de Luma de Oliveira, a modelo com quem tem dois filhos, o empresário promoveu uma virada em sua imagem. De aventureiro, firmou-se como um empreendedor de peso.

Foi Eike (pronuncia-se áique) quem melhor aproveitou a onda de IPOs (oferta pública inicial de ações), que começou em 2004 e atingiu seu auge em 2007.

Ele encabeça uma lista da revista Exame com os bilionários que mais lucraram com a febre da abertura de capital. O resultado pode ser atribuído ao desempenho da maior empresa de seu grupo, a mineradora MMX.

Quando a companhia abriu o capital, em julho de 2006, seu valor de mercado era de 1,4 bilhão de dólares. No fim de 2007, a cifra atingiu 7,5 bilhões de dólares (veja o quadro). Em um ano e meio, Eike ganhou 6 bilhões de dólares.

No fim de novembro, o empresário deu mais um salto surpreendente. Investiu 1,5 bilhão de reais na aquisição de 21 áreas de exploração no leilão da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Sua empresa, a recém-criada OGX, superou gigantes como a Vale e a Petrobras. Foi a grande vencedora do certame, com quase 75% do total arrecadado.

O dinheiro para tal aventura? Há duas semanas, a OGX captou 2,3 bilhões de reais numa operação de emissão privada de ações, conhecida como private placement. Foi a maior operação desse tipo realizada na América Latina. Ela só foi possível com a ajuda de craques recrutados a peso de ouro no mercado – preocupação característica do "novo Eike".

Ele tem a seu lado economistas do porte de Francisco Gros, ex-presidente do Banco Central, e Paulo Mendonça, cujo passe foi comprado por um salário de 200 000 reais por mês. Mendonça era gerente de exploração e produção da Petrobras. Virou diretor de exploração na OGX.

Nascido em Governador Valadares (MG), Eike é o segundo dos sete filhos de Eliezer Batista, que presidiu a Companhia Vale do Rio Doce e foi ministro de Minas e Energia. Ele passou a infância no Rio de Janeiro e, aos 12 anos, mudou-se com a família para a Europa.

Quando voltou ao Brasil, aos 23 anos, investiu numa mina de ouro na Amazônia. Expandiu seus negócios e fez fortuna com a exploração de minas também no Chile e no Canadá. Até alguns anos atrás, atribuía-se, com certa dose de maldade, seu enriquecimento a uma espécie de herança genética.

Corria à boca miúda que, por causa dos laços paternos, ele teria obtido um mapeamento do subsolo brasileiro feito pela então estatal Vale do Rio Doce. "Esse mapa nunca existiu.

Se fosse assim, eu estaria dentro de Carajás", diz Eike, referindo-se à mina da Vale no estado do Pará da qual, desde o início de suas operações, em 1984, já se extraiu 1 bilhão de toneladas de minério de ferro.

Mesmo seus desafetos, no entanto, reconhecem em Eike um talento fora do comum para atrair investidores estrangeiros para suas empreitadas.

Assim como seu pai, Eike sempre mantém bom relacionamento com o Planalto. Na administração Lula, aproximou-se de José Dirceu, contratado mais tarde por Eike como intermediário junto ao governo de Evo Morales para tentar salvar uma siderúrgica de Eike da sanha estatizante boliviana.

Como se sabe, não deu certo. Eike não desistiu da Bolívia, mas dispensou os serviços de Dirceu. No Brasil, mantém o apetite por novos negócios, cada vez mais diversificados.

Suas apostas atuais incluem uma empresa de reflorestamento e restaurantes – mantém o chinês Mr. Lam, no Rio, e pretende abrir, no Brasil, filiais do nova-iorquino Nobu, de comida japonesa.

Também cogita criar uma empresa de saneamento para despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões-postais do Rio. Há duas semanas, ele inaugurou um navio de luxo para passeios na baía.

No dia seguinte à inauguração, caiu uma chuva torrencial no Rio. Mau presságio? Pouco importa. O horizonte nunca esteve tão azul para Eike Batista.


29 de dezembro de 2007
N° 15463 - Paulo Sant'ana


O gordo do ano

O Luciano Périco é um repórter da Rádio Gaúcha que ficou famoso por entrevistar as torcidas do Grêmio e do Inter nas arquibancadas.

Ele mede 2m5cm e pesa 185 quilos. Um homenzarrão. Interessante é que chamam-no de Lucianinho.

O que me interessa no Lucianinho é, no entanto, além da simpatia do seu coração, o que ele come. As toneladas de alimentos que ele ingere.

Ele come cachorro-quente como se engole aspirina, ou seja, o cachorro-quente passa pela garganta dele como se fosse um comprimido, quer dizer, ele joga um cachorro-quente para o estômago sem mastigar.

E para cada cachorro-quente que ingere, são cerca de 30 por dia, ele bebe um litro de Coca-Cola.

O Lucianinho, quando entra num restaurante de rodízio de pizzas, em seguida à sua entrada no estabelecimento o dono manda cerrar as portas, por esgotamento de estoque.

Nunca o Lucianinho freqüentou restaurante de comida a quilo. Porque ele entraria em falência pessoal se o fizesse.

Ele leva, para comer sozinho um peru de Natal inteiro, o mesmo tempo que uma pessoa normal leva para comer uma cebola assada.

Sanduíche de baguete para ele é uma hóstia. Ele foi à casa de um amigo onde iam servir um cabrito assado para 15 convidados: acabou o Lucianinho devorando o cabrito inteiro e os convidados tiveram de se contentar em dividir a salada.

Esses dias, no Natal, numa das oito refeições diárias que ele faz, trouxeram-lhe um chester inteiro assado. Ele olhou para aquele enorme animal na bandeja e disse: "Tirem isto daqui. Não gosto de perdiz".

O Luciano Périco come a vaca e sai correndo atrás do terneiro. Sua fome por sobremesas é lendária. Ele põe 15 quindins no liquidificador, mistura leite e toma como batida.

O bolo de aniversário dele, que ele comeu sozinho em duas horas, teve de ser cortado com uma pá.

Quando o Lucianinho chega no cachorro-quente do Rosário e o atendente pergunta se é com uma ou duas salsichas, ele responde: "Crava oito salsichas no primeiro".

Ele já leva um enorme babeiro instalado em volta do seu pescoço quando se aproxima do cachorro-quente do Rosário.

Sagu com creme, o Lucianinho devora, feito por sua cozinheira, uma lata dessas de querosene inteira. Num churrasco, para o Lucianinho, ele come 18 tripas de salsichão como tira-gosto.

O Lucianinho vive também, no intervalo das refeições, de beliscar alimentos. O apelido dele, em razão disso, passou a ser "cachorro de açougueiro".

Sabem como é, o cachorro de açougueiro fica embaixo do balcão, o açougueiro desbasta a carne dos sebos, dos nervos e dos tendões e atira os pedaços que sobram para o cachorro. Nunca se viu um cachorro de açougueiro magro.

O Lucianinho, em matéria de comestíveis, é sempre o "petiço encilhado", "a bola da vez", não recusa salgadinho, nem frutas, nem doces, nada, o que passar ele traça.

A barriga dele é apelidada de "cemitério de galetos".


29 de dezembro de 2007
N° 15463 - A Cena Médica | Moacyr Scliar


Resoluções: seja esperto

O fim de dezembro é uma clássica época para resoluções. Todo mundo entra no ano novo com o firme propósito de mudar de vida, principalmente no que se refere à saúde, e principalmente em relação ao estilo de vida, que, todos nós sabemos, têm muito a ver com saúde.

Exercício físico, dieta, fumo, álcool: eis aí um quarteto clássico, objeto de muitas e fervorosas promessas. Infelizmente, é mais fácil prometer do que cumprir, como se descobre, com evidente desapontamento, no final do ano, que tão auspiciosamente se iniciou.

E por que não cumprimos promessas? Por que não seguimos nossas próprias resoluções? É culpa de nossa fraqueza, de nossa inconstância?

Provavelmente não. Não precisamos aumentar a carga de nossas culpas com essa adicional acusação. Seres humanos têm limitações, cedem a tentações, e isso desde Adão e Eva. O que fazer, então?

A resposta está, antes de mais nada, no jeito de formular as resoluções. Tendemos a ser irrealistas. Criamos objetivos grandiosos, que simplesmente não temos como atingir. Daí o desapontamento. Daí a desilusão.

Lendo um artigo americano sobre as resoluções de fim de ano, encontrei uma fórmula que me pareceu, no mínimo, interessante e que diz muito da engenhosidade de um país que, antes de cometer erros monumentais, revolucionou a ciência e a técnica.

E o fez graças a um espírito prático que aparece nessa fórmula. Para começar, ela se traduz em um acrônimo muito significativo: "smart", que quer dizer esperto. Americanos adoram essas coisas.

Por exemplo, um estudo sobre a modificação dos fatores de risco na doença cardíaca ficou conhecido como Mr.Fit, abreviatura de Multiple Risk Factor Intervention Trial. Mas Mr.Fit também quer dizer Senhor Apto, apto a viver sem doença cardíaca, obviamente. Smart também é formado de iniciais.

O S é de "specific", e nos diz: seja específico sobre o que você vai fazer. Não basta decidir algo como "vou viver melhor". O que é viver melhor? Em que consiste a vida melhor?

O M é de mensurável. Tudo que é verdadeiro pode ser expresso em números, dizia o cientista Lord Kelvin, e isso vale para o estilo de vida. Vou perder peso: quantos quilos?

Vou deixar de fumar: em que dia? Vou caminhar: quantas vezes por semana e durante quanto tempo? O A é atingível: o objetivo tem de estar ao nosso alcance, nada de promessas mirabolantes.

O R é de resultado: que resultado quero atingir, ou seja, quanto quero pesar, quantos dias de férias quero tirar? Finalmente, o T é de tempo: quanto tempo vou me dar para conseguir meus objetivos?

Adotar resoluções é coisa que todo mundo faz. Mas adotar resoluções que funcionarão depende de esperteza, depende de ser "smart".


29 de dezembro de 2007
N° 15463 - Ricardo Silvestrin


Na real

Filme de Giuseppe Tornatore, eu saio de casa correndo pra ver. Depois de assistir a Cinema Paradiso, Uma Simples Formalidade e A Lenda do Pianista do Mar, não penso duas vezes.

O cineasta italiano tem o dom de nos deixar surpresos e comovidos. Então, lá fui eu nesses tempos de Natal, feliz ano novo, ao cinema.

O filme recente do diretor se chama A Desconhecida. Tem a mesma qualidade das suas outras realizações: ótima direção, excelentes atores, roteiro inteligente que vai levando o espectador pela mão até uma revelação final. Mas neste, Tornatore penetra num universo mais cruel, o da prostituição.

O lirismo de uma vida na cidade pequena, com o velho cinema sendo a única diversão da cidade em Cinema Paradiso. Os diálogos longos e as grandes interpretações de Gérard Depardieu e Roman Polanski em Uma Simples Formalidade.

A comovente história do músico que nasceu e nunca saiu de um navio em A Lenda do Pianista do Mar. Tudo isso contrasta com a crueza e a abordagem da violência contemporânea em A Desconhecida.

É um Tornatore de outra pipa. Como se o diretor quisesse propor a si mesmo explorar um universo menos onírico e mais de carne e osso. Menos a vida que se passa por dentro das pessoas e mais a vida que se vê.

E o que se vê no mundo de hoje? Um aumento da violência, da insegurança, da vida valendo cada vez menos. Paralelo ao mundo do prazer e do consumo, mas cada vez mais rente a ele, um mundo difícil, regido pela lei da força física.

Parece, em determinados momentos, enredo de filme brasileiro. De filme carioca. Estava pensando como os filmes cariocas contemporâneos estão colados ao real.

Como se a vida real gritasse tanto que invadisse até o sonho, o lugar onde costuma estar a arte. Durante o filme, fiquei um pouco incomodado, pensando pra que sofrer tanto no cinema.

Aquela história triste só caminhava para mais e mais tristeza. No final, a história da personagem avança em direção a uma superação dos seus problemas.

Mas, para chegar até isso, ela encarou o destino, duelou com quem a maltratava e não a deixava viver, refez o que pensava ter encontrado, assimilou uma desilusão dentro de uma vida já sem ilusão nenhuma. No outro dia, o filme voltou várias vezes à minha cabeça.

E concluí que achei interessante ter visto esse Tornatore ao avesso bem nessa época em que todos se desejam um futuro melhor, um ano bom, que tudo se realize.

As coisas, na maioria das vezes, não são fáceis, não se resolvem num passe de mágica. E um feliz ano novo só se faz encarando a realidade.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007



Como acabar com as lideranças negativas

MAX GEHRINGER - é comentarista corporativo, autor de sete livros sobre o mundo empresarial e escreve semanalmente em ÉPOCA.

Palavra da semana: demagogia – em grego, agogos era “liderança”. Daí veio “pedagogo”, alguém que orienta e ensina crianças. E demos era “povo”, donde derivou “democracia”, o governo do povo.

Mas, juntos, demos e agogos formaram uma palavra negativa: “demagogo”, aquele que lidera o povo de forma mentirosa ou apelativa.

Minha empresa tem líderes negativos, que convencem os colegas a boicotar qualquer iniciativa. Como neutralizar essas maçãs podres?
Célio J.P.

A liderança negativa só floresce num solo pobre em lideranças positivas. Quando os líderes formais – aqueles que possuem títulos que lhes permitem tomar decisões – se omitem ou se escondem, as lideranças informais ganham espaço para influenciar os indecisos.

Um líder positivo é:

(1) proativo. Ele convoca a equipe e passa instruções claras e precisas, antes que a falta de esclarecimentos comece a gerar boatos.

(2) Acessível. Qualquer subordinado pode procurá-lo a qualquer momento para tirar dúvidas.

(3) Confiável. Ele cumpre o que promete, e não promete o que não pode cumprir.

(4) Justo. Ele não forma panelinhas, nem trata de modo diferente subordinados com nível igual.

(5) Enérgico. Esgotados todos os meios de resolver a questão numa boa, ele não hesita em punir os que não se enquadrarem.

A aplicação dessas regras começa pela principal autoridade da empresa e se espalha pelo organograma. Quando faltam bons exemplos vindos de cima, sobram insubordinações vindas de baixo.

Tenho 34 anos, e estou desempregada pela primeira vez. Não consigo me acostumar com a idéia. Sinto-me envergonhada.
Cristiane

Não há motivo para vergonha, Cristiane, a não ser que a dispensa tenha sido por desonestidade, o que certamente não é seu caso. Nesse período de procura, acostume-se com o fato de que as horas passarão devagar, e os dias passarão depressa. Encontre algo para preencher seu tempo e sua mente, como um curso.

Há tanta gente em situação semelhante a sua que até a palavra “desempregado” deixou de ser usada. As expressões mais usuais são: “Estou entre empregos”. “Estou em uma fase de reavaliação de minha carreira”.

“Estou filtrando propostas”. “Estou passando por um hiato profissional”. Mais que um jogo de palavras, isso é uma ciência, a neurolingüística.

Através de imagens positivas, ela ajuda a transformar uma situação vexatória (a vergonha pelo desemprego) em uma situação sob controle (a busca por um emprego novo, e melhor). Tente usar esse método, Cristiane. Se não lhe fizer bem, mal certamente não fará.

Trabalho em uma empresa familiar. Sem querer, ouvi um dos donos dizer que o empregado passa e a empresa fica. E caí na real: estou na empresa há cinco anos, e não recebi nenhum aumento. Todas as empresas são assim?
Tiago

Não, Tiago, embora a frase do dono seja verdadeira (nenhum empregado é indispensável ou insubstituível, e empresas costumam durar mais que carreiras individuais). Mas as boas empresas agem com um olho no presente e o outro no futuro.

O dono de sua empresa acredita que o sistema é mais importante que as pessoas. Logo, se alguém sair, basta trocar a peça por outra de igual valor, e a engrenagem continuará funcionando.

Já empresas que acreditam que as pessoas influem diretamente no sistema reconhecem e premiam o mérito. A diferença, Tiago, não está no fato de sua empresa ser familiar.

Está no fato de que ela enxerga apenas o presente. Numa empresa assim, o funcionário não tem futuro. E, no mais das vezes, a empresa também não.

JOSÉ SARNEY

O que desejar em 2008

O PADRE IVES D'Evreux escreveu um livro, "Voyage au Nord du Brésil" (1615), que se escondeu durante 220 anos, num único exemplar, que tinha sido oferecido a Luís 13, e dormia desconhecido na Biblioteca de Paris, onde foi descoberto por Ferdinand Denis em 1835. Recentemente, apareceu um outro exemplar da obra na New York University.

É um livro fascinante, em que ele descreve, pela primeira vez, como os índios brasileiros viam o cosmo, com seus luzeiros, a Lua, o Sol e as estrelas, às quais davam nome e orientavam-nos.

Eles não tinham noção do tempo, e tudo era o fascínio da eternidade. Os dias eram contados pelas luas, que, num sistema complicado, revelavam o tempo das chuvas e das colheitas.

Na passagem deste ano para o próximo, lembrei-me da felicidade deles sem a parafernália das festas de celebração e a solidão da inocência de desconhecer o tempo que nós criamos para datar a vida e, às vezes, dar dor de cabeça.

Quando Júlio César tomou o poder em Roma, em 101 antes de Cristo, encontrou uma confusão danada sobre datas e tentou fazer um calendário, que tomou o nome de Juliano, no qual, para acertar as contas da rotação da Terra ao redor do Sol, criou mais um dia em fevereiro. Mas fevereiro era um mês considerado agourento.

Então esse dia passou a ser chamado "dois dias antes de começar março", em latim: "bis sextus calendas martias". Mas não resolveu nada, a confusão perdurava e as coisas não fechavam.

Isso só aconteceu com o calendário Gregoriano, adotado até hoje, que colocou os 29 de fevereiro de quatro em quatro anos, com o velho nome Juliano de bissexto para esses anos.

Nós, que já não somos índios nem romanos, descobrimos o tempo e, assim, contar não só as nossas vidas mas até a vida da Terra. Então vamos abraçar os amigos.

Eu, particularmente, quero abraçar meus leitores -perdi um em 2007, a quem queria muito bem, Octavio Frias-, mandar meus votos de felicidades e pedir emprestado o pensamento dos outros para completar o meu.

Então vou ao "Velho Testamento" para saber o que Deus desejou de melhor a alguém que amava. E invoco sua bênção a Salomão. Que mensagem lhe deu? Sabedoria. Não essa palavra com tantos significados, até mesmo o da esperteza.

Mas a Sabedoria transcendental, aquela que traz saúde, paz e prosperidade e faz distinguir o bem do mal, o amor do desamor, a retidão do erro.

Saúde, paz, alegria de viver. Bons Anos, como dizia o padre Vieira.

jose-sarney@uol.com.br


CARLOS HEITOR CONY

As previsões de um vidente cego

Tinha um "siderômetro", equipamento que previa a morte de qualquer astro internacional

DURANTE ALGUM tempo, como editor de uma revista ilustrada, tinha como obrigação do ofício fazer o último número do ano com o que chamavam de "retrospecto" dos meses que haviam passado. Era uma tarefa ao mesmo tempo fácil e chata.

Pegava na pesquisa os sumários das publicações, procurando basicamente os mortos havidos nos últimos 365 dias, os casais famosos que haviam se separado, os momentos mais quentes do futebol, da política, do cinema, da televisão e dos espetáculos.

A pauta era a mesma de todos os anos e, por ser a mesma, havia sempre uma conquista científica que abriria novos caminhos para a humanidade. Em algum laboratório do primeiro mundo, a cura do câncer estava iminente.

Um número de fim de ano é tão monótono quanto o primeiro do ano seguinte, quando a matéria principal não podia ser o retrospecto do que houve, mas a previsão do que poderia haver.

Em geral, dava-se destaque aos palpites dos videntes profissionais, uns caras geralmente vestidos de branco, num cenário esotérico, alguns com um globo de luz fazendo a função da bola de cristal, outros jogando búzios, todos chutando com a seriedade de donos do futuro e das gentes.

Num ano qualquer, cismei de acabar com aquela tropa de magos e inventei um tal de Allan Richard Way, indiano radicado na Inglaterra, morando num subúrbio de Londres, numa casa de estilo Tudor. Tinha a peculiaridade de sofrer de glaucoma e catarata. Na altura da quinta ou sexta entrevista, tornou-se o único vidente cego da história.

Difícil o acesso a Allan Richard Way. Somente um jornalista ocidental era recebido por ele todos os anos: tratava-se de um amigo, meu e dele, Richard Macpherson, também inventado por mim. (O nome foi tirado de um ponta esquerda da seleção inglesa daquele tempo).
Macpherson havia conhecido o vidente na Índia e garantia que ele previra os atentados que mataram diversos mandatários locais.

Daí que Allan Richard Way julgou mais prudente asilar-se na Inglaterra, país em que sua atribuição principal era prever os escândalos da Casa Real, os vestidos amarelo-canário da Rainha Mãe, as derrotas do "English Team" e, eventualmente, uma mortandade de peixes antes da despoluição bem-sucedida do rio Tâmisa.

Com este suculento currículo internacional, Macpherson fazia Allan Richard Way prever terremotos no Japão, assassinatos na Albânia, suspeitas de desfalques nos bancos suíços, doenças insidiosas no estômago do papa reinante, separações escandalosas nas monarquias européias e no cinema norte-americano.

Capítulo especial era dedicado aos que iam morrer naquele ano. O vidente possuía um "siderômetro", equipamento complicado que, de posse da data natalícia de um astro internacional, previa cientificamente a sua morte.

Por escrúpulo profissional do seu entrevistador, o vidente não era explícito. Nunca dizia pão-pão, queijo-queijo. Ficava mesmo em alusões periféricas.

"Um certo cantor de prestígio mundial, que recentemente assinou contrato com uma gravadora internacional, sofrerá um acidente de carro e não sobreviverá."

"Um escritor que quase ganhou o Prêmio Nobel sofrerá uma parada cardíaca provocada pelo excesso de gim. Deixará um livro inédito."

As seis páginas dedicadas às previsões do vidente indiano exigiam que na abertura houvesse uma linha de chamada para a matéria, uma linha que deveria ter 72 batidas de máquina -as redações ainda não tinham computador.

Naquele ano, na afobação do fechamento, a frase alertava Elizabeth 2ª. para um fim próximo. Mas o nome da rainha estourava da medida. Substituí o Elizabeth pelo nome de Sartre, que realmente morreria meses depois.

Pressionado por mim e pelos leitores que gostavam de saber o que podiam esperar do futuro, Macpherson pedia revelações sobre o Brasil.

Houve um ano em que Allan Richard Way previu um desastre na ponte Rio-Niterói; algumas pilastras desabariam e haveria mortos e feridos.

O ministro responsável não gostou da previsão. Mesmo assim, ordenou uma vistoria geral em toda a ponte e emitiu nota tranqüilizadora aos usuários.

Foi o fim do vidente que já estava totalmente cego e do único repórter ocidental que o entrevistava. Não tardou e a própria revista chegou ao fim.


ELIANE CANTANHÊDE

Natal sangrento

BRASÍLIA - Muita gente morre de medo de avião, até presidentes e governadores, obrigados, pelo ofício, a voar por aí (no bom sentido) o tempo inteiro. Mas o perigo não está no ar, está muito mais na terra.

Em 2006, morreram 215 pessoas em acidentes aéreos, 154 delas só no choque do Legacy com o Boeing da Gol. Em 2007, foram 264 mortos até ontem, sendo 186 passageiros de um só vôo, o TAM 3054.

No trânsito, foram cerca de 34 mil mortos no ano passado, 5.054 só nas rodovias federais, e podem chegar a 40 mil neste ano, quando já morreram mais de 6.000 nas federais -196 (mais do que no Boeing e no Airbus) apenas no feriadão de Natal. O que é mais perigoso, viajar de avião ou de carro/ônibus?

Todo ano, vou e volto de carro para São Paulo e escrevo sobre os sobressaltos (literais) nas estradas. Uma cratera atrás da outra.

E tome curva! Tome chuva! Não é surpresa que o recordista de tragédias no Natal tenha sido Minas, com 460 acidentes, 309 feridos e 26 mortos.

Neste ano, as pessoas fugiram do caos aéreo e caíram no risco das estradas. Fiz o contrário: fugi das estradas. Aeroportos lotados, vôos atrasados, mas nada que não fosse suportável para épocas de pico -e muito menos tragédias.

Em dez anos, a frota de veículos no Brasil pulou de 28,8 milhões para quase 50 milhões. Palmas para a economia, para indústria automobilística, para a classe média motorizada.

Só que... à explosão da frota não corresponderam a ampliação e a melhoria da malha viária. A infra-estrutura continua praticamente a mesma. Não pode dar certo.

Entra ano, sai ano, vem a ladainha do governo de que infra-estrutura é fundamental, mas... fica para depois. Agora, o fim da CPMF ameaça o PAC, bem diante da expectativa de 5% de crescimento.

Alto crescimento com baixa infra-estrutura gera caos, como nos aeroportos, e tragédia, como a das estradas e de suas vítimas.

elianec@uol.com.br

Ótima sexta-feira e um excelente fim de semana, este que é o último de 2007, para todos nós.

CLÓVIS ROSSI

Chamar as coisas pelo nome

SÃO PAULO - Gestos humanitários são sempre elogiáveis. Mas termina aí -ou deveria terminar aí- qualquer atitude de legitimação das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) a partir da previsível libertação hoje de três das centenas de reféns que o grupo mantém.

Como os governos que testemunharão a operação são todos de origem esquerdista, está na hora de parar de tratar os narcoterroristas como "hermanos".

Se alguma vez tiveram um viés político, justificado ou não pelo contexto de outros momentos históricos, hoje as Farc são apenas um grupo de delinqüentes.

E é preciso que se use a palavra certa especialmente na hora em que ocupam o noticiário internacional exatamente por conta do episódio dos reféns.

Quem ler os depoimentos dos parentes das três vítimas a serem presumivelmente libertadas hoje encontrará histórias tremendas de violação dos mais elementares direitos humanos.

Em especial, as mulheres de esquerda deveriam ser as primeiras a erguer o grito ao céu, porque uma das que devem ser libertadas, Clara Rojas, teve um filho no cativeiro, de um dos captores.

Pode até ter sido uma relação consentida, mas que tipo de consentimento uma mulher pode dar a um homem quando ela é prisioneira dele?

Silenciar a respeito, a pretexto de que se trata de um combate contra o imperialismo e contra o capitalismo, é, primeiro, mentir. Depois, é sacramentar a mais absurda das violências, desde que seja do "meu" lado.

Intolerável em qualquer circunstância.
O "espetáculo" previsto para hoje só se tornou possível graças ao hiperativismo do presidente francês Nicolas Sarkozy.

Depois do show, deixar que apodreçam na selva os demais reféns é aceitar que há cidadãos de primeira e de segunda classe. Tudo o que governantes supostamente de esquerda não poderiam tolerar.

crossi@uol.com.br


CÚPULA DA VIRADA

Os encontros de cúpula me fascinam. Não posso me impedir de imaginá-los e de descrevê-los. Adoro ver os poderosos deste mundo brincando como se estivessem numa colônia de férias em Tramandaí.

Dão-se tapinhas nas costas, contam piadas sem graça, fazem caretas e chegam até, para desespero dos embaixadores, a fazer embaixadinhas ridículas quando encontram uma bola pela frente. Se sobrar, eles chutam mesmo.

Na hora da foto de família, feito crianças levadas e egocêntricas, acotovelam-se, empurram-se e fazem tudo para ter o melhor lugar. De vez em quando, brigam e um manda o outro calar a boca. Depois, ficam meses emburrados e ameaçando-se com represálias nefastas e dignas de um desenho animado.

Vejo Lulla, Evo Morales, Hugo Chávez, Fidel Castro e Cristina Kirchner reunidos em La Paz, a 3.660 metros de altitude, para comemorar a virada do ano.

A expressão francesa para encontro de cúpula é rencontre au sommet. Nada mais justo, portanto, do que escolher um lugar alto para esse tipo de reunião em que se decide tanta baixaria para o bem geral das nações. O ideal seria o cume.

Todos os encontros de cúpula deveriam acontecer no Everest, no Aconcágua, no Pico da Neblina ou em qualquer lugar que tirasse um pouco do fôlego dos nossos líderes para novos mandatos.

Ou, ao menos, para conversa fiada e declarações bombásticas e com pouco oxigênio. Como o presidente brasileiro, no entanto, é um homem de metáforas e de enxergar longe, o cume para ele é mesmo o Planalto.

Fiquemos, porém, com La Paz. Afinal, é um nome evocativo e adequado para a entrada de 2008. Lulla queria convidar Bush para a festa. Chávez vetou. Segundo ele, Bush e La Paz não combinam. Despeitado, o americano teria respondido, sem ligar para o politicamente correto, que não gosta de programa de índio.

Na chegada ao local da grande virada, Fidel Castro, de retorno ao campo da luta, ainda vestindo o seu abrigo de convalescente, revelou os seus desejos e resoluções para o novo ano: 'Farei uma revolução', disse.

E completou em portunhol para a imprensa brasileira: 'Serei fidel como sempre'. Lulla aproveitou para brincar: 'Eu serei um fiel de primeira ao Corinthians na segunda e darei mais ouvidos à minha mulher no resto da semana.

Vou seguir o regime indicado por ela'. A senhora Kirchner, num arroubo de modéstia, luluzinha perua no clube do bolinha, certamente confusa com o português descontraído do presidente brasileiro, informou que dará ouvidos ao marido e também seguirá o regime, econômico e político, indicado por ele.

O anfitrião Evo Morales baixou o tom. Pediu união e estabilidade. Prometeu conversar muito com os seus vizinhos e ouvi-los antes de qualquer medida capaz de afetar o equilíbrio das relações na América do Sul.

Garantiu, como sempre faz em relação a qualquer situação, que em 2008 o entendimento dos povos sul-americanos ganhará um novo gás. A Bolívia, assegurou, estará aberta a novos investimentos seguros e de longa duração.

Chávez foi contundente. Pegou a contramão e afirmou que em 2008 procurará ser ouvido por todos. Depois dos discursos e dos brindes da meia-noite, dormiram até tarde. Passaram o 1º de janeiro jogando canastra e rouba-monte.

A festa terminou quando Chávez, seguido por Evo, tentou mudar as regras do jogo. Lulla achou interessante, mas hesitou. Fidel alegou que jamais mudaria. Cristina Kirchner aceitaria se isso lhe permitisse dar calote na banca.

juremir@correiodopovo.com.br


28 de dezembro de 2007
N° 15462 - DAVID COIMBRA


Certa noite de chuva

Chovia muito no último dia em que vi meu pai. Eu estava com oito anos de idade e padecia na cama com 40ºC de febre. Amígdalas.

Meus pais tinham se desquitado havia já alguns meses. Eu, meus irmãos e minha mãe morávamos num apartamento de um quarto na Assis Brasil. Ele foi nos visitar e deparou comigo tiritando sob a coberta.

Lembro com nitidez daquela noite, dele parado à soleira da porta do quarto, de pé, olhando-me, e minha mãe ao lado, com o papel da receita do médico na mão.

Ele tomou a receita e ofereceu-se para ir à farmácia. Deu as costas para o quarto, mergulhou na escuridão do corredor e foi embora. Nunca mais o vi.

Logo depois ele se mudou para outro Estado, no Centro-Oeste, e lá construiu o resto da sua vida. Um dia de 2001 alguém me disse:

- Teu pai morreu ontem.

E eu não sabia o que sentir.

Não conto essa história com ressentimento. Porque acho que entendo o que aconteceu com meu pai, naquela noite de chuva. Ao sair do apartamento, ele de fato tencionava comprar os remédios.

- Vou comprar dois de cada! - recordo que disse.

Mas meu pai era alcoolista. Na rua, deve ter cruzado pela porta de um bar, ou com um amigo, e parou para beber. Quando deu por si, era tarde para ir à farmácia e tarde para desculpar-se. Continuou bebendo, gastou todo o dinheiro e, no dia seguinte, envergonhado, preferiu não dar notícias.

Assim passou-se um dia, e outro, e mais outro. De repente, havia transcorrido tempo demais para voltar atrás ou para dar explicação. Meu pai não enfrentou a própria vergonha, isso não é incomum. Acontece. É compreensível.

O que sempre me enfeitiçou nessa história, que, afinal, é parte da minha própria história, não foi o detalhe da desistência do meu pai. Não foi o abandono. Foi o momento em que meu pai decidiu entrar no bar.

Uma decisão tão aparentemente irrelevante, tão fácil de ser tomada, dar dois passos da calçada em direção a uma porta aberta, e, ao mesmo tempo, uma decisão tão crucial. Fico pensando em como a vida é repleta dessas pequenas deliberações que podem alterar rumos e mover destinos.

Fico pensando em todas as palavras espinhosas não ditas, nas vezes em que o sinal amarelo não foi cruzado, em que o gatilho não foi apertado, em que não liguei para ela, nas chances que deixei passar, e nas vezes em que fiz tudo isso, por bem ou por mal.

Um passo, uma palavra, um gole, um pedido de perdão que não foi feito, e tudo muda.

Mudou para meu pai. Mudou para mim. Neste fim de ano, o que desejo a todos é isso, que o passo seja certo, que a palavra seja macia, que o gole valha a pena, que o perdão seja pedido. E concedido.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007



CONTARDO CALLIGARIS

O saber dos poucos e o dos muitos

Na era do darwinismo digital das idéias, o jeito de sobreviver é fazer barulho, ocupar espaço

NAS ÚLTIMAS semanas, revisei manuscritos em inglês e em português. Em português, sou enganado pelo meu passado francófono. Em inglês, meu ouvido está enferrujado.

Nos dicionários, a gente nunca encontra exemplos que confirmem exatamente a legitimidade da expressão que queremos usar. Ou, pior, a gente confia em exemplos antigos e acaba usando expressões esquisitas porque Machado já as usou.

Fazer o quê? Posso recorrer à internet. Quero saber se uma regência nominal é "boa"? É só digitá-la entre aspas na barra do Google e repetir a experiência com regências alternativas. Adotarei a mais usada.

É claro, dessa forma, a freqüência do uso sempre valerá mais que a regra. Mas, afinal, em matéria de gramática, o que é a regra, se não a formalização do uso?

Por esse caminho, a longo prazo, acabaremos escrevendo à força de clichês, numa língua empobrecida. Não seria muito grave (sempre haverá poetas para inventar novos jeitos de se expressar) se uma coisa parecida não acontecesse com as idéias. Como assim?

Saiu, em 2007, "The Culture of the Amateur" (a cultura do amador), de Andrew Keen. Keen não é um tecnófobo; ao contrário, é uma figura do Vale do Silício e colabora com publicações on-line.

Apesar disso (ou por causa disso), ele escreveu uma ata de acusação contra a constituição e a difusão do saber na internet.

Resumindo: estamos na era do darwinismo digital das idéias, em que o jeito de sobreviver é fazer barulho, ocupar espaço.

O sonho de uma informação produzida pelos próprios cidadãos, sem intermediários, desaguou no pesadelo de centenas de milhões de cidadãos escrevendo indiscriminadamente sobre qualquer aspecto do passado, do presente e do futuro do mundo (segundo os cálculos de Keen, nasce um blog a cada segundo).

Nunca foi tão fácil plantar notícias falsas e criar consensos ao redor de opiniões estapafúrdias: a difusão multiplica a crença, e a crença dos muitos vira autoridade.

Um exemplo: logo depois da inundação de Nova Orleans, as notícias sobre estupros e assaltos no Superdome (onde se hospedavam os refugiados) foram plantadas na net; os jornais acreditaram e repercutiram.

A legislação está perplexa e impotente: mesmo nos EUA, onde é fácil perseguir a imprensa escrita por calúnia, é quase impossível se defender das "notícias" on-line. Quem dispõe de meios técnicos básicos pode manipular qualquer informação, destruir impunemente a reputação de um candidato e por aí vai.

Prova pelo contrário: nos EUA, nas pós-graduações em jornalismo, é regra que nenhum fato pode ser considerado conferido só por ter sido "encontrado", mesmo repetidamente, na internet.

As próprias páginas on-line dos jornais são suspeitas: um hacker médio consegue facilmente construir uma "sombra", que imita perfeitamente a página que você imagina estar consultando.

Recebi recentemente, por e-mail, uma coluna "minha" que nunca escrevi. No e-mail, ela aparecia como um "copia e cola" da página on-line do caderno Ilustrada da Folha da quinta anterior. Fato curioso: o texto não afirmava nada de extravagante, nada que eu não pudesse assinar.

Em suma, Keen tem razão. Seus alertas contra o "saber" duvidoso espalhado pelo Google, pela Wikipédia e pela simples proliferação da rede são justificados.

No entanto, seu livro lembra os gritos de alerta que surgiram, no começo do século 19, contra as possíveis perversões da democracia (e, por exemplo, o barateamento do custo da impressão de libelos anônimos). A idéia era que o clamor dos muitos emudeceria a voz dos poucos sábios que, de fato, sabem do que eles falam.

Não há como discordar. Mas resta que, a cada vez que encontro um argumento contra a desordem produzida pela livre e louca circulação de informações e pensamentos, ocorre-me o seguinte: num tribunal, se você for processado um dia, por quem preferirá ser julgado?

Pela expertise (sem ironia) de um juiz ou pela atrapalhada mistura de razões, convicções e sentimentos que animam os membros de um júri popular?

Eu preferiria o júri. Assim como ainda prefiro a bagunça da internet ao privilégio exclusivo de autoridades instituídas.

Desejo a todos um 2008 fascinante, confuso e variado como a net -apenas corrigido pela capacidade (e o prazer) de separar, de vez em quando, o joio do trigo.

ccalligari@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

A tese e a prática

RIO DE JANEIRO - Respeitei, e até certo ponto admirei, a greve de fome do bispo contrário à transposição do rio São Francisco. Mas desde que ouvi falar no projeto, fui a favor dele, escrevi algumas crônicas no passado, citando inclusive as experiências bem-sucedidas nos Estados Unidos e no Egito.

Uma obra de tal magnitude exige dois tipos de preliminares. A primeira é sobre o projeto em si, se ele está tecnicamente perfeito, se cumpre a legislação ambiental, se resguarda as características naturais do Velho Chico, sem prejudicar as populações que vivem em suas margens.

A segunda preliminar implica a fiscalização severa dos custos, para impedir que a transposição se converta num panamá -o nome do escândalo nasceu por ocasião da construção do canal do Panamá.

O mesmo ocorreu com o canal de Suez e com quase todas as grandes obras, daqui e do mundo, que hoje consideramos indispensáveis à vida moderna.

No Brasil, tivemos muitos desses casos: para citar alguns, a construção de Brasília, do estádio do Maracanã, da ponte Rio-Niterói, da estrada Belém-Brasília, do desmonte do morro do Castelo. Um juiz está preso por conta de um único pré- dio do Judiciário paulista que o enriqueceu.

As obras que citei foram discutidas na época quanto a sua importância e necessidade, mas hoje são consideradas decorrências naturais do processo de nossa ainda relativa modernidade.

Não tenho condições para julgar se o projeto está bem feito tecnicamente, se os custos são condizentes, se as vantagens da transposição serão obtidas. Acácio disse: uma coisa é a tese, outra a sua realização prática.

Quanto à possibilidade de um escândalo tamanho família, espera-se que o Ministério Público e a mídia cumpram o seu dever.

KENNETH MAXWELL

Tapetes mágicos

NO TREM que me conduziu de Londres a Devon esta semana para passar o Natal com minha família, reparei em uma manchete estranha no "Daily Telegraph": "Tapetes mágicos não são apenas fantasia, diz professor de Harvard".

Aparentemente, as pesquisas do professor Lakshminarayanan Mahadevan, da escola de engenharia e ciências aplicadas, demonstraram a possibilidade teórica de que um tapete ondulando ao vento seja aerodinamicamente capaz de decolar e avançar céu afora.

Não seria um passeio agradável, já que a ondulação teria de ser bastante violenta, para que o veículo atingisse velocidade apreciável. E um propulsor poderoso seria necessário para gerar a ondulação em um tapete de tamanho suficiente para carregar uma pessoa.

Assim, por enquanto, isso continua no reino do virtual. O que representa pequeno alívio para aqueles que preferem a magia, no Natal. O professor Edward Said (1935-2003) fez de "orientalismo" uma palavra "feia".

Já há algum tempo venho refletindo que um dos efeitos colaterais das ações de George W. Bush em sua guerra no Iraque será eliminar Bagdá como cenário romântico para histórias infantis.

O lugar em que Rudolfo Valentino foi "o ladrão de Bagdá"; em que Aladim esfregou sua lâmpada mágica; e em que as antigas histórias árabes como as das "Mil e Uma Noites" falavam de tapetes de seda verde voando pelos ares carregando figuras como o rei Salomão e seu séquito de potentados enfeitados com jóias e turbantes.

Mas, ao que parece, estou completamente errado quanto a isso. Meus dois jovens sobrinhos-netos me explicaram a questão. Com idades de 18 meses e três anos, respectivamente, eles parecem estar inteiramente a par da magia árabe.

Estou falando da região rural de Devon, claro, e talvez fosse possível pensar que os meninos sejam menos sofisticados que as crianças urbanas convencionais. Mas são dois meninos muito cosmopolitas; vivem em Londres, têm ascendência anglo-sueca; e já passaram uma temporada em Nova York.

Por isso, considero que a opinião deles sobre esse tipo de assunto é decisiva. Existe, no entanto, uma aplicação prática para a pesquisa de Harvard que não deveríamos desconsiderar.

De acordo com o "Daily Telegraph", os cientistas aplicaram sua teoria apenas a um objeto do tamanho de uma nota de dinheiro vibrando 10 vezes por segundo.

Talvez, se o professor Mahadevan vender sua patente ao Tesouro dos Estados Unidos, a descoberta dele possa ajudar a manter o dólar norte-americano em vôo durante alguns meses, impedindo que perca ainda mais valor em 2008.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.


27 de dezembro de 2007
N° 15461 - Nilson Souza


O novo espelho de Narciso

Os cartunistas são cruéis e mais certeiros do que os mestres da acupuntura, pois costumam espetar os seus grafites nos pontos mais sensíveis da vaidade humana.

Uma vez vi um cartum em que o personagem caricaturado acabara de escrever o seu primeiro livro, depois de anos de trabalho, e exclamava exultante: - Agora vou ficar famoso!

Atrás dele, apareciam várias estantes com milhares de livros, escritos por milhões de autores igualmente condenados ao anonimato eterno.

Quando a televisão estava no auge (ainda está?), o artista norte-americano Andy Warhol prognosticou que no futuro todos teríamos 15 minutos de fama. O futuro daquela previsão já chegou. E trouxe outras ferramentas para a carpintaria da notoriedade, ofício ao alcance de todos.

A moda, agora, é o blog, que permite a qualquer pessoa expor suas preferências, suas imagens e suas idéias para o mundo. Talvez não garanta a fama imaginada pelo humorista, mas possibilita algum reconhecimento - o que, de certa forma, satisfaz a inquietude por celebridade.

O blog, que já tem 10 anos com esta denominação, é o novo espelho de Narciso da parcela da humanidade que acessa computadores.

Surgiu como um espaço para os internautas colocarem as sugestões dos endereços de internet que costumavam visitar, mas logo se transformou num canal propício à divulgação de causas absolutamente pessoais.

Hoje todo mundo é blogueiro e tem alguma coisa para dizer ou para mostrar. Pouco importa para essa gente que as estantes do mundo virtual também pareçam cheias.

Aonde vai dar tudo isto? É difícil saber. Outro dia uma companheira de caminhada me chamou a atenção para o aumento do estresse da vida moderna, lembrando que as múltiplas opções tecnológicas parecem estar elevando o grau de ansiedade das pessoas.

Ela me perguntou se eu utilizava e-mails. Diante da resposta positiva, disse que para os adolescentes isso já é coisa antiga. Eles só querem saber de comunicação instantânea, com respostas imediatas.

Esperar que alguém responda a um e-mail, diante da perspectiva de que o destinatário nem esteja conectado, seria para eles o equivalente a aguardar uma carta de papel pelo correio. Os jovens não têm mais paciência para isso.

Habitantes do futuro, somos assim, então: queremos nos expressar, queremos mostrar ao mundo quem somos, o que fazemos, como somos brilhantes.

E temos pressa, muita pressa. A tecnologia abreviou as distâncias, mas não consegue deter o inexorável relógio do tempo. E o tempo, matreiro, continua armando ciladas para os incautos.

Foi nessa armadilha que caiu Narciso, embriagado de vaidade.

Com temporais e chuvas intermitentes que tenhamos todos, ainda assim, uma ótima quinta-feira, esta que é o penúltimo dia útil de 2007.


AS GRANDES DECEPÇÕES

Na vida, infelizmente, cada um tem grandes decepções. Algumas, de modo curioso, marcam mais do que outras. Sem maiores explicações ou motivos. Colam na pele da gente.

A primeira grande frustração da minha vida foi, quando eu tinha 6 anos de idade, descobrir que eu não podia namorar a minha professora, dona Eulália, a primeira mulher a usar minissaia em Palomas.

Não me lembro de revolução mais arrasadora nem de fato social mais comentado. Nem os suicídios e assassinatos da época receberam tanta atenção, críticas e entusiasmo. Posso garantir que maio de 1968 em Palomas foi ela.

Vai fazer 40 anos. De fato, o piegas Zuenir Ventura tem razão: foi um ano que não acabou. Creio que nunca me recuperei inteiramente dessa interdição etária. Acho que é por isso que sempre me oponho a qualquer divisão por idade.

Outra grande decepção na minha vida aconteceu quando da morte de Paulo VI. Saber que o Papa não era indicado diretamente por Deus, mas eleito pelos homens, me abalou profundamente.

Eu confiava em Deus. Mas, precocemente, muito pouco na humanidade. Fui acumulando frustrações. Nada que me impedisse de levar uma vida normal. Mesmo assim, golpes terríveis. Lembro-me de duas mágoas que quase me destruíram.

Descobrir que Brigitte Bardot não estava a salvo da velhice e que Che Guevara podia ser considerado um stalinista, um autoritário e um candidato a ditador.

Foi quase tão horrível quanto aprender que o amor podia não durar para sempre e que a frase, nos casamentos, 'até que a morte os separe' era somente uma promessa ou, enfim, uma maneira de falar. A vida é dura.

Fiquei revoltado. Escrevi e encenei uma peça, 'Os Rebeldes'. Depois, tratei de me conformar e ir em frente. O teatro não perdeu grande coisa. Eu perdi as minhas ilusões. Não sabia que algo muito pior aconteceria. A religião me causou choques profundos.

Quando soube que cada cultura podia ter um deus ou mesmo deuses diferentes, entrei em crise. Tremia de medo de não crer. Que falta de comunicação e de entendimento! Voltei para a catequese em busca de respostas. Tive outras decepções inesquecíveis:

a Eliane e a Meire, que não me quiseram, embora eu tenha dedicado a elas os meus piores poemas, a Fátima, que me quis, mas eu não tive coragem de pegar a mão dela na matinê do cinema Internacional, o Inter nunca ter chegado a dez% títulos gaúchos consecutivos e, acima de tudo, a descoberta, aos 9 anos de idade, de que Papai Noel não existia. Foi um baque. Eu sempre fui bobo.

Na seqüência, em tempos que agora se embaralham, descobri coisas inacreditáveis: que vivíamos numa ditadura militar, que Lídia Brondi não era virgem, que o homem de fato estivera na Lua, que eu havia apertado a mão de um ditador, Ernesto Geisel, na parada estudantil de Santana do Livramento, que não havia certeza da vida eterna e que muita gente passava fome. Tudo me abalou.

Mas nada me sacudiu tanto quanto tomar conhecimento, já adolescente, de que Papai Noel, esse velhinho de vermelho, é uma invenção da Coca-Cola. Se não uma invenção, uma adaptação. É o caso mais importante e globalizado de propaganda enganosa.

Não consigo aceitar. De tudo eu já me recuperei. Menos disso. Papai Noel, Brigitte Bardot e Che Guevara eram intocáveis para mim.

Não restou ninguém. As noites de Natal agora são com a Xuxa e o Roberto Carlos. Ainda não me sinto preparado.

juremir@correiodopovo.com.br


27 de dezembro de 2007
N° 15461 - Paulo Sant'ana


Meu blog

Criaram na edição online de Zero Hora um blog para mim. Nesse blog, eu posso pôr tudo, vídeos, gravações, poesias, colunas minhas etc. Não tenho me dedicado integralmente a meu blog, mas um dia ainda vou fazê-lo, tal é a tentação de aderir definitivamente à modernidade.

Pois então coloquei no blog uma gravação, feita aqui na sala de ZH em que trabalho, de um recital dado pelo violonista Mário Barros, concertista extraordinário, comigo cantando.

Milhares de leitores estão já acessando o blog, no mundo inteiro. Vou aí abaixo transcrever apenas algumas das mensagens que recebemos:

Guilherme Minssen (gminssen@uol.com.br), de Belém do Pará: "Em 2007, a festa estava quase normal... quando Mário Barros e Pablo (o imortal!), em um improvisado e maravilhoso recital... nos deram o melhor presente de Natal!"

José Fernando (josefmachado@bol.com.br), de Canoas, RS: "Pablo ou Paulo, você é fantástico, somente alguém como você, com tamanha emoção e sentimento, boêmio, para poder demonstrar a todas as gerações que um som de violão com intérprete desse nível é para jamais esquecermos. Abraço de Feliz Natal e continue em 2008 com essa emoção, nos brindando com seus shows".

Paulo Gonçalves (paulo.jass@gmail.com), de Imbituba, SC: "Fantástico! Parabéns! E você escondendo essa sua outra especialidade. Gostaria de ver uma apresentação tua no Mercado Del Puerto, saboreando uma parrillada. Um abraço".

Alvaro Carvalho (alguri60@yahoo.com), Pensacola, EUA: "Uns cantam, outros fazem poesia, outros têm a arte de dar graça a ambas e diminuir a saudade de um gaúcho longe dos pampas. Um abraço de Feliz Natal e próspero novo ano, cheio desses momentos de arte".

Jorge Daros (j.daros@brturbo.com.br), Criciúma, SC: "Paulo ou Pablo, como quer que sejas, tu és admirável. Que em 2008 tua saúde, juventude e entusiasmo pela vida se renovem para alegria de todos nós. Um abraço".

Walter Fischer (gremio@optonline.net), de New Jersey, EUA: "Em primeiro lugar, quero lhe desejar um Feliz Natal e próspero Ano-Novo! Tive a alegria de o escutar via net, o senhor, acompanhado com o violão, me trouxe muitas lembranças saudosas, do tempo quando vivi no Brasil".

Marcus Vinicius Marques DAvila, de Rondonópolis, MT: "Obrigado pelos 4min55s de pura emoção. Senti-me perto, mesmo tão distante. Foi um ótimo presente de Natal. Obrigado, SantAna! Marcus Gaúcho, gremista em Mato Grosso".

Ary da Silva Martini (arymartini@globo.com), de Marau, Brasília, DF: "SantAna: Num espaço de 2 x 2, você fez aquele estrago, imagine num palco!"

Newton W. Macedo (newmacedo@gmail.com), de Genebra, Suíça: "Cantar não é para poucos, você canta muito bem. Afinal, você é especial, mas tocar como o Mário, olha, é raro e muito lindo. Obrigado pelos minutos de saudade e regozijo que tive ao assistir a esse vídeo".

Anderson Cardoso (Morango) (anderson.1903@hotmail.com), de Santo Antônio da Patrulha, RS: "O SantAna, como cantor, é um bom analista de futebol..."

Marcos, de Porto Alegre: "Fantástico, Pablo!"

João Batista da Silva (kako.13@uol.com.br), de Araranguá, SC: "SantAna, esse jeitinho de falar com a mão no canto da boca, só pro artista te escutar, é uma das marcas tuas.

Tá todo o Brasil te escutando, meu chapa. E aquele jeitão de se acomodar na poltrona: parece que estavas no Jornal do Almoço. Feliz Ano-Novo".


27 de dezembro de 2007
N° 15461 - Luis Fernando Verissimo


Há micróbios

2007 vai ficar como o ano em que, entre outras coisas, descobriram que há vida em Marte. Um ambiente propício para micróbios, qualquer coisa assim. Você eu não sei, mas eu me decepcionei muito com Marte.

Fomos preparados pela ficção científica a esperar muito mais dele, a começar por uma invasão. Mas descobriram que não havia ninguém em Marte.

Os tais canais vistos pelas lunetas antigas, provas da existência de alguma forma de vida inteligente, mesmo que fosse só de engenheiros, não eram canais. Nenhum vestígio de qualquer tipo de vida aparecera em Marte, muito menos de uma civilização capaz de nos atacar.

Marte, como o Iraque, também não tinha armas de destruição em massa. Era um imenso parque de estacionamento vazio, sem nem um atendente. Um blefe. Agora descobriram que há micróbios em Marte.

Ou uma civilização de micróbios, quem sabe? Anos e anos de literatura premonitória e previsões terríveis talvez não tenham sido, afinal, desperdiçados.

De acordo com a ficção científica, extraterrenos fatalmente viriam à Terra para nos atacar e subjugar. Nenhum viria fazer turismo ou participar de congressos. Viriam para nos aniquilar ou nos escravizar, ou roubar nossos fígados para fazer pomadas para suas princesas. E a presunção se justifica.

Só uma civilização muito mais avançada do que a nossa dominaria viagens interplanetárias em grande escala, e nos acostumamos a pensar que só o desenvolvimento tecnológico para fins bélicos traz civilizações avançadas. Na Terra tem sido assim, desde o primeiro estilingue até a internet.

É a pesquisa para a guerra que traz o progresso. Razoável supor, portanto, que os visitantes do espaço serão sempre guerreiros e não filósofos, ou missionários pacíficos, ou comerciantes. Estes viriam depois.

Não quero assustar ninguém, mas vou contar. Já tive contato com um extraterrestre. Desconfiei quando ele disse "Vocês são engraçados..." e eu perguntei:

- "Vocês" quem? "Vocês" brasileiros? "Vocês" carecas? "Vocês" míopes? Destros? Cardiopatas? Torcedores do Internacional?

E ele respondeu: - Vocês gente.

E me confessou (já tinha bebido um pouco) que não era deste mundo, era de outro, e estava prospectando o universo inteiro atrás de um planeta para ser colonizado pelo seu.

Achava que tinha, finalmente, encontrado esse planeta. Era a Terra. No seu relatório, recomendaria que a Terra fosse ocupada e sua principal riqueza natural explorada, pois era o que faltava no planeta do qual viera.

Diria no relatório que não seria problema invadir a Terra, pois estávamos recém começando a usar o laser como arma e ainda não descobríramos o poder destrutivo do kiwi, e seríamos facilmente dominados.

Perguntei qual era a riqueza natural que nós tínhamos e eles não, e o extraterrestre respondeu: "A poesia". E perguntou:

- Você sabe que a Terra é o único planeta do universo conhecido em que as pessoas dão nome aos ventos?

Fiquei lisonjeado com aquilo, pensando: "Taí, somos todos poetas e não sabíamos". E perguntei se não havia poetas no planeta dele. Claro que não, disse ele. Ou como eu imaginava que eles tinham se tornado uma civilização tão avançada?