quinta-feira, 25 de maio de 2017


25/05/2017  02h00 
vinicius torres freire 

   
Temer, dinheiro e o gato que caça ratos
  
NEM AS TAXAS de juros parecem apoiar Michel Temer. 

Os preços do mercado financeiro tomaram um tombo no dia seguinte ao escândalo de todas as fitas do presidente, mas deram uma levantadinha e até se equilibram. O povo das finanças acredita que há chance razoável de que tudo pode mudar para continuar na mesma. 

Vão tarde os dedos agitados das mãos de Temer, ficam os anéis das "reformas", essa é a esperança. Não há risco de luto pelo presidente. Nem mesmo as associações empresariais mais políticas, em todos os sentidos da palavra, defenderam Temer em manifestos públicos. 

Importa preservar o plano econômico, não importa o gato, desde que cace ratos e não provoque novos escândalos tumultuários. 

Isto é, na hipótese ainda verde-dólar e rósea da média do "mercado", Temer pode cair nos dias em torno do 6 de junho em que o TSE pode cassar a chama Dilma-Temer 2014. Em seguida, assumiria quase a mesma coalizão política, parlamentar e econômica que tocava o plano de estabilização e de reformas. 

Esses são os traços estilizados do broto de otimismo de gente que negocia dinheiro. Mais importante que palavras, é o que indica a recuperação modesta do preço dos ativos financeiros. É, claro, uma aposta, mas também o desejo de qualquer empresário que se entreviste por aí. 

Há revolta grande e muda contra os efeitos dos rolos de Temer, a possibilidade de recaída na recessão, o que não significa apreço pelo presidente, ao menos na prática, no que diz respeito aos aspectos materiais da situação. Mesmo que se lamente a bananização institucional do país. 

Quase ninguém ficaria incomodado caso o presidente ficasse na cadeira e tudo continuasse como dantes, "reformas" sendo tocadas, o que se reconhece improvável. 

Há sempre receio de que a confusão possa descer às ruas, tomar rumos imprevistos, por exemplo. O quebra-quebra em Brasília não bastou para afetar os preços na praça do mercado, porém. Não há ninguém risonho e franco na praça, convém ressaltar. Mas as várias desordens do país, institucionais ou badernas de rua, não bastaram para o pessoal se desfazer da sua tese de investimento da hora, digamos. 

A Bolsa está no nível mais alto desde o rolo dos grampos de Temer, apesar de ainda em baixa de mais de 6%. Uma taxa de juros de relevante no mercado futuro deu um salto de 1,3 ponto percentual, para 10,09% (taxa para um ano), na quinta (18), uma enormidade algo surtada. Recuou para um tico abaixo de 9,5% nesta quarta (24). 

Ainda ruim, decerto. É um repique de juros que desfaz quase dois meses de trabalho baixista do Banco Central. Mas sinal de que não se vê degringolada adiante, apesar da percepção agora maior de risco de que as coisas vão para o vinagre. 

Se o cenário rosa vai se confirmar, são outros quinhentos dólares. É preciso negociar com cuidado a transição (ou não) de Temer e anistias para seu grupo, mas também a reorganização improvável do bloco reformista. 

Depois das conversas em Brasília, de domingo até ontem, políticos começam a "visitar as bases". Vão conversar mais com o restante da cúpula do país, Justiça, donos de empresa, organizações da sociedade civil ou equivalentes. 

O acordão pacificador mal começou.

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